Conversa
Sábado à Noite – 25/4/1987 – p.
Conversa Sábado à Noite — 25/4/1987 — Sábado [VF050] (Augusto César)
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(Sr. Gonzalo Larraín: …primeiro a prodigalidade dela, e a aptidão que ela tinha para ver a arquitetônia da vida das pessoas. A questão do Czar da Rússia, mas agora numa coorte infinita do Céu. Isto abre uma perspectiva da missão dela para nós, uma clave nova de devoção a ela. Que comentário o senhor poderia fazer para calçar toda esta avenida.)
Eu penso o seguinte – quer dizer, eu penso! — quando eu falei, eu falei de uma corte, de tesouros etc., etc., eu quis propriamente dizer o seguinte: não que ela ocupasse no Céu, um lugar muito extraordinário em relação a outras almas que estão lá, não foi nada disso que quis dizer, mas quis dizer uma outra coisa: é que uma alma que está no Céu, reta, virtuosa, pedindo a Deus, recebe da bondade de Deus tesouros enormes, mas também é verdade — para distribuir aos outros — mas também é verdade que estes tesouros são proporcionados à vontade que a pessoa teve na Terra de fazer o bem. Isto é uma coisa que se compreende.
Agora, como a vontade dela, era uma vontade enorme, torrencial, eu não sei a quem ela não teria feito bem se pudesse, dando bom conselho, dando uma diretriz, uma orientação, um afago, uma esmola, uma coisa qualquer, ajeitando uma situação etc., eu daí deduzo que no Céu, ela deve pedir isto ardentíssimamente e deve ter um poder impetratório muito grande neste sentido. Mas sem querer com isto fazer comparação dela com outras almas que estão no Céu.
É um pouquinho como se eu considerasse o Bem-Aventurado Urbano II, teve um desejo ardente de fazer Cruzada tá, tá, tá; no Céu o poder impetratório dele para todos que conduzem lutas do tipo de cruzadas, é um poder especial. O que ele quis na Terra, no Céu lhe será dado. E como ela quis isto com esta amplitude, depois com esta espécie — não de incondicionalidade — mas de acondicionalidade: a pessoa podia estar animada em relação a ela, com as intenções mais pífias, mas frias, mais indiferentes, mais ingratas o desejo dela fazer o bem era o mesmo.
Depois, o outro lado também, uma tal compaixão, de tal maneira ela sentia em si a dor dos que estavam sofrendo a qualquer título e tinha jeito para dizer uma palavra, para introduzir uma coisa etc. Um jeito tão extraordinário que tudo isto eu considero, a justo título, que lhe seja dado realizar agora que ela está no Céu. Sem dar um passo além disso. Mas que você tem razão, isto é um motivo intenso para nós termos confiança nela, mas termos confiança especial nela; pelo vínculo dela conosco.
Qual é o ponto mais sensível para mim do benefício que ela pode fazer para nós e que eu acredito que ela faz indiscutivelmente se a gente pedir?
Dela eu recebi, naturalmente como filho, toda a espécie de benefício, ao menos os benefícios que [a] impecunuosidade dela, a limitação dos recursos dela, permitia fazer, ela levava até o extremo. Ela era muito prudente, fazer dívida, nunca; fazer… estar com conta atrasada, nunca; mas com o pouco que ela tinha, ela sabia fazer aquilo render para que nos comprouvesse — a minha irmã e a mim — ao último ponto.
Eu me lembro, por exemplo, que não tendo dinheiro para comprar certos brinquedos para nós, ela apesar de doente do fígado, ela passava às vezes até meia-noite — mas notem que meia-noite é muito tarde naquele tempo — até uma hora, não sei bem se até duas horas, ela passava cortando umas figurinhas de dançarinas, de boizinhos, de bichos, coisas assim; que ela em papel crepom, de acordo com modelos, depois ela mesma pintava aquilo. Depois punha uma espécie de pó de mica — não mico — mica, para representarem uma cintura prateada, uma coroa dourada etc., etc., e depois dava para nós brincamos.
Ela ficava até tarde trabalhando nisto sozinha, todo o mundo dormindo — nesta hora não estava rezando — estava trabalhando pelos filhos. Com uma compreensão e tudo, com os brinquedos que levavam a fazer bem para a alma, que eram extraordinários.
Mas isto tudo ia num ponto, é que eu sentia nela um afeto envolvente, penetrante, mas não penetrante no sentido de um dardo, penetrante num sentido de um perfume, de um aroma; penetrante e estável, que nunca tinha a menor diminuição de afeto, conforme o dia, conforme a hora, conforme as circunstâncias, conforme as condições do fígado, nada, não tinha nenhuma diminuição, era sempre o mesmo “meio-dia”. Não tinha alteração nunca, total e amparando-me em todas são condições. Eu podia contar com ela até o fim, até o último. Fizesse eu a ela o que fizesse, ainda eu podia contar com ela até o fim.
Agora, não é fácil imaginar até que ponto isto estabiliza, isto faz bem à alma, isto areja, isto — para usar um verbo que não existe — “desintumora”, quer dizer, cura o tumor, de uma certa solidão da alma de quem nunca encontrou uma coisa assim e para a qual a vida acaba sendo uma coisa anti-axiológica.
Depois, me agradava muito ver como isto não ficava nela, ela dava muito valor a que a gente quisesse bem, mas se não quisesse, a atitude dela era a mesma; de um lado. E de outro lado, ficar com rancor, ficar com um ponto dolorido, absolutamente não, absolutamente não, absolutamente não.
Quer dizer, a confiança que se podia ter era como num eixo do mundo.
Vocês sabem — não preciso dizer a nenhum de vocês — até que ponto é raro encontrar isto. E, portanto, até que ponto isto, desde a primeira infância, você [se] sente carregado nos braços, e já com uma certa penetração de criança, perceber isto, é um benefício que não tem palavras.
E eu creio que se pedir a ela, ela nos faz sentir isso com toda a seriedade, toda solidez. Quer dizer, a gente percebia que a fonte disto não estava nela, estava no Sagrado Coração de Jesus, por meio de Nossa Senhora. E que, portanto, tinha fonte no Absoluto, em Deus mesmo. E era como que apalpar a própria bondade infinita de Deus. Isto era muito, muito benfazejo.
E eu creio que no ponto de partida de grande número de defeitos e de crises espirituais, de coisas que a pessoa possa ter, no fundo há esta sensação de isolamento parcial ou total, mas a verdade é que quando há um, quando numa coisa dessas um estilhaço está quebrado, o conjunto não vale nada. Isto ou é completo ou não é nada.
Isto foi dessas circunstâncias que me levaram a colocá-la desde pequeno, instintivamente acima de todas as pessoas, abaixo de Deus, naturalmente, nos devidos termos abaixo da Igreja, quer dizer, das pessoas que constituem a direção da Igreja, que evidentemente eu colocava no mais alto ponto de minha admiração, confiança. Mas isto tudo era ela que fazia, porque ela soprava para lá, ela não se punha como termo final. A gente percebia bem que tudo isto vinha dela, que era dado por ela — vem de Deus.
Creio que era uma experiência para se fazer, porque toda a alma se abre com uma outra concepção para a vida, e para uma outra idéia do que poderia ser o Reino de Maria. Porque o Reino de Maria, as relações de afeto verdadeiras baseadas no Sagrado Coração de Jesus, no Sapiencial Coração de Maria, etc., são relações de afeto que estão muito mais próximas disso do que podemos imaginar. E que se fazem sentir de um modo ou de outro em todas as articulações da vida, tornando certas situações que nós imaginamos fora desse clima incompreensível para nós entendermos como é que [existiam?] [existirão] no Reino de Maria.
Então, por exemplo, “tal enquanto tal” é uma coisa assim…
(…)
…enfim para todo este gênero de coisas ela teria atendimento, teria compreensões, teria explicações, teria, e depois modos de afabilidades sumamente curativos para aquilo, destinadas àquilo. Com uma outra coisa: Ela não gostava que se caçoasse das pessoas. E quando se caçoava — criança são levadas a caçoar — quando se caçoava das pessoas, a tendência dela era de intervir com compaixão. E dizer: “Não, mas coitado, veja, tem isto, veja, tem aquilo.” E sabia mostrar um lado por onde se compreende que não se caçoava daquela pessoa.
A Fraülein Malthide nos dava uma formação meio Ulla. Aliás, foi bom, e por natureza Rosée e eu, a nossa prima, tínhamos línguas afiadíssima, e os comentários iam na presença dela. Ela ia ouvindo e conversando, como uma mãe faz com seus filhos, ela ia ouvindo e conversando, quando chegava uma caçoada mais pontuda — e eu era dos líderes da ponta — dizia:
— Filhão, não é assim, você também pense tal coisa.
— Mas, mamãe, porque té, té, té.
— Mas olha e tal!
A melodia da voz dela.
(Sr. –: A voz dela tinha muita melodia.)
Muita, muita. Não era melodia para cantar num teatro, não é isto, mas de afabilidade; uma melodia por assim dizer, retórica, mas retórica de uma conversa individual. Uma coisa extraordinária.
Mas tudo isto deve nos propiciar confiança no sermos atendidos. Confiança num outro ponto: Se assim era ela, como será Nossa Senhora? Se nós tivéssemos conhecido Nossa Senhora… mas a perder de vista, nem sabermos o que, evidente.
Aí que “Salve Regina”, “Lembrai-Vos”, etc., etc., tomam todo seu valor, todo seu sabor, toda sua força de confiança, tomam aí!
Não sei se meu comentário corresponde à sua pergunta, meu filho?
(Sr. Gonzalo Larraín: O senhor ia dizendo uma coisa que ficou.)
(Sr. João Clá: Toda a vinculação da hierarquia devia ser vista assim no Reino de Maria, a questão da barbárie…)
Você imagine o seguinte: Havia — se isto era possível hoje — cada senhor feudal mais elevado tinham uns tantos senhores feudais de categorias menos elevada que eram vassalos dele, ele era o suserano daqueles. Depois, [ele] por sua vez era vassalo de outro que eram suseranos dele, a assim até o Rei. Num ponto, numa extremidade ia-se assim até o plebeu.
Agora, em toda a linha desta hierarquia nobre havia um conselho, formado pelos vassalos, que o suserano podia convocar, e era uma obrigação de lealdade feudal executar, comparecer para uma reunião de conselho em que ele pedisse conselho àqueles. E o conselho não basta comparecer, havia uma obrigação moral, sob pena de pecado — a cláusula pela qual se constituía o feudo e a vassalagem — obrigação de ser honesto e leal ao dar o conselho!
Isto é impensável! Hoje cada um está de tal maneira voltado com inteira exclusividade para seus interesses individuais, que já sabe que o conselho que vai dar é [o] enunciado de tudo que convém a ele que [o] outro faça.
É muito bonito. Depois o rei com os grandes vassalos também. Os grandes senhores do reino. Convocados eram obrigados a comparecer.
(Sr. Gonzalo Larraín: A honestidade no conselho.)
Obrigado em consciência, gente que tinha Fé.
Bem, que relação tem com a barbárie?
Eles eram todos meio bárbaros, eles faziam às vezes violações brutais disto, mas não era por hábito, por vício, por temperamento, eram erupções, à maneira dessa senhora de que falei; muito fina, era quem era, mas de vez em quando tem uma barbárie, eu dei mais de um exemplo. É uma coisa diferente!
Isto exprime bem essa situação.
Eu não acredito…
(…)
…uma fera; e depois, meu filho, procurando pular por cima de outros prazeres ou das ganâncias ou de outras coisas, um pouco para abafar o som dessa axiologia quebrada.
(…)
…sociedade medieval, você compreende o “tal enquanto tal”. E o conjunto de todo ambiente da Idade Média, o que faz o contrapeso, daquelas ameias, daquelas barbacãs, daquelas torres de menagem, daquilo tudo, é o ali dentro levar essa vida. Isto forma uma integridade, que a gente custa a ter idéia.
Daí também uma melhor compreensão depois do que é o rei. Do que é o senhor feudal, etc., etc. Mas uma espécie de cascata!
(…)
…até posso repetir. Quem não conheceu toda estas coisas assim ao fundo, não compreende o que pode ter sido o pleno atendimento das necessidades da alma numa sociedade católica. Então tem — eu estou me estendendo um pouquinho demais — tem aquela famosa frase de Santo Agostinho, que eu gosto tanto de citar: Tomem um rei católico, súditos católicos… Está bom, aquilo é muito bom; são todos católicos, cumprem as leis… Não é só isto. [É:] “em que atmosfera cumprem as leis.” Não é em atmosfera de cárcere: o cárcere todo o mundo cumpre a lei, porque apanha se não cumprir, mas não é essa atmosfera. É esta forma de induzimento de um afeto em tudo, que esta gente aí não compreende…
(…)
…medieval, atmosfera como era, ou nós não temos idéia, aquilo tudo se evapora completamente para nós.
(Sr. Gonzalo Larraín: Se o [se?][sr.] perdoa a pergunta: Que na Idade Média não era bem exatamente assim como o senhor descreve.)
Eu preciso ver um pouco a hora. São cinco para três?
(Sr. –: Dez para três.)
Bom, vamos lá.
(Sr. Gonzalo Larraín: Havia na Idade Média coisas do gênero que o senhor fala quando a graça visitava muito, mas não sei se o cotidiano da vida era assim. Mas o senhor vê as coisas assim, porque o senhor vê a Sra. Da. Lucilia.)
Sim, é claro, não foi; seu eu fosse estudar um tratado desses de Idade Média, não veria nada assim. Foi.
(Sr. Gonzalo Larraín: Em matéria de modo de ser da alma dela, aquilo tudo chegou num ponto terminal. Uma conjugação de harmonias, que não sei se a Idade Média tinha isto assim. A aristocracia chega a seu ponto quando ela chega neste ideal.)
Concordo.
(Sr. Gonzalo Larraín: Me lembro que o Sr. Nelson Fragelli aqui numa reunião disse que quando conheceu a Sra. Da. Lucilia pensou: “Nobreza brasileira é isto!” Era exatamente a impressão que nós ficamos; ao mesmo tempo ela tinha força de personalidade.)
Ah, tinha. Não tem conversa.
Sobre isto eu gostaria de dizer a você o seguinte: Eu aprendi em pequeno, no Catecismo, que se uma pessoa, por exemplo, está num nível bom de vida espiritual e comete de repente um pecado mortal, ela, se morrer naquele estado de pecado, ela vai para o Inferno. Mas se ela [se] arrepende, ela normalmente volta para o estado em que ela estava antes; inclusive recupera os méritos.
Assim, pode haver, suponho eu — não tenho certeza, veja vem o categórico da palavra “suponho” — suponho que se dê também de outro lado, quer dizer, uma alma que pode estar habitualmente num alto nível desse amor de Deus, mas, por barbárie, [comete] algumas coisas graves. Quando ela se arrepende, ela volta àquele primeiro nível. De maneira que quem convive com essa pessoa, habitualmente tem a convivência com aquele nível, e não com as situações de exceção. E isto explica uma coisa que sem isto não teria nenhuma explicação: é a veneração pelo pai e pela mãe que havia na Idade Média e que se conservou pela Revolução Francesa adentro, em algum sentido até o século passado.
Se não houvesse alguma coisa do que eu estou dizendo muito difundido, essa noção também da união entre irmãos, não se poderia ter conservado como conservou.
Eu conheci ainda em nosso século… em minha vida eu conheci esta situação…
(…)
…isto prova que apesar do que você disse, que realmente se toma em consideração, havia uma coisa muito espalhada, muito difundida.
Agora, o que você pode se perguntar, e aí eu acho que haveria o que ver, é o seguinte: Se poderia conservar…
(…)
…voilà l’affaire!
“Há momento minha Mãe…”
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