Conversa
de Sábado à noite ─ 18/4/87 .
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Conversa de Sábado à noite ─ 18/4/87
A dadivosidade maternal da Senhora Dona Lucilia arruinaria qualquer tzar ou Rockfeller, se a ela fosse dado ter estas fortunas * Um caso de infortúnio culposo, paradigmaticamente dramático, que a Senhora Dona Lucilia gostava de contar * Um reflexo da bondade da Senhora Dona Lucilia encontra-se no relacionamento dela com o Dr. Bier * Recomendando uma princesa russa a consultar outro médico a fim de obter um diagnóstico mais esperançoso
* Considerações sobre a Extrema-unção; não se deve deixar escapar a possibilidade de recebê-la
…hoje uma coisa que me deixou impressionado, eu não sabia, vocês sabiam que a extrema-unção-confere à pessoa, restaura a graça da inocência batismal?
(Sr. G. Larraín: O sr. João acaba de nos contar no jantar em cima, não sabíamos).
(Sr. G.: Uma espécie de novo batismo.)
É. Você faça a idéia como eu perdi ocasiões, por exemplo, quando eu fui operado desse pé, quando fui operado desse braço; porque hoje a Igreja dá a extrema-unção antes das operações. O que aliás eu acho uma coisa muito boa.
Você, você fez operação de rins, creio que mais de uma.
(Sr. –: Mas aqui no Brasil.)
(Sr. –: No Brasil.)
Poderia ter tido duas vezes a extrema-unção. Não é uma só na vida, apresentando-se perigo de morte, mas não precisa ser um perigo eminente, basta uma operação. Mas ter possibilidade de restauração do Batismo, é uma coisa!
(Sr. G.: Depois de receber, entrar numa espécie de camáldula não ver mais ninguém a não ser o Sr., para não perder.)
Olhe que valeria a pena, ouviu, valeria a pena. Uma coisa tal, mas tal! Pensar isto! Eu me lembro que quando eu estive para fazer a operação, eu estive na dúvida se pedia extrema-unção ou não, mas achei que tudo tem que que ser ponderado na vida e que não era o caso, não se podia abusar do sacramento, porque essa operação - eu ignorava a extensão do mal, eles não me tinham apresentado - aliás parece que foi quando foram fazer a operação é que viram que o mal estava muito maior do que podia imaginar. Depois eu não sabia que conferia esta vantagem, se eu soubesse eu pedia a extrema-unção imediatamente, não tem conversa!
(Sr. G.: São alguns teólogos que dizem?)
(Sr. J. Clá: Não, doutrina da igreja, está no Denzinger.)
É proposição condenada negar isto. Agora, quantos tesouros desses tem a Igreja e que nós ignoramos? Que ficam assim!
(Sr. J. Clá: Isto que a água benta apaga os pecados veniais, eu não sabia.)
Isto eu sabia. Uma coisa curiosa o seguinte: Água benta apaga os pecados veniais, então uma simples água benta você apaga o pecado, quando pode pagar no Purgatório pelo mesmo pecado? E como é bom este uso de água benta que a gente faz na TFP. Por que eu acho que mais ou menos todo membro da TFP tem no bolso. É muito bom e muito exorcistico, o demônio tem pavor da água benta. Aliás é uma expressão popular: “Ele fugiu como o demônio da água benta”. Quer dizer, ele tocou o barco”!
* A comunhão espiritual pode ser feita cada vez que a pessoa formule o desejo de receber Nosso Senhor Eucarístico
(Sr. J. Clá: Outra coisa é a Comunhão Espiritual que tem o mesmo efeito da Comunhão Sacramental; uma é [ex operantum, outra ex operatur?].)
É mas a diferença à grande. Agora comunhão espiritual realmente lucra-se cada vez que se tem o desejo, mas se formule, é preciso fazer uma formulação, desejo de que gostaria de naquela hora estar comungando. Eu tenho a impressão que se eu tivesse tempo, eu faria o dia inteiro; porque o ideal é a presença real nunca se apagar da pessoa, isto é o nec plus ultra. E a gente se prepara para isto exatamente por uma série initerrupta de comunhões espirituais.
Vamos dizer, por exemplo, agora, se alguém dissesse: “O sr. Gugelmim esta autorizado para vir aqui e distribuir uma comunhão agora, sem prejuízo da comunhão que pode receber de manhã. Receberíamos com alvorosso, mas quer dizer que todos estamos em condições de fazer a comunhão espiritual que não seja mecânica; aliás mesmo a mecânica, ainda tem valor, porque faz a comunhão espiritual, quer querê-la; e o querer querer já é um elemento para fazê-la.
Assim quanta coisa da doutrina católica, quanta maravilha há que se a gente soubesse seria outra coisa
Bem meus caros, vamos.
* A dadivosidade maternal da Senhora Dona Lucilia arruinaria qualquer tzar ou Rockfeller, se a ela fosse dado ter estas fortunas
(Sr. –: O sr. João estava comentando no jantar e no almoço de hoje que o senhor comentava algo sobre à Senhora Dona Lucilia que tudo aquilo que nós pedíssemos a ela, ela nos daria prontamente. Isto foi uma ocasião de graças lá no jantar; porque estamos entrando em dificuldades, depois os coméntarios que o senhor fez da cerimônia de hoje, a gente vê que a intercessão dela se põe com uma urgência, uma necessidade. Estamos nos aproximando da terça-feira e da quarta-feira. Se o senhor pudesse explicar um pouco porque que o senhor acha que qualquer pedido que se faça a ela, a Senhora Dona Lucilia nos dará?
Eu nunca tratei desse aspecto da alma dela, da vida espiritual dela etc. Nunca tratei porque não se apresentou o caso etc. Mas assim como ela tinha, o porque ela tinha este feitio de mãe propensa a ter mil filhos, quer dizer, um amor materno propenso a englobar um número indefinido de pessoas, e sendo uma pessoa que estivesse orientada, mas vagamente orientada para o bem, e na idade de filho ou de neto dela, ela tinha imediatamente essa tendencia em relação a pessoa, isto era um aspecto de um círculo menor, de um círculo maior que era a extrema dadivosidade dela.
A gente tem a impressção de que se ela tivesse todos os bens de um Rockffeller, ou de um Tzar da Rússia; se a gente a deixasse fazer, ela arruinava; pela propensão de dar, depois não é só para dar aos necessitados.
(Sr. J. Clá: Era uma necessidade dela dar. Os biscoitos que Dr. Al trazia a ela, seriam gastos numa semana, entretanto todos os dias do chá, ela oferecia os biscoitos.)
Mas isto era de tal maneira dela que eu volto a dizer: ela arruinaria um Tzar, arruinaria o Rockfeller, arruinaria qualquer um. Porque não era o seguinte só: Ela vê uma pessoa com necessidade e socorre, enfim não caracteriza tanto o feitio moral de uma pessoa, desde que seja uma pessoa boa, etc. Vendo alguém necessitado ela socorre. Mas é uma coisa diferente, é de dar pela alegria de ver a pessoa receber o conveniente que toca no supérfluo, e o próprio supérfluo portanto, desde não seja o supérfluo estúpido, um supérfluo que não tem sentido, vontade de dar, etc. Mas pela seguinte finalidade assim sensível, é de dar e ver a pessoa alegrar-se. O gáudio dela era ver a pessoa alegrar-se e ver depois como aquilo calhava bem, como ficava bem para a pessoa, como a pessoa tinha ficado bem atendida com aquilo; mas tivesse ou não tivesse relação com ela.
Vamos dizer, por exemplo, se ela soubesse que existe na Groelândia uma ricaça da Groelândia - eu não sei o que possa ser uma ricaça da Groelândia - e que ela soubesse que essa ricaça ficaria muito contente se pudesse mostrar a amigas orquídeas do Brasil, e que ela tivesse jeito de fazer chegar essas orquídeas à ricaça, sem retribuição de nada, fazer comércio uma possibilidade que não pasava pela cabeça, não compreendia, nem passar pela cabeça. Mas então a senhora depois escrevesse para ela uma carta contando como ficou alegre. Ela ficaria muito contente, mostrava essa carta para uma porção de pessoas, comentava, etc., etc, porque aquela mulher ficou alegre, porque ela deu aquilo. Portanto também a tendência a beneficiar e dar do dela para quem tinha muito mais do que ela; sem que passasse pela cabeça a idéia:
─ Isto eu guardo para mim, ela já tem.
Não passava pela cabeça. Vai fazê-la ficar alegre, tome.
Isto numa tendência com uma tal abertura…
E a bondade dela reluzia com uma forma peculiar de alegria, porque ela não era uma pessoa assim espalhafadosa, mas tão intensa, tão ensolarada que a mim me fazia bem. É imcompreensível, mas qualquer um faz bem olhar isto, enfim a mim me fazia bem. Porque me descansava do que já encharcava minha geração - como vovês podem imaginar - que é a alegria egoística, alegria de receber.
Ela tinha alegria de receber ou não? Tinha. Era bem menor do que a alegria de dar, bem menor. A alegria de receber era muito mais a manifestação de afeto que ela recebia de quem deu, do que da coisa. O que também não é de hoje em dia. Hoje em dia: deu aquilo para mim, eu agarrei, é um objeto que agora eu sou dono.
* Na hora de contar histórias, a Senhora Dona Lucilia sabia pôr em realce a qualidade de outros filhos que não os dela
Eu me lembro, por exemplo, eu era pequeno, mas sabe que criança reflete mais sobre as coisas do que parece, marca mais etc. Eu via quando ela estava com a minha irmã, eu, e depois sobrinhos, por exemplo, na cena dela contando histórias, eu já contei aqui:
Dumas, Alexandre Dumas depurado naturalmente, e outras coisas do gênero. Um Sobrinho qualquer ou uma sobrinha fazia uma pergunta, se esta pergunta aos olhos dela revelava mais inteligência, ou um feitio de espírito mais interessante, ou revelava por exemplo, sobretudo, aí muito principalmente, boa alma, a alegria dela era tal que era de se perguntar se seria maior se fosse com o filho? Ela ficava contente alegre, depois que ela acabava de contar a história, ela ia para a sala de jantar, naquelas casas antigas era meio living, eram salas enormes, uma parte era living ela ia para a sala de jantar e contava para todo o mundo:
─ Sabem a última graça? fulano contou isto, contou aquilo etc. etc.
Todos davam rizadas. Era filha de uma outra.
Por exemplo, um cálculo que ela não faria é o seguinte: Se ela elogia meus filhos, eu vou elogiar os filhos dela; se ela não elogia eu não elogio. Absolutamente. Por quê? Porque esses cálculos mesquinhos, essas coisas assim, havia quase uma incapacidade dela fazer, não iria!
Vamos dizer, uma boa senhora comum ─ hoje não garanto nada ─ mas de 20 anos atrás, não cometia um infanticídio, quer dizer é uma coisa que não ia acontecer, podia excluir porque não ia acontecer. Ela não teria um movimentozinho de alma nessa direção, nenhum movimento. Até eu notei, creio que já contei aqui, ela era mais cauta em elogiar os filhos dela do que os outros. E levando a delicadeza de alma até esse ponto.
─ Bem, se eu, se meus filhos têm isto, eu conto, os outros podem ficar amarfanhados com inveja etc… Se eu não contar, eles tendo qualidade aparece, e eu não preciso estar falando.
* A boa construção das psicologias e o securitarismo das situações no tempo do Sr. Dr. Plinio era tão grande que favorecia a ilusão da possibilidade de uma felicidade terrena
Agora isto tudo, aqui está a questão, eu creio que vocês não calculam a que ponto era diferente do mundo já meu, já meu mundo era! hoje é uma espécie de blasfémia contínua contra tudo isto, então nem se fala; rapazinhos, mocinhas que a gente vê pela rua, nem entra em linha de conta, mas do meu tempo era talvez de um egoísmo mais feroz. Porque tinha esse lado: Eles eram muito mais bem construídos psiquicamente, não digo moralmente, mas psiquicamente, por isto sofriam muito menos e eram muito mais vítimas da ilusão de que é construível uma felicidade terrena agrupando coisas em torno de si e gozando. Todo estilo da vida favorecia isto.
Começa por aí, por exemplo: Situações securitárias as havia no meu tempo em quantidade e qualidade que vocês não imaginam, vocês não fazem idéia do que era a solidez de um proprietário, de qualquer coisa, assim exceto uma indústria e um comércio, que eram reputados por todo o mundo como coisas arriscadas - indústria e comércio - mas ter uma propriedade era uma coisa do outro mundo, segura, porque o sujeito era rei de sua propriedade, mandava, não tinha fiscal de não sei o que, não tinha leis de não sei o que, inflação não tinha - mas ao pé da letra não tinha inflação, a moeda era estavél como um paralítico - não se ouvia falar de inflação, começou a falar de inflação pelo Getúlio.
Quer dizer o seguinte: Havia ao longo dos decênios uma inflação, mas era minúscula, e essa eu creio que veio com a República, porque no tempo do Império vocês devem saber que havia ágio para quem aceitasse o pagamento em [papel].
Era assim: se eu quisesse pagar você em ouro, aquele “em ouro”, e um de vocês quisesse tirar de mim um pouco de dinheiro, me… como era o negócio?
Eu tendo dinheiro papel e ouro para pagar vocÊs, aquele que recebesse em papel, estava disposto a me pagar um pouco mais. Porque o papel era mais fácil de transportar quantias grandes, pesava menos, então havia nos bancos e por toda a parte, um pequeno ágio a favor do papel. Bom, isto é a não inflação, o delírio da não inflação.
Isto tudo formava a ilusão de que, por exemplo, você vivendo até os 55 anos, 60 anos, você fazendo dinheiro, você tinha uma rocha sobre a qual tinha se estabilizado como uma torre em cima cima de um rochedo, assim era a fortuna.
(Sr. G.: A eternidade estava garantida.)
* É preciso tomar em consideração que a Senhora Dona Lucilia pertence agora à corte mais “perdularia” que há no universo
É isto, e em morte não se pensava. A morte tinha sempre o carácter de uma surpresa, quando morria alguém: Ohhhhh! como?! morreu? ─ podia estar velho como a Sé de Braga.
Então o pessoal era muito pior, mas no tempo em que ela era moça, os srs. podem fazer idéia, é o inimaginavel: Pois nesta atmosfera a abertura de alma dela era essa. Agora faça idéia se arruinaria o Tzar, faça idéia dela junto de Deus - se Deus não fosse infinito! - para resistir a corte mais perdularia que houve um todos os tempos, que é a corte celeste! Que vivem todos de dar! Tem que ser uma concessão sem nome! Dar a fundo perdido! Qualquer coisa!
E então se um de nós pede uma coisa, uma graça a ela no Céu, e sabendo quanto ela se alegra certamente no céu de dar isto na terra, vocês podem imaginar com que solicitude ela pede.
Para terminar essa exposição desse aspecto dela - eu não quero que essa fita circule porque eu não quero nunca dar a impressão de que eu estou fazendo propaganda dela, nessa reunião aqui tão íntima, tão especial etc. etc., que eu tenho me aberto tanto, à vista da festa dela que se aproxima etc. etc., a pedido do Guerreiro em nome de vocês etc, eu atendo sem impedimentos, mas para falar assim - eu ia dizer uma coisa e me escapou?
(Sr. –: No céu)
Não.
Ahh! Uma particularidade dela.
Ela não tinha uma vista assim: Por exemplo eu estou sentado em frente ao Poli, como se me fosse dado esquecer dos outros que estão no sala e ter em vista só o Poli. Mas o Poli nesse momento, que está sentado nessa cadeira tomando apontamentos, mais nada. Assim muitas vezes se considera o ato de caridade: Fulano encontrou um mendigo na rua então dá um dinheiro para o mendigo. Então o mendigo vai embora, o ato de esmola cessou, o negócio acabou.
Ela não.
Ela tinha muito a idéia da vida humana, ela acompanhava a vida das pessoas como se fossem películas, quer dizer, histórias e muito a idéia da arquitetura de cada biografia e de um certo sentido que se desprendia ─ não só o fato, quando o fato tinha um sentido especial, é claro, às vezes eram fatos muito pequenos ─ aquilo tinha para ela um perfume próprio.
Mas depois a vida do sujeito, da pessoa, como foi, se subiu, se desceu, se progrediu, se ficou bom, se depois ficou ruim, se teve castigos, se não veio o que. Tudo isto fazia muito parte do modo dela observar a vida.
Ela não era uma observadora da vida dos povos, nem os [povos] como tais estavam muito na visão dela, tinha algo, mas não era muito, mas ela era muito observadora da vida dos indivíduos, é o horizonte próprio de senhora, mais restrito, mas era…
———
Um de vocês quer me abrir aquele vidro.
(Sr. –: por nós não precisa.)
Não, está um pouco quente, e graças a Nossa Senhora, e a injeção encontrada por vocês no Chile:
(Sr. G. Larraín: No Chile?)
É no Chile, uma injeção alemã, que eles encontraram lá quando foram conversar com o Carlos Antunes. Abrir o vidro e o voile também, deixa aberto para entrar um pouco… Assim está bem, não se incomode mais do que isto. Otimo.
———
(Sr. G. Larraín: É muito bonito ver isto, o senhor tem tudo isto de modo superlativo, isto de ver a história das pessoas.)
Só agora é que estou me dando conta de que sua observação é verdadeira, eu tenho muito isto, mas nunca me dei conta disso. Eu tenho como quem pisca e respira. Se não é hereditário, é comunicado, ela foi minha formadora, minha mãe e tudo mais, me passou muita coisa.
Mas então: Ela tinha muito senso das coisas, em geral era isto: O senso da vida, algo que caminha para uma ascensão e que em certo momento tem uma prova e segundo essa prova sobe, ela ficava então muito contente em poder contar. Ou cai. Mas o cair ela gostava muito de chamar atenção. Acontece para os que etc. etc. Não apenas para formar ─ mas não é isto. É contemplativamente para ver a ordem das coisas e Deus servido na ordem das coisas. Então ela tinha muito isto.
* Um caso de infortúnio culposo, paradigmaticamente dramático, que a Senhora Dona Lucilia gostava de contar
Vamos dizer por exemplo um caso: Eu já contei para vocÊs do caso de (…) …tem descendentes por aí não convém espalhar.
Mas enfim, muito atraente. Depois ele tinha dinheiro, era um homem rico, então vestia-se muito bem, com muita escolha e tal, e se casou com uma tal tia X ─ não quero dizer o nome, não interessa a vocês ─ que era de uma boa família, mas sobretudo muito rica; casados, começaram a ter filhos, filhos em quantidade, naquele tempo era irremediável, era quantos Deus quisesse mandar ─ nem a famosa e abjeta operação das trompas existia ainda ─ a senhora tocando a vida comum. Ms ele se meteu de repente em más companhias que era quase inevitável para um homem assim. Começou a gastar dinheiro, e gastou; todo o mundo de São Paulo dizia a ela ─ pelo menos das relações deles é certo, ficou sabendo que ele gastava dinheiro a rodo, vendia imóveis para gastar com mulheres públicas, sobretudo no jogo. O grande fascínio daquele tempo era a roleta, é o tempo em que Monte Carlo estava começando a inspirar o mundo.
Então roleta e tal e coisa. A mulher via isto e ficava muito penalizada, muito aborrecida. Mas não tinha outro jeito senão aguentar com passividade suave e sublime das senhoras fiéis daquele tempo.
Ele mesmo quando ia em casa de minha mãe, contava os fatos, meio como proeza, contava fatos dessa natureza: Tinha tido uma fassura aí, que era aniversário dela ─ a fassura dele ─ e então disse a ele que queria um presente magnífico, com todo esplendor. Em geral essas mulheres fassuras eram estrangeiras e habituadas portanto a um luxo, em geral francesas, habituadas a um luxo que São Paulo não tinha naquele tempo.
(Sr. –: Incrível)
É peso do café, fazendeiro aquele pessoal. Qualquer pessoa daquele tempo que se conte eram fazendeiraços.
Bem, ela disse que queria um presente magnífico, ele comprou então um serviço desse para por sobre a mesa de toilette. Eu não sei se vocês sabem o que que é mesa de toilette? Antes de tudo bacia e [jarera?], antes de tudo, era peça de resistência, depois caixas para pôr pó de arroz, para guardar alfinetes, para guardar tudo que uma senhora precisa para toilette, tem umas caixas bonitas para pôr ali.
(Sr. NF: Eram usasdas a bacia e a jarra?)
Sim, porque isto era do tempo onde recentemente havia [ou] acabava de haver água encanada, acabava de entrar água encanada.
(Sr. –: Começo de século?)
Não, isto aí devia ser assim, pouco antes da República, bem antigo.
Ele comprou um daquele negócio de cristal e com tampa de prata, ele levou a mulher, ele mandou a loja entregar a mulher. Estava certo que quando chegasse em casa da mulher, a mulher julgava aquilo [embraler?] ser recebido como quem tivesse dado um tesouro. E encontrou caixa, caixa aberta, dizia ele que uma caixa muito bonita, todos estes objetos cada um desses objetos vinham embrulhados nem papel próprio. Tudo ali, exceto um objeto.
Ele disse: Ah, então felicidades! Que é isto você não gostou do presente? - porque a fassura é assi, direto - Não gostou do presente tão bonito que eu mandei para você? ─- Presente ! Aquilo é uma porcaria, olha aqui o que fiz de um desses objetos. Pegou e mostrou. Ela pegou o objeto e jogou no chão e quebrou. Eu não sou pessoa a quem se dê objeto de cristal! Para mim é pelo menos de prata! Essa tampinha de prata, não tem nada que fazer com isto!
E não era hábito em São Paulo. Uma coisa assim de cristal já fazia uma boa vista; tampa de prata, monograma escrito tudo mais. ─ Eu exijo de você, que você amanhã me traga o objeto em prata, esse serviço, mas em prata.
Diz ele que não podendo e já tendo privações em casa, foi e comprou o objeto.
(Sr. –: Ele contava isto tudo?)
Contava em toda a roda da família.
(Sr. –: Entre os homens?)
Não, não, também diante das mulheres, não empregava palavras obscenas, mas soltava o caso como eu estou contando. E fazia parte do “D. Juanismo” dele.
Então ele contou que pegou os objetos.
Ela:
─ Leva isto embora. Ele foi à loja e disse:
─ Olha não ponha nesta caixa, porque a caixa tinha uns côncavos para colocar estas coisas, ponha noutra caixa, disfarce isto e mande para este outro endereço que vou dar a vocês - pôs o endereço da esposa. E quando ele chegou em casa para jantar. Porque aquilo fiou sobrando para ele. Ele chegou para jantar e a mulher veio de encontro a ele correndo:
─ Mas você me dá um presente desse, as nossas condições não comportam…
(Sr. –: Fato impressionante)
Impressionante!
Então:
─ Eu agradeço muito, beijou os dois lados do rosto. Disse: Venha ver nossa mesa de toilette como está isto bonito, está tudo muito bem arranjado etc. Mais uma vez não faça estes gastos comigo, porque tá, tá, tá. Ela não tinha percebido como era o negócio!
Ele contava. Porque quando ele contou, as senhoras todas que estavam lá:
─ Mas que horror! Como é que você faz isto! ─ Um pouco literariamente. Sabe-se os princípios daquele pessoal já naquele tempo: princípios bons, mas todos moles. Ele disse:
─ Olhe quer que diga uma coisa? Eu tive uma vergonha de mim, que eu nem sei o que dizer!
Mas a coisa foi para frente. Essa débacle continuo porque ele contininuou a jogar. Em certo momento, ele teve que vender a casa que ele tinha porque ele tinha gasto tudo e para pagar as dívidas, teve que vender a moradia. Só restava para ele um mundo de dívida a pagar, e uma fazenda que ele tina no interior. É tão irritante o fato! Então ele foi com a mulher e os filhos para o interior, para administrar a fazenda, fazer render mais e pagar as dívidas. Passaram parece que dez anos um acoisa assim na fazenda.
E realmente até trabalhou, era um ninho de rato do interior, não tinha roleta, não jogava, e os dois se reconciliaram, ele prontamente se reconciliou perdoou e coisa e tal, e ajudava a fazer economias na casa, etc. e tal.
Ao cabo de - não posso garantir o número de anos - digamos 10 anos, ele disse a ela: Fulana, já nos fizemos todas as economias necessárias para eu ir a São Paulo pagar as dívidas; aí levanta-se a perpectiva de mais economias e comprarmos casas em São Paulo e nos estabelecermos de novo.
Em geral no tempo do trem todo fazendeiro passava uma parte do ano na fazenda, no plantio etc. etc. e parte para São Paulo, e aí tinha casa boa em São Paulo, as casas de fazenda eram boas também.
Ela combinou com ele, então tá, tá, tá. Ele partiu de manhã bem cedo para a cidade, ela acompanhou, fez a mala para ele e coisa e tal; ele deveria tomar o trem para São Paulo no dia seguinte. Ela contente por pagar as dívidas.
Na manhã seguinte, quando ela não esperava, ele já devia ter tomado o trem; umas horas depois ele aparece a cavalo, desfeito, abatido - como vocês podem imaginar, estão vendo a historia - havia pelo interior - ela contava assim - até que ponto isto era assim? Ou é “tripingança” ou eu não sei! Devia ser uma coisa de “tripingança”, que ela só pegou isto: Uma espécie de organização, percebia, ou estava informada quando fazendeiros partiam para fazer pagamentos em São Paulo; porque em geral induziam os fazendeiros a uma jogatina na cidade onde pousavam antes de embarcar.
Ele então tinha jogado todo o dinheiro que tinha acumulado! Quer dizer, dava vontade do sujeito não aparecer mais em casa. Chegando ela disse:
─ Fulano por que você não foi para São Paulo? Ele diz:
─ Você esta vendo! à noite organizaram uma roda, de manhã eu já não tinha nada!
A coisa, eu resumo. Ela ─ na casa dos lados tinha um renque de árvores, um caminho ─ ela saiu correndo por este renque de árvores falando alto: Tinha ficado louca! não é para menos!
Depois naquele tempo a indissolubilidade conjugal extrita. Você faça idéia: amarrado a um tipo desse, uma mulher dessa, uma situação horrorosa.
Aí tratar de recompor etc. etc. A casa que ele vendeu, vendeu para meu avô; meu avô disse a ele. Ele disse a meu avô:
─ Olha vendo a você por tanto com todos os móveis.
Era uma casa que ocupava na Rua Couto Magalhães antes. Era uma boa casa, eu conheci essa casa, porque minha avó alugava e eu às vezes era obrigado a ver alguma coisa lá, que caiu, que não sei o quê.
Então meu avô disse:
Mas olha, essa casa eu não psso dar por ela o dinheiro que ela vale, você portanto está querendo jogar fora sua casa, isto eu não posso aceitar. Ele disse:
─ Você me faz um favor, porque eu preciso já, para evitar protestos, evitar essas coisas, portanto tem que ser já. Eu não consigo vender para ninguém em São Paulo.
─ Está bem, eu compro, e comprou todos os móveis, com todas as coisas. Ela portanto vindo a São Paulo, ia visitar minha avó nos móveis dela… [Vira a fita].
A venda da casa foi antes de ir para a fazenda, ou depois do fracasso da fazenda; tiveram que entregar a fazenda, já tinham entregue a casa. Aquele jarro lá era da casa do tio Basílio.
(Sr. –: É belissimo.)
Muito bonito!
Depois vem assim flutuando com os objetos da família pelos tempos a fora está acabado. Ela ficou louca, ele aqui arranjou um empreguinho, e vegetava com a mulher e com os filhos; mas acontece que deu um câncer na língua dele. Cortaram um pedaço da língua, mas disse mamãe que ele tinha uma tal arte de conversar que com a língua incompleta ainda ele ainda era um coseur, mas a questão é que no pedaço da lingua que ficou, com o tempo atacou a larige, é a historia de todos os cânceres, depois com a medicina incompleta daquele tempo, etc. atingiu e ele morreu.
Essa senhora ficou com a filharada, mas de vez enquando louca, e de vez enquando tinha que ir para o hospício e passava no hospício de loucos certo período, depois os médicos informavam que ela estava melhor, mandavam buscá-la. Ela passava um tempo etc. etc, quando sentia que estava piorando ela avisava, dizia:
─ Olha estou percebendo que a loucura esta voltando, é melhor vocês me levarem, antes de ter que me levar à força.
(Sr. –: Mulher extraordinaria essa.)
Mamãe venerava essa tia, era tia afim, mas venerava!
Era horrível porque naquele tempo as senhoras não usavam cabelo cortado, e entrando no hospício, a primeira coisa é cortar todos os cabelos, de maneira que ela quando saía do hospício, ela facava sem contato com ninguém, ninguém de fora da família, até crescer o cabelo, só depois que ela aparecia; e antes de ir ao hospício ela mandava cortar o cabelo dela em casa. É um drama, todo um drama.
Mas precisavam ver como ela contava isto, paricipando do drama, e vendo a arquitetura dos fatos, o jogo da vida, depois a ação da Providência caindo em cima e esmagando.
(Sr. NF: É impressionante e tem uma beleza nisto).
Tem. Inegavelmente tem. Uma seriedade. Todo o caso é muito sério. E ela contava tomando muito a sério tudo, depois o tio dela, como tinha andado mal, etc. etc. ela contava tudo dramaticamente, a gente vivia o caso quando ela contava. Mas isto eu conto para lembrar, como ela tinha a idéia da arquitetura das biografias. E todas as biografias, todas as coisas, como eram assim.
* Um segundo caso contado pela Senhora Dona Lucilia: A infelicidade de uma esposa que tinha o seu marido infiel
Eu não me contenho de contar um outro caso. (…)
De um alto título nobiliárquico ─ alto?! em São Paulo os titulos nobiliárquicos só chegam até marquês. Duque só houve um no Brasil, Duque de Caxias, mais ninguém. Mas ele tinha um alto título nobiárquico, tinha feito ele próprio sua fortuna, embora fosse de uma boa família de Campinas. Foi o primeiro potentadozinho industrial de São Paulo, mas de boa família tradicional, e isto junto com fazendas de café, ele casando-se ainda mais com uma mulher também ela muito rica, somava-se as fortunas.
Ele ficou a primeira fortuna de São Paulo no tempo dele. Este casal teve vários filhos, mas ele era um marido de uma infidelidade absoluta. E essa senhora, uma senhora feiarona que eu conheci, riquíssima, mas muito infeliz porque naquele tempo não bastava ser rica, era preciso que o marido fosse fiel, e o marido dela não era fiel. Era tragédia grossa.
E a filha muito bonita, casou-se com o filho dos próprios… (…) … homens do império aqui no Brasil, riquissimo também. Também o homem muito bonito, e a filha era de uma beleza clássica. A filha um dia começou a se queixar que era muito infeliz, que sabia que o marido era infiel. E o pai e a mãe fizeram tapiar: “não, não é, não pense, etc. etc”.
A questão é que era mesmo. Então perguntaram para ela ─ eles sabiam que era ─ perguntaram para ela:
─ Mas como é que você sabe? ─ Para poder bombardear as provas. Então a filha disse:
─ Eu vou mostrar para vocês, para os senhores ─ naquele tempo senhor e senhora ─ para os senhores eu vou mostrar.
No ângulo da casa deles tinha um parque enorme - almoçavam os dois casais e o marido saiu - agora vamos depressa para tal sala, uma sala no ângulo e eu abro por detrás dos voiles, eu abro o voile e vamos ver pela veneziana, ele entrar na casa da mulher, da tal… é quase em frente aqui, dá para ver perfeitamente. Daí a pouco aparece ele na rua todo contente, pan, pan, pan, vai a casa e entra. Ela disse: Está vendo, olha como eu sou infeliz!
O homem e a senhora procuraram consolá-la, enfim aguente tá, tá, tá. Diz a mãe: Minha filha, você agora esta começando a sofrer, o que eu por causa desse homem sofri a vida inteira! E a isso, como eu tive que me conformar, e aguentar por causa dele, agora você aguente também porque não há outro remédio. É o que vai acontecer com você. E o que ele esta dizendo aqui é tapeação que comigo já não pegou!
O homem era um homem muito mandão e assim, quietinho, e olhando para a filha. Depois levantou-se e foi embora. Ela não contava o resto da conversa entre mão e a filha qual era. Está acabado, é um episódio.
(Sr. –: Como a Senhora Dona Lucilia entrava na coisa?)
E depois meu filho, não podia deixar de ser que desse nisto.
(Sr. –: Não, digo como ela entrava a fundo.)
A fundo.
(Sr. NF: Por que que hoje o senhor ressaltou esta característica do modo de ser da Senhora Dona Lucilia?)
Porque me ocorreu. Julgo estar atendendo o pedido do Guerreiro. Você é que jogou este jogo é, meu João.
(Sr. Guerreiro: Fui manoelado.)
O que tem - vocês estão vendo à margem se prestaria a temas, conversas, que não vale a pena, porque são tantas, depois ela contou tanto caso assim, tanta coisa assim, não vale a pena estar perdendo tempo. Mas à margem a gente vê o seguinte: No fundo desses casos, começar a despontar o divórcio. Porque formação religiosa séria não tinham, absolutamente, portanto não levavam a sério a religião; uns rosariozinhos, uns livros de piedade muito bonitos, todos revestidos de não sei o quê, de não sei o quê, Emery puro. Como é que esta parreira podia assistir, quer dizer, ao cabo de duas gerações, ou três, isto tinha que estourar.
Agora: O futuro dessa mulher, da senhora que sofreu isto, da filha, você vai ver o caminho do divórcio. Ela ficou casada com este homem até o fim, sempre muito bonita, ela herdou do pai o quinhão que tocava a ela, o marido não pôs fora do dinheiro, não era nem um pouco o tio fulano, talvez até tenha aumentado o dinheiro; tinha três filhos, não me lembro que tinha filhas, acho que não tinham.
Ela se destacava em São Paulo, por ser dessas muito muito alta, uma das poucas que era de uma vida irrepreensível, mas se dando com tudo quando é mulher sem vergonha do mesmo clã social, mas só se dava com esta gente. Ela teve dois filhos comunistas. Um terceiro, meio tarado, meteu um tiro na perna de um primo, tiveram que cortar a perna do primo. O casal deu um terreno enorme para o sobrinho com uma espécie de idenização para ele fazer a vida, sei lá o que, e sumiu. Este aí eu nunca vi em minha vida. O primo eu conheci muito, a ele, eu nunca vi em minha vida, era um pouco mais velho do que eu, nunca vi, é um homem sumido.
Depois os dois outros ficaram comunistas, parece que teve uma filha já bem mais velha do que eu, não me lembro bem que fim tomou.
Uma vez… (…)
… explodiu nos filhos consequência do que aconteceu com o pai, o avô. Aí a historia viva.
* O papel de intercessora para ajustar a arquitetonia que cada um de nós vai fazendo de sua própria vida
(Sr. G. Larraín: Se o sr. pudesse comentar um pouco mais a alegria de dar da Senhora Dona Lucilia.)
Ah! antes eu queria concluir o seguinte, entra na linha de conta: Quem de tal maneira observava a arquitetura das coisas, era muito próprio a observar do Céu a arquitetura do que cada um de nós vai fazendo da própria vida. Uma das coisas que se liga a seu pedido.
(Sr. –: Se pudesse repetir.)
É a alça que prende este tema a seu pedido: Quem de tal maneira notava a arquitetura da vida das pessoas, como é sensivel a que uma pessoa peça a ela para tomar conta da arquitetura da própria vida.
(Sr. –: Magnífico)
(Sr. J. Clá: Comentávamos em cima justamente ou é uma ação dela que tome conta de nós e nos transforme por dentro ou não tem saída.)
Não tem saída, então é uma ação em profundidade e visando - como eu volto a dizer - ajudar o indivíduo a carregar o peso das próprias arquitetonias. Isto é propriamente. (…)
… não me negava isto, é gozo disso, de megalar, de megalar na base de meter um supapo e daí para fora, ou de ter um prêmio universitário, podia entrar também. Tudo alemão! Pois, é, eu fui educado por uma alemã, sabe-se perfeitamente.
… Um pouquinho sem jeito como quem não concorda muito ouviu! Ou como quem concorda demais, é? Estava vivo demais o quadro, mas enfim!
E dentro dessa arquitetura o seguinte noção: A vida ou é uma superior dedicação, ou não é nada. Porque era isto. Dedicar-se a quê? É o problema da arquiterura, mas a vida ou é uma superior dedicação, ou não é nada.
E extamente o que tem é que era o traço distintivo dela e por onde ela era pouco compreendida, porque era choque direto. Pensa um pouco no tio.
(Sr. G. Larraín: Era medieval.)
É isto.
(Sr. G. Larraín: Porque nem no “Ancien Régime”, era algo disso.)
Às vezes algumas pessoas me perguntam: Que que ela tinha de Contra-Revolucionário? Bem, o fato de ser católica, ela era profundamente, esta vendo; ela era monarquista, mas monarquia era uma simpatia etc, não era uma questão chave para ela, era, em todo caso para empregar um termo alemão [aineneybizar?] uma coisa colateral.
Mas eu vejo mais contra-revolução em ter alma assim, do que numa pessoa com idéias socio-políticas muito acertadas etc., etc., mas poços de egoísmo na base dos quais nada de acertado se contrói.
(Sr. G. Larraín: Essa alegria de dar que o senhor falou.)
Alegria também, meu filho, de dedicar-se.
Mas para voltar ao ponto - que você estava parece tratando do que vou dizer agora - intercessão; você compreende como a intercessão para construir a arqutetonia ou a arquitetura da vida como é uma intercessora adequada. Porque formar isto já uma arquitetura. Aqui está a arquitetonia da nossa conversa.
* O Sagrado Coração de Jesus era a fonte de onde jorravam as graças que condicionaram a formação da Senhora Dona Lucilia
(Sr. Poli: O desinteresse dela é uma coisa tal, que a gente não sabe bem como se formou isto nela, talvez seja pela devoção ao Sagrado Coração de Jesus.)
Aí você tocou num ponto fundamental. O Sagrado Coração de Jesus para ela - a muito justo título - era o modelo perfeito disso, mais do que o modelo, era a fonte de onde jorrava para os homens a capacidade de ser assim. Quer dizer: quer ser assim, olhe para o Sagrado Coração de Jesus e contemple.
E se você presta atenção na Igreja, a Igreja do Coração de Jesus, você notara que é propícia a formar na alma dos fiéis um sentimento desse gênero.
Sr. Poli: Muita gente ia àquela Igreja.)
Mas de que jeito, mais ou menos como seria o livrinho de piedade e o rosarinho feito de ametista da senhora de uma beleza perfeita que eu falei a pouco.
(Sr. –: Havia um presuposto nela para receber o Sagrado Coração de Jesus.)
Ah, sim. Meio fruto da devoção também. Pressuposto e fruto.
(Sr. –: Talvez desígnio da Providência a levá-la a alguma coisa.)
* A veneração que a Senhora Dona Lucilia nutria pelo pai dela
Quer ver, por exemplo, história do pai dela. Eu já contei a vocês o entusiasmo que ela tinha pelo pai dela, a veneração, a palavra entusiasmo esta muito pouco adequada, tem qualquer coisa de - não sei - de esportivo, político. O entusiasmo dela pelo pai, ela me contou muitos episódios da vida do pai, eu não sei de um bom negócio que o pai dela tenha feito, olha que o pai dela morreu muito abastado, ele trabalhava muito, isto ela contava muito, mas ela contava que ele trabalhava muito, contava um ato de abnegação que fez em favor dele o Barão de Araraquara. Contava atos de abnegação dele por pessoas que ele tinha relacionamento de negócios etc. etc. E sobretudo atos de proteção dele para com o pobre, era isto. Atos de honestidade moral, mais nada. As tais etapas, seu avô ganhou a causa do fulano e ficou muito rico, isto aquilo, aquilo absolutamente não contava; mas de não tomar em consideração, porque não era a arquitetonia dele, fazia parte, trabalhou muito, deixou a família muito bem, etc. etc. fazia parte, mas não era a arquitetonia dele.
(Sr. G. Larraín: Uma vida extraordinaria.)
Mais ainda, ela contava coisas por onde ele era muito prestigiado, mas era sabia que ele era um advogado muito capaz, ela não contou um caso de uma façanha judiciaria dele, ela contava casos de façanha moral.
Vocês estão compreendendo a distonia dela com o mundo no qual ela se movia. Depois muito sistemática, muito metódica.
(Sr. –: É fruto da inocência?)
Inocência, graça, ela era muito religiosa, rezava muito etc.
(Sr. –: Nobreza de alma.)
Muita nobreza. É isto sim.
Agora, eu não queria que vocês contassem que eu contei isto, aquilo, aquilo outro, porque vai logo dar a impressão, que até hoje não surpreendeu dizer ninguém, que eu uso de uma influência para valorizar a pessoa dela. Vocês devem notar que eu tenho sido discretissimo a este respeito.
(Sr. G. Larraín: É que é a solução para essa situação difícil que passamos, a gente sente a corda no pescoço. Isto que o senhor comentava da cerimônia, o Sr. João contou: quando os eremitas com capuz, o sr. dizia: “desses, quantos vão perserverar” etc.)
É uma coisa impressionante. Passando diante de mim um a um.
(Sr. G. Larraín: Ela está com a mão estendida a nós, mas nós é que não aceitamos etc.)
Agora, sempre um imponderável, sentido nela a alegria de dar. Alegria espontânea escachoante.
* Um reflexo da bondade da Senhora Dona Lucilia encontra-se no relacionamento dela com o Dr. Bier
O Dr. Bier por exemplo ─ eu estou um pouco espansivo demais mas são coisas contidas há muito tempo. O Dr. Bier ─ ela arquitipizava o Dr. Bier ─ mas ele mandou para ela da Alemanha, note que o Dr. Bier era um homem de fama mundial, ele mandou para ela da Alemanha ─ o nome Bier você sabe melhor que todos nós, cerveja, nome portanto um pouco ridículo: Dr. cerveja. Mandou para ela uma fotografia dele já velho, depois da primeira Guerra Mundial.
(Sr. J. Clá: Tem nos guardados dela.)
Não sabia.
(Sr. G. Larraín: Podia nos mostrar o Sr. João.)
Pode mostrar não tem o menor obstáculo em mostrar.
Mas era um velhinho simpático o Dr. Bier, ela não gostava muito da Frau Bier, mas não dizia, eu percebia, que ela não gostava, mas não dizia. Dr. Bier foi muito dedicado a ela, mas foi muito mesmo, uma coisa extraordinária e parecia ter um certo afeto a ela, embora protestante, ele parece que se deixou tocar pela virtude dela etc. etc., tinham muito boas relações.
Durante a guerra as relações todas com o Brasil cortadas ─ Alemanha com Brasil ─ sabem bem que a Alemanha começou a perder a Guerra quando o Brasil entrou!
[risos].
Um peso decisivo para carregar ─ que aliás ela nunca me contou isto assim, nunca ─ mas ela de vez em quando dizia:
─ E o meu Dr. Bier! O que será feito dele? ─ Porque bombardearam Berlim e Dr. Bier morava em Berlim. Depois podiam levar como médico do front e alí podiam bombardear; caía por acaso uma bomba na enfermaria, podia atingir o Dr. Bier. Assim que foi possível estabelecer as relações, ela tinha o endereço do Dr. Bier, escreveu uma carta a ele, perguntando como tinha passado a guerra, Frau Bier, Bierzinhos, e tudo como estava, e se precisava dela para alguma coisa.
E o Bier escreveu a ela dizendo que ele estava completamente surdo porque perto dele tinha estourado uma bomba de canhão, e que tinha furado os dois tímpanos. Para isto não tem aparelho de ouvido. Que apresentava para ele uma vida muito limitada, mas que enfim a saúde estava íntegra etc. etc. E que se ela quisesse ser amavél com ele, que mandasse um pacotinho de café, porque eles lá não tinham café, não estavam importando, mas que entrava por via não comercial, eles não tinham nada. Ela arranjou um saco inteiro de café - uma coisa grande e cara, um saco de café, transporte difícil, ela arranjou um jeito - até chegar o Bier, com uma carta a mais amável possível que seguia por correio aparte.
(Sr. –: Ah, ela mandou comprar?)
E uma saca dá para uma família viver um ano e tanto. E eles não tomam lá tanto quanto nós aqui, eles tomam um pouquinho, mas isto ela calculou, acho que ela achava que todo o mundo tomava café como se toma aqui no Brasil; enfim ela mandou.
Então ele escreveu uma carta agradecendo, depois a correspondencia parou. Na realidade algum tempo depois ela soube que o Bier tinha morrido, então orações pela alma do Bier etc. etc. Coitado do Dr. Bier morreu, etc. e tal.
Mas aí vocês vêem mais uma vez a alegria de dar, a tristeza porque aconteceu uma coisa ruim para o outro. Estas coisas todas, muito presentes, mas enormente presente.
Um fato ─ esse do Dr. Bier ─ menos bonito do que uma pessoa dar uma esmola para um pobre, mas tem um sentido superior, quer dizer, D. Angélico Sândalo Bernardino com certeza não concorda com isto; não é argumento para nada.
(Sr. –: É uma boa prova.)
É, fora de dúvida.
* Recomendando uma princesa russa a consultar outro médico, a fim de obter um diagnóstico mais esperançoso
(Sr. G. Larraín: Depois aquela princesa russa que encontrou em Paris. Era princesa?)
Era princesa. Disse a ela: A senhora que é tão boa, eu vou contar etc. etc. E ela acertou o caso da princesa russa.
(Sr. J. Clá: O Sr. Nelson não conhece o caso.)
Era uma princesa russa ─ precisa ver bem ─ uma princesa russa tem seus degraus, havia os príncipes russos da família imperial, eram riquíssimos, esses não iriam ao hotel onde nós estávamos, porque era uma hotel bem bom, mas não era o hotel da Praça [Vendomme?] que é o hotel para príncipe russo, Ritz, Plazar, isto era hotel para príncipe russo, não era este, mas um hotel bem bom. Rosée depois de casada e já com filhos teve em Paris, eu também estive e procurei o Hotel Royal, não consegui, mas Rosée muito ágil tinha o endereço mais preciso etc. examinou o hotel e me disse que era realmente um hotel de muito boa qualidade, muito, muito boa qualidade.
Estava lá, no mesmo andar que ela, a princesa russa, e um dia a madame chamou a princesa e disse para ela - quer dizer, não se cumprimentavam, viam-se com frequência, mas não se comprimentava:
─ Madame ─ falando francês.
(Sr. –: Chamando a Senhora Dona Lucilia.)
Chamou mamãe. A senhora desculpe, eu sei que a senhora, que eu vejo que uma pessoa que é tão boa, tão compassiva, eu queria que a senhora me arranjasse um caso, etc. ─ mas chorando ─ mamãe, pode imaginar logo a compaixão.
─ Mas o que que há? ─ eu não me lembro bem aqui de momento, eu sabia, mas me escapa no momento, se ela foi ao quarto da princesa, ou ela, a princesa, foi ao quarto dela.
Então o que que há etc. Afinal, o médico tinha diagnosticado um câncer. E ela estava desesperada, porque não sei o que, não sei o que. E mamãe disse a ela:
─ A senhora sabe, não vamos perder a cabeça com isto, estes médicos muitas vezes eram, e fazem diagnósticos errado etc. etc. e a senhora deveria dirigir-se a tal médico assim na Europa que tem uma reputação extraordinária para diagnóstico etc. etc. e consulte este médico. E ela chorando muito, mamãe então deu conselhos, que rezasse, e que não sei mais o que etc. Ela ficou gratíssima, pouco tempo depois, tinha chegado o momento de mamãe voltar para o Brasil, despedidas e acabou-se. Mas mamãe deixou o endereço para ela. Algum tempo depois veio uma carta para ela, da princesa para mamãe para o Brasil:
“Eu queria agradecer enormemente. A senhora não imagina que solução foi para mim tal médico. O médico apalpou fez mais não sei o que, mandou tirar radiografia etc. e a radiografia desmente completamente o diagnóstico do médico parisiense”.
Ele em todo caso ─ pareceu-me não me lembro bem ─ ia operá-la, operou, ou sarou de outro modo; e eu posso dar o caso como resolvido, graças à sua excelente interferência etc. etc. Infelizmente ela não guardou a carta dessa princesa ─ carta que qualquer um guardaria hein, isto é certo.
Bom, meus caros, eu preciso ver um pouco a hora, que horas são?
(Sr. –: Três horas.)
(Sr. Poli: Ou foi um erro do diagnóstico, ou ela tendo intervido no caso, por uma predileção da Providência para com ela, ter mudado o caminho da doença.)
Esta hipótese não passou pela cabeça dela nem de longe.
(Sr. –: Mas é a mais provável.)
Você é a primeira pessoa que esta levantando esta hipótese, a mim não tinha passado pela cabeça nem de longe. O que vejo bem é que um certo efeito de calma qualquer ela produziu, esta comunicação de bondade, esta bondade trazia consigo como que uma promessa da Providência da cura.
Agora isto era caso que ela contasse diante de ninguém, ela não me pediu reserva, mas me contou numa hora em que estávamos conversando sozinhos, e não costumava repetir. Outra do tempo dela sabe como faria? É minha amiga; saía com um prestígio, podem imaginar. É minha amiga! Ela me escreveu cartas depois etc. etc. Convidou-me para, e ia mentirada por aí. Vocês não têm muita dúvida que corria para aí, é isto, é o tran-tran é este.
Meus caros!
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