CSN
- 28/3/87 (Confidencial) .
CSN - 28/3/87 (Confidencial)
“Transcendência e nobreza: analogias na Criação”
1- Existe um modo sobrenatural de se possuir qualidades naturais?
(GD - Ponta de trilho: O Senhor como nobre, como homem de pensamento e de ação, tratado na reunião passada).
… lado mais convencional, vamos dizer mais clássico de tratar do assunto, …
Existe um modo sobrenatural de ter essa…
A interpenetração da graça no homem é tal que existe um modo sobrenatural de ele ter suas qualidades naturais?
É preliminar. Porque, se existe, então o resto (); se não existe, não adianta cogitar.
A resposta é: existe.
* Um exemplo: Fra Angélico
“Tanto é que existe que, por exemplo, Fra Angélico tinha um embebimento sobrenatural da qualidade natural dele de grande pintor. É possível que a graça e a santidade dele até concorressem para aumentar a qualidade natural que ele tinha. Mas é indiscutível que ele tinha aptidões naturais para ser um grande pintor. A graça escachoou em cima do portador dessas qualidades, e ele pintou aqueles quadros impregnados de sobrenatural. Aí, na produção dele, entrou uma soma do natural e do sobrenatural. Mas, a qualidade dele de pintor, é uma qualidade natural.
A graça pode assim penetrar toda qualidade natural. mas a distinção entre qualidade natural e qualidade sobrenatural permanece.
2 - Aplicação do conceito de nobreza
* Às coisas da natureza…
A qualidade de nobre é uma qualidade natural. Qual é essa qualidade?
Nós aplicamos o qualificativo de nobre a uma porção de conceitos que, entretanto, só se reportam às coisas naturais. Por exemplo, o ouro é um metal nobre; os metais que não se deixam corromper nem deteriorar são metais nobres; o brilhante é mais nobre do que o vidro; o próprio carbono, enquanto brilhante, é mais nobre do que ele mesmo enquanto carvão.
Nós dizemos que o faisão, como aquele de Amparo, é uma coisa extraordinária. Que ave nobre! O cisne também é uma ave nobre. Deus não é menos criador dos patos do que dos cisnes; mas o pato não é nobre.
Nós vemos, portanto, que o homem aplica o conceito de nobreza a um mundo de circunstâncias e de seres que não se relacionam diretamente com a pessoa do nobre ou do aristocrata. Ele aplica se também a um determinado tipo de pessoa.
* Aos tipos humanos
Assim, uma pessoa pode não ser nobre de sangue, mas ter um tipo nobre. Isso pode acontecer. E uma pessoa pode ser nobre de sangue e não ter um tipo nobre. É evidente que isso se aplica para o homem como seu analogado primário. A tal ponto que se pode dizer que o homem é mais nobre do que todos os outros seres do universo visível.
Então, quando aplicamos a qualidade de nobre? Quando um ser é superior ao outro, por ser superior, é nobre em relação ao outro.
* O cisne, o ganso e o pato…
Vamos dizer, por exemplo, o cisne e o ganso. O ganso é um pato inflado, aliás delicioso, mas é um pato inflado e é muito útil. O cisne não é útil para nada, a não ser para o homem contemplá-lo nadando sobre a água. Não se come. Para nada serve a não ser para ser bonito. Entretanto ele é mais nobre.
Mais ainda. Pelo fato do cisne só servir para ser bonito, e o pato só para ser comigo, vemos que na finalidade de um e de outro entra um concurso de nobreza. E a finalidade do cisne é mais nobre do que a finalidade do ganso; como, por exemplo, o ipê é mais nobre do que a couve-flor. O ipê só serve para ser visto, não tem outra utilidade. E a couve-flor serve para ser comida. Mas a diferença entre uma coisa e outra… Um abismo!
Então, há algo superior à utilidade - pelo menos à utilidade material - que coloca o ipê numa posição nobre em relação a couve-flor.
* Os metais preciosos: Qual é essa nobreza, que significa aqui a palavra nobre?
No caso dos metais preciosos, julgo que do ouro se pode dizer que no fundo há nele uma superioridade metafísica do ser enquanto ser. Pois é um ser simples, independente de ligas - ele é só ele - e não se deixa corromper, nem enferrujar de maneira alguma, e que apresenta visualmente uma qualidade difícil de definir que em sua linha nenhum ser criado supera, nem sequer iguala. Isto manifesta no ouro certa qualidade intrínseca, imponderável, que transcende os outros metais. A prova disso é que a prata apresenta qualidades análogas a do ouro, mas ela não tem a beleza do ouro. Tem-se a impress
áo de que, na prata, essencialmente, há uma qualidade de matéria mais ordinária do que o ouro.
* Descrição do cisne.
Essa circunstância se pode ver também no cisne e no ganso. O estilo de vitalidade do cisne, a qualidade de vida do cisne, a relação entre ele e o mundo externo coloca-o muito mais independente do mundo externo, quase flutuando sobre o mito das águas. Águas das quais ele depende, fora das quais é um manco. O cisne andando é medonho; porém, em relação à água, ele se ergue com uma soberania como quem diz: Preciso de você, mas você é feita para me carregar… Mais ainda, a sua glória é refletir-me.
O cisne não pensa, mas o jeito de seu pescoço é como se dissesse: “Em última análise, o lugar onde formo minhas idéias está enormemente distante de tudo. “Ele se mistura com a água, mas - cuidado - algo dele a transcende.
No cisne há uma espécie de impassibilidade por onde se percebe que ele sente o universo que o rodeia. Há uma esfera de seu ser que dá impressão dele não se deixar tocar por nada, impressionar por nada, avassalar por nada. Ele é ele! Isso está no cisne. O que faz com que, se fosse dada a ele uma alma, esta seria mais nobre que a dada a um pato.
O pato é muito vagabundo. Ele recebe todas as impressões das coisas, mas não distila nenhuma, vilmente se deixa avassalar por todas, anda no meio delas sem análise nem superioridade. Seu passo não traduz a vitalidade do ser superior que pisa um ser inferior, o chão para ele é base de apoio para andar.
* O veado e o elefante.
Enquanto que o pisar de seres nobres, o veado por exemplo - que é um animal nobre - mal toca no chão. O pato põe aquela patona dele no chão, porque é sua base de operação; se lhe acusarem de ser um passo muito feio, ele responde: “Mas é logístico. Andar é assim! “
Um animal no qual não vejo nenhuma nobreza é o elefante. É grandão, mas não é nobre. O marfim de seus dentes é nobre, mas é quase extrínseco a ele. Não se encontra nada de mais vil do que a tromba do elefante. Existe uma doença que incha as pernas chamada elefantisia… Quer dizer, tem-se a impressão de que aquilo é um animal doente. É baixo, porque condicionado pelo que está embaixo. Enquanto o bonito é estar distante e não depender do que está embaixo; tocar o que está embaixo apenas com a ponta dos dedos, ou dos pés, o resto é a vida própria.
O que torna o veado nobre é que ele pode andar por meio do mato, seja qual for, tem ele um universo fechado e uma glória que sua galharia exprime. A meu ver, a própria velocidade dele é leve e sem cansaço. Ele até aturde pela rapidez, mas ele não está aturdido, nem cansado. Ele é dono de seus passos, dono do tempo; corre pelo espaço e pelo tempo como quer. Uma certa delicadeza ele conserva, por onde não é nenhum pouco um animal inferior; mas sua posição diante do inimigo é como se tivesse nojo do inimigo; ele foge sem ser medroso, foge com elegância. Tudo isso dá ao veado certa nobreza.
3- Nobreza: reflexo da transcendência divina.
É uma imagem da transcendência de Deus, que é assim infinitamente mais em relação a todo mundo. Todos esses seres foram criados para, por semelhança, nos darem uma imagem da transcendência do anjo sobre o homem, e da transcendência de Deus sobre todas as criaturas, anjos “e touti quanti”. É a ordem das coisas.
Ser nobre é, portanto, ter em grau excelente o brilho da transcendência do homem sobre todos os seres. Mais ainda, é o brilho da “transcendência” de uns homens sobre outros homens, que é muito mais do que a “transcendência” sobre os outros seres. Tudo quanto chamamos nobre nos homens, essa “transcendência”, é apresentada sob certo aspecto.
Como se traduz no nobre esse modo de ser, esse “nobre”?
Verdadeiramente transcendente, no sentido pleno da palavra, é Deus. Estou falando de analogias. Há certa transcendência de ser a ser. São imagens da transcendência de Deus.
Há certas pessoas - aqui fala da constituição física - que ao serem geradas, ou ao se desenvolverem, recebem de Deus - porque Deus quer, e podem ser pessoas que não nasceram nobres - um equilíbrio de emoções, de impressões, uma ordenação de superioridade do pensamento sobre o instinto que faz com que a pessoa tome uma posição “cisne” em relação as coisas. E tratando com outras pessoas se percebe, por mais que esteja relacionada, que ela tem um campo próprio mais elevado onde elabora suas concepções. Tem a vida dela que não é a vida comum dos outros.
Naturalmente, nesse século, isso é uma coisa de espumar. Eu não sei que grau de raiva uma coisa dessas pode dar. Mas, queiram ou não queiram, a realidade é essa.
Isso que estou dizendo é muito audacioso. Não quero dizer que seja minha opinião definitiva, se a fosse, embora audaciosa, eu diria: é o que penso. Mas de fato não é.
4- Fundamentos doutrinários
* São Tomás: o corpo, elemento diferenciante dos homens.
Sou muitíssimo propenso a pensar o seguinte:
São Tomás de Aquino diz que as almas dos homens são todas iguais; e que os homens são diferentes pela influência do corpo sobre a alma. Um professor de filosofia, muito “cassange” que eu tive, dava um exemplo interessante para o caso. Dizia. “Tome um homem que executa piano… “- ele poderia falar muito mais belamente de harpa, instrumento evidentemente mais nobre do que o piano, uma harpa numa sala é um adorno, um tipo de som extraordinário. A linha da harpa… Só se concebe harpa dourada. Aliás, não conheço harpa que não seja dourada -. Bem, ele dizia: “Tome um homem que toca com mesmo talento - tiro piano e coloco harpa - harpas diferentes. As músicas vão ser diferentes, conforme a qualidade da harpa. O talento é o mesmo, mas a música sai diferente devido à qualidade da harpa.
* Nobreza emanada do requinte dos predicados naturais.
Assim, conforme as qualidades do corpo, as produções da alma saem diferentes. Evidentemente não só daí, provém muito também do ambiente, da cultura que a pessoa tenha, da “Leistung “de saber trabalhar o que tem. Enfim, depende de uma porção de coisas; depende muito de dons da graça etc.,etc. Mas, independente de qualquer coisa, é um predicado natural, e ligado a certo equilíbrio de humores, de temperamentos, de distância das coisas etc., que é uma forma superior de equilíbrio que Deus dá a certo tipo superior de gente.
(NRF- Nota-se isso em muitos meninos).
Isso, até no berço.
* DB
Não sei se soube, quando Dom Bertrand foi operado, uma operaçãozinha qualquer, tinha uma coisa que foi preciso operar. Os médicos perguntaram quem ele era, porque era tal o equilíbrio da constituição física dele que queriam saber quem era. E deve ter chamado muito a atenção dos médicos, porque eles operam às grosas, por exemplo, cortam o apêndice direito de um paciente e o mandam embora sem prestar atenção no sujeito. Havia mais de um médico cuidando de DB, todos o examinaram e ficaram impressionados.
(GL- Disseram que a constituição dos tecidos não era do mesmo material que de outras pessoas).
Eu tinha esquecido desse pormenor. E tecido interno, não é a pele.
5- Conceito analógico de transcendência
Isso confere ao homem uma transcendência que, se o homem souber coresponder a essa “graça natural”, pode tomar um jeito, um estilo, um rumo pelo qual o homem fica realmente transcendente em muitas coisas mais do que outros; tem idéias mais largas, vôos maiores, descortínio maior, uma carga de força de impacto maior, mas também um afeto mais envolvente, mais comunicativo, mais persuasivo. Tudo isso pode encontrar-se num homem que faça isso nobremente.
Para recorrer a um exemplo muito surrado entre nós, mas exemplo muito característico, é Maria Antonieta. Ponham o que quiserem, tierem o que quiserem, é uma espécie de obra prima do gênero humano que Deus quis (fazer) e deu para ela (o dom dessa perfeição). Ela foi até casada com um pato…(Luiz XVI).
(GL- O Senhor dizia que ela foi o cisne da História).
É isso mesmo, o cisne da História.
Nascem então duas perguntas muito delicadas.
* “Transcendência” hereditária?
A primeira pergunta é de que maneira isso se comunica. Isso é hereditário? Isso, então, justificaria a hereditariedade da nobreza?
- Vocês estão vendo que não estou hesitando em enfrentar questões crespas. Tudo isso é crespíssimo.
A resposta simplesmente é: sim, é hereditário. Porque se isso tem base nesses caracteres coligados à constituição física, é hereditário como todas as outras coisas físicas podem ser hereditárias.
A pergunta agora é: Hereditário de maneira que a pessoa herda necessariamente essas qualidades?
Isso não. Que eu saiba, muito poucas coisas no homem são hereditárias com essa carga. É freqüêntemente hereditário numa família, mas não necessariamente. Nada é necessariamente hereditário numa família, mas sim freqüentemente hereditário. Além do mais, é deteriorável numa família.
Como isso se deteriora?
Pela prática de vícios que alterem esse equilíbrio. Seria mais ou menos como um cisne que tomasse maconha, perdia tudo, acabou-se! Tome por exemplo um pavão que passeia e que deita aquela roda dele com o jeitão que lhe é próprio. É uma coisa magnífica, estupenda. Deita, roda e faz aquela coisa toda. Mas, se derem para o pavão beber água com um pouco de calmante, ele não deita aquela roda; se deitar, deita de modo ridículo, porque algo do físico não se prestou a isso.
Como os hábitos produzem efeitos hereditários - ainda que o hábito não seja ele mesmo hereditário -, tornam o sujeito propenso a adquirir o vício que foi causador, no antepassado dele, dos defeitos que ele é portador. Assim, numa família altamente dotada, também pode esgueirar-se um vício hereditário. A preguiça hereditária pode liquidar isso. O hábito hereditário de sonhar, de divagar e não pensar, também pode liquidar isso.
Mas, de si, essa superioridade à la cisne ou à lá leão, em relação às coisas, à vida e a todo mundo, é o próprio do nobre. E isso é geralmente hereditário. …
Também acabo de mostrar que isso pode perder-se através de um vício hereditário.
5- A nobreza abarca ipso facto a “transcendência”?
A última pergunta: Quando uma família fica nobre, entra tudo isso dentro da família?
Um de vocês poderia objetar: “Doutor Plinio , o Senhor tome - na sua teoria - um Cruzado que lutou magnificamente, mas que se chamava João Sapateiro na aldeia de onde saiu. Ele foi armado cavaleiro no campo de batalha e ficou nobre. O Senhor acha que ele adquiriu todas essas qualidades? Ainda no caso do Cruzado. Como ele roçou pelo martírio, pode-se dizer que Deus, naquela hora, insuflou nele - insuflação na linha natural - qualidades do nobre? Como o Senhor justifica isso, Doutor Plinio ? Não há uma incongruência dentro disso?
A resposta a meu ver é essa:
O indivíduo pode ter qualidades à la cisne ou à la leão muito elementares, mas quando ele é educado num ambiente que favorece muito tais qualidades, isso pode trazer à tona, nele, essas qualidades. Sei que zoologicamente isso não se dá. Em tese haveria talvez filhos de patos que poderiam dar cisnes. Isso é uma coisa que a gente pode compreender.
Pode-se compreender que um Cruzado, de alma muito nobre, que é corajoso, e militar de grande idealismo, transmita essas qualidades para o filho que entra para a nobreza. Esse filho, ou neto, é particularmente apto a adquirir essa “transcendência”. Isso é um modo de gerar a nobreza.
Antigamente não era só isso que gerava a nobreza, ela era gerada também por ações beneméritas ou pelo exercício prolongado de cargos importantes. Havia, por exemplo, na Espanha um modo muito bonito do sujeito herdar a nobreza. Não era para todos os Reinos da Espanha. Era para um ou outro daqueles reinos. Se ele podia atestar que o bisavô ou o trisavô dele não era nobre, mas já era entre sobrinho e primo de primeiro grau - algo assim - de personagens como conselheiros do rei, militares de grande destaque, bispos ou grande professores de universidade, e se ele tinha certo número disso, era nobilitado, embora o pai ou ascendente direto dele não fosse nobre. Isso porque ele foi educado num ambiente onde permitia desenvolver nele certas qualidades. A família inteira se nobilitava. E eu acho isso muito bonito.
Em Portugal, quem era neto de doutor em Coimbra, ficava nobre. Acho bonito.
(O filho ainda não?)
O próprio doutor não. Eles eram doutores ad-vitam. Colou grau em Coimbra, ficava nobre, mas ad-vitam. O filho não ia ser. Só se ele também fosse doutor em Coimbra, ou se fosse nobre a um outro título: ganhou uma batalha, ou qualquer coisa assim, então se nobilitava. Mas, quanto ao doutor em Coimbra, tinha que ser neto. Hereditário só o neto. Mas o neto era de tal maneira nobre, que ainda que o bisneto não fosse mais doutor em Coimbra, já nascia nobre.
(GL- Segundo Dr. PB, teriam que ser castos também).
É capaz.
(GL- Certa vez o AX estava dando essa teoria para o Senhor, num MNF, e Dr. PB acrescentou: Sim, mas tinha que ser casto).
É uma objeção bem à lá Paulinho, explêndida. - À lá Paulinho digo no sentido laudatório.
O que acho é que a Providência de vez enquando faz nascer cisnes de patos e coloca, nascendo da plebe, indivíduos que têm condições para trabalhar em ofícios nobres, em coisas grandes e terem filhos nobres, e eles mesmo se nobilitam.
Isto é um dos modos de Deus reger uma nação. É saber que temperamentos, com maior ou menos nobreza Ele cria, e em que zonas do organismo social Ele cria essas nobrezas. É uma regência do universo feita por Deus.
* Brasil
No Brasil houve duas espécie de nobrezas, uma nobreza que se chamava nobreza do reino e outra nobreza da terra. Aliás, essas expressões portuguesonas - não sei se porque descendo de português - mas elas me agradam muito, elas têm qualquere coisa que não sei o que dizer… são um pouco patas, mas minha truculência se compraz nisso. Liquida o caso e contém um desafio, quer dizer. digo com tanta clareza vocês gostem ou não, é! E, se aborrecer comigo, estou pronto para te receber no murro; mas é isso o que eu, luzitano, afirmei. Sei bem que não é (estilo) francês, mas gosto muito.
A nobreza do reino era dos nobres de Portugal. Como o Brasil era uma colônia ou um vice-reinado, ou, depois, mais tarde, o Reino-Unido com Portugal, os nobres de Portugal vinham aqui e eram nobres do Brasil. Não havia diferença.
* Nobreza da Terra e Nobreza do Reino.
Que era a nobreza da terra?
Era a primeira classe de um município, de uma população, portanto, bastante adiantada para se transformar em município que se tomava numa certa importância, aquela classe primeira que se formava lá, como a nata em cima do leite, era a nobreza da terra nascida da terra para o governo da terra, e que deveria inspirar-se na nobreza do reino. Mas ela era tida, enquanto não se desenvolvesse mais, como nobreza minor, a ter futuramente e eventualmente contato e mistura com a nobreza maior. E essa nobreza vista assim, tida assim, devia exercer, como espírito nobre, ofícios que no Reino não eram ofícios nobres.
Por exemplo, o mero ofício de agricultor não é um ofício nobre. Os nobres eram agricultores, mas freqüentemente e até o mais das vezes; porém o agricultor não era nobre.
O ofício de governar a terra, não por sucessão hereditária, mas porque arranjou um jeito naquela política municipal de se fazer eleger, eram os primeiros da terra. O ser padre vigário, ou bispo, favorecia a nobreza da terra. O ser professor de direito - era a única faculdade que tinha aqui - conferia a categoria de nobre, porque se entendia que era por analogia à Coimbra. O professor da Faculdade de Direito de São Paulo tinha certa analogia com isso, e aqui era tido, como próprio das melhores famílias, terem os seus professores nobres. Quer dizer, nobilitar o professor.
Ser deputado ou senador era nobilitante.
* Formação da transcendência.
Apareceu no Brasil, portanto, um modo nobre de exercer profissões não nobres. Isto quer dizer que aquela “transcendência” foi se formando lentamente na classe que tinha a supremacia no Reino. É curioso que no tempo do Império isso prevaleceu da seguinte maneira:
Em primeiro lugar, no Império só se reconhecia como nobre títulos conferidos pelo Imperador.
Em segundo lugar, nenhum título era hereditário. Às vezes o Imperador dava ao filho o título que tinha o pai. Por exemplo, Visconde do Rio Brando e Barão do Rio Branco. Mas não era por hereditariedade, dava porque queria dar. É outra coisa.
A alta sociedade que presidia nobremente a vida do município, esta alta sociedade era constituída de homens que tinham pertencido à antiga nobreza da terra que a independência declarou extinta.
* Nobreza da Terra sobrevive à independência.
Feita a independência, a nobreza da terra deixou de ser nobreza, porque no Império não havia nobreza, havia indivíduos que tinham título por mero nome, era apêndice ao nome, não era uma classe privilegiada. E com isso a nobreza do reino perdeu o seu sentido aqui, e a nobreza da terra também.
Que fizeram da Nobreza da Terra?
A Nobreza da Terra era muito rica e tinha um modo nobre de levar a vida social. Aliás, freqüentemente casada com gente da nobreza do reino. Ela perdeu as funções políticas, deixou de ser nobreza política, mas conservou o primado do aristocratismo social.
(GD- No Império todos os homens mais destacados eram nobres da terra).
Não por privilégio político, mas pelo fato, um ascendente natural.
Por exemplo, conheci baronesas, condessas do tempo do Império … mas pertencentes às boas famílias. Elas conviviam com as Senhoras da geração delas não baronesas nem condessas, mas do mesmo estofo, numa igualdade total.
O que ficou foi uma aristocracia social, dirigindo a vida social, e dirigindo a vida política meio assim com “mão de gato”. Quer dizer, disputando eleições e ganhando eleições, mas aprendendo a fazer todas as coisas nobremente. … …
… uma fidelidade viva, e como que nascente de uma tradição que na Europa vai morrendo.
Aqui vocês têm também uma coisa original, que entretanto já era de toda a América Latina. Eu a tomei como era no Brasil, pois era a minha obrigação. Tomando elementos originais da formação da nobreza no Brasil e procurando incorporá-las. Não tive intenção de tomar ares de nobre do reino. O tipo do nobre do reino “en plante”, que gostaria de ser nobre é o Otto de Sá Pereira; mas eu não via nele propriamente um nobre; um rapaz educado sim; ele não era o produto da terra, e o que nos interessa aqui é a nobreza da terra.
Eu me pergunto se nas novas condições não era este o caminho que a instituição nobiliárquica deveria tomar para sobreviver.
(MNC- No mundo inteiro?)
No mundo. Como ele se transformou com o desaparecimento de certo tipo de “Herr” (Senhor) que tinha havido antes.
Você vê que nem pondo 20 sábios procurando resolver o problema resolve-lo-iam como a caipirada hispano-americana e luso-americana resolveu. Eu não teria dúvida de que, expondo diante de um auditório chileno …
Vou um pouco mais longe, mas estou ainda mais inseguro do que vou dizer agora.
* Exercer nobremente funções sociais.
Pergunto-me se o que deveria ter exercido e existido na Europa não era que as funções da sociedade, que iam sendo engendradas pelo curso das coisas, deveriam ter começado a ser exercidas nobremente.
(MNC- O Castellar com todos seus defeitos não caminhou um pouco nessa linha?).
Isso, é fora de dúvida, ele tinha muito do espírito da nobreza antiga.
* Exemplo: Japão.
O Bentão me contou que tendo ido ao Japão tratar de negócios, na ante-câmara dos dirigentes lhe disseram: “O Sr. precisa entrar alí, fazer tal reverência assim, isso e aquilo, porque aqui no Japão grande número de grandes industriais são descendentes da alta aristocracia dos (…), eles já não têm feudos, mas indústrias, e mantém esse tom nobre nas suas indústrias.”
Pergunto-me se a indústria como ela evoluiu era sucetível de ser vivida nobremente. A tentativa, porém, merece ser registrada.
(MNC- Os americanos procuram estudar a superioridade das indústrias japonesas sobre as americanas, mas nunca vi referência a isso).
Porque odeiam.
(MNC- Eles abordam a questão pela tangente, que faz sentido com essa explicação: existe muita fidelidade do operário à direção da empresa).
Olhe lá!
(GD- Um operário que muda mais de uma vez de empresa, não merece confiança).
Está vendo. Agora vai convencer disso um americano, é totalmente impossível.
(MNC- Esse tema é tão interessante, mas corre o risco de sair pela tangente. O Senhor poderia tratar dos aspectos que nos interessam mais?)
Estou entrando. …
Existe um modo nobre de nessa época de apostolado dos leigos exercer o apostolado dos leigos? E o que tem a TFP a ver com isso? - São perguntas que você pode pôr.
Mas, antes de passar adiante, queria dizer uma coisa que me é muito cara, e que é o nascimento das nobrezas nos Estados sem nobreza, na medida em que as condições modernas permitem que eles nasçam como nobreza da terra. Eu vejo, por exemplo, certos casos… … …
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