Conversa Sábado à Noite – 21/2/0198 – p. 8 de 8

Conversa Sábado à Noite — 21/2/1987 — Sábado [VF 049] (Augusto César)

Nome anterior do arquivo: 870221--Conversa_Sabado_Noite.doc

Já estão sabendo que eu devo partir segunda-feira cedo para o Êremo de Amparo de Nossa Senhora, não é? Se quiserem aparecer lá me darão muito gosto. Eu não garanto que eu posso fazer uma reunião. Mas se der um jeitinho, fazemos.

(Sr. Guerreiro Dantas: O senhor volta sábado?)

Eu volto sábado aqui, isto é certo. Eu devo voltar aqui provavelmente sexta-feira à noite, como de costume, para fazer Reunião de Recortes, etc, etc.

(Sr. Gonzalo Larraín: E [o] carnaval o senhor passar aqui ou lá?)

Carnaval, aqui. Tem inclusive um simpósio do EVP aqui, segunda-feira, terça-feira, quarta-feira.

(Sr. Gonzalo Larraín: E o senhor vai participar?)

Vou participar.

Bem, vamos para frente!

(Sr. Gonzalo Larraín: “Beatitudo incomprehensibilitatis”. Sra. Da. Lucilia tinha algo disso. Agora, como era a posição que ela tomava em relação ao senhor nessa matéria? Por muito lados o senhor era incompreensível para ela, e qual a posição que ela tomava diante dessa incompreensibilidade. Não sei se está claro?)

Está, está muito claro, e eu acho que está muito bem perguntado. Vem a propósito.

Tem-se pensado em fazer um escritozinho com a idade da vida dela, que eu acho a coisa mais compreensível do mundo. Mas a dificuldade consiste em que o grosso da vida dela está nessa incompreensibilidade incompreensível, que dá uma lição a respeito de algo que é muito profundo da Contra-Revolução e que eu vou tentar expor agora.

Acontece o seguinte: que em toda a ordem do real criada por Deus existe o fato de que algumas coisas, ou muitas coisas — eu vou pensando e falando, de maneira que talvez eu retifique em algo o que eu vou dizer —, enfim, em muitas coisas ou talvez em todas as coisas há algum aspecto incompreensível para nós. É preciso ver bem o que é o incompreensível para que nós entendamos tudo.

Há várias camadas de incompreensibilidade. Há certas coisas que são incompreensível apenas no sentido de que elas são muito dificilmente exprimíveis. E por causa disso a linguagem corrente não as exprime. Mas isso, não quero dizer que essas coisas uma pessoa esforçada não acabe exprimindo e tornando, portanto, compreensível. Elas de fato são incompreensíveis para o geral dos homens. Mas uma pessoa esforçada e sobretudo quando tem, como o Proust, um dote especial para isso, um dote de ordem natural especial para isso, consegue tornar isso claro.

E exatamente o que há, o que é interessante é que há aí, diante dessas realidades descritas por um Proust, numa ordem muito diferente por um Saint-Simon, há três categorias de espíritos: Há uns que compreendem inteiramente e exprimem; há outros que compreendem inteiramente e não exprimem; há outros que compreendem inteiramente e menos ainda exprimem — não compreendendo inteiramente não podem exprimir — e há outros que não compreendem nada e não exprimem nada! E estes estão no bordo do odiar! Estas são as várias famílias de almas diante do fenômeno natural da incompreensibilidade.

E essa posição de incompreensibilidade tem isso de próprio que os que sabem exprimir nem sempre o possuem. Não são eles mesmos… Não é necessário que possuam, podem possuir, mas não é necessário que possuam. Eles podem ser muito compreensíveis, mas não é necessário que eles possuam… Eles têm uma antena, que esta é incompreensível, por onde eles compreendem a incompreensibilidade.

Vista assim, nesta ordem de coisas, a realidade, todas as coisas compreensíveis flutuam numa atmosfera de incompreensibilidade, ou num mar de incompreensibilidade. E assim como se pode dizer, por exemplo, para um ignorante [que] uma ilha é um pedaço de terra perdido no mar. Mas para um sujeito que sabe um pouquinho de geografia, a ilha é o pico de uma montanha submersa, do qual o pico sai em cima e é visto.

Assim se poderia dizer que tudo quanto é compreensível é o pico de uma montanha incompreensível da realidade, que estão imersas nessa incompreensibilidade. E um dos defeitos do espírito moderno é não ser aberto a isto. O espírito — sobretudo dois espírito modernos: o espírito dito científico, que só joga com o que é inteiramente compreensível; e o espírito dito financeiro, que é o desvio, o só admitir o palpável, o compreensível, o estomacal, a garantia, etc., etc., porque apostataram do incompreensível.

Então há uma fuga do incompreensível no mundo de hoje que mais remotamente se pode até chegar ao livre-exame protestante, ao racionalismo do Iluminismo, etc., etc., aquilo tudo são recusas em graus vários de incompreensibilidade. Há até um modo de ser tomista que é uma recusa da incompreensibilidade.

(Sr. Gonzalo Larraín: O padre que o senhor citou hoje na Reunião de Recortes é inteiramente isto.)

Exatamente, é inteiramente isto. Não, e há sujeitos que estudaram o tomismo, e que julgam que aquilo que não se reduz aos magníficos silogismos de São Tomás, não é real, o espírito não deve tomar em consideração.

(…)

Quem sabe eu digo alguma coisa, depois você põe a sua pergunta, porque eu queria terminar o negócio. Mas a coisa é essa. Ninguém mais entusiasta do silogismo, da razão, da coerência, da lógica, em nosso pequeno meio, do que eu. Mas eu acho que isso aí não exclui em nada o reconhecimento dessa incompreensibilidade, o respeito a essa incompreensibilidade, a qual não choca nunca com a razão, mas a excede muitas vezes, e que se comunica de algum modo ao conhecimento do homem.

Então, o modo mais palpável de reconhecer isso aí é no que diz respeito aos símbolos. Ninguém nega que existe o símbolo, é um fato de experiência comum. Bem, não é o símbolo convencional, por exemplo, das bandeiras modernas: Branco, verde é Itália; o vermelho, o preto e o branco é a Alemanha; não sei o quê… Isso não são símbolos, são sinais. Não tem valor de símbolo.

O símbolo existe, mas o símbolo tem qualquer coisa que é inefável, quer dizer, não é exprimível inteiramente o símbolo. Pode-se aprofundar muito, pode-se dizer uma porção de coisas sobre o símbolo, mas que certos símbolos sejam inteiramente exprimíveis, não os são.

Por exemplo, a águia bicéfala da Casa d’Áustria. Ela diz qualquer coisa que mais do que uma águia de duas cabeças. Tanto é que uma águia de duas cabeças é um monstro! Ali, naquela heráldica não é um monstro. Ela exprime uma porção de coisas que não adianta a gente querer aprofundar muito, que é um estado de espírito, uma situação de alma, é um modo de ser… Mas é no fundo uma forma de sensibilidade modelada por certos efeitos da Fé católica, e por certa posição filosófica diante da vida, que produzem a Áustria, que ali de um modo incompreensível se exprime.

(Sr. Gonzalo Larraín: Quando se fala de símbolo é dizer isso.)

Bom, e o tal ponto que, por exemplo, os sinais de trem — pode passar, não pode, aquela coisa — não são símbolos. É uma convenção e funciona como uma convenção. Aquilo não tem mistério.

(Sr. Gonzalo Larraín: O estandarte, como é simbólico.)

Ultra-simbólico, ultra-simbólico, mas ultra-simbólico. Olha que eu tinha dúvida em escrever no estandarte “Tradição, Família, Propriedade” como está. Mas fica ali muito bem. Não é um letreiro, não desmerece o símbolo. A capa… Todas as coisas nossas são muito simbólicas.

(Sr. Guerreiro Dantas: O leão tem uma beleza e força, que nenhum outro símbolo tem. A cruz de Santiago também é muito bonita, carregada de simbolismo…)

Simbolismo nosso. Não é o do leão! Aquele leão, hein! Não é qualquer leão! Eu tenho certeza que se aparecesse um estandarte nosso com um leão desenhado de outra maneira, o pessoal todo reclamava. É aquele leão! Está qualquer coisa de prevaricado naquilo.

Agora, isto é incompreensível. Mas é o modo pelo qual nossa inteligência tem acesso a uma ordem de realidade natural, superior. E por onde a inteligência voa e não anda.

Bem, a coisa mais simbólica que há no homem é sua fisionomia. E a coisa mais simbólica que há na fisionomia é o olhar! Você, todo mundo — ao menos no meu tempo — passa pelo ensino secundário, aprende um pouquinho de anatomia e fisiologia. Em certo momento entra o globo ocular. Eles dão o globo ocular enquanto máquina de fotografia, apanhando a realidade externa. Eles nunca tratam de uma outra coisa: como é que o olho apanha tão bem a realidade interna! Mais fotografa o íntimo do que fora! Melhor!

(Sr. Guerreiro Dantas: É um símbolo impressionista.)

Impressionista, impressionista. É uma coisa que não sabe dizer. E essa… Por exemplo, vamos dizer, aspectos da natureza, uma tempestade que se prepara, um arco-íris, são símbolos, e Deus disse no Antigo Testamento que o arco-íris era um símbolo da reconciliação d’Ele. A questão é que você olha para o arco-íris e de tal maneira significa o agrado de Deus com os homens e a reconciliação! É de uma eloqüência extraordinária! A melhor das definições do que seja uma reconciliação, o perdão; não tem como o arco-íris.

Bem, e depois é inefável, porque não se chega a dizer — é quase; não é o que eu vou dizer, não é nem um pouco uma visão beatifica, eu estou descrevendo como um fato natural, a visão beatifica é um fato sobrenatural — mas é uma coisa que tem analogia com a visão beatifica. É o por onde a mente humana toma conhecimento de coisas que de fato, pela explicação, não estão ao alcance dela.

Bem, assim nós poderíamos dizer cem coisas. Falei da Áustria há pouco. Há um quadro, eu não sei de que autor, que representa o seguinte: vai [começar] um baile no Hofburg — Hofburg é o Palácio dos Imperadores da Áustria, na cidade de Viena; a Chönbrunn [é] uma espécie de Versailles, mais longe.

Bem, vai começar o baile. Então, tem uma sala de baile — é muito bem pintado esse quadro — uma sala de baile, no interior do palácio e em uma rodinha está o Imperador conversando com algumas pessoas. Mais longe tem três ou quatro pessoas, senhoras, conversando com militares. Bem, mais longe tem um bispo — que compareciam, não é? No tempo em que as danças eram moralizadas, era tudo diferente —, um bispo com condecorações, com aquela roupa violeta que os bispos usavam e duas ou três pessoas conversando com ele. O resto, o chão lustradíssimo, lisíssimo, e a sala bem ornada, esperando os que vão chegar. Bem, aquilo diz alguma coisa, que é uma coisa extraordinária.

Eu vi um outro quadro que é assim, título: “Na sala de audiência do Ministro.” Não diz que ministro era nem nada. Eu creio que já contei isso a vocês, não?

(Todos: Não.)

Era um sofá, desses assim estilo Luís XIV, XV, XVI, qualquer coisa assim, não me lembro. Sofá estilo francês, dourado, revestido de uma seda de um azul muito claro… Nem era um sofá muito bonito, nem [a] sala, que também não chama atenção, que se percebe que pode ser a sala de espera de um Ministério, e com essas almofadas assim muito altas, em um canto do sofá assim, como se estivesse… Mas é uma almofada só. No sofá onde o Gonzalo [está] há duas. Era uma almofada só. E em um espaço que corresponderia mais ou menos ao começo dessa segunda almofada, sentado, um padre da I.O. com aquele chapelão alto e aquela tampa um pouco mais larga do que o chapéu, uma barba espessa, agarrado no guarda-chuva, com aquela cara alumbrada, gordão e desconfiado, agarrado no guarda-chuva dele. Ele estava esperando a audiência com o ministro.

O dépaysement do homem naquele sofá francês, aquela espécie de bruxo oriental… Que não está entendendo nada, que está doido de desconfiado, que está deitando malefícios onde ele está e que alheio a tudo, um náufrago, mas que quer ferozmente sobrenadar e ganhar o que ele vai pedir ao Ministro — que é evidente que está pedido alguma para o ministro: seja dinheiro, seja qualquer outra coisa —, aquilo… Depois, os sapatões plebeus, uma coisa medonha! Um [moujik?] de batina!

Bem, diz muito mais do que os objetos que estão lá. Bem, eu infelizmente nem guardei esses quadros, nem nada, porque não tinha nenhuma esperança de que algum dia fosse útil. Mas…

(Sr. Gonzalo Larraín: O de Francisco José tenho visto…)

Ah, se cair na mão de vocês vale a pena…

Bem, assim se poderia mencionar cem outras coisas. O olho humano fala tanto, é tão compreensível o olho humano, mas ele faz parte da beatitudo incompreensibilitatis. É uma coisa que você vê, você nota na cara do homem aquela posição, mas você não sabe dizer, você que notou, não sabe dizer porque é que notou! É uma coisa extraordinária, mas é assim.

(Sr. Gonzalo Larraín: Com o Quadrinho… O senhor sabe que o Sr. Buzzarelo quando pintava, raspou tudo…)

Só conservou os olhos! É isso, é isso. Bem, e essa incompreensibilidade põe o homem numa dupla posição. Debaixo de certo ponto de vista ele voa, porque ele percebe que há um mundo de realidade superiores ao do linguajar comum e que lhe é permitido entrar. Ele aumenta a inteligência dele com isso. Mas de outro lado ele é obrigado a se pôr de joelho. Quer dizer, a inteligência voa, o raciocínio se põe de joelhos. Esta, a meu ver, é a fórmula que explica a posição do homem diante disso.

Agora, vocês tomem os cursos — vocês todos fizeram cursos superiores, ou ao menos freqüentaram alguns anos de curso superior — tomem os cursos superiores ginasiais que fizeram. O curso, subliminarmente… o curso científico procura pisar, negar e contestar isto de todos os modos possíveis, embora não se trate disso. Mas há um modo de apresentar a matéria que exclua isso, completamente.

Por exemplo, no estudo das flores, em matéria de botânica: dá à flor o papel de um órgão fisiológico da planta, que tem tais funções para manter a planta funcionando. Ora, evidentemente a flor não é só isso. Evidentemente, em vez de o livro dizer: “A flor tem outros aspectos, mas nós estamos no papel da botânica apresentando a flor assim, porque a botânica se cinge a isso”; isso eu compreenderia. Bem, eles dão a entender que o que não for isso é nada.

E daí ao mesmo tempo um certo enlevo e um certo desprezo de segmentos do mundo [do] século XIX, do mundo da Belle Époque, mesmo do mundo até a Segunda Guerra Mundial, por isso. Quer dizer, diante desses incompreensíveis, eles tinham acessos de se maravilharem. Mas depois também, diante do compreensível acessos de se irritarem e negarem: “Isso não é nada, não vale a pena, e vamos tocar no que vale a pena.”

E Hollywood representa o auge dessa negação. De maneira tal que eu considero até os cinematografistas de Hollywood — eu ingeri uma quantidade sem conta de filmes de Hollywood e prestei muita atenção nos lados psicológicos, estas coisas todas — eram psicólogos exímios! Eram psicólogos exímios! Mas que davam à alma do homem a expressão que um detetive ou um diplomata possam querer. Não algo que fosse além disso.

(Sr. Guerreiro Dantas: Nesse aspecto com muita carga, não é?)

Muito, uma coisa extraordinária. Nos aspectos menores, muita carga; depois, nos aspectos maiores, a ausência, a negação, que era exatamente o modo de ir instalando o espírito humano numa realidade que depois tendia para o materialismo. Vocês estão vendo que tudo isso que eu estou dizendo é materialismo. Tudo o que eu estou tratando, isso, é materialismo evidentemente.

Agora, o que é essa incompreensibilidade assim? Ela é, na ordem da criação dos seres vivos não-espirituais, e depois também da alma humana, ela é uma imagem do que são as relações entre os espíritos: por exemplo, entre os Anjos e do que são as relações dos Anjos com Deus. São coisas de ordem natural, eu estou dizendo, mas coisas de ordem natural que nos dão uma imagem do Céu em coisas que na Terra nós não podemos compreender.

E por causa disso, o espírito anti-religioso, terreno e revolucionário quer extinguir isso porque isso traz consigo uma tal facilidade para a alma ser religiosa, que cria o clima para que a Religião exista. E também por isso vocês percebem que o progressismo, quando ele é simbólico, é diretamente para simbolizar o Inferno! O Céu, não. Ele exclui o Céu completamente.

Bom, então dessa introdução — que está um pouco longa —, o que se deduz é o seguinte. Houve na Revolução das tendências uma específica ofensiva tão ampla, quase se poderia chamar — uma acomodação da palavra, mas a linguagem às vezes tem acomodações dessas — uma revolução autônoma, não é autônoma, mas é tão ampla que é quase isso, poder-se-ia chamar de “Revolução dos incompreensíveis”… “a Revolução contra os incompreensíveis”, mais bem dito, para varrê-los do espírito humano, e toda a sensibilidade do espírito humano, todo o equilíbrio do espírito humano fica détraqué.

Vocês querem ver uma coisa? Eu estou alongando demais, mas a questão é que é uma oportunidade tão boa para tratar de coisas especiais, que eu me sinto no dever de ampliar um pouco a coisa. Mas querem ver um pouco como é a coisa? É assim… Eu ia dizer uma coisa e me escapou… Que coisa curiosa! De repente eu pensei numa coisa e essa me saiu da memória.

Eu estava dizendo alguma coisa antes, o que era?

(Sr. Poli: Revolução das tendências contra os incompreensíveis.)

Ah, bom, é o seguinte. Eliminando a incompreensibilidade, a vida se torna de uma dimensão menor do que o homem. Quer dizer, o homem tem coisas que ele só pode entende a linha das incompreensibilidades, tanto elas fazem compreender. Você tirando essas incompreensibilidades do panorama visual de uma geração, essa geração subconscientemente é levada a atormentar os seus próprios nervos como o tocador de guitarra atormenta as cordas para sair um som. Ela é levada a atormentar os seus próprios nervos para provocar em si sensações insólitas porque ela não cabe dentro do sólito mero. E daí todos os desequilíbrios do “geração novismo”, “enjolrismo”, etc., etc.

(Sr. Paulo Henrique: O senhor dizia na campanha do IDOC e grupos proféticos que eles queriam desmitificar tudo o que poderia ser transcendente, e fazer uma coisa transparente.)

Isto, rasa, chata, aplatissement, do que falava aquele artigo daquela revista hoje. Agora, dentro dessa planície chata do mundo sem os incompreensíveis, o sujeito fica com uma zona da alma sobrando. E essa zona da alma sobrando ele só consegue não explodir, atormentando os próprios nervos com a torcida e com outros fenômenos do gênero — sonhos, delírios de toda ordem — porque do contrário não cabe dentro da própria pele.

(Sr. Paulo Henrique: Ele precisava ter isso para que a contingência dele ficasse…)

Em equilíbrio! E em ordem a Deus. Isso, a meu ver é capital inclusive para que incontáveis filhos meus se compreendam a si próprios. Quer dizer, compreendam que eles deixarão de atormentar os próprios nervos meio por si, na medida em que eles forem abrindo os espaços mentais próprios para a admiração das incompreensibilidades. Eu acho que aqui está o verdadeiro [tirona R.?] [tirón revolucionário]. Como poucas vezes ela foi levada.

(…)

Eu tenho impressão de que [por] mais que eu tenha procurado fazer na RCR uma coisa, fazer mais possível ressaltar o compreensível, jorra o incompreensível dali de dentro. E eu fiquei muito contente ao verificar isso, que não estava na minha intenção, mas que eu reputo uma graça, porque sem isso o fenômeno RCR não seria entendido.

(Sr. Gonzalo Larraín: É o que mais se sente na RCR é isso.)

Entretanto, é muito lógico.

(Sr. Gonzalo Larraín: Por detrás se vê um mistério bom. Fica um mistério por cima disso.)

É exatamente, é. É mais ou menos como quem voa no ar, sobe, sobe, sobe, o azul ele nunca atinge.

(Sr. Gonzalo Larraín: O “thau” tem muito disso.)

Muito, muito.

(Sr. Gonzalo Larraín: Tem tendência a amar muito a incompreensibilidade.)

É isso.

(Sr. Gonzalo Larraín: Pessoas assim não entendem isso… Cantoni…)

Cantoni não entende… Sabe mais? Eu acho que ele conhece a RCR melhor que eu, porque muitas partes da RCR eu nem sei se estão escritas lá ou não. Acho que o Cantoni sabe.

(Sr. Poli: O senhor quando faz referência a algo que está na RCR, usa sempre quase as mesmas palavras.)

Eu uso as mesmas palavras?

(Sr. Poli: Quase as mesmas, e muitas vezes as mesmas.)

Na minha má memória isso é singular.

Agora, isto assim eu tenho impressão de que graça dessa incompreensibilidade, a bem-aventurança… Não, vamos dizer em termos bem exatos: houve um pecado de racionalismo, eu falei há pouco do Protestantismo, etc., etc., Iluminismo, taratátátá, espírito da Revolução Francesa foi racionalista. Mas houve uma graça qualquer dada por Nossa Senhora para o século XIX, por onde muitos espíritos reagiram contra esse racionalismo. E essa reação até certo ponto foi o Romantismo, que se jogou no mundo das incompreensibilidades. Mas jogou erradamente, tocado pela sensualidade, e afinal de contas se transformou numa espécie de cultivo das artes a serviço da sensualidade, chamada amor. E isso liquidou o Romantismo.

Mas essa graça do pegar os imponderáveis, etc., etc., esta…

(Sr. Guerreiro Dantas: Isto é independente da sensualidade.)

Independente, totalmente independente. Depois o seguinte: isto ajuda prodigiosamente a combater a sensualidade. Porque já que eu falei do racionalismo que leva a pessoa a atormentar os nervos, leva também a exacerbar a própria sensualidade. Porque a sensualidade tem qualquer coisa de misterioso, e o sujeito desenvolve esse mistério explosivo, do qual ele deveria fugir, ele exacerba até a monstruosidade.

(Sr. Guerreiro Dantas: Está ligado ao poder do homem de criar…)

De poder procriar, não de criar. Bem, esse ato teria uma sublimidade enorme no Paraíso, se fosse praticado retamente. Mas não foi. Nós sabemos a história como é, e ele se deformou. E a sensibilidade humana ficou muito prejudicada com isso. Mas é certo que ele está de tal maneira deformado, que ele se mistura muitas vezes, se esconde como uma cobra pode se esconder num capinzal bonito, assim se esconde no terreno da sensibilidade a sensualidade. E o século XIX fez isso misturadamente.

Mas houve algumas almas do século XIX que tiveram muita coisa assim, que vinham da orientação boa, natural, de alguns aspectos do século, mais a graça. Manifestação interessantíssima disso é o renouveau do gótico, uma manifestação interessantíssima disso.

Bem, manifestação tocante disso é a “História de uma alma” de Santa Teresinha do Menino Jesus. Ela tem muitas vezes assim uns vôos de alma no livro dela, “oh! Ma soeur”, etc, coisas assim, incompreensibilidade, meio metafísica, meio místicas, etc., que povoam a alma dela.

Bem, eu conheci uma senhora com mais ou menos a idade de Santa Teresinha, nascida no tempo de Santa Teresinha, parece-me que no ano de Santa Teresinha, não tenho certeza.

(Sr. Gonzalo Larraín: Parece que no mesmo ano.)

No mesmo ano de Santa Teresinha. E tinha a alma povoada de coisas dessas no melhor sentido da palavra e que era toda ela uma manifestação discretamente silenciosa, carinhosa, afável, desta sensibilidade, dessa incompreensibilidade. E que a meu ver exerce o apostolado disso, especificamente disso, ela exerce o apostolado disso sobre nós, sobre a TFP. E que age assim sobre nós de modos muito variados, muito especiais, mas imponderáveis, a respeito dos quais não é possível fazer um livrinho. Porque para pôr tudo isso num livrinho, sabe o que vão dizer? Que é enchimento de lingüiça feito pelo filho dela à vista da carência de fatos palpáveis que a vida dela apresentou. Vida de uma excelente senhora, mas como há muitas, da geração dela houve muitas — ao menos para olhar assim por alto houve muitas, que fizeram o que ela fez —, mas que não fizeram com a elevação de alma com ela fez.

E que é, a bem dizer, o mistério dela e o apostolado dela.

Então, vocês têm, por exemplo, aqui dois salões, o apartamento de um modo geral, povoado de incompreensibilidade e assim. E que, às vezes, se tem a impressão de que ela esteve aqui à tarde, que ela há pouco estava em pezinha aí perto rezando. Mas que a gente não sabe dizer como é, mas que na mais alta medida foi isso.

(Sr. Gonzalo Larraín: E porque o senhor dizia que não chegava a compreender o carinho dela enquanto mãe de todo mundo? Porque isso pareceria um dos lados incompreensíveis dela…)

É, era incompreensível. Já no meu tempo de São Luís, era menino, eu tinha meus primos meninos, e tinha meninos no colégio. Eu, às vezes, contava história de um menino, outro, qualquer coisa assim, etc., etc., e às vezes entrava pelo meio da narração uma história de tal menino ou tal outro menino, que contava acidentalmente — como qualquer um de vocês contou nas suas casas —, tem um defeito físico. Um por exemplo, é muito gago; um outro eu me lembro que era manco, ele usava um sapato com uma sola dessa grossura assim. Uma coisa dessas um menino vê, chama atenção, chega em casa, conta. Isso é fato banal da vida.

Se me acontecia contar diante dela, ela se interessava e dizia: “Coitadinho, que pena, etc., etc”, mas como se fosse mãe dele. Com uma proteção… Assim, situações dessas. E certos personagens, certo modos pelos quais ela contava, acredito — são personagens que eu não conheci, que ela conheceu antes de eu nascer, portanto não conheci — mas eu acredito que ela contava mitificando um tanto. Como Santa Teresinha tinha um tio M. Guerin, herdou depois um castelinho e arranjou um jeito de se meter dentro da nobrezinha de Lisieux, e ficar muito mundano, etc., etc. Em certo momento, antes disso, ela escreveu uma carta a M. Guerin, dizendo que ele era um verdadeiro santo… Era tio dela.

[Vira a fita]

(…)

* * * * *