Conversa
Sábado à Noite – 14/2/1987 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 14/2/1987 — Sábado [VF 049] (Augusto César)
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…mais ricos nessa formulação é o emprego da palavra porque designa como beatitude um estado de alma que, no fundo, o mundo moderno tem como desgraça. Colocar-se diante do incompreensível, amar o incompreensível, ter a bem-aventurança é incompreensível para o mundo moderno.
O que vem a ser propriamente a beatitude incomprehensibilitatis? Que é o ponto de partida. Não é evidentemente a bem-aventurança de não compreender nada, nem era essa bem-aventurança de São Miguel Arcanjo, Anjo, Espírito lucidíssimo e, portanto, compreendendo um mundo de coisas, mas compreendendo em Deus, que em Deus há coisas incompreensíveis para ele, Anjo. Bem, e ele que ao mesmo tempo tem a bem-aventurança de entender coisas e de ter o que ele entende em Deus; ele tem uma bem-aventurança oposta daquilo que ele não entende, de conhecer em Deus, a coisa que ele não entende. Isto é uma bem-aventurança.
Quer dizer, o amor ao mistério como é que se explica na alma do homem?
Se vocês imaginarem o ensino, que tiveram, secundário ou universitário, o que for, se vocês forem se lembrar disso, vocês chegam a conclusão que lhes foi apresentado sempre, [entredentes?] ou claramente, como for, que o desconhecido e o incompreensível são desventuras do homem e que a condição humana se torna mais feliz à medida que o homem compreende mais porque o ponto ômega, o ponto ideal do homem seria no dia em que ele tivesse conseguido decifra todas as coisas do Universo, conhecesse o Universo inteiro. Aí a Humanidade teria adquirido os elementos para uma bem-aventurança verdadeira…
Tudo isto é um conceito laico. Eu ao menos fui — muito antes de vocês — educado nessa idéia. Não, bem entendido, por mamãe, mas pelo ambiente escolar que eu segui desde o São Luís até não sei quando… Eu fui formado nesta idéia.
Bem e senti sempre um protesto de minha alma contra isto porque eu me sentia meio extorquido de dentro de minhas proporções naturais, como por um alicate que [tira] um bicho de dentro de sua concha pelo racionalismo. Querer esperar de minha razão que ela explique tudo; [querer] imaginar que eu, [que a] condição natural minha, seria entender tudo; querer suprimir os mistérios!? É uma coisa que não vai comigo.
Até acho que quanto mais eu convivo agradavelmente com os mistérios que eu não alcanço, cujos sentidos eu talvez algum dia alcance — vou ficar mais velho: é natural que deixem de ser mistérios para mim, mas que talvez eu não alcance nunca, que talvez nenhum homem alcance —, quanto mais eu conviva afetuosamente com eles, tanto mais eu sinto que minha razão toma não sei que força, minha lógica toma não sei que concatenação, que vigor, que vem o húmus daquilo que eu não compreendo.
Eu acho que para eu compreender tudo, eu precisaria me interessar por tudo, porque do contrário não adianta compreender aquilo que não interessa. Eu sinto que meu ser não tem uma envergadura suficiente para se interessar por tudo. Imagine que eu tivesse que saber a composição física de todos os astros! É para mim um mistério! Eu não queria, eu não me interesso! Eu vou lá saber se tem zircônio em Saturno!? Não quero! Não tenho nada que ver com isto. Saturno que guarde seus zircônios e dê glória a Deus dessa maneira! Eu estou aqui sem zircônio e sem Saturno. Está acabado.
Mas isto é o ignoto; não é propriamente o misterioso. “Misterioso” é coisa que não se pode decifrar.
Eu dou um exemplo: todo o mundo dos fantasmas.
Como todo o mundo, eu não tardei muito em perceber que há um mundo de potoca no meio da questão dos fantasmas, mas que há um fundo de realidade. Bem, olhar dos fantasmas através da Revelação, a explicação é uma. Está muito claro, está muito bem. Mas a olhá-los pelo que aparece deles, são todos misteriosos, não é negável. E meu ser não padece com a idéia de que há seres misteriosos assim, que de vez em quando se misturam conosco. Eu não queria ter contacto com eles, mas que de vez em quando se misturam conosco e de algum modo fazem parte do mundo do homem. Porque, pelo contrário, percebendo que há uma ordem de coisas — percebendo pelos sentidos — que há uma ordem de coisas muito mais alta, muito mais misteriosa, me sinto engrandecido. O que eu não compreendo, me eleva, quando é um verdadeiro incompreensível. Não é incompreensão fruto da preguiça, da burrice. Não! Um incompreensível verdadeiro de um homem de inteligência comum.
Por causa disso exatamente, eu sempre gostei muito de notar no gótico um certo mistério. O estilo gótico sempre me pareceu um estilo que tem, assim, recantos misteriosos, tem encantos misteriosos, tem belezas misteriosas, a gente não decifra inteiramente o gótico. Por exemplo, por que a ogiva causa ao espírito católico aquele deleite especial? A meu ver não se explica. Eu sei que há explicações: são dois braços que são [pêem?] em cruz… Mas a coisa não é isto! São coisas bonitas de se dizer, etc. Tem um pouco de razão, mas é só? É só?
Por exemplo, vitral.
Em certas cores de um vitral a gente apreciar qualquer coisa de quase inefável que aquela cor tem, porque tem um certo mistério. Bem, aquele mistério excede a minha cabeça e no exceder, eu percebo que o Universo é muito maior do que eu. Eu fico encantado! Querer outra coisa seria como querer ter as estrelas à altura das lâmpadas elétricas para brincar com elas. Isto eu não queria nunca! Baixaria o nível de tudo, que desapontamento! Esse mundo de bolas penduradas aqui perto de mim! Eu aqui quero vos ver de longe.
Então esta beatitude incomprehensibilitatis favorece o espírito hierárquico porque todo superior que seja verdadeiramente superior a qualquer título é um pouco incompreensível pelo súbdito ou é muito incompreensível pelo súbdito. E nesse incompreensível dele está o que torna mais fácil para nós obedecermos. Eu gosto muito disso.
Paisagens, por exemplo, com névoas, com garoas… Paisagens escocesas, por exemplo. O encanto é de uma difícil visibilidades das coisas, de um mistério que paira nas coisas, os lagos escoceses, os castelos escoceses, a bruma escocesa tem um encanto próprio que uma visão comum da rua Alagoas às duas da tarde absolutamente não tem para mim. É uma coisa evidente.
Bem, é o quê? É o encanto, os mil encantos do incompreensível que há no Universo que nos levam a querer ter por cima de nós toda uma hierarquia de incompreensibilidades humanas.
(…)
…tem, tem, tem. E alguns exatamente se esforçam por dar a idéia que tem tudo de compreensível. D. Mayer é um. Aquelas brincadeiras dele, aquelas coisas dele toda era uma ostentação de que nele nada havia de incompreensível. Ora, o superior tem sempre uma incompreensibilidade; o marido deve ser ligeiramente incompreensível para a mulher; o pai deve ser incompreensível para os filhos, meio incompreensão, uma nota de incompreensibilidade; o professor com os alunos; o patrão com os empregados… Isto é a beatitudo da incomprehensabilitatis. O Papado: que mistério! Que mistério!
Quando eu li que São Pio X aparece com freqüência no Vaticano, eu tomo como uma coisa, eu… Já me tinha passado pela cabeça, porque é mesmo. Ele aparece para advertir, aparece para falar, etc. Eles… toda a Igreja moderna, a “Estrutura” visa arrancar de si mesma isto.
(Sr. Gonzalo Larraín: E o que é o “isto” propriamente?)
Eu tenho visto muitas fotografias, de príncipes pagãos. Não tem esta incompreensibilidade. Quando eles têm, é uma espécie de incompreensibilidade do mal. Por exemplo, um faraó, é densamente incompreensível, mas do mal; é banal que as Pirâmides, esfinges, tem incompreensibilidades, isto é banal; mas são incompreensibilidades malfazejas, mal intencionadas, etc., etc. Mas já é outra coisa.
(Sr. Gonzalo Larraín: Mas e do lado bom?)
Creio que é uma certa transparência de uma certa graça, que talvez o Sacramento, ou o sacramental, da coroação ou a graça de estado dada pela ordem natural, quer dizer dada em razão da ordem natural, não pela, mas em razão da ordem natural das coisas, talvez explique isto.
Isto está no tema que vocês tinham [perguntado São Miguel?].
(Sr. Poli: A família imperial foi um exemplo.)
Um exemplo; é o mal dos bons exemplos, é que desviam um pouco. A gente pode tocar para frente, há meios de ir para frente.
Então, Paulo Henrique, você quer me desligar este negócio? É melhor você tirar da parede; assim não lhe dá nenhum trabalho. Acabou a história; pronto.
Queria dizer o seguinte: daí nasce um senso hierárquico…
(…)
…preciso estudar isto no Cornélio — não sei quando é que eu vou ver o Cornélio —, mas eu tenho a impressão de que isto se explica no mais profundo a revolta de Lúcifer e o brado de São Miguel. São Miguel por seu ser está — no nome Michæl, “quem como Deus?” — uma espécie de preservação de que Deus tem coisas que outros não tem, que ninguém é igual a Ele, o que instala bem as incompreensibilidades dele dentro da Ordem. Ele, sendo Deus, tem o direito e tem até o dever de ter incompreensibilidades e, por causa disso, Ele tendo revelado que Ele ia fazer a Encarnação, pan, pan, pan… ainda que os Anjos não compreendessem, deveriam amar esta incompreensibilidade d’Ele. Daí veio a coisa. Lúcifer disse: “Non serviam” — “Eu não servirei”; quer dizer, “eu não acho lógico”, “não acho razoável”, portanto, “não servirei”. “Não compreendo, recuso!”
São Miguel que tem a beatitudo da incompreensibilidade, São Miguel… Outra coisa: ele não compreende, por isto aceita. Quer dizer, me parece muito explicável. Eu estou claro?
Agora, daí então batalha.
Aqui vem outro lado. É que — não sei se vou conseguir me exprimir bem — mas o amor à incompreensibilidade faz o seguinte: a compreensibilidade face a seres que estão em período de prova é sempre um aspecto de Deus que está desafiando o homem. Como o homem tem — o homem e o Anjo — pelo seu lado espiritual, tem uma certa tendência a compreender tudo, a incompreensibilidade é uma afirmação de superioridade de Deus que pede um ato de humildade contínuo.
Quem tem esta bem-aventurança do incompreensível, ele tem, por assim dizer, uma bem-aventurança de adorar a Deus enquanto Desafiante e Vencedor — se eu estiver obscuro me digam que eu explico com muito gosto —, Desafiante e Vencedor, Inatingível, “ninguém pode com Deus”.
Eu quando conversei com vocês sobre isto assim numa mesa de almoço, não aprofundei tanto, mas o incompreensível para o ser racional tem qualquer coisa de desafio, porque quer dizer o seguinte: “Isto eu não te dou!”
(Sr. João Clá: É lindíssimo. Há aspectos de Deus que nem Nossa Senhora entende.)
Ninguém. E nisto Ele é adorável, é um elemento de beatitude para o espírito humilde e não é para o espírito orgulhoso. Deus se põe como um divisor de águas por aí. Você imagina o seguinte: um homem que tem um tesouro enorme, que ele nos dá muito mais do que jamais poderíamos supor e ele diz o seguinte: “Meu caro, vocês está vendo aquela parede? Ali por detrás está murado um tesouro muito melhor que este e que você jamais poderá ver.” Existe o risco desse homem sair um inimigo?
Eu acho este um tema lindíssimo. Depois, ordenativo do espírito humano no mais alto grau. Então, compreende-se que se ele é o adorador — e de maneira eminente — da incompreensibilidade, ele seja o batalhador.
(Sr. –: São Miguel?)
São Miguel.
(Sr. Paulo Henrique: Se ele é capaz desse amor, ele luta.)
Luta. Está na natureza dele e por isto ele se chama: “Quem como Deus!?” Quer dizer, ele é contra-revolucionário por excelência. Parece-me estupendíssimo.
(Sr. –: Extraordinário. Na visão beatífica, a pessoa vai poder aprofundar um pouco nestes mistérios, mas serão sempre mistérios para toda a eternidade).
Para toda a eternidade. Você imagine que o tal homem benfeitor nosso, nos diga até uma coisa até mais pontuda; Ele [dissesse] o seguinte: “Eu, naquela câmara lá, eu tenho tesouros que você nunca verá. Eu contemplo estes tesouros continuamente e não posso lhe dizer como são, mas, olhando-me, você vê em mim alguns reflexos do que eu não posso te contar. Contente-se com isto.”
Você não conhece muita gente que se revoltaria embora estivesse abarrotada de presentes? Cada brilhante desse tamanho… Corria ou não corria o risco de se revoltar? Está cheio de gente aqui, que anda pela rua, que se revoltaria com menos do que isto.
(Sr. Gonzalo Larraín: É o centro do problema RCR.)
É, é um frisson.
Agora…
(…)
…eu acho que o fio do raciocínio, tanto quanto suponho eu… Eu não estudei Teologia, eu dobro a língua se isso tiver alguma coisa que não esteja de acordo com a doutrina católica, mas a mim me parece seguríssimo e me entusiasma dizer, já me entusiasma. Esta é a humildade!
(Sr. Paulo Henrique: É humildade, nada “heresia branca”; outra é orgulho revolucionário.)
Isto é que é bonito.
(…)
…mas então eu queria que a atenção de vocês se concentrasse sobre este ponto: Como isto é gênero TFP a mais não poder! Quem não tenha compreendido isto, é como quem na TFP… É como quem olha para a corola de uma flor, olha para flor e não vê a corola. Não viu a flor! Como é que aquelas pétalas se concatenam, como é que aquilo forma um unum… Não percebeu. Que adianta?
Parece-me que isto é assim.
(Sr. Gonzalo Larraín: Nas diferentes instituições tem a seu modo esta virtude da incompreensibilidade. Ver o Papado… Ver a ordem profética, a seu modo, é diferente.)
Na ordem profética? É o profetismo, não é?
(Sr. Gonzalo Larraín: Sim. Agora, onde [está] a diferença?)
Se você me permitir, eu daqui a pouco trato da questão, depois que eu tenha desenvolvido as três bem-aventuranças subsidiárias, para o que o assunto fique tratado em toda a sua amplitude, depois eu trato disso, se Deus quiser.
Esta bem-aventurança, nela se vê, como num critério, três aspectos. Se quiser, uma visão trinitária, três aspectos.
Primeiro aspecto é o aspecto do furor. É constatada a negação: a primeira reação histórica dentro do homem é o furor. É a exclamação de São Miguel: “Quis ut Deus!?” A qual, se seguiu a luta. A luta é o furor da justiça, a bem-aventurança da Justiça e a bem-aventurança do estrago, da destruição.
Qual é a bem-aventurança, aqui, da Justiça? Diante da coisa que causou furor, porque [é] ilegítima, ilícita, a justiça quer eliminar o que é injusto e estabelecer o que é justo. Não sei se está claro?
Isto se exprime no homem, por exemplo, diante da idéia de uma revolução debelada.
No século passado, 1848, por volta daquilo — se não me engano — houve uma revolução de fundo carbonário em Viena. O Imperador da Áustria, não tendo como debelar, convocou um príncipe austríaco [Shwassenberg?] com exército e mandou o exército tocar em cima de Viena e liquidar. O [Shwassenberg?] entrou e pôs numa polvorosa aquela cachorrada e Viena ficou tranqüilizada, até 1918. Portanto, [em] cinqüenta anos, não houve revolta em Viena.
Bem, saber disto é uma alegria da justiça feita. Uns carbonários imundos, inimigos da Religião, inimigos de toda a ordem querem se erigir os modeladores daquilo que eles deveriam obedecer. Então: por cima deles! Está acabado o negócio; não tem mais conversa!
Depois o furor do estrago: não basta restabelecer a ordem, é preciso punir porque a punição é uma espécie de ordem superior diante de Deus. É preciso castigar e fazer com aquele ser que se apropriou indebitamente do gáudio que ele não tinha direito de ter, roubar uma bem-aventurança de Deus… Quis roubar. Satanás não roubou, mas quis roubar. Mas, ele proporcionou-se a si mesmo no ato da revolta uma espécie de gáudio. É preciso que isto lhe seja arrancado e arrancado para todo o sempre e aí, a punição eterna.
Você me dirá, mas por que eterna?
Porque o Anjo não tem contrição. Ele pecou, pecou para todo sempre; está na natureza dele. Então, castigado para todo sempre. Uma série de aspectos da doutrina católica, disso, daquilo, que são… ficam assim meio no brouhaha, a meu ver esclarecem luminosamente, mas luminosamente.
(Sr. –: Magnífico.)
Alguém então me objetaria: “Mas não há também a beatitudo do perdão?”
Sim. Mas não se aplicaria para o caso do Anjos porque eles não são susceptíveis de perdão porque não está na natureza deles se arrependerem. Eles pecando, pecam para todo o sempre. Então não entra na cogitação daquele fato histórico.
(Sr. João Clá: Não há emenda da parte deles.)
Não se emendam, nada. Não se arrependem, nem nada. É ontologicamente impossível. Então, não vamos perder tempo falando em perdão nesta matéria.
Aí vocês compreendem que uma pessoa possa ter, como o Profeta Elias, anseio da punição de Deus na Terra. Compreende-se. É o que se compreende. O que não for isto não é nada. Eu acho isto tão bonito, tão direito, tão bem posto que a mim me enche a alma.
(Sr. –: Uma virtude há intercâmbio com a outra.)
Isto. O que é um juiz que não pune? Ele não é juiz! Portanto, precisa punir.
Um exemplo na ordem terrena.
Em princípio é muito mais bonito perdoar ao pecador do que castigá-lo; pelo menos aplicar nele todo o castigo. Mas vamos supor que o princípio levasse a tal ponto que nenhum crime fosse punido! Ficaria hediondo, não vai! Para a boa ordenação das coisas é preciso, em princípio, havendo crimes, [que] haja castigo. Ainda que esses crimes sejam, em dose maior ou menor, perdoados, é preciso.
A prova disto é o Purgatório.
Deus ama seus santos. Entretanto, é correntemente admitido que muitos santos passam pelo Purgatório. Deus, então, pleno de amor para com as almas do Purgatório, mas deixando-se torrar cem anos, duzentos anos, quinhentos, sabe-se quanto tempo… Algum castigo é preciso.
(Sr. João Clá: O senso de justiça é tão grande que se houvesse um Purgatório mais terrível, com mais sofrimento, as almas todas se lançariam neste outro Purgatório.)
Nunca vi isto, é?
(Sr. João Clá: É certo.)
Coisa bonita isto. Aí que está. Quer dizer, ninguém pensa no Purgatório! Não tem o direito de não pensar. É uma verdade de Fé!
Alguém dirá:
— Mas não seria mais bonito que Deus perdoasse a todos? Deus não é obrigado a fazer sempre o mais alto possível, Ele age do gênero de um modo irrepreensível e quando nossas almas pedem coisas do gênero, age de modo repreensível.
— Seu “heresia branca”! Não tolero que você venha me fazer impugnações. Está acabado, não me amolem.
Aqui vocês têm a TFP inteira, inclusive as mil coisas que a TFP faz para evitar que o indivíduo peque. Para fazer com que ele começando a pecar seja mantido, seja contido na rama do pecado e seja elevado. Mil perdões que há dentro da TFP… É tanto, tanto, tanto, que eu não sei o que dizer. Mas há um limite!
(Sr. Gonzalo Larraín: A Revolução é contrária.)
Especificamente o contrário disso. O revolucionário é como um Anjo perdido, participa do pecado do demônio.
(Sr. Gonzalo Larraín: A conversão de um revolucionário é dura.)
É dura. É isto sim.
(Sr. Gonzalo Larraín: É uma luz sobre a questão da “Bagarre”.)
Muito, muito. Sobre a matéria da reunião de hoje à tarde. Em Fátima, quando Nossa Senhora diz que nações vão desaparecer, o Papa terá muito que sofrer, etc.
Quer dizer, isto seria o total. Agora a pergunta do Gonzalo. Antes queria, se você permite, dizer apenas mais uma coisa: isto se explica porque nas nossas dificuldades é indicado pedirmos apoio de São Miguel, que reze a Nossa Senhora por nós para conseguir vitórias sobre este ponto, sobre aquele outro; vitórias sobre tal tentação, tal demônio, etc., etc., não é?
E que ele seja o padroeiro da Contra-Revolução na Terra. A tal ponto que se nós tivéssemos uma bonita imagem de São Miguel, eu seria a favor de que se fizesse no jardim da Sede do Reino de Maria, uma capelinha em louvor de São Miguel. O João pode muita coisa, fazer aparecer uma imagem condigna de São Miguel. Acho feliz.
Bem, Gonzalo…
(Sr. Gonzalo Larraín: A questão da incompreensibilidade nas diversas instituições. Na TFP tem incompreensibilidades.)
Tem, tem.
(Sr. Gonzalo Larraín: Ou aceitam esta incompreensibilidade, ou a “Bagarre” liquida.)
Isto é certo.
Quer dizer, em essência, o profetismo é… resulta dos desígnios de Deus de fazer compreender por lampejos, ou por metáforas, ou de outras formas quaisquer, uma ou outra vez, de modo inteiramente taxativo, desígnios que Ele tem e que o homem por si não poderia alcançar. E que Deus não teria obrigação de revelar ao homem, mas na sua bondade Ele revela, mas Ele revela conservando na Mensagem Profética, exatamente, a riqueza das incompreensibilidades para que alguma coisa chegue até o homem.
Agora, esta grandeza espelha, portanto, a Deus enquanto revelando, manifestando algo, mais carregado dos mistérios da incompreensibilidade porque estão meio desvendados num ponto. É uma coisa curiosa.
Quer dizer, eu posso dizer o seguinte: Lembram-se daquela metáfora do homem que tem uma câmara cheia de jóias, etc., etc.? Eu posso… Estas pedras preciosas, este ouro, prata, etc., nunca poderá ver, mas eu posso dar a você uma certa idéia disso porque pintei para você alguma coisa de extraordinariamente parecido com isto.
(…)
…do incompreensível, mas você ficou ao mesmo tempo tocando as mãos como é mais profundo do que você imaginava. Nisto o incompreensível não abdicou de nada da sua majestade, ao contrário, mas elevou você de algum modo um pouco até ele…
[Vira a fita]
…coisas de Deus, a criatura humilde que amou o incompreensível. Ele desvenda um pouco daquilo que é dele, mas ao desvendar, Ele faz ver que é mais incompreensível do que a pessoa imagina.
É uma coisa curiosa de Deus — creio que é com Moisés no Monte Sinai: “Eu vou te aparecer, mas de costas, porque se Me vires de frentes, morrerás.” Vendo que ele não pode pela natureza d’Ele fazer-se compreender inteiramente, mas Ele pode mostrar assim mesmo de costas. Mas depois de ter visto de costas, se compreende, se percebe, como Ele é maior [do] que o espírito humano é capaz de excogitar, que ele é mais misterioso, do que o espírito humano é capaz de excogitar. Não há uma contradição nisto.
Quer dizer, isto é uma jóia, não sei, um lago onde quanto mais a gente se aprofunda, mais a gente vê belezas, ordem, tranqüilidade do espírito, etc., etc.. Não tem limite.
(Sr. João Clá: No convívio com a Sra. Da. Lucilia, a gente pergunta o que ela transmitia. Não [se] consegue, não é explícito, mas mostrando para outros a gente transmite o mistério. O grande do benefício não é tanto o que disse, mas este inexplícito.)
Eu, como filho…! Não é caso de falar de coisas que está aí fora, tratar de outras coisas.
(Sr. João Clá: Este mistério exige uma posição de humildade, mas ao mesmo tempo ele atrai.)
Atrai, é isto, mas é o próprio da incompreensibilidade ser incompreensível! Mas vamos dizer: a incompreensibilidade tem quase a sua mística. Bonito é que logo depois de ter começado a rezar a São Miguel, pedindo graças a ele, aparecer per accidens, num trecho do [Pancorro?], esta jóia.
Sabe o que mais? Isto dá repouso a alma, sabe disso? Há uma frase [em] um salmo que diz o seguinte: “Diga o justo que tudo está bem.” Aqui parece dizer: “Diga o membro da TFP que tudo está bem.” Tudo está em ordem, tudo é assim, que se explica, não tenho dúvida, etc., etc.…
Quanto nós andamos até chegar a este ponto? Quanto aconteceu que nós fomos construindo pedacinhos disso, daquilo, daquilo outro até que batendo [a] luz desse texto: psit! Fiat lux! In lumine tuo, videbimus lumen, na Luz de Deus veremos a Luz, a Luz de Nosso Senhor Jesus Cristo.
(Sr. Gonzalo Larraín: A TFP fica muito explicada. Mas o que houve foi um “rechazo” a isto. Eu não compreendo, logo, “Bagarre” azul etc.)
É isto.
(Sr. João Clá: Na primeira reunião da Sempre Viva o senhor trata disso comentando uma poesia de São João da Cruz: “Eu desci tão baixo, que toquei com as mãos nas estrelas.”)
Lembro-me disso.
(Sr. João Clá: O senhor mostrava como um membro da Sempre Viva obedecia mesmo não entendendo.)
É isto sim.
(Sr. Gonzalo Larraín: Podemos noutra reunião continuar.)
Se vocês lembrarem, sim.
(Sr. Gonzalo Larraín: A RCR tem muito disto: a pessoa vê algo maior que não compreende.)
Vê a grandeza de Deus. Por que [é] que a grandeza de Deus não deve se espelhar na luta dos justos contra os maus? Bom, vamos agradecer a Nossa Senhora.
“Há momentos minha Mãe…”
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