Conversa
a Sábado à Noite – 31/1/1987 – p.
Conversa Sábado à Noite — 31/1/1987 — Sábado [VF 049] (Augusto César)
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Vamos sentar, meus caros.
Pareceu-me que o ponto ficou excelente (faixa), para outras coisas do gênero excelente. Uma coisa que dá um pouco de preocupação, mas não está ventando muito, aquelas ranhuras feitas no pano, não serão um pouco estreitas demais para evitar o efeito do vento? Não deviam ser mais largas?
(Sr. –: Não tenho idéia.)
Porque o que eu tenho visto é uma coisa muito feia — vocês devem ter visto também: as ranhuras são feitas em forma circular e não em forma longitudinal. Se compreende [que haja] várias para que o vento… não faz resistência.
Eu tenho a impressão que naquela esquina é mais larga do que as outras esquinas do bairro. Não sei porquê. Forma quase uma pracinha, em certas horas deve ter vento lá, bastante vento e se aquilo ficar pernibambo, pode prejudicar. Vamos ver a experiência.
(Sr. –: Tem várias cordas.)
Não examinei, de maneira que está bem firme?
(Sr. –: Parece que está, mas com estes ventos de verão.)
É, depois em São Paulo onde em matéria de [meteorologia?] tudo é possível.
Mas proponho que entremos nos nossos temas, porque a reunião de admissão dos novos, consagração dos jovens, foi muito longe, porque eles eram muitos, chegamos tarde etc., etc., e por isto não termos muito tempo diante de nós. Vamos entrar nos nossos temas.
(…)
(Sr. Gonzalo Larraín: Pareceu-me que seria o tema da penitência. Mas para nós [voltarmos] a ver todas nossas faltas, seria voltar a todas as porcarias que fez. Parece que não seria o caso de voltar a este mundo. Mas o Sr. Poli levantou uma questão que seria: que no nosso caso especialmente no que diz respeito a 67, que este pecado é feito no fundo contra o senhor. Então a nossa penitência parece ser outra coisa que não as doutrinas clássicas de penitência, mas estaria voltada para o senhor, no sentido de desagravarmos tudo o que fizemos contra o senhor. Gostaríamos que o senhor tratasse sem nenhum receio.)
(Sr. Poli: Para mim, a nossa penitência [é] abrir os olhos para o senhor e avaliar o mal que foi o não ter aberto os olhos antes.)
Eu acho a matéria extremamente delicada e melindrosa. Quer dizer, se o senhor está disposto a tratar da questão com toda a largueza, rationabiliter, ainda que fosse atribuir-me e argüir-me com severidade: “Você não podia ter feito isto, não podia ser assim, não podia pensar assim, não poderia querer assim, porque não tem propósito etc., etc., etc.”
Lembram-se daquela fita de São Pio X? Eu comentei isto, a biografia de São Pio X, que arrebenta a Primeira Guerra Mundial e São Pio X começa a andar numa galeria do Vaticano, com afrescos, tapeçarias, etc., em que ele vê, entre outras coisas, Átila caminhar de encontro ao Papa São Leão I — se não me engano— [que] expulsa Átila, estabelece a paz em Roma e tem outras coisas assim… E ele começa a falar sozinho, se increpando a si próprio: “Está vendo, se eu não tivesse tal defeito, ou se no passado eu não tivesse tal pecado, eu era homem de chegar para estes Átilas modernos e falar e impor a paz, mas o que eu sou? Eu sou o Papa Sarto, porque em mim tais coisas assim…”
E julgando-se assim, fazendo esta crítica feroz a si mesmo.
E o secretário dele, sentado junto a uma mesinha na galeria, esperando, estando ali à disposição, às ordens do Papa. Então, ouvindo aquilo e vendo que ele não tinha proporção para ajudar o Papa naquele transe, faz uma oração: “Ó Deus, ajudai a este juiz implacável de si próprio.”
Eu me lembro que quando eu vi na fita — aliás, uma linda fita — quando eu vi isto na fita eu pensei, pedi a Nossa Senhora: “Dai-me a graça de ser um juiz implacável de mim mesmo. Mas atendei a minha natureza humana e ajudai-me quando o peso de minha recriminação for maior do que as minhas forças. Dai-me forças para agüentar.”
Isto é a penitência, antes de tudo e mais nada, é reconhecer. E não é só reconhecer aquilo que eu sei que fiz — pode não ter sido tanta coisa —, mas aquilo que eu desconfio que pode ter entrado de não-reto no meu pensamento. É o tal pecado oculto que o homem comete porque anda mal, mas ele não vê. E um pecado oculto já pode afastar de nós os caminhos de Deus. Ter esta severidade consigo mesmo, severidade leal, humilde, “isto pode acontecer-me” e, portanto, de frente, recrimine, viva em estado de recriminação contínua consigo mesmo, não permita a si próprio o mínimo comprazimento consigo mesmo e fuja como de uma lepra de formar a respeito de suas boas ações um conceito que você se deleite. Faça isto, Plinio, e você terá apresentado uma tal ou qual penitência.
Isto é um estado normal de um católico nesta vida. E é um estado normal de um membro da TFP.
Mas é patente que nós não queremos viver neste estado, é patente. Quer dizer nós queremos fazer bons juízos de nós: “Temos uma porção de atenuantes!”
Meu Anjo da Guarda que alegue [minhas atenuantes] diante de Deus. Eu estou à procura das minhas agravantes, essas é que eu tenho que conhecer, para dar a Deus as contas da reparação que eu devo por meio de Nossa Senhora.
Aqui está a questão por inteiro, mas por inteiro, por exemplo, aqui…
(…)
…sempre me perguntar se eu não tenho nisto uma responsabilidade qualquer. Não é porque eu tenha cometido um pecado, que é um pecado do qual eu tenho que me confessar, mas a minha generosidade foi até onde devia ir? É uma pergunta que eu tenho que me fazer.
Agora, é uma pergunta que nós temos que fazer a nós mesmos, cada um de nós. Ou não? Eu estou errado?
(Sr. –: Inteiramente.)
Bom, meus filhos, que eu posso fazer?
(Sr. Gonzalo Larraín: Este tema esta fazendo uma falta tremenda.)
Ah, está. É humilde, não ter humildade é orgulho. Quer que eu diga mais: Muitas vezes chega até à petulância, muitas vezes. Quantas e quantas vezes!
Agora não está no papel dos escravos se perguntarem… Não está no papel de vocês se perguntarem se a culpa não seria minha, se eu fosse mais perfeito. Esta pergunta é minha, não é de vocês.
(Sr. Gonzalo Larraín: Claro, se meu senhor se põe este problema, nós então temos que enterrar nossa cabeça não sei em que areias.)
Ah, meu filho! É o caso mesmo. Eu aconselho muito, eu aconselho muito, quanto é o caso.
Bom, meus filhos, eu não tenho remédio. Eu acho que foi uma grande graça de Nossa Senhora.
“Há momentos, Minha Mãe…”
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