Conversa
da Noite – 24/1/87 – Sábado .
Conversa da Noite — 24/1/87 — Sábado
A incompatibilidade do método de pensamento do Sr. Dr. Plinio com o método de certos intelectuais ou compositores ilustres * Há no Grupo um calor residual, natural, efeito de uma graça que já se foi, em pessoas que gostam de ouvir o que diz o Sr. Dr. Plinio * Uma tentação no Reino de Maria: “Isto tudo é tão sólido que não é preciso ter mais enlevo e viligância para assegurar a continuidade disto” * O que existe de semelhante na graça da Idade Média e a graça que tem a TFP é um conhecimento muito vivo da trascendência de Deus * A manifestação da grandeza da Igreja far-se-á sobre uma humanidade que terá uma vergonha pungente, confiante e doce do próprio pecado * Os Salmos Penitenciais: “É o Espírito Santo ofendido que ensina ao ofensor o que deve dizer a Ele”
* Como o Sr. Dr. Plinio adquiriu uma cadeira de mogno e um sofá que se encontram no primeiro andar; situação econômica difícil
(Sr. Guerreiro: Da escrivaninha aqui. O móvel parece um pouco mais avermelhado inclusive.)
Isso aqui não sei se é preparação… porque isso foi comprado na França. Não sei se é preparação de uma coisa, um verniz especial, qualquer coisa. Mas mogno em geral é bonito . Esta cadeira, Guerreiro, já tenho contado aos outros, eu comprei num tintureiro em Santos por dez mil réis. Um tintureiro de bairro. Eu vinha passando, a pé, perto do convento de São Bento, mas é um bairro de lo ultimo lá, e ele expunha roupas daquela gente nesta cadeira. Eu cheguei perto lá, estava um grupo nosso, parei e disse para ele ─ eu era bem moço então: “O senhor quer me vender essa cadeira”?
Ele era um bom homem assim, como havia uns restos naquele tempo, deu risada como quem diz: “Que gente engraçada esses rapazes, doutores que estudaram, que gente engraçada”! Disse:
─ Quero vender, por quanto é que o senhor quer?
─ Peça um preço.
─ Dez mil réis.
─ Está fechado!
Mandei vir um táxi… ele ficou pasmo. Pegar a velha cadeira dele pagar um táxi, para levar essa cadeira em algum lugar do mundo. E trouxe aqui para casa, está aqui.
(Sr. Poli: O táxi ficou mais caro do que a cadeira, ou não?)
Ah, sim, certamente, muito mais. Ele ficou pasmo. E esse sofá eu comprei num fundo de galinheiro de uma .. lá da ilha de Guarujá. Comprei por vinte mil réis.
(Sr. Paulo Henrique: Muito bonito ver o senhor montar tudo isso com essa dificuldade assim…)
Sim, porque não tenho dinheiro não é? Ou eu compro assim ou não compro nada, não é?
(Sr. Guerreiro: Isto na personalidade do senhor tem uma graça especial.)
* A incompatibilidade do método de pensamento do Sr. Dr. Plinio com o método de certos intelectuais ou compositores ilustres
Ehhh… cada um faz o que encontra a seu alcance não é? Quanto a esse modo de ser você precisa tomar em consideração que ele resulta do meu isolamento até o momento de entrar na Congregação Mariana. Porque todas as minhas considerações mais altas eu fazia, mas não tinha com quem comentar. E o resultado é que eu muitas vezes era obrigado a passar de um tema interior ─ que era uma consideração alta ─ passar para alguém que me interpelava e com quem eu tinha que conversar, e que tinha que conversar qualquer ninharia. E na hora mesma.
Mas também a ninharia ia me asfixiando, e quando eu podia eu pulava de dentro dela para uma consideração mais alta logo que possível. De maneira que essa plurivalência de planos passou a ser um hábito imposto pelas circunstâncias em menino.
Agora, em nenhum momento, nunca, eu pude compreender algumas gravuras do século XIX representando escritores ou músicos etc., com uma juba ─ que aliás eu nunca tive ─ uma juba, com a mão metida no cabelo e… “Wagner compondo a canção de não sei o quê”… Eu nunca pensei… é verdade que nunca compus nada do gênero do Wagner, mas eu nunca achei que fosse preciso martirizar a cabeça para sair qualquer coisa de dentro dela.
Se é para martirizar não vai sair nada. É melhor ficar em paz e pensar em outra coisa. Se ela der alguma coisa é sem ser martirizada. É como a terra: Não precisa espremer a terra para ver se sai… Plante uma planta lá, se der, deu; se não der, não deu.
Bom, meus caros, mas deixando essa conversa e indo aos nossos temas, o que é que me dizem, perguntam, ponderam?
(Sr. Guerreiro: Hoje houve divergência quanto aos temas…)
Hahahaha! Que coisa rara! Hahahaha! Mas quais foram os temas?
(Sr. Guerreiro: Seriam três assuntos…)
Três assuntos para quatro interlocutores!
(Sr. Guerreiro: Isso. O senhor decidiria qual o melhor. Uma levantou o Sr. Gonzalo lendo as reuniões do senhor, vendo o senhor tratar com as pessoas, a gente vê o dom que o senhor tem de elevar as almas para as altas cogitações. E isso é uma graça, evidentemente. Agora, o que seria propriamente isso, que nome o senhor daria a essa graça?)
Bom, essa seria uma pergunta. Qual é a outra?
(Sr. Guerreiro: Essa era a melhor pergunta que tínhamos. Se o senhor quiser tratar…)
Não, se for a melhor pergunta, se vocês têm em conta de melhor, vamos entrar nela.
* O Sr. Dr. Plinio comenta a atitude boa de alma de um grupo de rapazes que assistia a uma reunião
Isso que vocês descrevem assim, eu percebo de dois modos. Eu percebo que há certas pessoas muito receptivas, a quem a gente começa a falar, e produz o efeito que estava produzindo, por exemplo, ontem naqueles rapazes. E depois em vocês que estavam fora, eu tinha uma vaga suspeita de que havia gente fora ouvindo. Porque eu percebia bem ─ é uma coisa curiosa ─ que se eu fechasse aquela porta que estava aberta, com os dois batentes abertos, eu percebia que daquele hall sairiam gemidos… E não havia nenhuma razão para fechar aquilo, eu deixei aberto.
Depois também, se eu os fizesse entrar eu percebo que quebraria alguma coisa daquela unidade. E que nem vocês que estavam lá fora quereriam. Perguntei-me se não seriam vocês que estariam lá fora, mas fiquei na dúvida, porque como vocês fazem reuniões na sala de música do Caio que é muito isolada, podiam nem ter percebido que estávamos fazendo reunião na sala…
(Sr. G. Larraín: O objeto da reunião é o senhor. Seria puxado fazer a reunião e não perceber que o senhor chegou…)
Enfim, eu raciocinei assim, meio atrapalhadamente sobre isso. Agora, eu percebia que eles estavam, tinha uma graça interna qualquer, que os tornava ávidos de uma graça que estava no que eu dizia. Havia, portanto, neles algo de sedento, esta sede era uma graça de algo, e quando se lhes oferecia esta água para beber, eles bebiam sofregamente porque correspondia exatamente ao que eles queriam. E que eles estavam, a bem dizer, imersos naquilo, porque a atitude deles era essa.
Eu às vezes perguntava: “mas esse, aquele”?, para fazer falar, para não ficar gravado no gravador uma idéia errada da reunião, que era a idéia de que eu estava falando e impondo o que eu dizia. Então eu queria que no gravador registrasse que eu dava a eles mil ocasiões de falar. Mas eles não faziam quase uso da palavra, eles estavam preferindo que eu falasse.
* O Sr. Dr. Plinio serve-se de um exemplo natural ─ a iluminação para fazer uma filmagem ─ a fim de esclarecer um assunto sobre a graça
Bom, agora, eu acho que você descreve muito bem a coisa, comparando com uma espécie de botão elétrico que a gente acende, de repente aparece uma luz em que se vê tudo. Mas depois, de repente, a gente apaga a luz, e não se vê nada. E pouco antes de subir nós tínhamos tido uma experiência curiosa disso ─ uma experiência de ordem puramente natural ─ mas é o seguinte: Vieram fazer um filmezinho para passar para o pessoal lá do acampamento, em que eu dissesse alguma coisa para eles. Mas era coisa filmada. E então foi preciso super-acender a sala, que é o próprio da filmagem.
Eu não comentei nada, mas a sala super acesa com a luz da televisão muda… não se diria, mas essa sala cuja penumbra aqui é agradável, pois bem, esta sala super acesa de arrebentar, muda de cores e fica projetada para uma elevação que, uma noite qualquer, valeria a pena trazer os aparelhos, só para acender para verem. De tal maneira… Você viu bem que é um fenômeno puramente natural, mas é um fenômeno natural que projeta tudo a uma claridade diferente, e a claridade dá uma fisionomia diversa da coisa. É interessante.
Mas, por exemplo, essa parede é da cor… qualquer pintura de parede tem essa cor aqui, mas com a luz da televisão ficava com uma cor de marfim, a cor daquela esfera que você me deu, por exemplo, mas ficava com aquela cor eclatant, imagine aquele marfim sobre o qual batesse inclemente um jogo de luz, é uma coisa que é preciso ter visto para ter uma idéia do que fica.
Bem, assim também ficam os temas tratados quando vem uma graça assim. Quer dizer, bate uma luz sobre esses temas que os fazem ser vistos por um aspecto, uma coisa que é inteiramente especial. Que em parte está no meu espírito, está em parte do espírito de quem ouve, mas sobretudo e essencialmente está na graça.
Agora, isso é tanto, um tanto comparável com a impressão que causam as coisas da Idade Média. Há coisas da Idade Média que são muito bem acertadas.
* Há no Grupo um calor residual, natural, efeito de uma graça que já se foi, em pessoas que gostam de ouvir o que diz o Sr. Dr. Plinio
Eu não sei se mostrei a vocês ─ se não mostrei agora fica difícil de conseguir, mas talvez para outro sábado consiga ─ um folheto que o Caio me trouxe da Europa, Notre Dame de L’Épine. Você ouviu falar disso quando esteve na França, Paulo Henrique?
(Sr. Paulo Henrique: Não.)
Nossa Senhora do Espinho. É uma construção de bom tamanho, meio perdida na pradaria da Champagne, perto de Reims. É uma zona até pobre, se não desse o vinho Champagne era uma zona que valia até muito pouco. Mas afinal, dá ali. Mas é uma construção ideal, um sonho etc. E há umas peregrinações locais, mais freqüentes ou menos, mais concorridas ou menos, mas que vão àquela Igreja.
A gente olhando para as fotografias daquela Igreja, eu me sinto meio arrebatado para uma espécie de clave que só as coisas da Idade Média têm, e mais nada tem. É assim. Vamos dizer, o monte Saint Michel, eu nunca estive lá, mas algumas gravuras do Mont Saint Michel apontam isso. É uma coisa que a gente não sabe o que dizer. Mas que a Idade Média tinha.
Agora o que é curioso é que, quando essa graça não intervém, esse resultado de que vocês falavam ─ que existe no grupo ─ de pessoas que gostam de ouvir as coisas que conversamos no MNF, gostam de ouvir do ponto de vista natural puramente, existe. Mas é uma espécie de resíduo daquela grande graça. É mais ou menos como uma lâmpada que esteve acesa durante muito tempo, a gente apaga, ela permanece quente durante algum tempo. Assim também esse gostar do que se conversou é residual assim, com calor de resíduo.
Mas quem não recebe essa graça, não acha graça no que nós dizemos. Não tem interesse em nossa conversa, nossa conversa parece pesada, parece indigesta, e francamente não tem vontade de estar conosco. É precisamente o que se deu, em conseqüência do pecado imenso, quando a luz da Idade Média se apagou. Os próprios que moravam naqueles claustros, naquelas coisas não quiseram mais saber daquilo. Acabou-se. Houve um claustro de uma daquelas ordens de cavalaria da Espanha em que os próprios religiosos destruíram o convento gótico que tinha; não porque houvesse algum perigo de eles serem obrigados a voltar para lá, mas pelo gosto de destruir, pelo ódio daquele convento gótico que estava ali. É uma coisa especial.
Agora, o que é isso? Esta coisa o que vem a ser?
(Sr. G. Larraín: E na Contra-Revolução, digamos.)
Não, isto é a Contra-Revolução! Agora, que nome dar a isso? A gente deve fazer essa pergunta. Eu tenho certeza é de que o Grand-Retour vai ser uma enorme iluminação disso. E que o Reino de Maria só existirá porque é enquanto houver essa graça novamente restituída aos homens. Fora disso não tem perigo, não se arranja.
* Uma tentação no Reino de Maria: “Isto tudo é tão sólido que não é preciso ter mais enlevo e viligância para assegurar a continuidade disto”
Então, dar-se-á a mesma coisa do que com o gótico, fazer-se-ão coisas magníficas, aparecerá um mundo todo ele brilhante de coisas dessas. E a partir do momento primeiro, seria uma tentação do príncipe perfeito, do Príncipe Gaston de Fois do fim do Reino de Maria, seria dizer o seguinte:
“Isto está tão sólido, tão demonstrado, é tão magnífico que não corre mais risco nenhum. Até o fim do mundo que virá daqui a mais mil anos, ou mais dois mil anos, isto vai ser assim, porque é uma aquisição de uma vez feita pela humanidade. A humanidade não vai querer nem precisar outra coisa senão isto. Isto lhe basta. E ela não vai abrir mão porque não é louca de abrir mão de uma coisa dessas.
“De onde acontece que eu não preciso estar tomando diante disso uma atitude de enlevo, nem uma atitude de vigilância. Eu vou tomar isso como uma coisa que eu tenho, e que é um tesouro como o qual eu convivo”.
A partir desse momento ele fará o pecado dele. Eu acho que eu não expliquei suficientemente bem…(…)
…a partir do momento em que o magnífico com que se está familiarizado passa a ser banal, a gente passa a sentir como banal, nós pecamos contra esse magnífico. Endurecemo-nos e a coisa rui. Então, por exemplo, uma porção de casos assim na História: homens casados com esposas de uma alta categoria etc., etc., entre outras coisas também de uma grande aparência física, e que ─ ambicionadas por todos os jovens daquela geração. Elas vão, e por um desses caprichos que estão no espírito feminino, elas pegam de repente um marideco qualquer de quinta classe e optam por aquele.
A ilusão da gente: “esta aqui, até o fim da vida… este aqui, até o fim da vida vai ser um marido fiel. Porque ele pegou uma mulher tão superior a ele, que não há possibilidade de ele ter saturação nenhuma em relação a ela”. É um engano! Ao cabo de uma semana, ele que não está a altura dela, está procurando fassura na rua.
Ele não soube conviver com o magnífico, sem começar a sentir aquilo como banal.
Bem, isto vai se dar com Reino de Maria. E vai se dar muito aos poucos. Não pensem que vai ser um Gaston de Fois que pela primeira vez vai ter isso. Isso vai se dar muito aos poucos, muito aos poucos, por um entusiasmo que vai se evanescendo, que vai diminuindo. De maneira que na terceira ou quarta geração nem está acudindo a ninguém que possa ser outra a atitude da alma, a não ser aquela.
De maneira que, a meu ver, esta vai ser a queda.
(Sr. Guerreiro: Mas haverá conciliação para que esse “degradé” lento e quase imperceptível seja feito? Ou não?)
É bem possível, acho até provável… Pensando bem, é moralmente certo. Porque isso vai ser uma estrutura fortíssima, uma coisa colossal. Só destrutível por esse lado. Mas desse lado ele quase não tem defesa. Na medida em que vocês se interessam pelo assunto, depois de responder a pergunta que o Gonzalo vai fazer, eu então explico como seria a defesa.
Diga meu Gonzalo!
* O fato de Nossa Senhora chamar uma mesma alma reiteradas vezes, não quer dizer que isto signifique a regra geral
(Sr. G. Larraín: Isso não faria parte, essa graça, de um cone de alma da Contra-Revolução, e por onde propriamente o senhor mais se caracteriza? Seria a coisa por onde nós mais deveríamos dar, propriamente, e ao que nós deveríamos dar, e em função do que nós deveríamos renunciar também. Não sei se fui claro?)
Sim, foi bem claro. Eu queria apenas de passagem, porque é uma coisa importante, e que eu gostaria de deixar dita, uma coisa muito importante que é a seguinte. Você descreve bem um fato que se dá: quando a pessoa deixa cair isso e de repente a graça a leva de novo para cima. Mas não pense que é o fato comum na vida do Grupo. Isso são algumas almas a quem Nossa Senhora ─ às vezes de um modo bem gratuito ─ ama de modo especial, e por causa disso Ela concede esses vários chamados. Mas o geral do Grupo não é esse.
De maneira tal que, a maior parte do Grupo se fosse convidada para vir a essas reuniões a que vocês assistem com tanta sofreguidão, porque a graça lhes dá isto ─ não queria vir. E mais ainda. Bastaria nós sabermos que…(…)
…estão aqui, passaram muito tempo no estado do hall, e Nossa Senhora chamou de novo. Porque também tem disso. Quer dizer, por que Ela fez isso? Ela fez porque quis, simplesmente, na soberana bondade d’Ela, Ela quis fazer e fez. E pode-se dizer que alguns voltaram aqui entrando pela janela. De tal maneira perpendicularmente… uma coisa inexplicável segundo o curso comum da graça, inteiramente inexplicável.
E… de maneira que há esse vaievém, mas não há como fenômeno ordinário, mas como fenômeno muito pouco ordinário. E por causa disso muito precioso, que significa também uma predileção muito particular. Que se trata de conquistar, de conservar e de obter que Ela desenvolva. Não é tanto a gente desenvolver, mas obter que ela desenvolva.
(Sr. Guerreiro: Ela e a Dona da Casa…)
Sim, é obvio também a Dona da Casa, eu já tenho isso como certo. Não sei se essa ponderação, para cada um fazer as suas próprias contas, é muito preciosa.
* O que existe de semelhante na graça da Idade Média e a graça que tem a TFP é um conhecimento muito vivo da trascendência de Deus
Agora, voltando ao que você dizia antes, eu tenho impressão de que a analogia entre tudo isso que você nota no espírito da TFP, que você nota presente no MNF, numa coisa e outra, nessa reunião e tal, e que você pode notar no verdadeiro espírito da Idade Média, a semelhança é possante. Apenas que a Idade Média dava a impressão de uma coisa que estava chegando à plenitude de sua beleza. E isso dá impressão de uma pujança que vai muito além.
Bom, mas isto, o que é isto que havia lá e há aqui?
É uma espécie de conhecimento vivo, dado pela graça, da transcendência de Deus. O por onde Deus é infinito, Deus é incomparável, não há criatura que se assemelhe a Ele, porque etc., etc., etc… É por aí. Deus faz em algumas criaturas alguma coisa semelhante ─ nulo modo transcendente, no sentido da transcendência infinita d’Ele, de nenhum modo ─ mas que tem uma certa semelhança por meio da qual se pode ter uma idéia de como seria a semelhança d’Ele. Semelhança, digo mal, a transcendência d’Ele.
E então, através disso, ou produzindo constantemente coisas que a este ou aquele título tenha esse porte, a gente fica espantado porque pega algo que é uma semelhança meramente criada, mas é uma semelhança da perfeição eterna e incriada que é Deus. Portanto, seria o amor de Deus levado a um grau muito especial, no que há de excelente na sua transcendência, e que eu acho que tem relação com o Segredo de Maria. Porque exatamente isto assim, eu conheço pouco dessa literatura, mas não me consta que tenha sido tratado assim.
Bem, e tenho a impressão de que essa transcendência assim é o ponto que, ou a gente ama e vai para todos os píncaros, ou a gente não ama e está disposto a cair em todos os infernos.
Bem, então, é porque odeia todas essas semelhanças da transcendência que a Revolução é igualitária. Porque exatamente ela quer achatar tudo, tem alguma semelhança com a transcendência. E vai daí para fora, daí para fora, daí para fora.
(Sr. G. Larraín: E a relação com o Segredo de Maria?)
* Se a graça da Idade Média tivesse continuado, ela se desabrocharia na palavra dos doutores, na inspiração dos artistas
Bom, eu tenho impressão de que isso seria dito, seria explanado e contado pelos doutores se a Idade Média tivesse continuado. Teria dado ocasião a inspirações artísticas novas. Por assim dizer trans-góticas. O gótico teria nascido de si mesmo, por uma espécie assim, de como de uma geração brota outra, teria aparecido um estilo arquitetônico e decorativo, e uma literatura, e tudo o mais, que seria se você quiser a segunda geração do gótico.
Mas que, exatamente como houve o pecado imenso etc., etc., deu no que você está vendo. Agora, acho que as almas estão todas, são todas visitadas em alguma medida por isso. Mas todas percebem que há como que um demônio pairando sobre o mundo contemporâneo ─ mas há desde o começo da Revolução ─ que é assim um dragão malévolo, perspicaz, infatigável e furioso. E que basta ele perceber que em alguém vai nascendo alguma correspondência nesse sentido, para que esse dragão se precipite e arme uma perseguição humilhante e vexatória contra aquele.
Mas humilhante e vexatória assim: pegando aquilo que na psicologia dele mais o humilha e o vexa, e pam! Ali desferindo o golpe. Mas não é somente um golpe não. É uma sucessão de golpes. Uma pancadaria até o fim da vida, se o indivíduo perseverar. Aí, diante dessa perspectiva, as pessoas se afrouxam.
Bom, então agora, qual é o nome disso?
(Sr. G. Larraín: Teria ainda a relação disso com o Segredo de Maria.)
O Segredo de Maria eu tenho impressão que é algo por onde Nossa Senhora desvenda que Ela é na sua mais perfeita expressão, entre as meras criaturas, isto. Que este é o Nome d’Ela. E que isso, enfim, que Ela saberá fazer com que se veja isto.
(Sr. G. Larraín: Deve ser em função disso que o senhor tem devoção a Ela, cogita d’Ela, e que o senhor não pode dizer, não fala…)
Não sei dizer.
(Sr. G. Larraín: Justamente pareceria que dessa explicitação do senhor sobre Ela, tudo isso se tornaria ável de ser conhecido. O senhor disse que não sabe dizer, mas alguma coisa talvez pudesse adiantar.)
[Vira a Fita]
É muito difícil responder tudo isso…(…)
…esse ponto eu creio que vocês ainda não calcularam muito: O que é que a Igreja representa para mim. Mas o que não vier por meio dela, que seja dado dentro dela e por ela, minhas mãos não se abrem para receber, nada. Ou é com a Igreja ou não tem nada. Ou se fosse uma graça muito preciosa, eu agradeceria a Nossa Senhora, mas estava certo que o que Ela quereria de mim é que eu ficasse esperando o momento em que eu percebesse como isso se relaciona com o ensinamento da Igreja. Então, cantasse o meu Magníficat.
(Sr. G. Larraín: Mas o senhor a considera assim, cogita d’Ela assim.)
Isso, considero assim…(…)
* “A Idade Média que cantou a pureza de modo inexprimível, a Idade Média também cantou contrição de modo magnífico”
…esse papel do mal, da rejeição, quer dizer, de um certo mal que é tão mal que por culpa própria, exclusiva culpa própria ele se retesa e ele não quer ser bom e odeia o bem, e o persegue do modo pelo qual vocês vêem a coisa; mas de outro lado também, da contrição que toca a alma, e da pior alma faz uma alma que soluça, que pede perdão, que confia, que está disposta a todas as humilhações, e sedenta até de todas as humilhações, quase que com uma sede inextinguível de todas as humilhações, para obter o perdão do que fez.
Tudo isso junto, somado, somado, somado, é indispensável para compor o panorama de que eu falava há pouco. E faz muitíssimo parte do panorama de minha vida inteira. Então, como eu procuro ser severo comigo; e me ver de frente! Tenho consciência de que tenho defeitos, preciso vê-los, preciso pedir perdão!
Bem, nisso tudo a pessoa encontra, exatamente o mal estar do pecado é lavado por isso, porque sente a misericórdia de Deus implorada por Nossa Senhora ─ sem a qual o caso estava perdido ─ venha a nós: conserta tudo. E isso faltaria nessa visão. Aliás, eu queria quer vocês notassem bem isso: a Idade Média que cantou a pureza de modo inexprimível, a Idade Média também cantou contrição de modo magnífico; fez peregrinações que iam batendo no peito, e pedindo perdão. E o pranto da alma contrita; e as esmolas, e as penitências públicas e tudo o mais… O modo pelo qual o pecador, enquanto penitente, se desabrochava aos olhos de todos, e pedia perdão, era uma coisa estupenda, sem a qual se tem uma visão unilateral da Idade Média.
Não é uma época, portanto, onde não se pecou, nem nunca ninguém pretendeu isso da Idade Média, mas é uma época em que o pecador chorou muito pedindo perdão. Em vez de ser insolente e agressivo, dominador etc., como ele é, ele chorou muito pedindo perdão. E isso nós devíamos considerar. E não está presente no todo do nosso horizonte. Ora, o horizonte sem isso é, mais ou menos, como se eu pegasse um dos pendentes desse lustre ficasse sem a flor de cristal, e apenas a lâmpada. Ficava horrível, era melhor levar embora.
E eu não quereria de modo nenhum encerrar a nossa reunião sem que isso estivesse muito presente. Se quiserem, é a beleza da ametista no conjunto.
(Sr. G. Larraín: Se nós olhamos a grandeza de tudo o que o senhor nos tem dado, dito, e o que o senhor é, de outro lado nós vemos a extensão da infidelidade nossa. O senhor disse ontem para os americanos, que era uma posição de humildade que levaria a TFP para frente. Eu acho que não podemos fugir de olhar de frente a sujeira nossa em não vermos as coisas do senhor.)
Eu acho que entra muito disso. Muito, muito, muito. E nesse sentido meu filho, as coisas que têm sido feitas, é preciso ser franco, são incalculáveis. São… é preciso dizer bem, são incalculáveis. E a gente se dói tanto quando pensa na ingratidão dos que saíram, e tem-se toda razão. Mas a ingratidão dos que ficam?! Como é que é isso? Dá para pensar. Mas não sei quanto dá para pensar!
* A manifestação da grandeza da Igreja far-se-á sobre uma humanidade que terá uma vergonha pungente, confiante e doce do próprio pecado
Agora, de um jeito ou doutro tudo fica à espera desta manifestação de Nossa Senhora, e da Santa Igreja, de Nosso Senhor, que o pecado imenso contundiu. A Contra-Reforma em vários aspectos manifestou coisas dessas. Mas é uma coisa que, vamos dizer, é para a glória de Deus etc., etc., é magnífico, tatatatá, mas apenas é uma preparação do que será a manifestação de Nossa Senhora e de Nosso Senhor, e da grandeza da Igreja, quando chegar a hora em que resolverem manifestar.
Agora, vocês compreendem bem, isto tem que ser, essa manifestação, tem que incidir sobre uma humanidade, ou ao menos setores do gênero humano, que tenham vergonha do próprio pecado, mas uma vergonha doce, uma vergonha pungente mais ordenada, e que se recolhe aos pés de Nossa Senhora com confiança e reza, e pede, implora, implora mais uma vez etc., até conseguir.
E aí, para o pecador humilhado, para esse pecador começa o sorriso d’Ela. No primeiro florescimento de humilhação em nós, corresponde a isso o primeiro florescimento do sorriso d’Ela. Mas supõe humildade. Quer dizer: “Andei mal! Eu fiz mal! Não podia ter feito isso!”
* Os Salmos Penitenciais: “É o Espírito Santo ofendido que ensina ao ofensor o que deve dizer a Ele”
E aí os Salmos Penitenciais são incomparáveis. Porque não se pode dizer melhor o que cada um de nós fez, do que lendo os Salmos Penitenciais. Aliás, é ali uma espécie, o que há de misericórdia ali é uma coisa incrível! Porque é o Espírito Santo ofendido que ensina ao ofensor o que deve dizer a Ele, para Ele se aplacar. Porque aquilo tudo são palavras ensinadas pelo Espírito Santo, aquilo, palavra por palavra, é do Espírito Santo. E que toma, por oportunidade, o pecado horrível de David, para que até o fim do mundo os homens tenham a fórmula perfeita do pedir perdão expressa ali.
Mas aquilo é muito humilde! “Tibi soli peccávi, et malum coram te fecit” ─ “eu sozinho, eu, por minha culpa pequei diante de Ti, e foi na Tua presença que eu pratiquei meu mal”.
Que coisa magnífica, que grandeza! mas a questão é: que humilhação! Mas esta posição, vocês sabem bem que as almas não gostam de tomar…(…)
…aqui exatamente entra uma coisa que me deixa pasmo. Mas, por exemplo…(…)
…nós compreendermos tudo quanto devemos a Nossa Senhora. Quer dizer, essa reunião de hoje, por mais que tenha trazido elementos estupendos, pelos quais eu dou graça a Nossa Senhora, se não fosse essa parte final ─ que não é um apêndice não, hein? É um elemento essencial ─ essa reunião não teria existido, porque a coisa chega até lá. Aí a coisa faz sentido, faz um certo sentido, a gente vê etc.
* Comentário ao versículo: “Não corteis a minha vida na metade de meus dias”
Como outra coisa, hein! Que não nos assusta, é nos vermos alguns de nós que Nossa Senhora tira dessa vida, antes de eles terem completado a carreira…
(Sr. Guerreiro: Tira dessa vida antes?)
De eles terem visto o que nasceram para ver! Há nos Salmos Penitenciais um pedido desses: “Não corteis a minha vida na metade de meus dias”. Metade dos dias não se faz assim: um homem costuma viver oitenta anos, então quando chegou aos quarenta chegou à metade dos dias. É um cálculo infantil. É uma outra coisa: a que distância ele está do topo onde ele devia chegar. De que elementos ele foi chamado a participar; que batalhas ele foi chamado a travar; que coisas ainda devem esperá-lo para que ele tenha pago o tributo inteiro de sua inocência e de sua penitência? Assim que se calculam os dias de um homem, é em função da obra de um homem.
Bem, eu tenho visto se apagarem entre nós estrelas… e ninguém fazer um gemido sobre esse ponto…(…)
…reflexão do que temos tido até aqui. Mas enfim, é a vida!
Bom, meus caros, também está chegando tarde a noite, eu comecei bem mais cedo, com o intuito de os liberar mais cedo também, já é uma e meia… Mas precisamos ir andando. Vamos rezar as orações de costume… E fizemos, assim mesmo percorremos um espaço enorme! Vamos!
Há momentos minha Mãe…
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