Conversa
da Noite ─ 17/1/87 ─ Sábado .
Conversa de Sábado à Noite ─ 17/1/87 ─ Sábado
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“Sempre que você puder fazer cessar um elogio público a você, de um modo moderado, faça, porque sempre haverá quem lhe agradeça” * Não é normal à cognitiva do homem a velocidade moderna; o desapontamento do Sr. Dr. Plinio ao ver o Mont Blanc de dentro de um avião * A civilização industrial nos impõe uma perspectiva não real, fazendo-nos aceitar o que não é conforme à nossa natureza * Recordações do Sr. Dr. Plinio sobre o insurgir dos trens na fazenda dos contraparentes na qual ele ia passar uma temporada * Para ilustrar a bonomia da vida antiga, o Sr. Dr. Plinio conta o relacionamento do Dr. João Paulo com Dr. Caiubi, um juiz de Piracicaba
* “Sempre que você puder fazer cessar um elogio público a você, de um modo moderado, faça, porque sempre haverá quem lhe agradeça”
(Sr. G. Larraín: Na parte em que estava, o senhor mandou cortar por razões de que alguém ficasse com nó.)
Eu vou lhe dar um conselho, ouviu? Você em toda a sua vida, quando você puder fazer cessar um elogio público a você de modo moderado, faça, porque sempre haverá algumas pessoas que lhe vão ficar agradecidas, ouviu? É evidente.
(Sr. G. Larraín: Fiquei preocupado com um problema, que é o de que a TFP não pode ser assim.)
Não, não pode.
(Sr. G. Larraín: O senhor Guerreiro Dantas e eu estamos relendo as reuniões de MNF do ano passado. E à medida que vamos lendo, vamos personificando na pessoa do senhor combatividade, inocência, indignação etc. Mas no audiovisual estava muito bem feito, aparecendo as fotografias que correspondiam ao texto da reunião.)
Eu não percebi esta relação. Agora que eu estou vendo. É meu João Clá isto por inteiro. Eu não percebi.
(Sr. G. Larraín: Agora, a gente vê que a TFP tem que ir por aí, e é muito grave que isto não se possa realizar, sobretudo nas horas atuais.)
Eu acho que se arranjasse um jeito de fazer isto numa ocasião em que eu não estivesse presente, aí iria bem. Mas a reação da pessoa, sabendo o seguinte: “Ele está sendo elogiado desse modo. Dependeria dele fazer cessar esse elogio, e ele não faz cessar porque ele está se regalando”…
(Sr. Guerreiro: E infelizmente não são poucas pessoas que acabam achando isso.)
Não, não são. Mas é assim.
(Sr. G. Larraín: Agora, se uno não percebe que estas reuniões todas são explicitações e expressões da alma do senhor, que o senhor tem tudo isso na alma, não sei com é que a gente vai sair desse buraco.)
E também fico preocupado.
(Sr. G. Larraín: Agora, é um grave perigo para o Grupo, não é?)
Grave, eu acho que é um grave perigo. Mas esse perigo não se resolve obrigando-os a engolir. Esse perigo se resolve, eles vendo que eu mandei cortar, eles tem a impressão que eu tive pena deles, entende? Quer dizer, afastando o remédio dos lábios dele, ela tem a impressão estulta da criança quando vai tomar um remédio desagradável, e os pais dispensa de tomar aquele remédio. Então a criança fica agradecida pensando que os pais fizeram bem. Mas os pais fizeram porque não tinha outro meio, a criança estava num estado em que não se pode impor. Mas de fato é com prejuízo para a criança, a criança forçou o pai, para lhe tirar o remédio dos lábios.
Mas eles ficam com esse mesmo agradecimento da criança estulta, ficam eles. E você sabe, o silêncio fala. Eu percebia certos bolções de silêncio no meio dos aplausos, etc., etc., e a gente nota. Queira ou não queira a gente nota. É a miséria humana.
(Sr. G. Larraín: O Sr. Guerreiro Dantas tem uma pergunta.)
Então diga qual é a pergunta meu filho.
* Se não expulsarmos o mundo moderno de nossas almas, corremos o risco de sermos convidados na “Bagarre” a passar para outra vida
(Sr. Guerreiro: O senhor tem falado muito do mundo moderno, execração que devemos ter a ele, etc. Nos veio desejo de saber até onde o senhor leva toda essa rejeição ao mundo moderno. E isto é necessário para medirmos bem a nossa união de alma com o senhor, e expulsar de nós todo o pecado de Revolução. Porque sem isso, sem conhecer os lados mais profundos da rejeição que o senhor tem ao mundo de hoje, nós nunca seremos os Apóstolos dos Últimos Tempos.)
Ah, não, não tem perigo.
(Sr. Guerreiro: O Reino de Maria não poderá brotar em nossas almas como ele existe na alma do senhor.)
Correm o risco de por misericórdia morrerem durante a Bagarre. Porque exatamente Nossa Senhora não quer exclui-los da grei daqueles a quem Ela ama, mas não pode admiti-los, a quem ama o mundo moderno Ela não pode admitir no Reino d’Ela, então Ela chama para passar um estágio na Igreja padecente, e depois se incorporar na Igreja Gloriosa. Agora, durante a Bagarre, ser morto durante a Bagarre.
(Sr. Paulo Henrique: Mas com a vocação truncada.)
Truncada. Pode ser que Ela dê, porque a bondade d’Ela chega até lá, o martírio durante a Bagarre. Mas aqui é como o bem menor que não é o de estar no triunfo d’Ela, que é um triunfo terreno, antes do triunfo celeste, mas é a imagem do triunfo celeste.
(Sr. Guerreiro: Nós gostaríamos de pedir ao senhor que falasse sem veus sobre isso, porque há um momento em que precisamos ver de frente como são as coisas.)
Eu dou assim. Para vocês terem bem em vista o equilíbrio com que isso precisa ser tomado, é preciso que nós não nos coloquemos exclusivamente diante de modelos brasileiros que nós conhecemos. Nem nos modelos brasileiros, nem nos modelos contemporâneos de outros países. Mas que nós saibamos nos situar no mundo ideal bem exatamente onde ele é.
* Com o exemplo da Duquesa de Nemours, o Sr. Dr. Plinio exemplifica como era um mundo no qual a Revolução não tinha deitado todas as garras
Mas você teme exemplos disso em restos do mundo do século XIX. Eu dou um exemplo aqui que é aquele quadro, eu não sei bem, nessa penumbra, se vocês enxergam bem, se não enxergam podem acender a luz.
Bem, ali, a duquesa de Nemour. Era uma alemã, protestante, casada com um… Filha de um daqueles pequenhos soberanos da Alemanha, e casada com o Rei… filho do Rei Luís Filipe da França.
E os jornais legitimistas ─ o Luís Filipe era o rei ilegítimo, era o chefe da Casa de Orleans ─ os jornais legitimistas caçoavam: “Amanhã vai chegar para o casamento sua alteza real, a princesa tal de tátátá… Coisa curiosa, mas para dar maior brilho ao casamento, chegam não só os seus augustos pais e irmãos e primos, mas chega todo o Estado, porque toda a população de seu Estado virá. O príncipe de tal fretou cinco berlindas ou dez berlindas, e a população toda do grão-ducado vem assistir. Então Paris prepara-se para acolher de modo especialmente afetuoso…”
Você está vendo o debique. Mas muito, como eles sabem fazer, um gume medonho. Bom, agora, ela é senhora, uma senhora altona, belíssima. Eu comprei o quadro por causa dessa seda. Porque agora aqui, ao menos eu à distância não vejo tão bem, mas quando se acende a luz vê-se o reflexo da luz sobre aquela seda, é uma verdadeira obra prima. É uma verdadeira obra prima de jogo de luz. E lá está ela num terraço de um castelo real ou imaginário, mas que não é um castelo gótico, é um castelo posterior à Idade Média.
Agora, olhe a coluna, olhe a trepadeira, olhe as rosas, olhe a mesa de muito boa qualidade sobre a qual ela se apoia; o chão, eu não vejo bem daqui como é, mas deve ser um chão de pedra de boa qualidade, e a atitude de senhoria dela. Ela, até usa uma condecoração.
Bem, no fundo vocês percebem um arvoredo, e esse arvoredo já faz parte de uma entrada de floresta. É um arvoredo delicado, que é a transição entre o jardim e a floresta.
Bem, agora, o que é isso aí? É vida de campo. Tem o chafariz; tem o chafariz e um laguinho, enfim, um tanque em volta. Eu faço notar o seguinte: é vida de campo. Mas é uma corte vivendo no campo. E como corte vivendo no campo, você tem todo o esplendor da vida de Palácio e toda naturalidade da vida de campo. Donde a princesa não é apresentada aí cercada de cortesãos, mas é apresentada numa espécie de aprazível solidão; percebe-se que se ela quiser ela tem a qualquer momento damas de honor que ela chama e vêm fazer companhia para ela. Mas percebe-se que ela tem a liberdade de estar só, de passear só pelo jardim, e chegar eventualmente até a boca daquele matozinho. Mas que ela também tem as melhores revistas de Paris, os melhores vestidos de Paris, e o cozinheiro é um cozinheiro magnífico!
Enfim tem uma junção de vida de Palácio ─ que é a vida de cidade com o que há de melhor ─ posto inteiramente dentro do campo.
Isto é uma descrição que os senhores sentem ao vivo ou…
Bem, agora, essa senhora, essa princesa, essa dama colocada assim, o ritmo da vida dela não é um ritmo vazio, e não pode ser comparado à vida de fazenda aqui no Brasil. Se vocês quiserem, podem agora, ou qualquer hora, pegar uma gravura que tem em cima do meu sofá, e que tem uma fazenda no estado do Rio de Janeiro, ao pé de uma montanha chamada Dedo de Deus.
Naquele sofá da entrada do hall ─ Já viram também uma porção de vezes, podem ver. Aquilo é caipira, e a caipirice do campo invadiu a residência da pessoa.
Aqui não. Aqui é nobre, mas a nobreza do palácio se projetou no jardim sem suprimir a natureza. E cria uma espécie de síntese. Portanto que queria que vocês ─ eu não conheço a vida de campo no Chile.
(Sr. G. Larraín: É igual.)
Deve ser, a América do Sul inteira deve ser mais ou menos assim. Bem, então eu queria mostrar que nós temos que despir a nossa cabeça dos padrões de povos que progrediram menos do que a Europa, e que aprenderam portanto padrões menos altos, para fazer as nossas opções. Porque do contrário, se nós formos pôr os nossos padrões aqui, nós nos embrulhamos e não saímos da História.
Então, isto posto, nós podemos ver essa senhora que habita assim nessa calma, vê-se que ela de vez em quando ─ porque sabe-se pela história que esse é o costume ─ de vez em quando há festas no castelo. Então vem toda a nobreza dos arredores, e tem dança, tem festa, comemorações, etc., etc., tem Missa, etc., e tem caçada!
Muitas vezes é de manhã a caçada, à noite uma festa. Nos intervalos você encontra pelas vastidões desses terraços grupos de dois, três, quatro pessoas conversando, uma outra pessoa passa sozinha e vai ler sozinha num lugar. É vie de chateau com todos os atrativos que tem, com todos os agrados que tem. Mas que tem, portanto, vivacidade, e horas de corte dentro disso. E depois tem horas como está aí, esta aí nessa tranqüilidade.
* Era uma vida de ritmo lento, cheia de valores culturais. As viagens eram feitas sem a precipitação de hoje em dia
É, portanto, uma vida cheia, tem valores culturais, mas é uma vida que se exerce num ritmo lento. Vejam o jeitão dela, não é uma pessoa que tem corre-corre. E quando chegar a hora de ela ir para Paris… Eu não sei se esta pintura ─ seria preciso ver ali perto, mas eu não me lembro mais ─ se essa gravura representa um certo castelo determinado, ou se é uma fantasia do Witterhauter. Bem, mas vamos dizer que representasse o Castelo D’Eu, que fica a umas duas, três horas de Paris, se eu não me engano. Não é isso, Fernando Antunez?
(Sr. F. Antúnez: Sim senhor.)
Duas, três horas de Paris.
Bem, normalmente, antes da civilização industrial ─ porque em tudo isso não tem a civilização industrial ─ antes da civilização industrial ela fosse a Paris. Se ela fosse a Paris, ela iria em Berlinda, quando, numa estrada já boa, em carro com molas bem feitas, com possibilidade portanto de se defender bem contra os trancos e barrancos, como eu volto a dizer estrada boa, mas com certos prosaísmos: não tem macadame, tem portanto poeira; tem, portanto, de vez em quando chove e na chuva…
[Chega o Dr. Marcos Ribeiro Dantas.]
Oh, meu Marcos, como vai você? Você está bem? Estou respondendo uma pergunta do Guerreiro Dantas, você pega a coisa no vôo.
Ás vezes, portanto, forma poça de água, e tem que parar, depois os cavalos desembestam tem essas coisas todas. Mas não tem uma coisa: é a velocidade do trem, nem a velocidade do automóvel que dispara a toda pressa. De maneira que uma pessoa nessas condições que chega à cidade grande, passou por um trajeto em que não foi feita a violência ao modo normal. É uma coisa diferente do trem e do automóvel que põe a uma velocidade, que a pessoa pode estar habituada como estiver, não é a velocidade da mente humana. Para ser em uma hora ser transportada do castelo de Paris, nestas condições, correndo, e antes de ter feito todas as mudanças para entrar numa atmosfera inteiramente diferente, vai chacoalhando, e numa velocidade que normalmente é vertiginosa, seria vertiginosa para uma pessoa equilibrada, põe ali dentro o sujeito, e lá vai como mercadoria!
Chega e tem que se adaptar a uma situação, tem que se adaptar imediatamente a uma situação completamente diferente daquela.
Bem, há uma porção de vantagens práticas. Para dizer banalidades, mas enfim, para mostrar que eu sou sensível a essas vantagens, evitou poeira, tornou muito mais macia. Esse negócio de carruagem é muito bonito olhar, mas o que tem a carruagem de incômodo em comparação com um automóvel, sobretudo um automóvel grande, tipo Mercedes, Landau ou qualquer outra coisa assim, é incrível a vantagem.
O pneumático!!! Mas como o pneumático ameniza a vida de quem tem que viajar, é uma coisa fantástica. Depois não tem um cavalo que de repente desembesta de um lado, o cocheiro tem que descer, tem que pegar o cavalo, bate no cavalo, fala com o cavalo, você ouve o cocheiro, o cavalo cheira mal, está suado ─ tem prosaísmos de toda ordem dentro disso que eu não ignoro. E que a civilização industrial suprimiu. Você em uma hora está em Paris, é verdade.
* Não é normal à cognitiva do homem a velocidade moderna; o desapontamento do Sr. Dr. Plinio ao ver o Mont Blanc de dentro de um avião
Mas você percorreu aquilo numa velocidade por onde está na cognitiva natural do homem querer conhecer os lugares por onde ele passa. Está na cognitiva dele isto. E se ele não conhece, ele sente mal. Tanto é que ninguém consentiria em viajar num automóvel com as cortinas baixas, porque está andando, quer ver. Mas vê tão mal, vê tão sumariamente, que ele vê sem prestar atenção. E nenhum de nós presta normalmente uma verdadeira atenção naquilo que vê dentro do automóvel, ou dentro do trem. Dentro do avião nem se fala: aquele cubiculozinho, por onde a gente olha um pedacinho de paisagem, um pedacinho de imensidade. Mas tão de longe, tão de cima, que eu me lembro o meu desapontamento voando sobre os Alpes.
Vem uma dessas aeromoças: Messieurs, c’est le Mont Blanc, c’est le Mont Blanc. Olho para baixo, um punhadinho de açúcar: é o famoso Monte Branco. Eu toda vida ouvi falar do Monte Branco com respeito, com admiração.
Em cima, mais adiante: Messieur, messieur, à droite, à droite, faites attention, le Palais de Castelgandolfo, residance estival des Pontifes Romains. Olho, embaixo um barracão ─ porque visto naquela perspectiva é assim ─ um barracão pardo, sabe essa cor de papel de embrulho de mercadoria ordinária, ouviu? Os pontífices romanos ficam assim. Pode ser que no tempo de Papas sérios, eu visse um cortejo sério, com homens de alabardas acompanhando o Papa. Tudo desse tamaninho, soldadinho de chumbo. Não são dimensões humanas, não são perspectivas humanas, nada disso é humano.
* A civilização industrial nos impõe uma perspectiva não real, fazendo-nos aceitar o que não é conforme à nossa natureza
Ora, continuamente a civilização industrial está nos pondo em perspectivas que não são reais, está nos contando a vista de coisas que são reais; está nos sujeitando a velocidades que não são as nossas; está nos privando de solidões que por vezes nós queremos, e nos triturando de encontro a coisas que nos surpreendem. Inclusive a mutabilidade constante da vida que faz com que, por exemplo, nos Estados Unidos ─ GDA mora lá e pode atestar ─ nos Estados Unidos continuamente, continuamente, as pessoas estão mudando de cidade. Diz que é a coisa mais freqüente que há, você esteve muitas vezes lá, é atroz.
(Sr. J. Clá: Há gente com casa ambulante, sobre rodas.)
Como os saltimbancos antigos, que… esse pessoal que faz circo, então eles tinham casas assim. Assim mora uma família que você vai ver no total, o pai é um simpático guarda livros. Para exercer um ofício tão honesto ─ honesto ao menos quando o guarda livros é honesto ─ tão honesto e tão caseiro, ele tem uma casa em cima de rodas, porque precisa estar mudando, estar mudando, precisa estar mudando. Quando não é humano. O humano é deitar raízes, humano é conhecer todo mundo.
É uma agitação, um mexe-mexe, em que para mim é um símbolo aqui em São Paulo ─ no Rio de Janeiro já deve haver isso, já deve haver em Curitiba, em Belo Horizonte por certo ─ minhocão. Eu não sei se vocês já pensaram no destino desses pobres coitados, que moram ao lado da minhocão. Aqui, por exemplo, na praça Marechal Deodoro até a Igreja das perdizes, São Geraldo, etc., é uma coisa que não é de suportar, é uma coisa insuportável, ao pé da letra.
Agora, do que é que isso é feito? É feito de uma civilização que galardoou o homem com tudo o que os seus defeitos queriam ter, e o privou de tudo quanto os seus defeitos não queriam. E constituiu portanto uma espécie de aparelho ortopédico torto para um pé torto, para ficar mais torto ainda. Porque, por exemplo, uma vida calma como aquela, é muito agradável, mas o homem que é ligeiro, que é agitado, não gosta dessa vida. Ele gosta da vida da civilização industrial.
Bem, você toma morar junto ao Minhocão. Para quem quer levar uma verdadeira vida de família, que seja família, quer dizer, uma família grande com muitos filhos, para a qual o maior prazer é estar em casa sem televisão, convivendo uns com os outros num convívio humano, isto é a vida de família ─ o minhocão é uma coisa destrutiva. Mas com esta família que é pai, mãe, um filho ou dois, e que todos, marido e mulher, trabalham, os filhos ficando numa certa idadezinha já vão para a escola e depois começam a trabalhar também, e que a família é um lugar de dormitório para um grupo de pessoas que trabalham coisas díspares, aí você pode colocar perto do minhocão que não tem nada. Pode ser que até pode instalar no minhocão mesmo, enquanto está vazio durante a noite, dorme lá, não tem nada.
Quer dizer, mas recolhimento, pensamento, afeto, relações que se prolongam, que se entrelaçam, almas que se conhecem, que se apreciam mutuamente, que entram em contato, que tem relações, tudo isso desaparece. Não se formam costumes, não se formam com hábitos, a não ser hábito de não ter hábito. Por quê? Porque o homem que pelos sues defeitos tem horror à reflexão, tem horror ao que é estável, tem horror ao que é profundo, tem horror ao que é sabedoria, este homem tem horror à vida antiga. Na vida moderna ele tem jeito de evadir-se de tudo isso.
* Recordações do Sr. Dr. Plinio sobre o insurgir dos trens na fazenda dos contraparentes na qual ele ia passar uma temporada
Eu me lembro que quando eu era menino, mocinho, menino, eu ia um certo número de vezes a fazendas de contraparentes, porque a família de minha mãe ─ no seio da qual fui educado, família de papai é de Pernambuco ─ a família de mamãe não é uma família agrícola, é uma família urbana, eles não tinham muita fazenda. Mas esses contraparentes tinham. E eu ia às fazendas dos contraparentes. Fazendas magníficas, na zona de Ribeirão Preto que era naquele tempo ─ voltou a ser depois ─ uma zona riquíssima, e tal, e coisa.
Eu estava às vezes sozinho na clássica varanda que toda fazenda tem, e vendo o jardim e tal, aquela tranqüilidade de fazenda. De repente: “Piuuuu! Tcham-tcham-tcham…” Era o trem que vinha à toda pressa.
Mas, não sei porque, fazia voltas. Os antigos tinham umas idéias singulares, por exemplo, para evitar de fazer uma ponte, eles davam não sei que volta de estrada de ferro, para passar de outro lado, e não ter que fazer a ponte em cima de um abismo.
Então você vinha ouvindo o trem que vinha de longe, chegava mais perto, depois mais longe, depois mais perto de novo. Afinal passava em frente da casa da gente. Mas então aquele monstro ficava ameaçando a tranqüilidade da fazenda muito antes de chegar. Bem, chegava, afinal passava: “Tcham, tcham, tcham, tcham…” Os trilhos não eram soldados, de maneira que cada vez que o trem passava em cima de um trilho “pram-pram-pram”. A chaminé deitava assim uma pirâmide de fagulhas, que eram assim à primeira vista bonitas de ver, até com uma certa elegância. Mas a gente sabia que deixava no chão aquela porcaria depois.
E passava a máquina, mas dava a impressão ─ eu sabia que não era verdade, que todos os que estavam lá dentro eram uns desgarrados, que viajavam às altas horas da noite, rompidos com as respectivas famílias, com suas respectivas cidades, com seus respectivos points d’attache e que iam para destinos novos que eles mesmos não sabiam o que era, enfrentar uma aventura, etc.
Quando o trem passava mais perto a gente via o refeitório. O refeitório naquele tempo era diferente dos trens de hoje, com cortininhas de seda, bem arranjadinho, parecia restaurante de luxo ambulante. Ali aquele bife fétido, mal batido, arroz embolado, batata de ante-ontem. Ao menos no tempo em que eu usava trem, o restaurant de trem era… Aqui no Brasil… Parece que na Europa é mais ou menos suportável, não é GDA? Hein, Fernando Antunez?
(Sr. F. Antúnez: Tem alguns bem bons sim.)
Aqui no meu tempo, em que eu viajava de trem, era insuportável.
Bem, eu sabia que há cinco ou oito dias atrás, eu tinha vindo naquele trem. Que não era, portanto, um desgarrado, que eu estava passando minhas férias. Eu já tinha viajado no trem e já tinha conversado com as pessoas: um era caixeiro viajante; outro era um contraparente; outro era um farmacêutico, etc. Não eram desgarrados. Mas a impressão que a gente tinha era de desgarramento: “Tcham-tcham-tcham…” uma tragédia durante a noite.
São as aparências que influem, impressionam a mentalidade da pessoa. São alguns aspectos superficiais da civilização industrial. Mas é preciso bem dizer o seguinte: que o modo pelo qual as indústrias funcionando nas cidades obrigavam a vida a se organizar era esse.
* Para ilustrar a bonomia da vida antiga, o Sr. Dr. Plinio conta o relacionamento do Dr. João Paulo com Dr. Caiubi, um juiz de Piracicaba
Então certas coisas que ouvia contar antigamente ─ papai contava achando graça ─ era as bonomias do Brasil antigo, mas que eu peguei umas pontas. Ele tinha um processo, ele era advogado, ele tinha um processo de um coronel ali do interior, chamado Sr. Ferreira: um perfeito Gato de Botas, com um bigode branco, que vinha até aqui, está entendendo? Assim, um “coronelão” do interior, daquele tipo. E ele às vezes era obrigado a ir a Piracicaba ver o negócio do Sr. Ferreira.
Mas o juiz era um só para Piracicaba: era um homem lento, tranqüilo, etc., e às vezes ele tinha que ficar quatro, cinco, seis dias em Piracicaba, até o Juiz despachar o negócio. E ele à noite, de dia ele dizia ao juiz: “Olhe, Dr. ─ chamava-se Caiubi o homem ─ Dr. Caiubi, se o senhor pudesse fazer o favor ─ porque o juiz a gente não pode tentar arrebentar e porta, porque é contra produzente ─ se pudesse despachar logo isso aí, porque eu tenho necessidade, etc., etc.” Ele dizia: “Dr. João Paulo, eu estou muito ocupado, eu não posso, eu tenho coisas… O senhores não imaginam, às vezes eu até à noite tenho trabalho para fazer.”
Era prova de que era muito ocupado: ele às vezes até a noite tinha trabalhos para fazer.
E de fato papai disse que era geral ─ papai era muito cinemeiro ─ ele ia à noite ao cinema, e via o Caiubi tocando violino no cinema! E não é certo que era para ganhar dinheiro, podia ser pelo gosto de tocar violino.
Bom, analise o fato: está uma porção de defeitos nisso ─ o Caiubi deveria ser mais rápido um pouco, etc., etc. Mas é um laissez faire um humano dentro disso, de que ele também gostava. Da maneira que ele se queixava, mas ele ficava em Piracicaba, comia cana… Piracicaba é um lugar que dava muita cana.
O Sr. Ferreira levava para a fazenda, matava leitão para ele, fazia não sei mais o quê. Ele voltava contando casos de Piracicaba, bem humorado, etc. É um ralentir na vida. São Paulo não: é “tam-tam-tam”, não tem conversa.
Quer dizer, é todo um modo de organizar a vida nesse ritmo. Agora, isso falseia a vida completamente. E aqui, se a gente fosse fazer distinção entre vida de cidade e vida de campo, a gente faria uma distinção meio falseada. Porque uma coisa é a vida de cidade, mesmo cidade grande, mas capital de zona agrícola, outra coisa é vida de cidade grande ou pequena, mas cidade industrial, onde entra exatamente a industria, o ritmo da cidade se transforma. A prova disso é a sua Curitiba.
* Comentários sobre Curitiba e o Rio de Janeiro no tempo em que ainda não tinham sido contaminadas pela revolução industrial
Eu conheci bastante Curitiba nem tempo em que você não me conhecia naquele tempo, mas você devia ser adolescente naquele tempo.
Que cidadezinha agradável, alemã, muito bons restaurantes, prédios seguros, casas confortáveis, hotéis bons, tudo tranqüilo, etc. Pelo o que o Átila disse que é outra cidade, não sei se você subscreve essa opinião dele, mas é outra cidade. Bem,eu antigamente gostava de ir a Curitiba. Hoje já não tenho vontade de ir.
(Sr. Poli: O senhor indo aqui para Itaim., ou Água Branca, o senhor está em Curitiba do mesmo jeito.)
Bom, como também descendo de avião em Paris, até chegar ao centro tradicional de Paris, é esta mesma porcaria, é Santana. É uma porcaria. Roma, tudo isso. É um horror.
Então está aí, muito sumariamente apresentada o que é uma sociedade industrial.
Não sei, naturalmente, quando a gente dirige uma empresa que faz assim alojamentos, etc., e voa muito de avião, como é que aparece a realidade… Mas quando a gente vive na terra, hahahaha! É a impressão que a coisa dá…
Aliás, o Rio. Eu conheci o Rio, não sei… Vocês fazem idéia, recordação ais remota que eu tenho do Rio é de 1922, ano da proclamação da Independência, em que fizeram uma exposição no Rio, e veio gente do Brasil para o Rio, minha família foi para o Rio também. Bem, e o Hotel Glória era novidade naquele tempo. A grande novidade era o Hotel Glória e o Hotel Pálace ─ é um hotel que já fecharam, aliás um bom hotel no centro da cidade ─ é diferente do Rio… [Vira a fita]
…já deve estar inteiramente fora de moda hoje, com certeza. Mas houve tempo em que era muito… Deva ter sido assim: no começo houve pouca gente, era uma delícia, foi quando eu peguei, depois deve ter enchido, e depois deve ter ficado abandonado, deve ser isso, não é Marcos?
(Dr. Marcos R. Dantas: Eu não vou lá há muito tempo.)
É, você não tem ido, então é porque quase ninguém vai, com certeza. Quer dizer, gente que não seja assim de favela não vai.
Bem, mas afinal, seja como for, era naquele tempo. Os esquilos eram um encanto, a ponto de gente ficar na dúvida se almoçava junto ao mar, ou ia até a floresta, de tal maneira aquela floresta era uma maravilha. E o Largo do Boticário nem sei o que dizer, ali perto da nossa sede. Tudo isso vai rolando. É a civilização industrial.
Onde, por exemplo, a pessoa não pode formar certo tipo de alma…
* Sobre os ambientes que favoreceram a formação da mentalidade da Senhora Dona Lucilia
(Sr. Poli: Como é que ela vivia nesse mundo?)
Aqui, naquele tempo as bombas de gasolina não eram barulhentas com são hoje, e essa bomba portanto incomodava incomparavelmente menos. E o trânsito era muito menor. E isto aqui era uma redoma para ela. Ela vivia aqui numa redoma, uma espécie de camáldula com todos os ares, com toda a realidade de uma casa de família, mas era uma isolada. E depois tudo não estava no uso do tempo em que ela morava aqui, tudo já era móveis antigos, etc., etc. Era uma redoma. Quer dizer, eu para protegê-la construí uma redoma em torno dela. Na qual ela pôde conservar esta fisionomia até o fim. Se ela fosse morar naquele prédio de que fala o Marcos… Não podia ser! Não vai!
Então certas almas não se formam, a civilização industrial impede que se formem.
(Sr. G. Larraín: Uma coisa sobre a Senhora Dona Lucilia, da formação dela em… É Pirassununga?)
Pirassununga. Uma palavra para quem não é brasileiro, o nome deve ecoar de modo selvagem: Pirassununga!
Mas então?
(Sr. G. Larraín: Casa dela em Pirassununga, muito simples.)
Foi a primeira casa que teve janela a ter vidro em Pirassununga.
(Sr. G. Larraín: Como se harmonizaram com isso a categoria da Senhora Dona Lucilia e de Dona Gabriela, que eram pessoas finas, e tinham que viver numa casa de chão batido?)
Chão batido e sem vidro. Uma tapera!
(Sr. G. Larraín: E o que havia de fundo aí para dar no que deu a Senhora Dona Lucilia? Não ficasse nada de caipirismo?)
É uma conjugação de uma série de coisas, ouviu? Quer dizer, ela tinha um natural formado em São Paulo que era o contrário do caipirismo. E se bem que São Paulo fosse uma cidade pequena, e o Brasil inteiro fosse caipira naquele tempo, apesar disso havia pessoas que por causa da transição da metrópole ─ metrópole, ainda monárquica, ainda aristocrática, etc., ─ levavam para a colônia uma atmosfera também que não era ainda a atmosfera republicana.(…)
* Como Dr. Antônio alçou melhor condição financeira. O episódio com o Barão de Araraquara
A fazenda. Da maneira que mais ou menos ao cabo de dez anos, ele estava, a fazenda tinha subido de preço porque estava toda plantada, estava dando café, e o café estava rendendo, ele já tinha mudado de casa, tinha construído uma casa das melhores de Pirassununga para ele, tinha mandado vir móveis da Europa e tudo… Aqui tem duas cadeiras, que não são maravilhas, mas são cadeiras boas, duas cadeira que tem naquela sala ao lado, ainda foram da casa dele de Pirassununga.
(Sr. Guerreiro: Aquelas cadeiras ali?)
Tem no centro aquela coluna como vaso do Imperador. De um lado e de outro tem duas cadeiras. Aquelas cadeiras foram da casa dele em Pirassununga. Quer dizer, você veja como era Pirassununga. Não são monumentos de cadeiras, são cadeiras boas.
(Sr. Poli: Não são cadeiras nacionais.)
Não, não. E depois muito bem feito, muito bem entalhadas à mão, etc., etc. Quer dizer, não passa pela sua cabeça entrando naquela salazinha ali dizer: “Que cadeira caipira!” Não passa pela cabeça. Nem de longe.
Então elas se jogavam nesse precipício. Então minha avó, mas as amigas todas dela, casavam-se também com esses homens assim, ou a mulher, em geral era isso: a mulher levava o dote e o homem levava o trabalho. E o trabalho do homem valorizava o dote da mulher. Com meu avô uma coisa engraçada, com meu avô ─ com todo Ribeiro dos Santos em geral ─ era um agricultor desastrado. Eu contei esta história a vocês, com o Barão de Araraquara, contei, não?
(Sr. –: Não!)
O Barão de Araraquara, era íntimo amigo de meu avô. E meu avô advogava para ele, porque ele também tinha terras. Mas essas terras tinham divisas, questões, etc., e meu avô era muito bom advogado. Então o Barão de Araraquara disse para ele… O Barão de Araraquara chamava-se Estanislau, mas na linguagem assim de menino Lalau. Disse: “Olhe, Lalau, você precisava ir comigo para minha fazenda, para você ver como está boa e bem plantada.” O Lalau foi, olhou e disse:
“Totó, está uma miséria esta sua fazenda! Você plantou café onde não devia, você mandou fazer uma barragem cara demais, e o rio que passa lá vai arrebentar sua barragem. Está um desastre sua fazenda.
Você vai fazer uma coisa. Você me entrega as chaves dessa fazenda, e eu dou a você as contas da fazenda para você ir pagando as despesas da fazenda. Eu não cobro um tostão. Quando a fazenda estiver formada eu aviso a você, e você encontra uma casa construída de acordo com as plantas que Dona Gabriela queira. E vocês vão morar lá, e ali não há jeito de você destruir sua fazenda”.
(Sr. G. Larraín: Tem muito de medieval.)
Muito! Bem, o Lalau levantou a fazenda, em cinco anos a fazenda estava… Quer dizer, o café estava começando a nascer, estava tudo feito.
(Sr. –: Já dava café.)
Então é isso. O trabalho do Barão de Araraquara estava feito. Meu avô não pagou um tostão a ele, porque se fazia entre amigos. Com certeza meu avô resolveu muitos causas sem cobrar do Barão de Araraquara, as coisas se faziam assim entre amigos, camaradagem. Muita lealdade, muita dignidade. Mas assim as pessoas…(…)
Não sei até que ponto interessa ou não interessa, não sei até que ponto o Brasil que vocês conheceram foram assim, tudo isso já é outro mundo. Porque o tempo dos meus avós é o tempo do Império. E o tempo dos avós de vocês é o tempo da Iª República. Já é uma diferença enorme.
(Sr. G. Larraín: Mudando um pouco o tema, a gente vê em que perigos se meteu o Brasil de hoje, vindo aí Fidel Castro, etc.)
Numa reunião de Recortes eu não diria o que eu vou dizer aqui, as eu acho que…(…)
* Um comentário sobre a chuva que parou quando o Sr. Dr. Plinio foi à consolação
…Nossa Senhora. Por uma interferência d’Ela que nós não sabemos no que consiste. Hoje eu li uma coisa que me impressionou. O João me pediu de manhã se eu poderia passar pelo cemitério com ele, na vinda da Missa. Porque nós não estivemos juntos no domingo passado no cemitério, e ele gostaria de passar pelo cemitério comigo. Eu de muito bom grado me prestei a isto, fomos no cemitério.
Quando começamos a chegar a uma certa proximidade do cemitério, gotas d’água: “plum-plum-plum”. E, portanto, perigo de chuva. Como era natural já tinha um certo número de pessoas reunidas ali, porque como tinha acabado a missa, eu fiquei conversando um tempinho com o cônego. E eles acabavam [de assistir] a missa, e começam a subir, e vão a pé, lá dos Buissonnets para o cemitério, para eles iram a pé não é nada. Vão a pé muitos.
Bom, eu fiquei naturalmente com pena, vão tomar chuva, e depois… Disse para alguns: “Olha é melhor, está começando a chover, vocês entrarem aqui nessa capela.
(Sr. J. Clá: O senhor usou uma fórmula muito feliz. Se o senhor dissesse “Entrem”, eles obedeceriam. Mas o senhor disse: “Eu dou liberdade. O normal seria que entrassem nessa capela. Mas eu lhes dou liberdade.” Eles nem querem saber, vão com chuva mesmo atrás do carro.)
O João Clá me disse: “Vai se dar uma coisa que mais de uma vez se dá no cemitério” Ele me disse que mais uma vez se tem dado com ele, que ele chega, a chuva suspende, chove por perto, não chove em cima da sepultura, e o pessoal fica seco. Eu confesso que… Eu não disse nada ao João, mas eu pensei: “Eu queria ver”. Foi “tá-tá”! Uma vez ou outra caiu uma “gotona”, que eu via no para-brisa, enquanto eu rezava. As orações que eu faço são um pouco longas, eles respondem, são um pouco longas. Deu tempo depois de eu descer, eu me movo devagar, foi até a sepultura, osculei a sepultura.
(Sr. J. Clá: E estava chovendo quando o senhor entrou. Parou ali no túmulo da Senhora Dona Lucilia.)
Bem, pouco depois começou a chover, quando estava fora do cemitério.
(Sr. J. Clá: Deu tempo de todo mundo pegar os carros.)
São as coisas que alimentam a esperança da gente.
* Uma “dejadez” que está longe de ser um relachamento
Você quer ver uma coisa? Eu, em outros tempos, pelo amor que eu tenho às recordações de mamãe, eu teria pensado em pegar esses móveis todos, e levar para algum lugar onde não pudessem cair na mão de comunistas. Porque aqui, se aqui tem que funcionar um soviet nesse andar, é melhor que ao menos não conspurquem os móveis, não é verdade? Eu não penso nisso. Não há defesa nenhuma. Você fez algum plano para defender seus móveis em caso de comunismo? Nada. Fazer o quê? Não é dejadez!
(Sr. G. Larraín: É que não houve remédio.)
Não houve remédio. Você já imaginou a cena, você está passando aí, vê de repente pagarem objetos e jogarem pela rua, porque vai ser instalado um centro médico Titcherini aqui, do governo soviético.
Bom, meus caros, Fugite Irreparabile tempus, eu tenho que ir andando!
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