Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 6/12/1986 – Sábado – p. 9 de 9

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 6/12/1986 — Sábado

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O Sr. Dr. Plinio se sente expresso quando a Madre Letícia lhe diz que a missão dele era contemplar a ordem do universo * O desejo da Revolução é destruir o homem, o rei do universo; o homem pardo da ONU e o ET são modelos para a humanidade * A Revolução deseja acabar com o belo existente na natureza, esteja ele presente nos animais, nos vegetais ou nos minerais * Os homens fiéis no fim do Mundo devem ter, por oposição à Revolução, uma capacidade de imaginar como foi o Paraíso * Memórias do Senhor Doutor Plinio de quando ia assitir os ofícios de semana santa na Catedral de São Paulo * O Sr. Dr. Plinio comenta a cerimônia de lava pés, a quinta-feira Santa, o Santo Cristo de Límpias e o Santo Sudário

Que é do coronel, hein?

Então, qual é a pergunta?

(Sr. Guerreiro: O assunto se prende um pouco ao simpósio que nós estamos fazendo sobre as reuniões de sábado à noite.)

Eu estou muito curioso de saber como é que está sendo esse simpósio, ouviu?

(Sr. G. Larraín: Está indo muito bem.)

Vocês todos me dizem isso, de que está indo muito bem.

Mário você senta quando quiser, não é?

(Sr. Guerreiro: Essas graças das reuniões de sábado à noite se destinam a quê?)

* O Sr. Dr. Plinio se sente expresso quando a Madre Letícia lhe diz que a missão dele era contemplar a ordem do universo

Eu me lembro que uma vez conversando, eu fui mostrar a Sala do Reino de Maria, da rua Pará ainda, para a Madre Letícia. Mas muito tempo antes dela morrer. E ela olhando isso, aquilo, e eu fui explicando a ela, e coisa e tal. Então mostrei para ela algumas coisas, mas sem pensar nisso, mostrando algumas coisas que refletiam a ordem do universo. Por exemplo, aquela sucessão de losangos e esferas.

E ela prestando muita atenção, ela me disse: “A sua [missão?], no Céu, o senhor será chamado a contemplar a ordem do universo, é propriamente o prisma para o qual a sua alma foi chamada”.

Bem, agora, quando ela me disse isso, eu tive a sensação curiosa de que — sabe quando a pessoa se sente apanhada — eu me senti apanhado pelo que ela disse, como uma pessoa que tivesse dito uma coisa que não tivesse passado pela cabeça, mas que era aquilo mesmo.

E ela era uma boa psicóloga. O Paulo Henrique a conheceu bem. Era uma pessoa inteligente, uma boa psicóloga. O João a conheceu bem, uma boa psicóloga, etc., e me chamou a atenção aquilo.

* O desejo da Revolução é destruir o homem, o rei do universo; o homem pardo da ONU e o ET são modelos para a humanidade

Depois com tempo, pensando várias vezes no vaivém das coisas, me tem voltado isso ao espírito. Mas, se você se colocar na perspectiva da Revolução como ela está agora e por onde ela vai, você percebe que é uma destruição do homem, rei do universo, chamado a ser o homem pardo da ONU, completamente imbecilizado, etc. Já temos falado disso muitas vezes, mas é uma destruição do homem tanto quanto ele pode se destruído. Sem deixar de ser, sem deixar de existir.

Quer dizer, não é o incêndio do homem para que não haja mais homens no mundo, mas é uma coisa talvez pior, uma degradação tal do homem. Esses “punks”, etc., etc., representam precisamente isso. E ainda se percebe que vai mais longe, a coisa vai no rumo do “ET”.

Bom, então o adversário que nós combatemos, esse adversário quer a destruição do rei do universo. Daquele que sintetiza, por assim dizer, o universo que é o homem, que sintetiza enfim a ordem animal, a ordem vegetal a ordem mineral.

Bem, e é uma pavorosa blasfêmia contra Nosso Senhor Jesus Cristo encarnado, contra Nossa Senhora, e contra todas as criaturas humanas que estão no Céu preenchendo os lugares dos anjos, e que representam essa síntese do universo que é o homem.

Bom, e depois dando-me conta mais a fundo das coisas me passou pela cabeça a idéia de que o demônio quer de fato a destruição, se ele puder, se ele chegar até lá. Que o homem destrua tanto quanto possível o mundo, de maneira tal que fique um mundo horroroso que é tanto quanto possível à imagem e semelhança dele. Nos horrores em que ela está, na situação em que ele está.

Bem, mas que deve haver um ponto de convergência de todos estes horrores, que é por onde ele — satanás — é o ponto de convergência de todos os horrores do inferno. Porque dizer ele é o rei do inferno… Mas ser rei na terra, é ter uma culminância e para ele ser rei é ser o fundo do abismo. E portanto a convergência de todos os horrores está nele. O mais hediondo, e tatatá… É ele.

E, naturalmente a gente compreende que ele quereria um mundo material plasmado à maneira do inferno, habituado por homens completamente degenerados e ali ele ter a realização da coisa dele.

* A Revolução deseja acabar com o belo existente na natureza, esteja ele presente nos animais, nos vegetais ou nos minerais

Portanto, no reino vegetal extinguir tudo quanto é planta bonita, tudo quanto dá algum agrado. Aliás, já é em parte o programa comunista, acabar com flores, os jardins, os vegetais de ornamentação, com alimentos de mero sabor. Então, por exemplo, canela, cravo essas coisas que dão mero sabor, mas que não matam a fome, é preciso acabar.

Mas, pelo contrário multiplicar a soja indefinidamente e outros alimentos assim, baixa de nível, que os deve haver assim.

Bom, multiplicar na terra o número de taturanas, de lagartos, de bichos horrorosos. Como chama aquele bicho da Venezuela…? [Tapires?], antas e coisas dessas. Acabar com os leões, acabar com as espécies nobres, mas os chacais ficam, etc., etc.

De maneira tal que esse mundo também…

Depois também um desprezo, uma desatenção completa do homem pelos metais nobres, pelos minerais nobres, e o gosto da lama, etc. É uma ordem assim que tem um ponto central que é ele, mas que é a convergência de todos os horrores. De maneira que os horrores são capazes de todas as sínteses. De uma síntese por onde eles, por assim dizer, se piramidalizam. Mas uma pirâmide voltada com o cone para baixo. Se quiserem um cone voltado com a ponta para baixo, com o ápice para baixo.

E, o chegar lá é a meta deles. E eu não duvido que é o que ele queira. Vou dizer mais, uma pergunta fica: “Nós temos certeza de que não estamos no fim do mundo e que algo Nossa Senhora salvará, etc., etc?” Mas, quando chegar no fim do mundo, nós não sabemos até que ponto terá chegado o horror das coisas, e até que ponto o mundo estará degenerado pelas coisas do demônio. De maneira que o incêndio final do mundo também se compreenda especialmente.

(Sr. G. Larraín: Não tem outra coisa a não ser queimar.)

Queimar, então, manda queimar, porque os homens entregaram o mundo do qual eles deviam ser os reis e ornar, a terra, etc., etc. Despovoaram, abandonaram, degeneraram, etc., etc. Toca fogo! Manda os anjos tocarem fogo na Terra. Quer dizer, é uma coisa que se compreende perfeitamente.

São hipóteses. Eu não estou fazendo aqui exegeses. Talvez até uma exegese justifique isso, eu não sei. Nunca me entreguei a esse esforço por falta de tempo e por falta de habilitação, porque para fazer uma exegese dessa audácia é preciso saber, conhecer as regras da exegese e tudo, precisa ter conhecimentos, etc., que eu não tenho. Portanto eu estou simplesmente lançando hipóteses.

* Os homens fiéis no fim do Mundo devem ter, por oposição à Revolução, uma capacidade de imaginar como foi o Paraíso

Mas é assim. Essa é a meta deles. Os homens do fim do mundo, os tais homens virtuosíssimos que não devem morrer e que devem ser chamados por Deus para co-reinaram com ele e co-julgarem todos que ainda estiverem… os contemporâneos deles. Estes homens devem ter no mais alto grau o espírito oposto, e por reação à essa obra, devem ter um amor para o mundo, por onde eles sejam capazes de reimaginar um pouco como foi o paraíso. Eu estou claro?

(Sr. –: Sim.)

E a recomposição deles far-se-ia assim: se é tal o horror que eles querem chegar, há um ponto que é o ponto de todas as “phulcritudes”, etc., etc. E que para o universo criado é o Verbo encarnado, e é Nossa Senhora, e olhando para lá, há antes de tudo um universo de santidade. Enquanto esse é um universo de pecado e de ódio à Deus, esse é um universo de santidade, e de amor à Deus, etc., etc., que se trata de conhecer e de unir-se à ele. De estar-se nesse universo.

Bem, e depois todas as deduções do universo na ordem temporal, desse universo de santidade que se deve considerar florescente na Igreja. Então, tudo o que se deduz daí e que irradia para a esfera temporal… Como seria a esfera temporal, e como seriam os animais e como seria a vegetação, etc., etc. Eles devem imaginar a coisa a mais parecida possível com o paraíso, e como o céu empíreo; tendo no ápice Nosso Senhor e Nossa Senhora.

Bom, agora, isso é, isso supõe, que na ordem das coisas haja, um sumo de virtude, o qual sumo de virtude, de algum modo contém todas as outras. Bem, e sumo de pecado que de algum modo também contém todos os pecados.

Bem, e o epílogo da história da humanidade, mas então da “post-história”, que seria o Reino de Maria e depois o pecado de satanás, bababá. Mas, já seria essa espécie de pré-figura em que estamos nós, não é? Participando disso.

Então, há um sumo qualquer da virtude, e há um sumo qualquer do pecado que nos é dado entrever. Bem, e no entrever isso, nos é dado colocar-nos num desses píncaros. O píncaro do bem, a partir do qual se move a história. Como os outros que estão colocados no píncaro oposto, também eles movem a história. Mas história de fato só é movida pelos que conhecem esse píncaros, e os amam, se integram com o bem ou com o mal.

Naturalmente eu estou vendo os progressistas dizerem que isso é maniqueísmo, mas não vamos perder tempo com os progressistas. Vamos mudar de tema. É melhor virar a página.

* Apoiar-se no passado para justificar as cogitações de “pulchrum” é o que dever-se-ia fazer

Bom, agora, como para recompor a imagem do reino animal, do reino vegetal e do reino animal… Como é que fariam esses homens? Para recompor a imagem do reino humano como é que fariam esses homens?

Eles procurariam — quanto ao reino humano — o homem é um reino dentro disso, eles procurariam o quê? Eles procurariam todos os restos do passado, para apoiar historicamente as suas cogitações, para dar matéria para as suas cogitações, etc., etc.

Então, a Igreja em todos os seus séculos, em todas as suas glórias, em todas as suas épocas. Mas também a cristandade em todas as épocas, em todas as glórias, em toda a história. Eles procurariam pelo chão devastado do mundo, ou da história, todos os estandartes que ficaram rolando, todas as bandeiras que ninguém mais quis. Todas as tradições, contra as quais se blasfemou. Eles reuniram tudo isso para formar a imagem deles à respeito do que seria no Céu.

Eles já não teriam a esperança dessa terra, mas eles teriam uma avidez de formar uma imagem total do Céu. Inclusive do Céu empíreo, que é a representação material e espiritual da Civilização Cristã. Civilização Cristã é o Céu empíreo.

Bem, a gente vê que nossa procura é de intensamente [fazer] essa débris do passado e das esperanças do futuro. Nós vemos que muitos desses restos do passado, neles latejam esperanças. Ainda que sejam passados que morreram, pulsam neles ainda algumas esperanças. Essas esperanças indicam caminhos da história.

Bem, e nós somos os portadores de tudo isso, para essa época que seja antes da península final, do “post-scriptum” da história. Agora, então há um ponto ápice de tudo isso que é um ponto que nós devemos querer e amar mais do que tudo, e a partir do qual nascem todas essas concepções, etc., etc. E que eu estou falando, e que nos permite reconhecer, pela presença desse ponto nos restos da cristandade esquartejada — se você quiser, nas ruínas dos templos persas — nos permite reconhecer as pedras que foram do Templo. E a recolher amoroso de cada uma, para a reconstrução do Templo. Isso seria a coisa.

* Cautela contra as simplificações! É preciso encontrar nas coisas do passado o elo por onde se entende melhor a NSJC e a Nossa Senhora

Bem, agora é preciso dizer que nós devemos evitar aqui as simplificações que seriam verdadeiras, mas que nos impediriam de conseguir a verdade inteira. Porque se dissesse: “Se é Nosso Senhor Jesus Cristo, é Nossa Senhora”. Eu digo: “É, eu acabo de dizer, é claro, não pode ser outrem, é evidente. Mas não basta ser isso, é preciso encontrar o elo por onde a partir dessas coisas do passado se entende melhor a Nosso Senhor Jesus Cristo, se entende melhor à Nossa Senhora, se reconstrói melhor a eles. Para compreendê-los inteiramente como foram”.

Quer dizer, é um passado “Cristiforme”, logo, Cristo Nosso Senhor. Se esse passado foi a forma de Cristo, Cristo Nosso Senhor tem em si, a forma desse passado. E para conhecer bem à Nosso Senhor Jesus Cristo, eu preciso conhecer esse passado.

Então pega, por exemplo, aquele álbum soberbo de Rottenburg. Folheia-se o álbum, não tem dúvida nenhuma é um fruto da Civilização Cristã. Nela se espelha de algum modo, Nosso Senhor. Está claro? Está bem, eu sei, não corra, então se eu visse bem à Nosso Senhor, eu veria nEle algo de “Rottenburgforme”. Eu estou vendo bem à ele?

Se eu quero conhecer bem à Ele, desse raciocínio não se escapa. É um raciocínio todo ele lógico. Como é que se escapa disso? Não se escapa.

Bem, então, esse elo, que vai do passado, como nos foi legado? Do presente, como ele é, nas almas que sofreram todo esse processo reagindo contra ele? A Madre Maravilhas e outras almas assim.

Bem, a TFP como ela é, porque não, quer dizer, a TFP como ela é, como ela deveria ser. O que há do que ela devia ser no que ela é?

Bem, se tiraria algo que eu deveria saber ver em Nosso Senhor Jesus Cristo, e que daria então a mim, uma espécie de calor de devoção para com Ele, que a gente vê que as nossas almas pedem ainda esse complemento para ter esse calor de devoção. Graças à Nossa Senhora já é a adoração em todo o sentido do termo, etc., etc., etc. Mas há mais, nós quereríamos dar mais, nós quereríamos… há mais. Esse mais o que é que é? É precisamente isso.

Bem…

(…)

É Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto presente na ordem espiritual, enquanto presente ou simbolizado na ordem temporal.

Então, eu falo um pouquinho da Igreja. Naturalmente eu falo da Igreja Constantiniana, onde as devastações da auto-demolição, não tinham produzido desfiguramentos. Eu quero tê-la com ela era.

* Memórias do Senhor Doutor Plinio de quando ia assitir os ofícios de semana santa na Catedral de São Paulo

Bem, eu me lembro que eu assistia ofícios, quando chegava a semana santa, que ia assistir o ofício da semana santa na catedral. Mas, a catedral não estava construída naquele tempo e a Igreja de Santa Efigênia era a catedral provisória de São Paulo.

E eu ia assistir lá também, então com as ótimas relações que eu tinha com o clero naquele tempo, eu não assistia no povo embaixo. Mesmo porque aquele bairro, era um bairro já então muito pouco residencial, com muitos escritórios, etc. Por isso é que ficou catedral, porque não tinha quase movimento paroquial.

Bem, então muitos escritórios, etc. E famílias propriamente não iam. Ia um populacho esquisito que eu não sei vindo de onde era, mas que enchia a catedral. Mas de uma convivência imediata pouco propícia ao recolhimento. Levavam criancinhas que chupavam balas, e toda essa história assim…

Era gente muito respeitável que estava lá, muito direita. Eu não tenho nada contra. Mas o choro de criancinha não me ajuda a prestar atenção num ofício, e daí para fora, e daí para fora.

Então eu subia no coro em cima, e ficava assistindo de junto do órgão, e tendo então uma grande distância em relação ao altar-mor e as cenas todas do ofício, etc. E acompanhava com um livro de liturgia que trazia tudo isso, e acompanhava o ofício e ia rezando.

Isso levava duas horas, às vezes levava três horas, e eu achava aquilo de uma beleza, e acho, de uma beleza, de uma imponência, de uma sacralidade extraordinária. Tudo muito bonito etc.

Por exemplo, na sexta-feita santa, quando se vinha adorar o Cristo Morto. Então se colocava um crucifixo, comum, mas grande — tamanho grande, tendente ao natural — e colocado sobre uma espécie de ataúde. Mas assim com alguma coisa que fazia com que a cabeça dEle ficasse ligeiramente em plano superior ao resto do corpo.

E enquanto o coro cantava coisas em gregoriano, alusivas à Cristo Morto, o povo fiel vinha oscular. Mas, o primeiro a entrar e que entrava diretamente da porta da catedral, recebido pelo clero, era o arcebispo em grande luto. Mas, o luto do arcebispo era uma coisa magnífica, porque ele entrava, todo ele vestido de roxo. Com meias roxas, sem sapatos, e com uma espécie de capuz, parecido um pouquinho com o capuz do dodge veneziano. Ele todo dava assim um certo ar de dodge veneziano. Mas, uma capa imensa carregada por coroinhas, etc., etc. Talvez vocês nas respectivas cidades tenham visto isso.

Bom, mas era da liturgia, lhes faltou ocasião. Mas acho que em todas as cidades do mundo, arcebispos faziam isso.

Entrava e D. Duarte era um homem muito representativo. Ele era seco, magro, alto, muito teso, e muito sério. Ele entrava e o coro cantava baixinho. Ela era o primeiro, se ajoelhava, depois osculava os pés do Cristo, o Sagrado Lado, as mãos de Nosso Senhor. E depois então ele se retirava, eu acho que ia ao sepulcro… Que estava armado o sepulcro. Ele adorava o sepulcro, depois ele se retirava. Não me lembro mais se ele se retirava pela sacristia, ou se ele voltava para a parte da frente da Igreja. Toma o automóvel dele e voltava.

[Vira a fita]

Mas, isso era de uma grandeza, de uma seriedade. E a gente percebia ali a majestade de Cristo Morto, de um modo magnífico. E vocês vêem em pela descrição que eu estou fazendo que isso me tocava profundamente, no lado intelectual, porque tudo isso se explica muito bem segundo a razão, etc., etc.

Mas, me tocava também o lado sensível. Vocês devem estar vendo que é isso. E depois o lado sensível e o lado intelectual se compunham muito bem. Era muito direito isso, isso deve ser realmente assim.

Mas, anos depois, eu fixava essa cena, mas havia também outras cenas grandiosas da semana santa.

* Descrição do “ofício de trevas”

Por exemplo, quando rezavam o ofício de trevas, e terminava o ofício de trevas, na catedral havia estalas de um lado e de outro do altar-mor, da capela-mor. E por detrás do altar, eles estendiam na semana santa um pano de um roxo azulado que tapava toda a parte detrás do altar. E os Cônegos iam rezando e ofício de trevas, era uma parte para cada dia. Para quarta e para quinta. Eu não me lembro bem se sexta havia ofício de trevas, mas nesse caso seria também outro ofício de trevas.

Como é comum com a liturgia, umas partes próprias e outras partes comuns, do ofício de trevas dos dias anteriores. Mas, quando terminava o ofício de cada noite, as trevas, os salmos escolhidos para se recitarem eram mais lúgubres do que os salmos dos dias anteriores. E quando terminava, apagavam-se as velas e o cerimoniário pegava a última vela que ficava acesa — vela amarela em sinal de dor, em sinal de luto — e levava para trás do altar, de maneira que se percebia a vela, mas oculta. Nosso Senhor Jesus Cristo era a luz oculta aos homens e que permanecia na Igreja dEle já fundada, mas de maneira…

Mas, no último dia de trevas era a morte dEle. Então não era mais a Paixão em que iam se fazendo as trevas em torno dEle, mas era a morte dEle. Então, atrás se apagava a vela e toda a igreja ficava no escuro. Então os coroinhas tocavam uma matraca grande de pau, com uns fechos assim de metal, que eles agitavam assim e que fazia “plec-plec-plec”. E os cônegos pegavam os livros e batiam sobre as estalas, “plum-plum-plum”. Os sinos silenciosos havia tempo. Não havia mais velas no altar, não haviam mais flores. Tinha havido a cerimônia trágica do desnudamento dos altares em que recitando os salmos que representavam a tristeza de Nosso Senhor, que estava para morrer, etc., etc., iam se tirando as velas dos altares. Estava tudo como se a Igreja tivesse sido saqueada e empilhada, não é?

E levavam Nosso Senhor para o sepulcro, fechavam… Quer dizer, o Santíssimo também não é mais adorado. Se não me engano corriam um pano para não se ver a capela do Santíssimo. Não se dava comunhão na sexta-feira santa. Era o dia do horror e da desolação. Fazia pensar que só faltava aparecer os justos da antiga lei, no caso concreto, em São Paulo, só faltava aparecer Anchieta e os justos que tinham morado em São Paulo, e andar pela cidade increpando pelos pecados que tinham cometido.

* O Sr. Dr. Plinio comenta a cerimônia de lava pés, a quinta-feira Santa, o Santo Cristo de Límpias e o Santo Sudário

Bem, isso tem tudo junto uma beleza extraordinária, mas maravilhosa, lúgubre, grandiosa de arrepiar. Mas, com os traços bondosos postos muito a nu também, era uma beleza o dia do lava-pés. Era anterior a isso. Ainda não estavam tantas trevas postas na Igreja e o bispo ia lavando os pés dos pobres, passando um pano, osculando, etc., etc. Era uma coisa muito bonita. Representava o afeto de Nosso Senhor para com seus apóstolos, etc.

A missa de [sexta-feira?] santa: Missa de alegria e de tristeza. E é depois da quinta-feira que começa o desnudamento dos altares, e tudo o mais.

E tudo isso é muito bem calculado, e tudo muito bem pensado. Depois tudo próprio a tocar uma alma até o fim, até o fundo.

(…)

Mas isso me veio, eu me perguntava o seguinte: “Há algo que eu contemplo nisso e que eu adoro, e que me faz pertencer à Igreja de um modo éperdu. Quer dizer, toda a alma, eu pertenço à Igreja, eu amo a Igreja, eu creio na Igreja, etc., etc., é o meu Céu na terra, a Igreja. Mas, há algo dentro disso que eu ainda não compreendi inteiramente. Uma maravilha nova, um píncaro qualquer que eu não consegui entender bem. Eu queria ter entendido isso ainda melhor”.

O Santo Sudário, eu acabo de falar. Mas, essa versão do Santo Cristo de Limpias que tinha atrás da mesa de trabalho de D. Duarte — na sala dele na cúria — e que era uma raiz de madeira, com todos aqueles movimentos de uma raiz de madeira. Apenas discretamente envernizada. Encerada e envernizada. Um trabalho bem feito, mas comum, de carpintaria.

E eu perguntei ao D. Duarte qual era aquela imagem, porque me chamava tanto a atenção. Não expliquei a ele porque. Me chama tanto a atenção e eu tinha dificuldade de conversar com ele com a atenção voltada para o tema por causa da imagem.

Eu perguntei a ele: “Senhor Arcebispo, me desculpe a pergunta, mas o que é essa imagem? Que invocação é essa de Nosso Senhor?”

“—É o Santo Cristo de Límpia. Mas o que tem de particular é que os movimentos dos nós da madeira são tais que, observe, o pintor apenas com uns traços a óleo, de cá, de lá e de acolá; o pintor figurou inteiramente a Nosso Senhor”.

E era verdadeiramente uma coisa rara, uma coisa extraordinária. Bem, então, eu ali, por exemplo, ou no Santo Sudário veria inteiramente o que eu via naquela cerimônia, não é?

E nesse sentido então, Nosso Senhor era o ponto da reunião, de convergência de aspectos vários, da iconografia, onde a santidade dEle me aparecia com uns dados, com uns aspectos que normalmente não são apresentados, e que se devem somar aos outros. Não é a exclusão dos aspectos correntes, Deus me livre, mas é a soma. Para dar uma idéia completa dEle que a mim me faz muito bem.

* No castelo de Saumur e em Rottenburg está presente também o espírito de Nosso Senhor

Bom, agora, então eu deveria tomar também os aspectos da ordem temporal cristã, e portanto, de edifícios temporais construídos sob o bafejo do espírito dEle. É o Espírito Santo.

Então, o castelo de Saumur. A cidadezinha de Rottenburg. Isso e aquilo, aquilo outro. E perguntar: “Aí não está também o espírito dele?” E acrescer de tudo isso resulta uma figura total, ou resultaria uma figura total que considerada e conhecida daria uma adoração de uma intensidade extraordinária. Mas também uma capacidade de atrair, ou de ser odiado.(…)

(Sr. Guerreiro: Para que aspectos Nossa Senhora nos chamava mais nessas conversas aqui, de sábado à noite?)

É este aspecto no qual o “tal enquanto tal” se encontra. Na adoração de Nosso Senhor e na visão da Igreja assim.

(Sr. Guerreiro: Mas, isso o senhor faz continuamente no grupo.)

Sim, agora no que é que no sábado à noite há disso?

(Sr. Guerreiro: O que há a gente sabe, porque o senhor tem comentado.)

Então qual é a sua pergunta?

(Sr. Guerreiro: No que é que a graça do sábado à noite se distinguiria das outras graças?)

É que ela trás em si uma, um efeito, uma eficácia de perdão, como se não tivesse havido os olvidos de 67. De maneira que, por causa disso, renasce em nós, um frescor de espírito e uma abertura para tudo quanto há de mais alto que não há habitualmente.

Bem, e em que se procura…

(…)

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Alagoas, 1º andar