Conversa de Sábado a Noite ─ 29/11/86 ─ Sábado . 11 de 11

Conversa de Sábado a Noite ─ 29/11/86 ─ Sábado

Todo passo da Revolução na linha tendencial ou sofística, aparentemente insignificante, contém no fundo o pior da Revolução presente ali * Um aceno de futilidade que conduzia à falta de seriedade é notado pelo Sr. Dr. Plinio no jogo das saias das senhoras do início do século * O império das formas ovaladas conduziu e preparou o mundo para aceitar o burguesismo * Só percebe a Revolução presente nas pequenas modificações quem possui uma aversão viva ao termo final dela * O pecado imenso deu um dinamismo ao pecado original que acentuou a facilidade do homem decair e dificultou sua escalada para o bem * No Sr. Dr. Plinio há uma “vis destruendis” que sabe espreitar o inimigo nas horas mais apropriadas; até o descanso é uma forma de luta!

Que é do nosso Guerreiro?

Proteção contra o calor, é Guerreiro?

(Sr. Guerreiro Dantas: Essa cadeira é muito confortável também.)

Mas então, o que é que falavam?

O que é João?

(Sr. J. Clá: No fim do ano passado o senhor disse que esse ano seria um ano de surpresas.)

É, eu disse isso.

Eu não tive tempo de comentar hoje, e achei melhor não comentar, porque achei que o tema de que tratamos era muito mais importante.

* Para consertar uma jogada política mal feita que favoreceria a RA, o próprio presidente do partido governista admite ter sido um “show”

Mas, o estudo atento das notícias vindo de Brasília levou-me à convicção seguinte: aquilo foi um show.

Bem, isso é uma coisa comum, mas foi um show a serviço de quem? Aqui é uma outra questão, e absolutamente não está tão claro que tenha sido um show para impressionar os estrangeiros. Mesmo porque, se fosse para impressionar os estrangeiros, eram os credores estrangeiros, etc., com a idéia de uma pressão muito grande do populacho e que por causa disso era preciso fazer concessões, etc., etc., o governo tinha meios de criar uma situação muito desagradável para os jornalistas e para os jornais que publicassem isso.

Porque era só dizer a eles: “Eu mando pedir para não publicarem porque é interesse nacional. E vocês estão trabalhando contra a economia nacional dizendo que isso é um show.” O governo nem precisava mandar dizer que fez o show. Bastava dizer isso: “Ora, o que aconteceu em Brasília foi, para nós todos, um inconveniente; para o presidente foi uma aflição, mas tem um lado bom e que é isso: é a pressão sobre os estrangeiros. Se vocês disseram que é um show, o único dado bom que vem para o país, independente de partidos políticos, o único dado bom que vem é de que poderia pressionar os nossos credores. De vocês. Vão dizer que isso é um shou, a única coisa de que… [ilegível] … vocês vão prejudicar…. [ilegível] …

Havia um meio de agarrar isso, e portanto não foi feito isto por uma outra razão. Depois outra coisa, se espalhasse que as forças armadas ficaram indignadas, eles ainda têm medo das forças armadas, eles ficariam com medo e não fariam.

Quer dizer, isto também foi um pretexto.

(Sr. M. Navarro: O próprio Ulisses diz hoje que foi um “show”.)

O chefe do partido governista dizer que foi um show do governo, vocês está compreendendo que é, que a coisa é outra.

Bom, eu acho que não vale a pena tomar a reunião com essa baixa de nível. Mas uma coisa eu queria dizer: é que há razões para a gente achar que tinha sido preparado um show com vistas à favorecer a Reforma Agrária então Reforma Urbana. Mas, que isto foi feito tão desajeitadamente que foi impossível sustentar que não era show. E por causa disso eles tiveram que saltar por aí. Então disserem que era show mesmo.

Bem, e isso com a leitura ordenada dos jornais pode-se fazer, pode-se mostrar como provável, não pode dar uma demonstração preto sobre o branco, mas pode mostrar como provável.

O que para nós é uma delícia inebriante, uma surpresa inebriante. Porque mostrar que a Reforma Agrária encalhou e que para desencalhá-la resolveram fazer esse show, é uma coisa muito interessante. Como entra também dentro do jogo da Providência a nosso favor que isso encalhasse.

Mas, você compreende que preparar nesse sentido um show bem feito, não essa porcaria, nas nascentes da Constituinte, era o tipo da coisa que tinha propósito.

Era uma coisa pró pobreza, contra o próprio pacote II que lançaram, era preciso conceder mais, era por aí, é muito interessante.

Valia a pena até, o material você guardar para a reunião que vem para a gente fazer uma exposição, conforme corram as coisas.

(Sr. Paulo Henrique: Isso joga à favor do senhor.)

É claro, é claro, muito, muito.

Bem, enfim vamos para a nossa reunião da tarde.

(Sr. J. Clá: O senhor não poderia aprofundar um pouco mais a Reunião de Recortes. Ou seja como se ter a verdadeira cólera. E a necessidade de adquirir a cólera nos olhos do Fundador.)

Quer dizer, eu amplio o que dei à tarde, mas naturalmente uma parte não vai ser gravada, eu… O que eu dei à tarde não, o que eu falei aqui durante o jantar, eu amplio. Mas, uma parte vai ser gravada e outra não.

* Todo passo da Revolução na linha tendencial ou sofística, aparentemente insignificante, contém no fundo o pior da Revolução presente ali

Eu estava dizendo o seguinte: que propriamente para a gente ver bem a Revolução ─ aliás, foi uma coisa que eu nunca disse ─ mas para vocês verem bem a Revolução é preciso tomar em consideração. É uma coisa aliás, que alarga os horizontes não sei até onde, ouviu?

Mas é preciso tomar em consideração o seguinte: toda e qualquer mudança que a Revolução faça para impor-se, para esgueirar-se nos espírito, ou na linha tendencial ou na linha sofística — pouco incomoda — toda a mudança que a Revolução faça, é feita de tal maneira que aquela mudança vocês observando assim de imediato, ela não tem, ela não vai até o fundo da Revolução. Ela acrescenta um traço à mentalidade revolucionária que no futuro chegará a seu pleno, está chegando a seu pleno, mas ela de si não contém a visão, a previsão desse traço final, do final. É a impressão que se tem.

Mas eu sustento que quando se tem uma aversão contra- revolucionária bem feita, se percebe que qualquer traço que a Revolução acrescente, para modificar qualquer coisa a partir dos modelos mais ou menos do século XV, qualquer traço desse de fato, é como um cone que a gente visse do lado de dentro. Quer dizer, no fundo a gente vê a ponta do cone, olhando para o cone. E na ponta do cone vê o pior da Revolução presente ali.

Bem, então, por exemplo, , o seguinte: nós vimos isso agora no Auditório São Miguel. Você estava lá meu filho?

(Sr. –: Não.)

Eu julguei vê-lo lá. Bem, aí, o Fernando Antunez e o João Clá estavam lá, o Mário Navarro também, não é?

* Um aceno de futilidade que conduzia à falta de seriedade é notado pelo Sr. Dr. Plinio no jogo das saias das senhoras do início do século

Apareciam vistas de São Paulo antiga, São Paulo de 1900. Uma boa parte dos slides foi de São Paulo de 1900. E aparecia vistas da atual rua General Carneiro, com pessoas olhando de um lado para outro, eram vistas de uma cidade.

Bem, e com as modas de 1900, com os vestidos plutôt estreitos, mas não sei se como estavam ali, não sei se era caipirice, ou se era… mas foi última moda em certo momento, isso é certo. As saias, eram chamadas saias… [ilegível] … em forma de sino, chegavam mais ou menos até aqui e se abriam para facilitar a caminhada, e abriam então muito, e com ornatos, etc., etc., que variavam de acordo com os recursos das pessoas, mas eram em geral coisas que davam a impressão de plumas, não eram plumas, tecidos muito fofos, e coisas, davam essa impressão.

Bom, no modo da saia ser rodada, e no modo, e nos modos das dobras se sacudir quando elas andavam, não tinha nada contra a pureza, até nem vem ao caso pensar em coisas contra a pureza, porque o que é contra a pureza, então é melhor fechar a barraca, porque a vida se tornou impossível.

Bom, mas no jogo da saia havia uma certo aceno de futilidade, de leviandade que guiava para a quebra da seriedade de espírito que ainda naquele tempo existia em boa medida. Então, a ponta de cone daquela medida levava para o estado de espírito que por exemplo, tinham os bispos norte-americanos assistindo às gargalhadas a narração daquele batismo por imersão. Mas é uma coisa mínima, mas é isso, não é?

* O império das formas ovaladas conduziu e preparou o mundo para aceitar o burguesismo

Vocês peguem aqui por exemplo, dois exemplos. Tomem o jeito do ovalado desse quadrinho, da moldura desse quadrinho. Bem, vocês encontram o mesmo desenho ovalado na moldura daquele quadro grande. Bem, vocês encontram em outras épocas históricas muitas molduras assim, ovaladas, mas encaixadas numa coisa maior, mas o mero ovalado destacado completamente do contexto, e colocado assim. Esse mero ovalado, dá um ar de burguês, de burguesia, satisfeita, contente, alegre de si mesma, que é diferente da civilização aristocrática que vinha.

Ele não tem nenhum ornato, nem tem nenhum laçarote, não tem nenhuma figura mitológica, não tem nada, é uma coisa que o mero oval de si é burguês, é anti-aristocrático.

(Sr. M. Navarro: Esse aqui por exemplo?)

Esse por exemplo. Esse ainda é um pouco disfarçado, porque o bordo é maior, aqui é um pouco disfarçado pelos sucessivos encaixes, mas nesse tempo, naquele tempo, meados do século passado, os quadros ovalados era a regra geral, era o período dos homens obesos que comiam demais, que ficavam super pançudos e que usavam aquelas calças colantes e que apareciam as pernas, John Bull é uma figura disso, uma coisa horrorosa.

De maneira que isso traz no fundo um avanço da mentalidade burguesa sobre a mentalidade aristocrática. Bem, peguem aquela moldura ali do quadro do meu avô, está o ovalado de novo.

Bem, vocês dizem, vocês me responderão: “Mas Dr. Plinio tenha paciência, todos esses estão enquadrados em outro contexto”. Mas, a mania de apresentar só no ovalado as fotografias indicam o império do oval, e como são concessões ao mero oval que se generalizou muito.

Bem, então vista na ponta do cone, vista por dentro o que se vê é uma glorificação do burguesismo, no burguesismo no que ele tem de não ornado e no fundo não sério. Isso está bem explicado ou não?

(Sr. Paulo Henrique: Isto é quanto à forma apenas do ovalado?)

É quanto à forma do ovalado. Por quê? É uma coisa curiosa, mas vocês tomem, por exemplo, aquele quadro, ele é mais sério assim do que se fosse ovalado.

Bem, você se incline um pouco e veja o quadro de vovó que está lá, o que ela não perderia num ovalado.

(Sr. Paulo Henrique: Perderia sim.)

Mas perderia o quê? Ela não seria explicável num ovalado.

(Sr. G. Larraín: Agora, o senhor não é partidário dos quadros em ângulo reto tão pouco, não é?)

Não, eu acho que não se deve ser necessariamente quadro em ângulo reto. Mas, é que no ovalado, deve diretamente, no ovalado, figurar coisas que disfarcem o oval, por exemplo, em cima um laçarote, qualquer coisa assim, que tirem a simplicidade excessiva da forma ovalada. Como por exemplo o quadro meramente quadrado e sem nenhum adorno eu sou contra. As formas simplesmente simplicíssimas são contrárias à civilização, é o primitivo, é o elementar, é evidente. Não sei se eu estou me exprimindo bem?

(Sr. –: Claro.)

* Só percebe a Revolução presente nas pequenas modificações quem possui uma aversão viva ao termo final dela

Agora, a gente poderia dar uma porção de outros exemplos tendendo a isso, mas enfim, nós podemos ficar nesse exemplo.

Agora, com é que a gente nota isso? É só por meio de uma aversão tão viva ao ponto final onde deve chegar a Revolução que a gente por assim dizer, prevê e pressente em tudo aquilo que ele se prenuncia, e eu estou aí empregando bem direito as palavras com essa intenção, prevê, pressente, prenuncia. Esse prenuncia e o sentir o por onde ele se prenuncia, dá à previsão o pressentimento.

Bom, assim a gente poderia… Vamos dizer, eu argumento com pequenos objetos de casa porque é o que eu tenho diante da minha vista, não valeria a pena argumentar com objetos que eu vi que vocês não viram, ou objetos que vocês viram e que eu não vi, porque eu não posso adivinhar para exemplificar.

Mas, tomem por exemplo, aquela luminária que está lá.

Vocês vêem que tem uma séria de pintazinhas verdes que estão na raiz daqueles bastonetes. Não é nenhuma raridade, é uma coisa comum, em coisas desse gênero. Mas, quando eu comprei comprei num antiquário da rua Barão de Itapetininga, quando estava mobiliando a minha casa. E pedi para a Rosée me acompanhar, a Rosée achou que estava bom, etc., mas disse ao antiquário que ela esperava que ele pelo preço tirasse aquelas pedras verdes, aquelas contas verdes, e pusesse contas brancas da mesma cor.

Eu disse a ela: “Não, eu não quero, tem que ficar com as contas verdes”.

Ela disse:” Não, mas as contas verdes não estão se usando”.

Eu disse: “Bem pouco me incomoda, porque isso é um uso efêmero, e isso é para ficar na minha casa per omnia saecula saeculorum, e eu gosto mais assim.

Ela fez assim com os ombros, como quem diz, passa, no meio das mil extravagâncias, ou mil sectarismo seus. E veio assim para casa.

Por que é que eu não quis?

Porque evidentemente, nesse contexto, tirar as pedras verdes e pôr pedras brancas — que o homem tinha, hein? — Ele se dispunha a fazer grátis. Depois é simplicíssimo.

(Sr. M. Navarro: Aquilo é um arame.)

Um arame, é uma porcaria.

Bem, o fazer isso, pôr ali branco, era a concessão ao monocolorismo que naquele tempo estava se difundindo muito e que fazia parte de uma onda precursora do monocolor de todas as coisas no mundo de hoje.

(Sr. Guerreiro Dantas: E no fundo tem ligação com os prédios retos.)

Tem ligação, tem tudo, e é um objeto que está lá.

Então, são bagatelas, são coisinhas insignificantes, mas a força probante está aí. É que na bagatela, na coisa insignificante, isso se… (…)

(Sr. Paulo Henrique: Mas, ela estando do lado de lá, tinha o “feeling”.)

Não, os partidários da Revolução sempre vêem alguma coisa do cone da Contra-Revolução, do cone, visto por dentro, eles vêem, nós não vemos.

(Sr. M. Navarro: Pelo próprio nome, já se soube de um caso.

Mais de um caso na América Latina, bem na América espanhola.

Bem, de onde é que vem isso? Isto vem, em última análise de uma aversão ao cone da Revolução, da parte de uns, ao cone da Contra-Revolução da parte de outros.

Agora, a questão é que a visão desses dois cones, não se apresenta do mesmo modo para o homem, não se pode forçar o paralelismo sem abandonar a realidade, a realidade é mais complexa do que isso.

* O pecado imenso deu um dinamismo ao pecado original que acentuou a facilidade do homem decair e dificultou sua escalada para o bem

Porque o homem tem um pendor, interno, insuspeitado, contínuo, para o cone da Revolução por efeito do pecado original. E desde que a Revolução arrebentou, a tendência para esse cone, existe, de um modo ou de outro, com mais dinamismo um ou outro, mas existe.

Bem, e é só o homem se entregar ao seu egoísmo, a sua sensualidade, ao seu orgulho, que ele todo por mil filamentos tende para lá.

Agora, isso é descer, e a lei da gravidade facilita. Agora, coisa muito diferente é subir. Porque o homem pelo lado da graça que recebe, pelo lado da inocência etc., tem uma tendência para um cone oposto. Mas, acontece, que ali é preciso subir para chegar até lá. Se quiserem, é preciso às vezes deliciosamente voar, mas não é a tendência para baixar.

Realmente, então, existe uma generosidade para subir que torna penosa a ascensão, e existe uma facilidade para baixar que torna agradável a baixa.

Vamos dizer assim, que para ver esse cone para cima, o homem tem que fazer assim, para ver esse cone para baixo, basta que ele faça assim… É diferente.

Agora, ponha junto, todas as artimanhas da Revolução para estar despertando no homem continuamente, o “V” para baixo, então deixa-se levar pelo ambiente e lá vai.

Depois, mais ainda, o dinamismo intrínseco que o pecado imenso deu por obra do demônio, a essa tendência para o cone.

* Os pagãos por não fazerem parte da Revolução, deixam-se estagnar em estágios intermediários no resvaladeiro para o péssimo; os cristãos não!

Porque vocês vêem por exemplo, que pelo que eu acabo de anunciar, todos os povos têm a tendência disso para baixo, todos os povos não católicos, mas deixam-se estagnar em estados intermediários, por períodos quase infinitos. A Revolução não, a partir do pecado imenso, ela tem uma cadência “pam-pam-pam”, para frente, uma pressa, uma capacidade de resistir e de lutar, extraordinária.

Bem, os outros, é uma coisa curiosa, têm também mas em sociedade secretas. Em geral todos esses cultos têm grupos secretos que praticam o culto pior, e que chegam até o demônio. As civilizações, a ruptura “calda-cabeça” não se dá entre eles, porque há uma minoria que representaria a cabeça no ocidente e que neles se isola e que secretamente se afunda.

Bem, mas a maioria nem eles querem arrastar, eles querem que vegete mais ou menos enrolada naquilo e que eles vão pegando as vítimas prediletas daquilo e “entrosando”.

Não sei se eu estou me exprimindo bem?

(Sr. F. Antúnez: Eles não querem arrastar a maioria?)

Eles sabem que não conseguem. Eles não têm o dinamismo que tem o pecado imenso e a Revolução.

(Sr. Paulo Henrique: Mas o deixando na posição em que estão eles já se perdem.)

Sim, de algum modo já, mas não é com o dinamismo que tem… Vamos dizer, um chinês comum, que intui algo do pior do Budismo, não tem dúvida. Mas, o conjunto dos chineses comuns não vai com a marcha acelerada para o cone do Budismo com que vai a civilização ocidental.

(Sr. Poli: O efeito do pecado imenso.)

Efeito do pecado imenso. Aquilo que Nosso Senhor revelou a Santa Margarida de Cortona: a soltura de um demônio pior do que o que atuou no deicídio.

(Sr. G. Larraín: Há algo que é fruto da apostasia.)

A apostasia é muito pior do que o pecado do… mas é um povo que apostatou da religião primitiva, pecou muito menos do que um povo que apostatou da religião Católica. Como aliás, um povo que vai apostatar no Reino de Maria, pecará muito mais.

Donde, então: atenção! Porque não se pode perder tempo, à maneira da… no fim da narração que o Mário Navarro deu hoje, cinco anos perdidos com “pataquadas”, não pode, porque a rapidez não permite.

* É mais urgente acabar com a ação do mal camuflado, por exemplo, num seminário, do que acabar com a prostituição declarada

Bom, agora, então aqui se põe uma coisa: os filhos da Contra-Revolução, sobretudo no período extremo da Revolução, que é este, ficarão tão desajudados pela Providência que não tenham com o que lutar? É uma pergunta. Porque existir que uma pessoa por si, perceba o que eu estou dizendo, francamente não é fácil. (…)

O mal é muito mais, um certo tipo de mal é muito mais perigoso, muito mais contagioso e, portanto, muito mais odiável de um lado.

Depois de um lado, ele é muito mais esmagável. [Vira a Fita]

muito mais, um certo tipo de mal é muito mais perigoso, muito mais contagioso, e portanto, muito mais odiável de um lado. E depois de outro lado ele é muito mais esmagável quando ele está no seu período de início, do que quando ele está no seu período grande.

Você mencionou por exemplo, uma pessoa. Se se conseguisse dar o xeque-mate naquela pessoa, se evitaria a derrapagem para o mal de uma nação inteira. E era só, estancar ali, que evitaria, e o mal maior não é quando a pessoa passa de um inferno grau cinco para um inferno grau mil. É quando ela passa do grau um, ou do não inferno, para o inferno.

E por causa disso por exemplo, se eu me encontrasse diante de uma rua, eu vi há pouco fotografias da rua Líbero Badaró do ano de 1920 assim, no começo do século ela era uma rua de perdição, e a polícia quando quis tocar aquele pessoal para fora por razões urbanísticas, parece que, eu ouvi dizer, que bateram, puseram fora as cachoras todas, aquilo espirrou para todos os lados e foi uma beleza.

(Sr. J. Clá: Ameaçavam pôr fogo nas casas se não saíssem.)

Foi. Se não saíssem tocavam fogo na casa, a cachorrada toda saiu.

Bom, agora, entre isso e um indivíduo que faz um anti-apostolado jeitoso num noviciado, por exemplo, num seminário. Eu sou muito mais pressuroso de estancar esse. O outro é prostituição já no seu mar alto. Aqui o primeiro abre num seminário apenas uma ponta de tolerância para com a prostituição, mas o lugar onde é feito isso, e a energia dessa ponta, o mal que ela vai fazer, o fato de eu cinda em cima daquilo eu poder evitar o mal imenso, não aumenta o saldo na minha cólera, mas o meu desejo de meios drásticos para acabar imediatamente.

O que tem às vezes de cóleras, mas é a energia, é a pressa, a solicitude, e portanto o querer acender nos outros também uma cólera ativa, por ver que o número dos cretinos, dos “jagodes”, dos babões, é incontável e que se a gente vai contar para eles: “É coitado, mas também tem tal lado bom, vamos deixar fazer”. Eu vejo que ali está pegando fogo, numa ordem religiosa inteira, ou não sei o que, por causa daquele.

* No Sr. Dr. Plinio há uma “vis destruendis” que sabe espreitar o inimigo nas horas mais apropriadas; até o descanso é uma forma de luta!

Então compreende-se, aliás no próprio modo de eu falar, vocês estão vendo que eu fico aceso com essa história. Compreende-se que aquelas palavras de São Luís Grignion: “Cuidado, estão pegando fogo na casa do meu pai”, tá-tá-tá… que diz mais respeito ao começo de incêndio do que ao incêndio no seu auge, exprimem esses estado de espírito e é muito lógico.

Mas, não quer dizer que não haja um ódio proporcional à coisa que chega depois a todas as campanas. O que tem é o seguinte: é que diante de todos os males crônicos que a gente vê que não vai conseguir eliminar de um momento para outro, o mesmo sentimento se transforma numa inexorabilidade que nada consegue estancar. Aquilo que a gente quer destruir pode ter as vitórias que quiser, pode nos deixar arrasado no que entender, se nós pudermos simplesmente lhe trazer um prejuízo de um cruzado, nós trazemos.

Quer dizer, é uma coisa que não recua de fazer o menor esforço, para produzir o menor prejuízo, não recusa de fazer o maior esforço para levar o menor prejuízo que aquilo que a gente sabe que não vai se abalar senão muito pouco com aquilo. Mas, é um abalo, eu vou fazer.

Quer dizer, não recuo diante de nada, não cedo nada e não deixo de fazer contra aquilo a menor coisa que possa, tão logo que possa. Mas, aí a nota que predomina é a estabilidade e a indiferença ao tempo, e não é a pressa, porque a pressa se torna inútil pelo poder da outra parte.

Bem, é também a meticulosidade, quer dizer, é uma vis destruendis que conhece no outro as menores lados fracos, a assim que o outro faça um pequeno movimento imprudente, por onde esse lado fraco possa ser “esgravatado”, lá estamos nós. Nos intervalos tomamos sorvete. Por quê? Para descansar e estar íntegro na hora de atacar.

E nesse sentido o repouso, ainda é uma forma de luta, e não é senão uma forma de luta, é preciso lutar, isso é a minha mentalidade descrita por dentro.

(Sr. G. Larraín: O que é que o senhor execra mais?)

Eu execro mais a coisa no seu efeito grande, mas na coisa pequena a minha execração é mais perceptível, é mais visível, porque ela pede uma ação mais imediata, e mais carregada na esperança da vitória imediata.

(Sr. Guerreiro: Por que é que a gente vê o senhor deblaterar mais contra o Napoleão do que contra Lenin, mais contra Getúlio do que contra Richelieu. Então ficam essas perguntas assim…)

Essas perguntas são excelentes porque exatamente elas dão a oportunidade da gente se explicar e tudo o mais.

* Napoleão fez mal à civilização cristã destruindo o Sacro Império; Richelieu o fez com uma ação cuja malícia só sabem avaliar os que a viram

Na minha concepção, porque aqui nós já chegamos à casuística, a casuística tem que ser tratada porque do contrário ficamos nas nuvens. O que eu digo da casuística nada tem aqui de pejorativo, mas na minha concepção, o Napoleão fez muito mais mal à ordem contra-revolucionária do que Lenin. Porque ele exatamente derrubou, escangalhou, esmigalhou, uma coisa que basta eu anunciar para que você compreenda o que representa, é o Sacro Império Romano Alemão. Você pensa que seria talvez por um entusiasmo pela França, é muito mais, em Napoleão muito mais eu vejo a cólera e o sobressalto diante dos Habsburgos abalados, do que diante dos Bourbons calcados aos pés. Os bourbons que já tinham caído, e que por assim dizer, não eram mais nada.

(Sr. Guerreiro: Eu pensei que fosse mais por causa do amor do senhor à França, porque ele destruiu a monarquia francesa.)

Sim, é verdade, ele acabou de destruir. Destruiu de uma vez é já uma coisa diversa.

Bem, e pelo contrário o Sacro Império, era um edifício velho e embolorado, mas existia inteiro, e o estraçalhamento que ele fez daquilo é uma coisa que me deixa, me tira do ar, e é muito pior do que Lenin. Eu poderia explicar depois porque é pior do que Lenine.

Agora, você falou de uma outra…

(Sr. –: Richelieu.)

Richelieu, eu não encontro, porque o Richelieu o peculiar do Richelieu, do modo pelo qual ele realizou a obra dele, etc., e o mal que ele fez, ele fez de tal maneira que quando o sujeito viu, não precisa de demonstração, e quando o sujeito não viu, não adianta querer demonstrar, é muito difícil, é preciso ter uma espécie de flash para perceber o mal do Richelieu. E por causa disso, eu com os que são “anti-richeliesistas”, comento pouco o Richelieu. Com os que são pré-richeliesistas” comento pouco também. É preciso ter uma espécie de ângulo para perceber o mal que fez o Richelieu. Mas, de fato no caso concreto… [Vira a Fita]

mas se Napoleão tocou no Sacro Império foi porque ele estava carregado de um espírito que por assim dizer se viu nascer em Richelieu.

Quer dizer, aquele centralismo, aquilo tudo que você sabe. Mazzarino é um fétido, nem se fala. Mas, Richelieu é uma coisa horrorosa.

* Talleyrand manteve o Ancien Régime vivo na corte de Napoleão”; Ele trabalhou a favor da Revolução “A” contra a Revolução “B”

(Sr. Poli: E Talleyrand que foi quem possibilitou que Napoleão fizesse a obra dele.)

Foi quem possibilitou é um pouco forte. Ele obteve facilidades.

(Sr. Poli: E parece que o senhor odeia mais Napoleão do que Talleyrand. Mas é porque Talleyrand ao lado do mal que ele fez para a Contra-Revolução ele fez um bem quase mais precioso. O Talleyrand manteve vivos, para além da era Revolução, os charmes e os prestígios do “Ancien Regimé.)

(Sr. Paulo Henrique: E Napoleão quando se fala o nome dele o senhor…)

Não, não Napoleão quando fala o nome dele é uma saraivada dos mais grossos ultrajes, pouco caso e tudo o mais, tá-tá-tá.

Agora, uma coisa é: o Talleyrand manteve o Ancien Regimé vivo dentro da corte de Napoleão, e deu um figurino perene daquilo que é o odor da França pré-revolucionária. E nesse sentido ele trabalhou a favor da Revolução A e contra a Revolução B.

(Sr. M. Navarro: Esses exemplos ajudam muito a compreender o problema do cone também.)

Ás vezes a gente ouvindo mal ouve-se umas coisas engraçadas. (…)

É preciso, depois é preciso perguntar, tudo isso, as perguntas são excelentes.

(Sr. Guerreiro: A gente vê que esse horror que o senhor teve à ação Católica vai nessa linha.)

Mas veja o seguinte: na Ação Católica eu via ao mesmo tempo… (…)

Não tenham medo de parecer que é espírito de objeção, não tenham medo de nada, perguntem às torrentes.

*_*_*_*_*