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Conversa de Sábado à Noite — 1/11/1986 — Sábado [VF 048] (Neimar Demétrio)

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que convidam a perguntas aqui à noite. Uma ou outra perguntinha rápida acho que está bem, mas nós fazermos muitas perguntas sobre isso, corre o risco de tirar nossa clave. Mas, enfim, se quiserem me fazer uma pergunta rápida sobre isso, estou à disposição… Porque está sorrindo, meu Nelson? Já tinha preparado alguma…

(Sr. Nelson Fragelli: Não, nós comentamos muito a reunião, mas…)

(Sr. Gonzalo Larrain: A reunião foi magnífica, mas aqui é outra coisa…)

Mas a questão não é essa, é a finalidade especial dessa reunião. Eu quero saber porque o Nelson estava rindo?!

(Sr. Nelson Fragelli: É porque a Reunião de Recortes para mim é cercada de muita pompa, pompa toda celeste, que passa mais entre os Anjos do que no material, e ali a manifestação profética do senhor é patente. E chega aqui à noite, o senhor passa para essa cadeira, todo na intimidade, paternal…)

(…)

Diga, meu filho.

(Sr. Nelson Fragelli: Como se explica o surgimento de nossa vocação; se de fato não é um ponto do Fuji-Yama que completa o cume, mas desligado do resto do Fuji-Yama. Só o fato de nossa vocação ser o elo de ligação entre a ordem temporal e espiritual, isto não tem paralelo na História.)

Não, assim não. Houve uma união magnífica, mas que nós teríamos levado muito mais longe, teríamos levado muito mais alto. E não houve um especialista disso. Não me consta.

(Sr. Nelson Fragelli: Então trazemos essa confusão de idéia para o senhor…)

Não, não é confusão. São problemas.

(Sr. Poli: E o ponto pelo qual, seria talvez, o por onde mais veríamos e entenderíamos a missão do senhor.)

É conexo com isso, está bem.

No caso concreto de São Luis Grignion, é preciso procurar continuidade da seguinte maneira — nem sempre há uma continuidade — mas eu acho que no caso concreto de São Luís Maria Grignion de Montfort é preciso procurar uma continuidade no seguinte sentido. Ele está numa zona na qual brotou notoriamente por razões sócio-religiosas, até melhor dizer assim: psico-sócio-religiosas… Não! Psico-religio-sociais. Quer dizer, primeiro psicológicas, depois religiosas, depois sociais…

É preciso entender cada palavra aí. Quer dizer, as razões psicológicas… É isso: eu desisto da trilogia e vou fazer como é melhor.

Havia uma piedade que restava dos tempos medievais, mas mais quente, mais em estado de comburência do que em muitas outras regiões da França. E essa piedade revelava uma capacidade de não ser apenas uma tradição, mas além… Essa piedade revelava condições de não ser apenas uma coisa que vai sobrevivendo, mas algo que ia para um surto muito grande e que, à falta de ser acompanhada pelo resto, ficou assim numa espécie de estado de latência, mas pulsando à espera de uma hora histórica para se produzir.

Esta foi a piedade difusa, acompanhada de um idealismo realista, e com o devotamento aos aristocratas, a piedade do povinho daquela região… Acho até mais, que se não tivesse vindo a Revolução Francesa, a nobreza da região e o clero teriam estragado. O clero teria estragado o povinho, no qual isto ficava como remanescente, como fica, por exemplo, em certos bolsões de “Correspondentes e Esclarecedores”, restos de uma piedade popular, não sei se portuguesa, se italiana, de imigrantes, mas que veio parar aqui no Brasil, e que ficam no estado de comburência bastante tempo.

Bem, arrebenta aquele negócio, eles se jogam para frente; aquilo retoma cores e vida na nobreza e até no clero — sendo que eu acho que o papel de líder do clero ali poderia ter sido maior do [que] foi. A Chouannerie não teve um Urbano II. Ainda que fosse um pequeno Urbano II local, um pequeno Bispo local, um vigário local mais influente, mas que em nome da Igreja tivesse convocado a Chouannerie, ou ao menos tivesse abençoado a Chouannerie, não houve.

Bem, mas houve aquele movimento muito bom, que arrebentou naquilo. São Luís Grignion é uma flor nascida do ferro em brasa, é um lírio nascido não no pântano, mas nascido do ferro em brasa, na penumbra e no chuvisco. Era aquela penumbra do povinho que o Ancien Régime ia esmagando cada vez mais, ia dilacerando cada vez mais. Mas que instintivamente resistia.

Bem, ele nasceu quando as condições eram muito melhores do que no tempo dos chouans. E era esse sentimento difuso por todos, essa graça difusa em todas, que encontra de repente — e aqui vem o mistério — uma expansão à -maneira de uma explosão incontida, de quem não se conforma em estar tanto tempo abafado, e que estoura num ponto, e que dá um jato, um pistolão joga uma daquelas gotas de fogo no céu, algumas daquelas jóias de fogo no céu: “Tchuummmmm!” É São Luís Grignion.

Bem, eu acho que foi, inclusive ele, uma explosão de inocência. De inocência difusa… essa inocência se nota muito nos chouans. Em mil traços da Chouannerie a inocência é um aspecto encantador que explica a combatividade, explica o heroísmo, explica a dedicação, explica tudo. Mas é uma nota de inocência inconformada, que é encantadora ali e que exatamente faz com que a gente, sem perceber, se sinta tão irmão deles. Esta inocência explica a devoção a Maria. Foi portanto, um gêiser que arrebentou ali, que deu nisso, com intuitos da Providência, e foi para muito além do movimento chouan. É toda a preparação do Reino de Maria, pela pregação da Sagrada Escravidão a Ela, etc. Este é o caso de São Luís Grignion.

Agora, a coisa continuou alimentada por ele, ele fez aquele apostolado; este apostolado conservou e estimulou muito esta comburência que teria desaparecido no vácuo se não fosse isso. E a Chouannerie brotou desse conjunto de circunstâncias, e foi esse esplendor. É como eu vejo a coisa.

Daí também — e é apenas um parêntese, não vale a pena comentar muito — a sagacidade de Napoleão fazendo, como réplica à Chouannerie, a abertura daquela estrada direta de Paris à Vandée, chamada Napoleon-Vandée, aestrada. E que era para fazer penetrar a Revolução às torrentes. Mas não é só a Revolução da Revolução Francesa não. É o progresso que os chouans não tinham. Era a precursora, era a avó da Revolução Industrial, era a psicologia da Revolução Industrial que daria o seu grande na indústria. Ele pôs ali e encalhou.

O epílogo doloroso disso é talvez o último episódio da história da Chouannerie, quando eu mandei Carlos Alberto e Pedro Paulo para a Europa, eu mandei que antes de tudo e de preferência a tudo, fossem à região dos chouans pegar as brasas dessa comburência que ainda existissem. Eles foram à casa de muitos antepassados de chouans, e de pequenos nobres que lutaram na Revolução. Por toda parte eles eram acolhidos por gente de minha geração — eles já não são de minha geração, são bem mais moços — assim: “Mas que coisa ótima que vocês venham nos dizer essas coisas, nossos filhos precisam ouvir, porque eles não têm mais essa mentalidade…” Chamavam os filhos para ouvir, os filhos ouviam, iam embora, porque não ligavam mais. Estava acabada a Chouannerie.

Mais ainda: foi à procura da Chouannerie que nós entramos em contato com o infame Ives de Pontfarcy. E foi a Chouannerie que nos apunhalou pelas costas… a Chouannerie? Foi um descendente da Chouannerie que nos apunhalou pelas costas.

(Sr. Nelson Fragelli: Não sabia disso não.)

Ah, não? Isto foi assim. Eu me lembro que o Abbé Lefebvre… eu me lembro que nós procuramos em Paris diretamente foi o Abbé Lefebvre, nós, o pessoal do Grupo da Vieira, portanto, muito anteriormente a eles. Nós procuramos em Paris o Abbé Lefebvre, por causa da “Pensée Catholique”, etc. E o Abbé Lefebvre não nos pôs em contato com quase ninguém. Ele tomava os dias inteiros conversando conosco, sem nos pôr em contato com quase ninguém. Bem, e aí nós dissemos que queríamos tomar contato com gente. Ele nos indicou a Madame de Pontfarcy, indicou-nos muito pouca gente: Madame de Pontfarcy, o Almirante Ponfantenil… O almirante Ponfantenil ofereceu um almoço em casa dele, onde esteve o Almirante Aufin, Ministro da Marinha de Pétain, e foi só.

Mas nós verificamos que tínhamos batido na porta certa de uma família de estirpe chouan a mais não poder, e que nos contou muita coisa da Chouannerie. E o Ives era o filho fiel da Madame. E foi a este filho que nós pagamos a viagem, duas viagens dele ao Brasil, nós pagamos. E ele foi o ponto de referência no qual penduramos o Dina1. Ele arranjou um casamento para o Dina, ele montou aquela escola junto com o Dina… mas aí vem o resto do mistério, depois do caso do [Martim Afonso], não vale a pena perdermos [tempo] nisso. Mas este é o fim da Chouannerie. Eram os devotos de São Luís Grignion e da Sagrada Escravidão, que voltavam para lá à procura das brasas e que no meio das brasas tinham, vivendo, serpentes. Nós verificamos que tudo era fascista, tudo era traição, etc., etc. Era o fim daquela história.

Propriamente do ponto de vista da história do ultramontanismo, o fim da Chouannerie é este. Como o fim do Carlismo é a minha entrevista com aqueles carlistas, aquele D. Manuel Falconde… visitando o Falconde eu percebi quem ele era. Depois vários outros carlistas que eu conheci em Madrid, em Barcelona, em vários lugares, eu percebi, estava tudo arrasado. E o Príncipe Xavier arrasadíssimo, não era mais nada.

Agora, é que esta história assim é tão bonita, que ainda tenho a tendência a parar e contemplar um pouquinho…

(Sr. Nelson Fragelli: O senhor foi como peregrino atrás dessas brasas.)

Fui como peregrino. É uma peregrinação em certo sentido comparável às de Compostela. E deu nisso. E deu mais: deu na punhalada nas costa, bárbara, para liquidar, uma coisa tremenda. Tudo isso foi tremendo.

Bom, mas deixemos isto de lado e vamos voltar a outros assuntos.

Agora, a questão é que o surgir de homens providenciais, eu acho que obedece antes de tudo à seguinte regra — suponho eu, precisaria estudar: em tese, metafisicamente, há uma porção de possibilidades dentro da perspectiva aventada por vocês, uma porção de possibilidades de surgir um homem assim. Metafisicamente é possível de uma série de modos. E para que a História seja completa, é preciso que ao menos os principais modos de surgir se executem ao longo da História para a glória de Deus. De maneira que estas surrecções — não são ressurreições; “surrecções” — formem uma coleção que revele a glória, o poder de Deus, a sabedoria, bondade de Deus, etc., etc. E há, portanto, mil modos possíveis, e, portanto, alguns modos típicos; historicamente devem realizar-se. Isso é o ponto de partida.

Mas essas coisas de Deus dir-se-ia que Deus quer ser procurado, que Ele quer ser pesquisado. Ele não deixa estas coisas aparecerem com esta clareza com que eu estou falando aqui. Sempre há uma certa bruma, há um certo disfarce. É preciso ter o coração desejoso para poder encontrar. Quem não tem o coração desejoso dessas pesquisas não encontra.

Bem, e esse próprio princípio que eu estou dando, orientador da pesquisa de questões assim, esse próprio princípio eu creio que é fruto de uma pesquisa. Esse próprio princípio. E, por exemplo, narrando-o, eu sinto uma expansão na minha alma, sinto uma alegria. Embora depois vendo na prática a coisa fica… a gente percebe as linhas gerais, mas as surrecções são tantas, grandes e pequenas, para grandes e pequenas obras, etc., que seria preciso fazer uma montagem de, por exemplo, quinhentos casos diferentes de surrecções para a gente com espírito metafísico descobrir as linhas que elas têm. De tal maneira Deus é Deus absconditus. Ele faz obras luminosas, mas que pedem essa meditação para a gente poder encontrar bem.

Esta meditação eu considero uma meditação tipicamente TFP, tipicamente. Quer dizer, é um problema de caráter histórico, mas que é analisado do ponto de vista teológico, mas para a questão teológica é levantada uma questão metafísica. E isso é a TFP inteira. A questão metafísica ilumina a ordenação da pesquisa teológica e conduz à explicação histórica. Eu considero isso TFP a cem por cento. E gosto muito. Nossas almas encontram nisso uma expansão, um alimento não é?…

(…)

Então, bem à la nós, a partir de uma pergunta substanciosa como vocês fizeram, se desvenda um panorama imenso, porque o que tem dentro disso de matéria de reflexão e de estudo, daria, por exemplo, seis meses de reflexão folgadamente. Folgadamente, certamente não cobririam isto. Até nem de longe.

Bem, mas o que é? Um dos aspectos do Reino de Maria vistos de um articular belvedere. Não sei se dizem em castelhano “belvedere”, um especial “belvedere”. E aqui é bem um Belvedere.

(Sr. Nelson Fragelli: Belvedere profético.)

Profético, mas muito bonito, tem uma grandeza a perder de vista! Merece fanfarra!

(Sr. Nelson Fragelli: Os panoramas da TFP são mais vastos do que a História, ou ao menos engloba facilmente…)

É a História meditada a partir de pontos de vistas mais altos do que ela, que a vêem de cima. É mais ou menos como o curso de um rio visto por um aviador, e não assim palmo a palmo na jangada do Amazonas.

E aí entra o assunto Josefa Menendez. O modo pelo qual nós procedemos com a “poquice” da Josefa Menendez face a esses panoramas, é não querer vê-lo assim, prestar uma meia atenção. E vem uma notícia concreta… Por exemplo, foi feito não sei o quê no Amapá, na linha da Calha Norte, isto enche a inteligência e exaspera a gente. Mas o que eu estou dizendo é ultra-real, esta é a nossa realidade cotidiana.

Mas é assim. Por exemplo, esta visão da Reunião de Recortes que o Nelson dava, é a “poquice” que faz não querer ver assim. E aí há uma luta desse lumen da TFP com cada um, que lembra um tanto a luta de Nosso Senhor para erguer a “poquice” de Josefa Menendez e daí o fato da Josefa Menendez explicar um dos aspectos desta história imponderável da TFP da qual nós falamos há pouco.

Tudo isso são horizontes, horizontes, a perder de vista de horizontes, são coisas belíssimas, belíssimas…

(…)

essas surrecções assim — eu, portanto, continuo no tema das surrecções — essas surrecções assim, às vezes… porque Deus não faz as coisas arbitrariamente. Se se entende por arbitrário o capricho. Nunca! É o contrário da Sabedoria. Mas Ele pode fazer por razões que são inspiradas numa Sabedoria d’Ele tão alta, que a nós dão a impressão de arbitrária, porque é tão alta a Sabedoria d’Ele que a gente não entende muitas coisas que se passam. É só depois, quando chegarmos no dia do Juízo, que Deus vai revelar. E quando sair o Juízo Final, é uma lição de História!

E aí eu acho, impressão minha — se eu estiver enganado eu volto atrás, a Sagrada Teologia, o Magistério da Igreja é que decide —, impressão minha é que todos esses aspectos da História vão ser vistos no dia do Juízo. E que o Juízo é um Juízo, mas mais do que um Juízo é uma manifestação da grandeza de Deus para ser adorado pelos justos ali, numa visão geral da História da qual os justos fizeram parte.

E os demônios… — os demônios, os precitos —, a corja toda vai conhecer isto também. E vai sentir triturada e fervendo e não agüentando por causa disso… não agüentando? Tem que agüentar tudo! Se há uma coisa que eles fazem é ter que agüentar; eles vão ter que agüentar tudo! E os bons vão cantar cântico… porque vão desvendar coisas que nunca imaginavam.

Quantas coisas acontecem em conseqüência da vida de alguém, que alguém talvez tenha vislumbrado. Ver nunca viu, mas quando ver, que alegria! Mas, eu não excluo a hipótese de que muita coisa só [se] veja no dia do Juízo.

(Sr. Nelson Fragelli: Mas também coisa que só será vista no dia do Juízo o senhor já nos terá dito.)

Ah é, é… Realmente, é mais um panorama, mais um belvedere com essa grandeza, em que a gente vê mais uma vez o Reino de Maria. Porque…

(…)

Não fazer nada de arbitrário, mas algumas coisas dar a impressão de ser arbitrário, mais uma vez Deus quer que se percebam traços da Sabedoria com que Ele faz isto, aquilo, aquilo outro. E que não é que faz porque é necessário, mas faz porque convinha à glória d’Ele, convinha mais, convinha menos, segundo as claves, que Ele, segundo a sabedoria d’Ele, Ele quis ir dando aos vários episódios da História.

Então, daí decorre que — sempre na perspectiva da sabedoria d’Ele — daí decorre que Ele, às vezes, nos deixa ver os cones de Fuji-Yama, como é que jorraram do chão. O que é que preparou? O que não preparou? Mas às vezes Ele deixa ver claramente a não preparação. Não houve preparação, acabou-se. Houve até contra-preparação. E daquele nada, tira uma flor! É o lírio nascido do nada… [Risos]

no zero e posto por Ele no galardão. É a nossa época… Bom, a nossa época não é nada, é o lixo!

Mas às vezes é literalmente do nada. Por exemplo, Josefa Menendez. Uma congregaçãozinha religiosa qualquer, mas há algumas tão pobrezinhas, e daí Nosso Senhor pega a alma “poca” por excelência, e faz cair um Niágara de jóias, de graças sobre ela. E trava esta batalha contra a “poquice”. Uma coisa extraordinária! Não é a batalha contra o pecado, não é batalha contra… não. Ela era uma boa religiosa. Não era talvez o caso de dizer dela, o que Santa Teresa de Jesus dizia das carmelitas relaxadas do convento em que ela vivia. Mas era uma “poca”. E a propósito desta “poca”, Nosso Senhor travou esta tremenda batalha contra a Revolução…

(…)

que deveria ser a organização da “contra-poquice”, que está a todo momento lutando contra a “poquice”, a todo propósito, a TFP propõe um horizonte contra-“poca”, não é? A TFP encontra uma justificação na explicação de si mesma nisso, e todas [as] pessoas viram isso, mas não viram. Sem embargo, acabou sendo que valeu a pena que houvesse todas essas maravilhas para alguém, um dia, na preparação do Reino de Maria dizer. Depois do que eu estou dizendo, eu estou certo de que na aurora do Reino de Maria todos vocês vão querer que haja livros da Irmã Josefa Menendez, para justificar esta posição. É fora de dúvida.

Bem, agora então para frente. Nessa coisa… Então, nessa coleção há coisas saídas, surrecções que vêm do nada. Mas há também surrecções longamente preparadas, magníficas, maravilhosas, etc., que a gente nem entende com é que até saem. E eu admito a possibilidade de que durante a Bagarre haja algumas surrecções que realmente representem o conjunto, ou ao menos um impressionante conjunto das surrecções. Porque as graças que vão cair sobre as pessoas que devem constituir o Reino de Maria são verdadeiras graças de surrecções.

No nosso caso vão ser quase ressurreições… pelo jeito como as coisas são, vão ser quase ressurreições. Será bonito que essas… Isso que deve ser a espinha dorsal do Reino de Maria, seja uma surrecção ressurgente de um passado que por aí não morrerá. E até nisso nós somos o istmo.

Bem, então se compreende que na biografia do Fundador, os filamentos todos dessa continuidade com o passado se apresentem com essa clareza, para quem queira estudá-la. Bem, e que realmente seja uma coisa que não tem, tem uma continuidade não só histórica, mas se se pudesse aplicar o fato à vida sobrenatural, eu diria biológica; aplicar a palavra… A palavra biológica só cabe para a vida natural, mas eu queria dizer uma coisa à maneira de biológico, quer dizer, uma continuidade de vida da graça, também presente nisso. Inclusive da vida da graça enquanto rejeitada, mas vivendo em algumas famílias como instituições.

Bem, mas talvez como lição para aquelas familias, onde o abandono, a omissão, a falha, etc., foi mais eminente, porque foram famílias mais gloriosas e que mais abandonaram. Isto haveria de nascer num cantinho da Tradição antiga… Quer dizer, não “São Paulinho” de duas familias que poderiam chamar, à sua maneira, um pouquinho nobres, mas enquanto nobreza da Terra, não nascida de Portugal, mas nascida do Ancien Régime português, quand même, quer dizer que já no tempo de Portugal, do Brasil Ancien Régime, tinham encaixe naquela estrutura. E que ali, é o rés-do-chão da instituição nobiliárquica. Mas nascendo de um país novo, chamado a um grande destino, dali haveria de nascer uma pessoa que se consagrasse especialmente a esta tarefa

Isto seria a explicação então de um caso concreto, dentro de uma teoria geral das surrecções.

(Sr. Gonzalo Larrain: Agora, o que há aí, é uma espécie de requinte de perfeição humana, até onde um homem pode ser perfeito, aliado a uma graça muito especial, ou o que há? Por que, por exemplo, um fato da reunião de hoje que nos chamou muito a atenção…

(…)

que alegria a minha se eu na minha arquivelhice pudesse assistir à coroação de um tzar católico! Naquela Igreja com aqueles torreões. Vamos!

(Sr. Fernando Antúnes: Com o senhor não tem dúvida!)

(Sr. Gonzalo Larrain: Agora, o senhor falou aquilo, e um de nós que não acredite nisso, que isso se dará, mas não apenas por bom espírito não, é por certeza da vocação, se não acredita, peca contra a mesma vocação.)

[Vira a fita]

Então você toma, por exemplo, aquele quadro da duquesa de Nemour, que tem ali. Tem uma série de rosas, tem uma fonte, tem uma coluna, tem a seda do vestido dela, etc., etc., tudo aquilo visto fora do estímulo sexual, tem uma espécie de tranqüilidade, de beleza, de bondade, e de elevação, de primeira ordem.

E o ver o universo inteiro assim, separado do frenesi sexual, na placidez inocente com que ele foi criado, de si é uma coisa que alimenta a castidade, é propriamente o ângulo de vista da castidade. Amar isto de toda alma não é propriamente fazer ascese de não ter rosas, de não ter colunas, de não ter sedas, mas é, por ódio à impureza, amá-las na sua conexão com a impureza.

Bem, então isto, por exemplo, propriamente [é] o que quer dizer ver metafisicamente a pureza como condição para o bem de todas as coisas. Pelo contrário, a arte já daquele tempo fazia ver tudo isso, como ornatos da impureza. E daí o resto, não falemos disso. Mas isso se estende depois à toda uma série de coisas.

Por exemplo, na Igreja do Coração de Jesus há uma evidente castidade dentro do ambiente. Ora esta castidade não é especialmente representada pela presença de lírios, ou de açucenas… Não, ela está no ambiente. Porque ela dá à alma um convite para se colocar numa situação onde ela tem tudo como, como alma ela pode querer, sem o prazer sexual.

(Sr. Gonzalo Larrain: Mas, é diferente da castidade de São Luiz Gonzaga, por exemplo.)

Diferencia-se nesse ponto: é que eu creio que o reportar isto às coisas e à visão do universo, o ver o universo todo assim, eu creio que na concepção dele era menos nítido.

(Sr. Gonzalo Larrain: E isto seria o profetismo então?)

Não, isto seria uma condição para o profetismo. Quer dizer, o profetismo está voltado para uma época que é o Reino de Maria, em que todas as coisas vão ser organizadas assim. Não é?

(Sr. Gonzalo Larraín: O profético da castidade em que consistiria?)

O profético da castidade consiste em perceber o metafísico da castidade, olhar todas as coisas assim e — agora vem o elemento profético — ter, em virtude do princípio axiológico, a certeza de que não poderá deixar de ser assim, algum dia, antes do mundo desaparecer. Então agora aqui entra o princípio axiológico, mas animado pela Fé. Não é apenas o princípio filosófico, é a boa ordem da Fé. É Fé, Esperança e Caridade, virtude da Esperança, a meu ver, embebida de metafísica, mas é a virtude da Eesperança que diz: “Será!” Acho isto muito bonito! Muito bonito!…

(…)

quer dizer, na Idade Média, nem o operário tem “poquice”.

A “poquice” é um fruto da Revolução. E aí se compreende todo o resto, “al enquanto tal” etc., porque a “poquice” é um fruto da Revolução. E o terra-terra, o banal… mas o banal sujo, sujo no seguinte sentido da palavra: banal que não está voltado para Deus, não está orientado rumo a Deus nem nada disso.

(Sr. Nelson Fragelli: Recusa do “plus ultra”.)

Exatamente, recusa do plus ultra.

(Sr. Gonzalo Larraín: Portanto, Deus ao mesmo tempo dá a graça de discernir uma série de coisas, mas por outro lado, no caso concreto aqui, a pessoa deseja isto, e Deus fica dependendo, o futuro e o próprio Deus ficam dependentes deste desejo.)

Não necessariamente,mas freqüentemente Ele quer que seja assim.

(Sr. Gonzalo Larraín: O que aqui é propriamente de Deus, e o que é da pessoa, concretamente?)

Tudo é de Deus, só que às vezes Ele dá a si próprio dando à pessoa para que ela encaminhe a Ele e, às vezes, Ele intervém sem ninguém e atua na História.

(Sr. Gonzalo Larraín: Mas no caso concreto é através de uma pessoa.)

De uma pessoa.

(Sr. Gonzalo Larraín: Agora, esta graça que o senhor tem, o senhor a conquistou desde menino, discernido a Revolução e a Contra-Revolução, ou ela foi uma coisa dada assim gratuitamente? A gente vê que pela inocência do senhor, o senhor arrancou isto de Deus…)

Não, arranquei não. Eu não criei obstáculos a Deus. E talvez Ele, na sua Sabedoria insondável tivesse… não tivesse destruído os obstáculos levantados por mim, e tivesse entregue o país… e com as conseqüências… a garra, se eu tivesse levantado obstáculo. Por que eu me lembro o que se passava comigo historicamente. Quer dizer, eu me lembro que eu via a coisa já diretamente num lumen, que era feito para me encantar. Encantava-me não apenas porque era encantador, mas porque era veraz. E aquela veracidade me fazia palpitar de entusiasmo. Mas, eu vejo bem que era um lumen sobrenatural, posto na coisa para que eu a visse assim. Ou seja, posto na minha mente, para ver na coisa o que ela tinha de sobrenatural.

Concretamente, duas coisas… Eu pensei nisso até quando você me deu aquela esfera de marfim. Bem, uma bola de marfim ou um panorama de Veneza — Veneza representou muito papel nessas minhas elucubrações — eu percebia para além da beleza natural de Veneza. Não porque eu tivesse a noção sobrenatural, mas é que a minha percepção ficou imóvel até hoje e é a mesma, e eu posso analisá-la e discernir o sobrenatural ali.

Bem, e o que eu entendia naquele tempo é que aquilo tinha uma correlação com a Igreja do Sagrado Coração de Jesus. De fato, por cima e atrás disso está Nosso Senhor Jesus Cristo mostrando seu Coração aos homens. Daí exatamente é a inspiração fundamentalmente religiosa de tudo isso. A substancia é religiosa, religiosa Católica, Apostólica, Romana, enfim, assim.

Bom, e hoje, portanto, revendo como eu via Veneza no pesa-papéis, eu via, eu discernia por uma graça do discernimento dos espíritos, tudo quanto havia de sobrenatural naquele ambiente de Veneza. Eu discernia também tudo quanto havia de sobrenatural em mim amando Veneza. E é uma coisa que me era dada, mas me era permitida a tentação de fechar os olhos para tudo, e de me jogar na banalidade dos meninos de meu tempo. E desde o começo esse martírio do divortium aquarum. Bem, o que pode ser o martírio de um menino de uns cinco, seis anos?… Entenda! Então, tanta coisa, tanta coisa, tanta coisa que nem sei o que dizer.

(Sr. Gonzalo Larraín: O senhor via o “lumen” dela…)

Mas eu via o sobrenatural também. E daí o nexo com o Coração de Jesus. O que naquele tempo eu não explicitava, mas como tem isso, tenho isso, graças a Nossa Senhora, intacto no espírito, hoje eu posso fazer o exame de um homem maduro e posso dizer o que eu estou dizendo. Tudo isso é rigorosamente lógico, serenamente lógico, tranqüilamente lógico. Não é uma lógica assim de cow-boy: deita o laço numa verdade e traz como quem traz um animal pelo pescoço. Mas é uma lógica como é ela, assim. Mas é lógica, não se escapa disso…

(…)

Vamos rezar meus caros? Eu queria deter muito vocês nessa idéia: é a substância essencialmente religiosa de tudo isso. Mexe nisso…pssst!

(Sr. Poli: Há muita matéria para pensar nisso.)

É, eu acho muita matéria para pensar!

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1 Dina: Carlos Alberto Kok de Sá Moreira, ex-membro do Grupo da Martim.