Conversa
de Sábado à Noite – 18/10/1986 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 18/10/1986 — Sábado [VF 048] (Neimar Demétrio)
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O papel de Metternich na derrubada do mundo napoleônico — Napoleão procurou construir um mundo revolucionário — Metternich semi-derrubou isto. E embora tenham concorrido para isso muitos generais, e alguns deles célebres, de mérito, etc., etc., não deixa de ser verdade que todo mundo reconhece nele o rector, o que coordenou os generais com os diplomatas, com os monarcas, com os homens de Igreja, com tudo quanto era necessário para levar aquela derrubada de Napoleão ao último ponto; foi ele.
Agora, o resultado foi que, porque só ele tinha a visão de que era preciso derrubar, — que não estava igualmente claro para todos —, só ele tinha compreendido os métodos que levavam à derrubada, e só ele tinha táticas que produziam a coligação fabulosamente difícil que levava aquelas potências a operarem a derrubada, então, por tudo isso junto, ele ficou depois investido de uma espécie de governo geral da Europa, que ele chamava espirituosamente — ele se dizia — “O cocheiro da Europa”. Quer dizer, ele guiava o carro, e os monarcas viajavam atrás. Mas quem guiava o carro era ele.
Bem, era um dito espirituoso para designar uma função que ele realmente exerceu. Mas eu queria que notassem, ele talvez tenha tido para isso uns certos fragmentos de carisma, talvez tenha tido um carisma maior, ao qual ele correspondeu insuficientemente, isto é um fato histórico que não nos preocupa aqui no caso. O que interessa no caso, verdadeiramente, é a coordenação lógica entre… Não, primeiro a discriminação dos vários aspectos que envolve a função de derrubar. Depois, como o possuir as qualidades para derrubar, confere naturalmente a missão de ordenar.
(Sr. Guerreiro Dantas: Ordenar em função da derrubada?)
Não, ordenar as coisas que foram derrubadas, de maneira que elas fiquem bem acalcadas e não possam mais voltar, de maneira que elas [se] coordenem entre si, para formar o contrário do que foi derrubado.
(Sr. Guerreiro Dantas: Agora, a pessoa pode ter dom para uma coisa e não ter para outra.)
Não, aqui que está a questão. Quando o homem, ele é [o] único a ter compreendido como é o adversário, no que é que consiste a malicia da obra do adversário, o que, portanto, tem que ser especialmente derrubado na obra do adversário, e como é, portanto, como a coisa tem que se reconstruir para que a obra do adversário não viceje de novo, aqui está a questão: É que quem compreendeu a malícia da coisa encontra derrubado no chão não apenas o conjunto de pedras inertes, ou de tijolos inertes, mas encontra uma ordem por assim dizer vegetal, pronta a deitar outras sementes ou a se prolongar, etc., etc. E só quem fez o extermínio do que estava de pé é que compreende bem como liquidar o que ainda resta.
Quer dizer, portanto, o principal elemento da ordenação depois da derrubada consiste em impedir que o derrubado se reconstitua. E para isso precisa ter todas as qualidades de quem derrubou. Há um elo natural entre uma coisa e outra, uma vez que se trata de adversários como a Revolução. Se fosse derrubar Solano Lopez, uma coisa assim, isto é de um nível tão diverso que não vale a pena perder tempo. Mas quando ser trata de extirpar uma coisa como foi, por exemplo, Napoleão numa fase do processo revolucionário, um aspecto do processo revolucionário foi o que ele foi — aí não. Ou se entende bem aquilo que foi derrubado, ou aquilo deita raízes. E raízes que tem a pujança da árvore napoleônica, da obra napoleônica. É evidente! Então precisa saber derrubar de fato.
Bem, e depois esmigalhar o derrubado, de maneira que não restem sementes. E, portanto, isto é o principal da ordenação subseqüente. Tudo na ordenação subseqüente deve voltar-se, sobretudo para evitar que aquilo se reconstitua.
Bom, então, a ordenação é um prolongamento da obra da derrubada. Depois, só quem retoma o que resta, mas o que resta de não contaminado, é capaz de ordenar as coisas de acordo com um plano positivo que só conhece quem conheceu inteiramente o plano negativo.
Isto é assim. De maneira que há uma espécie de concatenação de aspectos de uma missão, que se pedem uns aos outros, uns aos outros, e que terminam nisso que nós conversamos. Quer dizer, então aqui vocês têm…
(…)
…plano de Deus, e um homem utiliza e torna fecundos não só os dons da graça, mas também os dons da natureza…
(Sr. Guerreiro Dantas: Está muito bom…)
Hahaha: olha como ele está se sentindo concernido ouviu? Isto, eu vou dizer como é que é, ele vai se regozijar. Bem, eu tive muito tempo esse problema. Então, quando a natureza e a graça, — Deus quis fazer um plano por uma colaboração da natureza com a graça, Ele pôs em operação a natureza e a graça, — e o homem desenvolvendo juntamente os predicados da natureza e da graça que ele tenha recebido, dá a impressão de uma espécie de mutilação na hora dos prêmios, falar apenas dos prêmios que merece a graça, quando a natureza teve a sua parte dura, árdua, e que não é justo esquecer.
E isto sempre me causava um certo mal-estar, não é? Na realidade existe um mérito que é distinto, um mérito da correspondência à graça, e o mérito da correspondência da natureza. E é legítimo sondar a seguinte pergunta: se houvesse só os dons — dons quer dizer “dotes” para distinguir dons do Espírito Santo — os dotes naturais, e estes tivessem sido empregados retamente, a que prêmio fariam jus?!…
(Sr. Guerreiro Dantas: Está muito bom.)
Olha lá!… Hahaha… isto eu estou vendo perfeitamente a história , porque eu tive esse problema.
(Sr. Guerreiro Dantas: Mas no senhor estas coisas não são separadas, elas se distinguem para se compreender melhor.)
Exatamente. Eu acho muito legítimo. Eu estou rindo porque me lembro dos meus tempos, e outras coisas… estou sorrindo, não estou rindo, estou sorrindo porque me lembro dos meus tempos, e dos problemas que tudo isso me pôs… que eu não teria a mínima dúvida de pôr por escrito, tanto é que eu estou permitindo que grave. Porque isto é eminentemente racional.
Então se poderia dizer o seguinte: nesta obra levada assim a cabo, houve também dons naturais. Esses dons naturais até que ponto mereceriam um prêmio? Bom, depende… dons não, dotes. Não vamos falar de dons, que só atrapalha a linguagem. Até que ponto esses dotes naturais uma vez correspondidos, se aplica a eles aquela história da Parábola do homem que recebeu muitas moedas, outro que recebeu poucas moedas. E o que recebeu muitas moedas fez render muito. Então, ao que é que ele tem direito? Tem direito especial. Realmente entra nisso…
Agora, aqui entra outro problema que não vale a pena perder tempo: até que ponto esses dotes naturais são grandes no caso concreto de que se trata? Eu prefiro não medir, porque é um problema que não olho de frente, e tenho… acho muito sábio não olhar isso de frente. Isso compete a vocês de medir, de não medir, não olho…
(…)
…a ordem da vitória enquanto natureza é fora de dúvida.
(Sr. Guerreiro Dantas: Na medida em que o senhor vai alcançando uma perfeição em ambos os lados, essa vitória se reveste de uma glória ainda maior.)
Sim, fica assim suspenso qual é a cota do natural e a cota do sobrenatural no conjunto. Porque isso depende de uma avaliação: do que é que vale o natural aqui e o sobrenatural. Isto eu prefiro não olhar. Isto fica a cargo de vocês, fica a cargo de Nossa Senhora, eu prefiro não olhar. Mas eu erraria contra a doutrina se eu dissesse que não tem razão no que você está dizendo.
(Sr. Guerreiro Dantas: A gente vê que o senhor tomou os lados naturais e pôs isto em ação.)
Perfeitamente, perfeitamente.
(Sr. Guerreiro Dantas: O senhor elaborou uma estratégia que vai criando uma ascendência sobre os fatos e sobre os homens.)
Bom, agora, na elaboração dessa estratégia, esses dotes naturais foram muito ajudados pela Providência. Então, qual é à parte de uma coisa e de outra? Não discuto. Que há isso, há. Há o lado natural, isto é fora de dúvida…
(…)
…foi imperador por vocação e por investidura do Papa, do que por direito de conquista — embora o direito de conquista dele fosse prodigioso. Quer dizer, é muito bonito e muito delicado colocar tudo isso em ordem, direitinho, etc., etc., etc.…
(…)
…uma fotografiazinha muito mal tirada, muito “pechisbeque” com uma legenda — [a] fotografia apresenta se não me engano, quatro homens de paletó e gravata, trajes para nós comuns, conversando numa sala mal fotografada, cujo fundo não se percebe bem qual seja — mas a legenda explica: “Foi o duocentésimo aniversário da morte de Frederico II”. E o Príncipe Luiz Ferdinando da Prússia, casado com uma grã-duquesa russa — um nome bonito, se não me engano é Kira, acho muito bonito — convidou 200 pessoas, entre as quais todos os membros da família Hohenzollern, e os convidados de honra que ele quis ter, convidou-os para uma recepção comemorativa. Diz o “Point de Vue”: “Na nossa foto ele está falando com membros do governo alemão”. E ele está assim, e os três membros… mas são membros [gráduos] [graduados] — o presidente do conselho de ministros, estas coisas assim, enfileirados diante dele — e ele está falando.
A gente está vendo que ele ainda mantém aquele pessoal no rebenque, o pessoal está alinhado com ele, e no sistema prussiano, etc., etc., e ainda resta isso. E a mim me encanta. Apesar de para mim eu ter muito pouca surpresa se no dia do meu juízo eu depois conhecer todos os habitantes do Céu, e Frederico II não está entre eles… não terei muita surpresa… me surpreenderia enormemente chegar ao Céu e encontrar Frederico II em visão beatífica…
(Sr. Gonzalo Larrain: Precisa seguir a luta lá.)
Hahaha é isto, é. E a maior parte dos ancestrais desse, ao menos em linha de varonia, do Príncipe Luiz Ferdinando, eu creio que estão onde estiver Frederico II… abro talvez uma interrogação benévola para o Kaiser, para quem eu tenho certos lampejos de benevolência. O Kronprinz me parece um “poca” deslavado no sentido mais próprio da palavra, não vale nada, mas o Kaiser, heeeee… Hããããã… Bom! Mas afinal de contas, a gente vê que o conteúdo da missão histórica ele ainda tem, apesar de protestante, apesar desta coisa toda, de maneira que se ele se convertesse, se aplicaria exatamente a ele esta doutrina que eu acabo de dar da carótida, desta coisa toda, se aplicaria exatamente.
E vocês todos estão vendo a mim indo correndo salvar aquela carótida, e encumbrar, vocês podem bem imaginar. Mas… eu me esqueci a que propósito ia dizer isto…
(Sr. Gonzalo Larrain: Se aparecessem…)
(…)
…o pretendente Carlista ao trono da Espanha, D. Hugo Carlos, foi casado com uma filha da Rainha da Holanda. Essa mulher, quando foi morar na Espanha, levava uma vida tão degenerada, que a maior parte da Espanha recusava recebê-la. Bem, afinal, em certo momento ela se mudou para a Holanda. O Hugo Carlos foi atrás dela. Chegou lá, divorciaram-se, e a Rainha, a Princesa Juliana, cortou as relações com a filha por causa do mau procedimento da filha. Então dava uma verba para manter a filha, mas cortada.
Bem, agora aparece no jornal, no “Point de Vue”, uma notícia — agora, isto quebra todos os direitos ao trono — uma notícia assim: A Princesa Irene, dos países baixos — porque ela está divorciada, não se chama mais Irene de Bourbon-Parma — sofreu uma épreuve duríssima: morreu a sua amiga, fulana de tal. E ela passou muito tempo sem entrar em circulação, nem nada disso, por causa desse assunto. E a Princesa Juliana — a Princesa Juliana é a antiga Rainha que renunciou e hoje se chama Princesa — assistiu-a nos últimos momentos da amiga, assistiu-a nessa dor.
Mas que amiga é esta?! Nesses nossos tempos de perversão, não ficam desconfiados quem é essa amiga? Bem, a esse — agora uma coisa em sentido contrário, pouco menos mal, mas péssimo — “à morte de fulana estava presente também o amigo da Princesa, Peter Van qualquer coisa…”. Que amigo da Princesa? Isto diz o quê? É um concubino?
Bem, esta hipótese fala contra a idéia das relações dela com essa amiga serem relações… É, aí que está, aí que está. Bem, isso não torna salvável carótida nenhuma. Mas é um caso inteiramente diferente do caso de pessoas muito amigas nossas…
(…)
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