Conversa de Sábado à Noite – 11/10/1986 – p. 3 de 3

Conversa de Sábado à Noite — 11/10/1986 — Sábado [VF 047] (Neimar Demétrio)

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(Sr. Gonzalo Larrain: No Brasil não se usa, mas entre os hispânicos quando uma pessoa está pondo o, sobretudo, um ajuda o outro a colocar.)

Aqui não é assim por decadência da educação.

(Sr. –: Sempre que colocamos o sobretudo, vem o outro e ajuda, eu acho isso bonito.)

É bonito, é cavalheiresco. Claro. …

(Sr. –: A capa vai muito nessa linha, não é necessário, mas…)

É um gesto de cortesia. Uma francesa casada com um italiano, viúva de um italiano, desconfio que ela eliminou, porque era uma dessas viragos tremendas. Ela foi depois ministra do primeiro rei Bourbon da Espanha, que foi Felipe [Tour?]. Ela era ministra dele, e tocava [o] reino. Uma mulher…

(Sr. Guerreiro Dantas: Ministro do quê, Sr. Dr. Plinio?)

De tudo. O que foi Mazarino para a França, ela mais ou menos foi para a Espanha. Sendo que além do mais, ela tinha que tratar da saúde da Rainha, da saúde do Rei, do Príncipe das Astúrias que nasceu; entre governante de pajem e governadora do Reino. Era uma virago, mas uma maitresse-femme. Uma dessas mulheres assim. A gente vê ali no modo dela falar dos reis, sempre LLMMCC, L Majesté [Catholique?].

Uma coisa que estava contando ainda hoje ao João no automóvel — uma introdução, pequena perda de tempo, mas, enfim…

A Rainha esperava uma criança. Então esperava que fosse Príncipe das Astúrias, parece que foi mesmo, que é o Primogênito do Rei de Espanha. Quando se definiu bem que ia nascer a criança, etc., etc., naturalmente tudo o que havia de bom, mandaram vir da França. Era Madame des Ursins, Príncipe des Ursins que escrevia para a Marquesa de Maintenon, dizendo: “Aqui na Espanha não tem isto, não tem aquilo, mande-me da França.” De fato, a corte francesa foi mandando para ela, mulheres para ajudarem no dia do parto, depois isto, aquilo… Afinal, chega outra preocupação: ter uma equipe de boas amas-de-leite, que ela procurou em Madrid e disseram que em Madrid não havia boas amas-de-leite, que as boas amas-de-leite na Espanha só se encontravam nas Províncias, sobretudo tais e tais outras Províncias. Então, carta para os governadores de Província para reunirem cada um, uma, duas ou três amas-de-leite mais famosas de sua Província, para mandarem para Madrid para ver. Alguns [da] Província mandaram dizer que não tinham amas-de-leite famosas, mas alguns tinham e mandaram. Ela deu ordem que se reunissem todas numa cidadezinha perto de Madrid, e de lá entrassem juntas em Madrid, para serem ovacionadas pela multidão, porque a multidão queria homenagear as mulheres que iam dar seu leite ao Príncipe das Astúrias.

(Sr. Gonzalo Larrain: Muito bonito.)

É muito bonito e meio sem graça! Não tem o charme francês.

(Sr. Gonzalo Larrain: Mas tem seu lado bonito, não?)

Tem, tem, tem seu lado bonito.

Depois, então, elas entraram, estava o povo chantant mille bénédictions. Bem, assim elas foram até o palácio, chegaram no palácio, a Mme. des Ursins foi de encontro a elas. Naquele tempo, tempo de cerimonial, prestavam muita atenção nisto, depois num palácio para ir de encontro era perto de um quilômetro, corredor, são coisas colossais. As mulheres fizeram a reverência para ela. Ela examinou mulher por mulher, exceto três que ela achou no rosto de rougeur, as placas vermelhas no rosto. [Desconfiou] que tinham varíola. Então mandou embora; as outras ela levou até a Rainha. E na hora de apresentar à Rainha, grandes reverências — eu não sei como pode ter acontecido isto — mas a des Ursins, a Princesa des Ursins conta assim, que as criancinhas de peito que elas levavam consigo — porque a ama tem que estar amamentando — começaram a bater palmas para a Rainha, adestradas para baterem palmas para a Rainha.

(Sr. Gonzalo Larrain: Isto é muito bonito. O senhor não acha?)

Você vai ver o resto. A Rainha recebeu com muita amabilidade e a Princesa des Ursins, para captar as boas graças das mulheres — porque parece que achavam que as mulheres sentindo[-se] bem tratadas, o leite era melhor — jantou com as amas de leite todas. Naquele tempo uma Princesa jantar com as amas de leite! E ao mesmo tempo prestando atenção quais as que tinham mais apetite, para serem preferidas, porque tinham mais saúde. Tratando com este respeito porque era o rebento dos reis.

Me ficou claro dentro dos olhos o seguinte: que aquela história de São Tomás — não está gravando?…

(…)

Toma por exemplo, pai e mãe velhos, que não aprenderam pedagogias modernas, etc., etc., e que governam à la antiga, com aquele afeto, aquela tradição de antigamente, etc., mas que se fazem respeitar muito, são tratados de senhor e de senhora, os filhos beijam a mão, etc., etc., imaginem tudo isso.

De outro lado outro casal, a mãe fez um curso de pedagogia para educar a criança; o pai é médico e sabendo pediatria, trata a criança como ninguém; fazem para a criança um programa de educação à la moderna com todas as coisas possíveis, úteis, vantajosas. Qual é a criança mais bem educada? É aquela cujo [os] pais imitam mais a grandeza de Deus. Porque toda pedagogia, etc., etc. Nós aqui damos por nada!

Mas aquilo que nimba o pai e mãe, segundo a tradição e que faz deles a imagem de Deus em casa, estes governam melhor os filhos. Em fazendo isto, imitando a Deus. Portanto…

(…)

é dar um certo impulso primeiro, soberano e sério nas coisas que comunica, transmite a cada coisa o ritmo que lhe é próprio. Isto é governar, mais do que estar pegando as coisas pela mão e fazendo. A criança também.

Daí vem o mérito que tem quando a gente reconhece isso, ama isso e sabe viver, sabe discernir o mistério que nimba aquelas pessoas destinadas a isto. Eu acho isto assim.…

(…)

inteiramente o que ela deveria ser. O que a gente poderia esperar dela, ela não é. E que é uma semi-TFP, uma coisa assim.

(Sr. Guerreiro Dantas: Semi TFP?)

Talvez é mesmo, meu filho, hein! O que dizer! Mas que uma das razões mais profundas disso é que a TFP se posta diante da grandeza desses ideais, com o espírito “poca” com que a Josefa Menendez se postava diante das aparições de Nosso Senhor. Não é maldade, mas é “poquice”. Mas uma “poquice” que tem um certo encardimento de Revolução, porque na Josefa Menendez não se vê propriamente Revolução. É “poca”. Uma “poca” horrenda. Nosso Senhor aparecia para ela, e ela dizia: “Mas de novo aqui para falar comigo! Preciso deixar isto de lado, dá, dá.” Aparece quando ela está costurando.

Mas Vós de novo!? Que é que é isto? Etc., etc.

Não, mas Josefa, isto.

Aparições d’Ele.

Eu tenho a impressão de que nossa vocação faz uma coisa parecida dessa conosco. E que muitas vezes nós respondemos de um modo desatento, pouco ávido, ou “poquice”. Eu volto a dizer, há traços de Revolução na “sabuguice”, mas não é Revolução pura, é “poquice”. É uma coisa horrível, mas é isto…

(…)

da Josefa Menendez, acrescida do fermento da Contra-Revolução e de alguma coisa do demônio. Porque também não é… não vamos reduzir isto a Josefa Menendez, é que entre nós foi combatido muito o fermento revolucionário. Isto pode-se dizer que nesse sentido alguns resultados bem significativos conseguimos; mas o que não foi combatido é esse fermento revolucionário enquanto gerando o apetite de “poquice”, e é natural o apetite de “poquice” em si. Acho mais que…

(…)

Há momentos minha Mãe…

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