Conversa de Sábado à Noite – 4/10/1986 – p. 5 de 5

Conversa de Sábado à Noite — 4/10/1986 — Sábado [VF 047] (Neimar Demétrio)

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(Sr. Guerreiro Dantas: Relações da graça com o senhor, e o senhor descreveu as lutas que o senhor teve.)

Agora estou me lembrado.

(Sr. Guerreiro Dantas: [O] coronel levantava um tema das relações de Nossa Senhora e Nosso Senhor com o senhor, como seria. E isto se ligou com a relação dos Anjos com o profetismo.)

[O Sr. Dr. Plinio manda desligar o aquecedor, e o Sr. Poli aproveita e pergunta se pode continuar a gravar. Diz o Sr. Dr. Plinio:]

Pode ser gravado para o seguinte circuito: os membros da comissão que se reúnem aqui aos sábados à noite, mais Luisinho, Marcelo Pereira de Almeida e Sérgio. Outros não convém, porque eu vou ter que jogar com noções que eu conheço pouco, e deitar hipótese. E isso pode ser facilmente [atabalhoado], etc., mal interpretado por toda espécie de rabinos por aí, que evidentemente não convém.

Mas era preciso tomar em consideração o seguinte: Deus age diretamente muitas vezes. E muitas vezes a linguagem da Escritura, da Igreja, da Liturgia, etc., etc., se dirige a Deus diretamente e pedindo a Ele alguma coisa diretamente: “Ó Deus que, etc., etc., etc.,” pedimos a Deus.

Outras vezes nós pedimos a Deus, mas considerado Nosso Senhor Jesus Cristo, quer dizer, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnada. Às vezes nós pedimos por meio dos Anjos; pedimos, sobretudo, por meio de Nossa Senhora, depois pedimos por meio dos Anjos.

Esses pedidos são feitos tomando em consideração que Deus age… Sempre Ele, porque na ação de todos aqueles bem-aventurados que estão no Céu é Ele que age, santos e tudo o mais, é Ele que age. Bem, mas que Ele — já é um ponto que eu não tenho muita certeza — se em certas ocasiões Ele age diretamente por Si, e por meio de intermediários só em outras ocasiões, ou se sempre Ele age por meio de intermediário.

Mas o fato é que há um número enorme de coisas que Ele faz por meio dos intermediários. E esses intermediários, quando a gente analisa de perto, estão colocados eles mesmos numa linha de intermediação. De maneira que, por exemplo, nós rezamos para os Anjos ferreiros, mas os Anjos ferreiros de fato atuam sob a direção de outros Anjos mais altos, e atuam mandando atuar outros Anjos menos altos.

De maneira que a cadeia de intermediações até Deus é tão intensa, que a gente não pode escolher de modo inteiramente lógico aquele, aquele, aquele outro, porque é grande demais para nós termos tudo isso em vista. Então nós agimos de acordo com certas apetências internas da alma, que eu acho que na maior parte dos casos são moções da graça. E por onde, por exemplo, nós devemos pedir ao nosso padroeiro, não é? Ou por um santo que praticou especialmente uma virtude que nos é penoso praticar; ou pelo contrário, um santo que teve especial facilidade em praticar certa virtude, nós admiramos isto nele, e pedimos isso a ele, etc. Enfim, ou pedimos ao nosso Anjo da Guarda, pedimos… a alguma pessoa de nossa família que morreu, mas em cuja virtude nós confiamos, etc., etc.

É um tal quadro que, apenas por estas moções interiores é que a pessoa pode de fato escolher um procedimento próximo daquilo que Deus quer.

Não se trata aqui de não fazer a vontade de Deus. Porque se Ele quer que nós tateemos na penumbra, nós fazemos a vontade Deus tateando na penumbra. E o problema de quem tateia na penumbra não é o seguinte: “Como tatear, de cada vez, como Deus quer?” Mas é, sobretudo, este: “Uma vez que Deus quer que eu tateie, eu me resigno em tatear. Já é fazer o que Ele… embora eu na minha tateaçao — uma tateação é uma tateação — eu possa não tatear direito. Eu estou fazendo o que Deus quer até quando eu erro, porque Ele me pôs na penumbra.”

Bem, então a gente deve agir com o espírito degagé e confiante. E segundo a propulsão que tenha internamente, a gente pode pedir uma coisa, outra, outra, desde que tudo esteja na direção de fazer a vontade d’Ele, que é a condição de todo bem, é fazer a vontade de Deus.

Bem, o que responde, a meu ver, a sua pergunta. Deus pode agir por meio de… vamos dizer, um religioso, por meio do superior do religioso, como pode agir pelo Anjo da Guarda do religioso, como pode agir por Nossa Senhora. E eu acredito, sou propenso a acreditar, que se move toda uma engrenagem — se se pode usar uma palavra tão pedestre de engrenagem para isso, tão chué de engrenagem, para uma coisa tão magnífica que é a interligação de todos os servidores de Deus, até chegar aos pés do trono dEle!

Isto deve-se ver com calma… e, por exemplo, eu compreenderia uma oração assim: “Ó vós que eu não conheço, no Céu, mas de quem, por meio de quem Deus quer ser especialmente servido nessa ocasião, eu vós peço que…” Seja Anjo, seja santo, seja uma alma que está no Céu, mas que não é de anjo nem de santo… o que for!

Pedir, por exemplo, ao meu Anjo da Guarda, se Deus quer [que] uma pessoa que eu não conheço reze especialmente por mim, pedir a ele que, por meio do Anjo da Guarda dele, que faça-o rezar por mim. Com toda a abertura, com todo o espírito filial caminhar assim.

Eu sou muito propenso, em matéria de vida espiritual, a que se tenha o maior degagé nós possível, dentro da linha dos Mandamentos, naturalmente. Quer dizer, naquilo que não contraria a Deus, muita abertura. Santa Terezinha do Menino Jesus usava uma expressão, que é até vinheta na edição antiga da obras dela que eu tenho, está assim: “Dit au juste que tout est bien!” — “Diga ao justo que tudo está bem.” Quer dizer, se está seguindo a boa regra, viva sossegado, não se atrapalhe nem se incomode. Eu sou muito propenso a isto.

Agora, há uma pergunta que é mais a do Guerreiro e que não se confunde inteiramente com a sua, e que é a seguinte: em si, absolutamente falando, nós temos meios para saber como é que Deus costuma fazer, e temos meios para fazer uma conjetura sobre qual é o papel dos Anjos e qual é o papel do santos e dos bem-aventurados nesta imensa movimentação dos espíritos celestes?

E outra pergunta é: que relação isto tem com o profetismo?

Aí tem uma coisa muito delicada, e que eu não sei traçar bem a linha divisória. E eu acho que também uma das condições do bom andamento das nossas conversas é eu dizer: o que eu não sei, eu dizer chãmente que eu não sei. Porque, do contrário, fico num papel que não é o meu, e crio ilusão de que eu estou dando diretrizes certas de uma coisa que eu não estou certo, não posso fazer isto. É melhor eu dizer chãmente. E eu acredito que também da parte de vocês lhes dá muito mais segurança que eu proceda assim do que de outra forma. Isto é assim.

Vocês sabem que eu tenho um tempo limitado para estudar, sabem que essas matérias são imensas, e exatamente por isso eu penso na Gruta do Cornélio… e que, portanto, não nos atabalhoemos, prossigamos em paz, in nomini Domini, não é?

Sabe que é muito bonito, na Ladainha da Rogações, o padre — da Procissão das Rogações — o Padre está do lado de fora da Igreja — ou dentro, não me lembro bem — e com a procissão toda armada. E para dar partida para a procissão, ele diz: “Procedamus in pace”, e o coro canta: “In nomini Domini, amén!”. “Procedamus”, quer dizer andemos, andemos em paz, e o coro canta: “em nome de Deus”. E aí começa [a] procissão percorrendo o itinerário estudado. Eu gosto muito disto.

Então, procedamus in pace in nomini Domini, Nossa Senhora.

Agora, eu tenho a impressão que, eu seria propenso a isto, a achar que Deus habitualmente, senão todas às vezes, eu teria quase uma certa propensão de achar que, todas as vezes, Deus não age diretamente. E que se se reza diretamente para Ele, é porque a nossa oração deve passar pelos caminhos das intermediações e chegar até Ele. Então pedimos a Ele porque sabemos que o Doador de todas as coisas e bens é Ele. Mas que seria correto nós supormos que todas as graças passam pelos intermediários, que são um número incontável, que nós nem sabemos bem como é.

Querem ter uma idéia? Pesem o seguinte: cada um de nós para chegar até Adão, quantos antepassados tem? É incontável.

Bem, mas se nós não conhecemos a lista dos nossos antepassados até Adão, os nossos antepassados nos conhecem porque estão no Céu e muito provavelmente têm conhecimento de todos os que descendem deles. E aí o Regime Patriarcal de que se fala na reunião de domingo à tarde, o regime patriarcal eu acho que vige em toda a sua extensão.

Bem, então, quantos dos nossos antepassados estarão no Céu? Quantos estarão no Purgatório? Quantos estarão nem no Céu nem no Purgatório? A gente não pode saber, não pode saber… mas os que estão no Céu será que não rezam de modo especial por todos os descendentes? Eu acho que sim.

Mas, na linha dos descendentes deles, alguns têm mais realce e outros menos nos planos divinos. E eles naturalmente amarão mais aqueles que têm mais realce no plano divino e, portanto, rezarão especial por estes. Ainda que sejam descentes por via feminina, isto conta.

Bem, não seria uma coisa muito razoável fazer no Reino de Maria uma oração especial para pedir aos nossos antepassados que rezem por nós? A mim me parece muitíssimo razoável. Mesmo porque, inclusive as orações dos que estão no Purgatório valem para nós. Não seria razoável nós rezarmos por eles, para eles saírem do Purgatório? Não deveria ser até um dever anexo à obrigação “Honrar pai e mãe?” Parece-me que muito, me parece que muito.

Mas eu creio que tudo isso no Reino de Maria luzirá com um brilho especial.

Bom, os Anjos!?

Todos nós temos nossos Anjos da Guarda individual. Há certamente um Anjo da Guarda da nossa vocação. E nada me espanta que seja um Arcanjo e até um Serafim por causa das condições especiais de nossa vocação. Bem, não seria razoável nós rezarmos pelo Serafim que, aos pés de Nossa Senhora, está mais especialmente rezando por nós? E pedir que ele e toda a coorte dos espíritos angélicos, dependentes dele, rezem continuamente por nós realizarmos a nossa vocação?

Agora, qual será esse Serafim? Nós temos alguma idéia disso? Vocês sabem que o Fiúza andou fazendo umas especulações e algumas coisas desse sentido naquele convento alemão de Aparecida. E que não deram em nada, mas que há uma Congregação Religiosa na Alemanha — fundada no século XVIII ou XIX, não me lembro bem — especialmente que cultiva a devoção aos Santos Anjos todos e que tem doutrinas, um mundo de coisas a esse respeito, interessantíssimas.

Até, como eu sou ambicioso, eu pensei que nós podíamos destinar o nosso coletor de bens terrenos, para ser também o nosso coletor de bens terrestres, e um dia dar uma chegada a esse convento…

(Sr. Nelson Fragelli: O senhor já tinha me dito…)

Então, está recomendado! Bem, para sabermos tudo quanto eles dizem, quanto é que eles têm, o que é que é, enfim, o mundo dos Anjos como é que é? Porque eu acho que nesse abandono em [que] nós estamos, se nós não recorremos aos Anjos e aos espíritos celestes, nós privamos a nossa luta de elementos de defesa incomparáveis. Isso me parece inteiramente evidente, não é? Bem, então, prosseguimos.

Que relação isto tem com o profetismo? Quer dizer, os Anjos, até que ponto sopram, os que têm uma missão profética, os Anjos sopram no espírito deles o que eles devem pensar. E até que ponto, qual é o papel do Anjo e qual é o papel do Profeta na execução de uma determinada missão terrena? Não é? Parece-me que sua pergunta se dirigia mais especialmente para isto.

Aqui são coisas muito delicadas e muito bonitas, que eu digo com uma certa hesitação, porque não tenho a certeza disso…

(…)

a resposta a esta pergunta é simples. Tomem o cantochão. Globalmente falando, o cantochão não tem assim nenhum Cristóvão Colombo do cantochão, que tenha descoberto esta América do mundo sonoro… Teve, sem dúvida nenhuma, grandes compositores, muitos deles anônimos. Bem, o mais curioso é que desses compositores não me consta, a mim não me consta — talvez no Cornélio eu acabe aprendendo — que algum tenha sido santo canonizado. Mas globalmente falando, o surto do cantochão corresponde ao surto de santidade dentro da Igreja.

Ora… ora, nós não podemos dizer que isto não é santidade, porque se fosse santo, santos teriam tido… se fosse santidade, [os] santos teriam tido. Não, não podíamos dizer. Mas é uma certa forma [de] virtude que é virtude, e que pode estar no conjunto das virtudes de um santo, e pode fazer um bem enorme!! O bem que o cantochão tem feito, não tem palavras. Mas, por um desígnio qualquer da Providência, pode ser que os maiores homens do cantochão tenham ficado no anonimato.

Bem, agora, alguém dirá: “Agora, toma tal santo, não sabia cantochão. Toma tal outro santo que era rei do cantochão. Algum dos dois não foi santo?”

Não, são formas de virtudes especiais. Como por exemplo, um outro é um grande filósofo, outro é um grande artista, etc., etc., são dons naturais que Deus fez iluminar pela graça e, nele foi santidade ele fazer valer aquele dom que Deus a ele deu — dom natural e dom sobrenatural — no caso dele foi santidade. Se ele não fizesse valer isto, ele não seria santo. Mas, não quer dizer que os santos todos devam ter tido esse dom.

Quer dizer, a coisa se desfaz… a pergunta se resolve tão comodamente que eu não sei o que dizer… mas tem uma coisa curiosa, que toca nos Anjos. Parece que o surto que levou ao cantochão, por exemplo — porque poderia apresentar muitas outras coisas —, o surto que levou ao cantochão, entrou ali uma ação Angélica. Porque há uma forma qualquer de beleza ali, que é superior à excogitação humana. Eu tenho isso como certo.

Bem, esta ação Angélica, vamos dizer, é uma ação que se fez sentir o Anjo atuando sobre os homens, provavelmente com talento afim. E da conjuração do talento afim com o Anjo, ação do Anjo, ter saído uma coisa que o talento só por si nunca daria. De maneira que gente vê certas músicas do cantochão — a meu ver também do polifônico — a gente vê certas músicas e diz: “Não é possível, isto um homem não compôs!” Entrou ação Angélica.

Bem, então, assim como nós podemos imaginar Anjos das melodias celestes e terrenas, nós não poderíamos imaginar Anjos que agem estimulando em quem tem, como nós, vocação profética, estimulando dotes naturais, estimulando reflexões e produto do trabalho, da dedicação, para aproveitar os dotes naturais — que é diferente hein!, o indivíduo pode ter dotes naturais e não ter aproveitado, são coisas distintas — e Anjos, eles mesmos, tendo por natureza e por graça muita coisa de profético, e que seriam Anjos proféticos, patronos nossos? Compraz-me muito essa hipótese!

Bem, e aí só fica uma questão de um vulto muito menor para tratar, de tal maneira menor que, se não quiserem eu não trato, que é a questão seguinte: como é que a Providência determinou ou parece ter determinado, que estes Anjos proféticos abandonassem a Terra, de maneira que tudo tenha caído na degringolada que caiu?

Não está gravando, está meu Poli?

(Sim)

(…)

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