Conversa
de Sábado à Noite – 27/9/1986 – Sábado
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Conversa de Sábado à Noite — 27/9/1986 — Sábado
As provações axiológicas do Sr. Dr. Plinio dos trinta aos cinqüenta anos * O exame de consciência do Sr. Dr. Plinio aos cinqüenta anos e o estado do Grupo naquela época * Os membros do Grupo na época da RAQC não se importavam com o crescimento da causa; eles queriam progredir na “Bagarre azul” * A graça de Genazzano para o Sr. Dr. Plinio foi magnífica mas ambígua
Índice
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(Sr. N. Fragelli: Tínhamos muito desejo de conhecer o movimento da graça…)
Me diga uma coisa: ali está ligado nos três botões?
(Sr. Guerreiro: Está no máximo.)
Diga lá meu Nelson.
(Sr. N. Fragelli: …o movimento, o crescimento da graça na alma do senhor. Uma visão atual da mesma.)
(Sr. G. Larraín: Isso e uma certa relação que isso tenha com o Segredo de Maria, a história da graça na alma do senhor, não tanto os episódios, mas uma visão de totalidade.)
(Sr. J. Clá: Em 67, o Sr. D. e este escravo de Maria, estávamos aqui tomando notas de uma reunião que o senhor nos tinha feito, quando tocou uma sineta…)
Eu estava doente neste período?
(Sr. J. Clá: Estava convalescente. Nós entramos no escritório e o senhor nos perguntou o que fazíamos. Nós recompúnhamos uma reunião do senhor etc., e dissemos que o senhor bem poderia aproveitar este período para ditar a história do senhor. O senhor estava deitado no sofá e disse: “Ah, se eu fosse contar toda a minha história, daria mais de cem volumes…”
Mas aí é a história do que eu fiz, a história interior só.
(Sr. J. Clá: Deixe-me continuar: “…daria mais de cem volumes, porque eu me lembro da ação da graça em minha alma desde pequeno”. De maneira que dá para começar a reunião.)
Nossa Senhora! Nossa Senhora!
* Como o Sr. Dr. Plinio imaginava ser, quando menino, o desenvolvimento normal de um homem
Quando uma fruta se forma numa árvore, quando uma criança nasce também, as transformações que elas vão passando na primeira parte da vida, são muito evidentes. A Botânica, a pediatria explicam, mostram isso, são muito evidentes.
Depois há um determinado momento em que o desenvolvimento da fruta ou da criança com o homem, atinge uma certa estabilidade. Essa estabilidade é por assim dizer, insidiosa. Porque dá a impressão de um estado de força, de poder, de grandeza consumados. E que daí para adiante é crescer, mas muito pouco, e a pessoa depois é chamada por Nossa Senhora e vai para o Céu.
Eu tenho certeza de que, quando vocês eram “enjolras”, mesmo antes de conhecer o grupo, devem ter conhecido muitas pessoas que vocês consideravam assim, completas. Não em graça e santidade, talvez não, mas enquanto homens, pelo menos completos. E modelos, etc., etc.
E achavam que aquilo não tinha mais o que crescer. É um modelo achevé, não tem mais nada que crescer. E que achavam também, ao menos era a coisa que estava no meu subconsciente quando eu era mocinho, “enjolras” e tal, é que cada santo tinha chegado à idade psicológica que ele tinha nas imagens correntes da Igreja. Por exemplo, São Francisco de Salles, assim por volta de uns cinqüenta anos, mas uns cinqüenta anos muito maduros. Mas ainda corado, quase se diria, com restos de uma juventude que teria sido esplêndida, e que dava um Outono muito digno, mas que depois daquele grau, daquela forma de santidade que a imagem visava representar, não tinha progredido nada. Ele estava parado, e tinha morrido assim. Também, não faltava mais nada: era um estado tão satisfatório quanto aquele progredir, crescer mais, no quê? Estava consumado o negócio. Ele viveu fazendo pequenos progressos — porque não se vive sem progredir — até o momento em que, provavelmente sem ele contar, pum! Está acabado, chegou no Céu e estava ganha a partida.
Mas eu também tinha a idéia de quando o homem atingia esta situação, os obstáculos interiores desapareciam, os exteriores diminuíam muito. As lutas da vida ficavam para trás e a pessoa ia apenas envelhecendo gradualmente, nobremente quando era uma pessoa de virtude, envelhecendo assim, sem mais, não acontecia mais nada. E não tinha história.
Em certo momento a própria pessoa percebia que a história tinha cessado, porque os seus inimigos estavam desarmados, ou ela tinha sido derrotada e tinha refluído para um grau de prostração que ela devia aceitar e no qual ela devia morrer tranqüilamente, mas o jogo da vida estava feito. Não tinha mais nada que fazer, e estava feita a vida de um homem.
Não sei se vocês participavam da mesma idéia.
Em ponto menos marcante, porque para um homem marca muito mais um indivíduo do mesmo sexo atingindo a maturidade que ele acha que vai ter. Então, ele se impressiona muito menos com uma senhora, mas a senhora era a mesma coisa: chegava a uma certa idade, tudo tinha sido jogado. Se elas deveriam se enfeiar, enfeiavam até despropositadamente, mas outras ficavam estabilizadas em grau potável de beleza [outonement?], por onde olhando-se para elas, dir-se-ia: Como foi bonita, ainda é bem bonita.
Todas as artes dela, tudo assim, tatatá, assim parado, até o momento em que, aos setenta anos mais ou menos, que era a grande velhice para mim, a pessoa, puft! De repente Nossa Senhora levava e morreu, tá acabado.
* As provações axiológicas do Sr. Dr. Plinio dos trinta aos cinqüenta anos
Nessa situação que eu tomava assim, por uma coisa curiosa, eu não sei porquê, não aplicava a mim. Quando eu comecei a ficar homem maduro, eu comecei a ficar atormentado com problemas de caráter axiológico, eu achei quando eu fiz mais ou menos trinta anos — mas depois disso foi o uivo quando eu fiz cinqüenta anos — eu achei que eu não estava realizando a minha vida. Que Nossa Senhora, as promessas axiológicas, não podiam ter mentido, que portanto eu devia estar realizando muito mais a luta da Contra-Revolução do que estava realizando, e que eu estava enfurnado em um beco onde não havia nenhuma possibilidade humana de eu deslanchar rumo a ser uma pessoa verdadeiramente nociva à Revolução. E parado, e os anos crescendo como a poeira vai se depositando sobre os móveis, insensivelmente, sem barulho nem agitação, se passar um mês, por exemplo, sem limpar esta sala, ela está cheia de poeira. Não aconteceu nada na sala, mas a poeira choveu em cima dela insensivelmente. Assim sobre a minha vida, ia chovendo os anos.
E eu, numa espécie de imobilidade, enfurnado e engarrafado. Resultado, eu tenho culpa! Porque não é possível que a Providência tenha deixado de corresponder às esperanças etc., etc., etc. Está bom, se tem culpa, precisa examinar, vamos ver qual é a culpa.
Então, exames à caco de telha, e alguns pontos ficando sem possibilidade de se discernir se tinha culpa ou não. Todos concretos em que não havia possibilidade de discernir se tinha culpa ou não. Coisas atrapalhadíssimas, complicadíssimas etc., etc., não havia meio. Então, provavelmente, ali está a culpa!
Bom, então procure um sacerdote, procure Dom Mayer, procure esse ou aquele e procure uma elucidação.
Bem, não adiantava. Eu vou contar a vocês este fato, para vocês ver em que não adiantava mesmo. E esse suspense a sombrear-me pesadamente, mesmo em ocasiões em que a minha vida esteve em risco ou ao menos em breve prazo entrar em risco. E aí como é que era? Está bem, está cercado e não tinha como sair.
* O exame de consciência do Sr. Dr. Plinio aos cinqüenta anos e o estado do Grupo naquela época
Quando eu fiz cinqüenta anos, eu resolvi fazer um retiro, um dia de recolhimento. E eu resolvi passar a tarde, uma tarde de recolhimento, num lugar onde à tarde eu nunca ia. E que, portanto provavelmente não seria muito procurado. A nossa sede era a da Pará.
Mas eu fiz passar na sala do MNF na Aureliano. Fiquei sozinho e me raspei a caco de telha ali, de sair sangue de todos os poros da alma, por causa disto!
O grupo ainda não tinha feito nada, a RAQC ainda não tinha saído, não tinha nada, o que tinha era o grupo em São Paulo, variado, em várias pétalas: Pará, Martim, Alcácer e Aureliano, em ordem geográfica.
(Sr. J. Clá: Alcácer estava começando em 58.)
Estava começando, mas enfim, havia, de um lado.
De outro lado, brotos em outros estados, mas quão incertos! Meu Deus! Alguma coisa aquilo daria, mas não era inteiramente o que estava lá, eu percebi isto perfeitamente. Algum vago contato com o exterior, mas o exterior era, naquele tempo, o mundo da Lua, porque não havia estes telefonemas e todo este contato com o exterior que há hoje. Por exemplo, vamos dizer, um contato com a Argentina? Mas era como hoje seria ir para Lapônia, na nossa perspectiva.
Com esses quatro grupinhos e estas coisas assim, um homem de cinqüenta anos? Cinqüenta anos era a idade feita, me lembrava meu pai quando tinha cinqüenta anos, meus tios quando tinha cinqüenta anos, professores que eu conheci quando tinha cinqüenta anos, eram homens que tinham jogado tudo. A coisa estava toda ela feita. E eu não via nem possibilidade daqueles grupinhos crescerem.
Porque o grupo da Pará e Martim, não crescia mesmo, nem procurava crescer. O grupo da Aureliano, estava parando de crescer.
(Sr. J. Clá: Era 58, não tinha a Pará. Era a Vieira de Carvalho, Martim e nesse ano que se alugou a sede da Aureliano.)
Foi esse ano?
(Sr. J. Clá: Grupos formados era só a Vieira de Carvalho e a Martim.)
O grupo da Vieira de Carvalho tinha, por exemplo, dentro o Pacheco, e outras coisas do gênero. Como é, onde é que isto ia parar? Quer dizer, um resultadinho assim, engarrafado e nem ia para a frente, está acabado.
Dom Mayer e Dom Sigaud eu via perfeitamente no que dava, já tinham dado. Dom Mayer, quatro ou cinco anos mais velho do que eu já ia caminhando para os sessenta, Dom Sigaud era mais ou menos da minha idade. Muito pouco mais ou muito pouco menos, mas era a minha idade. Enfim, era precisamente isto.
E eu com esse problema de consciência que eu direi a vocês daqui a pouco. Agora, depois, as festas. Festas de aniversário, tudo o que queiram, gentilezas, isto, aquilo, aquilo outro tudo nesse ambitozinho assim.
Era, por exemplo, uma das grandes provações da minha vida, mas era uma provação colossal. Colossal por causa da coisa em si…
(…)
…eu não tinha meios de depor esta dúvida, então uma coisa tremenda, mas tremenda. Com esta situação, realmente foi crescendo depois…
(…)
* A todo momento decepções de gente que saía do Grupo, mas sobretudo com os que ficavam
…deu a nenhum de nós a impressão de uma marcha garbosa de cavalheiros que vão para a frente e que fazem e que acontecem, não! A todo momento era mais um pequeno crescimento numa situação encruada, donde se podia dizer, cresceu mais um pouco. E a todo momento, decepções de gente que saia do Grupo, mas sobretudo decepções com os que ficavam no Grupo.
De maneira que vejam bem isto, por exemplo, a expansão da TFP pela América do Sul, conseqüência de viagens da Fábio, do Fernando Filho , de Sérgio etc., etc. Essas viagens que eles faziam, trazia um mundo de possibilidades muito pouco definidas em que eu percebia que eles eram levados por ilusões, não havia meios de se persuadirem que a falsa direita era a falsa direita, se deixavam atrair por falsas direitas de toda ordem, começavam um pequeno recrutamento de gente que podia nos servir, mas destes, muitos apostatavam desde logo, o que é que restava? A idéia de que a AS, a América Espanhola fosforescia de uma certa luminosidade a mais do que a nossa, mas não fosforescia a ponto de poder dar um incêndio de fé, etc., etc., como se, para compensar a estagnação daqui, se deveria esperar. Eu não esperava, mas seria lógico esperar.
Depois começaram a aparecer o Grupo do Chile, o Grupo da Argentina, Grupo do Uruguai, etc., etc., mas que grupos raquíticos. Logo que cresciam e aderiam a nós, era uma marcha inexorável: apareciam uns tantos, uma boa parte se fixava e depois se constituía uma espécie de bordadura em volta e não entrava mais ninguém. Era uma coisa líquida.
De maneira que a pergunta era à quoi bon, estes corpúsculos? Era, de algum lado, um crescimento colossal: de outro lado, era a mesma coisa como quem olha para um anão que enquanto anão vai crescendo de pressa e diz: “Vai ficando homem, hein?!
E mais ainda, minha obrigação de não dizer o que eu estou dizendo, porque isto daria um desânimo sem nome e manter uma esperança sem mentir. Porque eu não podia mentir, não posso mentir. Mas então, apresentar os lados bons, etc., animar e sobretudo, falar da confiança na Providência. Era o caminho que tinha, falar da confiança na Providência, da confiança em Nossa Senhora, etc., etc.
Algumas coisas, desde logo, todo mundo foi vendo…
(…)
…tudo o mais? Que coisas boas daquele tempo, que coisas boas? Que problemas!
* Os membros do Grupo na época da RAQC não se importavam com o crescimento da causa; eles queriam progredir na “Bagarre azul”
Então, o crescer contínuo que dava continuamente em desastres, e crescia de costas. O primeiro momento em que foi possível tatear um pouquinho que estava crescendo mesmo foi por ocasião da RAQC. Mesmo com o caso da RAQC, aconteceu o seguinte: que o pessoal que deveria ficar exuberante de alegria com os resultados obtidos pela RAQC, tinha minguado tanto, que eles tinham perdido a noção da Causa e da importância da Causa. Para eles não era a Causa, mas era o crescimento interno do Grupo que era tudo.
E o episodiozinho pequeno, interno do Grupo, impressionava eles muito mais do que todo o episódio da RAQC.
Bem, e eles eram inteiramente alheios, indiferentes, em parte até por incompreensão, por “enjolrisse”, etc., etc., a tudo que se ia obtendo. Resultado: eles só mediam o progresso em função do único padrão onde nós não podíamos progredir. Esse padrão era a “Bagarre azul”. Quer dizer, se algum dos nossos ficasse muito rico, ou ficasse muito poderoso, etc., etc., isto eles mediriam como uma expressão do progresso do Grupo, mas a RAQC não! E desse lado, nós não podíamos progredir.
(Sr. J. Clá: E se tivesse meio de progredir acabaria o Grupo.)
Acabaria o Grupo, porque era a traição. Sem traição não se consegue nada. Não sei se eu torno claro a vocês, o impasse tremendo que uma coisa destas trazia. Um impasse tremendo.
* O Sr. Dr. Plinio acedeu de bom grado à compra de um Mercedes para contentar os membros do Grupo fantasiando-se como um homem de êxito na “Bagarre azul”
Bem, coisas assim: Eu acedi de muito bom grado, à compra daquele Mercedes, porque era o jeito que eles tinham de me fantasiar como um homem de êxito na “Bagarre azul”, para vencer um pouco a própria inanição que eles tinham de não estar no fandango da “Bagarre Azul”. E eu achei que eu deveria me prestar a isso de bom grado, por dois lados. O primeiro lado é de ajudá-los um pouco, um modo de…, por exemplo, ir comigo no automóvel, naquele Mercedes, o Mercedes naquele tempo, por assim dizer, nobilitava o homem. Então, iam três, quatro, cinco, comigo no Mercedes, descer no Restaurante, os outros vinham logo depois, aquilo queria dizer alguma coisa para eles. Fazermos uma viagem, por exemplo, em um domingo à noite ir jantar em Santos, tinha muita gente conhecida em Santos naquele tempo.
Irmos no Fabrízio onde tinha muita gente. Parava o automóvel no Fabrízio, ia dentro do jardim, todo mundo via porque era todo vidrado, essas coisas assim…
* O contentamento que os membros do Grupo tiveram com o convite feito ao Sr. Dr. Plinio para colaborar na “Folha de São Paulo”
Uma outra coisa que ia dar a eles muita alegria era o súbito e o inesperado convite do Frias para eu começar a colaborar na “Folho de São Paulo”.
(Sr. G. Larraín: [inaudível].)
Eu vou tratar daqui a pouco.
O inesperado convite para colaborar com a “Folha”. Então, resolvo mandar um artigo para a “Folha”, creio que o artigo saiu etc.: “Uh!” Porque o homem que escreve em um jornal diário, é muito mais do que um diretor de um jornalzinho como o Catolicismo.
Bom, então eu me lembro que eu estava esperando passar um táxi em frente da Martim, quando o Martim Afonso veio da empresa do Mercedes, foi toda uma estória, foi comprado por D. Luiz, para não pagar… toda uma estória, o Martim Afonso veio guiando o Mercedes e deu uma volta espetacular com o Mercedes, entrou pela Martinico Prado, deu uma volta espetacular e foi me pegar do outro lado da calçada. E fomos todos para o Coração de Jesus, bralábralá…
Pam, em cima! Doença, diabete, amputação, riscos, etc., etc., e de outro lado um tempo indefinido de não poder usar o automóvel, então o resultado, o automóvel ficou colocado sobre uns [pilotis?], uns cavaletes na Alcácer, e os artigos da “Folha” foi avisado que eu não podia continuar porque estava doente. E doente, por tempo indeterminado.
Quer dizer, como é esse negócio? Então, isto, arduamente conseguido, arduamente, arduamente conseguido, isto como é que é, você é não agora?
* A graça de Genazzano para o Sr. Dr. Plinio foi magnífica mas ambígua
Nisso vem, por exceção, a graça de Genazzano.
Bem, a graça de Genazzano foi uma promessa magnífica, mas foi uma promessa ambígua, porque a graça me dizia: “Você cumprirá a sua vocação”. Mas ela não me dizia que eu não tinha aquela culpa. Ela podia perfeitamente ser entendida como um sinal de que eu não tenho aquela culpa, mas ela podia perfeitamente ser entendida como, apesar de ter a culpa, Nossa Senhora teve a bondade, e me fará cumprir a vocação.
Quer dizer, analisadas as coisas com toda a honestidade de frente, isto era assim…
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…porque em cada comunhão…
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…instalar isto aqui, nem sempre é fácil. Pronto, está feito.
Há momentos, minha Mãe…
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