Conversa de Sábado à
Noite – 20/9/1986 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 20/9/1986 — Sábado [VF 047] (Neimar Demétrio)
(Sr. Gonzalo Larrain: Eu achei meio puxado ele…)
É, infelizmente é.
(Sr. Gonzalo Larrain: Ele estava conosco lá em cima mas…)
É, ele entrar só para receber uma benção eu acho que ia, mas para participar da conversa, não.
E nós brasileiros somos assim, se…
Ele está em que andar?
(Sr. –: Segundo.)
Se não fosse tão penoso chegar até o telefone eu dava um telefonema a ele, mas a questão é que…
Talvez eu o veja amanhã na reunião da Comissão Médica e está acabado.
Bom, nós tivemos que nos atrasar porque o CDC [Sr. Carlos del Campo?] saiu com umas idéias — aliás, muito interessantes — para uma possível comunicação da TFP e coisa, mas que tinha que ser vista hoje à noite mesmo, e deu nisso. Mas isso é uma razão a mais para nós entrarmos o quanto antes nos nossos temas e… Vamos ver então, parece que temos comentários para fazer de São Luís Grignion, não é meu João? Era o Gonzalo que tinha perguntas, como é que é meu Gonzalo?
(Sr. Gonzalo Larrain: Talvez o Sr. João queira dar as perguntas. Mas, nós tínhamos algumas coisas para levantar com o senhor.)
Está muito bom, vamos lá. Que horas são agora? 1 hora, não é?
(Sr. João Clá: 1:20h, mais cedo do que o término do Santo do Dia.)
Dá tempo.
(Sr. Gonzalo Larrain: “Dá um resumo da última reunião”.)
Está um resumo da reunião passada no ponto, ouviu? Mas, enfim, diga.
(Sr. Gonzalo Larrain: Se o senhor pudesse tratar um pouco mais dessa totalidade e dessa visão da totalidade de Nosso Senhor Jesus Cristo que é a missão da TFP. E da troca de vontades e do Segredo de Maria em função dessa totalidade.)
(…)
Quando nós vamos tomar a missão do homem, a alma humana para o que é que foi feita, etc., etc. Ela foi feita na primeira vista para atender as suas próprias necessidades e suas próprias vantagens e para alcançar um próprio fim.
Mas a realidade é essa apenas até um certo ponto, porque acontece que a finalidade do homem é, por sua vez, a seguinte: ele é parte de um todo e ele é destinado a brilhar como elemento de um todo na presença de Deus.
Está na nossa natureza que nós vamos contemplar a Deus e adorar a Deus face a face — caso nos salvemos —, adorar a Deus face a face, de uma adoração inteiramente individual a Ele que é um só Deus em três Pessoas.
Mas, a nossa adoração vai ser feita num contexto. Quer dizer, ele é um elemento de um coro, nós não somos solistas diante de Deus, nós vamos fazer parte de um coro diante de Deus.
Embora, de quando em quando, uma parte desse coro canta mais [alto] e, de vez em quando, uma voz se destaca nas infinitudes celestes. Vamos dizer que o número incontável de Anjos e Santos acabe cantando de vez em quando, um canta ao longo das multidões dos séculos e que, portanto, cada um é debaixo de certo ponto de vista, de vez em quando um solista diante de Deus.
De outro lado é verdade também que é só enquanto [cantando] todos juntos é que nós damos a Deus a glória adequada. Isso se prova pelo fato seguinte: São Tomás prova que Deus não poderia ter criado uma só criatura; que para que a criatura espelhasse a Deus, pelo fato de ser criatura, ela não poderia espelhá-Lo tão adequadamente que justificasse que Ele criasse. Era preciso criar diante de um universo. Porque assim, as perfeições infinitas de Deus, incontáveis, encontravam um reflexo adequado para que esse universo representasse a Deus.
E, portanto, nós só somos formosos aos olhos de Deus e queridos aos olhos de Deus como elementos desse universo porque, do contrário, nós não representaríamos a glória d’Ele. Não sei se este ponto está claro?
(Sim)
Agora, admitido esse ponto, nós devemos tomar em consideração que também nós ao vermos o Céu, vemos a Deus, mas para compreender porque é que nós estamos dando glória a Deus, cabalmente, inteiramente, nós devemos ver o universo, enquanto esse universo está dando glória a Deus. E é logo abaixo da glória de Deus, a glória que o universo dá a Deus enquanto tal, e a compreensão de todo o mundo enquanto encaixado nesse universo faz parte do olhar da nossa alma em toda a eternidade.
As pessoas… Vamos dizer, por exemplo, [no] catecismo comum eu compreendo que não [se] vê isso porque explicar isso para uma criança é muito difícil. Mas, o catecismo para adultos deveria poder dar isso, mas eu não censuro que não tenha dado, porque é um desses tesouros que não são ocultos, estão em São Tomás, eu acabo de mencionar São Tomás, mas que a gente vê que ficou para os últimos tempos.
Bom, e isso deveria nos ensinar que aqui na terra, por causa da nossa visão — eu falo da nossa visão física —, nós vemos melhor o que está mais perto e vemos menos bem o que está mais longe, mesmo para uma vista inteiramente sadia, normal, é assim.
Mas, o que o espírito humano, sobretudo, deve procurar ver é o sentido mais longínquo das coisas, a universalidade das coisas e não apenas aquela coisa que está perto. Quer dizer, aquilo é uma espécie de inversão na nossa ótica dentro dessa terra, debaixo de um certo ponto de vista.
De tal maneira a noção de conjunto explica as coisas particulares, e quem não tem essa noção de conjunto com o seu valor hierárquico, e esse desejo de ver o conjunto, e esse senso do conjunto, ele nem vê bem e nem funciona bem ele, nem ele se encaixa bem na ordem das coisas.
Mas o que é que quer dizer isso? É um mero ver?
Não, a coisa é a seguinte: eu acho que isso entra no Primeiro Mandamento. Um homem, por exemplo, ouve dizer que tal — aqui está uma coisa característica, não deve mais existir, mas outrora eu tinha um certo interesse, creio eu que não fica longe lá dos seus domínios, sentia um certo interesse, porque eu fazia coleção de selos e me caiu um selo disso na mão —, o Sultanato de Zanzibar. Deveria ficar mais ou menos entre Madagascar e Etiópia, eu suponho.
(Sr. Aluísio Torres: É uma ilha que fica na costa da África, exatamente como o senhor está dizendo.)
É isso, não é?
(Sr. Aluísio Torres: É, mas é uma ilha separada.)
É uma ilha separada, inteiramente caracterizada.
Vamos dizer que o Sultanato de Zanzibar tenha hoje em dia — hoje em dia todas as populações cresceram aflitivamente — vamos dizer que tenha quinhentos mil habitantes, não sei se corresponde a isso ou não.
Bem, uns trezentos mil habitantes. Ainda é Sultanato ou é uma República soviética de Zanzibar?
(Sr. Aluísio Torres: É praticamente comunista.)
É, não podia deixar de ser.
Bem, mas eu imaginando em condições normais, eu imaginava o Sultão de Zanzibar, no palácio do Sultão de Zanzibar, a ilha de Zanzibar, o mar em torno de Zanzibar, e o zanzibarzinho, pequeno, constituindo uma espécie de garnisé entre as nações. O todinho, com toda a graça que tem os todos pequenos, quando eles são todos perfeitos e acabados.
Bem, e eu tinha interesse por selos de Zanzibar, mostrando o Sultão e toda a feeria; a micro-feeria de Zanzibar me interessava. Agora, se dissessem, houve um terremoto e matou trezentos mil habitantes na África, eu lamentaria, como todos nós, mas se me dissessem: “Eliminou a ilha de Zanzibar e o Sultanato”, a minha reação seria outra: “Óóóóóh!”
Por quê? Porque trezentos mil homens da África, pertencentes a vários países, esses homens, portanto, não congruentes entre si, espalhados por vários lugares, porque o terremoto — vamos dizer — foi do Atlântico até a outra ponta do Mediterrâneo, ou qualquer coisa assim. Isso não é o todo. O Sultanato é um todo com fisionomia própria, por causa disso, desaparecendo o todo, desapareceria muito mais do que simplesmente trezentos mil habitantes.
Vocês sentem isso?
(Sim)
Isso é inteiramente assim.
Bom, esta noção do todo eu encontrava muito refletida em mim, na minha paixão pela sociedade orgânica que é a família., depois o município, depois a região, depois a nação e a nação existindo dentro do mundo. Mas, a característica de cada coisa, de maneira a poder ver e enxamear de características desses todos, mostrando cada todo como era e como se encaixava no outro todo, etc., etc., isto me encantava, porque eram universinhos, encaixados em universos maiores, universos maiores ainda, etc., e constituindo depois um universo, como que, absoluto, total, que é uma nação que é fechada e que é soberana.
Bem, e eu percebia nessa atração por isso, uma coisa muito ordenada, sem a qual nem se pode imaginar formas de governo, organizações sociais, etc., bem construídas só se podem imaginar assim.
Bem, por exemplo, como eu me senti propriamente babado, muito mais do que conhecendo a mais engraçadinha das crianças, sabendo da corporação dos alfaiates de Roma que tinha como patrono o Pai Eterno. E na capela dos alfaiates tinha o desenho —no altar da capela, não é? — do Padre Eterno costurando roupas para Adão e Eva que estavam nus.
Bom, isto, uma profissãozinha pequena, mas que tinha essa audácia que nenhum rei teria, de tomar diretamente como patrono o Padre Eterno e de se reportar assim a Ele, me encanta, me parece ultra ordenado, ultra direito, tatá-tatá.
Por uma tendência de alma… Será uma tendência natural, ou será uma graça? Eu creio que sem graça não vai, por onde eu compreendo que a bipolaridade da realidade pede que eu olhe uma determinada situação, enfim que me diz respeito, dentro da qual eu estou etc., e para [a] qual até certo ponto eu sou o centro. Mas não é eu “TFP”, [e sim] eu “Plinio”, como poderia ser eu “Virgulino de Almeida”, que está passando aqui agora na rua e que eu não conheço nem ouvi dizer. É qualquer um.
Bem, mas de outro lado, pedindo com muito mais ansiedade, como conhecimento mais nobre, e que me engrandece mais o conhecimento das sucessivas, dos sucessivos todos de que eu faço parte, e do mundo de todos que se encaixam uns nos outros, etc., etc.
Bom, agora por que razão é isso? É porque exatamente a realidade voltada para Deus, no ângulo de Deus é como o universo e todos dentro. No ângulo de Plinio é vista como eu no centro, e legitimamente vista, isto não é egoísmo, é uma coisa que está direito.
Mas, daí eu deduzir que eu só fui feito para ver a minha coisa individual, ou tão preponderantemente a minha coisa individual, e que essa história dos todos e dos universos que eu estou falando, representa uma vista de um especialista, de um homem com… “Como um outro pinta, mas eu não sei pintar, um outro gosta de ver os todos e eu não sei ver, mas é uma coisa completamente facultativa”: é errado. O espírito humano bem orientado, todo ele deve tender para isso. Bom, aqui tem uma conseqüência: é que o espírito assim entra diretamente em choque com os lados negativos, para dar um pulo logo dentro do tema, os lados negativos de tudo aquilo quanto na TFP resiste à vocação.
Todas as tendências de alma que na TFP resistem à vocação são opostas a esse todo que eu estou falando, a visão de todos. Não sei se isso eu explico bem[?] E enquanto o mundo nos marcou, sobretudo pela idéia de pensar, sobretudo em si, no seu arranjo, na sua situação, na sua limitação, etc., etc., e não nesse todo.
Bem, pelo contrário, a vocação, ao despertar o “tal enquanto tal” dão sentido do todo, e chama a atenção para o todo.
Não sei se eu torno tudo isso bem claro?
(Sim)
Quer dizer, esse elemento de organicidade está contido como uma espécie de pressuposto, de elemento intrínseco do todo enquanto todo, dos universos e dos todos.
E a Revolução arrancou isso completamente das almas dos homens. Bem, e faz disso o pólo mais contrário à influência da TFP entre os seus membros e talvez da influência da TFP em torno de si.
Então, um “sabugo”, por exemplo, se torna “sabugo” porque ele hipertrofiou barbaramente o ego e se desinteressou como matéria alheia a si temperamentalmente de tudo quanto não seja o ego. Portanto, o todo, etc., para ele, são cogitações de filósofo, não fazem parte da vida dele. As necessidades afetivas da vida dele não abrangem esse todo, as necessidades admirativas da vida dele não abrangem esse todo.
Por exemplo, se eu fosse contar para um menino de meu tempo o que representaria de doloroso para mim o desaparecimento do Sultanato de Zanzibar, ele não compreenderia. Que tivesse quebrado a roda de minha bicicleta e eu não soubesse consertar, enfim, tatá, isso era uma coisa muito dolorosa, mas o Sultanato de Zanzibar? Para ele é uma coisa incompreensível que eu me interesse por isso, nem faria tema da conversa, porque estava fora da visão.
Bem, também o “tal enquanto tal” que eu… Por exemplo, fizesse um álbum, um álbum de pessoas “tal enquanto tal” daquele tempo, que eu fizesse um álbum daquilo, para eles era incompreensível, mas que eu fizesse um álbum de fotografias do meu próprio colégio, nas quais fotografias eu aparecesse freqüentemente, era a coisa mais natural do mundo. Eu acho que vários, se não tinham álbuns, tinham gavetas com montões de fotografias desordenadas, jogadas dentro; porque são eles.
O primeiro susto vendo-me fazer isso era esse ponto, era… o interessar-me por esse ponto e deslocar isso da coisa individual produzia um choque.
Bem, a posição permanentemente de resistência da “sabugada” a mim dentro da TFP é porque eu levanto temas como esses e eles não querem ouvir porque os obriga a darem o entusiasmo deles a uma coisa que não é o ego deles, não é a coisa individual, mas é uma situação de todo. Não sei se estou me exprimindo adequadamente ou não?
(Sim)
Agora, essa posição exclui também o idealismo, alguém me dirá: “A palavra é suspeita, maçônica.” Eu digo: “Eu sei. Mas, eu quero tomá-la num sentido especial: é a atitude de alma pela qual o indivíduo gosta de ver uma determinada perfeição reluzir encumbrada na culminância, glorificada, em vários todos.”
Então, o sujeito tem o ideal de que, por exemplo, a raça latina readquira o seu antigo esplendor; é uma coisa que pode-se compreender que o indivíduo tenha esse ideal; é um ideal laico pelo qual eu não daria dois caracóis; mas não é um sinal de psicopatia o sujeito ter essa idéia, não é? Mas o que é?
Meu filho você quer apagar agora isso?
É o povo latino, com o gênio latino, e ver isto reluzir e influenciar, latinizar um pouquinho todos os povos da terra é amar a alma do espírito humano enquanto um todo, de toda a humanidade, e amar uma certa perfeição do gênero humano, de maneira que queira vê-la encumbrada dessa maneira. Isso é um idealismo. E eles não compreendem esse idealismo, absolutamente, e esse idealismo é a coisa mais natural do mundo.
Donde, na nossa posição, trabalhar, entregar a vida, sair dos negócios, sair dos arranjos e entregar a vida para lutar por um ideal é o reflexo mais natural da Causa Católica. Se é um passo que nós demos com pouca ou nenhuma hesitação foi esse; o ideal foi nos atraindo, atraindo, e nós entramos.
Depois, quando vem a decadência, pode vir a hesitação, mas antes não, porque é a coisa mais natural do mundo. Eles não compreendem.
Bem, e a reaquisição desse espírito voltado para esse todo, me parece que é uma das condições para o Grand Retour e a vinda do Reino de Maria. E contunde de frente com a Revolução no seu aspecto individualista como no seu aspecto coletivista.
Vocês me dirão: “O aspecto individualista o senhor já me especificou, mas no que é que essa visão do todo contunde com o aspecto coletivista?”
O coletivismo da Revolução não é um universo feito da articulação de todos menores e distintos; isto é que é o universo. Mas ele é a liquidação de tudo isso para formar um só bloco, é a liquidação do todo que supõe variedade na unidade, a liquidação disso, a fusão na solda altogênea para fazer de tudo isso uma coisa só; isso já não é universo.
Se houvesse uma só criatura, incomparável, mas uma só, não haveria o universo. E o que, segundo São Tomás, é preciso que exista o universo. Não sei se isto está adequadamente claro?
De maneira que eu creio que esse espírito assim prepara para o Reino de Maria e prepara para os choques na Bagarre, porque creio que na Guerra dos Profetas nossa atitude obrigará os adversários a se exprimirem nesses termos, aceitarem essa polêmica e se engalfinhar. Não é só essa, mas é um dos pontos, por assim dizer, o pedestal do monumento. Está claro isto?
(Sim)
Não sei para onde devo andar daí?
Agora, que relação tem isso para o monumento?
Eu dou algumas aplicações concretas disso, para compreenderem bem essa situação. Por exemplo, como explicar que em certas regiões da Idade Média tivesse podido haver governículos tão pequenininhos como as naçõezinhas do Vale do Roncal. Cada uma, uma mini Andorra completamente diferente das outras, e todas com o rei naquela atitude federativa, ao mesmo tempo submissa, mas distinta, que eu chamaria de uma atitude articulada.
Bem, explicaria como cada um sentia muito como ele era um, dentro de uma família e que ele individualmente era um mundinho dentro de um outro mundo um pouco maior chamado família. Isso faz jorrar de dentro do homem a afirmação de todas as suas características e de todas as suas qualidades.
Bem, agora, por outro lado, como isso jorrava assim, a família era assim, o município tomava outra ótica, outra distância para os espíritos deles. Eles amavam o município tanto que constituíam patriazinhas. Bastava que os relevos geográficos justificassem um pouco de isolamento que aquilo começava reluzir como vaga-lumes que se movem no espaço como se fossem solzinhos, por si mesmos. E tem um encanto especial maior do que um vaga-lumão pesadão como não sei o quê e feito com um olhão assim grandão e zumbindo sozinho num espaço onde não há mais nada.
Bom, e por essa forma também, as guerras entre os municípios tinham um, eram carregadas de um espírito de guerras entre nações, um pouco como o caráter de uma espécie de cruzada filosófica, mais ou menos inadvertida.
Vamos dizer, por exemplo, Piacenzza entre em guerra com Piza…sei lá…— nem sei se Piza é vizinha de Piacenzza, digamos que sim — entre em guerra com Piza. A gente vai ver, a guerra é provocada por antipatias, não é só por causa de um riacho que está no limite, mas é por antipatias, e essas antipatias decorrem de que uma tem um modo de ser espelhando determinada perfeição de alma italiana e outra tem outro modo de ser que espelha outra coisa. E elas lutam porque cada uma quer que aquele modo de ser domine a região e daí uma espécie de cruzadinha para ver quem é que impõe o seu modo de ser. Queriam que eu explicasse isso melhor, ou não?
(Sr. João Clá: Na Andaluzia há quatro devoções a Nossa Senhora da Esperança e brigam entre si para imporem a devoção uns aos outros.)
Bem, mas sabe qual é a verdade? É que cada uma dessas imagens tem uma expressão de alma de Nossa Senhora que marca com um determinado modo de ser moral aqueles que a seguem e que é duma porfia que a gente compreenderia, eles são levados a proclamar saietas, etc., etc., a excelência daquilo. E, em determinado momento entra o defeito humano e dá numa guerra. Mas eu não estou aqui justificando a guerra, mas estou dando a entender qual é a mentalidade dessa guerra. E gostaria que vocês comparassem a rivalidade dessas quatro, com o que seria uma rivalidade para eleição de vereadores em Sevilha hoje em dia. Distribuição do orçamento municipal, matéria que eu acho que preferem que eu não fale.
Bem, mas é o quê? É que uma é marcada pelo ideal e outra não é marcada pelo ideal. E é outro choque que a TFP tem com o “sabugo”: que o “sabugo” não tem ideal e a TFP tem ideal. É uma coisa mais natural para a TFP lutar por um ideal e para um “sabugo” é totalmente incompreensível.
Por que eu estou marcando tanto o “sabugo” aqui? Para compreender que esse espírito é nosso adversário, e que é nosso grande adversário. Eu acrescento mais, os casos de castidade seriam muito mais fáceis de resolver se houvesse esse ideal, essa propensão ao ideal.
(Sr. João Clá: E são menos maléficos do que isso.)
Menos maléficos do que isso.
É que isso faz parte da nossa vocação, faz parte do que na “Réfutation” se chama profético. Dar a batalha nesse ponto e começar por aí. Então, eu estou querendo mostrar como na vida cotidiana tempo houve em que esse idealismo impregnava assim esse particularismo, impregnava assim a alma humana. E faziam a alma humana, dessa forma: caracterizar-se, dessa forma: expandir-se, florescer e ficar apta, caso todos fossem verdadeiramente católicos, ficar apta para um luzimento e para uma excelência da sociedade temporal que faria dela a seu modo uma realidade quase que religiosa.
(Sr. João Clá: É o “seja feita a vossa vontade assim na Terra como no Céu”.)
Exatamente.
Bem, mas vocês imaginem agora que esses dois pressupostos da formação religiosa estivessem bem postos, todo o mundo compreendesse isso e que na TFP se entendesse também isso, é ou não é verdade que não só na TFP, mas todo o mundo em torno dela começaria a brilhar com outro brilho e outra… Porque pegou bem essas coisas universais, micro-universais, ou grandemente universais. E se distanciou a ponto de causar choque à reminiscência do espírito de uma ONU, por exemplo, ou de uma federação européia, mas a ponto de causar choque, porque é uma outra coisa. Esses somos nós.
Diga, meu Gonzalo.
(Sr. Gonzalo Larrain: Mas, o nosso pecado é que nós não queremos ver isso, esse todo simbolizado na pessoa do senhor. Nós vemos em tese a pessoa do senhor e separamos do que o senhor diz.)
(…)
…depois de eu ter terminado um pouco do que eu dizia, porque faz ponte para o que eu dizia, não é?
Então vamos entrar no caso:
Assim como, por exemplo, os habitantes do Vale do Roncal, ou Piza, não me lembro que outra cidade…
(Sr. –: Piacenzza)
Piza e Piacenzza eram articuladas por essa forma, embora às vezes com desarmonias ligadas à miséria humana, mas eram articuladas por essa forma. Assim também eles viviam toda essa idéia dos todos, mas sem ter idéia filosófica, tendo essa boa ordenação pessoal.
E o indivíduo que amava Piacenzza, o indivíduo que amava Piza e o de Piacenzza sabia que o de Piza amava a Piza como ele amava a Piacenzza reciprocamente. E percebia que essa era uma mola mestra da política de todas aquelas cidadezinhas em volta.
Bem, e lhes parecia isso natural, como parece natural respirar, parece natural piscar, parece natural gesticular quando a gente fala, etc., são coisa que estão na natureza, a pessoa faz.
Bom, e assim, toda essa noção de universo se exprimia em sentimentos humanos que eu vi morrer, mas que tinha uma… Por exemplo, eu me lembro quando eu era pequeno, bem pequeno, a influência, mas “n” vezes, reunião comum, não era uma reunião para isso, conversa comum, encontravam-se mais ou menos…
[Vira a fita]
…conversar sobre qualquer assunto e pelo meio um dizia: “Eu estou achando tal, — era um menino ou era uma menina, porque não era filho deles necessariamente —, que está emagrecendo muito”, e diziam para os pais: “Vocês precisam mandar para a fazenda, para tal lugar quando chegar às férias, etc.”
Um outro tio [ou] tia dizia, mas com interesse:
— Não, eu acho que não, é melhor ir para Santos, porque tátátátá…
— Homem, e para falar no jeito dele, é preciso dizer que o jeito dele está assim; manda corrigir.
Era uma espécie de senadinho, onde a geração nova que vinha, todos juntos, tinham interesse, empenho, amizade, [de se] informar de acordo com o conceito que todos admitiam.
Bom, outra coisa, eu ouvia falar, ouvia muitas críticas de políticos que colocavam parentelas indefinidamente em cargos políticos. Mas eu percebia bem que entrava uma espécie de proteção pela parentela inteira, e não apenas pai, mãe e filhos. E que essa família nuclear, pai, mãe e filhos, que é o fruto da sociedade, da Revolução-Industrial, — a parentela é um prolongamento da tribo dentro da cidade, do clã dentro da cidade — também deu lugar a muitos exageros, mas de si era um movimento sadio, do qual esse senso de universais de algum modo se refletia.
Bem, depois eu vi isso desconjuntar e ficarem alheios a si e passarem a ter relações sociais com pessoas de outras famílias. Quer dizer, não brigavam e nem deixavam de se ver, mas era diferente, aquela nota “o parente” não existia mais.
Por exemplo, quando eu era pequeno, habitualmente, um primo apresentado a um amigo, um primo de si mesmo diria necessariamente “meu primo fulano de tal.” Porque é uma tal nota que é o meu primo, ou que é meu irmão. Bem, hoje eu compreenderia um irmão que apresentasse um outro a terceiro e diria “é fulano de tal”, sem sequer mencionar que é irmão. Quer dizer, não sei se notam essas articulações que vão sumindo, não é verdade?
Bem, e tudo o que eu falei de alto, de mais… há pouco, de um modo vivo, mais ou menos todos sentiam. Então, o patriotismo, depois o bairrismo…
Por exemplo, uma coisa que se brinca muito com Minas, mas que em Minas — infelizmente já não é verdade — não permite que um não-mineiro seja governador-presidente de Minas. Até o Olegário Maciel foi verdade, quando entrou esse Abi Ackel foi o começo da degringolada, nunca deveria ter admitido esse sujeito para presidente de Minas.
Mas brincam muito, brincam, não sei se notam, todo o mundo achando que é pitoresco, interessante, e que deveria ser assim. Mas por quê? É o ver que amando Minas dentro do Brasil não desamam ao Brasil, nem é nenhuma tendência para a separação, mas é uma tendência para ser ele próprio.
Então essas coisas muito altas existiam e se inalavam na vida de todos os dias, no modo de entender as coisas, no modo de fazer, de tal maneira que o próprio material influenciava a vida da pessoa como os panoramas influenciam a vida das populações e as psicologias das populações.
De tal maneira que, por exemplo, vender uma casa onde se morava uma família, para ir morar num lugar melhor, era considerado uma espécie de non sense; a família viveu ali a vida inteira; não tinha sentido. Eu peguei a morte disso e comprarem casas que iam vender em Campos Elíseos, comprar aqui, vender aqui, comprar no Jardim América, depois passar para o Morumbi, e passarem não sei para que outro lugar se o desastre econômico não tivesse cortado essa… E naturalmente, quase sempre, como aqui no bairro, por exemplo…
(…)
…essas articulações das quais o indivíduo entra inteiramente vazio, não tem essas articulações. O mundo descasca isto.
Eu vou concluir, Gonzalo, e depois eu falo o que você diz, porque eu tinha muito empenho em chegar nesse ponto.
A nota em São Luís Maria Grignion de Montfort, é curioso que ele não fala tão expressamente quanto eu estou dizendo, mas é freqüente ele apresentar a Nossa Senhora como um todo, mas é muito freqüente.
Engraçado que ele até meio balbucia isso, mais do que dizer assim como eu estou dizendo, ele balbucia. Mas, Nossa Senhora é o paraíso de Deus, Nossa Senhora, você examinado bem, a mera criação tem diante de si algo que é o todo para o qual Ela está voltada, em função do qual Ela se articula, etc., etc., na ordem temporal como na ordem espiritual, que é Nossa Senhora.
Seria o caso, hoje é um pouco tarde, não creio que dê tempo, mas se um de vocês quiser percorrer as coisas de São Luís Grignion, ele apresenta sempre, ele fala, por exemplo, que Nossa Senhora é “cheia de graça”, “todas as graças estão dentro d’Ela”, “Ela é um universo da graça”. E aquele, aquele outro propósito, “Ela é o receptáculo das maravilhas de Deus”, Ela não sei mais o quê… vira e mexe.
(Sr. Gonzalo Larrain: “Deus juntou todas as águas e chamou mar, juntou todas as graças e chamou Maria.”)
Chamou Maria. Mas, você está vendo que existe uma tendência d’Ele a fazer sentir que Nossa Senhora é um todo tal que não se compreende, ainda não se teve bem a compreensão de tudo quanto Ela é. E que é a partir dessa compreensão, d’Ela como um todo, e que as próprias perfeições divinas enquanto n’Ela se refletem; Ela é um todo dos reflexos das perfeições divinas, Ela é, portanto, um universo, Ela é uma síntese do universo. E que foi desta síntese do universo, nessa síntese que o Espírito Santo quis tornar fecundo e fazer nascer alguma coisa que a seu modo é um todo desconcertante, que é o Verbo Encarnado, que é um todo que contém criatura e criador. Eu sei que está muito tarde, mas não sei se…
Eu acho que isso tem consonância com coisas que vocês já leram em São Luís Grignion. O João está lendo, o Gonzalo leu recentemente. Eu vejo estarem o tempo inteiro aquecendo, eu vejo que vocês lembram-se de coisa de São Luís Grignion como eu me lembro. Eu estou citando fiapos do [que] eu me lembro.
Mas isto, vocês notem que é sempre assim, vai indo, vai indo, vai indo, ele constrói um todo, esse todo [é] Maria.
(Sr. Gonzalo Larrain: “Hortus conclusos.”)
“Hortus conclusos”, mas que é um jardim no qual está contido tudo que… não é? está fechado, é um todo, mas que todo é? Ele é uma síntese, não é qualquer jardim, é uma síntese. E creio que…
(Sr. João Clá: Há um trecho em que ele diz que a todo instante o universo dá glória a Maria.)
Você veja isso. Não, e para dar glória a Deus. O que é que tem de metafísico dentro disso? É que todo o universo reflete Maria, e refletindo Maria reflete a Deus porque Ela é o que foi criado de mais semelhante com Deus, como mera criatura individual.
Bom, eu volto a dizer, criatura assim, criador, por um certo lado formariam, seriam suscetíveis de formar um todo e Deus amoroso dos todos, porque Ele é tudo, Verbo que se fez carne e habitou entre nós.
Quer dizer, dá uma visão da religião, visão altíssima. Eu sei bem que se eu for comentar isso no Auditório São Miguel isso tem… Não é que vão fazer objeções teológicas, não é isso, mas vão fazer dormir, se desinteressar, isto é o mundo da lua, etc., etc., mas aqui pode-se conversar.
Acho até, desconfio, que seja uma coisa tão segura que a gente mostrando isso, por exemplo, ao Pe. Victorino, ele dirá: “Não, mas isso é muito sabido, é muito comum, tem em fulano de tal tem tal aspecto disso, em cicrano tem tal outro.” É verdade meu caro, mas eu queria saber se o todo do que foi dito está lá. Primeiro, de tudo não tratam desse assunto.
Então, amar a Deus sobre todas as coisas é amá-Lo dentro dessa vista, que uma vez que Ele criou e que nós fazemos parte dessa criação, é essa vista universal da atual criação, com todas as ordens como refletem a Ele, para Ele ser amado por mim assim.
Bem, mas então como é Ele? Ele interiormente é todo articulado assim? Não, exatamente, essa articulação toda dá um certo sabor à alma que a transcende, que transcende a própria articulação, e aí o mistério de Deus, e também aí está o mistério de Maria.
(Sr. Gonzalo Larrain: Mas, não é o Segredo de Maria?)
Eu acho que o Segredo de Maria se encaixa nisso, tenho confiança.
E aí também a gente compreende o papel da misericórdia.
Vocês vejam como a misericórdia salva a coesão do todo, e da rejeição de inúmeras partes por indignidade. E a... [faltam palavras] ...abrange nesse todo uma quantidade incontável de partes que se desgarrariam se não fosse a misericórdia. E no que é que a misericórdia faz parte desse todo. Tudo isso são coisas…
Bem, e tudo isso em Deus tem uma realidade transcendente que a gente não sabe dizer qual é, mas que é um… ali a nossa alma tem repouso, admirativo, etc., etc., aqueles ícones orientais exprimem essas posição. Como quem está exclamando, degustando e aberto para receber mais.
Agora, eu responderia a sua pergunta…
(…)
Você toma uma ordem temporal vista como esta miríade de todos que se articulam. A própria evidência da dignidade de cada um dos elementos desse todo faz com que a distância que vai entre o elemento de base e o elemento de cúpula de articulação seja uma distância imensa. Donde resulta que só mesmo se pode considerar o elemento de cúpula como um elemento altíssimo ao qual todo respeito e toda veneração deve ser dada como um ponto terminal de um todo que é a ordem temporal…
(…)
…é a figura que sorri, é um encanto, mas é um pouco um brinquedinho.
Bom, e quase não se compreenderia, sem um aviltamento indigno de Deus que quem estivesse de tal maneira parecido com Ele — entenda bem o que é parecido com Deus — no alto de uma tão egrégia hierarquia de coisas todas muito dignas, não tivessem uma condição soberana. E o choque que a negação disso dá é o negar de cara, esses todos, a harmonia e a dignidade intrínseca desses todos e, portanto, a igualdade.
Dá uma idéia quase de sacrilégio e de blasfêmia que se compreende. Agora se é verdade que esse pressuposto marca com uma particular clareza sentimentos veneráveis, instituições magníficas que a Cristandade sempre teve e que brilharam nela magnificamente — vamos dizer, por exemplo, a universidade distinta em faculdades, as faculdades distintas em línguas, e daí para fora, etc., etc. —, se é verdade que isso se marca mais do que nunca e que foi a negação desse pressuposto que levou [aonde] nós vimos, lutando pelo pressuposto você está lutando por tudo quanto o pressuposto suporta na mão. E de fato não é uma luta pelo pressuposto, é uma luta pelo todo.
Você imagine uma mão que carrega um muro de jóias. Você lutando para a mão não ser decepada, você luta pelas jóias.
(Sr. Gonzalo Larrain: Dá a impressão que a vocação da TFP está na linha de trazer de novo.)
É isso, rearticular.
É uma definição da Contra-Revolução…
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