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Conversa de Sábado à Noite — 23/8/1986 — [VF 004] Sábado (Neimar Demétrio)

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seria uma conversa realmente apertante, de um homem que está apertando o seu interlocutor, mas considerada perfeitamente amável, que não deixaria o interlocutor suscetibilizado nem melindrado. Eu tenho impressão que na geração de vocês conduzir um aperto assim é melindrar o interlocutor por mais amável que seja. Isto é assim?

(Sr. Mário Navarro: Acho que sim… e nós não temos ocasião de ver o senhor dar esses apertos em ninguém, porque dentro do Grupo o senhor não pode dar, e fora o senhor não tem oportunidade.)

É, mas quando eu às vezes trato com eles em artigos, livros, eu aperto bem.

(Sr. Mário Navarro: Mas ontem o que chamou atenção foi o senhor fazê-lo pessoalmente.)

Você ouviu a conversa?

(Sr. Nelson Fragelli: Não, mas imagina.)

Você imagina, mas você imagina que eu tenha sido perfeitamente cortês.

(Sr. Nelson Fragelli: Ah, isso não há dúvida.)

(Sr. Mário Navarro: Extremamente cortês, amável e até um pouco paternal.)

É, até isso.

(Sr. João Clá: Mesmo no De Mattei o senhor deu uns apertozinhos.)

Mesmo no De Mattei.

(Sr. Mário Navarro: Aquela metáfora do Cantoni, de que Paulo VI nadava na lama com a cabeça para dentro, e João Paulo II nada na lama…)

Uma metáfora muito baixa de nível. Eu reputo a metáfora da Rainha destronada mais…

(Sr. Mário Navarro: Claro, eu digo que como esta metáfora está para o senhor, eles têm esta da lama para eles. E o mais interessante foi ver o senhor desmontar a metáfora dele.)

Eu acompanho bem a evolução das coisas. A questão é a seguinte. É que na minha geração se considerava, e isto eu acho que vocês não tomam em consideração por causa de outra coisa; aliás, nem sei se querem tratar disso…

(Sr. Gonzalo Larrain: O senhor faça como o senhor quiser. Nós temos outros assuntos, mas…)

[No microfilme termina este parágrafo com “,” depois de “dizer”, parece estar faltando palavras. (Neimar Demétrio) ]

Eu resumo muito, em ar de quem pergunta se eu apanho bem. Na minha geração se entendia o seguinte: que quando o homem usa intencionalmente em relação a um outro uma linguagem muito cortês, e muito elevada, etc., etc., ele está manifestando em relação a esse homem a intenção de ser para com ele muito benévolo e muito afável. E por causa disso esta intenção continuamente expressa deve pesar na balança significando o seguinte:

Veja que eu tenho pena de ter que dar para você pílulas tão amargas, e por causa disso eu preparei a melhor embalagem que eu sei fazer. E nisto toma em consideração, apesar do meu dever que eu estou cumprindo, toda minha intenção benévola em relação a você”. Isto queria dizer,

E eu tenho impressão que isto não se toma em consideração na geração de vocês, mas pela idéia de que todas essas formas de cortesia não são, não revelam uma intenção amistosa.

(Sr. Gonzalo Larrain: São meio desleais.)

São meio desleais e mais ainda, já são um modo meio bruto de cerrar de cima, como quem diz: “Veja como eu sou cortês e você não sabe ser. E, portanto, já entenda daí que você discute comigo num plano inferior”.

Bem, e não é esse o significado da cortesia. O significado da cortesia é uma efusão de boa intenção, de amabilidade.

(Sr. Mário Navarro: É a caridade…)

cristã é esta. Quer dizer, eu não posso me dispensar, uma vez que ele me dá um argumento que eu só tenho um outro modo de refutar, utilizando a sua própria metáfora e transformando-a, eu não tenho outro remédio senão fazer isto, porque estou fazendo uma coisa séria.

Eu não posso, por exemplo, criar um automóvel imprudente por gentileza pela pessoa que vai lá dentro! Não é?

Agora, aqui, por exemplo, empregando essa metáfora eu tive a intenção de ser gentil. Mas eu tenho a impressão que o interlocutor de hoje acha o seguinte: se ele não sabe inventar na hora uma metáfora melhor ainda, que eu quis dizer para ele: olha aqui, pam! E agora, vou adiante!

Bem, mas não há uns traços de igualitarismo nesse… [faltam palavras] … é a Revolução. Então não seria o caso de fazermos um apostolado para fazer compreender no Grupo isto? Quer dizer, eu vejo na velha cortesia de outrora, uma manifestação contínua de afeto católico. Agora, tenho a impressão que as pessoas não sentem isso assim.

(Sr. Gonzalo Larrain: É tal qual. E o Grupo nesse sentido é de uma pobreza tremenda.)

Porque quer, não é?…

(…)

(Sr. Nelson Fragelli: A cortesia oprime.)

Isso. Bom, e aqui você toca mais fundo na questão. É que se acrescenta a isto que eu disse um elemento ecumênico. Quer dizer, o homem que sente o outro dizer: “Eu estou em relação a você — eu o estimo, considero, etc. — mas estou em relação a você num desacordo irremediável”, este homem se sente agredido. Porque no fundo é preciso dar a idéia de que apesar de tudo, não há desacordo. É a cidade de sofonias que entra aí.

(Sr. Nelson Fragelli: A cortesia é monárquica…)

É isso.

(Sr. Mário Navarro: Anti-gnóstica.)

É anti-gnóstica. Ela conserva alteridade.

(Sr. Gonzalo Larrain: A cortesia do senhor tem alma, esse é o negócio. Um qualquer que diga meu filho, meu irmão, ninguém vai na onda…)

Meu irmão” está desprestigiado a conta inteira, a ponto que não se usa mais!

(Sr. Gonzalo Larrain: Tem muitos que fingem uma cortesia que não convence.)

Mas aqui, meu filho, entra muito do igualitarismo mais uma vez. Porque no sistema bem antigo, tradicional, mas que ainda alcancei, quando duas pessoas estão se tratando, os graus de cortesia variam, etc., mas depois, se, por exemplo, uma pessoa se colocou numa posição de deixar-se tratar de menos do que compete a ela ser tratada, aquilo vai refletir negativamente em todo trato que ela vai ter durante anos com a mesma pessoa, uma vez que ela deixe passar.

E, por outro lado, uma vez que ela eleve o outro com um ato de afabilidade, aquilo vai refletir-se anos no trato também. E uma vez posto esse reflexo, quando a gente tem uma atitude de cortesia, a gente dá alguma coisa que tem valor objetivo, porque vai passar depois no trato entre os dois sempre.

(Sr. Gonzalo Larrain: Quando a coisa é feita com alma, sinceridade.)

Não, não, mas também tem recíproca. É que como isto é assim, a pessoa só dá sinceramente, porque do contrário quando não é feito com alma não quer dar.

(Sr. Gonzalo Larrain: Mas existe a caricatura de cortesia.)

Não, essa cortesia assim caricata toma em consideração — e é o grande defeito — toma em consideração…

(…)

e que para todas as pessoas, as coisas têm o mesmo matiz e mesmo efeito. E quando não tem, ela é mecânica, nunca é improvisada na hora, a aplicação mecânica de uma fórmula.

Bem, e a verdadeira cortesia antiga é improvisada a todo momento, de acordo com as circunstâncias, etc., que variam a todo momento, segundo todas as circunstâncias. De maneira que quando se dá uma cortesia, dá-se de fato algo. E houve um pagamento em ouro e não em papel-moeda.

(Sr. Guerreiro Dantas: E que nasce das virtudes católicas. Porque senão a pessoa não tem condições de ser habitualmente assim.)

É, mas, por exemplo, no fundo por causa de um subconsciente igualitário. Um subconsciente não igualitário sabe ver na pessoa, no momento, o que é que merece de consideração, etc., improvisar continuamente. A improvisação contínua da cortesia é propriamente o sabor dela, não é? Contínua. E eu conheci um exemplo assim: improvisação contínua de formas de afeto, expressões, etc., que nunca se repetiam. Tomava em consideração as menores circunstâncias para tratar bem, para… enfim, a cada um, de acordo com aquela medida. Isto é bonito.

Agora, vale a pena continuarmos nisso?

(Vale, claro.)

(Sr. Nelson Fragelli: Porque essa cortesia que o senhor descreveu assim é congruente, afim com o modo de ser da nobreza?)

Precisamente ela não é peculiar à nobreza. Como ela é maleável, ela se acomoda à condição de nobre, como à condição de burguês e até de plebeu. Exatamente aqui está a questão. Há um estilo de cortesia congruente com a condição de nobre e que não é congruente com a condição de burguês, isso é verdade. Mas a cortesia é de todos.

Então, você toma, por exemplo, naquele “Gens da la vieille France” de Lenotre. Você encontra a douceur de vivre. Bom, aquilo é uma linfa que corre sobre todo corpo social, nas relações também entre burgueses, e até entre plebeus. Ele conta o caso, dois casos que se emaranham, dois carros que se emaranham, carros puxados a cavalo. Diz ele: “Em outros países isso daria em blasfêmias e palavras porcas, obscenas. Ali não. Os dois cocheiros descem, se cumprimentam, tiram o chapéu e dizem: Monsieur, nós estamos os dois numa situação complicada hein? Como é que vamos nos arranjar?

O outro: Monsieur vamos ver aqui, etc… confabulam, e resolvem desentranhar de tal jeito. Na hora de sair, tiram o chapéu de novo e vão… é a doceur de vivre católica! Mas de homens que oficialmente, pela libré que estão vestindo, são homens de trabalho manual.

(Sr. Nelson Fragelli: Eu pergunto se a cortesia não exige uma qualidade de alma própria, sobretudo ao nobre. E qual é?)

Aí sim, aí você tem razão. É que o nobre se espera o conhecimento teórico por co-naturalidade do que são as superioridades da maneira de transcendência. O nobre se sente transcendente em relação ao plebeu, e compreende o que isso tem de elevado, e que dom de Deus é isso para ele. E por causa disso ele trata o plebeu como ser que existe, e congênere com ele, quer dizer, do mesmo gênero humano, mas que está separado por matizações que são matizações que imitam a transcendência. E ele deve então atrair a atenção do plebeu para isso, e merecer essa atenção pela admiração que ele desperta.

Você falou da etimologia da palavra cortesia. Cortesia é própria à corte, não é exclusiva do cortesão. Quer dizer, os empregados que trabalham, lacaios, etc., etc., que trabalham na corte, para a corte, devem ser excelentes na cortesia de seu ofício. É muito mais o ambiente de toda a corte, do que privilégio exclusivo do cortesão.

(Sr. Nelson Fragelli: Agora, que exige da pessoa verdadeiramente cortês uma penetração na alma do outro, e uma dedicação quase que apostólica.)

É, isto é verdade. E exige levada ao incrível da parte de um soberano.

(Sr. Nelson Fragelli: Quando o senhor falava hoje na Reunião de Recortes de que teríamos que seguir aquela questão toda do Vaticano “reverente atenção”, eu senti a alfinetada do igualitarismo aí.)

Haha, eu posso imaginar que qualquer um sentisse.

(Sr. Nelson Fragelli: O senhor dizendo, há algo que no espírito da Revolução se sente cutucado.)

E que talvez se exprimisse assim: esta atenção, que é uma interrogação, prejulga algo se ela é reverente antes de vir a resposta. Estabelece a priori um privilégio a favor do outro lado, que humilha a quem pressupõe. Não é? Está muito bem.

(Sr. João Clá: Sr. Poli estava querendo que o senhor tratasse…)

Hêêê…Poli, hein? Hahaha…

(Sr. João Clá: Sim, ele me passou um bilhete aqui… se o senhor não poderia tratar da cortesia para o senhor desde pequeno; como o senhor a foi cultivando ao longo dos anos, como a Sra. Da. Lucilia usava da cortesia; lances da vida do senhor em que a cortesia teve papel importante, etc.)

(Sr. Nelson Fragelli: Eu gostaria ainda de perguntar uma coisinha: a cortesia do senhor agride só os revolucionários?)

Se ela agride? Não que ela é feita com a intenção de agredir. Se ela agride?

(Sim)

Eu acho que sim, só o revolucionário, porque o outro não pode agredir. Mais ainda. Ela deixa indiferente um mundo de pessoas, que toma em consideração o seguinte: “Bom, isso são coisas que ele quer fazer, faça. Mas não valem nada, porque tudo isso é insincero”. Como dizia há pouco o Gonzalo.

(Sr. Nelson Fragelli: Mas isso é pior do que os que se sentem agredidos, não?)

Sim e não. O fato é que a cortesia, enfim, conquista muito pouca gente. Mas ela evita uma irritação muito maior que haveria, se a gente fosse igualmente anti-relativista e não usasse essa cortesia. Quer que eu me exprima melhor, ou está claro?

(Sr. Nelson Fragelli: Está muito claro, gostaria que o senhor desenvolvesse apenas.)

Você tome “X” pessoa. Vamos dizer, uma pessoa que me é desagradável relembrar…

(…)

falássemos sobre os temas candentes, não podia deixar de ser, porque ele, entre ele e eu conversa não é possível, nem conversa cortês. Ou tratamos dos temas candentes ou não falamos.

Bem, se eu tratasse dos temas candentes com toda cortesia, ele [se] sentiria ainda mais irritado. Por quê? Porque ele diria: “Isto aqui é uma coisa que, de um lado, eu sinto estas facilidades que ele tem, e ele está fazendo de jogral com essas facilidades, para me dar a entender que eu não tenho. Isso é injusto, porque eu sou muito mais inteligente do que ele, sou muito mais isso, mais aquilo, tátá, no fundo eu sou eu! E ele é ele…”. Vai por aí.

Agora, entretanto, se eu falasse com ele sem esta cortesia, mas com maneiras rudes de hoje e sustentando a mesma posição, ele ficaria ainda mais irritado. De maneira que esta cortesia não é inútil, ela tem alguma utilidade. Mas a grande utilidade é a seguinte: é que na hora da graça aquelas cortesias tomam vida no espírito dele. E isto é um depósito feito na hora da graça, para caso Nossa Senhora queira dar àquela alma uma graça especial, ele aí cai em si.

São como as carícias inúteis do pai para o filho pródigo, do pai do filho pródigo para o filho que ia embora.

(Sr. João Clá: São João Bosco diz isto taxativamente.)

Como ele diz isto?

(Sr. João Clá: Todo o que ia ser posto para fora do colégio, precisa ser tratado com muita suavidade. Porque é possível que até a hora da morte ele receba uma graça, e aquele trato seja decisivo para a salvação da alma dele.)

É isso sim. É a razão pela qual, por exemplo, a um ex-membro do Grupo que não tenha saído brigado — porque estas coisas têm um certo limite — mas um ex-membro do Grupo que não tenha saído brigado, a esse ex-membro do Grupo eu trato muito amavelmente. E se um vem se despedir de mim — por exemplo, coisa trágica para mim, não para ele, em que o Fábio veio se despedir de mim, porque saiu do Grupo — eu até o último momento tratei muito bem.

Resultado, quando ele voltou golpeado pela realidade, ele não sentiu nem necessidade de pedir desculpa para ser readmitido nem nada, tanto ele sentiu que eu era o mesmo. Quer dizer, na alma endurecida dele, esse trato amável fez com que ele voltasse naturalmente. É bom.

(Sr. Gonzalo Larrain: E dentro do Grupo, quando a cortesia começa a decair entre nós, alguém pensa que é porque se conhecem há muito tempo, etc. E não é isso.)

Não. Começam a se tratar como se tratam os de fora. Não é isso…

(…)

bem, Coronel, você está com a palavra.

(Sr. Poli: A cortesia na vida do senhor – Sra. Da. Lucilia e a cortesia.)

Quer dizer, em concreto, comigo, foi o seguinte. Eu tinha, pela tendência a ver as coisas pelo seu lado mais maravilhoso, que é ligado à inocência, eu tinha tendência a acreditar que todo mundo — antes da entrada no Colégio São Luiz, nesse ponto a entrada no Colégio São Luiz marcou exatamente uma modificação — eu tinha a tendência, a propensão a acreditar que todo mundo era muito bom, muito direito, etc., e que… eu não me tinha posto nesta ilusão, eu nem me tinha posto o problema se os outros eram tal enquanto tal, ou porque não eram, ou porque que é que eram, eu via confusamente uma nevoa dourada ou prateada como você queira imaginar, eu via confusamente se moverem às pessoas em torno de mim.

E eram pessoas, muitas vezes, muito mais velhas do que eu, e numa época em que o porte, o modo de ser, etc., davam uma impressão muito favorável. E que, portanto, elevavam muito as pessoas. E eu supunha que eram todos congêneres de mamãe. Mamãe era a mostra, todos eram parentes dela, e ela era uma mostra daquele conjunto. E uma mostra que para mim era exquise, eu tomava em consideração que os outros eram variantes dessa coisa exquise. Era uma construção instintiva de criança, mas dentro da inexperiência, muita lógica. Agora, por outro lado, dotado de um gênio muito calmo, e muito pouco irritável, as pequenas diferenças não me tocavam. E contanto que eu sentisse nessas pessoas essa bondade, essas coisas assim, eu me dava muito. Quer dizer, eu queria muito bem, era muito amigo de todos, era capaz de sacrifícios por qualquer um, etc., etc.

Naturalmente, às vezes varava isso alguma coisa que no futuro haveria de se manifestar. Podia se manifestar para o bem quanto para o mal. Eu acho que já contei para vocês a história de um tio a quem fiz ameaças… contei isso?

(Não)

Em duas palavras, estávamos num hotel no Rio de Janeiro. Mas um hotel de 1914, portanto, antiquado para hoje a mais não poder. Era um hotel no Leblon. E o central do hotel era assim uma clarabóia, e todos os quartos dentro davam para um corredor que dava para um parapeito, e depois embaixo tinha a sala de jantar, com os hospedes comendo. E a filha desse meu tio e eu estávamos lá fazendo algazarra no corredor em cima. E não encontramos nada de melhor para chamar atenção sobre nós dos que estavam comendo — porque a coisa é, a criança quer que prestem atenção nela — pegar peças de roupa lavada que estavam lá, mas enfim roupa, inclusive roupa íntima, e jogar pelo parapeito sobre as pessoas que estavam almoçando…

Você está… compreende que não tardou que viessem reclamações. E meu tio provavelmente estava embaixo almoçando com a mulher, qualquer coisa, e viu, não é? e subiu veloz para acabar o negócio. E passou um pito nos dois. Eu tinha quatro anos, e talvez um pouquinho menos, quatro anos recém feitos. E ele começou a passar pito na minha prima e não em mim, que era a filha dele. Mas era para eu ouvir, e tomar de ricochete. Mamãe estava doente e papai estava ausente, ele era responsável por mim. Ele foi ainda até muito amável, passando pito nela e não em mim. Mas eu me senti atingido.

Em certo momento o pito foi, eu achei que estava passando da conta, e disse: “Olha eu já estou ficando bravo hein?”

Mas era tão primitivo que eu não sabia dizer bravo, eu dizia “bavo”. Eu já estou ficando bavo! E fui andando em direção a ele, olhe o senhor tome cuidado porque estou ficando bavo! E ele que era muito brincalhão, muito folgazão, caiu na gargalhada, a ponto que se deitou na cama! E a mulher dele: “Nestor, levanta da cama, o que é isso?” e ele ria, desatado… e eu: E, estou bavo mesmo! Aí, minha tia permitiu o que ela, era irmã de mamãe, mais cogente do que ele, “Plinio, fique quieto”, etc., etc. Eu pensei: Essa megera, eu ainda vou… [faltam palavras] …um dia! Mas agora não é possível, eu não tenho meios. E a coisa se tranqüilizou.

É uma coisa que eu deveria dizer ao longo de minha vida muitas vezes: Eu estou ficando bravo. Mas dito com muita calma, sem nenhum pingo… eu me lembro de eu pensar assim: “É pena que eu não estou ficando furioso. Porque eles percebem e não ficam com medo. Se eu ficasse furioso ele tinha medo”.

Você está vendo a calma do temperamento não é? E por isso muito fácil em querer bem as pessoas, etc., e, portanto, uma tendência muito cortês. As regras de trato que eu via as pessoas observarem entre si, e as regras de cortesia que me ensinavam, eu aprendia com desejo, com boa vontade, e aplicando naturalmente.

E acontece que a família de mamãe era muito cerimoniosa, mas muito. Eles, entre si, podiam ter desentendimentos, podiam ter coisas, mas a cerimônia e o trato eram sempre perfeitos, e impregnados de uma certa seriedade. Eu achava que o mundo inteiro era assim. Isso era assim, entende?

E em razão desse fato formou-se em mim uma conaturalidade entre a cortesia, o afeto, e no fundo essa boa vontade um pouco mitificante, que levava a isso, que é o apelo da inocência. A coisa ficou puxada é quando eu comecei a perceber que os meninos da minha idade, que não fossem de minha família, não observavam as regras da cortesia, se tratavam com brutalidade, e que quanto maior a brutalidade, maior a admiração, e que o mundo estava todo voltado do outro lado. Aí começou a nascer a formação da combatividade. Aí é uma outra questão. Mas enfim, a origem da cortesia é esta.

Não sei se está bem explicado, meu coronel?

(Sr. Poli: Muito claro.)

(Sr. João Clá: À medida que o senhor falava, nós víamos claro que o único modelo de cortesia que tivemos na vida é o senhor.)

É, eu sou portador, provavelmente de velhos padrões. E esses velhos padrões merecem atrair, realmente, mas eu acho que a minha cortesia atrai quando a pessoa está sendo fiel ao thau. O Gonzalo dizia isto há pouco com razão: quando começa a “sabugar” no thau, a cortesia começa a parecer insípida. Aliás, já houve quem me dissesse isso no Grupo.

(Sr. Gonzalo Larrain: Evidente, porque o trato entre nós é igualitário, etc.)

Começa derrapando assim, hein?! Com pequenos cutucões dentro de um certo… quando o sujeito está indo bem no thau, ele começa a decair com pequenos cutucões que na aparência são inocentes. Sem tomar em consideração que um trato de vez em quando um pouco picante, uma pessoa dotada de qualidades para isso, pode ter desde que saiba medir, mas entre gente que nunca foi contra-revolucionária. Porque se é com um que foi contra-revolucionário, ele derrapa imediatamente para o trato moderno. Vai assim, pum-pum.

Quer dizer, em princípio eu não sou contrário a um trato [um] pouco picante. Esse picante assim faz parte do que o francês chama badinage. O badinage francês, que eu reputo um vocábulo delicioso…

(Sr. Gonzalo Larrain: Picante em alguém que seja revolucionário não cabe.)

Não cabe. Mas entre pessoas, em tese, alguém que tenha um certo sal, um certo modo de dizer as coisas, etc., pode fazer. Eu não tenho esse sal, mas alguém poderia fazer, seria muito interessante. Mas perigoso em nossos dias, porque derrapa facilmente para nem sei quantas coisas. Em português há uma palavra muito arcaica, eu não sei se tem equivalente em castelhano, galhofa…

[Vira a fita]

ela é muito adequada para a coisa (a palavra galhofa). E, sobretudo que o homem que faz galhofa, que ele é galhofeiro, não é? Diz uma porção de coisas, a la lusa não é? palavra mais lusitana do que brasileira, não é? Mas se aplica entre nós, não é? Não é moderna, é um pouco arcaica, mas todo mundo entende o que quer dizer. Bem, cai na galhofa imediatamente.

(Sr. Gonzalo Larrain: Galhofa é vulgaridade, coisa assim?)

Não, galhofa é badinage de tamanco.

(Sr. Gonzalo Larrain: … [faltam palavras] … , em espanhol.)

Vai por aí, mas não tem o eco do tamanco no chão que tem a coisa portuguesa. … [faltam palavras] … é mais elevado um pouco do que galhofa. Galhofa é mesmo do tamanco de madeira no chão. Mas veja, a galhofa não é necessariamente imoral…

(Sr. Gonzalo Larrain: Pode-se dizer que uma pessoa é galhofeira pessoalmente?)

Conforme a coisa pode-se dizer sim.

(Sr. João Clá: Há cortesia e cortesia. O trato que o senhor tem conosco, é quase uma política divina, com “d” minúsculo, mas é. É como Nosso Senhor nos trataria se estivesse entre nós. O trato d’Ele com os apóstolos tem que ter sido assim.)

Eu não quero dizer o seguinte, que antes de Nosso Senhor Jesus Cristo não havia nenhuma forma de cortesia. Mas eu quero dizer uma outra coisa. Eram formas tão, ainda quando fosse uma cortesia faustosa, eram formas tão inferiores e tão mal compreendidas da verdadeira cortesia, que a gente poderia dizer que a cortesia nasceu com Ele, e emana historicamente da Pessoa d’Ele.

Quer dizer, o modelo arquiperfeito da cortesia é Ele. D’Ele emanava um certo amor que pedia uma reciprocidade. E essa reciprocidade constituía a trato cortês. Ele amando daquele jeito as pessoas, Ele as elevava a um nível moral onde elas soubessem tratar naquele gênero. E, portanto, Ele dava ao indivíduo o dom de respondê-lo como Ele o tinha tratado; vinha d’Ele, é o efeito da graça.

Eu tenho impressão de que levou muitos séculos para que isso que fosse virtude penetrasse de tal maneira os costumes e passasse a ser também cortesia. Quer dizer, vamos dizer, por exemplo, os primeiros católicos nas catacumbas, ainda tinham muito entre si de formas de cortesia, portanto, sub-cortesia, romana, aquelas saudações romanas: “Ave”, “Vale”, eram menos matizadas, muito menos ricas em sentimento, muito mais formais, quase jurídicas, etc., não tinham o calor da cortesia quando o amor de Nosso Senhor Jesus Cristo começou a impregnar, gradualmente, também os costumes. Aí nasceu a cortesia perfeita.

Mas esse amor d’Ele foi um hábito social que se transmitiu de geração em geração, pela educação, pela participação na mesma fé, pela participação no amor d’Ele, etc., e só começou a decair — isto esteve em ascensão continua até a Idade Média — e só começou a decair quando começou a Revolução. Mas decaiu lentamente, como uma folha morta. De maneira que ficou um substractum de amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, e, portanto, de cortesia à maneira cristã nos homens, até quando eles já eram ateus ainda ficou esse substractum. E esse substractum era, como dizia São Pio X, o perfume da flor que fica no vaso, ainda que a flor tenha morrido.

Bem, então, a cortesia cristã sobreviveu algum tempo — como quando o sol às vezes se põe e ainda fica luz no horizonte — sobreviveu por algum tempo, a própria virtude da caridade cristã do amor de Deus sobreviveu. E em certo momento acabou se dissipando. E quando as pessoas perderam esse último tom, aí começou a nascer o trato revolucionário. Aí não falemos mais nada. Mas então eu quero dizer que de tal maneira é um fruto da religião essa cortesia, que ela o é de todos os lados. E que só ela que merece plenamente o nome de cortesia, e que quando ela decai, a religião decai, e quando a religião desaparece, a cortesia demora um pouco, mas acaba desaparecendo também. Esta é a realidade sobre a coisa.

(Sr. Guerreiro Dantas: Esta cortesia só pode durar numa alma que tenha realmente fé.)

Sem isso é uma espécie de destreza cada vez menos sincera, e que vai morrendo. É amor de Deus… e vou dizer mais: entra misturado com a cortesia, um certo discernimento das situações e dos espíritos, que levaram as coisas inenarráveis. Por exemplo, Maria Antonieta, com as mãos atadas, e caminhando para ser decapitada, ela perdeu um pouco o equilíbrio, e caiu em cima do carrasco e deu sem querer um empurrão no carrasco. As últimas palavras dela foram: “Desculpe-me senhor, eu não fiz de propósito”. Não há o que comentar!

Mas o que é? Será que ela fez todo o raciocínio da fé? Não! É um sedimento da velha cortesia dos antigos tempos, da Fé Católica que ela teve, e que ainda tinha… ela fez isso. O carrasco dali a pouco estava cortando a cabeça dela.

(Sr. Nelson Fragelli: Nem aprendeu num manual, não é?)

Nada, nada.

(Sr. Nelson Fragelli: A gente vê que a cortesia no senhor não se reduz a regras…)

Eu não sei estas regras. Se eu for obrigado a escrever, acho que não sei.

(Sr. Nelson Fragelli: Agora, o homem cortês não vê todo o universo de uma maneira correlata com a cortesia que ele tem?)

É exatamente. É a concepção cristã da vida. Você vê Nosso Senhor falar, de qualquer coisa que ele fale… os exemplos clássicos: o lírio do campo, a ovelha que o bom pastor pega, etc., quando Ele trata dessas coisas, entra uma certa doçura d’Ele, que só Ele teve e ninguém tem. Por onde se sente desprender desses objetos imaginários o pai, o homem que paga os ordenados, os salários diferentes, o homem que vai viajar e dá para os escravos quantias para eles aplicarem. Tudo aquilo você vê entrar uma luz, que é uma luz vinda d’Ele, e que aquelas coisas não têm como próprias. Mas enquanto Ele fala daquilo, a propósito daquilo, a semelhança daquilo com Deus brilha. E que então aquilo toma uma doçura, uma nobreza extraordinária.

Bem, Ele ter ousado… — ousado?! Para Ele nada é ousadia porque Ele pode tudo, todas as coisas são para Ele igualmente fáceis — mas enfim, Ele ter feito isso que para nós seria uma ousadia insuportável, comparar-se com uma galinha para exprimir o amor paterno… mais do que paterno, materno!.. você vê… qualquer literato teria condenado isso como contra indicado. Ele faz. É uma obra-prima. Mas é porque Ele colocou naquilo uma realidade sobrenatural por onde aquilo é visto… por assim dizer é um thau aquilo!

O símbolo do Coração d’Ele, que Ele tomou. Ele tomou esse símbolo para falar a Santa Margarida Maria. Mas já quando estava nos desígnios da Providência consentir em que Longinus furasse o Coração d’Ele — Cor Jesu lancea perforatum — quer dizer, o significado do Coração, o símbolo mais delicado, mais interior do amor, teria que ser furado de modo brutal também, para que o dar-se fosse completo! E o modo d’Ele se dar, um modo elevadíssimo, nobilíssimo, mas dulcíssimo! Não tem palavras para exprimir isto.

Quer dizer, tudo isso procede d’Ele, é algo que Ele comunica às coisas, por onde a semelhança divina da coisa ressalta, e a gente ama aquilo como que banhado por Deus. Por exemplo, a ovelha que se deixa carregar pelo pastor; nossa alma pensando que ela é a ovelha que foi carregada pelo pastor… está tudo dito! O que tem para dizer depois? Quer dizer, esse é o padrão de toda nobreza, é o padrão de tudo! Ali está o padrão de tudo!

(Sr. Guerreiro Dantas: Na modulação da sociedade temporal, hierarquizada, etc., além da harmonia, tem que entrar também a cortesia, que é continuação da harmonia.)

Cortesia na qual não entra só afeto hein! Entra a boa vontade com que a gente respeita e admira. Senão dá na igualdade.

(Sr. Gonzalo Larrain: Dizer que cortesia é só afeto, é simplificar a coisa.)

Não, no português, talvez por deformação que o temperamento brasileiro tenha colocado na palavra cortesia, a palavra cortesia acabou significando na linguagem corrente, a elevação de maneiras, sobretudo enquanto reprime a cólera. O que não está bem feito. Não está bem feito. E na deformação do uso da palavra que entra o que você está apontando com razão. Quer dizer, a verdadeira cortesia bem entendida é verdadeiramente algo que é contrário à cólera, temperamental e irrefletida, do homem que não contém sua alma; mas não é absolutamente algo que exclua a posição polêmica. E é por causa disso que eu sustentava no começo que se pode apertar muito uma pessoa e ser cortês. O que no sentido comum da palavra cortês aqui, por uma espécie de deformação não entra.

(Sr. Gonzalo Larrain: O senhor definiria a cortesia como, o conceito propriamente?)

O conceito verdadeiro da cortesia é o hábito, quase a escola pela qual tratam as pessoas com o respeito, o afeto — vamos evitar a palavra amor, que é muito abrangente — o respeito, o afeto, que inclui, portanto, a palavra “paciência”, mas antes de tudo a admiração. É a admiração… decorrem da admiração dois ramos: o respeito e o afeto. Isto é a cortesia.

Naturalmente a cortesia pode ter fórmulas, por exemplo, em tal nação mais quintessenciada, outras menos, mas é sempre cortesia.

(Sr. Gonzalo Larrain: Educação e cortesia?)

A educação é uma espécie de especialização da cortesia, pela qual a pessoa conhece certas regras que se convencionaram a praticar, para exprimir simbolicamente esses estados de alma. Então, por exemplo, a regra de apertar a mão de alguém, mas não apertar com a mão esquivante. É uma falta de educação, se você for apertar a mão de alguém, apertar esquivante. Mas se você apertar apertando demais também, é um… o famoso “check-hand” é de todo em todo censurável.

Agora, há aqui uma coisa que está na natureza das coisas. Mas no fundo está também em regras de educação, que explicitam, que definem, ou que convencionam como pura convenção. Por que razão, por exemplo, para o chinês, o japonês, encostar os narizes é uma manifestação de cortesia e para nós não é? Há muito de convencional. Mas as convenções são necessárias. A ordem natural exige convenções. Não exige que essas sejam assim ou assado, mas exige convenções.

(Sr. Mário Navarro: No fundo a cortesia não é o pentear das más tendências decorrentes do pecado original?)

E estimular as boas.

(Sr. Mário Navarro: É civilizar os instintos em última análise.)

É. O que se fala de civilizar liga-se à nossa tese: a civilização por excelência, e no rigor do termo, a única civilização é a cristã.

(Sr. Mário Navarro: Uma pessoa que ame a Nosso Senhor, Nossa Senhora e a Civilização Cristã saberá bem como tratar os outros, ainda que desconheça as convenções.)

Sim, porque por causa desse amor ele terá para com os outros a admiração, o respeito, o carinho, o afeto que a pessoa deve ter. Bem, agora, aqui a definição se enriquece com um elemento, do seguinte modo. O amor, a admiração, etc., se graduam de acordo com os valores que a pessoa tem. Mas também são matizados de acordo com a adesão que a pessoa dá a seus próprios defeitos, e à gravidade desses defeitos.

De maneira que a verdadeira cortesia, que eu defini num sentido quase utópico, na realidade deve, nesse vale de lágrimas, compreender também toda uma regra de procedimento com o pecador, e não apenas com o homem perfeito e entre homens perfeitos. Inclusive, portanto, a arte de guerrear alguém com cortesia entra.

A perfeição da arte de manifestar amor e admiração, e ao mesmo tempo recusa, repulsa a uma pessoa, é o duelo, a esgrima. Porque eles ali estão se batalhando de morte. Mas ao mesmo tempo começa com uma reverência, e a batalha vai até o ponto da morte, mas vai sempre com um tom que reconhece no outro o que o outro é.

A cortesia proíbe de a gente consultar o relógio, mas não quando está entre filhos…

(Sr. Guerreiro Dantas: As máquinas não são muito corteses, e realmente são 3 horas.)

Mas o relógio marca o momento em torno do qual se deve fazer as cortesias… ele é preciso na marcação, mas é… hahaha!

(Risos)

Mas, conhecem aquela história do Lauzan, ele fez uma impertinência do outro mundo com Luis XIV. Luis XIV tinha uma bengala com uma bola de ouro, ele pegou a bengala, quebrou e jogou pela janela. E disse: “Isto é para eu não ter que recriminar a mim mesmo de ter dado com bengala num gentilhome francês…”. Quer dizer, até nesse extremo ele… no gênero, uma obra-prima!

Por exemplo, deixar este fato na história dos costumes, é muito mais do que deixar uma estátua, deixar um… [faltam palavras] …cheia de suco!

Ele autorizou — vocês vão estranhar um pouco o fato, mas no fundo não é — ele tinha uma prima muito mais velha do que ele, que era Grande-Mademoiselle. Havia um roce entre eles, que a grande-Mademoiselle durante a fronda dos príncipes, quando ele era menor de idade, tinha ela acendido o canhão do alto da Bastilha contra as tropas do Rei — o que era uma audácia do outro mundo. Mas ela estava levada lá por uma… era uma mulher impetuosa, e ela fez isto contra o exército do Rei, onde tinha Ana d’Áustria e o Rei, ela acendeu os canhões. E ficou sempre uma reserva dele com ela a esse respeito.

Bem, e aí vocês vêem entrar isso. Ela se apaixonou pelo Lauzan, que era um cadete de Gasconha, de muito boa Casa, mas cadete de Gasconha. Quer dizer, um pé-rapado da nobreza. E resolveu afinal de contas, depois de coisas incríveis — mas valeria a pena ler isso em Saint Simon, como foi o jeito do Lauzan se impor a ela. Ele a tratava assim, entende? E dizia: “Les Bourbons veullent être amené le bâton haut”, compreende? Daí vem nossa referência ao “bâton haut”, quer dizer, com… e tratava ela assim. E ela cada vez mais entusiasmada com ele.

Afinal de contas, ele não a pedia em casamento, ela então o pediu. Ele queria levá-la até isso. Ele queria que o Rei soubesse, que ele não seduziu a prima dele, que ele fez o possível para evitar. Mas que afinal ela pediu, e ele então aceitou. Bem, ela foi e pediu licença ao Rei para casar com ele. E o Rei gostava muito dele, e deu licença. Bom, quando o noivado se divulgou na corte, isto era uma tal honra para a maior nobreza da França, que um duque que veio saudar a Grande-Mademoiselle disse o seguinte: “Toda nobreza deveria desfilar diante de vós — aliás, aqui já está meio baixo — andando de quatro, para lhe agradecer a honra que faz casando com um dos nossos”. Acho excessivo.

Bem, mas seja como for, o rei deu licença, e saiu uma efervescência de estourar a corte. Porque os príncipes da Casa Real sentiram-se abaixados vendo uma princesa casar com um mero fidalgo. Fidalgo de muito boa Casa, mas nem era o chefe da Casa. O chefe da Casa dele era o duque de Graimont, a quem ele mandou pedir licença para casar com a Grande-Mademoiselle… ele era um homem do outro mundo!

Bem, então o Rei deu licença e foi esse estouro, os príncipes da Casa Real vieram falar com o Rei e apertar o Rei. Os historiadores dizem que talvez tenha sido essa a razão, mas o Rei levava tudo de tal maneira, que eu acho que não foi, eu acho que ele recebeu uma ordem. Porque a palavra de ordem era rebaixar a nobreza e elevar a burguesia. E toda a política dele ruiria se ele permitisse a Grande-Mademoiselle — aliás, indizivelmente rica — casasse com o Lauzan. Bem, chegou um certo momento que o Rei resolveu desmanchar o casamento, que não tinha sido feito ainda.

Mandou chamar a Grande-Mademoiselle e disse: “Minha prima, pise sobre mim se quiser, mas eu tenho que dizer que o seu casamento com o M. de Lauzan está desfeito”.

Ela teve uma saída que eu não esperava. Ela caiu de joelhos diante dele e disse: Oh, sire?! E chorou. Ele a deixou chorar um pouquinho, ajoelhou-se diante dela, abraçou-a e disse. Ó, minha prima! E ficaram — notem que ela era muito mais velha do que ele — ficaram um bom tempo abraçados, chorando os dois!

No fim, ele disse a ela… eu não sei o que ele cochichou para ela enquanto estavam abraçados. Eu acho que ali entrou uma prancha, que ele estava apertado, que não tinha remédio, etc., etc., e tinha que entregar os pontos, e ela sentiu. Acho que foi isso. Saíram resolvidos que o Lauzan não casaria. Mas veja até que ponto, numa situação sem saída, ele soube humilhar-se.

Eu não acho que tudo seja bonito dentro disso, mas il y a de très beau la dedans”. Isto eu acho.

(Sr. –: Muito bom, magnífico.)

Por exemplo, eu acho que lembrar isso descansa a alma, eleva a alma… alguém diria: “Não, mas qual é a vida de santo onde o senhor tem isso”? É um episódio da Civilização Cristã, está acabado. Nenhum dos dois era santo, muito longe disso. É um episódio da vida da Civilização Cristã.

Agora, eu vou contar uma coisa galhofeira do Lauzan, antes de encerrar. O Lauzan era muito rico, porque a Mademoiselle fez umas doações enormes a ele antes do casamento, inclusive de título de nobreza, era para ele estar à altura dela no momento de casar-se. Ele era riquíssimo. E a Mademoiselle nunca quis aceitar que ele devolvesse a ela esses bens — ele não fez muita força também.

Mas ele não deixava filhos. E quando ele ficou doente — ele morava perto de um hospital chamado “Hotel Dieu”, que era um hospital muito creditado lá, aliás, era uma espécie de Casa de Misericórdia, mas devia ter uma secção para gente rica, qualquer coisa — ele sentiu que estava com uma mola na língua, e que, portanto, estava com câncer. E foi a pé para o hospital, deitou-se na cama, num quarto que ele tomou, mandou chamar um médico, explicou o que ele tinha, o médico mandou logo a deitar-se, e começou a família a visitar, e tal, tal. E tinha uma sobrinha que queria muito herdar o dinheiro dele. E entre a cama dele e a parede se usava naquele tempo um certo vão, as camas não eram encostadas diretamente na parede, tinham cortinas, e tudo. E ele mandou vir um tabelião para ditar o testamento. E ele soube que a sobrinha esgueirou-se entre a cama e a cortina para ouvir o testamento, e conforme fosse o caso, intervir. E não teve dúvida: ele fez o tabelião entrar, e fez um testamento descompondo a sobrinha, mas de rachar! E deixando todo o patrimônio dele para o Hotel Dieu! E a sobrinha ficou imobilizada e aterrada, sem saber o que fazer. Depois, ele mandou embora o tabelião, e creio que fingiu que dormia, qualquer coisa assim, e a sobrinha fugiu.

No dia seguinte ele mandou vir outro tabelião. Fez um testamento anulando tudo o que tinha feito no anterior, e deixou tudo para a sobrinha. Quando ele morreu, os dois testamentos foram sucessivamente abertos!…

(Sr. Nelson Fragelli: Surpreendente o homem!)

Ah, não, o homem é… a madame de Sevigné, creio que foi ela, comentou assim: “Não é lícito a gente sonhar uma vida como M. de Lauzan teve”. De tal maneira é uma vida imaginosa, etc.

(Sr. Nelson Fragelli: Só uma perguntinha. Entre essa cortesia do Ancien Regime e a que existe e deve existir na TFP, o que da TFP acrescentou à primeira? Porque eu sei que o senhor admira muito a cortesia do Ancien Regime.)

É uma das coisas que eu admiro no Ancien Régime é a cortesia. A cortesia do Ancien Régime era uma cortesia que eram muito no trato entre as pessoas. Mas eu não tenho, exceto casos muito excepcionais, eu não tenho noção de que a cortesia do Ancien Régime difundisse uma maneira verdadeiramente nobre de se referir aos temas mais sérios, mais santos, mais profundos e mais cacetes, de maneira a torná-los objeto de salão. Certamente nos salões se falavam de coisas dessas, mas num certo froufrou superficial, não se entrava a fundo.

Havia a oratória sacra que lavava a coisa a grandes paramos. Havia as aulas universitárias que levavam, noutro lado, a uma grande elevação de temas. Mas não ao mesmo tempo objeto de salão. O príncipe de [Kru?], nas memórias dele, no tempo de Luis XIV, ele conta que os salões, no fim do reinado de Luis XIV tinham mudado completamente. Porque as mulheres tinham tomado conta do salão inteiramente, e o salão tinha ficado prosa de mulher. Que todos os assuntos sérios tinham sido banidos, e todos os homens importantes pesavam no salão desfavoravelmente. Porque tinha-se obrigação de fazer deles o centro da conversa, e eles eram tidos como “cacetões”, porque não tinham o froufrou da conversa de tule e de seda que era a conversa do Ancien Régime.

Bem, eu acho que os oradores sacros, os professores, os homens importantes não chegaram a aprender a fazer dessas coisas temas de salão. E nós quereríamos fazer!

Bom, messieurs, o que é que eu posso fazer?

(Sr. João Clá: Parar o sol como Josué…)

Hum-hum… mas, por exemplo, fazer nesse salãozinho uma conversa que é uma conversa de íntimos, que trata de todas essas coisas, a fundo e, entretanto, num ambiente de salão, é o que eu acho que era preciso para completar um circuito que a paganização da nobreza impediu que fosse completado.

Bem… In nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti, amen. Há momentos minha Mãe…

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