Conversa
de Sábado à Noite – 16/8/1986 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 16/,8/1986 — Sábado [VF 46] (Neimar Demétrio)[CR2]
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* Comentários de vários fotos da Senhora Dona Lucília
Comentários de fotos da Senhora Da. Lucilia / Centro de São Paulo por volta de 1900 / a Senhora Da. Lucila aos dezesseis anos: alma feita de pureza, onde o que é menos elevado não penetra / o romantismo brasileiro no tempo da Senhora Da. Lucilia / uma alma modelada segundo padrões de verdade, do bem e do belo moral que ela escolheu, e que rumam em sentido oposto ao mundo moderno / expressão social de uma alma católica / casamento da Senhora Da. Lucilia / fotografia em menina: não analisava nada a não ser a transesfera; na fotografia quando era noiva: já analisou a vida, conhece tudo e é um sacrifício resolvido com força de vontade extraordinária / na foto posterior, ela já sorveu a taça inteira e o olhar continua posto na transesfera / na foto em Paris, aparece muito o afrancesamento; mas a nota constante é a elevação do olhar; no fundo, através das coisas, dos ambientes, das almas, ela está olhando para Nosso Senhor Jesus Cristo / últimas fotos: alguma coisa da paz da eternidade se adiantava rumo a ela / ela poderia ser apresentada como um padrão da união da ordem espiritual com a ordem temporal / tratando-se de restaurar a imagem do Coração de Jesus, o padre pede o dinheiro ao Sr. Dr. Plinio
(Dr. Marcos Dantas: Doutor Plínio eu estou vindo do Rio Grande do Sul, passei uma semana lá no Congresso)
Em que congresso você esteve?
(Dr. Marcos Dantas: De modo que a notícia do Rio falava são mais antiga.)
Em que congresso você esteve?
(Dr. Marcos Dantas: Um Congresso lá em Gramado de sensoriamento remoto.)
Sensoriamento o que?
(Dr. Marcos Dantas: Remoto.)
O que vem a ser isto?
O que vem a ser assensoriamento remoto?
(Dr. Marcos Dantas: Sensoriamento.)
O que vem a ser isto?
(Dr. Marcos Dantas: É toda uma tomada de dados da terra por satélite.)
Ah, sei! E Gramado onde é?
(Dr. Marcos Dantas: Gramado é na serra do Rio Grande do Sul.)
Quer dizer, você tem poucas noticias do Rio, então?
(Vários chegam e cumprimentam o Senhor doutor Plínio)
E o que é que me contam? O que é que me perguntam?
(Sr. João Clá: Tenho uma proposta a fazer…)
(Sr. Gonzalo Larrain: Ah, ótimo, ótimo. Qual é a proposta?)
Qual é a proposta?
(Sr. João Clá: Distribuir uma foto para todos e o senhor comentar.)
Oh, mas esta?! Com esta eu não contava! Hahahaha!
(Sr. Gonzalo Larrain: O homem das surpresas não é?)
É, é! Hahaha!
(Sr. João Clá: Não sei se os senhores quererão comentários a respeito da coleção de fotos, etc. Que parece.))
(Dr. Marcos Dantas: Magnífico)
(Sr. João Clã: Os senhores querem comentários ou a coleção?)
(Sr. Gonzalo Larrain: Isto se chama coerção coletiva…)
Como é que é?
(Sr. Gonzalo Larrain: Coerção coletiva!)
Coerção coletiva! É isso, é.
Sédeas!
(Dr. Marcos Dantas: Uma coleção completa!)
(Vários falam ao mesmo tempo)
Eu estou pondo em ordem cronológica, porque o comentário se faz melhor assim.
(Sr. Gonzalo Larrain: Que magnífico Senhor!)
(Sr. Guerreiro Dantas: Lembra-se daquela reunião no São Bento que…)
Como é?
(Sr. Guerreiro Dantas: Eu me lembrei de uma reunião no São Bento em que nós tínhamos pedido ao Senhor …)
O que é que vocês tinham pedido?
(Sr. João Clá: Que o senhor fizesse comentário das fotos dela.Está faltando uma ou outra.)
(Sr. Gonzalo Larrain faz exclamações efusivas, e os outros riem. Então, ele pede para deixarem manifestar seu sangue basco.)
(Sr. Guerreiro Dantas: Nesta sala aqui quase todo mundo tem sangue espanhol? O senhor tem, não é Sr. Dr. Plinio?)
Vagamente, no tempo em que o Brasil pertenceu à Espanha, vieram morar aqui espanhóis…
(Vários falam…)
Esta felicidade!
(Sr. Guerreiro: Isso foi em 1640!)
É, foi uma coisa remotíssima. Mas houve aí muitos espanhóis para cá e ligaram-se com as familias de São Paulo. De maneira que há por aí, mas você vê que coisa remota, não é?
(Sr. Guerreiro Dantas: Família Bueno daqui de São Paulo é espanhol.)
Família Bueno… e tinha bandeirantes e coisas etc., ligados a essa família: Bartolomeu Bueno de Miranda, o Anhanguera… Bueno era uma família…
— — —
Ô Mário, você não se incomodaria de abrir e me acender essa luz, não?
(Vários falam ao mesmo tempo)
Não sei que encrenca deu…Não, não.Tem uma coisa qualquer que pega junto com o aquecedor.
(Vários falam sobre o problema.)
Como é Fernando.
— — —
Não sei se querem ver qual é a ordem cronológica? A primeira mais antiga, é esta aqui, ela mocinha. Depois aqui ela moça, mas ainda solteira. Naturalmente muito mais velha, mas ainda solteira. Depois… ué!, tem uma coisa errada aqui… depois vem ela aqui, depois de casada. Depois… em Paris. Essa duas em Paris…
(Sr. João Clá: Esta aqui é em Paris.)
Qual é uma em que ela está sentada!
(Sr. João Clã: Ela em pé também em Paris.)
Fernando, você não poderia empurrar essa lâmpada mais para cá, um pouco? Essa mesinha?
Esta é do casamento.
(Vários falam)
Exatamente, eu interpreto isto como sendo fotografia do casamento. Portanto… depois do chapéu… aqui é depois de casada; aqui em Paris. Esta é em Paris também, são coetâneas essas duas fotografias. Bem, agora aqui já em São Paulo, depois de velha…
(Vários falam)
Esta eu não estou conseguindo ver na perspectiva exata. Ah! Esta é numa reunião do “Legionário”, ela já senhora bem idosa já. Esta aqui é mais ou menos do mesmo tempo. Não, acho que a última é essa aqui, em que ela está brincando com o menino de Maria Alice, na casa da Maria Alice, no jardim de Maria Alice. E aqui vem esta, depois vem esta e a última é esta aqui.
Quer dizer, eu não tenho certeza, mas por cálculo de probabilidade, etc., a ordem seria esta. A mais antiga é esta, evidentemente, mocinha, não é? depois, aqui está moça, mas o todo me dá muita impressão de moça solteira ainda. Bem, depois o tipo de chapéu, etc., etc., é muito antigo ainda. Esta aí é do casamento, suponho.
(Sr. Gonzalo Larrain: Sim. Inclusive está ao lado de Dr. João Paulo.)
Está ao lado de Papai?
(Sr. Gonzalo Larrain: Sim Senhor! Está. Inclusive aqui aparece um pouquinho do bigode dele.)
Bem, agora ela depois de casada aqui. Depois aqui em Paris, são duas de Paris. Essa, essa daqui…onde é que está com um… Está aqui, as duas. Essas duas são praticamente a mesma coisa. Bem, agora aqui é em casa de Maria Alice quando…em casa de Rosée, casa de Rosée com Maria Alice pequenininha ainda, e ela…Maria Alice não, o filho de Maria Alice ainda pequenininho.
(Sr. Mário Navarro: Esta é antes, não é?)
A do “Legionário” é esta. É sim.
(Sr. Gonzalo Larrain: Puxa! Incrível! Incrível não?)
É, mas, ou eu me engano muito ou é isto.
(Sr. João Clã: É isto sim. É certo.)
(Vários falam)
Pode por aí. Esta aqui também é encerramento de Semana de Estudo.
(Sr. João Clá: Esta do encerramento da Semana de Estudo vem antes desta da Da. Maria Alice)
É isto sim. Ela em casa de Rosée. Agora, ela aqui em casa de Maria Alice, brincando no jardim com o menino.
(Sr. Gonzalo Larrain: Esta é a mesma, não é?)
É depois, na mesma noite. É outra posição.
(Sr. Gonzalo Larrain: Está na mesma…A mãozinha do menino está nas duas fotos.)
Está nas duas fotos?
Sédeas meu João!
(Sr. Nelson Fragelli: A mais recente eu acho que é essa aqui.)
É esta sim. Mas é a mesma do que a outra da casa de Maria Alice, mesmo chapéu, mesmo colar. É tudo a mesma coisa.
(Dr. Edwaldo: Esta é do encerramento do Catolicismo ou não?)
Como?
(Dr. Edwaldo: Esta é do encerramento do Catolicismo ou não?)
É anterior.
(Sr. –: É anterior a da Da. Maria Alice. O menino não tinha nascido ainda)
(Vários falam…)
É numa Semana de Estudos que fizemos na Praça da República. Ela tem à direita o Adolphinho e à sua esquerda a Teresa, ou contrário, que eram recém-casados, casados há muito pouco tempo.
(Sr. Nelson Fragelli: Aqui para mim está a dama paulista quatrocentona. Para mim é esta.)
Qual é?
(Sr. Nelson Fragelli: É esta aqui.)
Ah! Nota muito isso.
(Vários falam…)
(Sr. Nelson Fragelli: Caiu?)
É minha esta?
(Sr. Gonzalo Larrain: Sim, Senhor.)
(Sr. Nelson Fragelli: É minha, é minha!)
(Sr. Gonzalo Larrain: Ah, perdão! É do Sr. Nelson.)
É do Nelson.
Quer dizer, o que vocês podiam fazer de mais prático é numerar. É o que os senhores podem fazer de melhor.
Sédeas!
Agora, as sucessivas fotografias são: aqui, primeiro dela mocinha… agora, aqui vocês querem, naturalmente, análise psicológica não é?
(Sr. João Clá: Ah tudo! Psicológica, moral, virtude, materno, vocação, elevação de alma, relações dela com Deus…)
Acenda-me a luz por favor, Nelson!
(Sr. Gonzalo Larrain: Depois também tudo que o senhor falou na última reunião dela.)
Como?
* As senhoras quando saiam se ornamentavam muito mais do que uma senhora de hoje se ornamenta; alguns comentários sobre São Paulo antigo
(Sr. Gonzalo Larrain: Também na linha do que o Senhor na última reunião dela, como ela discernia as coisas, o modo de como ela via as pessoas, as situações…uma coisa fabulosa.)
O que tem, o que vocês têm que… na geração a que vocês pertencem, vocês têm que dar os devidos descontos, porque é tão diferente de vocês, que eu não sei… eu estranhava, quando eu conheci essas fotografias era meninote, não é, eu estranhava — quanto mais vocês — são os penteados e os trajes, não é? É preciso dar os descontos. Era o fim… enfim, aqui, por exemplo, deveria ser mais ou menos o ano de 1900. Bem e o vestido é um vestido caseiro. As senhoras naquele tempo saíam muito menos do que hoje e quando elas estavam em casa elas tinham vestidos caseiros, mais simples. Quando elas saíam, elas se ornamentavam muito mais do que uma senhora de hoje se ornamenta. As condições de vida mudaram tanto, que a gente passaria muito tempo descrevendo.
O centro velho de São Paulo que deu o grande, que começou a dar o grande nesse momento, o centro velho de São Paulo era ao mesmo tempo um centro comercial e centro social. Então tinha, por exemplo, os cinemas finos, pequenos — São Paulo era pequena — restaurantes finos e casas de moda para senhoras muito finas, etc. Tudo importado, portanto, todo artigo muito bom, mas ao tempo tinha escritórios de corretagem, tinha escritórios de advogados, de médicos, consultório médico, tudo o mais, tudo misturado. Então nos andares de cima escritórios e embaixo comércio de luxo para senhoras, alguma coisa para homem também. Para homem era uma casa de um Vicente Latuchella. E tinha uma estátua italiana, mas não sei porque isso, sabe a história de um …[palavra italiana]… pegando uma cobra, uma espécie de Hércules… naturalmente era uma cópia, mas uma espécie de Hércules assim mitológico, ouviu? Meio atormentado, mas dominando a cobra… um teatro…
[Risos]
É exatamente, exatamente.
Fazia sensação na vitrine do Vicente Latuchella essa cobra, está compreendendo? Uma coisa assim desse gênero. Bom.
E o penteado e o vestido aqui são absolutamente caseiros. Vocês comparam com os outros penteados, vocês verão que os penteados estão muito soignés, muito… vejam por exemplo, nesse do chapéu, tomem o vestido daqui e o cabelo como está aprestado e tal. Isso levava uma hora uma senhora se arranjando para sair. E aqui não, é como uma senhora está em casa, não é?
* Na mesma psicologia uma vida católica vivida com muita intensidade com aspectos que o romantismo tinha de bom
Agora, aqui ela está bem mais mocinha. Eu imagino que ela tenha aqui dezessete, dezoito anos… dezesseis anos, uma coisa assim. Agora, o que vocês têm, o que vocês tem aí é um encontro curioso, na mesma psicologia, e era do mesmo ambiente, etc., etc., da religião católica e vivida com muita intensidade e de uma certa influência do romantismo, mas em aspectos que o romantismo tinha de bom, que era, no romantismo levava a uma espécie de hipertrofia do sentimento. Aqui não é hipertrofia, mas o sentimento como atitude da alma muito valorizada. De maneira que o sentimento, o sentir está muito marcado aqui. E marcado nos seus dois aspectos: uma pessoa que tem muitos ideais, pensa muito, mas pensa na via do sentimento, esta é a questão. Na via do sentimento, os mais altos afetos, as mais altas dedicações, as mais altas entregas de alma, tendo como padrão Nosso Senhor Jesus Cristo, padrão dos padrões, etc., e tendo como norma tudo da Igreja Católica, mas em que esse lado da bondade, então da caridade, da dor, como a dor era trágica, e como era preciso enfrentar a dor, etc., estão muito presentes.
Então vocês vêem que a fisionomia é inteiramente uma mocinha. Agora, vocês notarão por certo, antes de tudo, muita preservação.
[Exclamações]
* Uma grande elevação de alma
(Sr. Gonzalo Larrain: Uma inocência! Uma pureza de alma…)
Completamente, completamente. Vamos dizer, a alma dela é feita de pureza. Mas de um duplo tipo de pureza: é a castidade, mas é o seguinte: o que não é vil, o que é vil, quero dizer, o que não é elevado, o que não tem uma certa, uma certa elevação de alma, não penetra. É rejeitado como indigno. Não sei se notam isso presente aí. Bem, e, portanto também, vamos dizer, trivialidade de vida de moçoila, e caracácácá, brincadeiras e corre-corre, etc.,…
(Sr. João Clá: É nem pensar!)
…nem pensar. Quer dizer, não entrava absolutamente, não é?
Mesmo a vida, vamos dizer, mesmo no que ela podia ter de propriamente sentimental, entende? O ambiente do tempo tinha, mas tinha de outro modo, ela via de outro modo, eu teria dificuldade de exprimir isso a vocês. Mas, por exemplo, uma coisa assim… notem sempre: São Paulinho de cem mil habitantes, uma coisa dessas, hein?
* A história da bela Olímpia rainha de Sabá e sua filha Georgina
Ela tinha uma prima, que era uma prima um pouco afastada, mas naquele tempo o parentesco contava muito. A mãe dela eu creio que era prima-irmã, não tenho muito certeza, da mãe dessa prima. Mas isto naquele tempo ainda dava um parentesco de fato, alimentado e mantido, não é? E por estas ou aquelas razões ela foi educada com essa prima muito. Uma ia muito em casa da outra etc., e se reputavam reciprocamente amigas ideais.
Bom, e esta prima era um pouco mais velha do que ela, e era, pelo o que contam, nunca vi fotografia dessa prima, mas talvez tenha sido porque a prima tinha tido uma mãe que eu conheci velha, era muito bonita. Era como velha, era uma velha muito bonita. Não com essa grandeza de vovó, mas com… era uma velha muito, muito bonita. Fina… não era tão grand-dame quanta vovó, mas era grand-dame, e bonita!
Eu me lembro que nós uma vez estávamos no Rio, num hotel, e foi visitar vovó o Conde de Afonso Celso, que era amigo, aquela coisa do tempo do Império. E o Conde de Afonso Celso, a primeira coisa que fez chegando para ela — não se viam há não sei quanto tempo, o Afonso Celso tinha estudado aqui na Faculdade de Direito de São Paulo, ele era mineiro, mas tinha estudado na Faculdade de Direito de São Paulo. Era, aliás, um homem sui generis. Você chegou a ver fotografia do Afonso Celso, não? Homem muito claro, muito claro e com os olhos quase transparentes de tão claros, ouviu? E um cabelinho branco, fazendo assim uma cristinha de galo de cabelo branco, e ele foi de encontro a ela, de minha avó, com os ares românticos, do tempo da Faculdade de Direito do Fagundes Varela, do Castro Alves, do Navio Negreiro, daquelas coisas todas.
— Dona Gabriela, como vai? Está bem?
Beijou a mão de vovó… a vovó:
— Ó conde…, etc., mas coisa sem muito…
— Antes de tudo, que notícias a senhora me dá da bela Olímpia, Rainha de Sabá?
[Risos]
Para os senhores verem o ambiente, quem conhece um pouco o romantismo brasileiro, isto é o ambiente tal qual, entende?
(Sr. Guerreiro Dantas: Tem uma certa nota familiar, mas…)
Como?
(Sr. Guerreiro Dantas: Tem uma certa nota de pessoas que se conhecem há muito tempo, não é?)
Mas há muito tempo! Mas, a Olímpia era tão bonita que os estudantes chamavam de Rainha de Sabá. Essa amiga de mamãe é filha de Olímpia. E era muito bonita, etc., e tal. E era amicíssima de mamãe. E a Olímpia adoeceu de diabetes. Mas naquele tempo a medicina não realizou os prodigiosos progressos que realizou depois, e a Olímpia… interveio uma desgraça na vida da Olímpia que… da Olímpia não, da Georgina chamava-se,…
(Cel. Poli: Georgina é filha?)
Filha.
… que precipitou a diabetes, que foi o seguinte. Ela foi pedida em casamento por um primo, chamado Godofredo…
(Risos)
Tudo isso é romantismo, ambiente medieval, etc., etc… não sei até que ponto pode interessar a vocês…
(Magnífico)
Depois, isto é uma história que ela contava participando muito entende? E o Godofredo, o Godofredo pediu a Georgina em casamento. E a Georgina gostava muito do Godofredo, toparam! Parentes chegados toparam o casamento. E nisso o Godofredo foi tratar um negócio qualquer numa fazenda aí, e o dono da fazenda era um tipo riquíssimo. E a filha do dono da fazenda se apaixonou pelo Godofredo também. Então… mas tudo isso é romantismo, hein!
(Sr. Guerreiro Dantas: O problema que isto é verdade, não acontecia no “filme” mas é a vida real.)
Vida real, você vai ver o resto. O fazendeiro disse… a filha…a filha disse: “Papai, eu não vivo se eu não casar com esse Godofredo. Era um Godofredo Magalhães, parente de um D. Estevão Bittencourt, que há lá no Rio de Janeiro, entende? Que é muito vagamente parente meu. Esse é vago, já nem é parentesco, mas enfim, liga-se a essa coisa.
Bom, e o pai, o fazendeiro, que é fazendeiro forte, não é, disse: “Minha filha, se for preciso eu compro o Godofredo! Mas para isso o seu pai é poderoso”!
(Risos)
Bom, vocês estão vendo, vocês estão vendo o desfecho, não é? A moça procurou o Godofredo, convidaram para a festa, etc., o Godofredo não ia à festa. Então o pai procurou o Godofredo e disse: “Olha, eu dou para você tanto de dinheiro de dote, se você casar com a minha filha”. Ali foi o tiro! Porque o Godofredo era arranjado, como essa Georgina era arranjada também, mas não era o deslumbramento de uma grande fortuna. E, se não me engano, essa, essa moça filha do fazendeiro era filha única. Também não tenho certeza, mas se não me engano ela era sobrinha, uma coisa assim do Conde do Pinhal, dessa família Arruda Botelho, que era uma família muito boa que havia aqui em São Paulo.
Bem, e tá! E o Godofredo cambaleou. Então começou a tirar o corpo da Georgina. E a Georgina ficou achando que ele não gostava mais dela, mas não sabia porque que era. Mas depois viu que era a vileza do Godofredo que tinha vendido o sentimento nobre que ela, Georgina, tinha por ele, tinha vendido por um vil dinheiro!
Isso é romance de Verdi, de ópera de Verdi, essas coisas todas. É inteiramente isso. Então, a Georgina insistia, quer dizer… ele não chegou pedir a ela que cessasse o noivado, mas cada vez mais frio… e ela cantava muito bem… Então numa noite é cada coisa vai…
(Sr. Gonzalo Larrain: É impressionante, incrível!)
Numa casa de alguém da família havia uma festa de aniversário. E a Georgina — mas naquele tempo não tinha rádio nem televisão, e as próprias moças da família, por exemplo, no Chile deve ter sido assim, em todo lugar, as moças da família é que tinham que ir tocar piano, cantar, tocar instrumentos, etc., etc., para animar as reuniões da família — e a Georgina tinha uma voz muito boa. E que a Georgina então começou a cantar uma alusão, uma canção italiana, alusiva à dureza dos homens que não entendiam ao amor… coisas desse gênero. E que o Godofredo estava presente. Mas que a cena é incrível, entende? Ela contava participando da coisa, entende? Ele foi se escondendo à medida que ela cantava e que chegou atrás…a se colocar atrás de uma cortina… mas atrás da cortina via-se o charuto dele, a brasa do charuto dele que acendia, porque ele dava tragadas mais fortes pela emoção. Depois ele não teve coragem de enfrentar o ambiente todo, que estava vendo porque que é que aquilo estava sendo cantado, porque era tudo parentela e como era andar térreo, ele pulou da janela aberta com o charuto…
(Risos)
Mas que significou ao mesmo tempo em que o noivado, o noivado estava oficialmente rompido!
E mamãe contava, a Georgina muito bonita, e cantando tal coisa… mamãe sabia qual era a canção, mamãe não tinha boa voz, não cantava, mas repetia trechos do negócio. E sumiu pelo jardim, e era noite entende? Pouco tempo depois ele casou. Mas esse fato precipitou o curso da diabetes da Georgina. A Georgina não sabia — felizarda dela! — a medicina não sabia ainda o que é que o sujeito não deve comer quando é diabético. De maneira que a Georgina comia normal. E isso cada vez pior. E ainda mais com esse desgosto, a diabetes precipitou-se muito.
Então, tem o resto da cena. Era época de colheita, de não sei bem, qualquer coisa, meu avô tinha uma fazenda aqui em São João da Boa Vista. Então, a família tinha que ir para São João da Boa Vista, para presidir a colheita, porque senão o administrador roubava. Então, foi a grei Ribeiro dos Santos toda para a fazenda, deixando a Georgina mal, mas não mal a morte. E mamãe teve um sonho à noite, que a Georgina estava morrendo. E ela viu como a Georgina morria, etc., etc., e como era toda a coisa etc. E de manhã ela levantou e disse ao pai dela: “Papai, eu sonhei que a Georgina estava morrendo, e eu quero ir para São Paulo. Eu queria que o senhor me mandasse reservar a passagem, mandar alguém comigo para São Paulo — uma moça solteira não viajaria sozinha nunca, em trem, nunca, nunca! — me mandasse para São Paulo porque eu quero ver a Georgina a todo custo”.
Não me lembro bem, mas parece que meu avô disse que não, que isso era fantasia, etc., que não podia ser. Ela se resignou. A certa altura chegou um telegrama: Georgina faleceu! Então ela tomou o trem, o primeiro trem que passou, etc., e veio. E a Georgina estava, o corpo dela exposto num caixão, etc., numa chácara que eles tinham nos arredores de São Paulo, onde ela tinha morrido. E mamãe dizia com a maior naturalidade isso que eu vou dizer agora. Eu caí das nuvens quando ela disse: “Vestida de noiva, e linda no caixão!”
“Mas mamãe, ela tinha levado um “fora” do namorado dela, como ela está vestida de noiva”?
Era costume de São Paulo naquele tempo, quando uma moça solteira morria, vestia, de noiva. Eu acho um bonito costume, dirigir-se para a sepultura com o símbolo de sua pureza, acho bonito. Mas eu nunca tinha ouvido falar, e nunca mais ninguém me disse isso.
E o Godofredo apareceu para a coisa, porque o Godofredo nesse ínterim já tinha casado com a caipirona dele, e teve um golpe também muito grande e foi ao enterro. No enterro não se tratou do caso, tratou-se ao Godofredo bem, mas ele estava também muito deprimido… ficava muito feio, e depois muito, muito desagradável à situação, não é? Medonho, papel medonho! Depois sumiu e acabou o caso.
Bom, mas não sei se vocês notam bem que estão misturados aqui, numa alma muito preservada, só tem sentimentos nobres, tem realmente a atração conjugal, mas vista do seu lado mais espiritual, mais psicológico, menos físico, não é? E depois com a vilania e o desprezo pela adoração do dinheiro — São Paulo depois mudou nem sei quanto, não é? Nem sei quanto, não é? — e a posição enfim…
(Sr. Gonzalo Larrain: Reta, não é? A verdade…)
… reta. E o Godofredo que representava a era futura, não é, que é dos venais que punham o dinheiro acima de tudo, etc.
Mas ela imaginava a post-vida do Godofredo como não foi. Eu acho que não foi. O Godofredo deve ter passado a vida inteira com um remorso medonho e com uma tristeza, muito abatido, etc., que acabou indo morar no Rio, não querendo mais ter contato com o meio de São Paulo, porque ele ficou muito desagradado e tal, e levou a mulher dele para o Rio.
Eu acho tudo isso menos provável, está compreendendo? Não é impossível que tenha sido, mas acho isso tudo menos provável. Mas isso ela contava com o intuito de formar, de dar uma idéia de como era a vida, como eram as coisas, etc., etc. E eu assistia muito atento, mas um pouco desconfiado, porque eu pensava: “Isto é real na cabeça dela. Mas até que ponto terá sido real na cabeça da Georgina e na cabeça dessa outra gente toda? Coisas que foram, que tiveram muito disso, mas que não foram tanto assim como ela via.
Aqui ela ainda está no mundo mítico, a veneração pelo pai dela, veneração pela família toda, tida como muito boa, muito direita, etc., e pelos amigos do pai, pelas amigas da mãe, tudo isso ela via, aquela São Paulo, do tempo daquele conselheiro Albino, qualquer coisa, que você andou lendo — lembra-se? — era esse tempo, entende? Ela via tudo como gente muito boa, muito direita, muito amável, etc., etc., donde ficou um certo traço de alma dela. E o traço de alma era uma afabilidade, uma bondade, uma abertura para as pessoas, como se todas as pessoas fossem boas.
Ela tinha tido desilusões medonhas, mas tinha ficado essa embocadura de alma para isso, que constituía um dos encantos do convívio com ela.
O João contava os modos de ela receber aqui o pessoal do Grupo enquanto eu estava exatamente com a doença da Georgina… como ela falava, como ela contava as coisas, isso e aquilo, você acho que reconhece…
* Um olhar de uma seriedade absoluta
(Sr. João Clá: Totalmente. Totalmente. O modo com que ela como que mitificava enormemente tudo o que dizia. O que ela via era uma coisa feérica,… )
Sem mentir em nada, hein?
(Sr. João Clá: Não, não. Era o aspecto mítico das coisas.)
É, o aspecto mítico das coisas. E isso fica muito nesse olhar, que está para o que há de mais elevado, o de mais… e religioso. É um olhar, no sentido mais elevado da palavra, é um olhar religioso. Não é M. Emery, você não vê aqui nem um pouco uma carola.
(Dr. Edwaldo Marques: O olhar é de uma seriedade impressionante.)
Seriedade absoluta.
(Sr. Gonzalo Larrain: Quando ela saiu de Pirassununga, Senhor?)
Antes. Eu não sei bem em que ano, mas foi pouco depois da proclamação da República em oitenta e nove.
(Sr. Gonzalo Larrain: Ah, sim! Então foi antes dessa foto?
Ah, antes, antes, decididamente antes.
Você queria me perguntar alguma coisa meu Nelson?
(Sr. Nelson Fragelli: Agora, é um religioso muito TFP, não é?)
Muito TFP. Ah inteiramente! Quer dizer, muito ambientes e costumes.
(Sr. Nelson Fragelli: Muito ambientes e costumes, muito elevado, não é? Pelo que ela via desses valores que ela gostava…)
É o que nós chamamos transesfera no MNF. O que há aí de transesfera é uma coisa prodigiosa.
( Sr. Nelson Fragelli: Prodigiosa, prodigiosa. Neste sentido prodigiosa)
* Um prenúncio de muito sofrimento
(Cel. Poli: Aqui já tem também um pouquinho da alma que o senhor define como ametista, não é Doutor Plínio, uma certa…)
É, tem. Há aqui uma coisa qualquer que é um prenuncio de muita dor e muito sofrimento. A gente vê que ela notava que ela ia sofrer muito, que ela ia ter muitas calamidades, por causa do mal do mundo. Mas havia uma certa desilusão, não tinha ilusão da mocinha boba, nem um pouco. Mas, ao mesmo tempo, tinha muita candura, não é?
(Sr. João Clá: Além de tudo isto tinha um imponderável impressionante que a gente não sabe exprimir. Um imponderável ligado à vocação, ao que vir o futuro… depois uma predestinação porque é uma predestinada.)
* A aceitação da cruz
Eu acho que o que há aqui é uma recusa, uma alma que vai se modelando segundo padrões que ela escolheu e que não caminham em nenhuma direção do rumo do mundo moderno, e que está se firmando com uma resolução total nesses padrões, como sendo a própria manifestação da verdade e do bem, e do belo moral. E que, portanto, não muda disso, custe o que custar. Mas prevê de algum modo que eu não sei como, que isso vai ser uma cruz para ela. Mas aceita essa cruz decididamente. Aí é o elemento Revolução e Contra- Revolução que há dentro. Mas…
(…)
…(Sr. Nelson Fragelli: Ela sofreu muita desilusões com as pessoas,..)
Muito.
(Sr. Nelson Fragelli:… mas guardou sempre uma idéia das pessoas muito boas, muito virtuosas. Isso acho perfeitamente corresponde ao conjunto das fotos dela que ela passou por sofrimentos que normalmente brutalizariam uma pessoa.)
Isso.
(Sr. Nelson Fragelli: Essa doçura e essa conjunção de coisas tão diversas, de características tão diversas é que a gente nota uma superioridade.)
Acho inteiramente isto. Isso vamos dizer que está no âmago da alma dela, não é?
(Cel. Poli: É. Porque é surpreendente ter passado pelo que ela passou e não ter se embrutecido em nada…)
Nada, nada, nada.
(Sr. Nelson Fragelli: E a bondade!)
Pelo contrário, uma generosidade, uma afabilidade, uma, — no melhor sentido católico da palavra — uma caridade do outro mundo, não é?
(Cel. Poli: Isto é algo de estupendamente fenomenal.)
É. Não, depois outra coisa: não se tendo conhecido a ela, pelo menos em fotografia, não se tem idéia de como era. Porque M. Emery deformou de tal maneira a sentimentalidade católica, que eu tenho certeza que vocês não conheceram uma senhora de sacristia dessas comuns, que tivesse qualquer coisa de comum com isso. Era uma outra coisa.
* Ela tinha um sono profundíssimo, calmíssimo, de uma inocência modelar
(Sr. João Clá: Para nós era indispensável ter conhecido, ainda que por fotografia, o que seja, uma senhora assim para poder entrar no Reino de Maria, para saber o que é uma senhora, porque nós não conhecemos…)
Não, e nesse sentido ter convivido com ela era uma graça, não é? E daí isso explica também aquela torrente de carinhos com que eu cobria a ela, não é? Desde manhã até a noite, de todos os modos, etc., etc., era por isso: essa consonância, e essa doçura…mas uma doçura que era preciso ter conhecido, ouviu?
Depois, essa posição acompanhava-a até dormindo. Eu inúmeras vezes a vi — todo filho vê a sua mãe dormindo, não é? Em todas as idades, em todas as horas do dia, quando doente, às vezes dorme durante o dia, à noite está indisposta, dorme, adormece um pouco, volta ao quarto para saber… essas coisas todas, não é? — inúmeras vezes a vi dormindo. Mas desde pequeno, quando eu tinha talvez uns cinco anos, ou mais, eu dormia no quarto ao lado do quarto dela, mas ela deixava a porta do quarto aberta, para eu poder chamá-la durante a noite. Eu acordava às vezes um pouquinho durante a noite, e dormia logo depois. E quando acordava, eu ouvia a respiração dela. Vocês precisavam ver como era: compassada, profunda hummmmmm, ela respirava, parecia que estava fazendo exercício de respiração. Ela respirava até o fundo, expirava… com uma regularidade de cronômetro, e uma seriedade de organismo que respira até o fundo, que expira o ar que deve expirar, tátátá. A gente vê que o sono dela era um sono profundíssimo, calmíssimo, e de uma inocência modelar.
* A aristocracia da São Paulinho
(Sr. Gonzalo Larrain: Aí que está. Uma pessoa inocente, completamente inocente, não é?)
Mas modelar!
E todos esse traços depois vão se reportando, vão se prolongando.
Aqui ela está moça, moça feita. E num período em que ela freqüentou muitíssimo a sociedade. Mas a sociedade que ela freqüentou não é nem um pouco a de hoje em dia. É daquele livro que o Mário Navarro andou folheando, olhando, não me lembro bem, é uma sociedade de uma pureza, de uma castidade, de um aristocratismo… São Paulo teve quase o seu Boulevard Saint-Germain, de tal maneira era aristocrático, não é? E ela freqüentou muito.
Então aqui vocês vêem que alguma coisa da suavidade e de uma certa doçura social reveste a doçura do temperamento.
* A expressão social de uma alma católica
(Cel. Poli: Não entendi. Alguma coisa da…?)
Doçura social, mas de uma pessoa habituada às amabilidades que a gente aprende freqüentando a sociedade, não é? Mas que eram — porque a polidez católica é isso — eram a expressão social de uma alma católica.
Eu estou lendo, por exemplo, um carteio da Madame de Maintenon, esposa morganática de Luís XIV, com a princesa de Ursin — era uma princesa Ursinni, que eles traduziam para Ursin — que era uma espécie de camareira maior da Rainha da Espanha. Nas cartas delas as amabilidade que trocavam, mas duas mulheres, duas harpias, mas a forma como elas se tratavam, de uma doçura, de uma suavidade, que é a civilização católica, que a gente vê que era o formulário católico de almas que não eram mais católicas. Era a douceur de vivre do Ancien Régime.
Bem, mas a gente pode conceber então que esse formulário fosse usado por uma alma católica e que encontrasse nisso a sua expressão. Aí vocês encontram a idéia da moça. Quer dizer, era muito leve, muito graciosa,…
* Um chapéu tão leve que está quase voando
(Sr. Gonzalo Larrain: A segunda de chapéu?)
A de chapéu.
… muito leve, muito graciosa, amável, mas com um chapéu que certamente causa estranheza em vocês: é um chapéu de palha que representa ligeiramente o chapéu de uma moça que esteve passeando no campo. Ficção. Com certeza era um chapéu francês, porque toda moda naquele tempo era francesa. Então tem — feito de veludo ou de qualquer outra coisa — flores e outras coisas, que fazem parte do ornato e que são presas ao chapéu. E o chapéu deve dar idéia de um chapéu tão leve que está quase voando. Era a idéia.
(Sr. –: Impressionante!)
Como?
* Uma mulher que não vive para ter prazer nenhum, senão para facilitar e alegrar a vida dos seus
(Sr. –: Impressionante!)
Bem, agora, o cabelo, vocês estão vendo, preto completamente e muito abundante, é uma cabeleira grande. E que ela tinha e que vinha quase até os pés. Que é próprio da mulher brasileira, e ficava feio cortar o cabelo. Esses cabelos aparados de hoje, não se pensava nisso, não é? E vocês percebem que o cabelo está arranjado com muito cuidado. O vestido é um vestido tipo Belle Epoque, com as mangas ligeiramente bufantes. Na primeira fotografia as mangas estão muito bufantes. Nesta aqui a moda já mudou: as mangas bufantes estão desaparecendo, tem apenas restos. Mas notem como o busto está protegido, o colar de pérola cobre a coisa vem até em cima. E muito puro, tudo.
Bem, toda vestida de branco, mas com ornatos e coisas as mais, assim mais delicadas e femininas. O ideal da mulher que trabalha em escritório não está presente aqui nem um pouco…
[Vira a fita]
…deve ser antes de tudo afável, agradável, amável, deve ser a alegria dos que estão em casa, deve ser a confidente dos que estão em casa, para acolher todas as dores, todas as tristezas, dar lenitivo, etc., etc., é a mulher que não vive para ter prazer nenhum, senão para facilitar e alegrar a vida dos seus. Isto era a concepção dela, que ela fazia.
(Sr. João Clá: É uma espécie de reflexo tanto na primeira quanto na segunda fotografia, um reflexo do Sagrado Coração de Jesus, que é uma coisa impressionante.)
Uma seriedade… no meio de toda essa leveza, você encontra no olhar uma seriedade extraordinária.
(Dr. Edwaldo Marques: Ela parece posta num outro mundo aqui não é?)
Como?
* Um olhar de transesfera e tendente ao sobrenatural
(Dr. Edwaldo Marques: O olhar aqui dá idéia de que ela está posta num outro mundo.)
Num outro mundo! Ela está cumprindo completamente os deveres dela aqui, mas o olhar está no outro mundo: é um olhar de transesfera e tendente ao sobrenatural, que condiz muito bem, hein!, com a atmosfera da Igreja do Coração de Jesus, mas condiz perfeitamente bem.
Bom e aqui é uma fotografia mais ou menos da mesma época, em que vocês a vêem sem chapéu…
(Sr. Gonzalo Larrain: Eu tenho a impressão que esta é do matrimônio. Dr. João Paulo está ao lado dela.)
É, um pouco posterior, você tem razão. Agora, vocês notem que ela está penteada com muito cuidado. Bem e que o vestido, o traje seja o mesmo, ou é muito parecido.
* A distancia em relação as coisas
(Sr. Guerreiro Dantas: Não, é diferente Senhor Doutor Plínio! )
Como?
(Sr. Guerreiro Dantas: O traje é bem diferente do outro.)
É diferente?
(Vários falam)
Ah,é diferente sim. É diferente. Agora, vocês vêem uma espécie de distância das coisas, ao mesmo tempo em que ela está completamente posta no meio desse mundo, etc., enfim cumprindo os deveres de sociedade com uma distância fabulosa das coisas.
(Sr. Guerreiro Dantas: E depois no dia do casamento normalmente a moça tem uma alegria, não é?)
Aqui está a tristeza…
(Sr. Gonzalo Larrain: Aqui não tem nada disso não!)
Nada.
(Sr. Guerreiro Dantas: Dá a impressão que ela está abraçando uma cruz. É impressionante.)
Isso. E foi! O pai dela se sentia muito doente e ela percebia, o pai percebia também, que ele morreria logo. E ficava o problema do que seria dela, quando ela era solteira.
* Dr. João Paulo como advogado no interior de SP; como ele pediu em casamento a Senhora Dona Lucília
(Cel. Poli: Era a única solteira?)
Era a única solteira. E ela via que a vida dela solteira, solteirona, seria uma vida muito triste de acordo com as circunstâncias da família. E ela tinha ficado noiva do meu pai. Mas é desses casamentos arranjados, não é? Meu pai era advogado no interior aqui de São Paulo, São Manuel, ele tinha sido educado com muita riqueza, porque minha família paterna era muito rica, no tempo dos esplendores dos senhores de Engenho — até bobos da corte eles tinham, aquilo tudo — uma verdadeira corte lá no Engenho do Uruaé.
Mas, veio à descoberta do açúcar de beterraba pelos alemães e isto quebrou o açúcar natural, o açúcar da cana ficou completamente quebrado. Aquelas famílias todas tiveram uma verdadeira ruína. E ele veio trabalhar em São Paulo, como advogado. Aqui teve não sei que histórias com a família Rodrigues Alves, que era meio feudatária lá de Botucatu, — São Manuel e Botucatu são cidades mais ou menos na mesma zona — saiu brigado com os Rodrigues Alves, e parece que os Rodrigues Alves fizeram ameaças a ele, entende? E que ele ficou apavorado, fugiu! Ele tinha um instinto de conservação muitíssimo vivaz!
Eu me lembro que muitos anos depois, muitos anos depois — eu até ignorava estas coisas — muitos anos depois eu tinha sido eleito deputado, encontrei o Oscar Rodrigues Alves, que era meu colega como deputado, na rua Líbero Badaró, esquina com Viaduto do Chá. E ele me parou para começar a conversar, e eu achei que deveria dar a ele a conversa que ele quisesse, achando paulérrimo!.. mesmo porque toda a vida eu detestei de ficar em pé. E conversa na rua, dois em pé, é coisa que eu não fazia. Mas ali a polidez obrigava a…
Bem, quando afinal o Oscar Rodrigues Alves se desgrudou — ele era muito mais velho de que eu, quem tinha que se despedir era ele e não eu — quando afinal desgrudou, pouco depois aparece papai… e me disse:
— Afinal o Cacá largou de você hein?
Eu disse:
— Mas onde é que o senhor estava, papai?
— Estava ali!
— Eu não vi o senhor; por que o senhor não veio falar conosco?
— Eu detesto esse Cacá! Por causa de coisas que ele me fez no passado, não sei o que, não sei o que, está compreendendo?
Quer dizer, ele ali não quis aproximar-se do Cacá. Não sei o que é que ouve dele com o Cacá, mas foi isso.
E ele aí conheceu mamãe, e ele tinha… naquele tempo vocês não fazem idéia, mas a glória de ser sobrinho do João Alfredo era uma coisa especial, entende? A glória de ser parente daqueles grandes homens de Estado do Império, do Visconde de Ouro Preto, do Joaquim Nabuco, do João Alfredo, dessas coisas, era uma coisa que brilhava no sujeito — olha que meu pai era sobrinho, não era filho —, mas brilhava no sujeito.
Ele pediu em casamento minha mãe, filha de um monarquista militante, destacado, etc., etc. E minha mãe… o meu avô aconselhou aceitar. Minha mãe contava que nas vésperas do casamento ela sentia um tal alheamento entre meu pai e ela, que nas vésperas do casamento ela procurou meu avô e disse: Papai, não seria melhor eu ficar freira? Eu desistia desse casamento e ia ficar freira numa ordem religiosa que tinha ali perto, onde ela tinha uma amiga que era filha ou sobrinha do Conselheiro Antonio Prado.
Ela disse:
— Eu entro lá e — idéia ingênua de ordem religiosa — fulana me ajuda a dar os primeiros passos lá.
O meu avô pensou um pouco e disse:
Mas por quê? Ele conversa tão bem, é tão agradável, etc.
Diz ela:
— É verdade. Mas é só a família sair da casa, eu ficar sozinha com ele, que nós não temos o que nos dizer, porque não temos afinidade de alma nenhuma. Ele é amável, é simpático, eu vejo que ele me acha simpática também, o pedido dele de casamento está de pé, mas afinidade de alma eu não tenho nenhuma. Nesse caso não era melhor eu ficar freira?
Meu avô disse:
— Espere um pouquinho que eu vou aconselhar você.
E pensou um pouco. Depois disse:
— Minha filha, não. É melhor você se casar com Dr. João Paulo.
(Sr. João Clá: Ainda bem!)
Hahaha!
(Todos: Foi o suspense da história!)
O meu avô, — ela tomava… a veneração que ela tinha por meu avô era uma coisa incrível — meu avô disse, estava tudo dito. Então, casou-se, não é? Mas este estado de espírito se traduz aqui.
(Vários falam)
(Sr. Guerreiro Dantas: É inacreditável, não é?)
Como?
(Sr. Guerreiro Dantas: É inadmissível que uma pessoa exatamente nas vésperas do casamento, com a perspectiva do casamento exprimisse esse estado de alma.)
É, mas é isto, não é? Agora, eu não me lembro da fotografia que ele vem ao lado, com certeza está sorrindo.
* O sacrifício resolvido
(Sr. João Clá: Ele está olhando para ela.)
Olhando para ela? É mais amável. Você vê, ele era perfeitamente amável. É perfeitamente amável. Eu nunca os vi discutirem, mas não se entendiam para nada, não é? Formavam um lar feliz, um lar tranqüilo! Tranqüilidade espantosa, mas não era um lar feliz, ainda mais para quem imaginava as coisas à la Georgina. Vocês podem imaginar.
(Dr. Edwaldo Marques: O olhar traduz muito o sacrifício, não é?)
Sacrifício resolvido! Resolvido, com uma força de vontade extraordinária, e um senso de análise muito grande. Não sei se vocês notam que essa menina aqui, do inicio, não analisa nada a não ser a transesfera. Aqui não: já analisou a vida e já conhece tudo. E entre a moça do chapéu, e esta senhora casada aqui, essa noiva aqui, há exatamente… o que passou! Aí vocês compreendem o itinerário espiritual.
* A aceitação da cruz com boa vontade
(Sr. Gonzalo Larrain: Que magnífico Senhor!)
Não é? É preciso ver um pouquinho a hora!
Bom, agora aqui, ela está inteiramente posta dentro da batalha da vida. Resolvida, decidida, começou a lutar e está na luta. Mas não é uma luta mal humorada, não é luta nada disso. É uma luta mais sobre si para aceitar a cruz da boa vontade, do que… não é uma luta contra os outros para darem a ela aquilo que ela tem direito. É uma luta sobre si para caber na própria cruz e carregá-la.
(Sr. Guerreiro Dantas: É mais isto Senhor Doutor Plínio?)
É.
(Sr. Guerreiro Dantas: Ficava um pouco com a impressão que ela aqui tinha constituído já uma personalidade…
Ah, muito adquirida.
* Uma pessoa que sorveu a taça que tinha que sorver
(Sr. Guerreiro Dantas: … que ela encontrava recursos para tocar a frente tudo aquilo que ela via que era necessário fazer.)
Pois é, mas mais do que isso é uma boa vontade de fazer e espírito prático, concreto, que completa enormemente a mocinha sonhadora do começo. Eu estou preocupado em empenhar, em manifestar o itinerário. Quer dizer, os sacrifícios que ela previa nessa fotografia de recém-casada ou de noiva foram…apresentaram-se. E ela sorveu a taça que ela tinha que sorver.
(Sr. Gonzalo Larrain: Está magnífico, Senhor!)
Agora, o olhar continua posto na transesfera, um olhar muito sério.
* Os enormes sofrimentos que ela passou durante a operação na Alemanha
(Dr. Edwaldo Marques: Muito sereno também.)
Sereno. Sempre a mesma serenidade, mas uma animação para a vida, não é? Ela está resolvida a levar a cruz dela até o fim.
Bom, agora aqui, ela tinha acabado de passar por sofrimentos enormes: aquela operação na Alemanha que ela quase morreu… eu contei a vocês que a bordo chegaram a preparar o caixão dela, porque ela ia morrer de um momento para outro. Eram pedras no fígado, e naquele tempo não havia os remédios para dissolver pedras no fígado, etc., não tinha. E as dores que ela sentia eram tão atrozes, que ela não podendo se agüentar ficava às vezes em pé na cama, no beliche do navio, não é, encostada assim junto à parede, em paroxismos de dor… depois eu acho que a pedra passava, aquilo diminuía, ela deitava, descansava, etc. Mas depois vinha de novo. Ela estava num estado…
Bem, ela tinha passado por essa operação; ela tinha tido vários aborrecimentos, maus tratos no hospital, brutalidades etc., etc. e ela tinha depois passado para a França. Mas aqui vocês notam que há qualquer coisa que entra de novo. Ela está… Comparem a decisão dessa fotografia, revela saúde. Bem, esta fotografia aqui tem o langor de uma pessoa que passou por muita doença e que está em estado de convalescença, está se recompondo. Bem.
* O raffinement francês; uma delicadeza de alma extraordinária
(Sr. Guerreiro Dantas: Cabelos brancos um pouco.)
(Sr. Gonzalo Larrain: Já ficou grisalha?)
É, exatamente, ela começou a ficar grisalha aí. E depois a coisa terrível, quer dizer, digo mal, coisa muito sintomática, que ela está em Paris e está fazendo o possível para se beneficiar, enriquecer-se, completar, com o afrancesamento. E aqui ela está muito mais afrancesada do que nas fotografias anteriores. Comparem com a fotografia dela mocinha, ela está muito mais afrancesada, aqui. Mesmo essa fotografia dela recém casada, é uma brasileira a cem por cento. O raffinement francês aparece muito mais aqui.
(Sr. Guerreiro Dantas: Naquela fotografia dela em mocinha, Senhor Doutor Plínio que a gente sente muito, é uma forma de delicadeza de alma,realmente é uma coisa assim excepcional totalmente.)
A delicadeza, a delicadeza da atitude física do corpo… ah, delicadeza de alma extraordinária, mas que você se encontra aqui também. O gesto, a posição, o traje, tem muita delicadeza. Mas é uma delicadeza muito de alma, que toma a influência francesa pelo que tem de melhor, de mais delicado, que se assimila a isso. Mas não é do lado fútil de uma mulher que quer…enfim, que quer ser uma faceira, não é isso não. Olhem o olhar, olhem a mão aqui: o olhar está longe, o pensamento está longe… ela está completamente — dentro dos recursos financeiros de que ela dispunha, que não eram grandes — ele estava completamente posta como uma senhora para uma fotografia de gala; naquele tempo ainda havia gala.
* Uma distinção que serve de suporte a uma bondade enorme
(Sr. Gonzalo Larrain: Muito distinguida, Senhor, muita distinção.)
Muita distinção, muito mais distinção do que riqueza.
(Sr. Gonzalo Larrain: Meu Deus! Evidente, muito mais.)
Mas você olha, essa distinção é uma distinção que serve de suporte a uma bondade enorme, e a mesmíssima elevação de alma da mocinha solteira que nós vimos. Não sei se notam isso.
(Sr. Mário Navarro: O vestido é extraordinário, não é?)
É, eu gosto muito. Não estranhem o banco. Naquele tempo se usava muito banco de madeira pintado de branco, era banco de jardim, estas coisas. Aqui é banco do fotógrafo.
(Sr. Nelson Fragelli: O cenário no fundo são árvores, uma neblina é para significar um jardim mesmo.)
É. É banco de jardim, tinha muito em jardim esse banco.
Bem, aqui é um pouquinho depois…
(Sr. Gonzalo Larrain: Doutor Plínio, uma coisinha. Mas sempre até agora a gente vendo o olhar dela é um olhar como quem olha um ponto determinado sempre, não é?)
É isso, sim.
Que no fundo é Deus. No fundo é Deus. Deus, ou seja, Nosso Senhor Jesus Cristo.
(Sr. Gonzalo Larrain: Não sai de um determinado ponto.)
Não sai.
(Sr. Gonzalo Larrain: Ele pode ir… digamos sendo endurecido, maturado, forçado, compreendendo mais coisas, mas desse ponto fixo, não sai nunca. Nenhuma fotografia sai.)
Não sai. E já na fotografia da mocinha o que você tem é isso.
* Nosso Senhor para ela era a chave de cúpula de tudo
(Sr. Gonzalo Larrain: Pois é. Agora isso,… como o senhor dizia, não é Deus diretamente…)
Não. É nas coisas, na vida, nas almas, nos ambientes, etc., mas terminando em Nosso Senhor Jesus Cristo mesmo, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, feito Homem.
(Sr. Gonzalo Larrain: Agora, isto era sempre, sempre, sempre assim?)
Ah, sempre.
(Sr. Gonzalo Larrain: Dia e noite ela estava colocada nesta perspectiva.)
Ah, dia e noite nesta perspectiva. O que não era sempre explicito em Nosso Senhor Jesus Cristo, mas Ele era a chave de cúpula de tudo.
(Sr. Gonzalo Larrain: Sim mas o olhar estava sempre nesse ponto.)
Ah, isto… até velha com catarata, com olhar, portanto, muito deformado, etc., etc., etc., porque a catarata você sabe o que é, não é? É uma doença. Bem apesar de tudo, lendo com dificuldade, etc., etc., o olhar era este. A solis ortu usque ad occasum, desde o acordar até o dormir, o olhar era esse! Sozinha, você entrava no quarto, olhava para ela, ou no escritório meu, olhava com esse olhar.
* Um misto de fé, de bondade, de dignidade e de senso conatural da hierarquia das coisas
(Sr. Gonzalo Larrain: Sim Senhor. Esse olhar, não sei se hoje, o senhor podia explicar um pouquinho mais o que ela propriamente estava olhando. Acontece que estava olhando tudo é verdade, mas ela tem que olhar as coisas de um determinado ângulo, não é, que era o ângulo dela, propriamente.)
É, este ângulo é um ângulo que você encontra expresso naquela imagem do Sagrado Coração de Jesus que tem no quarto dela. Aquela imagem também está olhando para o mesmo ângulo, que é um misto de fé, de bondade, de dignidade, de um senso inato, por assim dizer — não há idéias inatas… conatural, aí está a idéia — um senso conatural da hierarquia das coisas como se põe, mas também da hierarquia dos sentimentos, da hierarquia do que deve a cada um, etc., com muita paz, muito amor e muita tranqüilidade. Isto era o… a forma de virtude dela.
Bom, aqui é a mesma coisa, o mesmo olhar… agora, esta fotografia não é tão boa quanto a que está no meu quarto, no São Bento. Tem qualquer coisa que não dá o mesmo efeito daquela…
(Sr. Guerreiro Dantas: Agora, a nota de uma pessoa que teve a sua saúde abalada, se sente muito também.)
Muito. Que passou… umbra mortis circundederunt me, não é? E mais ainda: não sabe se vai ficar com a saúde boa.
(Sr. Guerreiro Dantas: É. Não está recuperada ainda aqui.)
Não está e não tinha certeza de se recuperar e não se recuperou a vida inteira. Ela viveu muito, com muito método, mas ela — para usar uma expressão do avô do Luisinho,— era preciso muita saúde para ter tanta doença, para agüentar tanta doença.
(Cel. Poli: Ou seja, muita força de alma, não é?)
Agora, aqui, olhando mais de perto, a força de alma aparece mais. Porque o olhar fundamentalmente, é daquela moça, mas a vida vai triturando não é? Mas triturando. Agora aqui…
* Alguma coisa da paz da eternidade já vinha de encontro a ela
(Cel. Poli: Agora ela aqui Doutor Plínio, nessa ocasião ela já tinha passado muitas provações na linha do relacionamento com as pessoas, ou foi mais tarde?)
Não. Ela mais pressentia. Ainda é um misto de muito sofrimento, muita decepção e muito pressentimento de que viria mais, não é?
Agora, aqui começa o que se poderia chamar de ite missa est.
(Vários falam.)
Quer dizer, ela está… se não me engano foi a festa da inauguração do “Legionário”, ouviu? Das oficinas do “Legionário”. Ela está vestida para uma solenidade, para uma meia solenidade, não é para uma grande solenidade como as anteriores, para uma meia, um ato social, vestida para um ato social. Mas com uma paz, com o sofrimento de quem já começou, o grosso do sofrimento estava engolido, o grosso do sofrimento, alguma coisa de paz da eternidade já se adiantava rumo a ela. Não sei se vocês notam que ele está muito tranqüila… agora, o olhar elevado também. É a mesma elevação.
(Sr. Nelson Fragelli: Aqui eu tenho a impressão, dado a devoção ao Sagrado Coração de Jesus sobre o qual o Senhor dizia, aqui me dá a impressão de que ela se sente muito observado por Ele. Não só ela olha, eu acho que ela estando sempre na presença d’Ele, rezando como o Senhor a encontrava à noite, madrugada quando voltava em casa, evidente que ela tinha que saber que Ele tinha desígnio em relação a ela. Donde essa impressão, esta foto me… ela se sente olhada. E por que por Ele? Porque ela procurou entrar em harmonia com Ele)
Ah foi, inteiramente. Depois, não é procurou. Ela aceitou a harmonia que era conatural a ela com Ele.
Agora, aqui tem outra coisa ouviu, Nelson? Aí…
(Cel. Poli: Isso é santidade. Só, só santidade.)
Como?
(Cel. Poli: Só alta santidade pode conciliar estas duas coisas.)
É, e ela conciliava, a meu ver, de modo perfeito.
(Cel. Poli: Revela uma tal superioridade de alma…)
Ah, completa. E aqui ela se sente muito o seguinte… de dar tudo quanto é razoável dar.
(Sr. Gonzalo Larrain: Quando ela estava com o Senhor, por exemplo, quando ela estava e tratava com o Senhor evidentemente que o olhar dela era diferente, ou não?
Ah, muito diferente…
* O apoio possante que eu lhe dava
(Sr. Gonzalo Larrain: Aí era outra coisa. Continuamente esse olhar…)
Isso. É, continuamente, continuamente. E depois ela sentia um apoio possante em mim, não é? Porque eu intervinha às vezes à la elefante, não é? discretamente, mas vamos dizer, eu entrava num lugar onde estava ela, eu dava “n” distinções a ela, não é? Por cima de qualquer pessoa, de qualquer coisa, etc., etc., enfim de tal maneira, mas de tal maneira que era uma coisa que, se não fosse muito afetuosa tendia ao brutal, entende? E que as pessoas engoliam porque não tinha remédio, entende? Mas ficavam… mas ela naturalmente se sentia apoiada possantemente, não é?
* Para além do sofrimento
Por exemplo, todo esse décor daqui de casa, era um apoio a ela. Evidente.
Bom, aqui que ela está com o Adolphinho e Tereza.
(Vários falam: extraordinária, sofrimento tremendo)
Aqui ela já está para além do sofrimento, já engoliu todo, mas está presente. Ela está, por assim dizer na cruz.
(Sr. Gonzalo Larrain: E ela aqui eu acho que está ouvindo uma conferência do senhor.)
Se não é minha, é de algum outro.
(Cel. Poli: É do Senhor sim.)
Ele está acompanhando a conferência, está arranjando um pouquinho um cachecol, uma coisa assim que ela tinha, que, aliás, tinha sido dado a Rosée, eu me lembro desse objeto, muito bonito. Era uma seda com várias cores, etc., etc.
(Sr. Gonzalo Larrain: O olhar está posto…)
Ah, sempre, sempre.
(Sr. Gonzalo Larrain: Cada vez que penetrava mais a fundo.)
Depois, ela está subindo ouviu, e mais distante das pessoas.
* Na extrema ancianidade, uma espécie de matriarcado do afeto
(Sr. Gonzalo Larrain: Pois é. Cada vez mais distante. O ambiente para ela está longínquo. Não tem nada a ver com o ambiente.)
Longínquo. Ah, longínquo, completamente longínquo.
Agora aqui…
(Sr. Gonzalo Larrain: Aqui é uma rainha, por exemplo. Exatamente uma rainha, não sei que de um país x se pode dizer. Essa é propriamente uma foto régia mesmo. Está especialíssima distinta. Ela era muito distinta já…)
Não, mas a distinção dela foi crescendo com o tempo, ouviu? E aqui é extremamente, a extrema ancianidade dava a ela isto, uma espécie de matriarcado do afeto, ouviu?
(Sr. João Clã: Que fantástico! Fenomenal!)
(Sr. Guerreiro Dantas: Mas também uma respeitabilidade, uma seriedade enorme!)
Ah, enorme!
(Sr. Gonzalo Larrain: E aqui nesta aparece muito isso. Aparece o afeto, mas também aparece muito a força.)
Sim, sim. É uma pessoa para usar uma expressão, para usar uma expressão de Saint Simon, elle se sent, ela sentia quem era.
(Sr. Gonzalo Larrain: Exatamente. Sentia e ser sentido.)
E fazer-se sentir, isto não tem dúvida nenhuma.
(Sr. Gonzalo Larrain: Eu acho esta foto régia, uma foto…)
Depois, o equilíbrio de alma aqui uma coisa fantástica.
Bem, e aqui minutos depois, não dias depois, na casa da neta dela, brincando com o menino no jardim. É o mesmíssimo estado de espírito. Mas o mesmíssimo: ela está brincando, etc., etc., mas…
(Vários falam)
E aí se situam coisas que eu não posso contar, entende?
(Sr. Gonzalo Larrain: Mas é uma coisa extraordinária, magnífica, Senhor.)
Aqui por exemplo, é também a mesma ocasião, mesmo chapéu, etc.
(Vários falam)
(Cel. Poli: É a mesma fotografia, ela só levantou o olhar.)
Talvez isto… não, acho que esta outra fotografia estava no jardim, esta aqui é dentro da casa. Mas é a mesma ocasião, a mesma coisa. Ela está sorrindo, etc., etc., mas uma maîtrise de soi absoluta. Não é?
E voltamos ao ponto de partida…
* Ela amava o valor moral que há em ser quem ela era
(Sr. Gonzalo Larrain: Podia fazer uma pergunta?)
Quantas você queira.
(Sr. Gonzalo Larrain: Evidentemente é a Igreja quem deve se pronunciar sobre isso, etc., etc., mas para nós ela é uma senhora santa. Agora, as santas que houveram no passado, são apresentadas como santas, e o eram, porque se despojavam do aspecto temporal delas. As próprias Rainhas santas, são santas porque se despojaram do aspecto temporal delas. Isto é uma coisa que a "heresia branca" apresenta, mais ou menos como pedindo desculpas por ser rainha.
Aqui se vê o contrário. Ela tem uma elevação própria da santidade, mas uma afirmação muito grande [de] quem ela é na ordem temporal.)
Isso entrava numa consonância com a virtude dela inteiramente. Quer dizer, isso era um elemento integrante da virtude dela. Ela sabia quem ela era, e amava o valor moral que há em ser quem ela era.
(Sr. Gonzalo Larrain: Este modo de ser dela serve para equilibrar toda uma série de padrões errados que haviam no passado, a propósito da perfeição.)
Ou pelo menos apresenta um tipo de vocação muito pouco freqüente antes — é uma hipótese, por alguns lados, não por todos os lados, mas por alguns lados, eu tenho mais simpatia por esta hipótese — muito pouco freqüente antes.
* A união da ordem espiritual com a ordem temporal
(Sr. Gonzalo Larrain: Muito TFP ela, não?)
Totalmente TFP. A TFP é isto! Quer dizer, ela representava o seguinte: se ela estivesse viva no tempo da plena definição da TFP, nós a poderíamos apresentar como um padrão do que nós achamos da união da ordem espiritual com a ordem temporal. E que as santas anteriores que nós conhecemos não têm nada que colide com isso, mas não aponta especialmente para esse ponto.
(Sr. Gonzalo Larrain: O senhor dizia que Carlos Magno deu ao senhor o gáudio da totalidade. A gente vê que ela aqui tem essa totalidade.)
É, tem.
(Sr. Gonzalo Larrain: Da ordem temporal também.)
Também.
(Sr. Gonzalo Larrain: Como o senhor olhando Carlos Magno disse que teve a sensação de totalidade.)
É, e ela a seu modo tinha isso. Tinha isso, perfeitamente, é isto. A meu ver está perfeitamente bem interpretado.
Meu João, foi uma coleção esplêndida!
(Sr. João Clá: São nove épocas diferentes, de maneira que são úteis para uma novena…)
Ahhh…hahaha!
* A diferença do sofrimento que foi pedido a Chiquinha do Rio Negro e a Senhora Dona Lucília
(Sr. Gonzalo Larrain: Há uma foto entre esta foto de Paris e esta daqui…)
Aqui é uma foto dela exatamente numa idade intersticial… eu tenho, eu tenho, creio que está naquela gaveta da mesinha redonda do escritório. E que propriamente é a dor levada ao último ponto. Você veja, uma pessoa do tempo dela que ela não conheceu, nunca ouviu dizer que existisse, e que eu acho também — a fortiori nunca ouviu dizer que ela existia — que era a Chiquinha do Rio Negro era mais rica do que ela, e de um tipo de brasileiros que no Brasil quase não conhecia, e que eram brasileiros riquíssimos, que com a proclamação da república foram morar na Europa, para fazer corte à Família Imperial. Esta era a família da Chiquinha do Rio Negro. Portanto, de um padrão mais alto do que as famílias [que] moravam em São Paulo.
Senhora lindíssima! Bem, ela tem atitude como você diz, está saindo para formar uma ordem religiosa. Bem, e que não tem nada de dama. Ela é uma linda freira, como por exemplo, Santa Teresa do Menino Jesus era muito bonita, mas não tem nada do que a ordem temporal continue representada nela. Ela se despojou completamente da ordem temporal.
Não é o que se pediu a mamãe. A mamãe se pediu que ela agüentasse a posição espinhosa de enfrentar a ordem temporal criando um padrão que a ordem temporal rejeitaria.
Bom, e a nossa vocação tem muito disso. Porque se todos nós tivéssemos ficado, por exemplo, padres agostinianos, vamos dizer, para fazer propaganda da Sagrada Correia, o Mário Navarro teria tido cada noite escura…
(Sr. Gonzalo Larrain: Difundir a Correia em Washington.)
É, exatamente. Até os protestantes, Eliane Roosevelt, iriam pedir para ele a Sagrada Correia, etc., etc., iria por aí. Mas, mas, mas, mas, não seria absolutamente o sacrifício que nós fazemos. A nossa posição de leigos que nós mantemos dentro da cidadela, e que dizemos para a cidadela: “Vocês estão errados”, essa era uma posição de muito mais sacrifício do que nós sairmos e ficarmos fora, uns frades que… isto não teria a menor oposição. No Chile então, nem sei! Não é?
* Ninguém mais clerical do que nós e somos acusados do contrário
(Sr. Gonzalo Larrain: Muito mais fácil.)
Muito mais fácil. Mas não é isso. A nossa posição é pior ainda, porque nós parecemos revirados contra toda a estrutura. Nós que somos os fiéis, os fiéis por excelência, acabamos tomando os ares da infilidade. Ninguém mais clerical do que nós, e um D. Mayer nos acusa de anticlerical!
(Sr. Gonzalo Larrain: Tem um pulchrum único na história.)
Único. Agora, que envolve coisas horríveis. Por exemplo, — e eu termino com isso — o padre do Coração de Jesus. Nosso pessoal vai tanto fotografar lá, que o padre fez suas relações com eles. Mas o padre está precisando de muito dinheiro para restaurar muita coisa lá. E então me escreve uma carta pedindo dinheiro. É a primeira vez que os reitores do santuário tomam conhecimento da minha existência, desde que saiu o “Em Defesa da Ação Católica”. Ali só houve um fato, uma vez, que foi um Arcebispo salesiano, D. Orlando Chaves, que fez aquele sermão que você que conhece, e mais nada. Não tomaram nenhum conhecimento da nossa existência.
Quando precisou de dinheiro, o padre escreveu uma carta, que me foi lida hoje quando eu caminhava para Jasna Gora.
(Sr. João Clá: Aliás, fato tocante. No momento em que a Igreja está rachando, a única pessoa capaz de manter aquilo é o senhor.)
Ele diz isso. Diz isso. Agora então é o “católico íntegro, impoluto, fidelíssimo, eu peço…”. É assim, entende? Quer dizer, o único reconhecimento dessa condição da parte do clero de São Paulo, na gosma do precisar de dinheiro, no cheiro de dinheiro, no mau odor do dinheiro.
(Dr. Edwaldo Marques: Saiu uma reportagem no “Catolicismo” sobre o Sagrado Coração de Jesus e eles se manifestaram?)
Nada! Em outras ocasiões, Marcos, só falta nos pôr fora.
* Alguns assuntos de ordem prática
(Sr. Gonzalo Larrain: Eles mandam embora mesmo.)
Uma desconsideração enorme. Enorme. Bem, mas agora na hora do dinheiro eles vêm com isso. E então reconhecimento da fidelidade à Igreja, nunca desmentida ao longo da minha vida, etc. Então pede que eu… aliás, eu vou guardar esta carta com muito cuidado, muito cuidado. Bem, e a imagem está precisando ser dourada toda. Imagem da torre, de metal, é folheada a ouro. E o ouro foi dado pela Condessa Pereira Pinto que era casada com um Prado aqui, ela era Prado, esse Pereira Pinto não sei quem era, casou com ela. Era gente muito rica.
Agora que esse ouro, com intempéries, etc., está desaparecendo o folheado a ouro, e precisa folhear a ouro de novo. Então eu vou sugerir ao padre que escreva uma carta — primeiro eu vou sondar o Adolphinho — à CAL, para de um modo propagandístico a CAL fazer a reconstrução. É um bonito modo de ela se reapresentar diante do público, depois de encerrar a concordata.
Bom, e depois falo com um jornalista que ainda mora naquele bairro, que é daqueles antigos tempos — aquele Tavares de Miranda, que tinha uma secção social — para obter dele, e obteria com o Frias, a publicação de toda uma reportagem sobre essa Igreja, e com os nomes das pessoas que colaboraram para a Igreja, e essa coisa toda. De maneira que fizesse um apelo aos descendentes dos benfeitores, para que dessem dinheiro para restaurar a Igreja.
(Sr. Gonzalo Larrain: De repente vão reformar a Igreja.)
Não, não. É restaurar coisas que estão quebradas.
(Sr. Gonzalo Larrain: De repente começam a modificar coisas…)
Ah, não, leva a breca, vamos andando…
(Sr. Gonzalo Larrain: O senhor poderia pedir nas orações que ela nos unisse mais ao senhor, e que ela aceitasse ser nossa mãe, etc.)
Vou pedir, quando eu oscular o Quadrinho eu peço. Vamos rezar meus caros.
(Sr. Gonzalo Larrain: O senhor podia oscular para cada um?)
Melhor arranjar de um jeito, nessa ordem… assim osculo todas.
Há momentos minha Mãe…
Que Nossa Senhora lhe favoreça… ah, tal seria que alguém não falasse comigo, hein?
(Sr. Fernando Antúnes: Para o Sr. Carlos também.)
Ah, o Carlos! E quanto hein?!
Bem, vamos andando!
(Sr. –: Foi boa a reunião.)
Eu gostei muito.
(Sr. Mário Navarro: Foi a anti-Reunião de Recortes, no sentido de anticaos.)
Anticaos. Imaginem se passarmos a noite remexendo aquele caos…
(Sr. Mário Navarro: Esta foi a reparação pelo caos.)
Exatamente. Meus caros…
* * * * *