Conversa
de Sábado à Noite – 2/8/1986 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 2/8/1986 — Sábado [VF 46] (Neimar Demétrio)
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…natureza e o que ela deve abranger. E o que ela abrange…
(cortes na gravação)
…pelo qual a pessoa se transforma a si mesmo em ponto de referência da visão de todas as coisas. E em conseqüência tem interesse nas questões, na medida em que dizem respeito a si. Então, ela vibra, ela torce, ela tem suas simpatias, suas antipatias, e todo o seu dinamismo em torno desse pontinho minúsculo, que para ela toma o aspecto de um sol, que é ela mesma! Esta pessoa tem uma mentalidade acanhada, uma mentalidade sem envergadura.
Então, vamos dizer, uma pessoa que vai, por exemplo, numa reunião de qualquer natureza — social, cientifica ou qualquer coisa assim — e ali teria muitas coisas para apreciar, para olhar, para atacar, para apoiar, tem mil coisas. A pessoa sai de lá, quando ela entra no automóvel e vai para casa, em que aos poucos as idéias todas, a impressão daquele encontro vão se compaginando, formando página de um livro, a pessoa sai com a idéia dominante seguinte: “Fulano me fez tal elogio”; ou então: “Sicrano me fez tal crítica”. Sobretudo se bateu no ponto sensível, não é? então vem aquele “nó” ou aquele júbilo. Isto é uma pessoa de vistas acanhadas.
Bom, vocês poderão dizer: “Mas se ela for muito inteligente e abarcar muitas coisas, não é vista acanhada”. Em relação ao que deveria ser, ela, com os dotes que Deus lhe deu, as vistas são acanhadas. Porque o egoísmo toma necessariamente uma posição tão central que diminui forçosamente o campo do que a pessoa deveria ver, não é?…
(…)
…para o João, é o seguinte: assim como as grandes cidades têm seus riscos específicos, como a terra é um vale de lágrimas, as cidades do interior também têm seus riscos específicos. E na cidade do interior o perigo está exatamente nisso: é que os horizontes se concentram na periferia da cidadezinha. E na cidadezinha os “eus” se hipertrofiam; enquanto na vida de massa da cidade grande, a coletividade se hipertrofia mais do que o indivíduo, nas cidades pequenas do interior os interesses individuais transbordam de dentro de casa para a rua. E as pequenas picuinhas pessoais, briguinhas, coisinhas assim, transbordam e formam rios venenosos, quando não formam rios de… pantanais de inércia. E muitas cidadezinhas do interior vivem entre a inércia ensebada e a insuportável, e a efervescência fermentiva — também inaceitável — dos amores próprios, pequenas rivalidades, pequenas picuinhas.
Isto forma o seguinte: nessas pequenas cidades do interior que caiam nesta infelicidade — eu não estou afirmando que todas caiam — nas cidades pequenas do interior que caiam nessa infelicidade, isto forma o seguinte: uma espécie de ensebamento fermentado, contraditório, péssimo, que faz com que os espíritos mais largos queiram ir para a capital, ou para a cidade maior, centro urbano maior que domina da zona.
Bem, na capital eles vão com a idéia de que a cidadezinha deles do interior representava a tradição, e que tradição é esse sebo. E, pelo contrário, a capital representa o progresso. Agora, como progresso eles tomam Hollywood, com o barulho, bagunça, o ideal hollywoodiano de cidade, eles tomam como progresso.
Então, o demônio brinca com eles, entre o progresso e o sebo. E todo o resto vem daí. Países inteiros podem ser agitados por essa falsa alternativa.
Agora, o Gonzalo perguntou o quê? Então, meu Gonzalo?
(Sr. Gonzalo Larrain: Talvez o senhor tratar da questão envergadura, depois eu pergunto o que ia perguntar, porque talvez desvie o assunto.)
Agora, em Nossa Senhora… vamos dizer assim, vamos fazer a coisa de outro modo, de modo que ela [Ela?] fique sensível para nós o tempo inteiro. Nós não conservamos nenhuma imagem da figura física de Nossa Senhora, como conservamos de Nosso Senhor com o Sudário de Turim, não é? E a tradição católica fixou muito mais os traços d’Ele do que os d’Ela.
Bem, n’Ele nós vemos uma envergadura, uma amplidão de mentalidade, que é total! Mas não deixa, não o deixa abarrotado. Nosso Senhor não é uma mente que fica mal conseguindo conter dentro de Si a imensidade de sua mentalidade. Eu falo n’Ele como Homem. Não, aquilo está magnificamente instalado na grandeza sem nome d’Ele, na grandeza insondável d’Ele. Hesito dizer infinito, porque estou falando d’Ele na sua natureza humana, de fato Ele é uma só pessoa Homem-Deus. Mas então acontece que a profundidade, por exemplo, límpida, serena do olhar d’Ele, a gente tem a impressão que qualquer coisa que Ele olhe, Ele olha inteiro. E que ele olha as relações daquilo com tudo! E que, sobretudo, das relações daquilo com Deus, e no que é que aquilo simboliza a Deus, representa a Deus; que papel aquilo tem no plano de Deus, etc., etc.
E que, quando Ele fala, Ele fala do alto daquelas considerações. De maneira que todo timbre que vem de muito alto e muito de cima, repercute com uma nobreza muito maior do que um timbre que vem da planície, um toque de sino, por exemplo, toque de sino que vem da planície… bonito, não tem dúvida, mas como é mais bonito quando você vê descer do alto, de longe!.. não é?
E Nosso Senhor… — Ele é Ele, não é? — o toque do sino vem de uma altura com que a gente não atina! Mas ao mesmo tempo que é altura, vem com uma proximidade que você tem impressão que o coração dele pulsa perto do seu, quando Ele fala. E que Ele está colocado no mesmo nível. O que constitui exatamente o fato de que a pessoa, na presença d’Ele, se sente transportada suavemente — não é nenhum rapto, não é nada disso, nenhum seqüestro — se sente suavemente transportado a uma gama de coisas que é superior a tudo!… Mas com tanto respeito a nós, com tanto afeto, a nossa pequenez se sente tão bem perto d’Ele, Ele é tão suave, tão misericordioso, tão doce, nós nos sentimos tão bem perto d’Ele, que nós não podemos esgotar, não podemos dizer como é.
Bem, mas aí ficamos, enquanto estamos perto d’Ele, um pouco partícipes da infinita amplidão das vistas — infinita enquanto se pode dizer isto da natureza humana — amplidão da mentalidade dEle.
Não sei se eu estou me exprimindo adequadamente?…
(Perfeitamente)
Bem, de maneira que literalmente, tomem os maiores homens que se pode imaginar, são umas pulgas em comparação com Ele, não são nada. Com Ele, a única posição possível é ficar de joelho, ao mesmo tempo que a gente sente… não é ficar de joelho: é cavar um buraco para ficar de joelho dentro do buraco; ao mesmo tempo que a gente sente que a alma da gente voa até Ele. É assim
Bem, agora, como Ela era a Mãe d’Ele, e, portanto, a humanidade Santíssima d’Ele foi inteiramente plasmada por Ela, Ele tinha que ser parecidíssimo com Ela.
(Sr. Guerreiro Dantas: Um filho que herda os caracteres da mãe…)
Sobretudo quando não tem pai. Era na sua plenitude, Filho exclusivo d’Ela, e sob o bafejo do Divino Espírito Santo, uma ação misteriosa do Divino Espírito Santo.
Bem, então a gente compreende como um bom meio de a gente constituir a seus próprios olhos a figura de Nossa Senhora, é através de Nosso Senhor. É evidente. Eu queria ser um grande artista para pintar Nossa Senhora inteiramente feminina, mas reflexo de Nosso Senhor, reflexo do Filho d’Ela! Você veja o paradoxo!
(Sr. Gonzalo Larrain: São Luís Maria Grignion de Montfort diz isto, que para conhecer a Mãe, é preciso conhecer antes o Filho.)
Olha lá! Não me lembrava…
(Sr. Gonzalo Larrain: E ele diz: hic taceat omnes língua.)
Ele diz isto é? É porque para Filho é insondável, inefável…
(Sr. Gonzalo Larrain: E para conhecer a Mãe é preciso antes conhecer o Filho.)
É isso, mas é isso… é o nexo… eu não me lembrava disso não.
Agora então vamos comparar Nossa Senhora, por contrastes, com o acanhamento da pequena cidade, freqüente em pequenas cidades. Se Ela fosse morar lá, ou a cidade quase que sairia de dentro de si mesma para voar até Ela, ou a cidade a expulsaria.
Porque é evidente — para argumentar com a Becassine — que o oncle Corentin, cuja principal meta era ser vereador de “Clocher-les-Becasses”, não poderia se adaptar bem a um ambiente criado por Nossa Senhora, em que era a renúncia a tudo isso, o pensamento em coisas muito altas; pensamento: “Por que não se faz uma Cruzada? Vamos fazer isto, vamos fazer aquilo… por que não faz a Contra-Revolução, etc?”.
E quando o Oncle Corentin vai ao chef-lieu do lugar, não me lembro como chamava, ia fazer compra, ele ia no dinheiro, para ver [o que?] [se] ele gastava o menos possível, ele tinha um nogócinho lá, ver se o negócio deu ou não deu… isso enchia a ele. Se o prefeito do chef-lieu, passando perto dele o cumprimentou, tirou o chapéu, se o chamou de Monsieur Corentin ou de oncle Corentin, como é que era tátá-tátá, ele ia com a cabeça cheia de porcarias dessas.
Mas se aparece uma coisa assim… ou ele se entrega ou ele recusa. E é engraçado que quando se fala de moço rico do Evangelho, entende-se que ele não quis dar o dinheiro dele. Eu acho que é certo, não quis. Mas mais doído do que dar o dinheiro é dar isto! Aqui está o negócio. É isto.
(Sr. Nelson Fragelli: E isto é abandonar o gostinho da mediocridade…)
Gostinho de si, que conduz à mediocridade ainda quando se trata de um Rei! Ou de um Papa! Conduz à mediocridade. Aquele quadro famoso, quadro oficial, quadro do pontificado de Leão X, o Papa do tempo do protestantismo, sentado junto a uma mesa, sobre a mesa uma sineta de escavações antigas — romana ou grega, portanto, — e ele com uma lentezinha na mão, assim… com aquilo perto dele, como quem estava acabando de examinar o objeto, e depois ainda ficou maquinalmente com a lente na mão, quando veio o pintor e pintou. Está toda mediocridade do homem em cena!
Lavrou a reforma protestante no tempo dele, ele qualificou aquilo de uma mera briga de frades em que não era preciso prestar atenção, foi um incompetente, portanto, um indiferente, um desidioso, mas quis passar para a História como o grande homem da Renascença, quando ser um Papa é… nem sei quanto mais!
O que é? É medíocre!
(Sr. Fernando Antúnes: Brilhar para o “pátio” dele.)
Brilhar para o “pátio” dele, não é?
Bom, mas para tomar ainda em Nossa Senhora, tem o incalculável dentro disso: Nossa Senhora era Esposa do Espírito Santo, num sentido muito mais autêntico do que de São José. Ela era Esposa de São José, Ela era casada com São José segundo Deus, sujeito à autoridade dele, etc., etc. Mas, …e São José tinha verdadeiro direito sobre o Menino Jesus, porque era filho das entranhas da Esposa dele. E ele tinha direito sobre o Filho das entranhas da Esposa. Não é o pai segundo a carne, mas tinha todos esses direitos. Mas a relação de Nossa Senhora com o Divino Espírito Santo é enormemente maior, mais íntima, e tocando mais na realidade ontológica, do que com São José, que é uma realidade jurídica, com base na ontológica, no real, mas não é a mesma coisa.
Agora, há uma proporção, assim como Nosso Senhor na sua natureza Humana e na sua natureza Divina há uma proporção, se bem que a natureza Divina seja infinitamente superior à natureza Humana, há uma proporção; assim também há uma proporção entre Nossa Senhora e o Esposo dEla, que é o Divino Espírito Santo.
Agora, assim se pode dizer hic taceat omnes língua plenamente, porque eu não sou capaz de reproduzir isto, de exprimir isto, não sou capaz. Tomando em consideração que o Espírito Santo é a Terceira Pessoa de Santíssima Trindade, é o Espírito Santo de amor, é o Espírito Santo de ciência — enfim, é tudo quanto Ele é — você tomando isso em consideração, Ela concebe por obra do Espírito Santo.
(Sr. Gonzalo Larrain: Ele se torna fecundo n’Ela.)
Ele se torna fecundo n’Ela! Nem se sabe bem o que isso quer dizer. Mas o fato é que o nascimento não se teria dado sem Ele. Agora, como deveria ser a envergadura da mentalidade d’Ela, uma vez que Ela tinha proporção com o Espírito Santo?
Então, eu elogio um outro, elogio Filipão, Carlos Magno que seja!.. Como imaginar? É só com um sorriso afetuoso, cheio de respeito… mas que formiga não é?
Bom, se a gente quiser conhecer algo da obra do Espírito Santo em Nossa Senhora, na mentalidade de Nossa Senhora, basta olhar a mentalidade de Nosso Senhor. Porque o verdadeiro aí não é só imaginar Nossa Senhora num transe místico; mas ver Nosso Senhor na normalidade de sua vida de sua presença terrena. É tão, tão grande, tão grande que não sabemos o que dizer! É um assunto… na ponta de qualquer comentário que se faça tem hic taceat omnes língua…
(Sr. Guerreiro Dantas: Alguém que tenha proporção com a infinita sabedoria e perfeição…)
É, o que pode ser? Eu ouvi uma vez, numa revista histórica laica, essas histórias, essas coisas assim, eu vi esse comentário a respeito de Nosso Senhor, que eu não sei como a revista laica deixou passar, o indivíduo dizia numa notinha, falava de grandes personagens históricos, dizia: “Eu evidentemente não incluo nessa relação a Jesus Cristo, porque não há na História um homem que tenha feito tanta gente, durante tanto tempo, e tão alta gente em todos os sentidos da palavra, se ajoelhar tão profundamente diante d’Ele…” Termina não nessas palavras, mas o pensamento era esse: “Ele escapa as invenções da História”. É!..
Você imagina o que… não sei, triunfo de um vencedor romano que desfila pela Via Ápia, pela Via não sei o que, e que depois passa pelo Arco do Triunfo, de Constantino, que não sei o que, taratátátá, e que chega até o Capitólio, bábábábábábá, o que você quiser, você imagina isto. O que é isto em comparação com a grandeza de Nosso Senhor? Lixo!..
Bom, então, isto é no que dizia respeito à amplitude de mentalidade d’Ele. Mas é preciso notar que essa amplitude a gente deve ver também na Igreja. Porque algo disso existe na Igreja. E eu uma vez já, creio que aqui nesta roda, ou em qualquer outra roda, eu comentei a impressão que eu tive folhando uma vez uma coleção da Acta Apostolicae Sedis. Então, aqueles documentos dos Papas até Pio XII — os outros eu não folheei — era assim: “Carta Apostólica ao Arcebispo de Oslo e Episcopado norueguês sobre o 500º aniversario de Santa tal, que foi uma Rainha da Noruega em tal época, tátátá.”
Depois logo em seguida: “Carta Apostólica constituindo a prelazia apostólica de Zirimbawao, destacada da prelazia apostólica de tal, tal, do Congo.” Mais adiante: “Carta ao Arcebispo de Lyon sobre uma questão surgida entre as conferências de São Vicente de Paula e Apostolado da Oração…”
Bem, depois: Encíclica dirigida ao Episcopado norte-americano, a respeito do tantésimo Congresso Eucarístico que vai se realizar lá, e daí para fora. Todas elas num latim muito correto, latim eclesiástico, não clássico, mas corretíssimo, sempre precedidas por um intróito bonito, com considerações teológicas profundas, que não se repetem, cada uma um documento original, e cada uma ajustada a uma situação determinada, de um determinado país, etc. Seja para lembrar os feitos de São Maron, no Oriente Próximo, no Século IV ou V depois de Jesus Cristo, seja para comentar a conveniência da ereção de uma nova diocese na Patagônia; é assim, com aquela naturalidade.
Depois, carta à Universidade Alemã de tal, a respeito da doutrina tal, porque sempre tem uma doutrina abstrusa nascendo numa universidade alemã…
(risos.)
É, é isto! Sempre deu crise criteriológica num, então o sujeito… a respeito de tal coisa, tal, tal, começa: “Diletos filhos da Universidade tal, Fraiburg, a cidade que é livre, nome famoso entre todos, tátá, porque aquilo, aquilo, aquilo outro, nós nos voltamos para ela com afeto, porque ela foi constituída por nosso antecessor — eu não sei se foi isso, estou imaginando — pelo nosso antecessor tal, em tal, tal, que ornou vossa faculdade, vosso universidade com tais, tais privilégios, e obteve do piedosíssimo imperador tal que ainda antes ornasse, tal…”. Lá vem a história, e todo o catálogo de tudo o que aconteceu com aquela universidade até agora.
“Como pode ser que nosso bem amado filho Nicolau K., tal coisa, tenha chegado a pensar tal coisa assim, assim, assim… eu vos exorto, etc., etc…”. Vai por aí afora, a perder de vista. Uma calma… com uma elevação que lembra um pouco o olhar de Nosso Senhor!
(Sr. Guerreiro Dantas: Uma vez o senhor nos mandou estudar toda a Obra de Paulo VI, no Êremo do Amparo de Nossa Senhora. Apesar de ser, etc., é uma coisa impressionante. Realmente de se ajoelhar e oscular os pés, porque é de uma riqueza extraordinária.)
Meu filho isso comparado com a grandeza da Rainha Vitória, a Rainha Vitória não é nada em comparação com isso. Logo de cara ela não é nada! Francisco José, ele vale porque ele é um pequeno pedregulho no qual se reflete um pouco dessa luz.
(Sr. Guerreiro Dantas: Paulo VI numa carta dessas tem uma frase em italiano muito bonito: “Se Deus não faz Mestre de Si mesmo, quem pode conhecer a Ele?”.)
Que coisa bonita! É assim, é lindíssimo!
(Sr. Guerreiro Dantas: Repete a frase em italiano.)
Muito bonito! … [faltam palavras] …, precisamos é o quê?
(Sr. Nelson Fragelli: Aprender, no sentido de conhecer.)
É aprender no sentido de “ehe: aprehender”, não é?
(Sr. Guerreiro Dantas: Exato. A gente sente isto que o senhor está dizendo.)
Não é? Uma coisa tocante! A Igreja toda é assim. Veja a coisa mais banal que você possa querer, tome, por exemplo, três igrejas próximas uma das outras, nesse nosso circuito aqui de Santa Cecília, que está longe de ser um circuito extraordinário do Brasil, em São Paulo, têm três Igrejas. A Igreja faz gotejar, num país que até há pouco não tinha um bem-aventurado, ela faz gotejar essas pedras preciosas: Uma mártir do tempo das catacumbas — Santa Cecília — com todo aquele mundo das catacumbas, aquelas recordações, aquilo tudo. Uma santa da pequena burguesia francesa do século passado — Santa Terezinha — e um touro espanhol, que não entrou na corrida, mas entrou na liça de Cristo, está entendendo?, que é Santo Antonio Maria Claret, do século passado também, com o “palo dando e a Dios orando, com el mazo dando e a Dios orando”.
São pedras preciosas, são estrelas vindas de outros firmamentos, que ela semeia de cá, de lá, de acolá… é assim, pronto; a uma certa distância uma das outras, duas vocações Eudianas (De São João Eudes): Imaculado Coração de Maria e Sagrado Coração de Jesus! E daí para fora! Porque ela espalha jóias e perfeições a mais não poder.
E nós, bobos, porque nos preocupamos muito conosco, nos tornamos insensíveis a estas coisas.
(Sr. Fernando Antúnes: Aldeamos.)
É, exatamente, mentalidade… [faltam palavras] … .
Bem, isso é só para falar da envergadura da mentalidade. Agora, um outro lado, e aqui a gente quase… fica inatingível, mas o bonito é ser inatingível, isto é tão assim, e o tal equilíbrio, de tal maneira a Igreja nos atrai para amá-la, e para amar a Deus, Nossa Senhora e tudo mais, desse modo magnífico, mas de outro lado não há quem entre mais no recôndito individual e miúdo de cada um do que a Igreja, ou do que o olhar de Nossa Senhora e de Nosso Senhor.
Porque tudo o que eu dei é muito bonito, mas fica alguma coisa de nós com o desejo de ser compreendido, um desejo de intimidade, um desejo de conaturalidade, de coração que bata sincronicamente conosco, fica em nós… a gente fala desse equilíbrio que não seja o aldeão nem seja o homem perdido na multidão, na cidade, está bem, tudo isso é muito bom. O indivíduo diz: “Está bem, ele me propõe esse programa, um programa muito bom. Mas eu no meu interior queria mais alguma coisa. E sinto que o que eu queria é legítimo, decorre da minha natureza no [que] ela tem de bom.”
Eu vou ver como Nossa Senhora entra na mentalidade de cada um com aquele senso de matizes que a mãe tem — e que o próprio pai “grossolão” não tem, mesmo quando ele é muito bom — e que encontra a palavra adequada, porque Ela entendeu o estado de espírito certo, Ela soube como curar, Ela soube como reerguer, Ela soube como remediar uma luxação, Ela soube fazer tudo como quem vivesse só para nos compreender, a cada um de nós.
E é impossível que eu dizendo isso cada um de vocês não tenha tido um certo gáudio no seu coração. Bem, e tem um sentido de completo, porque aí não sei se sentem, eu posso tentar explicar, mas eu acho que se sente, uma noção de completo, uma coisa que foi dada no seu todo, e que regala a alma e dá equilíbrio.
(Sr. Gonzalo Larrain: É, porque senão ficaria…)
Ficaria tenso… qualquer coisa… a gente nem saberia dizer, nem saberia perceber, mas em nós alguma coisa ficava faltando. Bem, esse completo que se define, que aparece assim na alma, e que dá uma quias à alma, uma quietude à alma extraordinária, a alma verdadeiramente devota encontra se procurar n’Ele e n’Ela. E n’Ele através d’Ela. Mas para compreender até que ponto Ela é assim, é preciso pensar n’Ele, porque Ele é o padrão humano que nós conhecemos.
(Sr. Guerreiro Dantas: Isto poderia ser encaixado nos estudos da CM, sobre equilíbrio de alma, que só é encontrado na Igreja.)
Só, só na Igreja. Então, quando a gente conhece uma pessoa que esteja nessa linha, a gente desvenda melhor a própria pessoa, quando a gente faz essas reflexões. Vocês não conheceram, eu conheci gente assim…
(Sr. Gonzalo Larrain: Nós conhecemos sim…)
Não!.. não conhecem, não. É uma coisa extraordinária! Chega a um tal ponto que… o que eu vou dizer vai causar um pouco de estranheza, mas, por exemplo, em relação a mamãe, ela comunicava um tal equilíbrio de afetividade em relação a ela, que ela, se ela de repente estivesse viva na minha presença, eu tenho certeza que eu me jogava nos braços dela, e começava a agradá-la naquele momento. Mas, apesar disso, eu não sinto a forma de saudades que é própria do Romantismo: uma saudade que dilacera, deixa a alma machucada… . Não! Porque de algum modo eu a tenho como presente. Porque esse equilíbrio que ela representou tanto para mim, eu tenho impressão que algo ficou na minha alma.
Bem, isto tudo tem relação com o tema posto aqui por você. E explica um pouco… eu digo com muito afeto, mas como é que pode ser feita a cura dos nervosismos, dos frenesis, e das coisas do geração novismo. É que a gente se põe bem assim, a alma encontra o que eu disse há pouco, uma quias, uma quietude, uma paz que é especial. Se a alma se põe fora desse diapasão, ela cocheia de um lado e de outro, não sai, a coisa não anda.
Então, o remédio… não é principalmente adotar um método de reforma própria, psicológica, não sei o quê. Pense nessas coisas, e procure ser assim. Que boa preparação para a oração a pessoa começar por se pôr assim: “Dentro do caos contemporâneo, da balbúrdia contemporânea em que poucos me conhecem, quase ninguém me estima e me quer — e “quase” é dos felizardos hein! Vocês sabem bem — eu, no momento em que me sento aqui ou me ajoelho para rezar, do mais alto do Céu baixa sobre mim um olhar. Esse olhar é afetuoso e me compreende como eu mesmo não me compreendo, me compreende com amor, com dedicação, com vontade de entrar e entrando nos meus meandros todos, inclusive nas minhas misérias e nas minhas mazelas, e me dizendo: ‘Meu filho, eu tenho paciência. Pense em mim que eu pensarei em ti; pense nas minhas qualidades que eu pensarei nos teus defeitos… medite nisso, medite naquilo, medite naquilo outro.”
Essa meditação que acabamos de fazer aqui, em última análise tão simples, tão concatenada, tão fácil de acompanhar! Pense nela, ama-Me que eu resolverei tudo!
A gente se pusesse nesse estado de espírito, antes da cada oração, como nós gostaríamos de rezar! Como a oração faria bem. Não nos ensinam a fazer isso, nem nos dizem isso, nem nada disso, como é que nós vamos acertar o passo?
Não sei o que é que me dizem disso?
(Magnífico!)
(Sr. Nelson Fragelli: O senhor falou da Sra. Da. Lucília. Como era a ação “calmante” dela? Porque era uma via lógica, não é?)
É uma ação razoável, não raciocinada. Quer dizer, você me conhece bem, e sabe que… eu creio que desde menino, por instinto, eu sondava a racionalidade ou a razoabilidade das coisas. E não indo de acordo com a razão, sabe bem que eu, que não sou um racionalista, eu pararia. E que eu contei que eu fiz teste com ela para ver se era realmente assim, eu contei isso, porque está no meu modo de ser, e creio que legítimo, inteiramente legítimo.
Agora, o que me encantava nela era notar uma capacidade de afeto que…
[Vira a fita]
…de maneira que, por exemplo, para me referir à cena que eu tenho tantas vezes contado, eu saindo de dentro da minha cama, passando para a cama dela, e tentando acordar. Ela tinha um sono muito profundo, não acordava. Eu me sentava em cima do peito dela e abria os olhos com as mãos. Um viu que já estou eu, não é? Inteiro! Precisa acordar, lá vai! Depois, estou desamparado, naufraguei! Naufraguei na vastidão de minha cama, não há jeito… na noite, etc., eu naufraguei! A minha infância naufragou! Mas eu sentia a profundidade do sono dela, e percebia que o acordar ela, vinha do fundo da pessoa dela e com sacrifício, que ela estava engajada num sono tão profundo, tão plácido, tão bom, tão resoluto, era um sono resoluto, dormia resolutamente! Ela não é dessas pessoas que acordadas ficam meio dormindo, e dormindo ficam meio acordadas…
(risos)
…vocês estão rindo, mas há gente assim! É assim! Ela não era desse gênero. Ela acordada ficava acordada de estatura inteira; e dormindo, ela dormia com uma profundeza surpreendente.
Bom, eu via no fundo dela como que uma luz de ordem natural [que] se abria, para tomar consciência… e logo vendo a mim, no primeiro momento que ela me via, eu percebia que a impaciência não vinha, porque ela me tinha visto. Porque aquilo é uma coisa molesta! Naturalmente molesta, como uma dentada é uma coisa molesta, uma coceira é uma coisa molesta. E ela do fundo já tinha a inflexão de voz ultra-afetuosa, mas graduada para criança, que tinha todas as delicadezas correspondentes à minha fragilidade, e o desamparo em que eu estava: “Meu filhinho… e tal e coisa, tal, tal, tal…”.
Ela tentava um pouco, comigo sentado sobre o peito dela… eu não tendia, ela não tendia a me remover. Sempre é uma coisa, você durante a noite tem um peso, não sei, uma criança nessa idade quanto pesa, mas dois, três, quatro quilos tem que pesar…
(Sr. Guerreiro Dantas: Mais, mais! A criança nasce com três e meio, quatro quilos.)
Nasce com isso? Então têm seis, sete quilos sobre o peito hein? Não era de me pôr fora num instante, mas de conservar… quando ela percebia que eu ia dormindo de novo, ela sentava. Você veja a reação… em vez de dizer: “Você agora vai dormir, porque mamãe não agüenta mais, pssst! Na cama!..”. Não! Sentava… eu me lembro do vigor com que ela sentava e da seriedade. E eu pedia a ela para me contar uma história , uma coisa qualquer assim. Ela… vinha o dialogo mãe-filho, mas com uma minúcia, com um apelo, eu me sentia completamente envolto por aquilo. E bem tratado, meu sobressalto infantil se curava.
E aí ela me punha de novo na cama, dizia: “Filhinho, você agora já está de novo com sono — às vezes eu não tinha sono, porque ela me tinha entretido tanto, queria ficar conversando — agora você precisa experimentar dormindo…” Argumento: É melhor para você. O “mamãe já está cansada”, não saía nunca! Me ajeitava para dormir na cama direito, etc., etc. E eu… ahhhhh! Encontrei um apoio!
Agora, isto ela foi comigo até o fim da vida! De modo incalculável! E mesmo em muitas provações e aflições que eu tive que eu não contei a ela, o olhá-la e pensar como ela me trataria se eu contasse, me era um apoio.
Você vê, sem esforço, quanto isso é lenitivo e quanto tranqüiliza um homem, não é? Era essa pergunta, não é meu filho?
(Sr. Nelson Fragelli: Sim, muitíssimo obrigado.)
Bem, en avant! Bem, isso seria então a amplitude, a envergadura. E outra coisa… eu falava muito com ela, já contei a vocês, chegando à noite em casa, saíam largas conversas. Papai saía das brumas dele — agora, era um outro dormidor também resoluto, ele dormia a fundo, de um sono pernambucano, decidido, ele às vezes acordava um pouco e falava, mas nunca com mau humor, ele era um homem de gênio de ouro, mas se queixava porque estava perturbando o sono dele — ele dizia: “Mas afinal de contas, a essa hora, a uma da manhã falar filosofia! Vocês têm o dia inteiro amanhã para falar filosofia! Durmam agora”! Mas ela fazia como se ele não tivesse falado, porque era a hora da conversa íntima comigo!
E eu saltava de um tema para outro, tema para outro, nunca eu vi que ela não pegasse as correlações de todos os temas…
(Sr. Gonzalo Larrain: Isto era em outra época…)
Estudante, homem maduro, feito, qualquer coisa. Nunca vi. Ela percebia a correlação dos temas todos, ainda quando não estendesse bem o tema — acontecia bastantes vezes, tinha uma idéia brumosa — a correlação percebia perfeitamente.
Você está vendo a amplitude da mentalidade.
(Sr. Gonzalo Larrain: O senhor estava tratando do tema da envergadura…)
O tema da envergadura é inesgotável!..
(Sr. Gonzalo Larrain: Outro aspecto seria distinguir entre isso e as diferentes modalidades de entendimento de Nossa Senhora.)
É… a questão é a seguinte, é ligada à envergadura, não se… quer dizer, se distingue da envergadura, mas ligado a ela. Quer dizer, para que uma alma tenha essa possibilidade de ter essa envergadura de amor — porque no fundo é isso, em função de Deus, é uma coisa colossal — para que uma alma seja assim, não basta que ela tenha uma visão global das coisas, mas ela precisa ter um entendimento, uma forma de entendimento adequada ao tema que ela está considerando.
Quer dizer, por exemplo, se você é um físico, há um entendimento da matéria física que, por exemplo, um poeta não tem, ou que um político não tem. É seu privilegio, seu dom, a realidade física, a ordem física você entender com o modo pelo [qual] a ordem física pede para ser entendida… nisto está mais especificamente o talento, o gênio, a lucidez, a capacidade… talvez seja aquilo que o João Clá diz pitorescamente que em italiano se chama de comprendonio, talvez seja, o comprendonio da pessoa esteja aí.
Um comprendonio, por exemplo, a mãe tem um modo de entender o filho que é feito de lucidez e amor, e de semelhança. Ora, essa lucidez, esse amor e essa semelhança, Nossa Senhora tem com tudo. De maneira que Ela tem a compreensão própria de cada matéria como a matéria é. Quer dizer, é difícil de a gente imaginar isso, mas compreende-se que Ela tem que ser assim.
Então, não é só com aquela pessoa, como eu falava há pouco, mas é com aquela criatura em concreto. De maneira que, por exemplo, diante de uma graminha, Ela via a perfeição [individual] daquela graminha e a queria por causa disso, porque na coleção de gramas que está na mente Divina quando criou a natureza vegetal, aquela ocupa aquele papel único, especial, como cada coisa ocupa. E Ela então ama aquilo. E ama, amando o que Deus pôs de reflexo de Si mesmo naquilo. Donde considerações a respeito de Deus que subiam a não sei que tetos! É a Esposa do Divino Espírito Santo! Você está compreendendo que Ela tinha proporção com o Divino Espírito Santo; proporção com o Filho d’Ela, com o Padre eterno, que era o Pai d’Ela.
Mas mais uma vez porque o tema explode, é maior do que o nosso vocabulário, maior do que nossa compreensão, maior do que nosso amor é maior do que nós em toda linha! O tema explode, nos excede… e de fato a posição verdadeira seria da gente se ajoelhar pensando nisso!
Mas vamos dizer que Ela considerasse uma coisa comum como essa mesinha. Ela poderia eventualmente ter um conhecimento até dos defeitos da mesinha, vendo que esse defeitos decorrem de tal limitação do carpinteiro, limitação de talento, de tal limitação de aptidão de exercício, de tal limitação de dedicação, e ter sentido o que entrou de suor humano nessa mesa. E olhar essa mesa com comprazimento, com pena, e dizer à Santíssima Trindade uma oração por essa alma que está no purgatório, o carpinteiro que fez essa mesa.
Vocês podem imaginar com isso cai como refrigério no purgatório? Eventualmente libera a alma.
(Sr. Nelson Fragelli: Imaginar Nossa Senhora tratando com os Anjos, enquanto superiora, evidente. Deve ser uma coisa extraordinária.)
É, agora, você imagine o seguinte. Vem a Ladainha Lauretana: Regina Angelorum, Regina Patriarcarum, Regina Prophetarum, Regina Apostolorum, Regina Martirum, Regina Confessorum, Regina Virginum… você sondou… depois, para arrebatar: Regina Sanctorum Omnium! Bem, isso a gente diz assim, parápápápá… mas se a gente for deter um pouco de espírito sobre isso, sai sóis assim, não é? Quer dizer, cada santo, Ela rezou por esse santo, Ela obteve que ele fosse santo; aos pés da Cruz Ela ofereceu a vida do Filho d’Ela para que aquele fosse santo, Ela teve em vista todo bem que aquele santo fez, e aquele santo faz a Deus na eternidade todas as orações que Ela quer, e Ela se soma a essas orações que aquele santo seja atendido! E Ela conhece melhor aquele por quem o santo reza do que o próprio santo conhece.
(Sr. Gonzalo Larrain: O assunto é extraordinário!)
É.
(Sr. Gonzalo Larrain: Agora, o senhor diz que o assunto é insondável, mas se pode pedir para fazer o recuo desses insondáveis. Porque Nossa Senhora tem muito de insondável, como o senhor está mostrando…)
É um insondável que pede por ser sondável.
(Sr. Gonzalo Larrain: E o Reino de Maria virá muito por esse sondar o insondável, trazendo uma visão nova dEla, na linha dessa trilogia que o senhor colocou. Dá um gáudio que o senhor trate dessa matéria que é uma coisa extraordinária.)
A tal ponto que nós estamos aqui conversando, se acontece de repente de um Anjo nos comunicar o seguinte: “Esta conversa está muito elevada, se vocês quiserem morrem e vão agora para o Céu”, eu dizia: “Ahhh, mas… hahahaha! Por mim está feito o negócio!”
(Sr. Gonzalo Larrain: Eu pediria que o senhor fizesse outras sondagens mais completas para ir para o Céu.)
Hahahaa! É assim, daí se vai para o Céu! Não é? Agora, você tome em consideração o seguinte. Que se houvesse uma pessoa que na pura ordem natural tivesse o talento e o conhecimento que Nossa Senhora teve, ele deixaria todos os outros completamente [a] zero! Pois se é Rainha Angelorum — o menor dos Anjos é muito superior à inteligência maior dos homens — agora, você imagina ela que é Regina Angelorum, o que há na mente d’Ela? É uma coisa…
(Sr. Gonzalo Larrain: O senhor torna claro, acessível e amável o operar natural de Nossa Senhora, porque Ela era uma, é uma criatura humana.)
Você quer ver até que ponto o assunto nos excede? A gente tem que evitar o escolho de imaginar que Ela tem um dicionário dentro da cabeça, e a mais prodigiosa das enciclopédias. Porque ao mesmo tempo que Ela era capaz de conhecer tudo isso assim, Ela tinha disso uma visão no olhar conjunto, simples e tranqüilo. Ela não estava como uma pessoa que está carregando continuamente uma estante de livros… ou que está com o espírito exausto de tanto saber coisas. Mas era como foi Nosso Senhor, Nosso Senhor sabia tudo! Olhe para o rosto d’Ele! Sereno, límpido… Ele contém aquilo…
Então, essa espécie de entrar no pormenor e conhecer até o mais ínfimo, mas possuir uma tranqüila vista de conjunto, é o auge, a quintessência. E esta quintessência Ela tinha, na medida que caiba a uma criatura humana. Um esplendor… eu volto a dizer: não é dizível.
Agora, abre os olhos para o Reino de Maria, como é que será?! Uma coisa extraordinária!
(Sr. Guerreiro Dantas: Esse pessoal da Teologia da Libertação tem umas tiradas a respeito da Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo e todo o papel da Redenção que Ele operou, em que eles dizem que toda a ordem da criação atingida pelo pecado original do homem recebeu os efeitos benéficos da Redenção. E o próprio homem tornou-se capaz de novas amplitudes de pensamento, adquiriu nova envergadura, exatamente. E se Nossa Senhora foi assim, Nosso Senhor foi assim, a Redenção tenha, é de esperar que a Redenção tenha como que lançado às sementes para que os homens possam voltar a constituir como que um paraíso perfeito.)
É sim, é sim.
(Sr. Guerreiro Dantas: E Ele quis ser crucificado no alto de um monte, inclusive para que o sangue d’Ele tocasse a terra bruta, tivesse contato com a natureza. Não sei o que o senhor acha disso, mas achei muito sugestivo.)
Muito, enormemente sugestivo. E entra como componente na nossa idéia de Cristandade. A nossa idéia de Cristandade numa natureza que não tivesse sido ela mesma bafejada de algum modo pela Redenção, não entra.
Entra também uma coisa curiosa dentro disso, que nos leva para outro campo, mas é de tal maneira o momento de tratar disso, que vale a pena tratar de passagem, que é o seguinte: são duas coisas. Uma é muito de passagem. É o seguinte: Nossa Senhora tendo sido concebida sem pecado original era diferente de nós, como nós seriamos diante de uma pessoa que nunca tivesse pecado, estivesse no Paraíso. Eu não sei se você imagina toda a diferença que faz. Sem falar então de tudo quanto havia nEla de sobrenatural, essa inocência paradisíaca, e Ela ser toda paradisíaca dentro d’Ela, como era Ele. O que representa, e que forma de gáudio isso comunica, pensar que Ela era o Paraíso — aliás, São Luís Maria Grignion de Montfort a chama Paraíso de Deus, etc., etc.
Bem agora, isso vai de um lado. Agora, de outro lado, é o seguinte. Porque Nosso Senhor tocou com sua Redenção e sua Paixão todo o universo, alguma coisa do olhar dolorido d’Ele, do alto da Cruz, sobre todas as coisas, como que marcou todas as coisas com uma certa nota por onde nada pode ser olhado, sem ter uma certa função em relação com a Paixão d’Ele. Donde uma certa perspectiva dolorida, consolada, expiatória e calma, entra no olhar com que o católico olha todas as coisas. E o mundo moderno odeia isso, e quer uma perspectiva assim sem dor!
E nós nos deixamos às vezes nos influenciar pelo mundo moderno nesse sentido, e temos pavor dessa visão que tem um lado tão consolado, de tão bem tratado, mas de outro lado de dolorido, da dor extrema do último olhar, ouviu, que supõe que uma alma traga consigo a presença dessa dor sempre, ou ela não viveu!
D’onde uma certa suplica do espírito da Igreja, e de tudo quanto de santo em nós, para que ponhamos habitualmente estável em nós esta espécie de perspectiva um tanto dolorida, e séria, profunda, elevada das coisas. Que eu creio que ficou no olhar de Nosso Senhor, até depois de ressurrecto, no sentido seguinte da palavra: as cicatrizes d’Ele não se consertaram. Elas fecharam todas, Ele não sangra mais, mas elas se tornaram luminosas, mas não de uma luz insolente, agressiva, uma luz que pode ser comparada à do sol como esplendor, mas com uma doçura como a da lua. E assim, a luminosidade das feridas de Nosso Senhor.
E assim, algo da reminiscência dessa dor se exprime ao lado do gáudio infinito d’Ele no Céu. E a presença permanente desse traço de dor na alma a e na vida, é um convite que nos é continuamente feito, mas que nós recusamos muitas vezes…
Aqui também não sei se fui claro?
(Claríssimo)
Isso é assim, não é? Então, você pega, por exemplo, na iconografia católica comum, você toma essa imagem do Sagrado Coração de Jesus aqui, uma imagem como cem outras, não tem nenhum valor nem intrínseco nem nada mais do que cem mil outras imagens assim. Mas ela dá algo de que nós poderíamos chamar a psicologia da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Mas não sei se você nota que há qualquer coisa de tristonho, discretamente presente aí.
É por quê? É porque acompanha… Ele não está padecente aí, Ele está como quem aparece numa visão que manifesta a glória d’Ele. Mas uma coisa assim marca, a meu ver, tudo…
(…)
…Os crucifixos da Espanha são freqüentemente estertorantes, os crucifixo do Brasil são profundamente doridos, mas não são estertorantes.
Bom, meus caros, mas fugit irreparabile tempus, o que eu posso fazer? Escute uma coisa, o que é essa luz que fica acesa ali? É sinal que está gravando é?
(Sr. Paulo Henrique Chaves: Sinal de que está terminando a fita.)
Bom, então há um tempão que está terminando a fita, que está assim…
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