Conversa
de Sábado à Noite – 19/7/1986 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 19/7/1986 — Sábado (Neimar Demétrio)
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(Dr. Marcos Ribeiro Dantas: Discernimento e autoconhecimento, para união com Deus. Como se aplica isso aos membros do Grupo, para a troca de vontades com Nossa Senhora?)
Eu acho que se houver uma humildade levada às últimas conseqüências, mas humildade em relação a Deus, levada às últimas conseqüências, a pessoa não pode não desejar a troca de vontades. Vamos dizer, um santo que nunca tenha ouvido falar da troca de vontades, ele realiza na santidade um certo grau da troca de vontades. Mas realiza, porque ele tende à união maior possível com Deus. E ainda que ele não conheça todos os graus possíveis dessa união, ele tem um instinto, um impulso, quero dizer, que o leva a desejar a união mais completa possível. E, embora ele não a realize tanto assim porque não a conheceu, potencialmente, se ele conhecesse, ele desejaria.
Por quê? Dado que Deus é transcendente e que nós somos criaturas de Deus, se nós tivermos bem noção de quanto é ele e tivermos noção de quanto é Deus, nós não podemos deixar de desejar isso, porque é o modo de escaparmos de dentro de nossa condição penosa e termos, antes de tudo, um pleno amor a Ele. Mas mais do que um pleno amor é uma união com Ele, misteriosa, difícil de dizer inteira como é. E que, naturalmente, teve em Nossa Senhora o paradigma. Ela foi quem praticou a troca de vontades na sua perfeição maior excogitável.
Agora, no consiste para nós do Grupo, isso?
Consiste no que consiste para todos. O ponto é saber a que pontos de atenção nós devemos dar especialmente aí para sermos bons membros do Grupo. Essa é a questão. Não se trata, portanto, de repetir para nós uma doutrina que é a mesma para todos e que está magnificamente exposta aqui, mas trata-se de ver que obstáculos especificamente se erguem em nós, e que atrações também nós temos para isso.
Para ser bem coerente, eu tenho a impressão de que seria preciso começar pela atração, para termos bem a idéia de como é Deus, a grandeza de Deus, etc., para depois nós passarmos para os obstáculos.
Então, como é a atração?
Pelo thau, especialmente pelo “tal enquanto tal”, Deus se revela a nós de um modo magnífico, no qual entra um certo discernimento. E no que ele se distingue do autoconhecimento?
O discernimento é algo que Deus dá, é um conhecimento que nós não teríamos se Deus não desse, mas uma vez que Deus dá e nós deitamos atenção, queremos conhecer, nós ficamos conhecendo, é um discernimento que Ele dá, antes de tudo, d’Ele, da santidade d’Ele, da elevação d’Ele, da perfeição d’Ele, e daí, porque conhecemos como Ele é, percebemos melhor em nós o que é diferente disso. E percebemos nos outros o que é diferente e o que é semelhante.
Aliás, nós percebemos também em nós o que é semelhante, se nós tivermos bem esse espírito. O que é isso? Como nós aplicamos isso à linguagem do Grupo?
Quando nós falamos da inocência primeva… eu estava falando da nossa reunião do MNF que existe no próprio senso do ser, aquilo por onde eu sinto que existe, existe uma coisa que leva a pessoa tender aquilo, mas num grau de perfeição maior do que aquilo tem, e a tender a uma espécie de perfeição ideal. Eu estava dando no MNF uma comparação: se se arranjar umas bolinhas, bola de gude, coisa assim, e der para uma criança que ainda está no berço, para brincar com aquelas bolinhas, a criança brinca com um pouco mais de aplicação, com um pouco mais de distração, conforme o feitio pessoal da criança, é um fato natural que não é digno de especial atenção.
Mas se se puser pelo meio uma bolinha de ouro, sem que a criança tenha a menor idéia do valor do ouro e da utilidade econômica e financeira do ouro, a criança se sente atraída pelo ouro. E a mãozinha dela vai procurando, separa a bola de ouro e pega.
Do que vem isso? É que a criança tem uma noção, um impulso subconsciente para desejar bolinhas mais bonitas do que aquelas, bolinhas, as melhores possíveis, de maneira que se houvesse uma bolinha — por imaginação — com a cor e aparente consistência do céu astronômico, quando está bem azul, a criança pegava. É uma bolinha de fantasia, não existe, mas a criança pegava, pegava de preferência, porque, olhando bolinhas, ela tem uma tendência para uma bolinha ideal. Nela é instintivo, não é fruto de uma reflexão, mas ela tem a tendência para a bolinha ideal, é uma coisa que está nela.
Se, por exemplo, derem para a criança — criança já um pouco mais desenvolvida — derem um peixinho de massa para pôr dentro do tanque, qualquer coisa, para brincar, a criança brinca um pouco. Mas se derem um peixinho mecânico, que se move, a alegria dela é muito maior. Porque, realmente, aquilo que se move por si vale muito mais do que aquilo que não tem movimento. Bem, mas se derem para ela um peixinho vivo, ela pula de contentamento.
Quer dizer, são graus do ser, aparentam graus do ser que têm mais valor. Daí, a criança, levada pelo mesmo gosto da perfeição, do objeto perfeito, da coisa perfeita, a criança prefere aquilo.
Quando uma criança recebe uma formação por onde ela, em todas as coisas, é levada a desejar a coisa ideal, ela tem uma tendência para amar a Deus. Porque essas coisas não são senão símbolos de Deus. E dão à criança um certo sentido de que deva haver na criança um ser que corresponde à posse de tudo aquilo que ela pode desejar ou imaginar, e para o qual ela tende. E esse mesmo impulso que a leva originalmente e até certo ponto antes do uso da razão, porque isso já é… são ações não racionais, mas são razoáveis, são conformes à razão, essas que eu indiquei, então levam a criança a querer o mais magnífico, etc., isto leva a criança a querer a Deus.
Quer dizer, quando se lhe falar de Deus, ela com muita facilidade aceita, se deslumbra a tenta fixar seu olhar em Deus.
Quando se dá a uma criança uma imagem, ela com facilidade…
(…)
…aqui esse assunto tem uma subtileza que nem no MNF eu dei porque me escapou, eu compreendo o seguinte: a gente deve distinguir nesse impulso da criança duas modalidades: uma é o mero prazer sensível que a criança tem naquilo. E outra é um prazer, um gosto da perfeição pela perfeição, que não se confunde com o prazer sensível. Vai acompanhada do prazer sensível, mas não se confunde. E que faz com que a criança queira aquilo porque é perfeito, que é diferente do gostoso.
Por isso eu dei aqui alguns exemplos que não iam na linha do prazer sensível. Por exemplo, a superioridade do peixe mecânico, que finge mover-se, sobre o peixe inerte, que não se move, é uma superioridade que não é metafísica, mas aparenta o metafísico. E como a superioridade metafísica é a verdadeira, a criança não sabe disso, mas está no instinto dela que um peixe mecânico, que ela saiba que não é peixe vivo, ela viu darem corda, finja mover-se, dá a ela uma impressão, uma aparência de coisa mais perfeita. Ela já fica contente. Mas quando lhe dão a mais perfeita, ela fica mais contente.
Pode ser que o peixe de massa seja mais bonito do que o peixinho vivo, mas a criança gosta mais de brincar com o peixe vivo. Mas isso não é o gozo.
Exatamente, a criança que deveria ser retificada é se, de posse do peixinho muito bonito, mas de massa, bem pintadinho, tatá, tatá, ou o peixe menos bonito, mas que se move, ela preferisse o peixe pintadinho, porque ela goza mais; é diferente.
Essa diferença entre o gozo e o deleite com a coisa porque ela é mais, é básica para a gente compreender tudo o que eu estou dizendo.
Quer dizer, há aí, talvez já desde o inicio, uma ajuda da graça para que o instinto se oriente sempre para o lado bom e não o lado gostoso. E uma mãe que educasse bem o filho, poderia dizer para a criança: “Meu filho, você agora vai ver uma coisa muito melhor, você vai ver o peixe vivo que se move. Olha que beleza, hein. Ele se move, olhe como ele anda, é por movimento dele, esse peixinho se chama Zezé, olha o Zezé como se move, olha como ele faz, etc., vamos chamar aqui o Zezé, olha lá, é um movimento que vem do fundo dele, ele vem aqui para comer a isca que jogamos.” Ela desenvolveria nele um senso da coisa mais excelente, que não é necessariamente o mais gostoso.
E, exatamente, tanto quanto eu pude apreciar, já no meu tempo, a maior parte das educações não punha o acento nisso, punha no gostoso. Então, “olhe que bonitinho, que engraçadinho.” Não é para despertar o senso estético, é para desertar o gosto da fruição pessoal, só para si, morre em si, não vai para um ser supremo, etc., mas morre em si. E é para despertar esse prazer que o indivíduo se deleita.
O prazer metafísico não é ensinado.
(Sr. Guerreiro Dantas: Quando chega à crise da pureza, a pessoa está derrotada.)
Derrotada de antemão, porque ouve dizer que qualquer vida tem como razão de ser o prazer. Apresenta-se esse prazer, mais enfático do que qualquer outro, o sujeito vai na onda.
Portanto, uma ordenação para o gosto das coisas como elas devem ser, isso prepara a alma para Deus.
Naturalmente, um de vocês poderá me dizer: mas, ver o pulchrum da coisa não prepara também para Deus? Sim, na medida em que a gente veja no pulchrum uma excelência do ser, mas na medida que é só o prazer, a delectação, não…
(…)
…(Sr. Guerreiro Dantas: É um pouco jóia de preto isso.)
Dentro de algum tempo, quando as jóias Slooper, porque elas, quand meme, valiam alguma coisa; quando as jóias Slooper começaram baixar, houve casas também norte-americanas, fabricas, que faziam jóia para preto. Então umas pérolas nem sei de que tamanho, só faltava furar o beiço e por a pérola, etc. E a pretalhada comprou em quantidades, estava ao alcance deles. Falta de senso do ser.
Bom, agora, acontece que quando a gente conhece uma coisa por discernimento, a gente não vê apenas a coisa que é discernida, mas a gente vê uma espécie de luz de Deus na qual a coisa banha. E dentro da qual nós conhecemos a coisa.
Então seria assim: é uma luz que é mais bonita do que tudo o que ela banha. Ela faz conhecer a coisa, mas ela faz conhecer a coisa como ocasião para tornar-se conhecida ela mesma, é a graça que a gente discerne.
Você imagine que houvesse uma luz que fosse mais bonita do que qualquer brilhante; você focalizando a luz sobre os brilhantes, você veria o brilhante mais bonito, iluminado por aquela luz. Mas, independente de ver o brilhante, os raios dessa luz você veria no ambiente. E os raios dessa luz são mais bonitos do que o brilhante.
Assim também Deus com a alma. Se eu discirno a graça de Deus numa alma, eu posso ver o pulchrum dessa alma, mas ainda vejo mais bonita a graça de Deus na alma. Agora, como a graça de Deus é uma participação criada na vida de Deus, eu de algum modo vi a Deus. E quando eu me entusiasmo por aquilo, eu de fato estou amando mais do que tudo a Deus que eu estou vendo lá, quando se trata do discernimento dos espíritos, que é uma coisa sobrenatural.
E acontece que o que se dá com as almas, se dá com os símbolos também. Por exemplo, é uma coisinha tão minúscula, mas é assim: eu sou levado com freqüência a pensar nisso, porque eu tenho uma imagem aqui de Nossa Senhora do Bom Sucesso com um baculozinho. Eu osculo à noite a imagem e osculo o báculo. É um baculozinho de metal ordinário, feito por qualquer ferreiro, dourado em cima com qualquer coisinha, é um objeto equatoriano, muito pobre. Mas eu não sei se vocês refletiram sobre isso, mas o báculo é um objeto muito bonito e tem uma força simbólica própria muito bonita, fala de autoridade paterna, de proteção, de dignidade, de reflexão, de calma, de força, de sabedoria, fala de uma porção de coisas que nos faz pensar no bom pastor que dirige suas ovelhas, e faz pensar no bom bispo, no bom Papa, no bom abade.
Ali a gente vê o gênio da Igreja adotando o báculo como um símbolo do poder. Não há cetro de rei que tenha a beleza de um báculo modesto de um bispo católico. É uma coisa extraordinária.
Nisto, ao ver o báculo assim, eu faço uma reflexão inspirada pela fé, porque vejo algo da Igreja. Eu, por assim dizer, faço um discernimento do Espírito Santo a propósito do báculo. E como a pessoa não toma em consideração o trecho que o Marcos leu, de Santa Catarina de Siena, pensa que tudo se reduz a uma fruição. Há uma fruição nisso, mas é uma fruição sobrenatural, não é uma fruição dos sentidos.
Donde veio essa fruição? É a pessoa ter visto de algum modo a graça. Como a graça é participação criada na vida de Deus, contemplando e venerando o báculo.
Então também, assim faz Deus — vocês vão ficar surpresos com o que eu vou dizer, mas eu vou dizer — assim faz Deus que, algumas coisas que se conservam nos povos hereges, do tempo católico, vem acompanhadas de um certo discernimento de espíritos do que havia do tempo católico lá e que não abandonou aquilo. Aquilo rompeu com a Igreja, o povo rompeu com a Igreja, mas um acerta benção de Deus não deixou aquilo. Westminster, por exemplo, é uma coisa patente, uma coisa inteiramente evidente. Em certas igrejas IO, é uma coisa que se nota também, existe, a gente vê por fotografias, etc., que existe. Até em imagens da IO existe. A gente vai ver, são imagens do tempo em que eles eram católicos.
(Sr. Gonzalo Larrain: Também ordem temporal?)
Também. Por exemplo, o ambiente que rodeava o Czar tinha isso.
E essa grandeza de Deus, que é uma grandeza… essa vida de Deus é sobrenatural. Mas Deus pode manifestá-la a respeito de coisas temporais também. Pode, em certo momento, manifestá-la a propósito do mar, por exemplo, eu vi uma coisa assim muito interessante, precisamente no Rio. Quando eu fui lá na última vez, me hospedei num hotelaço nouveau riche pavoroso, que tem ali perto do Rio Palace. Eu não sabia que aquele hotel era assim, mas fui lá. Mas o que se vê das janelas do Rio Palace, é uma coisa simplesmente estonteante.
E foi lá falar comigo o Carlos Antunez. Ele chegou, enquanto eu estava lá, e com aquela…
(Sr. Gonzalo Larrain: Com aquela calma…)
Há! Há! Há! Chegou, eu estava no Rio Palace, no terraço e olhando a perda de vista o panorama, isso me deixa entusiasmado. Ele olhou, e muito comunicativo que ele é, ele disse uma frase que não me lembro palavra por palavra, mas o sentido é o seguinte: “Que grande país é o Brasil — mas com a mão no peito — e que enorme futuro tem!”
O fato dele ter percebido o futuro do Brasil, deduzindo do panorama — um outro poderia deduzir isso naturalmente — mas no caso concreto dele foi uma graça que ele teve por causa da vocação. A vocação levou a ele perceber qualquer coisa de sobrenatural a propósito daquilo. Eu vi isso nele, eu discerni isso nele.
E vem aí o ponto onde quero chegar: na correlação “tal enquanto tal” há um discernimento da graça de Deus e da vida de Deus, que Ele dá. E essa coisa nos leva a nosso amor. É um discernimento especial que é próprio à vocação. E é essa razão pela qual certos problemas temporais nos empolgam tanto.
Por exemplo, que continue haver fazendeiros no Brasil, é uma coisa temporal. Nós estamos correndo toda espécie de riscos, expondo-nos a toda espécie de gasto, de trabalho, de tudo mais, e os rapazes novos também, o Bueno, por exemplo, um rapaz de Minas, batalhando nisso palmo a palmo. Seus filhos, eu ainda agora estava vendo o Filipe; o André esteve aqui há pouco tempo, mas é a mesma coisa.
Bem, mas eu perguntei ao Filipe — ele tem aparecido um pouco aqui, eu nem tenho tempo de controlar bem — perguntei: “Você o que está fazendo aqui, Filipe, e tal”, perguntei sorrindo.
Ele disse: “Não, eu já vou voltar para o campo de trabalho…”
(risos)
Está duro. E ele toca o trabalho para frente. Mas com uma coisa que ele discerne a santidade da Causa quando ele adota a coisa. É um discernimento dos espíritos. E nossa vocação nos dá mil oportunidades de discernir assim qualquer coisa de sobrenatural, lampejando — se [é que] se pode usar o verbo, se é correto em português — deitando lampejos a propósito de coisas naturais que têm no fundo princípios morais, como é o caso da Reforma Agrária.
E quando a gente é fiel, quando a gente se deixa levar pouco pelo gozo e muito por ver esse senso de ver esse lampejo, etc., etc., então aí de fato a gente tem gozos muito maiores. E aí, não pelo gozo, mas pelo contato, pelo conhecimento do divino, a pessoa se transforma.
Um outro, por exemplo, que eu estava vendo isso, o Andréas Meran, ele pega muito essas coisas. Ele apareceu aqui para ficar uns tempos, e eu não sabia o que era. Mas entra dia, sai dia, vejo o Andréas aqui. Eu chamei com jeito: “Andréas, o que é isso que eu estou vendo você todo dia? Você não vai mais para a zona do Registro com o Dustan”?
Ele explicou que deu uma encrenca-mor nos dentes dele e terá que fazer um tratamento prolongado. Mas dizia isso com pesar, porque a luta tem uma certa chispa. A convenção geral pega algo quando dá panoramas da Terra Santa em função dos cruzados. Quando eles procuram pintar os cruzados na Terra Santa, eles apresentam a Terra Santa como fazendo, como se Nosso Senhor estivesse estado lá há pouco tempo. São essas coisas.
E a nossa vocação, se a gente tende sempre para isso, é cheia de alegria, deixa a alma leve, lépida, contente, é pura! Se a pessoa se deixa levar pelo gostoso, tudo muda. E aí a vocação pode tornar-se um fardo, pode sobrevir a impureza, naturalmente.
Agora, aí vem outra coisa: quando a pessoa conserva pelo menos um resto deste discernir, deste olho com que ela, por razões sobrenaturais, vê a presença da graça; ela pelo menos é humilde, ela compreende que é pecado o que ela fez, que aquilo é muito mal feito, ela se recrimina e se recrimina severamente, e conserva muita admiração, sem inveja, pela virtude que ela não tem. Ainda é a humildade que pode arrancar a pessoa do chão da impureza.
E aí entra então, do amor de Deus, como é que a gente leva para a condição inferior da gente. Mas se a gente é verdadeiramente sincero consigo, a gente deve reconhecer que, mesmo quando não dá consentimento, o fundo da gente é um lamaçal, de todos nós, ainda quando não damos consentimento, é um lamaçal. Pelo seguinte: o desejo do gozo é tão formidável que, logo que apareça uma coisa apetecível, vruuuummmm! Apetecível na linha do gozo, qualquer gozo que seja, salta de dentro de nós um tigre. E é muito difícil, é preciso ter chegado a um alto grau de virtude para, mesmo no primeiro momento que se dá aquele salto, ser brecado. Não é no primeiro momento cronológico. Eu digo no primeiro impulso, no primeiro instante. De maneira que a gente sente que tem dentro de si a desordem daqueles instintos, estão continuamente procurando outra coisa.
E a gente sente que, quando vai indo muito bem, a que pequena distância está daquilo. Isso existe assim. Então a gente compreende até que ponto é torto e não vale nada e até que ponto Deus tem o direito de fazer de nós o que Ele bem entende, e até que ponto é misericórdia Ele nos chamar em determinado momento e nos aparecer com o thau, que é, segundo a via mística ordinária, uma espécie de revelação d’Ele especialmente intensa na nossa vocação, do espírito d’Ele existente em nós, e como isso é diferente do lamaçal que há em nós; reconhecimento do lamaçal que há nos outros; porque, se é verdade que nós não somos melhores do que os outros é bem verdade também que os outros não são melhores do que nós. Nesse prisma não são.
Daí uma humildade: Deus pode fazer o que quiser, está no direito d’Ele, eu sou mesmo um vermezinho, miserável pecador, mas autenticamente, não é por literatura, é mesmo!
Aí também se compreende o amor que nós devemos ter, uns aos outros, dentro da vocação. Porque quando a gente é puído de amor-próprio, de senso comparativo, coisas assim, isso veda da gente ver a graça existente na alma dos outros. Mas quando a gente não tem esse senso comparativo nem nada, a presença da graça na alma dos outros se torna para nós manifesta. E dá uma vontade enorme, pela ação da graça, de que a graça se torne mais ampla naquela alma, que conquiste a todos os espaços daquela alma, e a gente tem um amor da graça naquela alma que se confunde com o amor da própria alma. Isso faz o zelo apostólico.
Então, por exemplo, eu às vezes estou na sede e vejo chegar uma pessoa, entra alegre, e olha esperançado para todo mundo. Daí a pouco chega outro, “Salve-Maria”, (sem entusiasmo nenhum)…
[Vira a fita]
…no qual bate o sol. O espelho não conhece o sol, não se importa com o sol, brilha quando o sol bate nele. Quando o sol se põe, ele não sai correndo atrás do sol, ele passa a refletir as trevas.
Então, me parece que nessa exposição a gente tem uma idéia do que é a relação da humildade com o amor de Deus. Quer dizer, o indivíduo só conhece toda sua vilania tendo amado a Deus. No caso de nossa vocação é na Igreja, mas nesses reflexos da ordem temporal também, e de modo notável, é assim que pega a coisa, e que à vista disso ama nas outras almas e, à vista disso, ama também nos reflexos temporais, e forma toda uma idéia da Igreja e da Civilização Cristã.
(Sr. Guerreiro Dantas: E esse é o discernimento, aplicado a nós, do qual ela fala.)
Nós não sabemos a jóia que nós jogamos fora quando nós não guardamos isso para nós.
Eu vi sua alegria, quando você falou dos meninos fazendo a 1ª Comunhão hoje. Essa é a alegria da vida! Discernir aí a graça de Deus.
(Sr. Guerreiro Dantas: A gente vê pessoas com as quais a gente nunca imaginaria estar, não pensaria nunca em tratar, nem em conversar com aquela pessoa, nem interessar-se por ela. De repente isso toca na pessoa e a gente tem a impressão de que, se aquela graça ficar naquela pessoa assim o tempo todo, ela podia viver ao meu lado o dia inteiro! Seria uma ocasião de elevação para mim.)
É isso mesmo. E depois, outra coisa, você ao fim do dia estaria repousado e leve.
(Sr. Guerreiro Dantas: Outro dia fui visitar uma pessoa. A mulher dele de repente trouxe uma criancinha de sete meses, num carrinho. Mas, o olhar da criança era tão luzidio, se via tanta coisa ali que eu pensei: essa criança, com sete meses, já se pode dizer que tem thau!)
Pode ser uma criança predestinada pela Providência, ou à virtude heróica, ou pelo menos a muita virtude. Eu acho que isto é assim. Mas isso dá um gáudio que é melhor… porque eu estava falando, elogiando o panorama do Rio. Contei como o Carlos Antúnez reagiu diante do panorama do Rio. Está bom. Ver uma criança dessas pode dar mais deleite do que o panorama do Rio. Vem turistas do mundo inteiro para ver o panorama do Rio. Se fosse olhar uma alma assim… se fosse para ver Santa Catarina de Siena… histórico, panorama do Rio, o que me incomoda?
(Sr. Guerreiro Dantas: Discernimento do fundador.)
A expressão de São Francisco Xavier para Santo Inácio é isso: tu és meu Deus na terra.
(Sr. Guerreiro Dantas: Nesse modelo discernir as graças de Deus. Esta era a grande luz que nos moveu em 67.)
Foi, foi isso. A graça de 67 foi o lampejo disso, enorme…
(…)
…(Sr. Gonzalo Larrain: Havia um discernimento do senhor, mas de todos, de tudo.)
Ali é um fenômeno característico de discernimento, em que todos nós tivemos esse discernimento, estávamos cheios de uma alegria sem gozo, porque aquele hotel, no fundo, um “hoteléco”, “comidóca”, dá para não morrer de fome, “confortéco”, um hotelzinho do interior. Mas, por exemplo, para mim pelo menos, aquela montanha com aquela cascata iluminada, aquela água que caía, formava, tinha as aparências de uma grandeza extraordinária. Mas são as aparências sobrenaturais. E aquela luz que nos banhava a todos, que era uma luz elétrica, um foco comum, essa luz eu sentia como banhando a todos nós, e uma mútua amizade, um mútuo afeto, um mútuo bem-estar que havia lá naquela noite, era uma coisa notável.
Nossa Senhora quis preparar um exemplo palpável do que é esse discernimento.
Agora, quer ver uma coisa curiosa: é arriscado, se tivéssemos tido antes um super jantar e tivéssemos festejado os atrativos da culinária, que isso acontecesse depois no jardim. Seria arriscado. Não era impossível.
(Sr. Guerreiro Dantas: Precisaria ser uma culinária que estivesse fora dos padrões clássicos e prenunciasse já alguma coisa do Reino de Maria; aí sim.)
Pois é, eu ia dizer isto: que podia ser que, por uma coisa especial da Providência acontecesse isso, mas seria uma coisa especial, não seria comum.
Bom, a troca de vontades com isso?
Isso tem um certo elemento de troca de vontades. Isso levado às suas últimas conseqüências e as mais altas dá que a gente troca à vontade com Nosso Senhor, com Nossa Senhora, diretamente.
(Sr. Gonzalo Larrain: O senhor dizia lá em Serra Negra: duas são as condições que Nossa Senhora coloca para essa troca de vontades: uma era tratar do tema troca de vontades, e a outra é ter a alma aberta para o maravilhoso.)
Eu dizia isto há pouco, que tratar do tema troca de vontades, é uma coisa que limpa a alma para ela de fato estar aberta para tudo isso. Limpa a alma. Se alguém quer limpar a alma de mil coisas desse gênero que estorvam, estude a troca de vontades, é magnífico.
Meus caros…
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