Conversa
de Sábado à Noite – 17/5/1986 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 17/5/1986 — Sábado (Neimar Demétrio)
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…Tem contas a acertar com Deus. Isso é fora de dúvida.
(Sr. Guerreiro Dantas: Todo homem que tenha um pouco mais de profundidade de espírito percebe que ele não tem nessa terra a felicidade que ele quereria ter.)
Não, não consegue! Não consegue. Tem uma coisa que está na origem do horror que habitualmente o homem tem ao isolamento, que é o seguinte: quando o homem está só, do fundo dele emerge potencialmente tudo quando ele tem de ruim. E ele não chega, se ele quiser fazer de si um exame bem honesto, ele não chega a perceber se ele não dá um fundo de pequenas adesões ao que ele tem de ruim. De maneira que, por exemplo, todo homem, um homem pode ter a ilusão de que diante dos outros ele não é monótono. Mas ele no seu interior se acha monótono.
(Sr. João Clá: O pior companheiro de qualquer um é a própria pessoa.)
É, é o pior companheiro. Viria uma objeção: “e as Camáldulas?” É quando Deus se faz companheiro daquele, pela ação da graça, etc., etc., aí está bem. Do contrário…hããã…
(Sr. João Clá: Quando chega a fase da insensibilidade da Camáldula, é a pior provação que existe. O sujeito que passa do outro lado é herói!)
É claro, é claro! Mas, por quê? É o convívio consigo mesmo.
Aquela história dos egípcios, quando o sujeito ia condenado à morte, ele ficava alguns dias antes amarrado face-a-face no próprio cadáver, está compreendendo? O tempo inteiro! Dormia, o cadáver dormia em cima dele, ou embaixo dele, e daí para frente. Comia, a boca do cadáver lhe chegava até a boca… ele andava, era aquela dança com o cadáver. Uma das piores coisas que eu já tenha ouvido dizer que se faça com um homem, é aquilo.
Mas nós temos com o nosso próprio ego essa conduta quando estamos sós. Eu me lembro que eu tive uma sensação assim quando eu era mocinho. Porque eu já contei “n” vezes que eu vivia misturado, minha irmã e eu com uns primos, que tinham assim… era como irmão desses primos. Bem, eu os achava muito entretidos. E de repente veio uma conversa, sobretudo com uma prima — eu conversava muito, etc., etc., e ela era muito chegada a mim, conversávamos muito, e ela era muitíssimo bonita, inteligente e boa prosa. A outra era muito agradável de aspecto, mas menos inteligente. Também conversava muito menos com ela. Era de um natural muito sossegado, ela ouvia agradavelmente os outros conversarem. Mas ela não conversava quase. E todos os irmãos dela eram de uma presença muito agradável. E eu achava muito agradável ir à casa deles. E achava de um modo geral a presença dos membros de minha família agradável.
Uma ocasião veio uma história de que minha mãe e a mãe dessa moça ficaram com medo, porque nós éramos muito íntimos, e que de repente pudesse querermos nos casar. E quer do lado paterno, quer do lado materno, elas e eu tínhamos muitos antepassados parentes. Sendo que papai, por causa disso, tinha dois irmãos cegos, e eles atribuíam a isso. Não sei se era…
(Sr. Guerreiro Dantas: Papai?…)
Meu pai… tinha dois irmãos cegos de nascença. Uma coisa tremenda.
(Sr. Guerreiro Dantas: Mas ela[era] parente do senhor pelo lado do pai também?)
Não. Os pais… a mãe dela tinha muitos parentes. O pai dela que era irmão de mamãe , muitos irmãos, muitos antepassados parentes. Os de papai também muitos antepassados parentes. E seria muito ruim, portanto, que nos casássemos. Eu nunca tinha pensado em casar com ela, nunca! Nunca me tinha passado pela cabeça, nunca.
Ela era muito bonita, mas não tinha o desejo de casar com ela.
Quando veio essa coisa, me veio à mente pela primeira vez a idéia: “Casar?!.. Huuuu! Que é isso? Eu nasci nessa família, querer ficar nela, casar com mulher dessa família? Nunca, por nada! Vou casar fora!”
Mas, o que é? é o meu próprio ego que se sentia bem com eles, mas não para intimidade tão grande, porque eram muito parecidos comigo, e me causaria horror!
(Sr. Guerreiro Dantas: Passou de um certo ponto, até um convívio muito intenso, não vai.)
Me encontro a mim mesmo. Não posso suportar. E é um pouco a imagem que a gente teria de si mesmo se fosse pecador, que sai do fundo! Ahhhh, não vai!
Bom, mas falemos de outros temas.
(Sr. Poli: Antes de entrar num tema, gostaria de dizer que hoje, dia 18, é festa da Sempre-viva…)
(Sr. João Clá: E dia do Espírito Santo, Pentecostes…)
Pentecostes é uma festa móvel?
(Sr. João Clá: Sim, depende da Paixão.)…
(…)
…Agora, vamos entrar no tema. Qual é o tema de hoje?
(Sr. João Clá: Trecho da profecia de Ezequiel, em que ele trata do povo judeu, mas que se pode aplicar ao Grupo e a nós. Diz ele:
Por isso tu dirás à casa de Israel – isto diz o senhor Deus: - “Não é por amor de vós, casa de Israel, que eu farei o que estou para fazer. Mas é por atenção ao meu Santo Nome, que vós tendes desonrado entre as nações para onde fostes. E eu…)
Foi o período da escravidão em que eles ficaram presos, escravos dos assírios, etc., e que eles fizeram porcaria de todo tamanho. Então desonraram o nome de Deus entre as nações.
(Sr. João Clá:
E eu santificarei o meu grande nome que foi proclamado entre as nações, o qual vós descontastes no meio delas, a fim de que as nações saibam que Eu sou o Senhor, diz o Senhor Deus dos Exércitos, quando Eu tiver sido santificado, a seus olhos no meio de vós. Porque Eu vos tirarei dentre as nações e vos congregarei de todos os paises, e vos trarei para a vossa terra. E derramarei sobre vós uma água pura, e vós sereis purificados de todas as vossas imundícies, e Eu vos purificarei de todos os vossos ídolos. E dar-vos-ei um coração novo, e porei um novo espírito no meio de vós, e tirarei de vossa carne o coração de pedra, e dar-vos-ei um coração de carne!…)
Uma beleza! Esse trecho é lindíssimo!
(Sr. João Clá:
E porei o meu espírito no meio de vós, e farei que andeis nos meus preceitos, e que guardeis as minhas leis e que as pratiqueis. E habitareis na terra que Eu dei a vossos pais, e vós sereis o meu povo e Eu serei o vosso Deus.)
Uma beleza! Mas é de uma beleza única, ouviu? E isso eu acho que deve ser entendido, naturalmente, para mil situações, não é? Uma das situações é a Cristandade tendo chegado ao ponto em que está, que desonrou o nome de Deus diante de todas as nações, desonrou no seio de si mesma, ela desonrou o nome de Deus vergonhosamente, e que está no ponto em que nós vimos. Ela, ao cabo da Bagarre, nos sofrimentos da Bagarre, nos tormentos da Bagarre, ao cabo da Bagarre ela vai ter que compreender que andou mal, arrepender-se etc., e vai ser então dado a ela um novo coração.
Aí se indica a diferença entre o homem de depois da Bagarre — nós depois do Grand Retour — e eles depois da Bagarre… numa espécie de retour deles.
Mas o que é que esse “coração novo”? Não está dito. Eu acho que é o próprio coração de Maria, na linha do que diz São Luís Maria Grignion de Montfort — D. Bertrand lembrou isso até no MNF, e eu tenho muita memória disso — que se tratará de amar a Deus com uma fagulha do amor d’Ela. Não é a seguinte construção, vamos dizer, que estaria na perspectiva dos Exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola, é uma via da graça: a graça toca em mim, eu correspondo, e eu iluminado pela graça, me esculpo a mim mesmo. De maneira que eu sou a escultura esculpida pelo escultor que sou eu. Isto está muito nas perspectivas dos Exercícios Espirituais, que eu admiro com paixão.
Agora, aí não. É Nossa Senhora que vem e que implanta nela o amor que Ela tem a Deus. É uma espécie de troca de corações exatamente. E é com o amor d’Ela que nós devemos amar a Deus. É por uma participação do espírito d’Ela, mas assim uma faísca, uma fagulha do amor que Ela tem a Deus, que se acende em nós e que produz um efeito todo especial, etc…
(…)
…Suporia que lêssemos o assunto da troca dos corações. E que infelizmente a vida que levamos não permite isso; é uma leitura que precisa ser feita muito a fundo, com muito cuidado, penetrando em todos as aspectos; infelizmente não temos tempo para isso. Mas que o que nós podemos, portanto, é fazer conjetura sobre o fato.
Agora, o que quer dizer Nosso Senhor vir com o coração d’Ela, habitar em mim? Quer dizer, em qualquer um dos que estão aqui presentes?
Quer dizer o seguinte: é eu me desfazer de tal maneira daquilo de mim que não é Ele, mas, de outro modo também — e isso é mais difícil — daquilo de mim que é Ele, eu tomar mais valor aquilo por ser Ele do que ser eu… que eu dou mais apreço àquilo porque é Ele do que sou eu. E que quando tudo quanto eu quero, eu quero, portanto, porque é Ele que quer isso em mim.
Agora, a recíproca qual é? É que Ele por amor para comigo faz com que eu, tudo quanto queria Ele quer. E que tem uma união decorrente dessa semelhança, uma semelhança recíproca que faz com que tudo quanto ele queira é porque eu quis, mas eu quis porque Ele previu desde toda a eternidade que eu precisaria querer, e Ele me deu essa graça…
Eu estou notando uma coisa: que eu agora desviei a palavra, mas eu dormi muito pouco essa noite. E estou com tanto sono, que eu não estou conseguindo manter a conversa. Eu vou ser muito franco: eu dormi umas três ou quatro horas essa noite… eu vou ter que encerrar a conversa… eu estava resolvida a levá-la até o momento em que eu percebesse que eu estava atrapalhando os horizontes. E percebi que estava atrapalhando, quer dizer, troquei uma coisa pela outra… o que já me aconteceu mais de uma vez em conversa. Eu preciso dormir!
Eu essa noite, eu estava querendo segurar o peso, e comi tão pouco, que passei a noite inteira me debatendo entre a fome e a insônia. Porque quando eu estou com fome eu não tenho sono. E é coisa tremenda. E trabalhei bastante hoje… de maneira que agora as idéias estão me escapando da cabeça…
(Sr. Nelson Fragelli: Um sábado do senhor é incompreensível.)
Pois é muito mais leve do que um dia de semana. Muito mais.
(Sr. Poli: Muito mais?)
Sim, porque são atividades internas com gente de quem eu gosto! Não é batalha… mas é uma reunião onde eu venho…
(…)
…não sei que leopardo, vai se transformar aquilo em que leopardo…
(Sr. Poli: Que bárbaro.)
Mas é a vida de todos os dias!
Bem… “Há momentos minha Mãe…”
* * * * *