Conversa
de Sábado à Noite – 10/5/1986 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 10/5/1986 — Sábado [VF 39] (Neimar Demétrio)
Nome
anterior do arquivo:
Ficam na loja e depois vendem por dez réis de mel coado para qualquer um.
(Sr. Guerreiro Dantas: Mas uma poltrona desta tem um certo valor.)
Não tenho idéia do que pode estar valendo. É uma poltrona muito velha, viu? Quer dizer, eu tinha talvez uns quinze anos quando foi comprada, muito velha.
Não, ela é de muito boa qualidade, mas eu digo que é de um estilo que se usa pouco hoje, não se usa mais. Acontece que quando o artigo é bom não sai da moda. A questão é o artigo ser bom, quando é meio “chinfrin” naturalmente, fica sujeito a vicissitudes da moda.
(Sr. Poli: É muito no padrão dos Ribeiro dos Santos.)
Foi comprado por uma Ribeiro dos Santos, foi comprado pela tia Zili, irmã de mamãe, para a casa de minha avó. Tinha uma mobília velha, essa sim, até de um pau-brasil muito bonito, mas que [foi] construída no estilo “Art Nouveau” da 1ª Guerra Mundial, uma coisa medonha.
E eu me lembro quando ela chegou, uma vez em casa, ela representava a modernidade e disse para minha avó: “mamãe, essa mobília da saleta não pode continuar, está uma coisa medonha, etc., etc.” Foi unanimidade.
Então, a minha avó disse: “bom, compre você uma mobília bonita”. No dia seguinte estava essa mobília em casa com o consentimento geral; representava a modernidade daquele tempo; não a modernidade arrojada, a modernidade conservadora, mas moderno. Estava à venda no Mappin, naquele tempo era uma grande loja, e aí está ela para os filhos de Nossa Senhora se sentarem.
Nós vamos gozar de pouco tempo, vamos ver que problemas há? Mas acho que quem vem dos Estados Unidos tem a primazia. Eu acho que quem vem dos Estados Unidos, que é a terra da luz, iluminada pela Estátua da Liberdade, a recordação de Washington, de Benjamin Franklin. Como chamava aquele judeu que venceu a Guerra da Secessão no Sul? Abraham Lincoln, Grant, mas enfim, vamos deixar isto e pergunte o João alguma coisa.
(Sr. João Clá: São Francisco de Sales recomenda que para se fazer exercício da presença de Deus nós devemos imaginar uma pessoa a quem nós devotamos muito respeito e muita veneração…)
É uma coisa que na minha vida inteira eu só encontrei na pena de São Francisco de Sales por seu intermédio; nunca ouvi falar de mais nenhum lado. E que é ultra de acordo com aquilo que se poderia chamar a nossa escola espiritual, muito de acordo.
(Sr. João Clá: Por outro lado os jesuítas chamavam Santo Inácio de nosso Deus na terra.)
Mas era só São Francisco Xavier, ou eram os jesuítas todos?
(Sr. João Clá: Eram os jesuítas em geral enquanto Santo Inácio estava vivo. E a gente vê que aplicar este exercício da presença de Deus de São Francisco de Sales, a gente vê que aplicar aquilo à pessoa do Fundador, à pessoa de alguém que a gente estime e venere. A gente vê que tudo aquilo se aplica inteiramente, claro que guardadas todas as proporções.)
Mas é evidente. Há uma expressão latina muito bonita para isso: “Omne proportione servata”. Calha muito bem.
(Sr. João Clá: Agora, em Nova York fazendo reuniões, quando eu tratava deste tema, do Fundador, etc., são graças impressionantes. Agora, isto é muito fácil de tratar com o pessoal que está no fervor primaveril, está no começo da vida espiritual. Agora, como fazer isto conosco?)
(Sr. Nelson Fragelli: De algum modo é o problema.)
É o problema, eu acho que é o problema. A questão é a seguinte: por mil circunstâncias que vocês conhecem bem, acaba sendo que os que estão nessa fase primaveril, isso tudo parece não ter nenhuma consonância com a doutrina da Igreja, não ter dissonância sim, mas não tem consonância com a doutrina da Igreja como as porções, as parcelas de doutrina da Igreja que são ensinadas a eles, de maneira que uma história desta daí, como são esses princípios dados por São Francisco de Sales, ou então a um jesuíta chamando a Santo Inácio de meu Deus na terra, etc., são coisas que eles ignoram completamente, eu estou dizendo que eu ignorava, de São Francisco de Sales eu tinha ouvido falar vagamente alguma coisa e me tinha escapado do ouvido.
Bem, a pessoa, portanto, não dá a isso, tem uma sensação com isto de uma espécie de algo que torna a situação muito atraente, mas uma espécie de aventura espiritual, que ela está singrando, mares espirituais inteiramente novos, que tem um imprevisto, mas que é uma coisa que não está estudada, conhecida, catalogada, e que, portanto, não tem o apoio da razão, no momento em que se apaga um tanto essa luz, o indivíduo não tem uma base na razão para cobrar de si mesmo uma fidelidade a esta luz.
Ora, esta luz é uma graça, e essas graças sensíveis de vez em quando se apagam, isso é forçoso. Então imaginem — “Omne proportione servata” — imagine uma pessoa que comece comungar, menino que faça a primeira comunhão, ou homem adulto que se batizou e que faz a primeira comunhão. Tem uma consolação enorme, e comunga durante um ano inteiro, com uma consolação fabulosa, mas ele não tem bem a idéia da distinção que se deve fazer entre a graça sensível e a graça não sensível. De repente a graça sensível apaga, ele não sabe fazer, porque não sabe distinguir em si o peso salutar, ou as asas do contrário do peso, da fé, que aquele é Nosso Senhor sacramentado, e que apesar de ele estar na aridez ele deve continuar a comungar, porque isto é uma coisa normal que acontece, e que, portanto, vá para frente, etc., etc.
Um homem nestas condições que não procurasse de um outro lado alimentar a própria sensibilidade com os recursos que tem ao seu alcance, para enfrentar essa aridez, esse facilmente naufragaria depois de um ano de grande fervor. Bem, e acontece que essa graça de ver assim o Fundador, é uma graça, e ela tem os seus aspectos profundos de fé, baseados na teologia, na doutrina católica, etc., etc., e tem o seu aspecto de sensibilidade, e quando o indivíduo não conhece o que a fé lhe ensina e se baseia apenas na sensibilidade, por um jogo qualquer que pode ser uma retração da Providência para provar o indivíduo, mas pode ser também um castigo, pode ser o fruto de um pecado, pode ser qualquer coisa. Vem uma coisa qualquer e o indivíduo fica sem saber o que pensar, a sensibilidade desaparece e ele não tem o contexto intelectual para se manter fiel a isto. Não sei se estou me exprimindo adequadamente?
Agora, o problema passaria para o outro lado: é como é que a pessoa uma vez que sabe qual é o fundamento intelectual que isso tem, como é que a pessoa deveria manter em si esse fervor. Porque a pessoa não pode dizer: “bom, é uma graça sensível e volta logo e está acabado”. Não, não volta. “Mas é uma provação, não vou ligar, graça sensível não se liga”. Isto não é verdade, as graças sensíveis a gente deve confiar em Nossa Senhora, quando as perde, pode reconhecer que é até um meio para maior santificação, durante algum tempo ficar sem graça sensível, mas a pessoa deve dar muito valor a esta graça sensível, e fazer o possível para recuperá-la, para tê-la em vista, para lembrar-se dela como um estímulo na hora da aridez. Por exemplo, um homem que está na aridez para comungar e que se lembra das comunhões com consolação, pode ajudar a ele em muita coisa, a memória da consolação ainda é uma consolação, é um reflexo da consolação. Não sei se eu estou me exprimindo com clareza?
Daí decorre que seria preciso então, para ser prático, ver quais são as possíveis conseqüências desta graça, desta perda da graça sensível, e como agir em face das várias modalidades de causa — eu disse mal — da perda dessa graça sensível e como agir em função dessas modalidades de causa, é uma coisa, desloca-se um pouco o terreno. Acham lógico isso? Hein, meu Fernando está, lógico isto?
(Sr. Fernando Antúnes: Estou morrendo em pé.)
(Sr. Guerreiro Dantas: Ele não quis sentar para não dormir, acabou dormindo em pé.)
Então, por que é que você não vai dormir então?
(Sr. Fernando Antúnes: Alguma coisa eu pesco.)
Então mande fazer um pouco de chá para você.
Na questão de como perder a graça sensível, as possíveis causas de perda da graça sensível. É uma coisa que eu tenho pensado muito, curioso que de um modo muito especial na sua ausência. Porque se apresentam fatos, que eu tenho visto, e que me levam muito a perceber essa modalidade de perda de graça sensível. Quase se poderia dizer que são como — eu li uma vez uma revisteca, não sei se é verdade, enfim me ficou na memória — que as orquídeas são de tantas qualidades diferentes, tantas espécies diferentes que se poderia dizer que cada orquídea é uma espécie, tal a originalidade do mundo das orquídeas. É muito bonito.
Bem, assim também se dá com a variedade de coisas — eu me perdi um pouco por causa das variedades destas causas — mas eu poderia exemplificar com algumas causas que eu tenho visto operar, que eu tenho visto atuar, e poderia ser isto de uma vantagem empírica, enquanto eu não tenha conseguido abarcar melhor isto. Eu até notei de passagem a diferença de reações entre a de vocês e a minha, quando ouviram a história das orquídeas, eu não achei que era uma beleza, eu fiquei achando que, a minha primeira reação foi de que era uma “poquice”, porque não era catalogável na ordem, não sei se você vê que está muito do meu modo de ser dentro disso. Mas depois eu compreendi que para um criador delas, elas têm ordem que tem uma inteligência infinitamente superior à nossa, e que é bom que algumas coisas nós não abarquemos para ver a imensidade do que Ele abarca. É uma boa ligação para nós, não é?
(Sr. Guerreiro Dantas: Esse poderia ser um belo tema para o MNF.)
Isto tudo se faria assim: estudando as orquídeas bem sumariamente, estudando sobretudo quais foram as tentativas de classificação e por que é que fracassaram. Qual é o unum que tem naquilo e que ninguém descobriu, não é? E a partir mesmo de vislumbrar um unum oculto que a inteligência do homem não é capaz de ver.
(Sr. Guerreiro Dantas: Se percebe que o mundo das rosas já não tem tanto mistério.)
As rosas estão dominadas pelo homem, mas tem isso, depois de concebido isto, a gente vê o seguinte: que o paraíso se tornaria monótono para o homem se não houvesse ali formas de beleza que ele percebesse, mas que fossem inabarcáveis por ele. Quer dizer, a presença do mistério, mesmo em alguns aspectos da ordenação, haver mistério que é atrente, suculento, e que o homem não consegue concernir, evitaria exatamente de o paraíso ficar “ploc-ploc”. Eu penso assim.
(Sr. Nelson Fragelli: É muito do profetismo nos mostrar que existe este mistério, e com isso trazer um encanto para a vida…)
Vale muito mais do que dar o indivíduo um aviãozinho para voar. Porque aquilo vai brum-brum-brum, de repente se estatela no chão, quando não se estatela, ele chega lá velho, já não pode mais guiar e vai… [faltam palavras] …para os outros guiarem, para que é que serve isto?
(Sr. Nelson Fragelli: Eu acho isto muito do profetismo.)
Muito, é eminentemente profetismo, e fazer sentir o deleite da vida nisto, não de um modo…
(…)
…(Sr. Nelson Fragelli: No Grupo tem muito disto.)
Onde tem muito mistério assim e que é uma beleza é no São Bento. E assim, mil coisas, mas vamos ao nosso ponto.
Acontece o seguinte:…
(Sr. João Clá: O que atrai muitas vezes no Fundador é o mistério.)
Atrai, desconcerta e implica, quando o indivíduo não se põe nesta perspectiva em que eu estou me pondo.
(Sr. Nelson Fragelli: O senhor vem e desvenda o mistério e a gente diz: era isso que eu queria ver lá. E, além disso, tem o mistério em si do Fundador…)
Esse mistério do Fundador eu não percebo.
(Sr. Guerreiro Dantas: Uma das coisas que gostaríamos de conversar com o senhor é a respeito da imprevisibilidade do senhor às vezes.)
Mas está tudo previsto…
(…)
…Onde isto é, mas de um modo, hoje à noite, eu li um trecho do Evangelho a respeito de perseguição por amor à justiça. E vi aquela parte que se refere a… enfim todo trecho lido eu estava notando: as coisas de Nosso Senhor Jesus Cristo têm de um modo super eminente isto, é que não é a clareza, é muito mais do que clareza é a claridade, quer dizer, elas são luminosas, o claro é o ser, por exemplo, um vidro de janela é claro, vidro luminoso é aquele que emite luz.
As coisas de Nosso Senhor Jesus Cristo são claras, mas emitem luz, mas como os focos de luz são, a gente vê a luz dele, mas não chega a ver o próprio foco, mas isto não é mistério, isto é a superabundância que não podendo ser vista em si, manda uma figura de si mesma pelos efeitos que ela irradia.
(Sr. Nelson Fragelli: Mas, com outras coisas da Igreja também…)
Também, também tem coisas assim. Bem, a Igreja tem muita coisa assim, Genazzano. Mas, não pode propriamente chamar de mistério, porque para mim o arquétipo do ser misterioso é a Santíssima Trindade, mas é diferente: a Santíssima Trindade tem tudo quanto nos parece contradição.
E, essas coisas assim não, não nos parecem em contradição; elas amigavelmente se difundem, aliás, um exemplo claro que vocês tem é o seguinte: o que há de menor no olho é a menina do olho, aquele discozinho pequeno. De fato é por onde o homem vê, se ele perde aquele disco ele não vê o resto, o resto não lhe adianta nada para ver, mas o olho é organizado de tal maneira que nós temos a impressão que é o olho inteiro do outro que está olhando, e que o que menos está expressivo é aquele discozinho.
(Sr. Guerreiro Dantas: É que a alma toda da pessoa que transparece no olhar, no fundo sai desse pequeno núcleo.)
Mas de fato esse núcleo joga de tal maneira com o resto do olho, que ele se comunica mais com o resto do olho, não sei como é que se chama a parte colorida do olho?
(Sr. Poli: Íris)
Íris está bem. A íris parece me falar mais do que aquele nucleozinho, mas é por causa de um jogo que aquele nucleozinho faz com a íris, para se exprimir, suponho eu, não sei o que dirão os médicos a esse respeito, mas não vem tanto ao caso.
E em Nosso Senhor Jesus Cristo há o mistério da união hipostática, mas, na própria união hipostática, a Divindade aparece com uma luz insondável que se vê através da humanidade, Ele é homem, mas você olha para o homem e diz: Meu Deus.
(Sr. João Clá: …Mas há um discernimento disso, um amor a isso que se verifica mesmo quando não existe a graça sensível.)
Pelo seguinte, eu digo agora, você considerando uma pessoa, você pode distinguir uma ação da graça, que é quase um estado místico e que transparece na pessoa, como às vezes o sobrenatural transparece. É a tal mística que não sei com que fundamento o Arnaldo chamava de mística ordinária, mística comum, não são visões e revelações, mas é mística diminutae ratione, mas muito preciosa, muito comum, com papel enorme na salvação dos homens, na santificação dos homens tem um papel enorme.
Bem, esta mística, dá então ao homem uma visão parecida com aquela que tinham, não é visão no sentido místico, é um ver, vê-se neles algo que se via no Cura de Ars.
Agora, há um certo modo diferente de operar da graça no homem que é, não mais pelas virtudes infusas, mas pelas virtudes habituais, que tem na prática, séria, profunda, que ele tem na prática da vida de todos os dias, e que um certo discernimento de espírito faz aparecer. Você quer ter isto direito, você pegue em D. Chataurd, a descrição que ele faz do homem de Deus, que não é necessariamente um santo, ou de um modo menor, o homem muito sério, com muita, enfim muito como deve ser, ele de fato discretamente, deixa notar em si isto, mesmo quando não sopra essa graça sensível, e é impossível vê-lo sem notar isto.
Então, vamos dizer, por exemplo, eu vou à coisa mais elementar, mas imagine um homem de uma virtude séria, de virar e romper, mas que é contador; você trata com ele e tem uma sensação de probidade dele, que vem de uma observação psicológica direta dele que vem com um pouco de lúmen que ordinariamente a virtude trás consigo, e que dá à gente a sensação de que com aquele homem se pode contar, não é necessariamente um santo.
(Sr. Nelson Fragelli: O senhor disse que mesmo sem a graça sensível olhando para este homem de Deus…)
Deve-se ver isto no Fundador também, isso é certo, não se pode ver no Fundador apenas o que se vê; as graças excepcionais, deve-se ver isto no Fundador também, e o modo de apagar esse lúmen segundo. Porque o primeiro já se está vendo, são pecados, são infidelidades, são tatá-tatá, mas a gente mais pode rezar para uma pessoa ter de novo, do que qualquer outra coisa.
Bem, mas o segundo lúmen, às vezes se apaga também, muito mais grave, muito mais grave. Por que é que se apaga o segundo lúmen? Você sente que estamos dando aqui com o dedo no problema.
(Sr. João Clá: O segundo lúmen é independente da graça sensível?)
Independente da graça sensível, ele tem em si qualquer coisa de sensível, mas ele é independente da graça sensível. Então é o contador, por exemplo, você vê que é um homem probo, um homem direito, você não está prevendo que ele é um santo, nem você está pretendendo nada dele, ele é um bom contador, fiel, homem de fé, mas não é um grande santo, mas você vê nele, que ele possui isto pelo estado de graça, que ele está na via que chamam intermediaria, entre a depurativa e purgativa e unitiva, na linha do iluminativo, tem uma boa via iluminativa, e talvez não seja naquela idade pelo menos chamado para muito mais do que aquilo, ele está seguindo o que ele deve, você olha e diz: que pessoa apreciável. Isto está certo meu coronel?
(Sr. Poli: Está ótimo.)
Agora, porque que é que a gente perde a visão disso? Aí na segunda a meu ver é o seguinte: quando a gente tem todos os esplendores do thau, a gente deveria amar cumulativamente esse aspecto da pessoa que nos causa tanta impressão. De maneira tal que quando o thau se apagasse, ficaria a visão clara de até aonde vai a segunda coisa. E esta consideração cheia de amor daria para nós agüentarmos o deserto da ausência do brilho da graça primeira. Não sei se está claro?
Agora, por que razão então é que a pessoa deixa de gostar disso? É porque a pessoa permite, para tratar do nosso caso concreto, porque não se dá esse fenômeno, não adianta estudar independente do fenômeno de Revolução e Contra Revolução.
É, não vai, já está tarde, a reunião infelizmente começou muito tarde, porque eu tive de atender além do nosso Rodrigo, naturalmente loquaz, eu tive que atender D. Bertrand com uma consulta do Chile, e o José Ciro também para uma coisa, mais um outro camaldulense para uma outra coisa, mais o Luizinho, eu vim jantar aqui às 11:00. Ainda durante às 11:00, a minha irmã…
(…)
…Fui correndo lá para os “enjolras”, de maneira que não me queiram mal se a nossa reunião começou tão tarde. Mas, vamos agora voltar ao nosso caso.
Eu estava falando de uma coisa, é o seguinte: quando o indivíduo faz uma concessão qualquer carregada — às vezes é mínima — carregada de uma certa carga de Revolução, porque esse é o negócio, entende? O João faz assim a idéia do caçador que pegou o quati pelo rabo: agora eu peguei o negócio.
Bem, então pega, por exemplo, um “enjolrinhas” qualquer, mas também para o nosso caso, em certo momento o “enjolrinhas” pode por, simplesmente por um farolete de motocicleta que apareceu e que é ultra — porque essas coisas aparecem assim, é um farolete amarelo que faz não sei o que, etc., etc., e que é uma surpresa, ninguém pensava que ia aparecer isso no mundo das motocicletas, dá prestígio a quem usa, etc., etc. — e ele se deixa embair por aquilo, ele recebe uma mensagem de satanás, do demônio da Revolução.
E toma por aquilo um certo encantamento que não faz clave com o varão probo que ele conhece, e começam duas influências a se debater na alma dele, porque há uma porção de coisas que fazem clave com aquilo, com o farolete, e que não fazem clave com o varão, e entra de um lado a Revolução e de outro lado a Contra-Revolução na alma dele. Mas, aí a Contra-Revolução começa a batalhar na defensiva. E o que se pode é ajudar o indivíduo a administrar o eclipse dele, o caso dele, quero dizer. Porque a Contra-Revolução perdeu o que ela tinha de melhor. É o progresso, é a garra na alma dele, pela simples concessão que ele fez a essa coisa.
Só vem porcarias depois, inclusive o 6º Mandamento entra logo junto, nem precisa dizer, entra correndo. Então pega, por exemplo, eu vou dar um exemplo concreto…
(…)
…Eu consegui ser inteiramente claro.
(Sr. Poli: Sem dizer o nome o senhor não pode deixar gravado?)
Sem dar os nomes eu posso. Eu já falei do farolete não é? O sujeito, domingo à tarde, ele está prestando serviço, ele está indo para o Êremo A, ou o Êremo B, como eremita, ele passou um dia muito bem, mas tem aquele farolete lá. Ele vai sedento de encanto pelo farolete em si, e de que como que comungando com o triunfo universal que a Revolução está tendo — ele não sabe que é a Revolução, mas é a Revolução — que a Revolução está tendo com o lançamento daquele farolete, de um lado.
Agora, de outro lado, ele vai passando em frente a uma lanchonete, porque o sinal parou, e ele tem que esperar, e numa lanchonete tem assim um grupo regularmente grande de moças e rapazes que estão olhando o trânsito, uma lanchonete bem “biriquina”, portanto, para olhar para fora e ver o trânsito, vocês podem imaginar o que é. Mas, isso aí se dá em “biriquinis” , como dá em “granfinis”, é só adaptar um pouquinho que dá, é tal qual, é um fenômeno humano.
Um grita – o Guerreiro deu bem, como é?
(Sr. Guerreiro Dantas: O bicho.)
É isso. Essa aí gostou; bem, e a outra faz uma cara melada e um outro diz: “não podia encostar um pouco aí para a gente ver?” Aí ele encosta.
Faroleia, sai ultra bem tratado, pensando de com vontade no domingo que vem voltar para explicar a eles mais uma coisa da faroleta que ele esqueceu de explicar, e passa a semana inteira com isso. Não ousa contar para o João que ele está com isso na cabeça, porque ele percebe que o João vai malhá-lo como se malha um Judas na Sexta-Feira Santa. E depois, que o João não vai compreender como é inocente aquilo,e que o João até vai pensar que é por “fassurada”…
[Vira a fita]
O sujeito não tem noção de que isto é pecado, e depois ele já deu uma adesão tal que é preciso uma generosidade sobre humana para voltar com aquilo, é o pecado de Revolução que entrou na alma dele. Eu acho que o exemplo é claro.
Que hora são? 3:30, que barbaridade, eu dou rapidamente, há uma coisa que, entretanto eu acho que é o demônio que produz, e que é de uma natureza um tanto diferente. O demônio atua sobre o indivíduo de maneira a,…
(…)
…Tome um homem que vive no meio dos homens maduros que eu falei, ele vive no meio desses. Mas, ele aprecia muito a esses, e ele faz da maturidade daqueles homens, daquilo tudo, o gosto da vida dele. Mas, em determinado momento, sem ele perceber, o demônio exacerba neles, nele, não de um modo critico, mas aumenta a intensidade de certos gostos da vida. E, por exemplo, de fazer bonitas viagens, mas não é viagens com “fassuras” não, é fazer bonitas viagens, ir, por exemplo, a Angra dos Reis, daquele álbum.
E dá vontade a ele de fazer essa viagem, por causa de Angra dos Reis, e começa a dar a ele uma espécie assim, ponha várias Angras dos Reis na cabeça dele, de várias coisas, então é ter um relógio, é não sei o que, é “x” coisas, várias coisas assim que vão acendendo na cabeça dele, e cuja oposição com a vocação ele não sente, porque aquilo se dá de um modo subconsciente, lento, mas que vai tendo um efeito que é o seguinte:
O homem não se contenta de viver no bom odor dos homens probos que ele conhece, abre também um outro campo na alma dele, já não é apenas respirar a virtude, mas é respirar um pulchrum da vida que não tem relação com a virtude, é um deleite. Em Angra eu vou deliciar-me com tal coisa.
Bem, e aí está a cilada do demônio, porque não há diretor que perceba isto, o próprio paciente não percebe isto, e vai se afundando. Bem, em certo momento vem a tentação: “afinal de contas eu vou não vou passar a minha vida considerando a pulcritude moral que, desses homens probos que estão aqui. São por exemplo, homens mais velhos do que eu, podem morrer, são, por exemplo, homens que pelo contrário, de repente se dispersam e vão servir em vários lugares do Grupo, e essa roda se desfaz, isso tudo passa e eu fico com os meus interesses, com as minhas preferências, obrigado a tocar uma vida por mim. Esse valor, esse sabor da virtude, não me acompanhará necessariamente, eu preciso constituir uma vida para mim à margem disto, de maneira que eu possa ter segurança, ter dinheiro; mais adiante, aí eu fico mais tranqüilo para viver no perfume das virtudes dele”. Não sei se eu consegui ser claro?
Bem, então a primeira é uma espécie de amnésia com o aparecimento de outro pólo. Eu então vou tomar uma profissão, que eu vou exercer, e eu vou continuar a freqüentar estes homens probos, mas já não é do mesmo jeito. Porque ele se entusiasma pela profissão, ele é isso, ele é aquilo, aquilo e aquilo outro.
(Sr. Nelson Fragelli: O pólo do interesse foi deslocado.)
E, com o pólo do interesse, o pólo do amor, o pólo da compreensão, começam a aparecer os equívocos, tem acontecido caso de gente que entra coisa comigo, que eu digo uma coisa e eles entendem outra.
Agora, como prevenir disso uma pessoa? É a razão pela qual eu os estou retendo até tão tarde. É que, se a pessoa não ouve uma descrição dessa, lentamente, sem criar pânico, mas alertando no período áureo, e quando a gente nota que esta tentação está se aproximando, a gente diz: aqui chegou a tentação, você toma cuidado, etc., etc., se a gente não faz isso à pessoa cai mesmo.
(Sr. João Clá: É, porque é muito subtil o jogo.)
É um jogo tremendo, mas eu tenho visto, por isso é que eu disse a você, na sua ausência eu tenho visto, eu tenho percebido nuns e noutros fiapos de coisas dessas, e para dizer tudo num momento e num instante só, se quiserem eu posso explicar no sábado que vem, se houver sábado que vem, se a as radiações atômicas não tiverem tomado conta de tudo.
Bem, foi…
(…)
…Tem uma relação com a nossa reunião da tarde.
(Sr. João Clá: Não está gravado que hoje é a festa de Jó.)
Isso eu posso gravar. O AS [Armando Santos?] contou ao Poli, não ao Fernando, que por sua vez me disse, que hoje era a festa de Jó.
(Sr. Nelson Fragelli: É um sinal isso, é um sorriso de Nossa Senhora.)
É um sinal, é um sorriso de Nossa Senhora. Mas, por exemplo, um de nós gostaria de viver ao lado de Jó a vida inteira, um homem que se…
(…)
…(Sr. –: Ah não.)
Bom, mas podia se dar com o admirador de Jó exatamente isto, vamos dizer, que estivesse a um certo alcance de Jó, um oásis muito bonito, e nesse oásis passassem mercadores de camelos, com os quais era preciso, possível fazer bons negocinhos, o admirador de Jó está liquidado…
(…)
* * * * *