CSN – 12/4/1986 –
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Conversa de Sábado à Noite — 12/4/1986 — Sábado [VF37] (Augusto César)
(Nelson Fragelli: O que é “pulchrum”, enquanto ligação com a vocação, que paralisa e neutraliza a ação adversária? Exemplos: Estávamos em Roma na época da Guerra das Malvinas. A esquadra inglesa estava descendo e parou nas costas africanas durante quatro dias. Aí, sem sabermos que o senhor tinha lançado o manifesto, nos perguntamos: não será algum manifesto da TFP que fez parar a coisa?)
Mas, que curioso! Que curioso!
(Nelson Fragelli: Agora, o lance arqui-“pulchrum” dos “Pareceres”. Então, o que é o “pulchrum” enquanto arma misteriosa? Não é ele que tanto espanca as trevas? Ou ele é parte disso, ou não é isso?)
É uma pergunta que parece muito complicada e, entretanto, a resposta é simples. São Tomás de Aquino diz que o belo é o esplendor do bem. Quer dizer, o bem, quando resplandece, produz o belo.
Isso é difícil de conciliar com as idéias correntes sobre o pulchrum , porque todo mundo tem idéia de pulchrum o quê? Que o lilás de uma orquídea, com o branco e a cor vinho de outra orquídea atrás é pulchrum por causa de uma composição agradável de cores para a vista, uma coisa cromática sem maior explicação nem ordenação. Então, pulchrum seria um deleite para o olhar, mas um deleite não racional, como, por exemplo, é o sal para o paladar. Não há motivo nenhum para o sal ser agradável para o paladar. Mas, não há nenhuma razão, por exemplo, um dos que estão aqui gostar de mostarda e outra não gostar de mostarda, mas gostar muito de pimenta, não há razão. São coisas que independem de razão, quer dizer, podem ter uma explicação fisiológica, mas o deleite não tem explicação.
Então, também o deleite do olhar. E o deleite do olhar faz com que, serve de analogado primário para o que é o que chamamos por analogia o pulchrum, essa ação é pulcra. A análise pousa sobre ela e tem um deleite. Então é irracional como a orquídea, ou sal ou mostarda. No fundo é o conceito que todo mundo tem a respeito de pulchrum. O conceito corrente é esse.
E não é essa a verdade. Quando São Tomás diz que o belo é o esplendo do bem, ele diz em outros termos que o belo é o esplendor da ordem, porque ordem e bem são a mesma coisa.
O que é a ordem? É a disposição das coisas — ele mesmo define — é a disposição das coisas para seu fim, segundo sua própria natureza.
O esplendor que há na disposição de uma coisa para seu fim, segundo a natureza dela, isto, o esplendor disto é o belo.
Agora, qual é a carga contra-revolucionária do belo?
É que a Revolução detesta a ordem, e ela detesta toda hierarquia que está de um modo ou de outro envolucrada numa ordem. E ela, portanto, detesta o esplendor que dessas coisas. Ela detesta o belo.
Agora, detesta por quê? Por uma espécie de coisa à maneira de uma descarga elétrica. Quer dizer, colocadas uma [na] presença da outra, como são heterogêneas, se detesta. De maneira que, conseqüência, o belo tem um efeito que não é necessariamente exorcístico no sentido de afugentar o demônio, mas que contraria o demônio. O demônio se pudesse, ele destruiria todo o belo, porque se pudesse destruiria toda ordem. Por quê? Porque toda ordem é reflexo de Deus. E Ele odeia a Deus.
(Sr. Guerreiro Dantas: Há ordens que não tem o belo. Onde nasce o belo então?)
Isso é uma outra questão. É que toda ordem tem seu belo, por mais modesto que seja, mas que isso só se chama propriamente belo quando atinge um certo grau, atinge uma certa excelência, um certo esplendor. Mas, em si, toda ordem tem seu belo.
Eu me lembro que vi numa antologia francesa, com esse talento que é dos franceses, uma fotografia representando assim um cais, mas a fotografia não explorava a beleza da água, nada, via-se apenas que aquilo era o cais e corria água por lá. E a pedra eram uns cubos, uns paralelepípedos grandes de granito, muito maiores...
[Entra Dr. Marcos.]
Eram pedaços de granito assim, e num desses pedaços tinha escavado assim dentro da própria pedra um buraco e tinham posto uma argola de metal. E era uma argolona grossa. E percebia-se que essa argola era feita para segurar uma corda, para prender navios. Era uma fotografia tomada com muito jeito, de maneira que a luz batia sobre o granito, e embaixo vinha uma descrição, de um escrito francês, mostrando como aquilo era belo.
Realmente, a gente passando por um cais, olhando aquilo, não se lembra de achar que é belo, todo mundo pisa em cima, de repente, por causa de um aspecto da fotografia, percebia-se como é bela a resistência da pedra, a resistência da argola e da corda segurando o navio e evitando que as ondas levem o navio embora. É uma ordem, é uma ordenação. Esta ordenação é uma ordem muito modesta, muito pequena, mas que, fotografada sob certo aspecto, deixa ver seu esplendor, deixa ver o belo.
Quer dizer, toda ordem tem seu belo, mas o esplendor do belo, em certas ordens só aparece sob um ângulo muito favorável. Em outras ordens entram pelos olhos. Isto é o que se chama o belo na linguagem corrente, quando entra pelos olhos. Então tem os vários graus, o belo, o belíssimo, o encantador, o imponente, enfim mil gamas, mil modalidades de belo estão dentro disso. Mas é o belo.
Então também, quando vocês vêem um golpe dado numa coisa, é um golpe de um agente pequeno que, com um modo muito certeiro, atinge um alvo escolhido com penetração, e que imobiliza aquilo, na própria desproporção há uma excelência da ordem. Aquele projétil pequeno foi utilizado com muita ordenação, de maneira a tirar dele toda eficácia que ele tem, e foi desfechado no ponto certo, foi desfechado, “bumba”, lá vai. É um belo.
Agora, se vocês me permitem, para a pessoa se desabituar da idéia corrente de belo, e tomar essa idéia que eu estou dando, é preciso quase um pequeno esforço. Porque eu fui educado — já no meu tempo, quanto mais no tempo de vocês — com a idéia de que o belo é um fenômeno epidérmico das coisas, que causa um efeito que não tem explicação racional, e que, portanto não tem importância para o espírito sério.
Mas é o mal do ambiente brasileiro, ou do ambiente sul-americano em geral. Você pega, por exemplo, na Europa é comum você pegar homens de grande valor que mandam arranjar, por exemplo, por floristas — toda organização do comércio de flores é diferente do que é no Brasil — então floristas que se incumbem, durante o período que tem flores de mandar vir, por exemplo, para a residência do industrial tal, ou para o escritório do cientista tal, ou do marechal-do-ar tal, etc, tal flor assim, que ele gosta [de] ter sobre sua escrivaninha para trabalhar. Isto é comum. No Brasil isso pareceria efeminamento, um cretino.
Se fosse dizer, por exemplo, para um de nós: olha, você vai ao escritório do fulano, é um escritório notável pela flor bonita que você sempre encontra lá; você toma uma dentada.
(Sr. Gonzalo Larraín: Colômbia, por exemplo, exporta rosas, mas aviões e aviões de rosas e orquídeas fabulosas, para a Europa. Mas lá mesmo não usam.)
É inexplicável, a não ser por um modo completamente — vamos dizer a verdade — provinciano, caipira, de ver as coisas. Mas, por exemplo, isso já é um pouco transacto, nem eu alcancei esse tempo, mas na geração dos meus pais, um homem que saísse — na geração dos meus pais, quando eles eram moços, o homem usava habitualmente fraque — quando saísse de casa de fraque, querer ter todos os dias uma bonita flor na lapela, na Europa era o normal. Você pegar um sir não sei o que, almirante da esquadra britânica, e que vai levar os batalhões para o Nepal, portanto, desembarca na Índia e vai subir pelo Ganges até às raízes do Nepal, para dominar um povo bárbaro, lá ele leva a bordo, por exemplo, em caixas com gelo, coleções de flores da Inglaterra que ele quer ter no posto de comando do seu navio.
Bem, mas é porque eles têm uma outra idéia do belo.
(Sr. Guerreiro Dantas: Até os orientais são assim.)
Também são. Eu li outro dia uma história do Monsenhor de Segúr, um padre meio contra-revolucionário, que havia na França do século passado. Esse homem ficou, de repente cego, uma doença da vista qualquer, mas já era padre. E ele tinha um apartamento. Na sala de espera do apartamento dele um quadro de um pintor de terceira classe, mas pintor de terceira classe. É o que eles chamam petit nom. São pintores de pequena nomeada, mas ainda são coisas suculentas. E ele ficou cego, a família disse a ele: esse é um quadro que o senhor recebeu da herança da nossa família, o senhor não pode mais apreciar o quadro, restitua-nos. Mandou levar o quadro. A família gozava o quadro, reunia-se à noite em torno do quadro. E nas ocasiões que não era inverno, com lareira, em ocasiões de verão, a lareira atérmica era o quadro que dava alegria para a família.
Está bem, você encontra pilhas de famílias aqui com quadros bons, se reúnem, não apreciam, não ligam, não se põem o problema, não têm noção do belo.
Bom, isto é a resposta a uma pergunta. Mas parece que o Dr. Marcos, e o Poli tinham perguntas mais belas.
(Dr. Marcos Ribeiro Dantas: Santa Tereza, no livro “Castelo Interior”, fala de várias moradas da alma. Na sétima morada ela fala do matrimônio místico. Descreve dizendo que a alma se identifica com Deus de maneira total. Não é uma união, é praticamente uma fusão. Ela diz que é como um riacho caindo num lago. É impossível separar as duas águas.)
Imagem com Deus! Da criatura com Deus.
(Dr. Marcos Ribeiro Dantas: Já aqui na Terra. E parece que tem um discernimento da Santíssima Trindade.)
Eu acho que, em todo caso, ela vê coisas que nessa Terra são mistérios para nós. Se ela vê toda a Santíssima Trindade, não sei, pode ser, não conheço o tema. Mas, pelo menos isso eu acho que é certo.
(Dr. Marcos Ribeiro Dantas: Bom.)
[Risos]
(Dr. Marcos Ribeiro Dantas: Uma pergunta meio simplista: como temos pretensão de nos unirmos ao senhor...)
(...)
...ser visto as loucuras daqueles acusações. Aquilo não é acusação. Não chega a ser xingatório até. De louco! Quer dizer, a gente esmaga aquilo com o pé, como esmaga uma minhoca com o pé, é assim.
Bem, por detrás daquilo há um rugir diabólico que é parecido com as blasfêmias inúteis que os demônios do fundo do Inferno lançam contra os Anjos. Porque eles objetam coisas desse gênero, eu acho que eles objetam. Blasfêmia é isso. Dizem coisas, depois riem, coisas e tal, coisa que no Céu...
Sendo que outro dia li isso, creio que em São Tomás, que é certo que Deus, os Anjos, os santos, as pessoas bem-aventuradas no Céu se comprazem em considerar de vez em quando o Inferno e aumentar o tormento deles, por castigo pelo que estão fazendo. Faz parte da glória deles. Você está vendo que isto é parecido com o que estamos conversando.
Agora, eu volto a dizer: à força de estarmos penetrados deste espírito, em certo momento uma coisa entra em nós.
Vou dizer a mínima das coisas, não me queiram mal, tanto mais que vocês sabem que eu os quero bem. Há pouco o Fernando Antúnez entrou com a cadeira e o Guerreiro, por boa acolhida, afastou um pouco a cadeira dele para caber a cadeira do Fernando. E o Fernando, para retribuir a gentileza sem interromper a conversa, fez um gesto qualquer por onde tocou aqui no ombro do Guerreiro. Uma coisa de intimidade. Mas, sem que o Fernando percebesse, o gesto tinha qualquer coisa de companheirismo esportivo. Não sei se você se dá conta.
Bem, nisto entrou um reluzimento mau de Revolução. E eu olhei inquieto para o Guerreiro, para ver se ele tinha fruído isso. E meio subconscientemente sim, embora ele estivesse com a atenção tão posta aqui que não pode... Aquilo passou assim.
(Nelson Fragelli: Essa radicalidade do senhor nos dá uma alegria profunda.)
Nesta radicalidade, você vê a verdade com Nosso Senhor: “veritas liberabit vos”. É uma espécie de libertação. Está assim, chegou ao fim da perspectiva, e é isso. Entendam que é isso.
Agora, o que eu acho é que Nosso Senhor aí, Nossa Senhora, os Anjos, santos e tal, se apresentarão a nós sob o aspecto em que o demônio mais os odeia.
(Nelson Fragelli: O senhor poderia repetir?)
Quando eles Se fizerem ver para nós, e creio que nessa vida, Eles se apresentarão a nós sob o aspecto em que o demônio mais os odeia, porque é o filão da Contra-Revolução. E nos aparecerão então, não como essas imagens de igreja, mas em aspectos magnificamente contra-revolucionários. E o Céu se nos afigurará como o templo da Contra-Revolução onde, em sua — se se ousasse dizer — em su tinta na sua sorgente... Mais ainda, é que Deus não é contra-revolucionário, Deus é a Contra-Revolução! Então, ahhh! Como prêmio de lutas tremendas contra a Revolução, as lutas contra-revolucionarias.
(...)
Querendo, podem acender a luz para ver bem.
Cristais desse não têm muito valor. É muito bonito e me agrada de sustentar que uma pode ser muito bonita e não tem muito valor comercial. Isso não é uma jóia. Mas é um bonito cristal. Bem, eu julgo entrever aqui alguma coisa, primeiro, de absoluto dentro disso, de sério, dir-se-ia que por detrás desse cristal, ou de dentro desse cristal fala o Criador do Cristal, exprimindo alguma coisa de si mesmo.
Agora, o que é? Essa cor meio luminoso e meio escura que parece provir do fundo do cristal — nós sabemos que não provém, isso não é uma lâmpada, ele recebe a luz, mas ele cria a ilusão e nisso está o bonito dele — ele cria a ilusão de que a luz está provindo dele.
Essa obscuridade misteriosa da qual emana uma luz, a meu ver é mais ou menos para nós como o Padre Eterno do qual procede o processo trinitário misteriosamente. E que, sem ser criador de nada — há uma expressão muito bonita no Credo a respeito da relação do Verbo com o Padre Eterno: “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado e não criado, consubstancial com o Padre”.
É o que? O Verbo é a figura do Padre, é a imagem do Padre. E assim também, em relação a este fundo que tem, isto aqui, todas as aparências dele voltam-se para o fundo e corroboram. Então a aparência e a realidade há uma espécie de relação parecida com essa.
Esse misterioso que está se externa por meio dessas aparências que são a figuras dele. Esse seria o Verbo.
Mas a gente sente que entre a aparência e esse pseudo-real profundo, existe uma coerência, que faz com que a coisa seja homogênea, esteja composto em suas partes, indestrutível, não se quebra isto, que estão ligadas como que por um amor, que é o Espírito Santo. Eu imagino que seja isto. Não tenho certeza. É claro que, na medida em que a imagem não for católica, eu não aceito. É uma tentativa de explicação. E eu acho que, discernir isto mais a fundo em qualquer coisa, na tentativa de compreender o fundo misterioso da coisa, quer dizer, não é a análise química da coisa, não é fundo da coisa, é a mensagem que a coisa trás: o que isto me diz de Deus.
Isto é o começo de uma longa caminhada que terá seus grandes estágios durante a Bagarre.
Acho que no trato com um contra-revolucionário verdadeiro, há uma qualquer coisa que o revolucionário nota e que tem disso. E que isto é que faz com que sejamos [tão] admirados e tão odiados.
Então, respondo sua pergunta: eu acho [que] isso se dará, o que de algum modo já se dá, porque não é em vão que a gente expulsa as aparências revolucionárias das coisas diante de nós, não se consegue isto sem uma graça especial e sem começar a ver as coisas assim.
(Sr. Gonzalo Larraín: Não entendi.)
A frase talvez não estejam clara. O fato de nós conseguirmos expulsar, não gostar das coisas que reluzem o demônio, e isto é uma coisa que tem tanto mérito, agrada tanto a Deus nessa época aí, tem tanto mérito que não vai sem uma recompensa. Essa recompensa é o Ele substituir essa visão atraente das coisas do demônio por um começo de visão d’Ele.
(Nelson Fragelli: No Grupo temos isso, mais do que o começo.)
Aos borbotões. O thau já é isso.
(Nelson Fragelli: O thau é a apetência disso.)
Exatamente.
(Sr. Gonzalo Larraín: A superioridade do Reino de Maria sobre a Idade Média, o senhor está explicando agora.)
Porque eu acho que isto assim não houve nas épocas anteriores. Há uma espécie de prenúncio de uma como que Pentecostes, dentro disso. Em Pentecostes foi o Espírito Santo. Eu não sei o que vem.
Mas, notem, isto começa por, começa já em proporções muito modestas por um desposório de espírito, que é um particular dar da alma que a gente dá, quando a gente faz isso. E isso estabelece entre nós uma união que não tem paralelo com; essa história aí; num clube, meu amigo, como vai passando...
Agora, tem paralelo com a solidariedade maçônica, bucheira, etc., como eles são todos um contra nós, aí...
Então é, experimentalmente, uma resposta: fazer sentir a coisa e ver que ela é um pequeno começo disso. E aí o matrimônio espiritual. Porque, realmente, há alguma espécie de renúncia no seguinte sentido da palavra, um de vocês imagine que recebesse o seguinte negócio: você olhou para um demônio e você ficou incapaz de ver as coisas a não ser à luz dele, o que equivale a uma coisa pior do que a cegueira; porque em vez de dizer que você não vê nada, por toda parte você anda, você vê a ele.
Bem, eu te recompenso assim: eu não te curo de sua cegueira, mas eu te dou o ver a mim por toda parte onde você olhar.
Bem, mas assim como o primeiro é uma espécie de união mística, de fusão com o demônio, assim o segundo é uma união mística ou fusão com Deus.
(Sr. Guerreiro Dantas: Assim como no conjunto o senhor via naquela pedra, o senhor foi e começou explicitar, é a Santíssima Trindade, a presença d’Ela.)
Numa criatura criada tem-se um sabor, uma coisa que é mais do que a descrição artística daquilo.
(Nelson Fragelli: Gosto muito de ouvir isso, gostaria de ter ouvindo há mais tempo.)
(Sr. Guerreiro Dantas: Algo penetrou em nossas almas.)
Eu sinto que estamos mais unidos do que antes de começar a reunião. Estamos mais unidos, mas de uma união que já não se pode chamar amizade, é mais do que amizade. Amizade é essa visão natural, uma afinidade, etc., é uma coisa que é como uma vida que começa percorrer-nos, num círculo, é a tal “pervasão”, em grau ainda inicial, mas é um grau que é riquíssimo, porque ele contém depois todo o resto. Esse é o negócio.
Vou lhe dar bem o ponto onde a analogia é grande — volto a dizer, sempre fazendo a ressalva da doutrina católica que, quanto ao formular, pode ser que não estejamos corretos, mas percebemos que o cerne do pensamento é — e o seguinte: “a tal pervasão que se estabelece ali, como se estabeleceu aqui entre nós, é evidentemente parecida com a pericórises trinitária, o processo pelo qual a vida circula com a pericórises trinitária, o processo pelo qual a vida circula, a mesma vida entre as três Pessoas da Santíssima Trindade.
(...)
Naquela parábola do pecado imenso há uma coisa — a gente não pode dizer tudo numa parábola, mas a parábola lucraria em se completada nisso que vou dizer agora — não é dizer que o príncipe do pecado imenso se meteu pela natureza, alegre de estar libertado daquelas coisas, não. Ele, com isso levava junto consigo um certo ódio destruidor também do que a natureza tem de bom.
Quer dizer, na primeira vista era o gosto pela natureza, mas isso era uma carapaça, porque entrava por debaixo a negação de toda ordem. Ele tinha dentro de si, já estava nos primeiros vagidos o Freud, apontando como etapa normal, conclusiva da atual fase da História da Humanidade, o homem arrastar-se no chão, no meio das minhocas e dos vermes, não andar bípede orgulho, e as crianças habituarem-se a brincar com excrementos animais e próprios, porque o resto é orgulho, etc., etc. Era isso que estava no fundo.
[Vira a fita]
Ia desviar a conversa, e não falei. Essas coisas não são propriamente objeto da indagação de Santo Agostinho. Santo Agostinho queria perguntar, filosoficamente falando, dado que, dado o conceito de pessoa que é um conceito que dá volta em si mesmo, é um ser fechado, persons, é propriamente isso, sonam per, é um som que dá uma volta num circuito, enche inteiramente esse circuito. Então, uma pessoa, segundo a experiência comum é isto: eu sou eu, todas as coisas vivem dentro de mim, eu sou uma pessoa nisso.
Bem, como é que isto se conjuga com o fato de ser um só Deus, donde se tem a idéia de que é uma só pessoa. Parece que o conceito pessoa é contraditório com o conceito da unidade de Deus, como é que num só Deus pode haver três pessoas.
Problema mais profundo: se num só Deus, você tem a idéia, todo mundo tem, que o mais alto ápice do ser é a pessoa. Ora, há um ápice do ser que comporta uma pluralidade de pessoas e que, entretanto, as pessoas são inteiramente pessoas?
Quer dizer, o que é Deus para pode ser uno e ser trino ao mesmo tempo? Que gênero de ser é este para Ele poder ter, dentro de sua imensidade, três pessoas inteiramente distintas e que vivem? Isso é um mistério transcendente.
(Sr. Guerreiro Dantas: Iguais e distintas.)
Iguais e distintas, e coeternas. Embora o Filho proceda do Padre, o Filho é coeterno com o Padre. E o Espírito Santo é coeterno com o Padre e o Filho. Como é que Eles são eternos, existiram sempre e desde sempre Eles Se geraram e Se amaram, quando a geração e o amor posterior são fenômenos que parecem se dar no tempo?
Aí tem mistérios de elucubração filosófica, que, aliás, repercutem de um modo muito bonito na Cristologia. Repercute de outra maneira.
Uma vez que Nosso Senhor Jesus Cristo é o Verbo, mas Ele é verdadeiramente Homem, tendo, portanto, uma alma, Ele deveria ser, enquanto homem, há duas naturezas, a divina e a humana, numa só pessoa. E a natureza humana parece excluir que esteja ligada a uma outra natureza muito mais forte em personalidade do que ela mesma. Isso os teólogos discutem sem fim. E isto é que Santo Agostinho... Aquele menino na praia representou a Santo Agostinho. Quer dizer, o que é o mistério? Isso é mistério.
É um mistério tal que na “Suma” há um trecho em que São Tomás dá uma explicação que parece ter explicado o mistério, e ele mesmo diz: “Eu pareço aqui ter explicado o mistério. Mas é dogma que é mistério. Eu, portanto, não poderia explicar. Vou agora dar o lado falso do raciocínio por onde eu pareço ter explicado”.
(Sr. Gonzalo Larraín: Que maravilha! Só a Igreja!)
Só, só, só.
(Sr. Guerreiro Dantas: Qualquer homem sem virtude que fizesse esse raciocínio, diria que descobriu.)
Ah! Diria. O cartão de visita: Fulano de tal, descobriu o mistério da Santíssima Trindade... Ha! Ha! Ha!
[Risos]
Uma coisa! Nobel, qualquer coisa, de cair no chão.
(Dr. Marcos Ribeiro Dantas: Diz aqui Santa Tereza: “...mediante certa maneira de representação da verdade, mostra-se a ela a Santíssima Trindade, Deus em três Pessoas”.)
Por meio de uma certa representação. Portanto, não é propriamente o que você está imaginando, que é ter a explicação da Santíssima Trindade. É vê-la, mas sem desvendá-a inteira.
(Dr. Marcos Ribeiro Dantas: Até que ponto a pessoa vendo não desvenda, não entendi.)
É, isso um problema criteriológico. Por exemplo, eu vi esse cristal, mas eu não desvendei, apenas descrevi de um modo incompleto a realidade profunda desse cristal. O compreender o mistério do cristal era dar uma explicação de cima que eu não dei, e vocês sentiram que eu não dei. Todos vimos o cristal.
(Dr. Marcos Ribeiro Dantas: De qualquer forma é magnífico!)
Ah! Não, isso estou longe de negar.
[Risos]
Eu acho que é o mais alto até onde um homem pode chegar. Está magnífico. Digo mais: não sei se no Céu se chega mais alto.
(Dr. Marcos Ribeiro Dantas: Ela diz que é semelhante ao que o bem-aventurado tem no Céu.)
Mas, veja o seguinte: semelhante não é idêntico. Nem no idêntico a pessoa decifra.
(Dr. Marcos Ribeiro Dantas: O bem-aventurado não desvenda?)
Eu não tenho uma certeza inteira, mas creio que não, não cabe na inteligência humana. Mesmo agrandada pela graça, não cabe. Agora, o mistério é para o homem, atraentíssimo.
Você quer ver uma coisa curiosa? No convívio humano comum, por mais agradável que seja duas pessoas se conhecerem inteiramente e entrarem em toda consonância, o completo conhecimento gera monotonia. Pelo contrário, se essas duas pessoas, reciprocamente, têm sempre um mistério harmonioso que não é uma selva de onde pulam jaguares, mas é um mistério harmonioso e atraente, aí a pessoa encontra um estado de beatitude próprio.
E, por causa disso, por exemplo, nós poderíamos conviver longamente com uma pessoa que, por mais que nós adiantássemos, nós ainda... ainda teria alguma coisa para nós conhecermos. Por exemplo, a pessoa que nós conhecemos inteiramente, para nós o que resta?
(Sr. Poli: Como era o mistério da Sra. Da. Lucilia para o senhor?)
Era uma consonância enorme. Eu creio que, provavelmente seria pelo menos por alguns aspectos, uma união de alma dessas, mas com... Que sentíamos continuamente sem necessidade de falar, e que dava nessa união enorme entre nós.
As pessoas percebem isso.
(...)
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