Conversa de Sábado à Noite ─ 5/4/86 . 12 de 12

Conversa de Sábado à Noite ─ 5/4/86

Importância das Conversas de Sábado à Noite para o Grupo * O Senhor Doutor Plinio prefere sacrificar a ação contra a Reforma Agrária a interromper as graças havidas nas Conversas de Sábado à Noite * O papel do relacionamento de alma a alma dentro da luta contra-revolucionária * O Senhor Doutor Plinio temia uma apostasia dos mais antigos, caso não houvesse a entrada dos “enjolras” para o Grupo * O principal da ação de todo membro do Grupo está na esfera espiritual

* Indiferença de certos membros do Grupo durante uma reunião especialmente abençoada

(Sr. G. Larraín: Foi muito abençoada a reunião hoje.)

Foi, graças a Nossa Senhora foi.

Agora, você está entusiasmado assim, eu acredito que os outros que tenham estado na reunião estejam entusiasmados, mas é preciso reconhecer o seguinte: que exceção feita dos “ós”, tomando em consideração o pessoal sentado, houve um bom número de gente que assistiu…

(Sr. –: Que puxado!)

Mas você não reconhece isso? Você estava na reunião, meu filho?

(Sr. N. Fragelli: Não senhor…)

Mas é isto.

(Sr. G. Larraín: Não é possível, vai chegando uma hora em que não é possível…)

Mas é essa a mentalidade. O sujeito assim, se disserem para ele que um moleque arranhou o automóvel dele lá fora, ele perde a cabeça, e fica incapaz de pensar no resto da reunião. Por que o automóvel dele! Arranhou o automóvel! Então, cair o mundo não tem importância; arranhar o automóvel tem! Essa mentalidade existe.

* “Valeria a pena ter nascido só para nos encontrarmos nesta situação histórica”

(Sr. G. Larraín: Há quarenta anos o senhor vem dizendo a coisa… Nossa Senhora!)

É, graças a Nossa Senhora realmente eu acho que essa perspectiva… Depois, sermos os filhos de Nossa Senhora que desvendam, que apontam, e na hora da pior tragédia estamos do lado d’Ela… Porque nós hoje anunciamos o quê? Que a Rainha destronada, na terra onde Ela está, vai ser entronizado o adversário d’Ela! Com toda a ignominia que isto significa, foi o que foi visto.

Agora, estarmos como arautos do lado d’Ela, e protestando, e falando, e sermos nós no mundo inteiro ─ isto é de uma beleza extraordinária! Mas extraordinária!

(Sr. G. Larraín: E não pode haver nada de mais bonito.)

E realmente é. Valia a pena ter nascido só para nos encontrarmos nessa situação histórica em que os filhos de Nossa Senhora ─ os Guerreiros da Virgem ─ se encontram na ponta do promontório e vêem os mares se entrechocarem, vêem a revolta da natureza e tudo, e proclamam: “Filii, eius surrexerunt et beatissima praedicaverunt” ─ os filhos d’Ela se levantaram e a proclamaram muito Bem-aventurada!

Foi o que fizemos hoje. Quer dizer, nós proclamamos o seguinte: que contra Ela ninguém pode, mexam como quiserem, nós caminhamos com a segurança da vitória, no meio da conspiração universal! Para frente!

(Sr. G. Larraín: E temos certeza de que isto é absolutamente assim. Esse é o único plano que existe.)

Exatamente, o mundo inteiro está girando para isso.

(Sr. G. Larraín: Não há outra coisa.)

Não.

(Sr. G. Larraín: Fé profética, porque nós cremos mesmo no que o senhor disse.)

Todos cremos.

(Sr. G. Larraín: Vemos isso se operar na alma do senhor. Isso abala a Revolução mesmo.)

O fenômeno de alma que se deu na reunião, é um fenômeno de alma que pode abalar a Revolução. Não tem dúvida. Naquelas quatro paredes…

(Sr. F. Antúnez: Isto não tem paredes.)

É, isto não tem paredes.

(Sr. J. Clá: Quem conhece a Santa Casa de Loreto…)

É, o que se fez naquelas quatro paredes, não é?

(Sr. J. Clá: Trinta anos…)

É, trinta anos!

(Sr. G. Larraín: Temos que agradecer muito a Nossa Senhora pela graça de estarmos com o senhor nesta hora.)

E, por meu intermédio, a Nossa Senhora e a Nosso Senhor.

* O amor a Nossa Senhora levou o Senhor Doutor Plinio a descobrir planos que ninguém descobriria

(Sr. Guerreiro: O gáudio do senhor em explicitar o que explicitou hoje, não é em grande parte por que o senhor sentia que, explicitando aquilo, algo do lado de lá caía?)

Tinha disso no fundo… Mas, continue, depois eu digo.

(Sr. Guerreiro: Porque quando o senhor explicita, a gente sente que a sedução de tal plano diminui, e como que perde toda a garra que tinha. Agora, por que isso é assim? É um assunto muito interessante.)

Você imagine o seguinte. Que este plano estivesse escrito, e que alguém roubasse o plano do cofre onde está escrito, e numa reunião de vinte, trinta amigos, ─ ali tinha muito mais, tinha umas duzentas pessoas ─, numa reunião de duzentas pessoas, lesse o plano: “Eu roubei, tirei isso do cofre, e quis ler aos senhores esse novo papel [couenne?] que está aqui. Mas um papel [couenne?] autêntico, não papel [couenne”?] [falsificado], mas autêntico.

Que efeito isto produziria na ordem superior dos fatos? Seria um efeito parecido com o efeito da explicitação? Sim ou não? Em ambos os casos o plano se revelaria. Em ambos os casos o efeito se produziria, quer dizer, o efeito imediato: era um plano que era oculto e que foi levado ao conhecimento de duzentas pessoas.

Agora, na realidade, ter-se-ia dado uma coisa inteiramente diferente. Uma determinada alma, levada pelo amor à Rainha destronada, e pela aplicação em ver tudo quanto acontece contra ela, para poder prever e lutar; à força de aplicação descobriu o que seria extraordinariamente difícil descobrir. Porque não é só aquela explicitação que foi feita lá, mas são todos os pressupostos daquela explicitação, tudo quanto foi dito sobre os métodos que eles seguem, toda a lógica da coisa, tudo o mais, tudo o mais, tudo o mais ─ foi acumulado pelo zelo, pelo amor. E é, portanto, uma vitória da vigilância. A vigilância vai e descobre tal coisa. Essa vigilância tem uma espécie de ímpeto de comunicação parecida com essa outra situação que eu vou mencionar agora.

Você toma, por exemplo, uma mãe que é uma senhora muito rica, e que sabe… que na… Vamos dizer, na polícia de um país semicomunista, está guardado nos cofres da polícia, um complot escrito contra o filho. Então ela paga alguém que trabalha na polícia, que tem acesso lá, qualquer coisa, para deitar mão no cofre e trazer para ela isto. E vamos dizer que ela dê uma jóia dela de valor, ela sacrifique para isso.

É um bonito episódio, a mãe terá feito muito bem.

Mas, é diferente de a mãe dizer: “Eu, nestas últimas noites, não tenho dormido. Mas ligando um ponto com outro, com outro, com outro, eu acabei percebendo que é assim…” E ela se tenha superado a si própria na articulação das hipóteses para descobrir isto. Ver-se-ia o amor materno como que superando-se a si mesmo, como que saindo dos limites daquela personalidade, para fazer o impossível. E nisto haveria um fenômeno de alma de outríssimo valor do que simplesmente dar uma jóia, dar um cheque para um sujeito roubar de uns bandidos ─ uma polícia semicomunista é isto ─ um plano de ação malfazeja, criminosa, contra seu próprio filho.

Não sei se exprimo…

Bem, agora, no nosso caso, há isto, mas há mais do que isso. É que os que Nossa Senhora investiu da missão de fazer isso, terem tido efetivamente o amor para fazê-lo, para prevê-lo e para ouvi-lo, e para aceitá-lo ─ porque não é diante de qualquer auditório que isso seria ouvido com tanta disposição de aceitar ─ esse conjunto tem esse fato meio parecido com o ato de virtude imenso. Todo o dinamismo que o ato de pecado imenso desequilibrou pecando. Atos desses, por análogo dinamismo, podem em parte recompor. Por um dinamismo análogo, porque é um tanto dessa altura, não é inteiramente dessa altura, mas é um tanto dessa altura.

(Sr. Guerreiro: É a vantagem do senhor ter podido explicitar, aumenta o mal feito à Revolução.)

Tendo para quem dizer, tendo dito em termos muito adequados, quer dizer, isso que poderia ser um pensamento no ar, entra no campo do pensamento explícito como um regimento que marcha no campo de batalha para travar seu combate; em que todas as armas foram muito adequadas à natureza da luta ─ tudo isto tem um pulchrum próprio. Mas esse pulchrum é como uma luz que põe em fuga certas trevas. De maneira que, terminada a reunião, se nós olhássemos em profundidade, nós veríamos que houve ali, não a vitória de uma guerra, mas a vitória de uma batalha. Quer dizer, portanto, sem exagerar nada, nem estou dizendo a vitória de uma grande batalha, mas a vitória de uma batalha. Sem exagerar nada, houve isso.

* A Revolução não pode ter nada de mais intrínseco a ela do que nós somos intrínsecos à Contra-Revolução

(Sr. N. Fragelli: Se o senhor publicasse como denúncia, isso não paralisa o ponto mais central do lado de lá?)

É, é um golpe não nos tentáculos do polvo, mas naquela bola central onde ele tem os olhos, a boca, aquele horror.

(Sr. N. Fragelli: Pois é, mas que deveria ser infensa a esse golpe do senhor.)

Deveria.

(Sr. N. Fragelli: Como se explica essa contradição?)

É o seguinte. É que se o bem pudesse ser comparado a um polvo, nós seríamos a esfera central do polvo. E o golpe de esfera central a esfera central tem outra carga de armamento, de nocividade, que detém os golpes entre os tentáculos. Porque seja como for, por mais que a Revolução tenha suas cavernas, seus antros, etc., ela não pode ter nada que seja mais intrínseco a ela do que nós somos intrínsecos à Contra-Revolução. Não pode ter.

Então, vamos dizer, Biltterberger, qualquer coisa assim, são na Contra-Revolução uns brinquedinhos em comparação com o que essa reunião é para a Contra-Revolução. Seja como for, são uns brinquedinhos. E uma reunião que aqui tenha sucesso, não tem sucesso lá.

* Importância das Conversas de Sábado à Noite para o Grupo

Agora, há mais. Para tocar tudo bem, há o seguinte. Vamos dizer, essa reunião que nós fazemos aqui, aos sábados, mais as reuniões de comentários que vocês fazem com o Poli depois, tem um determinado efeito específico na vida do Grupo. E eu considero que se essas reuniões decaíssem ou cessassem, isto traria para a vida do Grupo um amortecimento considerável. Como o florescimento dessas reuniões traz para a vida do Grupo um florescimento considerável.

Bem, mas se a gente vai observar a repercussão concreta que isso tem, eu mesmo cerco isso de tais reservas, que a própria reserva que eu imponho, parece cerrar a eficácia da reunião. E essa reunião parece tomar o aspecto de uma reunião de altos diletantes… É fora de dúvida! De altos diletantes…

(Sr. Guerreiro: De alta diletância, digamos…)

[Risos]

Não, não, não está bem. Porque se fosse uma reunião de alta diletância apenas, seria preciso que fosse de pessoas de uma degustação dessa diletância muito alta. Porque não é uma reunião que eu tivesse facilidade para fazer, de fazer para outros dentro do Grupo.

Aí é preciso ver as coisas como são. É uma graça que Nossa Senhora dá a vocês…

(Sr. Guerreiro: E alguém que está presente aqui…)

Eu acredito bem que sim, mas bem. Não tem dúvida, isso eu acredito bem que sim. Mas, afinal é, por uma disposição da Providência, mas é: que vocês são dos poucos com quem eu me possa abrir a esse respeito. Não porque não houvesse gente de igual nível de fervor… seria… é uma tese que eu não sustentaria. Mas é que a qualidade do “Thau” dado, Nossa Senhora utiliza para fazer reluzir de modo receptivo, para coisas que, assim, eu não poderia dizer a outros. Isto é verdade. E vocês não estão em estado de negar o que eu estou dizendo, porque é uma coisa óbvia.

(Sr. J. Clá: O senhor vai tomando uma fisionomia própria, que o senhor não toma em lugar nenhum.)

É, isso eu noto que é verdade.

(Sr. J. Clá: O modo do senhor se dirigir, explicitar, orientar e formar são tão ricos que quando foi da repovoação do Êremo de São Bento ─ o São Bento II ─ o senhor disse que eles deveriam fazer um curso de três meses, para estudar as reuniões que o senhor dava aqui aos sábados à noite. E que se eles conseguissem captar bem, compreender bem as reuniões estas, depois eles poderiam contagiar todo o Grupo nessa linha.)

Isso, isso, isso.

Agora, eu vou aprofundar um pouco, para tratar disso. Mas, tomando o fato de que Nossa Senhora lhes dá muitas graças, vocês aproveitarem essas reuniões. Mas acontece que decorre uma espécie de equilíbrio de forças entre a tibieza e o fervor dentro do Grupo, que as hostes enregeladas do fervor, se põe a mover-se…

(Sr. Guerreiro: Da tibieza?)

Do fervor, o fervor andava enrigecido ─ enregelado não está bem ─ amarrado, se você quiser. E perceberem, todos, que o fervor fez um certo progresso, na esfera habitualmente dominada pela tibieza ─ isto é de um efeito para o conjunto da vida do Grupo, como vocês não podem calcular.

Numa ordem de idéias diferentes, mas enfim, para fazer uma comparação…

(…)

* O bem que faz aos mais novos no Grupo perceber a tocha do entusiasmo reacender entre os mais antigos

(Sr. N. Fragelli: Faz bem pensar nisso.)

Faz bem pensar! Faz bem crer que haverá!

(Sr. N. Fragelli: Seria uma coisa extraordinária!)

Extraordinária! É como se num subterrâneo, de repente, se abrisse, num daqueles poços ingleses de minas, se abrissem vários andares e entrasse um raio de sol na mina mais profunda.

(Sr. N. Fragelli: E ar! Luz e ar.)

Luz e ar!

Bem, agora, vocês não calculam ─ eu vou falar com muito afeto ─ mas vocês não calculam de que efeito de tampão é eles notarem o tempo inteiro que, aqueles que eles percebem confusamente que carregam tochas maiores que as deles, eles vêem nessas tochas chamas menos ardentes que as deles…

(Sr. G. Larraín: Eu não entendi, perdão.)

Os mais moços que vocês, percebem que vocês têm “thaus” maiores que os deles. E que um ato de generosidade de vocês reflete muito mais do que um ato de generosidade deles, por um mecanismo parecido com o da pessoa que eu mencionei há pouco. Não por uma questão de situação social, não é isto ─ existe também uma diferença de situação social ─ não é isto. É por causa de uma diferença de situação na TFP.

(Sr. Guerreiro: Lado sobrenatural.)

É, sobrenatural. Eu estou mencionando a situação social apenas para afastá-la, não criar equívoco. Mas é um “Thau” mais alto, mas que é como uma tocha que daria para acender uma chama muito maior. Mas a chama que está acesa é pequena e azul, está apenas na sua esfera azul.

Bem, então, o ver que algo do reluzimento do melhor quilate ilumina algumas tochas que eles julgavam tornadas inacessíveis a um fogo novo, vocês não sabem o que isso produz! Olha que eu nunca troquei com o João uma palavra a respeito disso, nem com o Fernando, nem com nenhum dos outros aqui ─ Edwaldo, Poli, nem nada. Estou falando pela primeira vez sobre esse assunto.

Mas vocês, eu não ouvi que ninguém comentasse a vocês. Mas, eu tenho certeza de que eles já notaram alguma coisa. E que isso produz neles um efeito com que vocês não contam. Mas que é um efeito de um benfazejo, numa zona de bem fazer… no núcleo da vida do Grupo! Onde há uma melancolia, há uma faixa roxa, porque aqueles que eu ponho no candelabro ─ o candelabro do Grupo ─ quase não luzem.

Eu estou injusto é?… Isto é uma coisa evidente. Mas evidente!

E o perceberem ─ porque eu lhes garanto que alguma coisa percebem ─ que há algo de mudado, é uma coisa que no elemento mais central da vida do Grupo tem efeito enorme. Vale muito mais do que se vocês escrevessem artigos, se vocês fizessem conferências, fizessem não sei o que, mas vale incomparavelmente mais!

(Sr. G. Larraín: A coisa é unir-se com o senhor.)

Bem, e qualquer fenômeno de união comigo vale muito mais do que isso. Agora, sobretudo, daquelas almas que Nossa Senhora chamou especialmente para isso.

(Sr. N. Fragelli: Nós sentimos isso assim. Quando encontramos algo no Grupo que conduz ao senhor, como tudo é leve, cristalino…)

Como tudo se torna fácil…

(Sr. N. Fragelli: E o contrário é o tampão… Eu me refiro aos mais velhos, embora seja válido para todos.)

É isso mesmo. Peguem uma outra coisa, é por exemplo, o…

(…)

O poder de fazer papel de peso morto, de quinta roda do carro, ou de corcel que toca o carro para frente, muito mais do que vocês imaginam!

(Sr. G. Larraín: E é nessa ordem de coisas, não se trata de mexer…)

Não, não, é aqui mesmo.

(Sr. G. Larraín: De coração a coração.)

Exatamente, isto mesmo.

(…)

* O Senhor Doutor Plinio prefere sacrificar a ação contra a Reforma Agrária a interromper as graças havidas nas Conversas de Sábado à Noite

Mais do que imaginam. De maneira que, por exemplo, nessa campanha geral de propaganda que estamos fazendo aí, etc., etc., eu poderia mandar vocês, notadamente você; o Guerreiro fala um “portulhano” que talvez nem todos entendessem ─ ele fala castelhano, quando ele quer ele fala “portulhano”, suponho.

(Sr. G. Larraín: Deveria falar mais “portulhano”. Já fui apertado por causa disso.)

Eu acho que você deveria falar bem o castelhano, e bem o português. Não deveria falar o “portulhano”.

(Sr. G. Larraín: Fui apertado por não falar o português.)

Ah, isso é verdade. Mas, seja como for, seja como for, parece-me mais importante que vocês estejam aqui sábado à noite, para que essas reuniões tenham solução de continuidade, do que vocês fazerem conferências na própria propaganda da Reforma Agrária.

(Sr. Guerreiro: Foi bom o senhor dizer isto, porque ficava meio constrangido de não poder estar com o senhor aqui no sábado…)

Não, eu dou mais valor… Você imagina o seguinte ─ eu vou dizer a você daqui há pouco uma coisa a esse respeito ─ você imagina o seguinte. Que eu dissesse aqui para vocês: “Meus caros, o Brasil está nessa contingência, o Grupo nessa contingência…”

(Sr. N. Fragelli: Gravíssima.)

Gravíssima, gravíssima! “…vamos suspender durante três meses essa reunião, vocês vão girar no Brasil durante três meses…” Vocês teriam a sensação de que eu estou tomando uma deliberação acertada?

(Sr. Guerreiro: Muito perplexitante pelo menos.)

Não, para você profundamente perplexitante! Mas saiba que, por causa do que eu estou dizendo, de minha parte é uma coisa profundamente refletida.

(Sr. N. Fragelli: Acontece que eu vendo o senhor fazer o que faz com o Brasil, alegra-me imensamente, e participar disso é para mim uma enorme satisfação…)

Olha aqui, eu vou lhe dizer outra coisa…

(…)

* A explicitação do Sr. Dr. Plinio na Reunião de Recortes anterior teve a beleza da água ao brotar da fonte, e repercutiu profundamente na luta R-CR

(Sr. Guerreiro: O senhor apenas ilustrou uma questão que o senhor ia tratar…)

Não, a questão é a seguinte. Para dar a concatenação da nossa exposição, a coisa era a seguinte. Para se compreender em que ordem de realidades é importante minha explicitação, eu então apresentava essa ordem de realidades que, enquanto existente na relação desta reunião e dos membros dessa reunião com o conjunto da vida do Grupo. Era… Na mesma ordem de realidades também se dá, se verifica a coisa maior de explicitar algo para o Grupo.

Com a explicitação que eu fiz hoje para o Grupo, pareceu-me que o Grupo, a maior parte do Grupo não ouviu com entusiasmo proporcionado à hora histórica! Eu não quero dizer aos méritos da exposição, mas à hora histórica ─ não ouviram. Mas todos prestaram uma atenção um tanto maior do que a atenção que eles prestam normalmente. E não tem dúvida nenhuma de que os impressionou no fundo da alma mais do que o comum dos temas da TFP costuma impressioná-los. Por causa da explicitação. E por causa da explicitação, em parte ─ o Gonzalo apanhou bem isso ─ porque eles viram o pensamento nascer e tomar forma ali naquele momento. E quando o pensamento nasce e toma forma num determinado momento, aquilo tem a beleza própria da fonte. A água saindo da fonte tem uma beleza que se distingue da beleza da água. A fonte tem uma beleza própria…

(Sr. J. Clá: Mais belo ainda é quando Moisés vem com um cajado, bate numa pedra seca e dura, e brota uma fonte…)

Isso é uma coisa do outro mundo! Do outro mundo!

Bem, e acontece precisamente que eles terem visto isto, eles não se deram conta, como você falou, eles não se deram conta, mas fica pelos espaços da mente, eles sem perceber vão tomar perante os revolucionários uma posição, na profundidade, um tanto mais categórica do que tomaram até agora.

Mas isto é pouco. Há um comércio de alma a alma, onde há uma espécie de bolsa de mercadorias invisível, de alma a alma, que constitui a temperatura de um país. E essa temperatura, quando isso se dá num grupo que está no centro dos acontecimentos, como o nosso, todas as temperaturas de todas as fontes que vão saindo da terra, ou de todas as águas que a terra vai reabsorvendo, tudo isso muda um tanto. E muda em parte pelo efeito da explicitação.

(Sr. G. Larraín: Não explicitação só.)

Não só. Por isso que eu disse “em parte pelo efeito da explicitação”. Quer dizer, para eu explicar o efeito da explicitação… eu tive que dar uma explicação muito mais ampla. Por isso que eu estou dizendo que a explicitação atinge um âmbito de realidades muito maior do que a pergunta pedia.

* O papel do relacionamento de alma a alma dentro da luta contra-revolucionária

(Sr. G. Larraín: Explicitação de uma problemática que é própria à vocação do senhor. E que o senhor transmite às outras pessoas. E nós chegamos a um ponto em que o senhor pode fazer essas grandes explicitações como hoje. E isso é que é propriamente o “pulchrum” desse comércio de alma de que o senhor falava.)

É isso. Mas há um fato que é superior a isto, e que talvez participe um pouquinho de algo de místico ─ da mística comum, não da mística extraordinária ─ é que as almas se sentem umas às outras, por uma espécie de… algo incompreensível, que talvez seja sobre e preternatural, por onde há um relacionamento mudo das almas, em que certas almas mudando, o jogo geral muda.

Imagine isso. Você imagine uma sala de conferências ─ eu toda vida sonhei com uma sala de conferências assim, agora não dá mais tempo para realizar, mas sonhei com isso ─ em que o conferencista, sobretudo para um público sensível não só a conferencistas como é o nosso, mas a oradores ─ isso é mais para orador do que para conferencista ─ tivesse uma série de botões ou chavesinhas, qualquer coisa, por onde ele pudesse acender na sala todo um jogo de luzes, conforme o período em que a oratória dele ia entrando. Mas que comportaria, pelo menos, umas vinte luzes… que o orador conhecesse bem. De maneira que, conforme as disposições do auditório, qualquer coisa, as luzes internas da sala mudassem inteiramente.

Bom, a luz resultante no salão da projeção de muitas lâmpadas, essa luz é algo para que todas as lâmpadas concorrem. E a atmosfera de uma sociedade humana é comparável a isso: as almas se acendem e se apagam, elas emitem coloridos e isso um homem que tem o senso médio das coisas percebe.

(Sr. Guerreiro: O homem que tem o senso médio percebe?)

Percebe. Não é um gênio. Eu compreendo que o gênio possa perceber mais.

(Sr. Guerreiro: Esse homem médio é o que constitui o centro decisivo no país, não?)

Não no sentido em que temos empregado a expressão “centro decisivo”. Mas na realidade profunda é o centro decisivo, muito mais do que o tal centro decisivo de que a gente fala. Mas… nós chamamos “centro decisivo” os homens que têm os postos de comando num país. Isso não são. Mas têm muito mais do que isso. Mas muito mais do que isso.

Eu vou dar a você um exemplo horrível, mas é assim: não é só por propaganda, é por algo diferente de propaganda. O Nelson Carneiro tinha de fato um efeito deteriorante sobre toda a opinião pública do país, pelo fato de existir…

(Sr. Guerreiro: Nelson…)

Nelson Carneiro. Não é esse Nelsinho Ribeiro que anda aqui não. Nelson Carneiro que há anos atrás era líder divorcista. Ele fez mais pela presença pessoal dele do que tudo o que ele disse. Aliás, asquerosa…

(Sr. N. Fragelli: Ele ainda vive…)

Ele já não projeta o mesmo efeito. Bem, eu tomo muito, muito, muito em consideração isso, mas não posso dar jornal falado sobre isso porque não tenho fatos concretos para provar. Eu tenho certeza de que tenho filhos que, a partir do momento em que eu começasse a dar jornal falado sobre isso, diriam:

Ele agora derrapou, foi para o puro terreno da fantasia. As cordas que o prendiam à realidade ele resolveu soltar. Ele entrou no terreno da fantasia, eu não acompanho…”

Não posso fazer isso… “Daqueles que me destes eu não perdi nenhum…”

Mas a vida do Grupo tem uma coisa interna assim, e a vida do Grupo tem efeito desse gênero sobre o conjunto do mundo. E é o porque somos um pólo. Todas as campanhas que fazemos, tudo o mais, vocês vêem até que ponto eu me dedico, e portanto como acho esplêndido.

Mas, em última análise, a lâmpada de Portugal precisa ser acesa, falta isto para uma série de coisas… Bem, e então é preciso, não tem remédio.

Agora, vocês que estão aqui, quer porque isso é acessível a todos os homens medianos e, a fortiori, a vocês; quer porque vocês têm uma vocação especial que é a da TFP; quer porque na TFP, por estas circunstâncias fortuitas, Nossa Senhora resolveu utilizá-los para isso por uma bondade muito grande ─ vocês têm um efeito especial, uma missão especial.

Eu estou sendo claro, não?

(Sim.)

* O Senhor Doutor Plinio temia uma apostasia dos mais antigos, caso não houvesse a entrada dos “enjolras” para o Grupo

Bem, essa missão o que é na vida interna do Grupo? No momento em que nós estamos nos aproximando da Bagarre, ou já estamos envoltos pelas trevas da Bagarre de todos os jeitos e de todos os lados, nesse momento a Providência quer que a TFP esteja de pé em toda a sua estatura; Ela quer mais intensamente do que sempre Ela quis. E, portanto, aqueles que carregam as maiores tochas da TFP, ou, se quiser, conduzem as lanças de maior alcance e levam os escudos mais penetrantes ─ estes estejam em condição de participar da batalha.

E Nossa Senhora tenta, por meio dessas reuniões da noite, facilitar uma coisa que foi o efeito indizivelmente benéfico sobre eles do exemplo dos “enjolras”. Eu tenho medo de pensar no que teria sido deles e de vocês, se não fosse o efeito dos “enjolras”. Teria medo de pensar… [Vira a Fita]

com a morte da Comissão de Opinião Pública. Porque nessa ordem a Comissão de Opinião Pública deveria reafervorá-los e evitar uma porção de coisas que se passaram de fato. Mas vocês não estavam em condições nem sequer de eu dizer isso a vocês. Nem de longe! Lembrem-se do pedido que me fizeram: de eu fazer reuniões mais sérias, mais constantes, mais compactas; que eu estava fazendo um farfalhar inútil…

Imagine se eu fosse tratar dessa matéria, estalava a comissão! Porque teria evitado isto. Bom, não se fez… Já foi um primeiro prejuízo do Lana, Paulo Henrique, José Cyro não terem entrado para a…

(…)

algo maior do que era simplesmente compreender a opinião pública, que já era tão grande. Mas Nossa Senhora misericordiosamente recolhe, põe nisso… ─ eu tenho todas as facilidades de compreender que Ela o tenha feito ─ o meu querido Gonzalo, e tenta com os mesmos elementos uma nova charge. Mas eu quero que vocês vejam a importância real da charge, que é nessa ordem: o bem…

(Sr. G. Larraín: “Charge”?)

Carga! Uma nova carga. Eu quero que vocês vejam isto: o bem que culposamente a charge dos “enjolras” ─ estou falando em carga de cavalaria ─ não conseguiu fazer, fizeram muito bem para eles, mas deviam ter feito muito mais…

(Sr. Guerreiro: Fez um bem enorme.)

Para vocês um bem enorme! Eu tenho horror de pensar, acho que vocês teriam saído do Grupo… foi a salvação! Bem, quando vieram os “enjolras”, na realidade o Grupo estava por se desfazer. Então, é isto que que naquele tempo não se fez, Nossa Senhora quer, in extremis, que se faça agora. Mas é sobretudo essa ação. Quer dizer, é mais um convite amoroso de Nossa Senhora a eles ─ eles e vocês…

(Sr. G. Larraín: Eles?)

Eles do EVP, eles de todo mundo das primeiras fileiras do Grupo… Nossa Senhora quereria que todos avançassem. E Ela se utiliza de vocês como um complemento, perdoando a eles mais essa recusa, usando a vocês como instrumento d’Ela para isso. Mas é nessa ordem.

* O principal da ação de todo membro do Grupo está na esfera espiritual

Então, eu compreendo que sem se colocar nessa ordem, um de vocês diga: “Mas, afinal de contas, Dr. Plinio, durante quantos anos deve durar essa reunião à noite nos sábados?”

(Sr. –: Pelo amor de Deus! Até a eternidade toda!…)

(Sr. Guerreiro: Pedimos ao senhor que até afaste a hipótese da pergunta…)

Não, mas eu entendia nesse sentido, entendia nesse sentido, quer dizer, quando é isto frutificará em obras. É isto que eu entendia. Mas entendam que a primeira obra é essa, porque isso é obra. Quem é que poderia dizer o que não faz parte da obra de São Paulo o afervoramento da Igreja, em todos os séculos, até o fim do mundo, pelas epistolas dele?

A África do Norte foi uma das grandes conquistas dele: foi água a baixo… O Oriente, ele trabalhou lá… Tirando alguns ritos melquitas, sei lá, que tem por lá, o que é que deu aquilo? Bizâncio… os balcãs… Não é? Ele trabalhou também alguma coisa do Império Romano do Ocidente, morreu em Roma. Mas, afinal de contas, o que é tudo isso?

Bom, e talvez seja um pouco de penitência ficarem um tanto amarrados durante algum tempo, fazendo papel do homem de aço, ou passando pela tentação de fazer papel de homem de aço.

(Sr. N. Fragelli: Homem que fica girando com uma motocicleta, dentro de um globo de aço.)

(Sr. Poli: A tentação se compreende, mas só o fato de essa relação com o senhor…)

É, compreender que na realidade isso pode obedecer a um plano profundo da Providência, mas que o grosso da ação de cada membro do Grupo é nessa esfera.

Por exemplo, minha ação pessoal nessa esfera, eu acho muito mais importante do que todo o pensar e dirigir a campanha que está sendo feita agora ─ que você, entretanto, elogiava com muita razão.

(Sr. G. Larraín: Está magnífico!)

Messieurs…

(Sr. Guerreiro: Algumas chacoalhadas nesse ponto, porque acho que é natural que o demônio mexa nesse ponto.)

É natural… que ele mexa, mas também é natural que Nossa Senhora deixe passar muito tempo tendo de lutar com o incógnito, e em certo momento Ela entra com uma explicação esplêndida.

(Sr. G. Larraín: E o senhor perdoe todos esses anos de incorrespondência. E agradecer muito à Senhora Dona Lucilia por isso.)

Que Nossa Senhora nos perdoe a todos nós, e agradecer a ela, certamente, porque tenho certeza de que ela tem um papel muito grande nisso. Para nós termos desistido de fazer essas reuniões na presença dos “enjolras” porque há um fenômeno qualquer que mostra que isso não sairia com eles… mostra bem o desejo de Nossa Senhora de coetus, de uma coisa qualquer que tem seu papel próprio, complementar do deles, mas é um papel próprio. Mas, muito bonito tudo isso.

(…)

lembre-me de tratar da questão que você falou há pouco, de não ver… Está bem?

(Sr. Nelson Fragelli: Sim senhor…)

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