Conversa
de Sábado a Noite (1ºAndar) – 8/3/1986 –Sábado
[ VF36] (Jorge Doná) – p.
Conversa de Sábado à Noite (1ºAndar) — 8/3/1986 —Sábado [ VF36] (Jorge Doná)
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Eu mandei consertar umas cadeiras, umas palhinhas de umas cadeiras, então estão fora, não tem remédio, e o salão está esquisitíssimo.
Como é meu Coronel, você nos arranjou o quê? Vamos ter a reunião à vontade até às duas e meia assim.
(Sr. Poli: Até a uma e meia.)
Como é que você nos arranjou isto aí?
(Sr. Poli: Como assim, meu senhor?)
Eu mandei que viesse o nosso amigo aqui...
(...)
(Sr. Guerreiro Dantas: Por que é que no Brasil de hoje não existem homens de substância para liderarem a Revolução no Brasil? E o senhor Gonzalo viu que para que existissem homens assim, é necessário que eles estejam vestido com uma capa de incontestabilidade, e alguns deles tentaram se vestir com essa capa, alguém rasgou...)
Nos somos rasgadores de capaz profissionais, profissionais, nós vamos e rasgamos a capa.
(Sr. Guerreiro Dantas: A gente já tem a impressão de que isso já é um prenúncio do “desplomamento” de que fala Nossa Senhora do Bom Sucesso...)
Já olha para o desplomamento.
A questão é a seguinte: quando entra coisa, consideração a meu respeito, o hábito de não olhar o panorama inteiro se tornou um reflexo; de maneira que o que você diz, eu vejo que em princípio, pode se situar alguma coisa nesse sentido, mas que é extremamente, para mim, é extremamente difícil dar o produto de uma reflexão, porque eu não fiz essa reflexão, eu evitei a reflexão, eu vejo que ela está se tornando atual e que eu precisarei fazê-la, mas não tenho feito como em muitos outros casos; eu tenho feito reflexão sobre o mesmo problema do lado, um pouco do lado, muito do lado da comunhão dos santos, do lado sobrenatural, um tanto do lado natural que você tomou, o que é legitimo tomar, que a gente deve tomar também; porque as coisas não se compõem, é uma batalha entre homens, não é uma batalha apenas entre Anjos, e, portanto, tem que se tomar desse lado também, não tem dúvida...
(...)
... (Dr. Marcos Ribeiro Dantas: Eu não sabia que o Quadrinho era pintura, eu sempre achei que foi uma fotografia...)
Você a conheceu Marcos?
(Dr. Marcos Ribeiro Dantas: Conheci.)
Você deve ver que é muito parecido o quadro, eu estava persuadido que era uma fotografia.
(Dr. Marcos Ribeiro Dantas: A ida ao cemitério me faz lembrar que ela morreu, por isso eu não tenho muita facilidade de ir ao cemitério. O que há de errado nessa posição?)
Tem o seguinte. Por exemplo, no que diz respeito a mim, logo que ela morreu, eu me lembro que eu fui ao quarto dela — eu não assisti ao último suspiro dela —, mas eu chorei muito e chorei alto, mas depois se estabeleceu uma paz em minha alma, que durou durante todo o dia do enterro, os dias seguintes também, e que culminou com a cena que você viu ou deve ter ouvido contar do raio de luz que bateu sobre uma coroa de orquídeas. Você ouviu contar isso com certeza, não é?
Foi na Igreja de Santa Terezinha, foi na paróquia aqui, foi a missa dela, se não me engano até celebrada por D. Mayer ou D. Sigaud. Bem, e quando terminou a missa, eu tinha pedido a ela um sinal de que ela não estava no Purgatório, porque me afligia muito a idéia de que ela pudesse estar no Purgatório, e sofrendo; eu não gostava da idéia de que ela pudesse estar no Purgatório; então eu queria, bem, é uma coisa impressionante Marcos, mas quando saiu de um vitral lateral que há lá…
(Sr. João Clá: Foi no período da Consagração que se deu o que o senhor vai contar…)
Foi isso?
E o raio de sol bateu, sobretudo nas orquídeas, que era o centro da cruz, e foi se tornando mais intenso, em certo momento foi de uma intensidade enorme; depois foi se afastando lentamente, e sumiu; mas um lentamente que era a cadência dos passos dela, e o modo de ela se afastar quando não andava depressa — ela tinha o hábito de andar depressa, mas quando, às vezes ela tinha um andar muito calmo — foi e aquilo se afastou. Eu pensei: “a cadência dos passos de mamãe é assim.” E fiquei muito tocado com aquilo.
Mas, sobretudo, o efeito que produziu foi, tudo isso, a morte dela e tudo, eu tenho saudades dela, no sentido que eu gostaria imensamente de a oscular, de conversar com ela, imensissimamente, mas na minha alma, é como se ela estivesse viva absolutamente, como se ela estivesse viva. Não é que eu converse com ela, que fale, mas aquela sensação de ela presente, aquela sensação de convivência eu tenho com ela, de maneira que eu não tenho, por exemplo, essa sensação de ausência que eu teria estando na Europa, e olhe que ela está no Céu e eu aqui na Terra.
Bem, mas não tenho, eu tenho como se a presença dela no que havia de mais agradável, que não era tanto a conversa, era mais no último tempo que ela estava pouco lúcida, não era a conversa, mas era a presença, uma coisa que eu não sei explicar o que era a presença dela para mim, isso para mim continua como se ela estivesse viva.
E acho que para esses que não a conheceram ou que não a souberam apreciar em vida, a coisa no cemitério, eu olho muito as caras e tenho a impressão de que é muito mais uma audiência que ela dá, do que uma oração que se faz para uma pessoa que está fora; porque eu olho para a cara de todos, e é uma coisa curiosa, eles não se dão conta disso, e eu também não quero que repitam, mas a atitude deles é como se ela estivesse exercendo uma ação de presença junto a eles, não é que ela estivesse conversando com eles, mas ela estivesse exercendo uma ação de presença junto a eles.
Sendo preciso notar que há ação de presença dela é uma coisa curiosa que, por exemplo, o João também pode constatar, o Poli também, o Edwaldo também tratou com ela. Era uma coisa, era única, a força de presença que ela tinha, uma coisa única; esse Quadrinho tem, de maneira que quando eu recebi o Quadrinho, e eu vi, eu disse: “não, esse Quadrinho veio para reforçar a sensação da presença dela”. Eu acho que nessas conversas nossas aqui à noite, sem se dar uma idéia clara, há um fator qualquer diferente que não é a presença de todos nós, que é alguma coisa da presença dela.
Um exemplo característico, agora à noite, eu estava pensando que vocês iriam ficar sentados em cadeiras desconfortáveis, e quis evitar isso, eu quis ir à Sede do Reino de Maria; então convocá-los para ir lá. O João fez uma insistência — eu deixei fazer — para se fazer nessa sala, achando exatamente que a reunião fora dessa sala não é essa reunião aqui, não é a reunião de sábado à noite, pode ser uma boa reunião, mas não é a reunião de sábado à noite.
E, essa sensação que aqui se tem, a meu ver é a presença dela. A casa toda tem a presença dela; mas eu não sei porque essa sala, talvez pela presença da imagem do Sagrado Coração de Jesus, essa sala tem mais a presença dela do que qualquer outro lugar; então compreendo e acho até muito louvável que você se ponha nessa posição, porque é explicável, é explicável.
(Sr. Gonzalo Larraín: É até um privilégio.)
Exatamente, que resulta até de um privilégio, é bem isso.
Não sei se você conhece o que seu deu com o pobre do Fernando Filho e esse Quadrinho?
(Dr. Marcos Ribeiro Dantas: Não senhor.)
Ele foi me levar esse Quadrinho no São Bento, ele dirigia a Comissão do Movimento naquele tempo. E, um expediente comprido com muita coisa etc., e eu despachei o expediente; quando afinal terminei o expediente, ele é uma pessoa muito tímida, não é?
Ele puxou um envelopão grandão e disse meio intimidado e meio sem jeito: “Sr. Dr. Plinio tem aqui, mandaram para o senhor — o Buzarello e não sei mais quem — mandaram para o senhor ver esse quadro de Dona Lucilia que pintaram. Eu sei que está mal pintado, mas enfim, o senhor talvez queira agradecer”, e puxou isto exatamente como está aqui.
Eu olhei e disse: “mas, Fernandinho aqui está um encanto, está uma maravilha, eu estou…”
(Dr. Edwaldo Marques: O senhor olhou longamente, o senhor pegou o Quadrinho…)
Você estava na sala?
(Dr. Edwaldo Marques: Estava na sala, sim. O senhor olhou longamente em silêncio, depois o senhor comentou que nas vésperas tinha pensado que o olhar dela estava, por assim dizer, ausente e que o senhor não o veria a não ser na eternidade, e que o Quadrinho veio como uma resposta disso…)
Mas o comentário do Fernandinho feito, sem eu saber, depois, que me chegou aos ouvidos, e que é o mais expressivo, é que quando ele viu o Quadrinho nas minhas mãos, ele verificou que o Quadrinho era muito bonito, muito bom, não tanto bonito, mas bom, mas que quando ele tinha posto no envelope o Quadrinho estava ainda muito feio, e ele insinuava que o Quadrinho tinha dentro do envelope melhorado.
(Dr. Edwaldo Marques: Ele disse isso explicitamente. Nesse dia ele me trouxe de carro na saída do São Bento, e no caminho ele me disse que o quadrinho tinha mudado…)
Quer dizer, então você veja, o depoimento do Fernandinho, naquele tempo não se falava de mamãe santa, a mãe do Plinio. E você veja o depoimento, muito impressionante.
Depois eu soube uma coisa mais expressiva, que é a seguinte: que esse quadro, primeiro o Buzarello pintou, depois ele não gostou, apagou o quadro e só conservou os olhos.
(Sr. Gonzalo Larraín: Ele pintou na Kombi andando…)
Como eremita itinerante.
(Sr. Gonzalo Larraín: Depois fizeram uma pressão sobre ele na linha de que ele queria com o Quadrinho bajular o senhor, e a pressão foi tal que ele resolveu apagar, mas que os olhos como que faziam uma súplica a ele, não me apegue, não me apague e ele ali deixou apenas os olhos e depois refez a pintura…)
São pormenores que eu não tinha guardado com esse detalhe. Agora, então você poderia fazer uma coisa, era fazer um relato disso, e pedir ao Buzarello para, quando você terminar o livro da Venezuela…
Esse é um remédio que eu não tomo a algum tempo, não é?
Você pede ao Buzarello para assinar do lado, se for mais de uma página, rubricar; eu acho que seria muito interessante.
(Sr. Gonzalo Larraín: Faço amanhã então…)
Não, acabe o livro da Venezuela antes.
Então, está aí está a resposta respondida torrencialmente, qual é o número dois?
(Dr. Marcos Ribeiro Dantas: Não se pode recusar a devoção a Sra. Da. Lucilia e querer uma união com o senhor. As coisas ficam contraditórias…)
Concordo totalmente com você.
Eu acho o seguinte, que de tal maneira há uma união de alma entre ela e eu, é tão profunda, que vinha, mas dos mais íntimos alicerces do meu ser, de meu espírito, coincidiam com os dela, de tal maneira que, não era só uma afinidade temperamental, uma afinidade psicológica, enfim, os mil tipos de afinidade que possa haver entre mãe e filho, mas era uma coisa diferente, uma coisa do fundo da alma, mas do fundo da alma, o quanto pode ser, eu sentia essa afinidade.
E, fazíamos um até, de tal maneira éramos unidos. Eu me lembro que uma criada portuguesa que nós tivemos, arrumadeira de quarto de dormir, etc., que tivemos, quando morávamos numa outra cada aqui nesse bairro, que fez a meu respeito com ela um comentário, que ela gostou muito, que vinha assim, com essa simplicidade portuguesa, é uma mulher chamada Ana; ela dizia o seguinte: viver com a cordialidade que a senhora vive com o Dr. Plinio, não é dizer que nem marido e mulher, porque mulher e marido não têm essa cordialidade, noivo e noiva, quando são felizes não têm essa cordialidade. Mas era realmente um encanto contínuo meu por ela, e um modo de tratar, como eu nunca vi filho tratar mãe, e dela comigo, talvez ainda mais, porque nas menores coisas era uma delicadeza e uma solicitude, em procurar interpretar-me — homem! — mil coisas, que também os fatinhos concretos não podem exprimir, porque não era o fatinho, o espírito com que o fatinho era feito.
Bom, mas isso tem uma projeção espiritual, quer dizer, de tal maneira éramos um, que não é possível aderir [a] um e não aderir ao outro, não é? E é evidente que eu devo muito de minha formação primeira a ela, não é? Por isso mesmo que eu estou dizendo. De maneira que eu acho isso muito natural, muito razoável, verdadeira.
(Sr. Poli: …Dadas as contingências que a gente vive no mundo e a maldade que se tem, ou se tem a ela como mãe ou é impossível manter a união com o senhor…)
Eu acho que tudo isso, eu dei um fundamento de tudo isso, porque eu concordo com isso, eu concordo, pura e simplesmente eu concordo com isso, de maneira que se alguém, por exemplo, quiser ter o meu espírito, alem da orientação e da devoção a Nossa Senhora acima de tudo, há essa devoção a ela que é um caminho excelente, e que eu não vejo que se possa recusar, não é? Isso eu acho que é assim…
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