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– 25/1/86 .
Conversa de Sábado à Noite — 25/1/1986 — Sábado
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Vida do Senhor Doutor Plinio e da Senhora Dona Lucilia
O que vier, eu estou pronta para a imolação, no Quadrinho a imolação está feita. * Vocação do Brasil: vocação unitiva comunicativa, de induzir um certo carinho, um certo afeto * De onde vinha a sua força e comunicação com a Igreja, com Nosso Senhor Jesus Cristo, com Nossa Senhora e com o próprio Deus…? * O pai dela era o modelo ideal do homem * A Primeira confissão, a primeira comunhão e o casamento da Senhora Dona Lucilia * A ruptura com o ambiente veio depois. * O SDP, desde pequeno notou que, na família, em torno dele, pairava uma certa atmosfera de predestinação. Legado de Dr. Gabriel e do Cons. J. Alfredo * Na Senhora Dona Lucilia, o holocausto levado até o último ponto, previsto e aceito. * O “tal en quanto tal” ela tinha com a atenção muito mais voltada para o lado da santidade de Nosso Senhor Jesus Cristo e da alma * “Eu sou Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira. Agora, isto que eu sou é assim, e isto eu prezo altamente de ser assim.” *Ela era fortemente o contrário da Revolução * Perante a hipótese de risco de vida, pretendo até reformar esse testamento, porque algumas coisas mudaram. Mas não pretendo fazê-lo antes de me sentir mais gravemente em risco
É o que vier, eu estou pronta para a imolação, no Quadrinho a imolação está feita.
(Sr. GL: Mostra um álbum para o Senhor Doutor Plinio)
Uma coisa engraçada há anos atrás, quando eu vi essa fotografia eu tinha muita incompreensão dessa moda deste chapéu assim, e hoje eu acho interessante, acho sobretudo que está muito bem cortado pelo tamanho, muito bem colocado. Isto era mandado fazer, não era comprado em loja.
(Sr. GL: Não é a do matrimônio?)
Não. É moça que está freqüentando sociedade. Ela se casou um pouquinho tarde, com 30 anos. Qual é a do matrimônio?
Eu acho que é depois do matrimônio, não tenho certeza, mas acho que é depois do matrimônio. Essa aqui é evidentemente Paris e aqui é em São Paulo, creio que é na inauguração do “Legionário”.
Aliás, a gente vê, assim, o caminhar da esperança para a seriedade e o sacrifício, agora aqui a imolação já está feita, não é que não haja seriedade aqui, mas a nota preponderante aqui já é a seriedade, mais ainda aqui, e aqui é a imolação, já está feita.
Depois, In manus suas anima suam tenan, mas ai ainda assim, uma certa juventude, aqui a maturidade já está entrando.
(Sr. GL: São uma certas ilusões que vão diminuindo)
Ela não pensava que se lhe pedisse tanto, aqui ela está vendo de frente um panorama maior do que ela supunha e está começando a análise, aqui a análise já está adiantada e aqui já está adiantada a imolação, não é bem isso?
(Sr. GL: No Quadrinho já é a imolação completo…)
Completa. No Quadrinho, é o que vier, eu estou pronta para a imolação, no Quadrinho a imolação está feita.
(Sr. GL: No Quadrinho tem não só a imolação mas aparece a glória)
É certo. O que eu procuro exprimir dizendo: Ite vite est, quer dizer, já é o meio entrando na glória.
(Sr. GL: No fundo esse sorriso é de quem diz…)
Consumat est. Graças a Deus acabou, estava muitíssimo com essa fisionomia, mas muitíssimo, é quase a fisionomia habitual, mais acentuada até quando saiam algumas coisas, eu saia com alguma pernambucanada, ou qualquer coisa, ela ria assim, tan, tantan… e ria assim entende, mas rica com muito comprazimento.
Um equilíbrio, um equilíbrio extraordinário.
* Vocação do Brasil: vocação unitiva comunicativa, de induzir um certo carinho, um certo afeto
(Sr. GL: Também o lado da aristocracia brasileira)
Eminentemente brasileira. Não tem nenhuma nota não brasileira ai, é uma nota do que o Brasil poderia ter dado…
(…)
(Sr. GL: Tem uma categoria muito, muito grande…)
Sem ter a beleza de vovó, vovó é mais régia ainda do que ela, mas ela tem…
(Sr. GL: Se sente a presença de algum dom especial que Deus deu ao Brasil, muito mais nela do que na Da. Gabriela…)
É verdade, isso é fora de dúvida absolutamente, o que é propriamente a vocação do povo brasileiro, essa vocação unitiva comunicativa, de induzir um certo carinho, um certo afeto, isso ela tinha muito mais do que a mãe dela, não tem comparação, é de não poder comparar. Não que a mãe dela não fosse uma boa senhora, mas enfim, uma senhora como muitas.
Mas, a questão é a seguinte: você se explica melhor isso, tomando em consideração que as virtudes, eu não conheci o pai dela, que ela dizia que o pai tinha, correspondia ao que ela tinha. Às vezes a gente tinha a impressão de que ela estava descrevendo a si própria sem perceber.
(Dr. EM: Porque vem muito fundo…)
Muito, muito fundo, muito fundo. Em todas as atitudes, é um olhar profundo, uma elevação de espírito enorme, enorme.
(…)
(Sr. GL: Agora, eu noto que os homens tinham guardado mais estes traços do que as moças…)
É isso sim, mais americanizadas. É que as moças eram mais americanizadas, seguiam mais a moda, e os rapazes menos.
(…)
* De onde vinha a sua força e comunicação com a Igreja, com Nosso Senhor Jesus Cristo, com Nossa Senhora e com o próprio Deus…?
(Sr. NF: De onde vinha a sua força e comunicação com a Igreja, com Nosso Senhor Jesus Cristo, com Nossa Senhora e com o próprio Deus…?)
Vinha de um conjunto que era o seguinte: era uma transição portuguesa, eminentemente portuguesa, a avó dela, a bisavó dela, essa senhora aqui, era paulista, mas casada já com português. Não, não, aquela que tem aquele quadrinho pequeno ali, a Maria Joana da Luz, essa era propriamente paulista, Pires, Camargo, etc., etc., era ela. Bem, mas já era casada com um Gabriel José Rodrigues que era português, e por vários outros lados ascendência portuguesa próxima.
E a religiosidade do Brasil, era a religiosidade de Portugal, de maneira que uma continuidade de ambientes religioso português no Brasil muito marcado. Agora, qual era essa coisa? Era de um lado marcado por uma religiosidade profunda de povos que ainda viviam — a Espanha era mais ou menos a mesma coisa, se você quiser a Espanha do tempo do quadro do Salinos, corresponde ao tempo dessa senhora do quadrinho, a Da. Joana da Luz — então, povos que apesar de estarem decadentes, Portugal muito mais ainda do que a Espanha, viviam se iludindo sobre a própria decadência, aqueles personagens do Salino por exemplo, são uns decadentes dos quatro costados, mas não dão a idéia de que estão pensando na decadência, eles abstraem por exemplo, a idéia de que uma Inglaterra poderosa e florescente está tomando conta do mundo e que a Espanha de D. Felipe II não é mais nada, eles abstraem, eles vivem como se estivessem no píncaro e Portugal à maneira menor fazia tal e qual.
E, depois com um certo desembaraço português, aquela história que eu disse outro dia, na reunião dos médicos, que D. João VI era homem de encontrar com o Imperador da Áustria por exemplo, e dizer como vais? Logo de cara, mas assim… como vais Francisco?, está compreendendo, assim, logo de cara, sem ter idéia, está compreendendo? Acho que com um francês ele não fazia, porque ele percebia que vinha um contra vapor, mas com um austríaco ele fazia.
Mas, de um mundo que tinha perdido completamente a noção também, com essa perda da noção do mundo exterior, a perda da noção de um mundo não católico, e eles sabiam naturalmente que haviam nações protestantes, mas não faziam parte do circuito deles, não existiam para eles, para eles o mundo inteiro era católico e não passava pela cabeça que algum dia pudesse deixar de ser católico.
Mas, por outro lado era relaxadamente católico, e não lhes passava pela cabeça que deixassem de ser relaxadamente católicos. A idéia de um mundo católico como nós o sonhamos, não entrava dentro dessa religiosidade pura e simplesmente. Embora nunca tenha estado no Chile, eu tenho certeza de que essa religiosidade tradicional do Chile era assim também, não era isso?
E, era pela América do Sul inteira, eu acho isso. Agora, havia traços ainda, ardorosos e às vezes até magníficos dessa religiosidade na Espanha como em Portugal, de onde você vê que a Espanha agredida por José Bonaparte, reagiu como você sabe. Agredida depois por vários outros fatores, inclusive pela revolução de Franco de que tratamos hoje à tarde, a Espanha reagiu magnificamente. E também na mesma linha, a religião agredida no Brasil, por exemplo, no tempo de D. Vital, a reação aquela que saiu. Mas, por exemplo, agredida no México deu, nos Cristeros; Garcia Moreno, etc. Quer dizer, era um braseiro, as reações saiam de dentro, de repente, assim, coisas magníficas.
Mas afinal, era um braseiro, com algumas brasas ainda fresquíssimas, alguns pedaços de lenha que ainda ardiam e muita cinza suja, formava o conjunto.
* O pai dela era o modelo ideal do homem
Os tipos ideais desta gente era em geral católicos muito bons e todos eram gente de admirar o Garcia Moreno e de admirar a religião como devia ser praticada, desde a classe alta, embora achassem que não valia a pena.
Mas, então o pai dela era o modelo ideal do homem […] como nessa classe, na sociedade, porque ainda é um adorno necessário do homem ter acendrado as virtudes morais. E as virtudes eram nessa escola, quando o homem não tinha não sofria sanção, aqui já entra o relaxamento e era bem recebido, podia ser até ateu que era bem recebido, mas a virtude tinha que ser como a de um católico.
(Sr. GL: O Nordeste não era bem assim…)
Eu estou falando dos exemplos de São Paulo, que eu conheço melhor, mas algo disse devia haver no nordeste, talvez não com tanta saliência, assim mesmo, o caso de D. Vital fala muito, a reação de Pernambuco no caso de D. Vital é do outro mundo, do outro mundo. Não foi só a reação em São Paulo, em outros lugares houve o mesmo, mas era tudo, no Brasil todo, eu não conheço especificamente o caso da Bahia, mas eu acho que foi a mesma coisa.
Agora, ele era isso, e ela julgava que ele era isto, e ela idealizava as coisas e considerava que um grande número de senhoras do tempo dela eram assim, e considerava que o pai dela era isso inteiramente; certos amigos do pai que eu tenho as minhas dúvidas, um tal Antônio Teles, Antônio da Silva Teles, foi um homem de muito alta sociedade do Estado do Rio, casado numa família de fazendeiros riquíssimos de São Paulo e muito finos. Esse Antônio da Silva Teles, era até fisicamente parecido com vovô, uma coisa que não tinha o menor parentesco, nem nada, mas era parecido, eram amigos assim de cama e mesa provavelmente.
Bom, o Antônio Teles era tido assim como um homem, uma espécie de Santo, e ela via o pai dela assim, ela via o ambiente assim, ela não percebia até que ponto o ambiente estava podre, e ela formou a alma dela exatamente assim, tendo a Igreja como foco disto. Mas muito pouco contato com os padres, porque eram muito corruptos e, portanto, também com um freqüência muito pequena nos sacramentos, embora com muita oração, quer dizer, ia todos os domingos à missa, mas não confessava, nem comungava, porque o pai proibia de confessar, e sem confessar não podia comungar. E ela lamentava, mas vindo do pai, um tão bom católico, um homem tão extraordinário, etc., etc., ela achava que se justificava. E e realmente havia coisas horrorosas nos padres daquele tempo. Ela contava caso do padre de Pirassununga, que ficava jogando baralho atá a hora da missa e ia correndo para a missa, mas saindo da roda do baralho e que um dia foi dizer Dominus Vobiscum e as cartas de baralho que ele tinha posto na manga caíram no chão, e…
(Sr. GL: Muito imorais…)
Imorais, padres com filhos era corrente, era uma coisa escandalosa e não ocultavam.
Um arcebispo aqui de Campinas que eu conheci dizia que os padres anteriores a eles, eram assim, eram em geral…
(…)
* A Primeira confissão, a primeira comunhão e o casamento da Senhora Dona Lucilia
Padres os piores do mundo, mas os melhores cidadãos da região, porque ainda davam esmolas, ainda faziam certas coisas e tal, faziam muitos sacrifícios para atender doentes, etc., etc., mas eram indecentes, e ela foi educada com enorme desejo disso, mas com muita conformidade em que isso não fosse assim.
Quando ela se casou, antes de casar‑se, ela disse que queria confessar, e o pai dela algum tempo antes tinha feito um comentário, mostrando aquele monsenhor Chico, Chico de Paulo que eu já falei aqui, e de longe assim passou, ele era amigo do Pe. Chico, e disse: “olha, aquele é um padre que se vocês quisessem se confessar poderiam.
(…)
O meu pai perguntou então ao meu avô isso. O meu avô disse ao meu pai: “O senhor concorda — porque genro é senhor (?)— o senhor concorda que Lucilia freqüente os sacramentos?” Meu pai disse:
“Não, eu não me importo, acho que é bom”.
— “Então você vai pertencer a ele, se ele admite, vá se confessar.”
Ela foi confessar com o Pe, Chico correndo.
(Sr. GL: E, ela fez a 1ª comunhão ai?)
Ela fez a primeira comunhão com isso, com 30 anos.
* A ruptura com o ambiente veio depois.
Agora, muito apoiada pelas ilusões que ela tinha sobre o ambiente, é preciso notar, a ruptura com o ambiente veio depois.
(Sr. GL: Ela tinha uma esperança exiológica de alguma coisa que viria para ela…)
Nunca tive nenhum sinal de que ela tivesse algum prenúncio de que eu nascesse dela, quer dizer, um filho que vai [?], isso eu nunca tive nenhum sinal. Mas vê‑se que ela contava com grandes graças para ela de futuro, que pelo menos realizariam, uma certa plenitude que a alma dela desejava, isso vê‑se. Mas, dentro do quadro de uma senhora do tempo dela e do ambiente dela, agora, que ela pensou que fosse ter um filho assim…
(Sr. GL: Algo de grande que ela sentia…)
Um chamado, uma vocação, para uma coisa interior que ela conheceria bem, uma coisa ligada a Deus, à píncaro de alma que ela esperava realizar, ascender, que de fato correspondia à santidade, mas que ela não percebia que se identificava com a santidade.
* O SDP, desde pequeno notou que, na família, em torno dele, pairava uma certa atmosfera de predestinação. Legado de Dr. Gabriel e do Cons. J. Alfredo
Agora, tem uma coisa, para ser inteiramente positivo, uma coisa positiva que precisa dizer, cuja origem naturalmente eu não conheço, é que eu desde muito pequenino, eu senti flutuar, a meu respeito, em torno de mim, nas pessoas que moravam em casa, que eram muitas, uma atmosfera de certa predestinação, uma predestinação que não era uma predestinação propriamente religiosa, mas era uma coisa assim, que havia o legado cultural e literário, político, etc., de vovô Gabriel que era um espécie de herança jacente que ninguém da minha geração estava pegando, e que se sentia que eu era predestinado a pegar; como também que eu era predestinado a pegar a herança do titio João Alfredo, porque é meu tio‑avô, irmão de meu avô, e ele mesmo com uma descendência abundante, mas havia uma coisa flutuante em torno de mim, de que eles esperavam pelo menos o seguinte:
Eles, não tinham nenhuma intenção de que a descendência do tio João Alfredo brilhasse ou não brilhasse, isso não entrava em linha de conta. O João Alfredo era tido ele mesmo como o rebento mais glorioso, de uma família de muita ilustração e que, portanto, uma parte desta ilustração que nele brilhou tanto, em mim poderia brilhar também, com os talentos dele, com a habilidade dele, etc., a saliência, ele era muito relevante, portanto, o relevo dele.
(Sr. GL: Embora meio pequeno…)
Ele era um homem um pouco baixo, como muitas vezes acontece com os nordestinos, ele era um homem baixo e depois muito encarquilhado já na velhice, quando eu o conheci, muito encarquilhado, e depois usando, a vista tão acabada que usava quatro óculos em cima do nariz sucessivos; era atraso da ótica do tempo, mas enfim usava.
Bem, mas então, a idéia de qualquer prova de um pouco mais de inteligência, que eu dava, eu sentia olhares, que se interrogavam: “está vendo, é isso mesmo”.
E isto eu percebia que na cabeça deles, dela, dava a idéia de um homem brilhantíssimo de futuro, que aliasse a virtude de meu avô, a varonilidade, o modo paulista de ser do meu avô, com o talento do Gabriel José e com o que passava por cima da genialidade do João Alfredo e que isto tudo ia confluir em mim.
É possível, isso havia uma atmosfera em torno de mim assim, e é possível, que isto existisse no espírito dela muito, porque ela contribuiu para essa atmosfera, ela me tratava como um menino meio predestinado, isto é fato, discretamente, sem nunca me dizer, mas tratava. É possível, portanto, que isso no espírito dela desse alguma coisa nessa direção; é horrível eu ter que dizer assim.
(Sr. GL: Nas famílias de boa condição era normal que os seus filhos fossem destinado a grandes feitos…)
É, mas havia, ligado a isso, uma espécie de espreita, por causa da inteligência genial que se suspeitava, e quando aparecia qualquer coisinha um pouco mais… pelas minhas costas, uma intercomunicação, que eu tomava com a minha negligência costumeira: “isto é lá com eles, eu vou ser aquilo que eu devo ser, eles se arranjem lá com esses mitos, etc., etc.”, isso é outra coisa, entende?
(…)
* Na Senhora Dona Lucilia, o holocausto levado até o último ponto, previsto e aceito.
(Sr. NF: Nas fotos da Senhora Dona Lucilia não se notam combates contra vaidades, invejas…)
Nunca notei isto nela, notei uma resolução dolorosa, aceita sem hesitação, e gradualmente desenvolvida, mas esses combates eu nunca notei nela.
Nela, eu nunca notei isso, eu notei uma resolução executada, cada vez mais na medida.
[Vira a fita]
… em que os fatos exigiam, mas levada até o fim, mas as hesitações, os vais‑e‑vens, as aflições do combate, eu nunca notei.
Agora, eu notei uma outra coisa. É que desde o começo, o holocausto levado até o último ponto, previsto e aceito.
(Sr. GL: E qual era esse ponto do holocausto?)
É no fundo, a previsão do isolamento total, da renúncia total.
(Dr. EM: Há muito de tristeza no olhar dela)
Pois é, mas uma tristeza que já previu o pior.
A tentação vinha enorme, eu nunca notei hesitação, o que é diferente.
(Sr. GL: Nosso Senhor no Horto teve um combate enorme, como é que se resolveria isso…)
Exatamente, a comparação com a agonia do Horto vem ao caso, porque Ele, que em nenhum momento hesitou, em nenhum momento Ele teve aflições de quem se sentia puxado para o lado oposto, mas desde o primeiro instante Ele se entregou inteiramente, mas na medida em que Ele olhava o futuro que vinha pegando, Ele começava a suar sangue. Mas nunca sentido‑se cambalear, eu não quero dizer se Santa Teresinha cambaleou ou não, eu quero dizer que ela viu desde o primeiro instante a crucifixão dela, você vê isso nesse quadro de menina que você mostrou há pouco, é a noção vaga de que um holocausto do outro mundo a esperava, e ela aceitou isso e não fraquejou em nenhum momento.
Para dizer a coisa como ela diriam, há um lance da vida dela, que eu não entendo bem, em que se diria que ela fraquejou, não posso contar qual é o lance, agora, toda a atitude interna de alma dela, nessa ocasião foi de quem não tivesse passado pela menor diminuição nessa superior elevação que…
(…)
De maneira, que eu não sei o que se passou no íntimo da alma dela com isso. Como por exemplo, você pega essas fotografias de solteira, você vê que não pode fazer a acusação de uma mulher tíbia que não fez nenhum esforço para freqüentar os sacramentos, é por excelência o que não havia.
E depois, todo o ambiente que fazia parte da sociedade daquele tempo, que provavelmente as coisas se resolveriam com …
(…)
E todo esse aspecto tonitruante da Igreja, etc., ela veio aprender comigo, se você quiser é o aspecto D. Vital da Igreja, e essa frase que eu disse é bem verdade, ela sintetiza bem as nossas relações no plano religioso.
(Sr. GL: Ela quando muito está olhando as pessoas…)
(…)
* O “tal en quanto tal” ela tinha com a atenção muito mais voltada para o lado da santidade de Nosso Senhor Jesus Cristo e da alma
… metafísico e quase místico.
(Sr. GL: A tendência metafísica para onde está dirigida?)
Eu acho que é uma tendência metafísica‑moral, é uma metafísica a partir da idéia de elevação moral, de perfeição moral, etc. Mas de acordo com o conceito existente no tempo dela, os santos eram muito raros, ela não sabia que ela era contemporânea de uma grande santa, e a idéia de ela mesma ficar santa, não lhe passava pela cabeça, ela queria é chegar até esse ponto, mas achava que santo é uma coisa ainda muito mais alto.
Bem, lembra‑se que eu fiz uma vez uma exposição do Sagrado Coração de Jesus que chegava até o tal enquanto tal. Ela tinha isto, mas com a atenção muito mais voltada para o lado da santidade de Nosso Senhor Jesus Cristo e da alma como deve ser, do que para o lado sócio‑econômico e, ter a plenitude dela, mas muito mais esfumaçado, o que corresponde à missão dela de mãe de família, e ao alheiamento enorme das senhoras da vida política naquele tempo.
(Sr. GL: Aquela foto em que ela está com Da. Rosé e Da. Maria Alice, o senhor certamente tem…)
Tenho, eu ósculo todas as noites, todas as manhãs e todas as noites.
* “Eu sou Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira. Agora, isto que eu sou é assim, e isto eu prezo altamente de ser assim.”
(Sr. GL: Nessa foto, ela está com uma porte extraordinário…)
Não, e depois, gostando muito daquela dignidade temporal que ela tinha ali, com aquilo, não por vaidade, mas pela nobreza intrínseca da coisa.
(Sr. GL: Não á algo mais além do ser uma mãe de família, uma noção mais completa…)
É verdade, e até isto é muito, muito real, como você está descrevendo, mas dentro do âmbito o seguinte: toda a família existe necessariamente num meio social e deve ser, para com o respectivo meio social assim, e, portanto, a númerosa família é isso, e eu devo prezar isso, sem menosprezar quem está abaixo, nem invejar o que está em cima, nós somos isto.
Me lembro o nome da divisa de uma família francesa nobre, aliás, muito nobre, Rouhan, é assim: Roi, je ne suis; Rouhan, je suis. “Eu não sou rei, e não sou digno de ser um simples príncipe, o que é que eu sou? Um Rouhan.”
Bem, ela não tinha aqui no Brasil uma posição correspondente aos Rouhans na França, mas era mais ou menos como quem diz isso. “Não sou desses páramos de uma família propriamente nobre da Europa, não sou. Também não sou uma qualquer coisa, eu sou Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira. Agora, isto que eu sou é assim, e isto eu prezo altamente de ser assim.”
(Sr. GL: Um valor metafísico…)
Valor metafísico, metafísico, que é o valor da família, entendida como estirpe e com toda a sua patriarcalidade, e tendo valor diante de Deus, porque corresponde a isso uma forma de excelência da alma. Quer dizer, propriamente, para pessoa de certa classe, convém que haja santidade correspondente à sua classe. Então, pela mesma razão pela qual Santa Teresinha nunca diria ser uma operária, não tem nada de operária, falar de proletariado com Santa Teresinha, não passa pela cabeça. Bem, para ela ser da família Martim (…) Não passaria pela cabeça, e é o normal, mas é mais como projeção da vida doméstica, do que quem considera toda a ordem sócio‑econômica. Você a conheceu, não era isso mesmo? Mas, isso então, muito intenso nela.
*Ela era fortemente o contrário da Revolução
Eu contei a vocês a atitude dela, quando a Rosé veio denunciar a história de uma moça de sociedade que eu andei namorando, eu contei isso a vocês, e como ela veio falar, dizendo que era chinfrim. No modo dela dizer chinfrim, estava indicado uma tal, não que ela desprezasse aquela família, mas que eu seria desprezível se me metesse lá. Uma coisa que, ela se encontraria, trataria muito bem, mas misturar‑se não, e você também não se mistura. É uma coisa que é um valor de alma, ela não desprezava quem não tivesse, absolutamente, mas quem tem, tem que valorizar isto, e tem que incluir como um dos elementos da sua santidade. Eu acho que isto está direito.
Ela era fortemente o contrário da Revolução, ela não era polemicamente contra‑revolucionária, mas era fortemente contrária à Revolução. Agora, por que é que ela não era polemicamente contra‑revolucionária? Toda a idéia da Revolução procurando conquistar o mundo, você viu que não estava presente, nitidamente no espírito dela. Agora, também isso é ela apresentada sem enfeites, esse assunto que eu digo, por causa das graças que se recebem por meio dela, etc., etc., eu pretendo deixar numa…, se eu sentir a minha vida em risco, eu pretendo escrever e deixar num testamento cerrado, e deixo com você, porque se algum dia se cuidar da canonização dela, eu quero que a comissão, a congregação incumbida saiba disso, para fazer o juízo que caiba.
* Perante a hipótese de risco de vida, pretendo até reformar esse testamento, porque algumas coisas mudaram. Mas não pretendo fazê‑lo antes de me sentir mais gravemente em risco
(Sr. GL: O que tem levado o senhor nas últimas reuniões, levantar a hipótese da vida em risco, há alguma coisa…)
Há o seguinte: uma certa impressão de que, a certeza de alcançar o Reino de Maria, eu tenho, em virtude dessa promessa de Nossa Senhora de Genazzano, eu a tenho muito dentro da minha alma. Mas a necessidade, por humildade, de desconfiar um tanto, prudencialmente das graças que eu recebo, me leva a agir em muitas coisas como se eu não devesse receber essas graças, como se ,essa graça, eu pudesse abusar dela, pudesse perdê‑la, qualquer coisa assim, de maneira, que eu pretendo, eu tenho um testamento feito, posteriormente à graça de Genazzano e pretendo até reformar esse testamento, porque algumas coisas mudaram. Mas não pretendo fazê‑lo antes de me sentir mais gravemente em risco, mas eu devo considerar essa possibilidade, embora a graça de Genazzano me diga o contrário e eu acho que se eu duvidasse da graça de Genazzano, eu andaria mal na vida espiritual, é uma contradição, mas não é, é uma posição prudencial, me parece razoável.
(Sr. GL: Se o senhor sente alguma aerologia de algum atentado contra o senhor?)
Não, o que eu sinto muito é que a cólera do demônio, o ódio do demônio está crescendo barbaramente e que o demônio, de repente, faz alguma, quer dizer, eu devo me precaver contra isso, que isso eu sinto, o ódio, a perseguição do demônio levado a um grau incalculável, eu tenho falado com você e com o FA a esse respeito.
(…)
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