Conversa
de Sábado a Noite (1ºAndar) – 4/1/1986 –
Sábado [Rolo VF 34] (Jorge Doná) – p.
Conversa de Sábado à Noite (1ºAndar) — 4/1/1986 — Sábado [Rolo VF 34] (Jorge Doná)
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Eu queria saber se as janelas da sala de jantar estão abertas ou estão fechadas. Não, eu quero que feche a janela e deixe aberta porta. Agora, fechada também a porta da copa e a porta do corredor.
(Sr. Gonzalo Larraín: ...Essa graça que o senhor está fazendo referência quando fala do futuro estaria relacionado com o discernimento da pessoa do senhor dado a Opinião Pública...)
A pergunta está muito clara e está muito bem exposta. Agora quanto à resposta da pergunta, é preciso dizer o seguinte: a tese de que a melhor prova, pelo menos a prova que toca mais — se não é que convence mais — é uma prova inteiramente lógica, inteiramente suficiente, mas se não é a que convence mais por meios lógicos é em todo caso a que toca mais na profecia do profeta ao próprio profeta.
Eu tenho a impressão de estar mais ou menos evidente quanto aos profetas oficiais. Quando a gente lê as profecias deles no Antigo Testamento porque pode vir depois, tem as interpretações, tal coisa se realizou em tal época, tal outra coisa se realizou de tal outra maneira, etc., são interpretações muito bonitas que provam o que o profeta queria dizer porque são alegorias que a gente vê que depois se realizaram. Está muito bem.
Mas mais do que isso há qualquer coisa, lendo as profecias deles, em que a gente por assim dizer sente o timbre da voz de Deus e que mais do que qualquer coisa leva, antes da prova, a gente estar persuadido. A prova histórica, científica é muito preciosa, muito boa, é inteiramente concludente, etc., mas há alguma coisa que toca a alma que a gente vê os profetas lançarem — eu falo dos profetas oficias do Antigo Testamento — lançarem aquelas exclamações: “Oh! Jerusalém, tu…”, etc., “cidade maldita”, não sei mais o que… a gente sente, a gente discerne no que eles dizem que a coisa se passa perante Deus, no plano de Deus e que, por assim dizer, é a voz de Deus que fala na voz dele, que é uma coisa...
Por exemplo, isso: “Ouvi Céus e tu, Terra, escutas!” Bom, a linguagem é linda, mas na beleza dela há qualquer coisa que não é mero literário, mas há uma autoridade para apostrofar a Terra e os Céus, com ressonância em toda a Terra e os Céus que o homem não tem e que a voz daquele homem tem e que percebe-se, discerne propriamente.
Esse “discerne”, o que é? É um conhecimento. Aquela leitura é acompanhada de uma graça e o homem tem o conhecimento dessa graça. Quando a graça é sensível, esse conhecimento não pode ser reduzido aos termos científicos que os sentidos físicos dão e que servem para a ciência.
Por exemplo: aqui eu toquei neste couro. Então as leis da fisiologia estão afetadas com o sentido do tato e as leis da física estão concernidas neste corpo de maneira que eu toquei com a minha mão. Então a ciência está engajada nisto, isto é um trans-científico, mas nem por isso deixa de ser menos real. É mais real e é o conhecimento direto que a alma pode ter da graça de Deus quando Deus quer que a alma conheça essa graça. Então o fato de ser científico, do não ser científico, para o homem de Fé não altera em nada e esse conhecimento lá vai.
Depois, há uma coisa que acrescenta a isso: é a moção para a virtude que isto dá. Porque, por exemplo: “Ouvi Céus e tu, Terra, escutas!” Bem, eu não sei o que há nisso, mas quando leio isso, isso me toca até o fundo da alma, mas eu me sinto alegrado, me sinto confortado, quer dizer, com forças, no que há de melhor em mim. “Ouvi Céus e tu, Terra, escutas!”, Ah! Não sei o que dizer disto…
(Dr. Caio Vidigal: Nos profetas do Aleijadinho há no pergaminho a frase: “A ti, Babilônia, eu te acuso e a ti ó tirano caldeu”.)
Está escrito lá. Você veja que beleza. Como é? Repita a frase.
Tem… “A ti, Babilônia, eu te acuso…”: a Babilônia fica como uma espécie de menina tomando um pito. Menina canalha que foi pega fassurando e que vai ser mandada para a prisão. “A ti, Babilônia, eu te acuso…”: mas, não é uma menina qualquer. Uma menina princesa que decaiu com isso e que vai ser mandada para a cadeia. “A ti, Babilônia, eu te acuso…” E como é o resto? “E a ti tirano caldeu.” É uma coisa magnífica!
Bem, mas que o discernimento pega e que nós católicos se temos fé devemos tomar como válido. Qual é a prova de que isto não é uma coisa subjetiva? É, primeiro, este efeito que conduz sempre para a virtude de um modo eficaz, de um modo que empurra. As coisas que conduzem por virtudes católicas à pratica integral dos Mandamentos, essas coisas estão acima das forças humanas e quando algo conduz a isto, vem de Deus.
Depois o fato enorme de pessoas de raça diferentes, de contextos culturais diferentes, idades diferentes, mentalidades diferentes que lêem isto e se sentem tocadas, isso não é elucubração de um indivíduo, de maneira que há uma certeza de validade disso.
Bem, isto está no texto do Profeta e deveria estar no aspecto pessoal dos profetas, nas vozes deles e no agir deles, no procedimento deles. E foi exatamente, ao meu ver, o que o Aleijadinho teve de mais extraordinário foi que ele compreendeu em cada profeta uma modalidade dessa impressão que o profeta deve dar. Ele soube, como artista, exprimir muito bem na pedra o que ele compreendeu, isso é uma outra questão: é lado artístico, mas ele compreendeu uma coisa tal que a gente como que discerne no profeta a profecia que está posta ali e, debaixo deste estrito ponto de vista, eu acho que poucas esculturas medievais são tão falantes quanto os profetas do Aleijadinho. É a minha impressão.
O que é interessante é que esses profetas têm uma grandeza tal que, por exemplo, a idéia de que de vez em quando aflora na cabeça de um ou de outro, para evitar que o tempo deprede, etc., etc., tirá-los daquele lugar e levar para um museu… Não é possível, não é possível.
Engraçado que eles não foram esculpidos para estar lá. Disseram-me que eles foram esculpidos para outros lugares e que, no século passado, não sei quando, os puseram lá. Está bom, mas não se tira mais de lá, não se tira mais de lá. Está acabado! Está lá, brilhante, porque é aí que eles brilharam aos olhos de Brasil. O Aleijadinho não tinha essa notoriedade aos olhos do Brasil. Teve quando os estudos de História do Brasil de arte colonial, etc., refloresceram nesse século, aí que ele adquiriu notoriedade e está ganhando notoriedade no mundo. Bom, uma vez que é isso, deixe lá. Só com um movimento da Providência seguido de um, acompanhado ou em conexão com um com um movimento da graça é que apareceria um outro lugar para pôr. Ele está ali, não se mexa.
Também, outra coisa: fazer redomas de vidro para colocar, também não. Está ali, não mexa! Os Anjos da Guarda tomam conta daquilo. “Pode vir um atentado comunista contra aquilo durante a noite”: Não mexa! Não faça você o papel do atentado comunista! Está acabado.
Mas, isto então dá substância ao que vocês diziam, ao que você levantou, o Guerreiro Dantas também, de que no Profeta está o principal do profetismo. Eu creio que o profeta por excelência [é] o Profeta Divino, Nosso Senhor Jesus Cristo. Está acabado. Pega uma boa imagem dEle e leia o Evangelho. Está provado, está provado, não tem conversa.
Agora isso por participação e de um modo mais fraco, etc., etc., pode dar no profetismo extra-oficial do Novo Testamento e já que o Cornélio acha tão extraordinário o profetismo feminino — fala de Santa Joana d’Arc, não santa naquele tempo, diz que ela era profetisa —, a gente percebe à distância que Santa Joana d’Arc estava carregada de uma luz dessa e que era uma luz que nela se sentia que ela ia realizar aquela coisa. De maneira que, isto considerado em tese, isto é tudo o quanto há de mais razoável.
Agora, em que medida isto possa discernir-se em mim, isto é uma coisa que me escapa e eu não sei dizer, eu sei dizer que não é contra a doutrina católica imaginar isso em mim, não há Fedélis, nem nada disto que eu possa objetar nada a essa, ou Lefèbvre, etc., que possa objetar nada a essa tese, isso é mais do que provado que não tem discussão possível.
Agora, o que tem dentro disso que é subtil, bonito e que me parece e que me parece discernir e creio que vocês disseram também, é o seguinte:
Como é que eu tenho a impressão do futuro em nós? De onde é que nasce? Quer dizer alguma coisa meu João Clá? De onde é que nasce a impressão do futuro em nós?
Aí, eu diria alguma coisa. Quando a gente — é uma questão de discernimento —, mas quando a gente estuda as três Revoluções, a gente tem a impressão de três enormes crises que gozaram de uma impunidade e, em certa medida, de uma vitória.
O protestantismo: uma vitória apenas em certa medida, mas em certa medida gozou e retumbante. E os outros gozaram de uma impunidade, de uma vitória ainda maior. O comunismo está gozando, está a ponto de gozar de uma vitória tão grande que se sente que nas forças daquele que foi derrubado, nem tudo está liquidado. E, que aquele que foi derrubado conserva alguma força e alguma seiva vital que, em determinado momento, não é justo que tenha sido abatida, que em determinado momento terá a sua revanche. Não sei se eu me exprimo bem?
Bem, então vamos dizer, por exemplo, o protestantismo. Trincou a unidade religiosa do ocidente [e] com isso fez a devastação que nós sabemos. De outro lado fez todos os males que nós sabemos. Esse protestantismo, agora, leva o seu crime a ponto de procurar dar à Igreja — ele com a sua face leprosa — o ósculo contagiante do ecumenismo e recebe da Estrutura o ósculo de quem aceita o Aids e inala esse Aids em si que é o ecumenismo.
Ele com isso leva os seus crimes a um auge de felonia para o qual a história do protestantismo verdadeira só terminará com o ecumenismo e a fusão com a Estrutura. Por exemplo, eu ouvi dizer que a visita de João Paulo II ao templo evangélico de Roma é um episódio da história do protestantismo. É uma coisa evidente, mas é uma imensa vitória do protestantismo e todo esse movimento Lumen bac, sei lá quanta coisa, sobretudo e mais do que ninguém a missa nova, são vitórias protestantismo.
E, a história do protestantismo não pode ser vista como até na “RCR” a gente ensina, quer dizer, terminou com o concílio de Trento porque opôs barreiras, etc., etc., porque o Concilio de Trento opôs barreiras. Opôs barreiras à guerra de frente, mas deixou aberto o caminho para infiltração, não por defeito do Concílio, mas por defeitos dos homens e daí veio o que nós sabemos, etc., etc., é a história do protestantismo.
Bem, a Revolução Francesa. A história da Revolução Francesa não acabou com a restauração dos Bourbons. O Weiss diz isto: que quando celebrou em mil oitocentos e quinze, durante o Congresso de Viena, uma missa de requiem por Luís XVI e Maria Antonieta com a presença de quase todos soberanos da Europa, que [nesta] ocasião a história da Revolução Francesa se encerrou. É uma ingenuidade. Isso não é verdade. A história da Revolução Francesa, agora, é a Revolução Francesa contagiando a Estrutura com a colegialidade, com outras coisas, com todo o igualitarismo. Ele está vencendo, Robespierre, Marat, Danton, Saint Just, Coutton e toda a canalha está vencendo agora.
Lênin, Marx, a história deles não terminou, a história deles está chegando a uma sarabanda. É o auge. Isso não é o futuro. Era o futuro para quem contemplava naquele tempo. Hoje é o presente. Nós estamos sentido, nós estamos vendo e observando, é de uma lógica elementar.
Bom, agora, acontece que essa situação leva a que se justifique a sensação que vocês tinham quando conheceram a “RCR”, a sensação que eu tive quando abri os olhos para a Revolução e vi que essa batalha toda, os capítulos dessa batalha não estavam encerrados, que ainda algo vivia, que eles ainda queriam matar e que esse algo vivia. Tinha o suficiente, havia nele alguma coisa, por onde se sentia, que Deus no último momento não deixaria morrer. Mas, era um discernimento direto, na situação histórica passada. Então, por exemplo, protestantismo toma conta da Europa e a partir da Europa, dos Estados Unidos e do Canadá, ao menos de boa parte do Canadá. É verdade, da Europa Germânica quase toda, da Europa Anglo-Saxônica quase toda, da Europa latina alguma coisa, é bem verdade.
Mas, se percebe que isto não fica assim e que essa batalha vai continuar em algo porque no procedimento da Igreja há algo de tão vivo que a gente vê que Deus ainda vai intervir para salvá-lA. Essa sensação, esse discernimento do que há nEla qualquer coisa de vivo, por onde Deus ainda vai intervir para salvá-lA, é um discernimento direto da graça que Ela guardava, da graça que Ela conservava.
E, esse discernimento, a mim me impressionava enormemente embora tenha muito de imponderável.
(Sr. Guerreiro Dantas: Para o senhor é assim, mas para nós não, nós vemos no senhor e no modo do senhor ver…)
Mas, é exatamente isso. Que o profeta vê em Deus e fala com Ele. Os discípulos do profeta olham para o profeta e vêem nele o que ele viu em Deus.
Então… — eu não vi a Deus infelizmente —, mas continua inteiramente verdade o que eu disse no “Refutation”: O modo pelo qual a previsão nasce em mim, como é o discernimento, é aquilo. Bem, mas é explicável que vocês discirnam em mim que o que eu estou dizendo vem de um discernimento.
(Sr. Gonzalo Larraín: Essa é a maior graça que homem poderia receber.)
Eu acho que sim porque é a graça da vocação. Depois uma dupla vocação porque é uma vocação para uma inteira fidelidade à Igreja e uma vocação para lutar para que venha aquilo que está prometido. Porque a nossa vocação é uma vocação que dando-nos a certeza de que algo virá, nos chama para a luta para que isso venha. Ela é um chamado para à luta. Ela não é uma mera profecia, mas ela é uma convocação para nós tornarmos afetivo aquilo que nos foi dado a discernir. Eu nos fatos e vocês em mim. Eu não excluo que alguns de vocês possam discernir nos fatos também, mas, de qualquer maneira, também discernir em mim.
(Sr. Aloísio Torres: Vendo fotos do senhor de sessenta e sete a gente via claramente o timbre da voz de Deus e o chamado para o futuro.)
É, é isso sim e eu tinha consciência de que eu fazia isso e acho que devia fazer. Quer dizer, é mesmo isso.
(Sr. Gonzalo Larraín: Enquanto o senhor falava o senhor fez um pequeno movimento e nesse movimento a gente sentia essa conclamação...)
É, esse discernimento faz-se assim. Eu creio que no momento foi o seguinte: eu quis dirigir a palavra também ao Fernando Antúnez porque eu procuro dirigir a palavra a todos que estão na roda e o Fernando está meio fora de foco e eu devo ter movido para me dirigir a ele. Aliás, eu desisti porque ele se colocou numa posição que me ficou muito difícil de dirigir a palavra a ele habitualmente na roda. Bem, mas deve ter sido nesse momento, uma coisa que eu estava preocupado apenas englobar na conversa a todos, pode ser que uma… sem nexo com o que eu estava fazendo, uma graça tenha brilhado para você. Podia perfeitamente ser. Porque essas coisas são assim, não tem dúvida, e é Nosso Senhor Jesus Cristo que se serve de um homem para fazer, para ver isso ao vivo…
(…)
…esse discernimento. Eu senti isso no meu passado muitas vezes, esse discernimento como eu descrevi que tinha e outros discernimentos análogos. É uma vida, um vigor e uma… um relevo e uma ordenação que dá ânimo de viver. Agora, se a pessoa troca isso por um prazer sensível honesto — porque o desonesto nem se fala —, mas honesto, se troca isto e comete um pecado de infidelidade a esse ânimo de viver que é esse gáudio de viver que vem daí, para trocar por um prazer honesto, o que é que acontece? A pessoa julga não estar pecando, mas as razões pelas quais Deus a queria atrair a si, a pessoa está deixando. Então fez o papel de águia andando a pé: vai atrás dos argumentos lógicos, para ver, para reconhecer, etc., e o mais marcante é que eu mesmo dou estes argumentos e dou esses argumentos para as pessoas não prevaricar de todo, para segurar aquele filho até o momento em que venha uma graça para pegá-lo porque esse é um filho porque eu quero curar a asa da águia. Enquanto não cura, eu quero ajudar a águia andar a pé.
Então, eu dou uma porção de argumentos tirados disso, daquilo, daquilo outro e são argumentos que eu vejo que fazem esse bem minor: são milho para águia. Mas, é preciso vir uma ação da graça para ver de novo e é outra coisa… É outra coisa…
Então, as questões de amor-próprio dentro do Grupo e, pior do que tudo: amor-próprio mundano. Por exemplo, uma coisa que é abaixo da crítica, quando pega rivalidade de família: “Minha família é melhor do que a sua, a sua é melhor do que a minha, meu pai tem uma automóvel melhor do que o seu, e o meu ramo é melhor do que o seu”, essas coisas assim, quando pega isso, vai abaixo.
(Sr. Gonzalo Larraín: Se a pessoa desvia o olhar, ela cai...)
Cai. É uma coisa terrível. E às vezes por uma besteira cai. Às vezes é uma besteira, mas pega um ponto de amor-próprio — é o demônio naturalmente — pega um ponto de amor-próprio e eu acho o seguinte: que o amor-próprio arrasta mais do que a sensualidade.
(Sr. João Clá: Sem comparação. Aliás, às vezes a sensualidade já é conseqüência do amor-próprio.)
É, a raiz está sempre no amor-próprio. A raiz da sensualidade é amor-próprio, pega uma coisa dessas e está perdido. Ou então: “Eu sou melhor orador do que ele…” e por aí a fora. Mas, eu acho que não vale a pena nós estarmos perdendo tempo com isso.
(Sr. Gonzalo Larraín: Sobre esse discernimento do futuro...)
Eu ouvi dizer por minha irmã — quer dizer, as senhoras sempre acompanham a televisão sempre de um modo afetivo e não sabem bem —, mas vamos admitir que seja real que ela tenha ouvido bem e tenha transmitido corretamente o que ela ouviu na televisão a respeito do Trípoli, etc., Líbia… Parece que é a mesma coisa.
Bom, parece que os fogos estão acesos e que está tudo posto de maneira que seria possível que, por exemplo, durante a noite sejamos acordados com a notícia de que arrebentou a terceira guerra mundial. É possível. Vamos dizer, por exemplo, eu não sei, um de vocês a noite, não dormiu ou qualquer coisa assim, ouve na rua um rádio de um homem que está parado com o rádio ligado e que anuncia a bomba atômica, etc., etc.
Minha irmã deu pormenores. Quer dizer, nos Estados Unidos já avisaram que não tolerarão, que não sei o quê, que o Khadafi está passando da conta. Mas, o mundo árabe, todos os príncipes do petróleo, etc., se juntaram… O mundo árabe com a Líbia.
Bem, o que a Rússia já declarou também: que ela não toleraria uma intervenção norte americana no caso. Se isto está assim, pode bem ser a tocaia de que eu falava hoje à tarde.
(Dr. Edwaldo Marques: Os Estados Unidos mandaram preparar planos de ataques.)
Você vê tudo isto o que quer dizer. Noticiar que mandou preparar é fazer uma ameaça porque podia mandar preparar sem noticiar nada. Depois este plano de ataque provavelmente, Edwaldo — não está aqui o Coronel, ele podia nos confirmar ou desmentir o que eu estou dizendo —, mas provavelmente as linhas gerais já estão ultra-estudadas. Mas por minúcias de execução no momento, eu compreendo que se estudem, é disso que se trata.
Bem, por outro lado, é evidente que todas as antenas de defesa anti-aérea estão em função. Agora pode ser que… — não sei que horas são agora nos Estados Unidos —, é possível que essa hora nos telefone o Mario Navarro ou telefone o Fragelli dizendo que arrebentou a terceira guerra mundial, é uma coisa que pode acontecer.
Bem, agora, eu digo disso o seguinte: eu não digo que é certo que vai acontecer, mas eu digo que essa hipótese em confronto com todos os dados que nós conhecemos explicaria todo o panorama que nós temos, explicaria tudo o que está se passando inclusive no Brasil, se explicaria. Porque não é uma prova de que seja verdadeiro, mas é que explicada a hipótese a cada quadro nacional e internacional reluz com um certo lumem e esse lumem convida a admitir uma probabilidade quente, salientando ao que eu estou dizendo, não vai além disso, mas é uma coisa que quer dizer o seguinte: “Fique sabendo que se não for assim é a essa maneira e ensinará [a] conhecer melhor a situação quando a hipótese verdadeira vier porque aqui circula uma certa luz…”
[Vira a fita]
… o que eu disse da tocaia hoje à tarde, do embuste… Não… Como é?
(Sr.–: …[Inaudível]…)
Da emboscada. O que eu disse da emboscada toma uma certa luz se a gente admitir que era essa a emboscada. Toma uma certa luz que não [é] apenas a luz da probabilidade terrena humana. Alguma coisa reluz se eu considerar, não a questão da emboscada, mas considerar a situação interna da Reforma Agrária no Brasil. Fica-se vendo que o que está sendo feito torna explicável que em determinado momento haja Reforma Agrária em penca com a multidão apreensiva que está fugindo dos grandes centros e que vai para o mato e que então ocupa as terras, etc., etc., que, aliás, vai se dar. Vocês não têm nenhuma dúvida de que todo mundo vai fugir de São Paulo, por exemplo, porque ninguém sabe ao justo quantas bombas atômicas tem a Rússia e se não lhe comprazerá em certo momento de desordenar toda a América Latina jogando uma bomba em São Paulo. Quer dizer, ninguém sabe os boatos, que dispersões podem causar em todas as grandes cidades.
E que então, aí a Reforma Agrária toma um caráter inevitável, quer dizer, o fato. Não adianta então discutir direito de propriedade, isso e aquilo, porque estão fugindo. Agora dizem os proprietários: “Vocês tirem da terra o necessário para viverem porque eu não tenho.” Eles dizem: “Eu não peço coisa melhor, vou começar a plantar.” Passando o perigo, como é que faz para fazer sair essa gente. O governo declara: “Sou impotente.”
E note: a simples tensão muito forte pode determinar um suspense tal e tais movimentos delirantes — para os quais todo o caos moderno estaria preparado — que a gente não sabe que armeiro universal psy está preparado.
Não sei se sentem como eu que há alguma coisa que reluz nessa hipótese. Agora, se reluz enormemente, e não é verdade? Essa luz não mente. Ela diz: “Abre os olhos porque esse milagre facilitará a ver alguma coisa de futuro. Você não perda o seu tempo.”
(Dr. Caio Vidigal: Isso vai passar-se assim com os outros detalhes…)
Com outros detalhes, você não perde, em outras coisas, mas fica-se entendendo, por exemplo, simplesmente pelo que eu estou dizendo agora a vocês. Vocês já ficam entendendo alguma coisa a mais da Bagarre. Não sei se concordam comigo? Isso é o tal discernimento, discernimento do futuro.
(Sr. Gonzalo Larraín: Porque é que vai ser assim…)
É porque eu, Gonzalo, discerni no Dr. Plinio.
O que tem é o seguinte: que os argumentos que eu dou tem a vantagem de mostrar que o que estou dizendo é razoável, plausível, enfim, que procede de um espírito de verdade por tudo quanto tem de razoável, de plausível, de ponderado, de maduro. Mas, a prova, prova-prova, pode estar no ter visto em mim, discernir o meu discernimento, que é o que dá resposta a sua pergunta. A resposta a sua pergunta é essa. É ousadíssimo dizer isto.
(Dr. Caio Vidigal: Às vezes quando o senhor fundamenta muito, algo dessa luz perde…)
É, eu concordo com você. E sabe porque eu fundamento muito? É porque eu ponho o diálogo à altura das águias que comem milho e a entrada delas, invisível, dentro do diálogo tem como efeito que elas se tornam presentes e escassam o discernimento. Você quer que eu me explique melhor ou está claro?
(Dr. Caio Vidigal: Na Reunião de Recortes essa luz era menos intensa quanto mais próximo dos recortes o senhor estava.)
Eu senti isso. Eu senti que a reunião foi à primeira parte. Agora tem uma vantagem negativa muito grande para as águias que comem milho: é que se esse discernimento que as pessoas têm em mim não é objetivo, eu não sou um espírito lógico ponderado, maduro.
(Dr. Caio Vidigal: Mas, o thau é objetivo…)
É, mas para as águias que comem milho não é e eu devo ser pai das águias que comem milho também. Nossa Senhora quer que eu as guarde. Agora, a questão é que eu começar a argumentar nos termos delas, os outros se sentem marginalizados na reunião, as águias que voam se sentem marginalizadas.
(Sr. João Clá: Já se notava a inveja em alguns…)
Bem, mas não falemos da inveja porque já é baixar o nível. Portanto, foi muito bom que você levantasse a questão [e] vocês tivessem conversado sobre isto porque isso é uma coisa que precisa ser dita pelo seguinte: chega na Bagarre… Por exemplo, esse meu filho aqui, está na África do Sul, dentro de uma bagunça da Bagarre, Bohers ou sei lá quanta coisa. Bom, em determinado momento, vem uma pergunta: “Mas afinal, no meio dessa sarabanda toda eu acreditei por quê?” Pode vir a pergunta.
Agora a pergunta está inteiramente explicada: “Eu acreditei por isso: vi o D. Chautard dar todo o endosso àquele advogado que disse ‘eu vi Deus num homem’, etc..” Está bom, vocês viram a voz de Deus numa pessoa — digna ou indigna não vem o caso porque é um carisma —, mas a voz de Deus numa pessoa. Vocês notaram que ela falou e vocês acreditaram.
(Dr. Edwaldo Marques: E na hora da “Bagarre” o que vale é isso.)
É isso. Mas que tem isso de altamente confortador, Edwaldo, que é uma experiência direta, pessoal, à maneira dos sentidos. Eu não posso duvidar que estou sentado numa poltrona na minha sala porque os meus sentidos me dão essa evidência. Essa outra coisa é uma evidência interna que vale tanto quanto a outra — teologicamente, segundo a doutrina Católica. E basta procurar no D. Chautard o que ele diz dos efeitos que da ação do apóstolo que tem vida interior — ele não fala necessariamente de santidade heróica — , o apóstolo que tem vida interior. Ele fala essas coisas.
O Pe. Royo Marin foi mais longe. É um grande teólogo, dado a essas coisas místicas, etc., espiritualidade… Diga o que ele falava da graça que se nota na TFP até nos estandartes.
(Sr. João Clá: “… Quando o vento bate nos estandartes de vocês, isso é símbolo do Espírito Santo…”)
E há verdadeiramente, Caio, momentos em que o estandarte tremula ao vento [e] que a gente tem a impressão de que é o Espírito Santo…
(Sr. Gonzalo Larraín: Nunca o estandarte tremula sem que haja alguma coisa…)
Eu não me lembro de ter visto. Tanto mais que é uma elegância coerente com ele.
(Sr. João Clá: …Ele dizia também que o entusiasmo com que nós cantamos é dado pelo Espírito Santo porque esse entusiasmo não há mais…)
Quer dizer, é um discernimento que este grande Doutor, acatado mundialmente sobre a espiritualidade, acha: que no flutuar de nosso estandarte se pode discernir a ação da graça. Porque é que no falar de um homem não pode se discernir? Eu acho que isso aí é de um valor conclusivo de primeira ordem.
(Sr. João Clá: Ele diz que todo o Fundador é assistido por graças especiais do Espírito Santo…)
É, é natural, é tão próprio [a] um fundador de uma obra com missão de levá-la a cabo. Bem, você lê a vida de São João Bosco: é uma catarata de ação da graça através dele. Está bom, ele fundou uma obra enorme, etc., etc.… São Francisco de Assis…
(Dr. Caio Vidigal: Quanto maior as graças, maior a obra. E a obra do senhor está no virar da história de dois mil anos.)
Recolher tudo o que os outros recusaram, recuperar tudo o que os outros jogaram no chão e dizer: “Nós não tomamos a sério a sua vitória!” E avançar contra todo o mundo, o que é isso?
Agora, o que eu acho é que, por exemplo, primeiro essa série de conversas aqui em casa nos sábados à noite são tais que o Caio resolveu tomar o avião toda a semana de Paris até aqui para participar dessas conversas, não foi Caio? Mas, enfim, na realidade, essas conversas de sábado à noite, a gente já vê que são marcadas por alguma coisa e é uma coisa engraçada o seguinte: vem isso num crescendo — essas conversas —, já se percebia que tinham alguma coisa e vocês tinham uma esperança nessas conversas, mas, as conversas estão chegando a um ponto que eu acho que excedia ao que nós podíamos enunciar, mas não excedia ao que nós sentíamos. E é para mais!
Agora, eu pergunto e seguinte: essas conversas, que como você dizia há pouco, conduzem para mais, essas conversas não serão um começo de um contágio de todo o Grupo por isso? Porque tem o seguinte: conversa como nós estamos tendo hoje à noite, nem nos melhores tempos do Jordano nós tínhamos. Não sei se concordam, mas acho que não tínhamos. Eu acho que é uma conversa que vai longe, mesmo nos imponderáveis, eu acho que ela vai alto e vai longe.
(Sr. Gonzalo Larraín: O senhor nessa conversa está muito aberto.)
Não, eu estou dizendo coisas que eu não diria.
(Sr. Gonzalo Larraín: O senhor ao invés de nos passar a ferro, nos trata assim…)
Nem me passa pela cabeça. Vou dizer mais: se eu começasse durante essa conversa a pensar nos defeitos, a graça da conversa se evolaria.
Eu, por exemplo, nessa conversa tivesse procurando lembrar os defeitos desse, daquele ou daquele outro, eu enxotava a graça. Eu vou dizer mais: eu tenho a sensação que a pessoa concernida nisso perceberia que eu estaria pensando nos defeitos dele e se fecharia porque não é momento e não é a hora, a hora é de outra coisa.
Assim como essa hipótese inicia alguma coisa, essa graça não indica como será o Grand Retour? Aqui está a questão: Não há uma densidade profética especial dentro disso?
Bem, meus caros, preciso ver um pouco a hora, que hora são?
(Sr: Três e dez.)
Nós podemos rezar três Ave-Maria para agradecer a Nossa Senhora. Agora nós rezamos habitualmente a Oração da Restauração. Então podemos rezar três Ave-Maria.
[Ave Maria Gratia Plena…]
Não sei se ouvirão um barulho mecânico, muito molesto que se produziu a pouco aqui atrás? Deve ser alguma coisa pesadona…
(Sr. João Clá: É a chuva no alumínio.)
Mas, imitava muito o barulho de uma coisa industrial. Se viesse a máquina aqui perto perturbava a conversa pelo choque. É uma coisa interessante.
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1ºAndar