Conversa
de Sábado a Noite (1ºAndar) – 30/11/1985 –
Sábado [VF 34] – p.
Conversa de Sábado à Noite (1ºAndar) — 30/11/1985 — Sábado [VF 34]
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Fernando, você quer me fechar aquela janela?
Bom, meus caros, vamos aos nossos temas.
Qual é a pergunta, meu Guerreiro?
(Sr. Guerreiro Dantas: Uma vez o senhor tratou de um tema que se chamou guerra das cerebráticas...)
Só que tem que a palavra me escapa. Cerebrática? O que era uma cerebrática?
(Sr. Guerreiro Dantas: Era uma guerra de eflúvios de alma...)
É. Posso perfeitamente tratar disso. Supõe um certo ajeitamento do tema, uma certa adaptação do tema às perspectivas presentes, etc., e ao contexto dessas reuniões.
Seria preciso a gente tomar dois pressupostos.
Um pressuposto é o seguinte: não há nulidades, nulidade não existe, a nulidade é nulidade, a pessoa que se entregou inteiramente ao zero e que se entregou com toda a sua força ao zero, por causa disso ela fica nula. Mas, é porque ela escolheu para si a insignificância, a banalidade, o arrastado, o vulgar. Essa pessoa como elegeu isso, transforma-se nisso. Mas, não existe propriamente a vulgaridade.
Vamos dizer, por exemplo, Santa Catarina Labouré era filha de camponeses, foi se não me engano, antes de entrar para a ordem religiosa para a congregação religiosa dela, ela foi uma simples professora primária. Bem, mas assim mesmo difícil de se ajustar à condição de professora primária, e não era uma pessoa como Santa Bernadete, você olha para Santa Bernadete, que é uma pessoa simplíssima também, transborda personalidade. Santa Catarina Labouré não dá essa impressão, ao menos o que eu tenho visto de fotografias, não dá essa impressão, dá uma impressão diferente.
Bem, mas ela tinha um ponto qualquer bom ao qual ela se apegou de toda a alma e como a alma dela que seria uma alma naturalmente das mais sem valor, aderiu àquilo completamente, donde aquela alma pegar dessa maneira o bem, saiu uma estrela.
(Sr. João Clá: “No entardecer desta vida sereis julgado segundo o amor.”)
Exatamente: no fim dessa vida sereis julgado segundo o amor. Ela tinha bastante carga de personalidade para daí sair uma estrela, quer dizer, sair uma grande coisa. A pessoa banal secundária, etc., de Catarina Labouré, de pequena inteligência, etc., de Catarina Labouré, amou uma coisa, mas, amou com toda a sua carga que daí saiu uma estrela.
Quer dizer, se todo o homem por mais nulo, por mais insignificante que seja, se ele amar alguma coisa, ainda que seja a vulgaridade, ainda que seja a mesquinharia, o homem é de uma natureza tal que quando ele ama aquela coisa, ele a ama inteiramente. Ele ama inteiramente ainda que seja coisa negativa, que não valha nada. Todo homem no fundo é um colosso. E pode ser muito menos colosso do que os outros homens, mas todo homem é no fundo um colosso em relação ao que são os homens de hoje.
Não é um colosso de inteligência –– as inteligências são desiguais ––, não é um colosso de bom gosto, não é um colosso de capacidade física, não é um colosso de nada, mas ele é um colosso.
Alguma coisa de colossal sai nele se ele… Ainda que seja uma coisa colossalmente medíocre, mas sai. Ele se entrega, então, à mediocridade de uma maneira incalculável.
(Sr. Gonzalo Larraín: Todos os homens são assim, fazendo ou não esforço?)
Todos os homens são assim, fazendo esforço ou não fazendo esforço.
Você veja, por exemplo: poucas coisas são deprimentes para uma pessoa mais do que a avareza. A avareza deprime, reduz uma pessoa a zero aos olhos das outras.
O João Clá estava contando de uma senhora que ele conheceu que fazia o seguinte: ela tinha que fazer uma visita a conhecidos, etc., ela ia a pé de sapato velho até junto casa à onde ela tinha que tocar a campainha.
(Sr. Gonzalo Larraín: Acho que é escocesa, é típico.)
É escocesa essa mulher é? Bem, chegou lá e antes de tocar a campainha, ela punha um par de sapatos novos que ela tinha levado. Depois tocava a campainha, o sapato velho ia… Depois quando ela terminava a visita e ela sentia a pessoa visitada longe, ela trocava os sapatos e voltava para casa.
Pois bem, é uma coisa que indica, por mais mesquinho que seja, indica uma possibilidade de ser mesquinho que desconcerte a gente.
Uma senhora rica… Bem, mas que é um colosso é. Quer dizer, se ela desse aquilo por amor de Deus, você vê o que é que ela daria. Se ela desse aquilo para a generosidade, o que é que ela daria? Por que? Porque toda alma é um colosso. Essa tese me é enormemente cara. Ela conduz a uma conclusão muito severa, vocês estão vendo bem que o meu espírito está a caminho dessa conclusão. É que todo mundo tem culpa de ser como é.
Porque aquele Inferno tremendo para achincalhar e quebrar a mulher que foi exageradamente avara? Dir-se-ia: “Aquela pulga!” Seria o tipo de coisa que todo mundo acreditaria — é que na hora de julgar Nosso Senhor diga: “Bem, é uma tal mulher tão nula, tão sem valor, que essa se perdoa”. Não! Ou ela tem diante de si um destino fabulosamente grande no Céu ou ela tem diante de si um destino terrivelmente grande no Inferno, mas a grandeza está no caminho dela.
(Sr. Guerreiro Dantas: O senhor disse uma vez que o Manoel da Martin, se ele tivesse correspondido à graça, ele seria um monumento.)
É, se ele tivesse correspondido à graça, teria sido um monumento: é o Manoel da Martin.
É todo o mundo, Pega, por exemplo, o auditório. Nós estávamos com um auditório de umas quatrocentas pessoas lá, hoje à noite, com –– o que se chama por aí –– o valor pessoal muito desigual. É natural. Eu não me refiro aqui ao lado genealógico, nem dinheiro. Eu digo, como substância pessoal, muito desigual. Bem, e eu de bom grado, usando a linguagem corrente, diria: “Esse é uma nulidade. Aquele é uma pessoa de valor.”
Mas, não é que esses valores, digo, esses padrões exprimem o fundo do que eu penso. O que eu penso é: nulidade não há! Só há colossos. Agora, esse [que] amou a nulidade é colossalmente nulo. O sujeito que é colossalmente qualquer coisa, ele tem uma raiz de colossalidade.
Colossais… Você tome, por exemplo, esse zelador protestante nordestino que me cumprimenta com uma continência sem casquete. Vocês estão rindo de tal maneira que… ele é um homúnculo. Agora o julgamento dele deve ser visto como uma coisa sérissima, mas gravíssima. Vai ser julgado por Deus, esse homem, e Deus, por assim dizer, em Pessoa, o julga e pesa tudo quanto ele fez, desde o começo, todos os antecedentes, como se fizesse o processo de um rei.
Quer dizer, e depois dá a ele um destino: onde ele cai na mão dos Anjos bons, se ele subir, e dos Anjos maus, se ele descer. Isso não é um colosso? Veja pela conduta de Deus. Quando se afirma que Nosso Senhor Jesus Cristo teria Se Encarnado, teria morrido para salvar um só homem, isso não é um colosso? Para esse homem! Morreu para esse homem.
Quer dizer, isso projeta todas as idéias do Reino de Maria, etc., para uma grandeza única. Mas, todo mundo é um colosso, não há homem que não seja um colosso.
Depois, você considerar esse homem assim, essa história — [um homem] com quem você acharia cacetíssimo conversar — se ele se salvar, Deus, que é Deus, encontrará por toda a eternidade um gáudio em receber o louvor desse homem.
(Dr. Edwaldo Marques: Vai ser a recompensa dele.)
Vai ser a recompensa dele, mas para Deus também um gáudio. Quer dizer, esse homem vai cantar a Deus e Deus acha que esse canto tem substância. Deus se entretêm com esse cântico, como o Manuel da Martim.
Embora, vocês tenham razão de dizer que não se afirma isso, tudo da doutrina católica é coerente com isso, não há um ponto que não seja coerente com isso.
Isso só, meu Guerreiro, de Deus acender naquela pessoa uma participação criada com sua vida incriada… O batismo. A partir do momento que foi batizado, ficou um colosso. Eu não sei como é que se pode pensar de uma outra maneira! Eu fico até desconcertado! Naturalmente, para a Revolução não convém que isso se diga.
O fato é que todas as minhas perspectivas são construídas em face disso, mil modos de ser meu, mil coisas minhas são construídas em face disso.
(Sr. Poli: O senhor se explica muito nessa perspectiva.)
Mas é assim. Então tomar as coisas enormemente a sério e ver perspectivas colossais em tudo. Mas, é a alma humana!
Pense um pouco, pense um pouco em cada um de nós, o que encontra é isso. Dói-me, eu fico entristecido vendo como é pequeno o número de pessoas que estão abertas para isso. Eu vou dizer mais, é admirável nesse ponto como Nossa Senhora nos favorece essas reuniões à noite.
(Sr. Poli: Admirável e misterioso.)
Misterioso, de fato é misterioso, porque essas reuniões, por exemplo, numa reunião do MNF, isso não pegaria assim. Porque é que ela dá uma graça para isso ser assim aqui no sábado à noite? Eu também não sei porquê é, mas Ela faz, está acabado.
(Sr. Guerreiro Dantas: Há alguém que…)
Muito, mas muito.
(Sr. Poli: Ela tinha muito essa idéia…)
E dava gravidade, seriedade a todas as coisas, tudo para ela tinha perspectiva muito grande. É esse e nosso espírito a nossa mentalidade…
(…)
…Não sei porque uma reflexão que hoje interrompi — porque a não ser feita com muito cuidado, mas torrentes de cuidado o espírito sai dos trilhos e o ponto exato de equilíbrio dessa reflexão eu ainda não encontrei. Foi à primeira vez que eu fiz essa reflexão e percebi aqui que precisava respirar o ambiente da Igreja. Mais ainda: o ambiente do Coração de Jesus, se você quiser, para fazer idéia do ponto de equilíbrio. Mas eu dou o problema:
Eu estava sentado no sofá aqui na hora da sesta e quando terminei a sesta, eu me pus a rezar, para adiantar o expediente e rezar um pouco. E na oração me veio: eu vi o quadrinho e me veio à cabeça uma coisa a respeito de mamãe –– daí eu interrompi a oração e comecei a pensar ––, mas o que me veio à cabeça foi o seguinte:
A idéia… Eu estava pensando na idéia de minha morte e a idéia da felicidade que se pode ter no Céu, etc., e daí veio à idéia de que ela estava morta, que ela estava no Céu. E então a felicidade que eu quis dar a ela na terra, uma felicidade completa, sem limites, que correspondesse à superabundância do meu carinho, etc., etc., de minha veneração por ela, etc., essa felicidade eu não consegui dar porque não dependia só de mim, dependia de outros e os outros não estavam dispostos a contribuir comigo para criar esse ambiente em torno dela.
Mas, depois pensei o seguinte: que isso me doía muito, eu ficava muito, para usar uma expressão portuguesa que papai usava às vezes e que diz bem o que eu quero –– ficava muito apenado, tinha muita pena, ficava muito apenado com isso e me fazia sofrer isso. Eu me multiplicava ainda mais em desvelo, mas há limites além dos quais você não pode levar mais o desvelo, você não pode fazer mais do que aquilo e eu queria fazer mais do que aquilo e não podia.
Mas, depois pensei: No Céu, ela recebe de Deus aquilo que eu queria que ela tivesse. E depois pensei: Não é só aquilo que eu queria que ela tivesse, mas aquilo que ela queria ter. E nessa hora que ela está no Céu, eu devo imaginá-la radiosa de felicidade porque recebe de Deus uma forma de afeto, uma forma de carinho e… [falta uma palavra] …até de respeito.
Olhe que Deus é Deus… Bem, mas uma forma de respeito que enche completamente o que ela quis e que nunca teve. Isso é verdade, mas deve-se medir em função do que eu falei: toda alma é um colosso. E as reservas disso, de apetência disso, que havia nela eram colossais e, portanto, o diálogo de Deus com ela é um diálogo colossal. Eu nem posso, aqui na Terra, medir isso que havia na alma dela –– uma vez preenchido pela superabundância das perfeições de Deus ––, que grau de felicidade que ela tem e como ela se sente plena com isso.
Eu vou dizer mais: eu creio que se ela me aparecesse, ela não seria capaz de me dizer. Eu poderia notar se Deus quisesse que eu observasse nela diretamente, mas, que ela se dispusesse de palavras humanas para dizer isto eu não acredito, de tal maneira isso é uma coisa plena.
Agora, naturalmente isso me consola porque eu vejo que ela afinal foi atendida. Bem, e essa é a doutrina católica também. Ela, doutrina católica, é colossal, mas colossal.
(Sr. Guerreiro Dantas: Aí entra o tal conhecimento por conaturalidade.)
Entra. É dessas tais conaturalidades. Entra uma porção de coisas: É filho dela, conatural com ela, debaixo de mil pontos de vista, pela graça e pela natureza, eu posso imaginar bem como seria nela, mas depois, me veio aqui, é um lado delicado, é o lado delicado. Tão, tão delicado que eu sinto até que nós desviamos de nossas reuniões anteriores tratando disso. Desviamos, mas eu vejo que é o momento de tratar disso e vamos tratar disso e está acabado.
Agora, é preciso ver a quem a gente dá essa fita para ouvir porque isso desengonça muita cabeça, mas vamos, entre nós, tratar da questão.
A gente vê que existe nas almas, tais e quais elas saíram das mãos de Deus, e depois do modo como a degradou o pecado original, e como são elas são hoje em dia. Existem em todas as almas uma coisa que eu vou descrever, sem dizer, eu vou fazer uma descrição tão honrosa que dá impressão que é uma apologia e não é. Pelo contrário, eu vou fazer uma carga em cima disso e, portanto, não embarquem na apologia. Mas, para verem que a alma humana é um colosso, vejam que aspectos a alma humana comporta e como é que é isso.
Existem em todas as almas, como elas são hoje, uma coisa que não existia na Idade Média, pelo menos não existia até o século XIV, quando a Idade Média supostamente começou a declinar e que era uma espécie de sede de afeto, sede de carinho que funciona em todas as almas como uma coisa que, bem levada, pode conduzir a elevações muito grandes e, mal levadas, podem conduzir a qui pro quo, erros, nem sei que espécie de coisas, nem sei que jeitos.
Mas, à primeira vista dir-se-ia que em torno disso gira toda a vida espiritual de um homem e deve haver algo de verdade no que eu disse. Mas, eu não consegui pensar até o fundo. Depois eu vou mostrar que relações têm com a Revolução: tem relação com Céu, tem relação com o Inferno, tem relação com todo o resto.
Essa sede de carinho faz o seguinte: em princípio todo mundo gostaria enormemente de ser objeto de uma determinada forma de afeto, de uma determinada forma de compreensão, uma determinada forma de respeito. Bem, e queiram ou não queiram, faria disso — se o tivesse — a coisa do mundo que mais se apreciaria.
Quer dizer, eu compreendo que uma pessoa que tenha calcado isso aos pés de tal maneira que nem se lembre mais, se prostitua preferindo o dinheiro a isso ou se prostitua preferindo a carreira, preferindo qualquer coisa, preferindo a sensualidade. Eu compreendo. Mas, de fato se derem à pessoa isso; se reabrirem nessa pessoa essa fonte, pisada e tampada, desse afeto que ela queria ter a pessoa tressaillement… — Não sei como se diz em português; como é que se diz tressaillement em castelhano, meu francês?
(Sr. Fernando Antúnez: Não sei, estremeceria…)
É, estremeceria –– mas não é bem isso –– de gáudio e, uma vez obtendo, não quereria ceder.
Bem, e no fundo é uma tristeza de não ter isso, a completa incompreensão desse problema em si próprio e a completa ignorância de que Deus é a plenitude disso que leva a pessoa a uma porção de desajustes interiores em que a pessoa começa a se debater como um cego num canil, um canil de bulldogs.
Quer dizer, os bulldogs vêm e mordem de todos os lados, pulam em cima dele, arrancam um pedaço da bochecha, arrancam um pedaço do braço, nem sei o que… Ele, se batendo de cá de lá, às cegas, não dá conta do recado, porque ele não pode perceber aqueles cães todos. Ou, se preferirem: um homem em que um exame de abelhas vem em cima dele. Não podem nem abrir os olhos, para ver, porque pica dentro do olho e começa então aquela coisa desvairada.
E no fundo eu não acho contestável que uma pilha, ou quase todos, ou todos os problemas morais, como os problemas nervosos, decorrem disso.
(Sr. Gonzalo Larraín: Mas com o japonês também é assim. Ele parece tapado para isso.)
Mas, algo de lírico dorme nele que quereria outra coisa. No índio isso é assim; no cafuzo, no homem composto de várias raças, em qualquer coisa isso é assim.
Bom, e aqui tem todo um problema da Revolução nas almas, tem toda uma questão que é delicadíssima da gente resolver porque parece, à primeira vista, a justificação do romantismo. E veja agora a coisa seguinte: o romantismo pôs… O que é que o romantismo fez? Ele deu como verdade primeira e evidente que… Verdades primeiras e evidentes, duas coisas:
Primeira, que isso o homem só pode receber de outra criatura humana;
Segundo, que [é] um corolário que: se não se receber isso de outra criatura humana, não encontrará em nenhum lugar e que portanto, [o] afeto humano é embevecimento de duas almas que professam entre si esse encontro, nesse sentido. E daí vem o chamado amor, e todo o resto e tudo o mais.
Mas, quando a gente vê isso, a gente percebe que está errado. Mas, percebe alguma coisa de certo porque se você compara isso no romantismo, inclusive com a sensualidade que há nisso, você compara isso com um simples sexy appeal norte-americano, você compreende o que há de podre nisso. Porque o appeal, como eu imagino, é apelo: esse apelo do sexo é que se pode imaginar de mais cachorro, é o que atrai o cachorro para a cachorra. E o “sexo apelo” é propriamente isso e que é inteiramente diferente do romantismo, que tem todo um andar, etc..
Bem, o que é que é… Se a gente vai ver por aí, a gente chega à loucura. Veja o romantismo até aonde chegou… Mas, tem isso que dá a gente a impressão de uma verdade profunda, nobilitante e absurda, logo que não pode ser uma verdade e, entretanto você vai ver e você não encontra uma saída a não ser essa verdade. Você vê o giro da coisa como é?
Bom, não sei se vocês todos medem bem o tamanho do desastre que ocasiona em cada um individualmente o não olhar para isso ou olhar, porque se olha se perde, se acalca, se perde também. Bem, e é claro que tem que haver algo de certo dentro disso.
Bom, vamos deixar isso de lado e vamos perguntar quando é que isso começou –– não sei se percebem –– porque é a saída para o problema, é aí. Quando é que o movimento romântico começou? E a gente vê que começou precisamente com a decadência da Idade Média e pela decadência da Idade Média, mas, que a Idade Média tinha isso sem o seu lado ruim a aí você pode pegar qual era o lado bom.
(Sr. Gonzalo Larraín: O senhor no começo disse que na Idade Média não existia isso…)
Não, na Idade Média até o seu auge. Na decadência, uma força que tirou a Idade Média de dentro de seus gonzos, desmedievalizou a Idade Média.
Então pega aquela forma de sentimentalismo medieval que havia em relação à dama: A dama que aparecia com suas tranças louras no alto de um balcão e vinha de longe o guerreiro que tinha morto tantos homens em honra dela, em tal lugar assim ou que se tinha tornado célebre porque tinha conseguido pegar o Graal, não sei onde, etc., etc., estaca no silêncio da noite.
Então você pode imaginar uma torre alva, como a torre de Belém, e ali uma dama com as suas tranças louras, ou morenas, como queira imaginar, e que do alto da torre saúda o cavaleiro. Ele está numa noite de luar montado a cavalo, com couraça de tudo, a lua brilha e tudo parece revestido de luar. Ele tem um penacho na cabeça que é vermelho e outra pena verde — que são as cores dela, do brasão dela — e ele faz a ela uma grande saudação, toca alguma coisa naquele chifre olifant e ela se comove com aquilo. E então ela fica tocada com aquilo e faz uma condescendência para ele: uma ponta, não sei, ela pega um tapete precioso que pende da torre e vai fazendo descer o tapete, vai e chega até ele. Ele então oscula o tapete e faz declamações, etc., e ouve-se passos. Ela precipitadamente fecha a janela, ele monta a cavalo e vai embora. Está o luar no mesmo lugar, acabou uma cena.
Bem, mas não sei se percebem, mas o que houve ali foi algo que ele imaginou encontrar nela isso e ela imaginou encontrar nele. Mas, é preciso dizer que essa forma romântica…Isso é um pré-romantismo. Então aquelas…bandolins, alaúdes e depois aqueles sapatos pontudos chamados polaines que o sujeito até… existia correntinhas para andar com polaine e depois a peninha no chapéu do homem e tudo que vai se amolecendo em conseqüência disso, desmedievaliza e conduz lentamente para o salão francês.
Bem, não sei se percebem que nessa longa trajetória continua aceso um grande valor de alma cada vez mais degenerado e cada vez mais transformado em algo do corpo….
[Vira a fita]
.Bom, agora notem que em uma outra gama há alguma coisa de análogo no seguinte: as relações feudais, senhor–vassalo tratadas, por exemplo, pela Regina Pernoud e etc., são tratadas como relações políticas e comerciais ou, ao menos, as relações econômicas: o vassalo é obrigado a fornecer tantos homens para o dono; o dono é obrigado a fazer tal para o vassalo e tem todo um direito feudal que estuda as situações; tem também uma couve que ele tem que dar por ano no aniversário da senhora feudal; tem uma cabra que não sei o que, porque os contratos feudais têm coisas dessas.
(Sr. João Clá: Esse é o lado sindicato da coisa…)
Que tem, porque o engraçado é o seguinte: tem, tem que ter! E exatamente eu ficaria nodosíssimo se não tivesse. Mas, ao lado disso há toda uma mitologia do vassalo para com o suserano, do suserano com o vassalo, em que o vassalo mitifica o suserano, o suserano mitifica o vassalo, dentro do clima da sociedade patriarcal ainda; das relações patriarcais ligadas a lavoura, toca um pouco a questão que eu ia tratar hoje à noite no auditório e esqueci — os enjolras não me lembraram: a sociedade patriarcal.
Bem, mas um belo dia eu falo da sociedade patriarcal para a enjolrada se vocês me lembrarem. Bem, mas que tem isso que transpunha a nota dominante. Não era a nota sindicato. Essa nota sindicato existia para que se pudesse até não pensar nela. Era tudo de tal maneira regulado que não dava preocupação e depois cuidar de outra coisa. Não é como a maneira de Hollywood que a razão é essa e que amizade é uma tapeação para disfarçar isso. Não, isso é assim.
E vocês encontram isso na sociedade patriarcal, até na caipirada do Brasil, deve ter isso na América espanhola também, no século XIX por exemplo, aquela história do meu avô: aquele barão de Araraquara foi procurá-lo em Pirassununga, não o encontrou e voltou pelo mato à noite quando ele houve de longe uma voz de um homem que vem vindo e cantando a Salve Rainha, ele disse: “só pode ser o Totó Ribeiro, vamos esperar porque ele aparece.”
E vem de longe, no meio do mato, o meu avô cantando a Salve Rainha. Encontra com o barão de Araraquara, grandes amizades, aquele gesto do barão, não é logo depois, a certa altura das relações deles, formar uma fazenda para o vovô.
Mas, não sei se você nota que há uma coisa aqui de que o homem de hoje perdeu a noção. É de não falar não é? Não é concebível até, pelo homem de hoje, mas é uma coisa chamada amizade, mas é uma coisa que não é uma amizade… [Ilegível] …, meu querido, não é isso não. Uma amizade de honra, generosa, cavalheiresca e estava no fio da barba. Não sei se usavam o fio da barba os castelhanos, mas, nos brasileiros antigos, o compromisso era o homem arrancar o fio da barba e dar para ao outro: valia mais do que escritura pública e tudo. Não é documento de nada, mas o valor da própria barba, o que é que dá com isso, e que isso valha, valha mais do que uma escritura, supõe uma união de alma, um embricamento de alma que hoje simplesmente não existe.
Bem, mas para verem como essas coisas, portanto, transpuseram a Idade Média e ainda continuaram muito depois disso, vamos dizer: a Chouanerie foi isso, o Carlismo foi isso, Andréas Hofer na Áustria foi isso — é o resto do espírito de Cavalaria que vivia na Europa e que perfumava as relações humanas, com qualquer coisa que se perdeu completamente, mas que vocês sentem que é ligado a esse ponto. Sentem isso. E vocês… É impossível que não sintam! Tenho certeza de que sentem. Sentem de que o calço primeiro dos equívocos, das revoltas e dos azedumes, das invejas da Revolução é isso.
O que me deixa pasmo é que isso não se menciona, mas não se menciona simplesmente, assim, tomado assim, não menciona e, é obvio a tal ponto que nenhum de vocês está me pedindo uma demonstração. Mais ainda, se um de vocês me pedisse uma demonstração: “Dr. Plinio, pare e me dê uma demonstração lógica”, incorreria no desagrado dos outros porque está obstruindo uma reflexão que está querendo chegar ao ser termo.
Bem, mas então, os construtores das Catedrais, os construtores dos Castelos feudais como Saumur, ousados, grandiosos, esses eram capazes de uma amizade sem [a] melúria da amizade de marquês a marquês no tempo do Ancien Regime e sem a secura da amizade comercializada do século XIX, sinárquica e [que] hoje nem é, se existe. Não se pode falar disso.
Por exemplo, dois rolos, o que é que…, talvez um escreva ao outro: “Meu caro amigo…”, mas os dois sabem que é mentira.
Bem, então se tratava de ver o seguinte: que as almas que conceberam — eu vou falar em termos plinianos: é aos que eu sou mais sensível — os vitrais, as cores dos vitrais da Idade Média, tinham delicadezas, tinham sublimidades, tinham possibilidades de vibrar que não tinha a pessoa do Romantismo, mas, que tinham toda uma gama de sentimentos que se apagou completamente, delicadezas de sentimento que se apagaram completamente.
Para você pensar que foi possível os vitrais saírem a tal ponto de moda, para serem substituídos por vidros transparentes, que a maior parte, a grande parte do segredo do fabrico dos vitrais se perdeu por negligência porque não havia mais quem quisesse encomendar vitrais e por isso os segredos foram sendo zupados e jogados no lixo e esquecidos por todo mundo.
Se você pensa nisso, você compreende que delicadeza dorme na alma humana que ninguém acordou! Que sublimidades dormem na alma humana que ninguém despertou! Que forças, que originalidades! Você vai ver em desenhos medievais –– vale a pena vocês pegarem esses álbuns com desenhos medievais para verem –– donde aquela feeria daquelas cores, vão ver o que é que o desenho conta: o desenho está mostrando um homem que está cerrando uma tora de madeira para a catedral. Então o desenho está narrando o modo pelo qual se trabalhava na catedral e o outro está puxando não sei o que, e outro… são uns bons hominhos qualquer, mais ou menos com os hábitos dos nossos eremitas, pegando mais ou menos até aqui, por cima da camisa e por cima da calça, estava usando assim e é um homem que, não sei, que vai levando pãezinhos na rua para distribuir para alguém porque são essas coisas que tem nos vitrais. Às vezes, tem um santo, às vezes tem isso.
Mas, essa roupa desse homem é de um amarelo dado ao dourado que quando bate o Sol ali resplandece de tal maneira que você não sabe o que dizer. E a touca dele é a touca de um azul tão profundo, que você chama de azul-rei. A realidade é essa.
Bem, quer dizer, você veja a simplicidade de alma com que esse homem chegou a compor essas coisas, mas como que, de outro lado, do que eram capazes as almas simples: que vôos! Que colossalidades! Você não concorda com isso? Quer dizer, concorda de sobra, nem sei o que dizer de tanto concordar, mas não é verdade?
Bem, agora, qual é então… E isso deve atingir não só os vitrais, mas também as relações humanas. E isso deve, portanto, ser uma coisa que impregne todo o relacionamento humano de algo que é individual, mas não é tão individual, quanto o puro romantismo. Há qualquer coisa no romantismo por onde uma alma sorve a outra. No ambiente medieval não há isso; não há essa avidez de uma alma para a outra, mas há algo disso esparso em todas as almas.
Então, por exemplo, você entra numa catedral medieval. Você fica envolvido por aquilo tudo, te rodeia e te enche, sem fruição. Você não diz: “Que delicia!”, quando entra numa Igreja. O post-medieval, o homem quando vê uma mulher diz: “Que delícia!” Aqui não tem isso. O amigo vê o amigo do post-medieval e faz um romantismo qualquer, de outra índole, mas faz. Ali não, não tem isso. É um equilíbrio com algo que fica pairando no ar e que seria preciso definir melhor e eu parei a minha reflexão nesse ponto. Infelizmente não tive tempo de continuar. Mas, tenho a certeza de que ao menos eu fiz uma mise au point boa.
(Sr. Gonzalo Larraín: Mas aí o senhor pode aplicar mais esse ponto.)
É, mas não tive tempo de pensar porque depois tive outra coisa para fazer e parou.
(Sr. Gonzalo Larraín: Naquela ocasião do Barão de Araraquara tem algo que…)
Eu acho que é algo que se via e que os fatos comprovaram, mas que se via a maneira de certas virtudes tão evidentes como as cores dos vitrais. São almas-vitral, se você quiser, nas quais a gente vê isso.
(Sr. Gonzalo Larraín: As salinas têm algo disso.)
Claude Lorrain, com os sóis dele, pega muito disso.
Aquele quadrinho pega alguma coisa disso.
Agora também oferta imunda: “Saia do Grupo! Calque aos pés e faça dinheiro!” Oferta imunda. E depois outra oferta é: “Aqui está a fassurada que está te esperando na praça Buenos Ayres. Renuncia a isso e pegue a fassura.” O sujeito vai e pega. Qual é o tamanho de pecado que ele fez? Agora, qual é o padre que explica a ele que o pior que ele fez não foi violar esse ou aquele mandamento, mas o primeiro porque quando se rejeita isso, se rejeita o primeiro.
Bem, eu estou certo de que a explicação disso… Porque a questão é que, numa explicação apressada, os elos intermediários não se encontram. Era preciso saber estabelecer os elos intermediários. Toda a questão é saber estabelecer os elos intermediários.
Fiat lux no seu espírito, se você se dá conta que não é verdade que isso exista nos outros povos antigos que não a Idade Média. Povos pagãos não têm isso e, por isso… Isso é o Lumem Christi e são refrações através da alma humana, da habitação da graça no indivíduo.
É apressada. A conclusão dá um salto porque dá um salto por cima das psicologias. Era preciso. Isso não é uma descrição psicológica; isso é uma explicação teológica muito preciosa que orienta a pesquisa psicológica. Mas, nós estamos à procura de como isto chega até ao Sagrado Coração de Jesus passando pelo Imaculado Coração de Maria porque foi a humanidade que conheceu e aceitou a Nosso Senhor Jesus Cristo — e aceitou por meio de Nossa Senhora —; foi que amou a Igreja Católica como Ela é e que A exprimiu como ninguém A exprimiu. Foi essa humanidade que teve esse sentimento.
Quer dizer, então há algo por onde o Ego Sum da Igreja toca esse fundo da alma e dá à alma uma resposta, um contentamento que é do próprio Cristo Nosso Senhor falando com a alma.
Bem, mas como é que nós vimos passar a idéia clássica que nós temos de Nosso Senhor Jesus Cristo para o amarelo da roupa do carpinteiro do vitral ou para o azul do gorro dele? Quer dizer, que transposições há? É preciso descobrir os pontos intermediários: como é que isso começou a aparecer? Como é que foram sendo as almas que eram assim? E como foi nascendo daí uma civilização? E isso é assim.
Eu achei curioso que quando eu subi aqui, me deram um cartãozinho que os enjolras de São Bento mandaram-me dar, escrito –– quem sabe o Fernando quer trazer para verem: “Cor Jesu, Rex et centrum ómnium córdium, miserére nobis” –– “Coração de Jesus, Rei e centro de todos os corações.” E eu pensei com os meus botões. “Isso tem uma relação suprema com a cogitação que eu fiz durante o dia.”
Bem, mas a questão é que está na nossa vocação não nos contentar com a explicação teológica. É preciso descrever a relação psicológica. a pergunta é a seguinte: O que é que eu posso acrescentar com base nisso à minha figura de Nosso Senhor Jesus Cristo? Completando… Vejam que encanto isso aqui. Esse aqui o que é? Eu estou com preguiça de por os óculos.
“Fornalha ardente de caridade.” Veja que bonitinha: feita com uma espécie de pedra vermelha moída por aí, para representar as gotas de sangue. Eu tenho a impressão de que se Ele nos aparecesse, nós num olhar compreenderíamos isso. Mas compreenderíamos, note isso, com uma certa clave nova que ia sendo manifestada aos medievais e que eles abandonaram pela melúria do século XV ou XIV.
(Sr. Fernando Antúnez: A Igreja de Coração de Jesus…)
E é uma coisa indefinida que aquela Igreja causa, mas que, se você for prestar atenção, toca nesse centro de sua alma. Esse centro fica menos doído, fica menos sensível, fica menos absorvente, fica mais terno e mais tendente a dar-se, o que no romantismo não tem porque o romantismo é uma crise de egoísmo, uma máscara do altruísmo.
(Sr. Gonzalo Larraín: O avô do senhor mostrava ao outro que ele tinha a alma voltada para os lados superiores e que isso movia a confiança no outro…)
Está certo, mas que eu também me dou conta de algo que é isso. Mas, agora falando, eu me dou conta de algo que é isso, mas é algo mais do que isso, eu me dou conta agora. É que quando se fala, por exemplo, na clave da Igreja do Coração de Jesus, se fala do que a pessoa sente ali, depois a gente ama aquilo que sente. De fato, a gente não está amando uma coisa abstrata, mas a gente está amando algo que a gente está vendo com os olhos, sem se dar conta e que é uma pessoa.
Quer dizer o seguinte: se Nosso Senhor Jesus Cristo não existisse, nós não poderíamos ver na Igreja Católica as coisas que Ela tem. Uma pessoa absoluta que nós vemos refletir-se nisso, mas nós não damos conta que é uma pessoa que está se refletindo ali, que aquilo é mais do que o efeito de uma criatura, um vitral sobre um homem do que o efeito de alguma coisa que esse vitral reflete e que, por uma ação meio mística, naquela hora fala a minha alma.
Não sei se percebem, por exemplo, a paz de alma que isso trás. Mas tem mais grandezas dentro disso.
Uma vez eu falava da grandeza da alma humana, como a alma humana é grande para ser feita para mais…
(…)
(Sr. Gonzalo Larraín: A pessoa não pode dar-se a outra pessoa a não ser que a outra pessoa tenha algo de absoluto…)
Isso é verdade, porque nós não fomos feitos senão para amar o absoluto. E exatamente o romantismo nos diz o contrário, prega essa mentira: “Pegue o relativo e ame.” O resultado é o que se encontra aí: traição, o que quiser. Mas não sei se percebem que é toda a teoria do relacionamento humano que muda.
(Sr. Gonzalo Larraín: A “RCR” a gente vê muito disso, vê que o senhor colocou a alma do senhor ali…)
Ah! Eu coloquei a minha alma naquele livro.
Você já imaginou [e?] seu estado de alma se você não tivesse conexão com o Grupo? Com esses padres que empurram de um lado, empurram de outro, enlambuzam…, mas é assim.
Agora, vamos pôr a coisa assim, em termos teológicos. Diz D.Chautard, com todas as aprovações eclesiásticas que ele tem, inclusive de São Pio X: “Eu olhei — no Cura de Ars — e vi Deus num homem.” Ele fala depois como [se] irradia essa presença de Deus num homem.
Isso, vamos dizer, se poderia dizer que por um fenômeno análogo, se pode ver Deus numa cor, de uma coisa, de um vitral, não de um modo exatamente igual — porque o homem é vivo e a cor do vidro é morta —, mas a seu modo pode-se ver Deus num vitral. Quer dizer, há certas cores, há certas coisas, que exprimam a alma de quem compôs, mas nessa alma se via Deus, de maneira que vendo o vitral viam a Deus.
Agora não precisa ser necessariamente um santo, basta uma pessoa de intensa vida de santidade, etc., e, sobretudo, não perturbada pelas seqüelas do romantismo do fim da Idade Média e de todos os séculos que seguiram. Uma alma, portanto, tranqüila, transparente, limpa a esse respeito, que através, olhando para essa alma, a gente veria muita coisa de Deus. Isso se dá com os santos por excelência, mas, é próprio de toda a virtude apreciável, ponderável, respeitável, não é necessário que seja.
A gente compreende que numa cidade onde haja a maioria da população em estado de graça, ou quase a totalidade da população em estado de graça, haja coisinhas de todo o lado que dão aqueles reflexos de Deus e que povoam a alma humana com um equilíbrio que é Deus saciando aquela forma de absoluto, sobrenatural, etc., a todo momento dedilhando todas as almas. Eu acho que se não for teológico, eu desde logo desdigo, mas eu acho que é esse o fundo do negócio.
E que na reflexão agora ainda há alguma coisa para descrever, mas, que na conversa de hoje à noite, a gente chega muito mais fundo e compreende que a solução dos problemas de alma que um de nós possa carregar desse gênero, a questão não é resolver, é transportar a alma para essa clave.
E depois, não cicatriza mil coisas na alma, a gente viver num ambiente assim? Quanta coisa cicatriza, é como uma vida num paraíso! Agora, sobretudo a idéia de que isto que a gente vê assim, no Céu vai se ver face a face: esse absoluto aparece total. A terra é o seminário para o Céu.
Agora também de passagem, a alma que está condenada e que sabe que podia ter tido isso e não terá e que está no Inferno a vida inteira condenada a ficar com aquela cambada de bandidos, se refussilando o tempo inteiro, e todos fazendo todo o mal possível para os outros. Você já imaginou? Da trivialidade, da deslealdade total, de tudo, da crueldade perfeita, tudo, tudo, tudo, eles não tem o menor tesouro e são avaros das lamas que tem, que caluniam, quando nenhum acredita no que diz o outro. É um inferno.
Está expiando e expirando na Santa Casa uma velhota de noventa e sete, noventa e oito anos, que já está meio gagá e que foi a vida inteira uma limpadeira. É uma ignorante e além do mais uma mulher de mentalidade banal. Está bem, é um tesouro destes que se perde porque se essa mulher tivesse querido conhecer isso, se ela tivesse querido dar-se a isso, até onde é que isso iria? Eu acho que fizemos uma das nossas melhores reuniões até hoje. Diga meu filho.
(Sr. Guerreiro Dantas: O senhor sente que na ordem mineral o ouro é que representa melhor este ponto medieval…)
Sinto. E aí eu compreendo enormemente, aqueles ícones bizantinos pintados sobre fundo de ouro. Depois era ouro mesmo! Não é essas purpurinas que tem por aí. É ouro mesmo. E ouro não admite insinceridade: qualquer falsificação você nota que não é ouro aquilo.
Bem, meus caros, eu acho que podemos encerrar a nossa reunião. Agradecer a Nossa Senhora uma reunião onde há uma porção de cavaleiros, num convento onde haja uma porção de santos… Não te vem ao espírito à idéia de um convento de cavaleiros.
(Sr. Gonzalo Larraín: É isso…)
Em parte porque a própria idéia do santo foi de tal maneira desconectada da ordem temporal que o cavaleiro é isso na ordem temporal…
(…)
E a nossa vocação é exatamente nessa projeção, então restaurar a velha idéia, restaurar cavaleiros. Meus caros…
“Há momentos, minha Mãe…”
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