Conversa de Sábado à Noite – 16/11/1985 – p. 3 de 3

Conversa de Sábado à Noite — 16/11/1985 — Sábado [VF 33] (Augusto César)

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(Sr. João Clá: Por ocasião do “estrondo”, após a chegada de notícias boas, que as coisas tinham corrido bem no Rio Grande do Sul, o senhor pediu lanche e aí saiu uma conversa bem boa. O senhor comentava Simeão que viu Nosso Senhor e disse: “Podeis levar Vosso servo, pois meus olhos viram o esperado duas nações, etc”. E o senhor dizia que fazia parte da vocação do senhor ser glorificado ainda nessa Terra, e não no finzinho, assim como Simeão.)

É, me parece isso.

(Sr. João Clá: O senhor dizia que não tem receio de olhar para o passado do senhor, mas tem receio de olhar para o futuro porque está preparada uma tal glória que o senhor tem receio de amolecer.)

É.

(Sr. João Clá: Se fosse possível vermos um pouco o que é negado ao senhor nos dias de hoje, com isolamento, perseguição de silêncio, posto de lado, na melhor das hipóteses.)

Silêncio e pancadaria, difamação às torrentes.

(Sr. João Clá: Agora, diz a Escritura: “A glória do rei está no seu interior.” E a gente nota isso em contato com o senhor, há uma glória. Então como é esta glória interior e como é que virá?)

(…)

das mais variadas condições há pessoas que têm uma espécie de feeling do que é o estado de espírito coletivo de Morungaba, mas o conjunto das pessoas que habitam as terras circunvizinhas e que costumam freqüentar Morungaba para seus interesses.

Então, somando uma coisa com a outra, você tem que quem tem esse feeling, tem uma sensibilidade para uma certa correlação que há entre os estados temperamentais e os eflúvios pessoais de outro lado. E como a pessoa instintivamente sente esse lado temperamental, de eflúvios, etc., e tem uma certa noção das opiniões das pessoas sobre as coisas, ela, embora tenha uma posição modesta — é o chefe da estação de trens de Morungaba, por exemplo, ou é a mulher dele — ela de algum modo pode dizer: “Em Morungaba não se pensa assim.”

E isso não decorre do fato dela tomar contato com a maior parte das pessoas, mas ela sente no ar.

Agora, reciprocamente nas pessoas, em todas as Morungabas do mundo, há pessoas que marcam mais especialmente a vida de Morungaba. E, às vezes, são pessoas de mais realce e que marcam pelo realce que têm. Mas, outras vezes, isso é pela personalidade, é, por exemplo, um velho mendigo, com uma certa personalidade, e que costuma pedir esmola ao pé de uma jabuticabeira em Amparo, num pé da jabuticaba que há em Amparo, em praça pública — eu vi esse pé de jabuticaba.

É, mais adiante, um homem que é tintureiro e que passa roupa perto de uma janela aberta e que canta; mais adiante é uma loja de discos que costuma pôr para tocar certo tipo de disco, com um certo tipo de dança; e, mais adiante, uma quitanda cujas frutas tem um certo cheiro, ou casa com legumes — não sei se hoje isso se chama quitanda, verdureiro.

Bem, num passeio através da rua principal de Morungaba ou de Amparo, o sujeito faz esse passeio e, sem se dar conta, pelo estado que está o mendigo, está isso, aquilo, aquilo outro, ele mais ou menos sente como está a cidade.

É banal o que eu estou dizendo. O que não é banal é parar diante do fato para fazer a indagação que estamos fazendo. É uma das banalidades que, por superficialidade de espírito, a pessoa não presta atenção, não analisa. É como a lei da gravidade que levou até Newton, para ele formular a lei dele. Mas é uma coisa banal. Que as maçãs caem no chão, que as pedras caem, que o Newton, como todos nós, temos que carregar o peso das próprias pernas para andar, porque a gravidade da Terra atrai, isso é a coisa mais banal do mundo! Mas a lei… Nós estamos à procura da lei disso, estamos “newtonizando” o assunto que em si é um assunto inteiramente banal.

Agora, é evidente que isso indica uma espécie de psicologia coletiva, ou seja, um terreno onde as almas travam contato, em que entra contato de instinto a instinto, de sensibilidade a sensibilidade, de hábito, mil coisas entram em cena que marcam a coisa. Por exemplo, um caso concreto que eu conhecia. Houve um tempo, no meu tempo de menino, que eu acordava bem cedo, e levava uns quinze, vinte minutos sem dormir e depois ferrava de novo no sono. Não estava indisposto, nem nada, mas não sei porque, acordava.

Acontecia com freqüência que eu ouvia passar um homem que usava uma perna-de-pau, porque eu ouvia passar depressa, ouvia aquela cadência de perna-de-pau batendo no chão: pum-pam, pum-pam, pum-pam, o homem que passava.

Aquilo para mim marcava de algum modo — olhem o absurdo — o ritmo forte e que ia para frente, do trabalho para o qual São Paulo estava acordando.

Este homem, com a perna-de-pau dele, nunca imaginou — ele devia ser um homem pobre, muito pobre — nunca imaginou que um menino muito confortável estava acordado a esta hora e que ele estava dando a esse menino uma lição de fortaleza.

Ele estava sendo levado pelo ritmo da cidade inteira. Quer dizer, o ritmo com o que eu senti o pulsar da cidade antes, eu senti naquele homem que estava acordando e ia para o trabalho.

Aliás, esse é um tema que tinha profundidades indefinidas para se tratar. Mas não gostam que se trate, hein! Conhecem, mas não querem que outros conheçam, é o segredo deles.

Então, mais adiante vinha — às vezes eu acordava mais tarde — vinha um barulho de umas oito ou dez cabrinhas que vinham todas com uma ganga, amarradas, com sininhos, que faziam… E um homem que vinha guiando. Era, ao pé da letra, uma espécie de curral de cabras que existia na Rua Sebastião Pereira, naquele tempo, de um velho monarquista — aliás, pai de um ministro de Getúlio — e ele explorava essas cabras.

Já eram seis horas, já era manhã, quando eu ouvia as cabras chegando na rua ainda silenciosa e, às vezes, cheia de neblina, eu estava deitado. Porque aquelas cabras chegavam para trazer leite para minha irmã, minha prima e eu. Tomávamos leite de cabra, ou com canela, ou com conhaque, qualquer coisa, de manhã, ainda antes de levantar, para nos robustecermos.

Mas aquilo me parecia o próprio som do que ainda havia de inocente em São Paulo e da criançada ainda inocente em São Paulo que, com aquele blim-blim dos sininhos, quebrava outros ritmos e se fazia ouvir através desse ritmo. Era como que a inocência da infância resistindo a opressão do trabalhismo que subia.

Mas, por exemplo, se um de vocês aqui dissesse: “Não só não sinto isso, mas custo crer que alguém sinta”; esse se desqualificaria aqui horrivelmente, como um tonto, nem sei o quê.

Mas o captar isto é um certo relacionamento de alma para alma que, se houver tempo algum dia, nos tratamos disso.

Ainda há mais: esse é o valor que têm as explicitações. Essas coisas implícitas, quando alguém explicita, eu tenho a impressão de que um pouco de força explicitante se espalha por todo lado. É um pouco do véu [que] se rompe, por essa ação. E que a Contra-Revolução lucra simplesmente com o que estamos conversando.

Agora, esta realidade natural é alta demais para que ela não seja análoga a algo de sobrenatural. E é natural, assim como um corpo se sinta a si próprio, e, por exemplo, vamos dizer o seguinte, a coisa mais prosaica que possa haver, mas o estar sentado de repente… Nós ou estamos assim, ou viramos muito o pé, ou mais, ou menos. Está bom. Se — me desculpem o prosaísmo de coisa, mas é assim — de repente a meia se põe numa posição errada dentro do sapato e incomoda o pé, é a coisa mais mínima que pode haver, pode perturbar uma conversa, de tal maneira o corpo se sente a si próprio, e ele inteiro sente o que se passa em qualquer ponta da superfície dele.

Assim é natural que haja um…

(…)

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