Conversa de Sábado à Noite – 9/11/1985 – p. 3 de 3

Conversa de Sábado à Noite — 9/11/1985 — Sábado [VF 33] (Augusto César)

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[Defeito na gravação]

que o mal, se não aparece, está oculto. E que há tão grande bem, tem que corresponder uma potencialidade de mal tão funda, ou quase tão funda quanto esse bem é alto e que, quanto mais escondido e pequeno, mais concentrado, e que, portanto, era preciso partir de porrete à procura dele por toda parte, nas dobras das flores ou dos travesseiros, no fundo dos armários e das gavetas, à procura dele para liquidar. Sem essa bipolaridade, a vida não se explica. Nem a alma é inteiramente capaz de louvar a Deus se não conhecer o mal, pelo menos como uma coisa possível. Porque é o estado de prova em que estamos, um estado hesitante entre o bem e o mal. E, para eu subir uma montanha sem cair, não me basta ter uma grande vontade de subir ao píncaro, eu preciso ter uma noção do abismo que eu vou deixando atrás de mim, à medida que subo.

E, me permite que diga, meu filho, mas nós não somos muito apetentes de olhar o mal assim. Quer dizer, eu quereria esse bem levado até o ápice, etc., etc., você tem razão, mas eu o quereria conscientemente militante de que ele está esmagando algo que é preciso fazer como Nossa Senhora esmagar eternamente! Não esmagar apenas episodicamente.

Bom, eu estou vendo um tipo qualquer dizer que isso é uma visão maniquéia das coisas… é outra discussão. Mas, minha alma inteira não se explica, não toma contorno, não se define sem esse duplo olhar: o bem e o mal, o bem e mal, o bem e o mal. E daí o ver, exatamente, na inocência de Nosso Senhor, não só uma perfeição, mas uma perfeição em estado de não-mal, de recusa ao mal. Porque existe, está pelos ares, eu percebo, e eu não combato? Não vai.

A vida é militante e ela não é bonita a não ser se [considera?] [considerada] em função do que ela é na realidade: nessa vida existe o mal.

(…)

(Sr. Paulo Henrique: Não se compreenderia o senhor não vivendo nessa época.)

Também! Ah! Não se compreenderia! Não se compreenderia nós vivendo noutra época!

(Sr. João Clá: É uma vocação para o todo, ressaltado esse ponto.)

Ressaltado esse ponto.

(Sr. Paulo Henrique: Donde vem a segurança deles?)

Essa pergunta é muito explicável, mas nos conduz a uma série de reuniões anterior a essa do Sagrado Coração de Jesus, quando falávamos do desvirtuamento dos instintos que o demônio exerce numa pessoa.

Acontece o seguinte: que, por um desvirtuamento de instintos, na Belle Époque, e, portanto — eu nasci na Belle Époque que terminou em [1914] 14, mas prolongou-se mais tempo no Brasil com toda a marcha da Revolução travada pela guerra, estava se prestando atenção na guerra. Então eu peguei muito isso.

Era uma atmosfera de alegria, uma atmosfera de gozo da vida, com uma promessa que o demônio fazia às pessoas naquele tempo, dupla. Primeiro, por causa da razão que dominou no homem o período da ignorância bárbara da Idade Média, e a partir da qual saíram as ciências; por causa da razão, de um lado, que também a partir da qual vinha a dúvida religiosa, a crítica, a análise religiosa; a razão que nascera com Lutero e com o livre-exame — no fundo era isso, não diziam, mas era isso — dada essa razão, o homem, dono do raciocínio, nunca mais cessaria de progredir. O homem perdera o raciocínio, mas porque tinha recuperado, nunca mais deixaria de progredir. E viria daí um futuro luminoso, estupendo, etc.

Vocês devem ter pego coisas dessas em pequeno. Por exemplo, progresso da ciência e cura progressiva das doenças, quem viesse com hipótese de Aids, na euforia de Pasteur que descobriu os micróbios, daria impressão de uma bruxa montada num cabo de vassoura e prevendo desgraça, seria uma coisa horrorosa.

Bem, vinha também uma promessa que, se o indivíduo tivesse uma alegria pessoal, consonante com aquela esperança geral, ele seria feliz nesse mundo, e a vida, o destino dele seria feliz. E essa promessa pegou tão bem a classe dos que tem alguma coisa, dos empresários de toda ordem, que eles ainda vivem nessa ilusão! Tudo vai acabar dando certo, e tem que acabar dando certo por causa dessa promessa interior de que a vida vai dar certo; está duro, tenho meus momentos de depressão até, de dúvida, mas no fundo vai.

(…)

Ela cunha que… período do Kerenski, ele proclamou a república e os membros da família não foram presos, só foram presos com o regime comunista. Ele viveu mais ou menos como a família imperial brasileira vive aqui. Ela, então, foi a um espetáculo de ópera com um homem que era um médico, um plebeu, mas que a gente via que era muito amigo dela. Ela não diz, mas a gente percebe. E que ela teve um verdadeiro deleite, sentada na platéia, e podendo satisfazer sua velha curiosidade de ver como era o teatro visto da platéia, onde uma grã-duquesa não podia pisar nunca. E assistindo de dentro da platéia, misturada com o povo, uma representação, em vez de estar nas frisas da família imperial, separado do povo.

Não sei se percebem que é uma das tais felicidades compensatórias, ilusórias que o demônio dá e que ela acaba tendo ainda durante algum tempo uma certa graça, digo, achava uma certa graça naquilo por ilusões do demônio.

Uma outra coisa interessante foi na Áustria. Caiu a monarquia, depois houve inflação, umas coisas, aquelas famílias nobres todas perderam o dinheiro e um arquiduque daqueles, cujas memórias eu li, estava empregado, levando uma vida duríssima para poder viver. No bonde ele viu, mas era aqueles bondes abertos ainda, ele viu assim de longe a princesa Tal — não era arquiduquesa, mas era uma daquelas casas principescas da Áustria, digamos Liechtenstein, coisa assim, meio parente deles — que estava viajando na frente, no bonde. Ele, então, há muito tempo não a via, porque aquilo se esfacelou tudo, ele então foi no estribo do bonde, andando até junto a ela e encontrou um lugar vazio, sentou-se ao lado.

Então perguntaram um pouco o que estava fazendo cada um, e muito alegres de terem tido uma oportunidade de se encontrarem, e gracejaram e se divertiram muito.

Mas, eu queria fazer notar o sopro do demônio aqui. O verdadeiro Aids está nisso! Essa é a porta da imunologia.

Às vezes eu…

(…)

* * * * *