Conversa de Sábado a Noite – 12/10/1985 – p. 9 de 9

Conversa de Sábado à Noite — 12/10/1985 — Sábado [VF032] (Neimar Demétrio)

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(Sr. Poli: Os mais novos não vão entrar?)

Enjolras”? Não.

(Sr. João Clá: Sr. Fernando chega daqui a pouco.)

(Risos)

Acho que não é tão daqui a pouco não. Ele está enrolado com uns grafonemas. Eu tive que fazer grafonema até agora, para a França, para Portugal para os Estados Unidos, para Espanha, para não sei mais o que, depois da reunião. De maneira que… vamos ganhar tempo.

(Dr. Edwaldo Marques: E vai aumentar, porque vem as Filipinas agora.)

É, essas são as alegrias e as lágrimas das coisas. Eu imagino que, quando em Roma começou o movimento aumentar e a Igreja se expandir, alguém dissesse com razão: “Como era bom quando éramos só nós aqui.”

Digam lá meus caros, quem tem uma pergunta?

(Sr. Guerreiro Dantas: Estávamos certos que ia ser reunião com os “enjolras”, que nem conversamos sobre a pergunta.)

Não, esses “enjolras” são novinhos demais. Os mais velhos um pouco acompanham bem a conversa. Esses são muito bonzinhos, etc., etc., mas.

(Sr. Poli: Posso fazer uma pergunta?)

Pode.

(Sr. Poli: Se o senhor não achar viável, retiro. Mas a pergunta é a seguinte: eu nunca consegui entender direito, e gostaria enormemente de conhecer, como é o mecanismo dos gostos do senhor, do que atrai o senhor. O paladar, em função do que o senhor gosta de uma coisa ou desgosta daquilo. Mas não só paladar, as cores, as arquiteturas, as formas, os sons. Por exemplo, a música para o senhor é muito…)

Muito parlante.

(Sr. Poli: Mas o senhor é também muito exigente. Uma ocasião ouvi o senhor dizendo que ouvindo uma vez a música, o senhor já entendeu inteiramente a ela e ela já perde um tanto do interesse, a não ser o gregoriano.)

É tal qual. O gregoriano e o polifônico também eu gosto. Gosto muito mais do gregoriano, mas gosto do polifônico.

(Sr. Poli: Essa realidade eu teria muito gosto em conhecer. Não sei se é descritível.)

(Sr. João Clá: Isso se liga com um tema que o senhor tinha deixado em seqüência, a respeito da integridade. Porque tudo isso, até no gosto, na preferência do senhor se nota uma integridade por detrás. Quando o senhor gosta ou não gosta, é sempre de maneira íntegra. A indecisão não existe.)

Não.

(Sr. João Clá: Ir a oculista, na hora das lentes, a gente fica numa indecisão do outro mundo.)

(Dr. Edwaldo Marques: A pergunta é “esta ou esta?”)

(Sr. João Clá: Mas acompanhei o senhor várias vezes em oculistas. O sujeito põe aquelas lentes: “esta é melhor, ou esta?”. O senhor diz: “Não. A 1ª era muito melhor”. Ele: “Esta ou esta?”. O senhor : “Ah! A 2ª melhorou. Ele: “Assim é melhor ou pior?”. O senhor : “Piorou muito”. Mas é uma decisão categórica e integra, é e não é.

Quando vem dez pedaços de pizza. O senhor diretamente: “Este aqui!”)

(Sr. Poli: Uma vez o senhor mandou encomendar um pato no “Ca d’Oro”. O Sr. Amadeu encomendou. Ao servir na mesa, o Senhor olhou e disse: - “Ih! Donde é que veio esse pato com jeito de borracha?”. O Sr. Amadeu tinha encomendado no “Casserole”, ao invés de encomendar no “Ca d’Oro, como o senhor havia pedido. O senhor então disse: - “Pode levar. Me traga ovos quentes”. Quer dizer, o que é essa exigência no pato, naquele pato, se não for aquele pato não come, não interessa. Porque o “Casserole” é também um restaurante muito bom, mas tem uma precisão ali.)

Eu acho que é preciso fazer uma distinção entre a impressão que a pessoa tem, sensorial, e a atitude, a relação que aquilo tem com a alma. A impressão sensorial é condicionada por uma porção de coisas físicas e pessoais, etc., etc., em que intervém uma caudal de fatores que de modo subtil se emaranham, se acumulam, se desemaranham de modo muito complexo. Nem eu conheço como isto é em mim, nem era o caso de nós entrarmos nas hipóteses por aí.

Mas eu acho que existe habitualmente – é uma impressão minha, pode ser que eu esteja enganado, seria preciso consultar um teólogo bom – mas que existe uma certa relação entre essas propriedade do corpo e a forma de santidade que o indivíduo tem que realizar. De maneira tal que essas propriedades sirvam para ele perceber nas coisas dos sentidos o por onde elas melhor simbolizam a Deus e simbolizam as coisas do espírito em geral. De maneira que a sensação física seja uma sensação conexa com aceitações e recusas, apetências e inapetências, de caráter espiritual.

Agora, entra nisso, evidentemente, uma certa dose de objetividade. Quer dizer, as mesmas coisas que… eu disse mal “objetividade”, é universalidade.

Há certas coisas que são igualmente repugnantes a todas as naturezas humanas. Por exemplo, salvo em certo tipo de gente doente, há uma doença que faz isso, comer terra, comer terra repugna os homens, a todos os homens. Há uma doença que ocasiona isso não é Edwaldo?

(Dr. Edwaldo Marques: É, uma anemia, falta de ferro.)

É isso. Mas tem sintoma, etc., etc., mas é uma doença. No homem são não há isso: terra não se come. Portanto, é uma coisa universal. É um dado de objetividade. Isso, objetivamente repugna aos sentidos e é contra-indicado ao homem.

Nos bichos isto é feito de modo muito singular, porque eles não sabem nada, são perfeitamente estúpidos. O que eles rejeitam e o que eles aceitam, e como eles não comem veneno, não fazem o que lhes é nocivo, fazem o que lhes convém, é uma coisa impressionante, e fala a favor dessa minha hipótese. Os bichos, até com mais finura do que nós, que somos concebidos no pecado original, temos essas desordens conosco, nos bichos isto é assim.

Tem depois um segundo modo de objetividade. Objetivo quer dizer, não é produto da fantasia, isso que estou indicando por objetivo. Vamos dizer, pepino. Eu tenho contra o pepino, ou contra o quiabo, umas objeções muito vigorosas, apaixonadas até. Mas é porque, dadas as minhas peculiaridades pessoais, gustativas, por exemplo, isso tem uma certa relação com um certo estado de espírito, com certa coisa que eu rejeito. Então, aquilo me é desagradável à língua, e por uma análoga razão, me é desagradável à razão. É objetivo porque não é uma fantasia, mas é uma realidade individual que para um outro pode ser de outra maneira, legitimamente. Quer dizer, não é regra. É uma coisa real, objetiva, eu não devo comer o pepino porque o pepino me evoca, por correlações que não são subjetivas mas pessoais, são individuais, me trás à mente… em 1º lugar me é desagradável no paladar. Mas, em 2º lugar, me traz à mente coisas que são contra a virtude e que eu não gosto, não posso gostar, não devo gostar. Então, fora o pepino!

(Sr. Gonzalo Larrain: O senhor disse que no senhor produz esse efeito, mas nos outros não.)

Pode não produzir.

(Sr. Gonzalo Larrain: Mas deveria produzir. Se a pessoa fosse inocente, não produziria?)

Não. Você veja, por exemplo, que não é uma resposta absoluta que estou dando, mas ela tem seu alcance. Os gostos de mamãe em matéria de comida, menu de almoço e de jantar todos os dias, eram bem diferentes dos meus. E eu brincava muito com ela. Começa por aí que ela gostava muito de mel e eu considero o mel madeira com açúcar, porcaria. Muito bonito mas não vale nada.

Bem, ela gostava de pepino. Ela ficava impressionada com miolos. Língua apreciava pouco. Essas raízes tipo aipim, mandioca, etc., ela gostava e comia com melado. Melado é uma espécie de açúcar derretido, uma coisa assim, nem sei bem o que é melado. Ela comia aquilo e considerava um regalo. Vinha como vem em todas as casas, dentro de um guardanapo e bem quente. Ela abria e cortava aquilo…

Eu dizia a ela: - “Mamãe, isso aqui é barbante com goma arábica! Não sei como é que a senhora come essa porcaria”. Ela ria, etc., etc., mas eu tinha todo comprazimento em que ela comesse aquelas coisas, e não achava que houvesse uma imperfeição nela nisso.

Agora, há uma peculiaridade na nossa vocação, que é o seguinte: as pessoas muito freqüentemente acabam prevaricando nessa lógica que eu estou dando. E porque prevaricam, acabam gostando de algumas coisas pessoais legítimas, das quais elas legitimamente gostam e eu legitimamente não gosto, mas misturado acabam gostando de algumas coisas das quais não deveriam gostar. E isto forma uma espécie de emaranhado que elas podem não saber deslindar. Então, é razoável que, por motivos prudenciais, elas procurem não comer as coisas que eu não como, e comer as que eu como em alguma medida. Há uma regra aí de bom senso que se compreende e que também deve ser entendida. Mas quando a pessoa tem muita certeza de que aquilo está reto, não vejo razão para alterar.

Agora, desconfie de suas próprias certezas. Nem sempre essas certezas são fundadas. Mas não é razão para renunciar a todas as certezas desse gênero. É preciso ter um certo bom senso. Talvez se pudesse tratar alguns pormenores de regra para isso, mas eu teria que pensar. De momento não me ocorreria.

Então, vamos dizer, por exemplo, o seguinte: o quiabo. A forma do quiabo me desagrada, o tamanhinho do quiabo me parece vil, aquilo cortado forma vagamente uma elipse com duas plantas, não sei como descrever aquela figura, todos sabem como é o quiabo. Mas ele tem assim umas ranhuras pequenas e leves e um verde feio. Me dá impressão de uma taturana vegetal, me dá nojo.

Aquela gosma do quiabo me enche de nojo. Aqueles carocinhos brancos que tem dentro, eu sei que é semente, é símbolo da fecundidade, para dar mais quiabos je n’ai assez! Noto que estou falando com muita truculência, mas com essas impressões visuais e gustativas se erigem em símbolo de todas as formas de covardia e moleza de alma, de ambigüidade e de equívoco, portanto, de coisas repulsivas.

Eu tenho certeza de que mamãe não sentia isso assim. E não tenho a menor razão para desconfiar que houvesse uma coisa má nisso. É que eu noto que meu gosto foi muito formado nos horizontes europeus e plutôt alemães da “fräulein”. E que a “fräulein” nunca promoveu aipim, mandioca essas coisas todas, nunca promoveu. E os pratos que eu via, pratos ideais, eram, por exemplo, em Juca e Chico, edições alemãs do Max und Moritz, com pratos, com coisas completamente diferentes de toda estética culinária brasileira. E que isto me falou a fundo.

Bom, o resultado é que entra uma joça, como mandioca, na mesa, que não parece com nada de bonito dos modelos europeus, depois eu tenho um certo nó com mandioca porque é raiz e me dá impressão de que raiz é uma coisa suja, não é feita para comer… eu sei que batata é raiz, cenoura é raiz, gosto de batata, gosto de cenoura, mas me fica essas impressão. Então, tudo isso…

(Dr. Edwaldo Marques: Mandioca é uma raiz suja.)

Ah! Bom, mas a batata sai da terra bem suja.

(Dr. Edwaldo Marques: Mas não como a mandioca.)

Depois a mandioca tem o seguinte: é que ela, como a consistência dela é como não deveria ser, e como verdadeiramente é um pouco anômalo comer raiz, não é regra geral da natureza, não é ilegítimo, mas é um pouco anômalo comer raiz, você tira daí a conseqüência que aquele esquisito que tem lá dentro, é porque é raiz.

Agora, pode ser que um de vocês que esteja me ouvindo perceba que é meio condescendente a essas coisas por moleza. E aí deve tomar um certo cuidado. Mas, desde que perceba que não é, que, vamos dizer, o contexto culinário do respectivo Estado, da respectiva cidade, do respectivo país é um contexto culinário diferente, que todos os modelos culinários são outros, eu compreendo que se faça de outra maneira.

(Dr. Edwaldo Marques: O senhor disse que era influência da “Fräulein” mas aí entra uma espiritualidade nova também. Porque a ênfase que se dá em histórias “heresia branca” de santos, era exatamente o contrário, que comiam qualquer coisa, as piores coisas, passavam… uma série de coisas. E o modo do senhor é novo, diferente.)

Isso é verdade, mas isso está relacionado com nossa missão face à sociedade temporal. Quer dizer, nós temos orientação… temos a missão de servirmos de uma espécie de alça, de fivela, ligando a sociedade temporal, subordinadamente ligando a sociedade espiritual. E, portanto, devemos fazer com que o gosto comum, a vida comum da sociedade temporal que não pratica a perfeição dos conselhos evangélicos na perfeita renúncia da coisas, mas vai, deve dar toda virtude que Deus espera dela no uso das coisas da Terra, que nós então orientemos esse uso. Aí é a missão civilizadora da TFP.

Por exemplo, vamos dizer: você poderá ter ouvido falar da missão civilizadora dos beneditinos. Vocês não terão ouvido falar propriamente da missão civilizadora de outras ordens religiosas, por exemplo, dos jesuítas. Os jesuítas têm uma missão cultural muito grande. Mas é cultural, é um elemento, um elemento importantíssimo, uma flor maravilhosa da civilização, mas ela não é civilização. Se quiserem, debaixo de outro prisma, a cultura é uma raiz da civilização, mas ela não é civilização. Ela é mais vasta, ela é mais encorpada, ela é mais concreta do que a mera cultura.

Bem, os jesuítas, vocês dirão: mas fizeram ações civilizadoras magníficas lá com os índios do Paraguai. Eu de bom grado reconheço e glorifico, mas não há nenhum índice que dali aparecesse uma grande civilização. Há índios culturalizados, sim. Mas uma grande civilização não.

São Francisco, a ordem franciscana fez coisas pela cultura muito apreciáveis, mas uma civilização franciscana não dá para imaginar. Os beneditinos sim, eles são plasmadores de uma civilização e de uma ordem temporal junto com uma ordem espiritual. E nesse ponto nós estamos na linha deles, como em muitos outros pontos.

(Dr. Edwaldo Marques: Não chegaram onde o senhor chega, nem de longe.)

Não. Quer dizer, é preciso ir devagar. Eles não, mas a irradiação deles, o impulso deles, o alento, o bafejo deles caminhava nessa direção. Mas foi cortado, isso é fora de dúvida. É uma pena, etc., etc., etc.

Por exemplo, os jesuítas, durante algum tempo o Mont Saint-Michel esteve nas mãos deles. Eles não encontraram nada de melhor que fazer do que colocar uma fachada barroca na Igreja do Mont Saint-Michel. E essa fachada se conserva até hoje. Eu não chamo isso de civilização.

Agora, vão ver aqui em Embu, a Igrejinha que os jesuítas deixaram, que é um mimo, em Embu, se aquilo estivesse ao meu alcance, eu ia muitas vezes ver. É verdade que é para mim ou são para mim de especial atração as águias bicéfalas dos Filipões, que estão no alto dos altares. Eu me derramo vendo aquilo. Mas enfim, seja como for e mexam por onde mexerem, aquilo é para o índio um pouco o que é o barroco para a Igreja Saint-Michel, uma realidade que é de um jeito na qual eles põe uma fachada barroca. O modo de fazer beneditino não é esse. O mesmo se podia dizer dos dominicanos e quantos outros.

(Sr. Guerreiro Dantas: Como fazer para tocar o cerne mais íntimo das almas para que possam receber essas influência do senhor?)…

(…)

Todos foram educados com esse pressuposto. Hoje até vi uma citação que alguém me mandou numa ficha, muito interessante, de um padre que dizia que Kant é o egoísmo filosofado. Todos receberam uma educação “Kantista” que é a seguinte: eu sou um ser fechado em mim. Quer dizer, eu tenho minhas vantagens, meu destino pessoal, meus interesses, minhas conveniências, minhas inconveniências, e ninguém, mas absolutamente ninguém me quer tanto quanto eu me quero, ninguém cuida tão autenticamente de mim quanto eu me cuido, ninguém sofre tanto as repercussões do que eu faça de mal nem ninguém se alegra tanto com as repercussões do que eu faça de bom ou que outros me façam de mal ou de bom do que eu mesmo. Logo, eu só tenho um aliado, e esse aliado sou eu!

Eu me lembro disso na minha mente, disputando terreno na minha mente com outras posições e outras posições, outras coisas que eu conhecia.

Depois, isso trás uma espécie de volúpia, porque trás uma impressão de “sereis como pequenos deuses” que se bastam a si mesmos, que não precisam de ninguém, e que ganham a batalha da vida por esta forma. E que, por causa disso, no fundo, não querem a ninguém, a não ser por fantasia, por imaginação, por sensualidade, determinadas pessoas que servem a ela de brincadeira. É mais ou menos como uma senhora egoísta que tem um gato angorá, e ela se distrai com o angorá. Então, ela diz: -“Eu quero muito bem meu angorá”. Ela não quer bem o angorá. O angorá produz nela certos efeitos que ela cultiva. Ela se quer bem a si própria. É um circuito fechado.

Agora, daí decorre: não posso confiar em ninguém. A garantia é desconfiar de tudo e de todos em todas as horas. Sobretudo, eu devo desconfiar das idéias dos outros e das influências dos outros. Porque me diminui, o próprio de minha grandeza é ter minhas idéias e minha… e ser autocéfalo, como a igreja sismática, ser dono de minha própria cabeça, e ser dono de tudo quanto me acontece, eu tenho o volante de minha vida em minhas mãos. Conselheiros, para quê? Cuidado! O conselho pode ser bom. De repente entra um veneno. Pelo menos entra uma incompreensão, porque na minha sublimidade ninguém nunca me entendeu. E, portanto, só eu que sei o que me convém.

Vocês não recolheram ecos disso? Mais ainda: ser homem é isso. Exatamente o que caracteriza a debilidade da mulher, é que ela não é auto-suficiente e o homem tem que ser suficiente por ela. E uma das atrações do homem pela mulher é exatamente ser suficiente por ela, e das abundâncias de sua personalidade proteger e tutelar uma outra, mas isso aí é para estender seus impérios, é o egoísmo de um conquistador que conquista mais uma cidade ou mais uma província. Não é o amor de alguém. Não é amor.

Depois idéias de dignidade. A pessoa se sente, de um lado, tão miserável que meio inconfessadamente julga inacessível para ela esse caminho para o qual eu convido. E meio megamente se julga superior a qualquer convite que [ninguém?] [alguém] lhe faça, porque ela é um pergaminho dentro do qual está escrito seu próprio futuro. Depende dela desenrolar nos anos de sua vida. Há pelo menos esses preconceitos.

O Sarney fez os “dez mandamentos da Reforma Agrária”, eu poderia talvez, se me esforçasse mais, os “dez mandamentos do egoísmo”. Nós estamos cheios disso. Mas cheios. Bem, nos fazem felizes desde logo.

Mas, de imediato, para sua pergunta, o resultado é que, por causa de concessões a isso, o que vocês têm de vencer de barreiras para se abrir como esses “enjolras”, é uma coisa colossal.

Vocês dirão: - “Mas nem tudo é ruim, uma vez que é uma coisa que nos defende contra o liberalismo… contra o… [faltam palavras] …”

Não. Vamos devagar com isso. Nem tudo é ruim. É verdade que a coisa não é ruim inteira, mas para uma coisa ser ruim não é preciso que ela seja ruim inteira. Basta ter certo defeito que ela inteira não presta. Vamos dizer, por exemplo, o sujeito está com câncer localizado no organismo, em tal ponto tem um câncer. Está bom. No resto ele é muito saudável. Quer dizer, a pessoa inteira está escangalhada, não adianta vir com saudável, não saudável, babá, babá, está escangalhada.

Assim é a alma, quando tem certos defeitos, ela pode ser muito saudável por vários lados, mas tem aqueles defeitos que a escangalham. E, portanto, dizer algo de bom, o mal absoluto não existe, isto é ruim, está acabado.

Agora, acresce que então — vamos estudar as coisas — nós temos preconceitos contra isso, mas nós temos também lances em que o perfume de uma determinada flor pode ser mais sensível a nós, e em outros lances em que é menos sensível, por mutações de que não sejam culpa nossa nem da flor. Pode ser por culpa da flor. Pode ser por culpa nossa, mas há variedades. E se a gente se entrega nessa situação, há uma coisa que é triste, mas, ou a pessoa começa a ficar indiferente e “ensabuga” — já temos falado tanto de “sabugo” e não temos que tratar mais disso — ou não é propriamente indiferença que se dá, mas o contrário, é hipersensibilidade pela qual a pessoa fica hipersensível por qualquer coisa que venha de minha parte. E um pequeno engano ou um pequeno defeito em alguma coisa que eu diga, a pessoa é capaz de, quando estiver sozinha, revolver uma biblioteca de dicionários para ver se encontra qual é o defeito que tinha naquilo. Explica e depois diz para os outros. É uma coisa que está na fraqueza humana, eu posso ignorar uma coisa, posso, enfim, tanta coisa pode explicar isso. Não! A pessoa revolve um colosso de dicionários para provar que aquilo não é assim.

Então acontece que as nossas posições não são dos “enjolras”. Então eu teria dado volta ao assunto para responder sua pergunta.

(Sr. Gonzalo Larrain: O exemplo dos “enjolras” é bom. Mas o 1º exemplo deve ser o senhor, e o senhor não tem nada do defeito que eles têm também. E, para nós, para entender melhor, como se vê isso no senhor?

Eu vou resumir muito porque eu não…

[Vira a fita]

eram bancos plutôt pobres, perfeitamente decentes, mas que formavam, como em todas as Igrejas, na nave central, dois blocos de bancos unos, homogêneos, de ponta a ponta. E, no meio, aquele corredor vazio para passarem as pessoas, cortejos, etc., etc.

Mas, por uma peculiaridade qualquer que eu não sei bem qual é, era mais difícil atravessar os bancos do Coração de Jesus do que de outras igrejas, quando a gente queria passar de ponta a ponta com gente pelo meio.

E ficou-me — vejam a sensibilidade da coisa — ficou-me uma idéia subconsciente de que isso era natural e bom, porque essas coisas envolvem um certo sofrimento que é representado pela coroa de espinhos que está no Sagrado Coração de Jesus. E até certo ponto que o ilumina mas o queima. E que, portanto, era natural que fosse aquilo, que havia um caminho difícil que a gente já notava nos bancos da igreja. E a compreensão de que um fundo de tristeza, e o caminho duro, difícil, era o chão…, fundo de tristeza integrante dessa luz, e o caminho duro e difícil era o chão natural, sobre o qual essa luz devia bater. Era preciso sacrificar-se, era preciso consolá-Lo pelo sacrifício da gente. Não havia outro jeito de estar em ordem com Ele. E tanto mais que éramos nós, em parte, causadores desse sacrifício.

Eu, por essas ou aquelas razões, obrigatoriedade de missa no Colégio São Luís, depois comecei a freqüentar a Igreja de Santa Cecília aos domingos, etc., houve tempo que deixei muito de ir à Igreja do Coração de Jesus. Quando eu reapareci, encontrei os bancos trocados, substituídos por bancos de uma qualidade, madeira muito melhor, mas aquele sulco no meio o mesmo, mas os bancos de ponta a ponta, em cada nave, divididos em dois, de maneira que ficava… o numero de pessoa que se ajoelhava era menor, mas sumamente [mais] fácil entrar e sair do que naqueles bancos pequenos.

Os bancos lustradinhos e alegretes. Eu tive a sensação de como quem cortasse com um arame um vidro e deixasse o vidro sulcado, de tal maneira isso que podia justificar-se por vários aspectos, me parecia refletir o espírito simplificante, comodista e com horror ao sofrimento, próprio ao homem moderno.

Isto bateu na minha alma, eu entendi bem pelas exposições dos padres do Colégio São Luís, que a fonte disso era a Igreja Católica, Apostólica, Romana, que era uma instituição divina, na qual estava Deus, e que isto vinha de Deus. Então, uma adesão inteira, “aqui estou! A verdade é essa, ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida’, é essa!”

Houve a graça de Nossa Senhora Auxiliadora que me fazia pensar assim, depois de ter recebido aquela graça: eu pensava: Nossa Senhora no Céu deve ser mais ou menos como uma Rainha-Mãe na corte onde o rei é o filho. Deve haver uma corte enorme em torno de Jesus Cristo e uma corte bem menor, bem menos brilhante em torno de Nossa Senhora. Eu, portanto, desejando ser cortesão dessa corte d’Ela, dir-se-ia que desejaria um bem menor. Mas eu não sei o que é, na minha alma vai tudo para ser cortesão d’Ela, estar ao serviço d’Ela, estar ligado a Ela. E eu tinha tanta certeza, internamente, que devia ser isso, tanta certeza que eu não tinha dúvida nenhuma do caráter não teológico disso, embora me parecesse que eu estava querendo um bem menor.

Minha idéia era: eu sou tão miserável que, ou eu me agarro na misericórdia d’Ela ou não tem saída para mim. É ali, e portanto, meu negócio é com Ela. Nosso Senhor na majestade d’Ele, enfim, em tudo, tudo, tudo, acaba não me suportando. E eu dou toda razão a Ele. Mas Ela me arranja um jeito.

Eu conheço uma senhora muito jeitosa — e Ela é enormemente mais jeitosa do que essa senhora — e eu vou por aí!

Daí a determinação. E quando eu li São Luiz Maria Grignion de Montfort, eu compreendi que minha metáfora da rainha-mãe estava errada. Ela é a Rainha reinante, o Rei deu todo o reino a Ela, disse a Ela: - “Governe, minha Mãe!”. E o Rei governa por meio d’Ela, de maneira que minha metáfora… não conhecia toda aquela teologia que está em Luiz Maria Grignion de Montfort.

Então, seria a fonte de minha fé, de minhas certezas, etc., etc., etc., decorrente disto. Que eu diria também que é minha inocência.

Eu me lembro que quando comecei a recitar os Salmos, que eu não conhecia antes de ser congregado mariano, e ler o texto da Missa no Ordo, eu li um Salmo assim: “Ego autem in innocentia mea ingressus sum redime me et miserere mei spes meus stetit in directo, in ecclesiis benedicam te; Domine”1. “Eu, entretanto”, há aquele Salmo muito bonito que o padre reza quando lava as mãos: “Lavabo manus meas…”. Em certo momento dizia isso.

Eu pensava: “Lavarei minha mãos entre os inocentes”. São os congregado marianos, os homens de Igreja. Eu deixei o mundo e vim lavar minhas mãos, vim me purificar junto com eles. Depois então: “A mão direita do mundo está cheia de presentes para mim”. “Ego autem in innocentia mea ingressus sum”. “Eu, na minha inocência, ingressei no meio dos bons, no meio dos santos”.

Spes meus stetit in directo”. “Meus pés seguiram o caminho bom”.

In ecclesiis benedicam te; Domine”. “Nas Igrejas todas eu Vos abençoarei Senhor. Redime-me e tende pena de mim”.

Eu recitava esse Salmo com entusiasmo de alma pouco comum! São as minhas certezas.

Bem, meus caros, uma das certezas é que “fugit irreparabili tempus”.

(Sr. Poli: Mas é uma maravilha!)

Olha lá maravilha quem é.

Bem, vamos rezar a Nossa Senhora. “Há momentos minha Mãe em que minha alma…”.

(Sr. Carlos Antunes: A reunião esteve magnífica.)

Ao menos abri minha alma inteiramente. Mas eu disse isso tudo em Amparo, não foi?

(Sr. João Clá: A capacidade de se repetir o senhor não tem.)

Minha má memória.

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1 Salmo 25, 11-12