Conversa de Sábado a
Noite – 5/10/1985 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 5/10/1985 — Sábado [VF032] (Confidencial) (Neimar Demétrio)
Sobre a Constituinte, eu queria dizer rapidamente o seguinte: eu acho que é uma coisa que de tal maneira pode mudar tudo, que eu estou esperando a idéia cair mais na atenção do público, para saber qual é a forma de brassage, de manipulação que eles querem fazer o tema ter junto ao público para eu saber que jogo jogar. E aí, conforme for, minha intenção é de convocar uma reunião de uns dez ou quinze mais antigos, mais graduados para conversarmos, ou convocar aquele público que convocamos para a Sala do Reino de Maria, quando se tratou da questão da Sagrada Escravidão, questão do Orlando Fedelli, etc., etc., que era um público adequado para tomar conhecimento de certas coisas, conforme a natureza das coisas.
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Eu hoje na hora do almoço tratei a respeito de uma questão, a pedido do João, uma questão que entrava episodicamente no assunto, mas que é muito importante, a questão da arquetipização das coisas. Quer dizer, eu dizia que quando eu era pequeno, eu tinha uma — eu acho que é uma coisa própria da inocência — quando eu via uma determinada coisa, eu tinha um conhecimento, uma noção de como deve ser aquilo arquetipizado, como é o arquétipo daquilo. E em função do arquétipo daquilo, eu via mais o arquétipo, julgava mais a coisa pelo valor do arquétipo a que ela tendia do que por ela própria.
E dizia que, mais ou menos tudo, na ordem da natureza e da graça, deve, no espírito humano, tender para esta arquetipização, quer dizer, para fazer aparecer o arquétipo.
Nós podíamos falar longamente disso, que é um tema muito bonito. Eu sou tendente a achar que essa é uma das expressões mais exatas da procura de Deus nas coisas, é a procura do arquétipo que Deus quereria realizar naquilo, e que realizará em determinadas circunstâncias, não realizará se não se derem essas circunstâncias, etc., etc., mas é o plano A de Deus, por onde a coisa é mais semelhante a Deus, in generi próprio, in generi sui, mais semelhante a Deus, é nessa arquetipização.
O espírito voltado a arquetipizar tudo está propriamente na ordem que lhe é adequada. Isso também é curioso, dá muita inteligência, abre muito os horizontes, etc., etc. E falávamos largamente a respeito disso.
Eu falava, exatamente, que a Igreja do Coração de Jesus tem isto, que entra-se lá e se recebe uma graça de arquetipizar e de conceber na sua mais alta expressão um certo espírito que está simbolizado em muitas coisas lá.
Entra-se lá e se é levado a essa visão, a essa consideração arquétipa, que não é uma visão no sentido visão, “apareceu-me fulano” — aliás, nunca ninguém me apareceu — mas é uma coisa diferente.
Acontece que o que vocês contam de hoje à tarde — cerimônia dos camaldulenses após a Reunião de Recortes — há duas coisas que são opostas aqui: existe a arquetipização, e isso é ação de uma graça, mas há também uma subtipificação, uma destipificação, por onde a gente é sujeito a uma ação do demônio, onde a gente não vê a pessoa senão o que essa pessoa habitualmente tem. Mas então muitos são levados a não ver nele aquilo que hoje se arquetipizou aos olhos de vocês, são levados a ver aquilo que parece, o cotidiano, são levados a ver só o cotidiano. E obstrui a vista para ver a semente. Essa que é a coisa delicada. E forma um jogo interior muitíssimo bonito.
(Sr. Gonzalo Larrain: Tanto nele quanto em nós, o jogo interior.)
Quanto em vocês e quanto em mim.
(Sr. Gonzalo Larrain: No senhor não.)
No sentido de que eu dou a ele essa sustentação.
(Sr. Gonzalo Larrain: Sim, mas o senhor não é culpável de que não se veja isso nele.)
Pelo contrário, eu faço todo o possível para arquetipizá-lo. Vejo bem... muitas vezes ouço libelos contra ele...
(...)
...era a grande invocação de São Luiz Grignion. O “cor” é o coração. Então devoção ao Coração de Jesus, ao Imaculado Coração de Maria, tem por objeto aquela parte do corpo d’Eles. Mas é um símbolo aquela parte, é o símbolo da vontade, do animus do homem, do rumo que o homem dá à sua vida, etc., etc., da virtude do homem.
Nossa Senhora é Rainha dos Corações para fazer maravilhas destas. Querem uma prova? Se a pessoa que vocês viram não tivesse se consagrado a São Luiz Grignion de Montfort, ela não seria utilizada pela Providência para dar a vocês a graça que deu.
É uma graça para levá-los a compreender o que eu dizia hoje cedo durante o almoço, e que é o seguinte: quem não tem essa tendência para a arquetipização... não. Eu dizia ao João na volta de automóvel à tarde: quem não tem essa tendência, não é capaz de compreender tão bem a realidade e tão bem o existir do homem sobre a Terra, que compreenda que vive para servir isto e não para pequenas utilidade e vantagens e porcarias que não valem de nada.
Quer dizer, esse é o prato de lentilhas. A grande coisa é a gente viver no meio de arquétipos, etc., etc., e a procura da vitória deles. Ou seja, do Reino de Nossa Senhora.
(Sr. João Clá: O senhor vê em cada um de nós isso e nos trata por esse lado.)
A cada um de vocês eu trato como se fosse o próprio arquétipo, o seu próprio arquétipo. Não trato de outro modo. De tal maneira que eu vejo para alguns é difícil explicar para si próprio esse trato, mas é que eu estou tratando com o arquétipo. E é minha obrigação. Eu não posso fazer de outra maneira, porque quem me foi confiado é o arquétipo. Aquilo é um projeto a quem eu quero, etc., etc., mas rumo ao arquétipo.
E digo mais, eu acho essa graça uma graça característica de tempo de Bagarre que se aproxima. Porque é uma graça inteiramente inusual dentro do Grupo, assim como aconteceu com vocês, com essas características é inteiramente inusual e é uma graça que de si, se ela permanecer, se ela se repetir, etc., lhes dá um apelo para uma renúncia a si próprios que pode restaurar em vocês o que vocês cerraram na raiz da árvore, primeiro por falta de inocência e depois por uma correspondência incompleta ao thau.
Não me levem a mal de falar com tanta franqueza, mas é isso. Quer dizer, é uma coisa que os prepara para a Bagarre. Preparação para a Bagarre é isso.
Agora, o que teve isso de diferença, por exemplo, de graças torrenciais, caudalosas, etc., etc., que a gente vê que Nossa Senhora dá ao São Bento, dá ao Praesto Sum, etc., etc., o que isso tem de diferente?
É que a marca da produção sobrenatural fica muito mais clara, porque com o São Bento e Praesto Sum, o João prepara, fala, o que ele diz influencia muito, etc., etc., e por um jogo natural de circunstâncias a gente vê onde é que chega. Eu vejo bem que tem de sobrenatural aos borbotões, mas que circula na economia comum da graça. Vocês, uma coisa dessas não tiveram, em relação a essa pessoa nunca. Puderam ter tido pequenos reluzimentos.
(Sr. Gonzalo Larrain: Assim não.)
Assim não. Não houve nenhum fato de ordem natural que preparasse para ver. Tanto é que vocês vão ver essa pessoa de novo, vão perceber o que havia de sobrenatural no que vocês viram hoje, porque essa pessoa, normalmente, não tem esse reluzimento. Posto no hábito, eu vi inúmeras vezes, não tem. Mas é um projeto da Providência que ela quis fazer ver a vocês na semente. E isto é uma produção sobrenatural. É mais ou menos como a profecia.
Quer dizer, preparem-se porque a grandeza da causa para a qual vocês estão sendo convocados por uma vocação profética é essa. Saibam de um modo sobrenatural marcado que, o para o que ele conclama, é assim!
Depois, outra coisa: eu tenho certeza de que vocês não estavam fazendo reflexões sobre isso quando tiveram isso.
Vocês conhecem aquela história contada mil vezes, de uma visita do Carlos, do Marcelo Pereira de Almeida e eu ao São Bento. O que houve? Foi um reluzimento assim. É impossível que você não se lembre com saudades daquilo. Sem fim!
(Sr. Carlos Antunes: Me lembro com saudades do senhor olhando o São Bento.)
Todos juntos, fomos juntos.
(Sr. Carlos Antunes: Foi o senhor, mostrando aquele ícone na entrada, o senhor mostrando a seriedade das imagens, o senhor fazendo a descrição.)
Capela do Santíssimo, crucifixo colonial, um lindo crucifixo.
(Sr. Carlos Antunes: Foi um "flash" com o senhor.)
O que se passou comigo lá dentro, eu pensei que estivesse passando com vocês a mesma coisa.
(Sr. Carlos Antunes: Com relação ao senhor.)
É, isso eu não percebi.
(Sr. Carlos Antunes: Voltei uma vez sozinho. A coisa era ver o senhor falando de valores da Igreja, da grandeza da Igreja.)
Da Igreja Católica.
(Sr. Carlos Antunes: Claro. O senhor arquetipizava o São Bento, a Igreja de São Bento.)
Isso é certo.
(Sr. Carlos Antunes: Era o senhor.)
Estou pasmo, porque não percebi isto nem de longe! Gosto de saber, fico muito agradecido a Nossa Senhora, é mais uma manifestação da bondade materna d’Ela, etc., mas nunca me passou pela cabeça que fosse isso. Nunca conversei com o Marcelo sobre isso.
(Sr. Carlos Antunes: O senhor arquetipizava de tal maneira que a gente saía amando Nosso Senhor, Nossa Senhora, incomparavelmente mais.)...
(...)
...É a parte dos tempos modernos que ainda lembra um pouco a Idade Média. Então, está sobre um gisant medievaloso, está vestido de tempos modernos, e em torno dele estão de pé — parece-me que tudo de tamanho natural — todos os filhos e filhas dele, considerando o gisant, e que se não me engano ele está deitado com a esposa dele.
Isso está numa capela, e é uma obra de escultura do outro mundo, uma coisa famosa.
O Atila disse que conseguiu ver um pouco a Igreja em seu conjunto e notou, no coro da Igreja — eu entendo por coro o que canta atrás, mas na Europa se entende o presbitério, de maneira que eu não sei o que ele entendeu quando disse — mas ele chamou isso de coro, colocadas assim umas estatuazinhas pequenas, uma série de figuras. Ele perguntou então ao homem que estava querendo fechar a Igreja:
— O que são esses aí?
— Ah! Isso são imagens dos quarenta santos da Casa d’Áustria.
(Todos: Nossa Senhora!!!)
Quarenta santos da Casa d’Áustria.
Antes de ir fazer reunião no Auditório São Miguel, eu estava deitado e tinha diante de mim o “Point de Vue” e vi a carinha sumamente miúda de alma, etc., ultra-aristocrática, mas o aristocrático que eu amo menos é isso. Amo, mas amo menos, esse lado fino, que toca vagamente no bilontra... vocês vêem bem que não gosto do bilontra... desse arquiduque que casou com uma sobrinha do Rei Balduíno da Bélgica, filho daquela italiana Paula e do Alberto, se não me engano. Tiveram uma filha e casou-se com esse. Então é Lourenço de Áustria Este.
Bem, de ver um arquiduque, colhido da poeira em que jaz, e elevado à condição de príncipe de casa reinante — porque ele é sobrinho do rei, etc., etc. — e de ver naquela projeção, naquela revista impresso um nome Áustria Este, eu tive uma rejubilação.
Mas o que é? É um pouco do carisma da Casa d’Áustria que eu discerni. É minha missão discernir, eu discerni. E que me enche de júbilo. Áustria Este, é todo aquele norte da Itália, Lombardia, Toscana, etc., com tudo quanto tem dos trigais da Itália, das obras de arte, do Rio Pó, Veneza, daquilo tudo, enquanto governado pelos Habsburgs, é uma coisa fabulosa! É um conto de fada.
E eu visitei aquilo tudo com o coração morrendo de saudades dos Áustrias, porque é como aquilo tudo tem sua perspectiva. Como, aliás, na Espanha também, a Espanha até hoje chora por não ter os Áustrias.
O que é que são os Áustrias?
(Sr. Carlos Antunes: Basta ver que uma está casada com Hector Riesle.)
É, não precisa dizer mais nada, mais nada! Outra casou — “Point de Vue” dava a fotografia, dava a coisa — com um barãozinho. E dava o baileco na casa do barãozinho na Bélgica: barão de Perke, casa com uma arquiduquesa d’Áustria.
O que é? É uma coisa que a Providência quer realizar, realizou em boa medida e quererá ainda realizar.
Os quarenta santos da Casa d’Áustria, o que é isso?!
(Sr. Carlos Antunes: Hoje em dia qualquer realização da Casa d’Áustria não seria possível sem uma relação direta com o profeta de Nossa Senhora.)
Ah! Estou certo disso.
(Sr. Carlos Antunes: Depois uma relação...)
(...)
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