Conversa
de Sábado a Noite – 28/9/1985 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 28/9/1985 — Sábado (Neimar Demétrio)
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Há casos em que família é obrigada a vender um tapete desses, e fica assim a sala. Isso deve dar um…
(Sr. João Clá: Gasta e não pode renovar.)
Quando gasta e não pode renovar, é pior do que tudo. Não sei se ter que vender não é pior. É uma coisa… mas acontece.
Sabe o que é pungente? É quando o sujeito tem, por exemplo, um filho estróina e, para pagar as dividas do filho, os pais têm que ir desguarnecendo o salão. Pagar os pecados do filho e o filho não liga!
(Dr. Edwaldo Marques: Fato pungente que o senhor contou foi daquela nobre russa que perdeu tudo o que tinha. Um serviço de chá muito bonito que ela tinha, uma amiga dela comprou dos comunistas e depois a convidou para tomar chá no serviço que tinha sido dela.)
Uma coisa horrível! E ela pensava que a amiga ia dar o serviço para ela. Não deu nem sequer uma xícara para ela levar. Isso é um capitulo que se levaria até de manhã cedo para se entrar no proêmio, é [a] sovineira e os efeitos da sovineira. Porque, uma mulher dessas nunca pensou na vida em ter aquilo, tem, objeto roubado. Chama a outra para ver e depois não dá nem isto?! É uma coisa de esbofetear.
(Sr. João Clá: O senhor poderia retomar o tema da integridade? Integridade do senhor. Também a questão das correlações todas que o senhor fazia na infância, como também a ordem temporal vista pelo senhor. Como essa visão pode trazer o Grand-Retour, etc.)
Preciso pôr em ordem uma coisa: o que eu disse, portanto, foi o seguinte: se, ou discernissem isso em mim ou — e seria uma coisa melhor — além de discernirem em mim lembrassem em si os traços que tiveram, inclusive também para ajudar o discernimento em mim, se discernissem isso e compreendessem esse papel, etc., etc., isso daria uma possibilidade de Grand-Retour, abriria provavelmente.
A questão é que o Grand Retour é uma graça. Isso não se reduz, portanto, a um jogo psicológico. Era preciso a graça querer. Eu disse, portanto, que havia condições para o Grand Retour. A palavra “condições” aqui é muito importante. Eu não disse que automaticamente traria o Grand-Retour, porque o Grand-Retour é uma graça. É preciso Nossa Senhora ter obtido isso do Divino Espírito Santo e a graça vir. Mas isto cria condições, quer dizer, é muito propício a isso. Mais ou menos como uma catedral gótica bonita, autêntica, teria condições para a graça agir. Assim isso pode criar condições.
Agora, para que era é o seguinte: essa consideração meio metafísica e, creio que, com graças sobrenaturais também para ver determinadas coisas, se juntavam em meu espírito da seguinte maneira: mas é uma coisa que preludiava, sem eu perceber nem de longe, nem eu tinha idéia, preludiava os Ambientes Costumes.
Eu já dei exemplos da outra vez, mas está me ocorrendo aqui esse tio que tinha a tal bolinha que eu falei. Ele tinha um mostruário com uma porção de objetos da Europa. Tinha também, fora do mostruário dele, uma concha grande de louça, mas assim toda revestida de uma espécie de nácar por dentro. Por fora era comum, feia, como são essas conchas. Nela tinha aparecendo uma pérola que estava se formando. E uma pérola de tamanho regular. Não era de tamanho espetacular, mas uma pérola de tamanho regular. De maneira que o objeto em si era mais uma curiosidade do que uma preciosidade. Mas como uma curiosidade era bem uma curiosidade.
E as pessoas todas achavam interessante ver a pérola se formando. Mas eu não achava interessante ver a pérola se formando. Eu achava interessante ver o nácar refletindo lá, naquela concha, o nácar se refletindo. Aquilo que eu achava interessante.
Que efeito produzia em mim?
É que quando a luz dentro da sala dele incidia de um certo modo, eu às vezes conseguia brincar furtivamente com aquilo, incidia de um certo modo ali, naquele jogo — muito discreto, aliás — de cores, eu percebia uma inter-relação entre cores bonitas e cheias de luz com algo que me parecia fazer sentir uma afinidade de certas almas, das próprias qualidades em si de certas almas. E relações de afinidade de umas boas com as outras que me parecia fazer sentir.
Bem entendido, vocês já estão vendo, antes de tudo mamãe. Me parecia que mamãe tinha isso dentro de si, antes de qualquer coisa. Mas, também, por causa dos costumes daquele tempo… vocês precisam notar que isso era em que tempo, isto era, vamos dizer, no fim da 1ª Guerra Mundial, no entre deux guerres, época muito diferente de hoje. No trato que as pessoas tinham entre si eram tratos muito impregnados — as pessoas faziam isso muito laicamente já — mas muito impregnados de estado de alma que tinham sido católicos, donde havia um certo prolongamento da influência católica [que] ali existia. E era um traço de alma que criava relações bonitas.
Essas relações me pareciam ter, algumas delas, uma certa relação com esse nácar.
Não sei se descrevo bem como seria isso. Mas vamos dizer, por exemplo, dois senhores de boa categoria que há algum tempinho não se tivessem visto, e que se encontravam na rua, podiam saudar-se com um misto de respeito, mas também de respeito a si mesmo, e respeito ao outro, mas de uma benevolência de respeitar verdadeiramente o outro, um com uma verdadeira alegria de ver as qualidades do outro arquetipicamente que, sobretudo quando as relações eram iguais, me dava essa impressão desta inter-relação, esta homenagem que dois iguais se prestavam, me parecia muito bonita.
Mas é preciso notar que era num tempo em que os homens eram ainda muito pouco cinematográficos. Então usavam bengala, em geral bengalas muito bonitas, usavam bigode, às vezes ainda andavam com a luva na mão, usavam chapéu côco, quer dizer, uma série de coisas que o vento levou.
Mas nesses dias, em certas ocasiões, eu via uma coisa que se apresentava, e que era… que tinha alguma relação com isso, relação, portanto, de ordem psicológica, uma coisa metafísica salpicada de sobrenatural, que é o pulchrum moral que aquele nácar representa in abstracto. Depois uma aplicação para estas, aquelas, aquelas outras situações. De um modo geral um pouco disso reluzia em todas as relações das famílias das pessoas de categoria boa em São Paulo. Não precisava ser píncaro, mas de uma categoria boa. De maneira que [a] vida social tinha muitos aspectos assim ainda. E isto para mim era, portanto, antes de tudo, uma beleza sobrenatural, na ordem dos valores, mas que eu não sabia que era sobrenatural, eu sentia, metafísica, moral, psicologia, social.
A expressão dos objetos de decoração em volta era curiosa, porque em parte eles realçavam a compreensão dessa relação entre eles. Uma cadeira e uma… duas cadeiras de um terno podiam ter relações entre si estáticas, mudas e eternas, quer dizer, que não teriam fim, poderiam ter relações assim entre si como duas pessoas que estivessem sentadas nessas cadeiras conversando com a distinção e a elevação de alma que a cadeira pede. De maneira que os móveis repetiam a sociedade humana, e a decoração de uma sala ou de uma casa inteira podia repetir o estado da família. E, oficialmente, as familias tinham alguma coisa disso. Na realidade não tinham, tinham pouco. Mas oficialmente tinham mais do que isso.
Alguém dirá: hipocrisia, hipocrisia.
Não sei que francês disse que a hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude. Está muito finamente observado, muito finamente observado. Então eu digo: está bem, seja assim, mas era isso.
Agora, no Reino de Maria eu suponho que precisamente isso se dê, seja uma atmosfera impregnada, por assim dizer, de modo todo especial, de graças do Divino Espírito Santo, então graça-graça, no sentido de um compêndio de Teologia: “participação criada na vida incriada de Deus”, que se faz sentir, mas depois que modelou tudo isso. E com tanta energia que… eu estava falando da decoração, ia me esquecendo de dizer uma coisa. Também é verdade que as pessoas que freqüentavam determinado ambiente, deixavam não sei que marca imponderável no ambiente. Os móveis…. elas se refletiam nos móveis, como os móveis as refletiam.
Casas, por exemplo, a arquitetura da casa tinha isto. É uma coisa muito harmônica em que a mesma luz celeste “pervade” toda ordem temporal, enquanto ordem temporal católica.
Se alguém que não é daqui ouvir essa fita, vai estranhar, mas eu bato o pé. Salvo se a doutrina católica ensinar o contrário, exceto isso, eu não desisto de minha idéia, é a seguinte: como o próprio da vida temporal é ter isto, quer dizer, é como ela fica bela, iluminada assim pelo sobrenatural, pelo metafísico, pelo psicológico, e que se pode imaginar toda matéria orientada como uma concha para receber isto, refletir, como isto é assim, faz parte da ordem temporal, não é não ter ascese, mas ter uma ascese que é inteiramente diferente daquilo que habitualmente se pratica quando se tem os estados de perfeição.
Então, por exemplo, obediência. A verdadeira vida social de uma pessoa, sobretudo quando a pessoa é de uma camada social mais educada, quanto mais a educação é alta, mais a camada é alta, mais isso vai sendo feito assim, a vida social da pessoa é um continuo ato de obediência. Por exemplo, receber uma senhora, uma senhora que recebe seus convidados num castelo da Escócia durante o verão, com aqueles candeeiros de esmeraldas, aquelas coisas todas, durante o verão.
A gente imagina, como no tempo da Becassine, uma criadagem enorme, toda estiladíssima, que faz todo o serviço. A dona de casa anda pelo meio de seu castelo como se ela fosse hospede no castelo, conversa com todas, etc., etc., inteiramente como uma hospede, de tal maneira que se ela conhecer seu metier, as outras esquecem que ela é dona da casa, para que as outras se sintam donas, se sintam à vontade.
Mas, na realidade ninguém tem, nem mesmo num castelo da Escócia, ninguém tem os empregados robôs que fazem exatamente o que mandou; é preciso ter olho atentíssimo, estar à procura… saber de tudo, se tal coisa chegou, se tal coisa se fez, tatá, tatá. Tem uma governante de casa para isso, pode até ter duas, uma para cada andar, se for castelo só de dois andares. Precisa chamar e perguntar, precisa fiscalizar, precisa ter o olho em tudo, e não pode deixar nem um pouco — é a performance da dona de casa — é não deixar nem um pouco formar-se entre os hóspedes do castelo um poço qualquer de tédio, de um grupo de hóspedes que não estejam contentes e que, por causa disso, começam fazer na diversão do castelo o papel que o “sabugo” faz no Grupo.
Porque, se fizer, aquilo começa a infeccionar a história , e as pessoas que estiveram no castelo, chegando a Edimburgo, a Londres, onde for, vão dar um jornal falado negativo daquilo.
O entusiasmo vem da dona de casa ter sabido evitar a “formação” desses poços de “sabugos” no castelo, que sempre aparecem. Inclusive porque tem convidados, ela sempre tem convidados que ela não queria. Por quê? Porque aparece um velho tio, aparece uma prima resmungona, essas coisas, esse mobiliário de família que a gente não pode deixar de ter, e que manda avisar à última hora, e nesses termos: “olha, aquele quarto de dormir, cor citron, de que eu gosto, e você até brinca dizendo que é o meu, eu quero que você me reserve de qualquer jeito”, e aquilo já está prometido para uma pessoa.
Bom, aquilo representa, para levar o último convidado até o baixo da escada, beijar, ir embora, e ele então ficar descansando, aí começam as férias dela, é uma vida de ascese completa! Mas olha aqui; o sujeito fica dependente dos hóspedes como o religioso fica dependente dos superiores. E tem que conduzir isso com superioridade, com suserania, sem se deixar pisar, sem se deixar achatar, é uma obra-prima! Sabem aquela história do circo, do sujeito que anda com uma bengala no alto do nariz, é isso! Só que cada convidado é uma bengala no alto do nariz. Para a coisa ser feita como deve ser feita, é isso!
(Sr. Gonzalo Larrain: Uma noção de virtude muito diferente da clássica.)
Desde que não seja feita por ambição, por mundanismo, etc., etc., mas seja feita por amor de Deus, é ascese.
(Sr. Gonzalo Larrain: O senhor é assim.)
Ao menos devo ser. De maneira tal que durante todo o tempo só uma pessoa não descansou, só uma pessoa não se divertiu, só uma pessoa foi o bode expiatório de tudo! O dono e dona da casa. E ao mesmo tempo tem que ser o que faz a alegria, o que conta os casos, anima, pergunta para alguém uma coisa, faz outro dizer não sei o quê, etc., etc., etc., e com ar de quem está num clube se divertindo.
Então, vejam agora os equívocos. Esses equívocos, no Reino de Maria, eu gostaria de desfazer.
Entre parêntesis, me passou pela cabeça agora, conto entre parêntesis: Santa Teresa de Jesus conta que ela teve que ir passar uma temporada num castelo de uma duquesa de Lacerda, mas não é Lacerda como escrevemos aqui, um nome só, não, é: De La Cerda. Olhe que Santa Teresa era da pequena nobreza, não era uma qualquer. A tal duquesa devia ser uma Grande de Espanha.
Tinha lá gente da corte, gente daquela província, gente importante de toda ordem lá, mas que cada um tinha um tratamento. Uma era senhora ilustríssima, outra era excelência, outra era alteza sereníssima, outra era alteza real, outra era alteza imperial, e ia daí para fora indefinidamente. Depois, o modo de fazer reverência para cada um era diferente. Ela não estava habituada àquilo, saiu com a cabeça estourando de lá.
Bem, indica a ascese que ela teve que fazer para se pôr naquilo. E eu tenho certeza de que ali, como era ela quem era, ela fazia todas essas coisas com espírito sobrenatural, e que ela pôs atos muito agradáveis a Deus e a Nossa Senhora. É uma coisa evidente, da primeira evidência.
Mas, por que é que uma dona de casa com espírito sobrenatural não pode fazer isso assim?
Aqui então o equívoco. Vem então um castelo, de qualquer uma dessas duquesas, ou um castelo do Loire, o que queiram, um castelo todo bem arranjado, etc., etc. Um diretor espiritual convencional convida para uma reflexão: “O que são essas coisas todas? Tudo isso vai acabar. Quando o mundo terminar, tudo isso vai ser devorado por um incêndio. Isso aí é um lugar de delícias. Portanto, esse lugar aqui não deveria ser”.
Exceto a conclusão que é falsa, as coisas anteriores são verdadeiras. E é preciso ver também isto na casa. Mas isto não é aspecto preponderante, nem o mais profundo. Para quem vai levar a vida religiosa e deve renunciar a isso, deve ver como eu estou dizendo, como esse diretor clássico diria. Um São Francisco de Assis deveria ver isso, um Santo Inácio. Mas alguém que está chamado a viver na vida temporal deve saber viver no maior conforto, no maior luxo com a mais inteira ascese.
E, digo mais, aqui entra a escola dos pequenos sacrifícios de Santa Teresinha. Não precisa se flagelar. Basta fazer estas coisas com espírito sobrenatural, que servem inteiramente a Deus.
Bom, vocês não acham que a formação religiosa que vocês todos iam ter, normalmente se não entrassem para a TFP, seria gravemente errada a esse respeito?
(Sim.)
Então, por exemplo, vocês têm idéia, em Versailles, quantos atos de ascese aquilo exigia que se fizesse? É uma delicia Versailles, está bom, mas para entrar e fazer como o Saint Simon conta de uma senhora que conversava com uma roda de nove pessoas, não me lembro, se aproximou da roda de nove pessoas de condições diferentes, e diante dela fez, numa só reverência, olhou para cada pessoa com um olhar tal que a reverência mudava de aspecto. E deu a cada um exatamente a medida de respeito que devia ter, é ascese.
(Sr. Carlos Antúnez: Isso vemos continuamente na Sede do Reino de Maria ou aqui mesmo no 1º Andar. É isso.)
Meu desejo seria esse.
Mas é ascese. Isso que eu queria dizer. E o Reino de Maria seria ascético. Mas sem escrúpulos, viveria uma vida temporal boa, bela, digna. Esse é o ponto. Mas, mais ainda, em que essas coisas belas desempenhassem o papel que elas têm para o plano de Deus na História. O plano de Deus na História é a salvação das almas. Se isso tudo fosse visto nessa escala que eu falei até o sobrenatural, Deus estaria servido e a ordem temporal teria prestado à Igreja a colaboração que ela deveria prestar. Ela seria aí uma concha de salvação das almas e não de perdição.
Agora, querem ver a coisa de outro lado? Esse miserabilísmo que está chegando aqui, Igreja tipo barraca, essas coisas todas não fazem outra coisa senão explorar em muitas almas uma espécie de complexo de culpa pela largueza de que gozam, pelo luxo e pelo esplendor de que estão cercados. E exploram aquilo assim: “Olha que seria muito mais bonito se você renunciasse a isso tudo, isso tornaria mais fácil a prática da virtude, porque evita os apegos, porque não sei o que, não sei o que”. No fundo a idéia é: deveriam viver como frades.
Minha resposta é: eu estou em vias de fazer uma coisa que é à maneira de frades na ordem temporal; posso bem falar de modo insuspeito. Está bem. Eu acho que a ordem temporal não é assim e que não foi feita para ser vivida como frades.
O João me contava hoje que ele entrando no Gesú não sei bem de que jeito, tomou contato com um polonês, professor catedrático que conseguiu escapar da Polônia e que começou a levar uma vida de bicho d’ água, homem pobre, etc., etc., que disse ao João… conte um pouco o que disse a você.
(Sr. João Clá: Que ele achava que o problema do 3º Mundo se resolveria através do modelo que existe na Polônia, que lá todos têm propriedade, pequenas, muito pequenas, um pedacinho, mas todos têm propriedade. De maneira que lá não há problema de inveja, não há problema de desprezo, se prática a virtude com a maior facilidade do mundo, porque todos têm a mesma coisa, são católicos, freqüentam os sacramentos, tudo é ordenado, perfeito, direito, etc.)
Quer dizer, é o contrário.
(Sr. Carlos Antúnez: E é mentira.)
Mentira. Não é assim! Porque não volta para a Polônia?
(Dr. Edwaldo Marques: Musiquinha progressista: “Os cristãos tinham tudo em comum, dividiam o pão de cada dia”. É para criar essa mentalidade.)
Essa mentalidade. Aliás, os documentos pontifícios de João Paulo II estão impregnados de coisas dessas, dividir, dar, distribuir, etc., etc., etc.
Tudo isto, se você for dizer para eles, mostrar para João Paulo II – a Princesa Cecília de Bourbon, vocês sabem que mora aqui em São Paulo. Ela é polonesa, tem fotografias de decoração interior de castelos dela da Polônia, então com móveis muito bonitos, etc. Mostrar para João Paulo II: aqui está, isso não devia existir?
A resposta seria: não. Não, porque essas coisas bonitas despertam a cobiça, despertam emulação, despertam a moleza de vida, etc.
A resposta é: nessa perspectiva não. Então, o que resgata essas coisas e as torna verdadeiramente nobres é essa perspectiva. E também sem essa perspectiva, essas coisas dão pretextos miserabilistas, porque vira uma fruição. E esse ponto eu acho muito importante notar, muito importante notar.
Agora, conosco, in concreto, acaba sendo que, por efeito do cinema, da televisão, a pessoas acaba tomando o revés disso e tendo horror a considerar essas coisas superiores e gostando de mexer nas coisas de 5ª, porque são de 5ª. E a adoração do automóvel, a meu ver, é isso, gente que passa os domingos, em certas casinhas, etc., etc., o domingo inteiro lavando o próprio automóvel, pegando peças que comprou, para substituir por outras, etc., etc., mexendo com o automóvel. Eles estão fugindo dessa concepção.
Mas vocês dizem: - “Mas não pode, a propósito de um automóvel, Deus levar uma alma às mais altas considerações?”
É preciso ver bem direito como é. Se existe um pulchrum objetivo, o homem é feito para se mover no pulchrum. E o auge do pulchrum é este que eu acabei de falar, é metafísico e sobrenatural, é o que explica as outras formas de beleza. As outras formas de beleza não têm sentido a não ser assim.
Então, aí sim, se a pessoa tem isto, então essas coisas não são gozo. Do contrário, a crítica do falso franciscano se torna verdadeira. De maneira que non datur tertium, non datur uma posição que não seja a que eu disse que era a minha, e o comunismo. Não. Ou é assim e nós temos tudo isto justificado, ou nós temos tudo isto, a crítica deles justificada, entra no comunismo. Agora, como o comunismo é um absurdo, o sujeito entra na via do absurdo.
Agora, uma coisa contra a qual eu esbarro continuamente é que, exatamente, o convite que eu faço implícito, continuamente, para se deixar isto, deixar esta atmosfera, esse convite é continuamente objeto de uma atitude assim, como se oferecesse a alguém um sorvete muito saboroso e alguém me respondesse: deixa eu dar uma lambiscada. Lambisca isso. Mas isso não é feito para ser lambiscado. A lambiscada é um convite para mudar de clave. Como a graça atual, que age e passa, é um convite para ficar depois para a pessoa viver naquela clave.
Portanto, seria preciso queimar os navios e cortar ascéticamente – é outra ascese – é revolucionário assumir a condição de homem da ordem temporal, santo de uma ordem temporal santa. Quer dizer, é ele deixar todas essas coisas e entrar para o mais alto.
Depois certas coisas até do Evangelho são exploradas Põe eles de um modo errado. Aquela frase lindíssima de Nosso Senhor: “Olhai os lírios do campo, que não tecem nem fiam”, é uma frase de beleza… não há frase mais bonita do que essa, é a última palavra de beleza. E eles tomam a coisa assim: “Goste das coisas simplesinhas como uma florzinha e não procure as pompas de Salomão que são vaidade e agitação de espírito”. É mentira! Não sei se vêem como eles torcem.
Agora, eu faço um convite continuo para essa impostação, inclusive pela linguagem, pela temática que escolho, o que eu posso…
(…)
…não há um minuto que eu não faço isso. As pessoas olham, dentro de pouco tempo se entediam e ficam querendo outra coisa, como se entrassem numa catedral que acham bonita, passam dez minutos na catedral vendo os vitrais, ouvindo órgão, olhando para as imagens, olhando para o tabernáculo, rezando um pouco, e depois vão tomar coca-cola no bar em frente, porque não agüentam mais; vão ouvir rádio, ouvir porcaria.
É esta saciedade dessas coisas que por excelência se chama na nossa vocação assédia. Quer dizer, o tédio diante das coisas divinas. E é esta assédia que nos separa do Grand-Retour. Você não pode dizer que não respondi caudalosamente sua pergunta.
[Vira a fita]
(Sr. Gonzalo Larrain: …palácios de nossas sedes deu mundanismo. Vai para a Camáldula. Então há um pêndulo de um lado e de outro. O senhor é o equilíbrio, mas o Grupo não encontrou ainda. Há um ponto no modo de ver o senhor que tranqüilizaria muito.)
Eu acho que é o seguinte: há uma pilha de posições erradas dentro da posição diversa da nossa que facilita para ver o que a nossa tem de bom, portanto, de belo, de resplandecente, etc. É por oposição, o elemento fundamental da posição errada é o seguinte: é o que o religioso, aquele que é religioso é para dentro da Igreja. E que, legitimamente, as outras coisas estão libertadas de dentro da Igreja, são laicas. E que é uma libertação, é um arejamento tirar o peso das coisas religiosas de cima da atmosfera temporal. E soltar todas as atitudes más de alma diante da coisa meramente temporal, proclamando-as legítimas. Então ser frívolo, ser leviano, ser superficial, ser ganancioso, ser isso, aquilo, desde que não conduza para o pecado contra a castidade, é reputado legitimo.
Mas, a questão é que essas coisas conduzem para o pecado contra a castidade, quando não são vistas assim. Então é um absurdo que está se pleiteando.
Agora, pelo contrário, o que é espiritual, é visto de um tal modo que, por assim dizer, nós, criatura de alma e corpo sem vocação especial, não cabemos inteiramente no espiritual. Então a Igreja parece o clima natural do bom padre, onde ele deve viver, mas para nós, nessa visão errada, não. É um píncaro onde nós nos elevamos de vez em quando para respirar um pouco, como peixe voador, que voa assim um pouquinho por cima da água e emerge na água de novo. Assim seriamos nós com a religião, estamos com uns vôozinhos dentro da ordem espiritual, e mergulhamos no temporal, estamos livres da espiritual.
O bonito é o contrário: é… Deus quis que a sua perfeição aparecesse nas duas ordens. E quis que as duas ordens fossem vistas de um olhar em comum, para que cada uma das duas fosse bem vista.
Você dirá: Mas são diferentes.
Você sabe aquela história famosa do rosto humano, não é? que é diferente dos dois lados e não se percebe. Assim também a ordem espiritual e a temporal são dois lados diferentes do rosto; que constituem a harmonia do rosto. E essa harmonia quase mais ninguém tem. Já não tinham bem no tempo da Igreja pré-conciliar, em que os eclesiásticos eram mal formados de maneira a dizer o que nós estamos achando.
Então, o que é essa visão conjunta das coisas?
Eu digo: é o misterioso reflexo inteiramente autêntico de Deus nas coisas humanas. Ali há um pluchrum difícil de definir, e que talvez seja um mistério. Esse pulchrum é o pulchrum de Deus bem visto.
(Sr. Gonzalo Larrain: É por aí que o senhor olha são coisas.)
Não é só por aí que eu olho as coisas, mas é mais ainda, eu me apresento, sem dizer, mas quem trata comigo percebe que eu sou um porta-estandarte da Igreja dentro do mundo temporal. Mas que eu dentro da ordem espiritual, sou um porta-estandarte dos direitos da ordem temporal. E é exatamente esse estandarte, esse escudo — certos escudos são assim bipartites, certos brasões — esse brasão bipartite onde as duas ordens estão é o brasão de nossa heráldica.
Aliás, o nosso leão é um pouco temporal, um pouco espiritual.
Nosso leão é um pouco temporal, um pouco espiritual, para pleitear a legitimidade desta ordem. Agora, aí há um certo mistério. Por exemplo, a proporção áurea, 2/3, 1/3, por que é que aquela proporção áurea é bonita, já aí entra no mistério, entra no inefável.
(Sr. Gonzalo Larrain: Por quê mistério? Quando se vê o pulchrum de uma coisa, fica menos misteriosa.)
Portanto, eu retifiquei um pouco o que eu disse, é inefável, não tem palavras que descrevam adequadamente.
(Sr. Gonzalo Larrain: Inefável, não obscuro. É muito claro.)
Muito claro, mas superior a expressão humana. Vamos dizer, por exemplo, La Virgen Blanca, falávamos em cima do sorriso da Virgen Blanca, é inefável, não é misterioso, mas é inefável.
(Sr. Gonzalo Larrain: Inefável sumamente loquaz.)
Mas que é completamente incompatível com a bagarre azul, que é laica e que quer fazer a bipartição.
(Sr. Gonzalo Larrain: Atrai muito.)
Exatamente. Deve atrair, mas atrai para lambiscadas, não nos iludamos.
Mas qual era a pergunta, João?
(Sr. João Clá: Como o senhor vê os aspectos temporais na ordem espiritual, e como o senhor vê os aspectos espirituais na ordem temporal.)
O traje de São Bento é isto…
(…)
…armamento militar próprio para defender a própria sede, e manter a ordem na própria sede, para velar tanto pela independência do judiciário, que ela não precisasse do poder civil nem para isso. Está bem. Para mim, isto completa a fisionomia do juiz. Ele é meio soberano e, enquanto soberano, ele tem o direito até de prender em prisões próprias quem cometer irregularidades no prédio dele.
O que é? o governativo tem uma essência meio militar. Um militar que eu quero muito bem não vai ficar indignado com o que vou dizer agora. Vocês estão vendo que, portanto, para a nobreza do poder civil, esse traço militar lhe é indispensável. Não há nada que achincalhe mais o poder público do que ser meramente militar.
Não sei se se interessam por esse veio de assunto. Um estado dirigido pretoriamente por militares, [sur ravale?], não vai. Um estado que o poder civil não tenha um quê de militar, se rebaixa também. Mas é uma coisa parecida com isso. E quando nós, com nossa vocação que é assim do binômio temporal-espiritual notamos a ausência desse traço militar no Estado, nós sentimos uma desordem profunda. Por exemplo, o pacifismo com a supressão de todas as forças armadas deixa de ser Estado. Não lhe dá nojo essa idéia?
É por causa de uma reversibilidade assim, que indica, no fundo, a grandeza da ordem temporal, a amplitude do conceito de ordem temporal, do sacral na ordem temporal, e tudo mais.
Então, as cerimônias do São Bento, os nossos eremitas, etc., etc., aquilo tudo, o por onde produziu uma coisa que obrigou os “sabugos” a baterem palma foi em grande parte porque havia disso dentro. Eu acho que isso nos explica muito a nossos próprios olhos…
(…)
…Meu João, estou tratando de um assunto que não é bem exatamente o que você pediu, mas é que é uma oportunidade única de expor o que estou dizendo.
Eu acho o seguinte: que isto vai mais longe, mas que também se dá alguma coisa assim entre, não mais o mundo do judiciário, mas o mundo da universidade e da cultura, em relação à direção. Quer dizer, aquilo que é exponencialmente cultural, é um traço componente daquilo que se chama alta direção da ordem temporal. De maneira tal que você ter uma elite sócio-político-econômica, que não tenha uma participação… sobre a qual não soprem os ventos da universidade, abundantes, mas não é só da universidade, mas daqueles setores de cultura que são passarinhos que voam fora da gaiola universitária; se isto não sopra também sobre o elemento dirigente do Estado, você não tem a coisa bem feita. É outra reversibilidade.
E, no fundo, no fundo, mais uma vez foram os franceses que pegaram bem isso, realizando de um modo um pouco revolucionário, mas pegaram bem, tudo; toda atividade que numa sociedade chega à alta posição exponencial, de algum modo se encosta na realeza e procura adorná-la para ela mesma se tornar explicável.
Por exemplo, não há coisa mais plebéia do que um pomar. Não é só um pomar, mas um pomar-horta, potager francês, é plebeu por definição. Bem, M. de la Cantili foi o homem que fez o maior pomar-horta que houve na história da Europa até a época dele, e era o Luiz XIV dos homens de pomar-horta. E o que as pessoas falam pouco, é que o pomar-horta de Luiz XIV era o melhor da Europa, era célebre, e este homem era um Luizcatorzinho dessas coisas. Está bem. Por quê? Porque as culturas de frutas, legumes, etc., tendo atingido um certo grau, era preciso que fossem elevadas à sua mais alta excelência. Mas sendo levadas à sua mais alta excelência, convinha que florescessem nas encostas da montanha da realeza. E faz parte da glória do Rei-Sol que até seu pomar fosse assim.
E o que propriamente o Luiz XIV realizou é que ele era um homem eminentemente… ninguém sabe o que aquele homem teria feito se ele tivesse correspondido ao convite de Santa Margarida Maria. Porque ele era propriamente um homem síntese e requinte. Ele sabia essas correlações perfeitamente, ele era uma correlação assim, ele era um homem-cúpula e próprio para toda a espécie de requintes. E a grandeza da sociedade dele foi que ele teve isso, mas que teve Moliére, teve Corneille, teve Boileau, teve isso, aquilo, etc., etc. E, com o tempo, isto iria varando para os altos ambientes europeus. E, M. da Cantili, se não me engano era elevado por ele à nobreza e era “de”. Se não foi, podia perfeitamente ter sido. Mas entende-se que não era um marquês, mas convinha que as coisas chegassem a esse ponto.
Aqui está uma espécie de estado de perfeição da ordem temporal que você encontra desconcertantemente realizada na ordem espiritual da seguinte maneira: alguns grandes conventos dos antigos tempos se especializaram em fazer coisas temporais por certas razões. Então os grandes licores, a ordem espiritual é que engendrou como quintessências da ordem temporal. Certo estilo de construção magnífico, a catedral como tal é uma coisa religiosa, mosteiros, mas que adornam a ordem temporal.
(Sr. Guerreiro Dantas: Aquela porta lateral da Catedral me deu idéia que poderia ser perfeitamente a porta de um palácio ducal.)
Você vê que você se agradou de ver porque estava na Catedral, e você viu a reversibilidade entre o duque e o bispo.
(Sr. Guerreiro Dantas: O duque medieval, não o estilado.)
Duque guerreiro, guerreiro, guerreiro, essa que é a questão. Essas reversibilidades… eu estava dizendo, a ordem espiritual produziu muito. Os melhores guerreiros da Europa eram os cavaleiros. A Igreja fez as ordens de cavalaria. Assim se fosse fazer um rosário de flores temporais nascidas do tronco espiritual da Igreja, você teria coisas admiráveis.
(Sr. Guerreiro Dantas: ramos da ciência.)
Cem coisas, mas cem coisas que a Igreja produziu na ordem meramente temporal. E deve haver cem coisas de sentido religioso que sacralizam a vida temporal e que a ordem temporal produz, para fazer a Igreja chegar até a ordem temporal. É uma reciprocidade. Essas ordens se amam, uma postula a outra, uma produz fruto no terreno da outra, e ambas se alegram com isso.
E, para baixar horrivelmente o nível, é muito diferente da separação entre Igreja e Estado, da Constituição Brasileira de 1891, é o contrário. Donde o Paulo uma vez me disse isso, e acho que ele apanhou bem, todo laicismo é cafajeste. Você faz uma instituição laica, naquilo ela é cafajeste. Mas toda coisa espiritual que pretenda não ter esse lado também vira sacristia suja, “heresia branca”. É a reversibilidade.
Agora, isso tudo, esse ponto de junção você encontra realizado com uma certa felicidade na França da “belle epoque”, em que eles começavam a admitir um pouco democraticamente, a coisa era meio democrática, mas quando era ainda o Faubourg Saint-Germain, eles começavam a admitir as figuras exponenciais das grandes atividades das reuniões deles. Vamos dizer, um Liotte [Liautey?] era um plebeu, mas ganhou na África isso, aquilo, aquilo outro, os salões do Faubourg Saint-Germain estão abertos para ele. Membro de Academia de Letras, era tratado com honras de duque. Quando ele passava, abriam a porta com dois batentes, o suíço proclamava mais alto o nome dele.
Aquela história , uma coisa de outro mundo, na Academia Francesa ter sempre dois ou três cardeais, dois ou três duques e dois ou três marechais, almirantes etc., é o tipo da coisa que indica o conhecimento dessa “pervasão”, mas que tem um sabor único! Mas perdeu-se a noção disso…
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…Nós temos estadinhos de Simon Bolívar… não vale a pena nem falar. Bom, voilá.
Agora, era preciso…
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…Começa, eu insisto, começa no amor e na dileção simultânea, cronologicamente simultânea dessas coisas metafísicas, depois dessas coisas religiosas, e aí amor enternecido para com a Igreja Católica, profundo, obediente, confiante, filial, mas filial de criancinha, ao mesmo tempo que já nasce o cruzado, porque quando a alma é assim, ela compreende a Igreja até o fundo, o espírito da Igreja é este, e o espírito da Igreja habita nela e abre uma porção de coisas. É propriamente o Grand-Retour.
(Sr. João Clá: Apenas uma coisa de ordem prática: um camaldulense, um eremita, ouvindo isso poderia dizer: “Não estarei aqui mofando? Não quereria o Sr. Dr. Plinio que eu tivesse uma preparação para isso… [faltam palavras] …receber como ele recebe no 1º Andar…)
Ser recebido por ele.
(Sr. João Clá: De repente há um a graça por onde o Grupo começa uma ação dentro da sociedade e eu fico aqui, sem que essa oportunidade me seja dada. Será que era a voz da graça a que eu ouvi e que me dizia para vir para cá?)
Eu posso responder mais longamente numa outra reunião porque entra quase uma teologia da história do Grupo e da nossa vocação, e de uma porção de outras coisas. Mas é o seguinte: historicamente falando, a Providência chamou vários do Grupo que estariam em condições especiais de representar isto, de fazer assim para representar um Grupo que, por reversibilidade, tivesse desde um príncipe até M. de la Cantili, dentro do Grupo. E mais ainda desde o príncipe até operário, até o lenhador. Esta seria a TFP verdadeira. Levando vida religiosa, mas no mundo sendo assim, e não por uma comédia, mas por essa sacra reversibilidade.
Aconteceu que historicamente falando esse plano não foi para frente, porque os que podiam fazer isto se deixaram devorar pela bagarre azul, se deixaram hipnotizar pela admiração cafajeste da vida financeira e do nouveaurichismo. Por outro lado, historicamente, os que deveriam fazer isto, deveriam ter uma faculdade de comunicativização e de elevação por onde uma porção de elementos próprios a serem incorporados a eles, a serem assimilados a eles, eles tivessem assimilado.
Não assimilaram, fizeram barreiras que eu não teria feito. A nobreza é uma máquina de sucção, como toda seleção. Ela não é apenas discriminatória, mas ela discrimina para aproveitar, para incorporar, para promover, para assimilar. Ela não é o que muitos imaginaram aqui.
E o tal palácio nosso, erguido diante do palácio da Revolução, não se ergueu. Resultado é que isto que não se fez só por defeito deles, mas se fez por uma espécie de modernidade de todo Grupo, a Providência de algum lado puniu, porque isso não foi para frente. E é uma fisionomia nossa que eu acredito que se realizará no Reino de Maria, mas que nesse período histórico não se realizou.
Mas, em sentido oposto, a Providência deu especialmente no São Bento, alguma coisa no prédio que é nobilitante, no sentido especial em que a ordem beneditina, no meio das ordens religiosas tem o papel de uma ordem nobre. Você viu isso em Subiaco. Quer dizer, o monge beneditino, comparado com o franciscano é nobre…
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…Todo sujeito “intelectualóide” fica meio “cucaracha”. Mas no tom beneditino não, é uma coisa especial. E foi a solução da Providência, por essas e muitas outra razões, para “beneditinizar” assim a nossa primeira realização religiosa. Nosso hábito é um hábito “nobilitante”, mas não é “nobilitante” de forma marqueses, é outra coisa, é outra coisa, meio parecida com o que é… é na ordem temporal o que o beneditino é na ordem espiritual. Ele é o nobre extra-sangue azul da ordem espiritual… da ordem temporal quero dizer. Em certo ponto, ordem espiritual.
Bem, e todo grande tom beneditino é o nosso. De tal maneira que se nós tivéssemos sedes, as nossas sedes deveriam ser assim, e foi uma graça de Nossa Senhora nos dar o São Bento, mas nós pegamos alguma coisa pelo fato do Êremo de Elias e do Êremo de Jasna Gora estarem onde estão. Porque não é o lugar deles.
Bem, o que é que eles devem fazer lá? É tanto quando possível beneditinizar aquilo, à la São Bento. Esse é o tom do negócio, e que o negócio deve ter.
E eu creio que, por ocasião do Grand-Retour, isso nos será dado.
Agora, os que têm essa tradição histórica e que estão colocados nisso, são chamados ao que seria chamado um nobre que pertencesse a um convento beneditino, se ele fosse padre. Quer dizer, é claro que ele iria dar aquilo… há um príncipe de Wunterberg que é beneditino. É claro que ele deveria dar aquilo a tal síntese que seria, mais ou menos como o licor chartreuse de uma determinada coisa. Depois, quando nós tivermos o Grand-Retour feito, nós saberemos o que essa gente deve continuar.
O que eles estão fazendo na Camáldula?
Se despojando da seguinte coisa: quem perdeu um certo grau de inocência, nesta matéria — não digo inocência geral — nesta matéria, tem que se expugnar de tudo, porque do contrário não vai. Tem que tomar banho de creolina quem se sujou. E, neste sentido a Camáldula é banho de creolina na alma, para tirar uma porção de coisas horrorosas, temporais erradas e espirituais erradas que ficam dentro da alma e que uma outra TFP teria arranjado de outro jeito. Mas essa que tem, tem que passar pela Camáldula. Não sei se estou claro.
Meus caros… “fugit”…
(…)
(Sr. Fernando Antúnes: Colinas, várias cores, etc., etc.)
Mas é um encanto. Pois bem, eu tenho certeza que se soubessem que passo férias brincando com pérolas, isso sairia pelos jornais, como sendo de um nababo, podre, potentado não sei o que. É uma coisa tão natural, tão bonita, tão civilizada, eu me julgo conatural com isso. Por que não?
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