Conversa
de Sábado a Noite – 14/9/1985 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 14/9/1985 — Sábado [VF032] (Neimar Demétrio)
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(Sr. Poli: Os sacrifícios e renúncias que a Sra. Da. Lucilia fez.)
Eu já disse que gosto da pergunta, mas é muito embaraçosa de se responder, porque supõe que eu dê uma série de pormenores a respeito da vida privada dela que afeta uma porção de outras pessoas. E essas pessoas com descendentes vivos, etc., os principais que concerniam a ela já morreram, mas os descendentes estão vivos aí, etc…
(…)
…Nós precisávamos fazer umas leituras dentro do Grupo, e me ocorreu que, por exemplo, você estaria muito em condições de fazer leitura sobre isso, o Gonzalo, quando terminar o livro do Uruguai também, dois muito a ponto para fazer estudos sobre isso, que é a Revolução Industrial, toda a história da transformação que isso fez na sociedade, para introdução do vapor, da eletricidade, portanto, das máquinas que são os instrumentos de apoio da eletricidade. E a introdução então, na vida, das velocidades novas e toda transformação que isso trouxe na vida de família, na formação da psicologia das pessoas, etc., que isso hoje está muito estudado. Transformação da economia, enfim, uma verdadeira revolução, que eles chamam a Revolução Industrial, por exemplo, reconhecem que ela girou completamente na mesma direção que a Revolução Francesa e que fez um todo só com a Revolução Francesa. Aliás, é inteiramente evidente que fez.
Há para nós, debaixo do ponto de vista dos nossos estudos, seria muito interessante que estudasse isso, porque nós não temos nada de sistematizado a esse respeito. E isso completaria uma porção de pontos de vista, etc.
Aliás, na reunião de hoje à tarde saiu uma coisa muito curiosa, naqueles documentos que eu li. Não sei se vocês notaram que Pio IX tonitruou contra a Revolução Industrial em documentos dele, e os Papas posteriores não repetiram. Razão a mais para eu querer que JM [Sr. Messias?] me arranje a coletânea. E naquela sugestão que deu o Átila não dá muito resultado. Precisaria procurar em livrarias em sebos, etc., tem que haver coletâneas de documentos de Pio IX.
O fato de terem posto em silêncio, faz desconfiar que os documentos… a coletânea muito completa não haja, mas ao menos já uma boa parte se tem. Ainda um resto pode-se pegar. Porque Pio IX reinou 25 anos! Agora, documentos de 25 anos, os jesuítas nos cederem, para tirarmos xerox na biblioteca deles, eu acho inteiramente impossível. Não acontece isso. Logo de Pio IX de cuja memória querem apagar.
Mas, enfim, houve a seguinte mudança, com a mudança das velocidades, etc., etc., uma das mudanças que eu presenciei… eu presenciei o acabar dessa transformação, já estava muito em curso, mas eu presenciei os restos da ordem psicológica anterior e presenciei muito a invasão tonitruante e ovante da ordem psicológica conexa com a máquina, que era o americanismo, a mentalidade norte-americana, Hollywood, etc., etc.
Mas então, na ordem anterior das velocidades pequenas e, portanto, dos contactos com o mundo externo, raros, tomando em consideração que a senhora existia sobretudo para a casa, não existia sobretudo para a vida social, como em Paris, e muito menos para a vida profissional como em Nova York, ela existia sobretudo para a casa. Tinha uma certa vida social, mas não era a nota dominante da vida dela. A nota dominante era a casa.
Bem, essa velocidade dava muita ocasião para as pessoas analisarem muito a si mesmas, mas sem excessos de subjetivismo nem coisas dessas, analisarem-se; as pessoas analisarem a si mesmas, analisarem as outras e perguntarem, na intimidade da vida de família, impressões, etc., a respeito das situações de uma e de outra, mutuamente como eram, etc., e tal. Isso dava uma vida, uma outra interioridade que não era a interioridade da era industrial que eu vim conhecer depois.
Então, uma porção de reações diante da vida, por causa das situações, etc., etc., é incrível, mas a máquina com a velocidade que trouxe, e a perpétua possibilidade de todo mundo enriquecer, com a instabilidade que decorre daí, porque todo mundo está continuamente procurando sair da própria situação e galgar um posto, com o risco de quebrar as pernas. Então, é uma cobiça e um risco estraçalhando, devorando a vida, certas reações que eu vou contar dela, não são compreensíveis para hoje. E para vocês terem idéia como foram, é preciso imaginar numa clave psicologicamente diversa.
Havia uma espécie de Inquisição invisível, montada em cada geração, por onde, se alguém se manifestava com as velocidades da geração anterior, com as velocidades fora da moda, a conversa perdia imediatamente o interesse. E a pessoa ficava empurrada de lado. De maneira que, para poder acompanhar o ritmo da conversa, era preciso que a pessoa tivesse o ritmo industrial, ainda que não levasse a vida industrial. Senão era empurrada de lado.
Para dar uma idéia disso: a maior dificuldade que eu tenho para fazer um trabalho escrito decorre desse fato, porque nós aprendemos conversar em minha casa, quer dizer, com quem? Com os da mesma geração, aprendemos a conversar de tal maneira que expuséssemos as coisas o mais rapidamente possível, e, portanto, saltando os escalões intermediários dos fatos e dos pensamentos. Era um tum, tum, tum, e o que não fosse isso era tedioso. Isso de tal maneira me entrou no espírito que muitas vezes hoje, quando eu escrevo, eu preciso tomar cuidado para não saltar os escalões intermediários e não esquecer, com a má memória que eu tenho, coisas que, se eu tivesse me formado na geração pré-industrial, meu espírito não tinha.
Uma influência profunda, porque eu percebia que eu não acompanharia nada, de nada, de nada, e não me faria acompanhar, se não fosse assim. E, realmente, nas minhas exposições faladas, mesmo nessas aqui à noite, em que eu pareço tão meticuloso, segundo as exigências da exposição do espírito europeu, eu salto muita coisa. Mais ainda: talvez o Gonzalo, que é um pouquinho anglo-saxão, concorde comigo: para o espírito anglo-saxão e germânico, eu pulo muita coisa.
(Sr. Gonzalo Larrain: Por defeito do espírito anglo-saxão.)
Em certa parte sim, em certa parte não.
(Sr. Gonzalo Larrain: Eu me sinto muitas vezes lento.)
O Taton não faz cerimônia em dizer isso. Ele diz: “Hable de espacio porque no soy brasileño. Quiere usted volver…”.
Eu dou risada, está bom, repito devagar, ele vai marcando o ritmo do que eu digo, com o charuto na mão. Então, quando ele compõe o negócio, ele toca o barco.
Agora, vamos voltando ao caso. As pessoas no tempo dela, mediam muito mais a própria situação e tinham uma espécie de idéia, mas idéia bem pormenorizada e definida de como… no que é que consistia a felicidade, e no que é que consistia, portanto, a vida que teve êxito, e que deixava a pessoa dizer: “Deus me fez feliz nesta vida”. A Bíblia e o Evangelho dão exemplos disso. Por exemplo, Jó, a descrição da felicidade terrena, vale a pena vocês lerem no livro de Jó. Jó, antes de perder a fortuna e depois de perder a fortuna, que ele voltou à felicidade anterior.
Então, como é que naqueles tempos patriarcais se concebia a felicidade terrena. Vocês vão ver, é uma coisa bonita, é sintético como as coisas da Bíblia, mas… unidas!
Aquele pessoal patriarcal tinha idéia do que consistia a felicidade, era uma coisa, bem… Nosso Senhor quando descreve o homem que encheu os seleiros e que diz: “agora, minha alma, descansa, etc., etc.”, Ele deu um padrão de felicidade do povo d’Ele, no tempo d’Ele, nas circunstâncias d’Ele; um padrão estava dado.
Não se fala disso, mas é muito bonito, a psicologia das coisas naquele tempo. No banquete das bodas do rei, você vê afirmada a nulidade do vazio de talento, de posição, etc., quando não se tem prestígio. Porque aquele é um rei rico, que dá banquetes em seguida, mas é um rei sem prestígio. E os convidados dele não têm empenho em ir à casa dele, e ele então se vinga convidando os pé-rapados. Bom, é uma parábola que tem todo o sentido que nós conhecemos, mas ao lado disso, há descrição de situações.
Se, por exemplo, nós tivéssemos tempo um dia para falar sobre o padrão de felicidade terrena ao longo dos tempos, seria um tema muito interessante, que não acaba mais.
(Dr. Edwaldo Marques: Por exemplo, o homem quando casava, não podia ir para a guerra durante um ano, para tornar feliz sua mulher.)
Que coisa engraçada! Vai ver que ficava louco para ir para a guerra… [Risos]
Mas veja como é curioso isso. E note o seguinte: o tal casamento por amor, como o romantismo concebeu depois, não tinham idéia, não existia. Como era essa felicidade então? São coisas muito curiosas, a gente esgravatando a mentalidade dos povos, etc., muito interessante. Porque não se conversa sobre isso? Em parte por causa da velocidade, é perda de tempo, não tem interesse, não vale a pena, teré, té, té.
(Sr. Guerreiro Dantas: Tempo psicológico. Haviam padrões que iniciavam e cessavam. Isso marcava o tempo nas eras antigas.)
O relógio não tinha nada que ver com isso. Os teólogos dizem que os anjos não têm matéria. E, portanto, eles em certo sentido, estão colocados fora do tempo, porque tempo e matéria são em função uma coisa da outra. Mas de outro lado eles têm um “antes” e um “depois”, porque não foram criados ab eterno e há um antes e um depois para eles, eles estão dentro do tempo.
Então, dizem que há um tempo para os anjos que é diferente do tempo dos homens, e que chamam évon. Este évon dos anjos é o que você alude. A civilização industrial só toma em consideração o tempo do relógio.
(Sr. Guerreiro Dantas: Porque, quando o senhor falava da Sra. Da. Lucília, era esse tempo e essa velocidade que o senhor considerava. E a velocidade destrói essa noção do tempo psicológico.)
Corrói! Bem, mas então uma pessoa tinha inteiramente noção de como era a felicidade e como era a infelicidade, e tinha um dever de honestidade de, aquilo que era infeliz na sua vida, medir inteiramente, como medir também inteiramente o que era feliz.
E dar muitas graças a Deus pelo que era feliz e lamentar-se muito, e aceitar, mas aceitar sabendo que era uma cruz que carregava, etc., etc., com aquilo que era infeliz. E aproveitar a vida, um dos modos de aproveitar a vida é tomar uma profunda consciência desses aspectos de sua própria vida; coisa que a civilização industrial destruiu completamente. As pessoas procuram não prestar atenção, etc., etc. Tomem, por exemplo, em geral, norte-americano procura aturdir-se, não tomar consciência disto.
Por outro lado, este lado assim faz com que então a pessoa engula, devore seu próprio sofrimento e também tenha um gáudio intenso de sua própria felicidade. Isso era assim antes da era industrial.
Aqueles que têm uma certa infelicidade clamorosa, notável, insigne, esses ainda são obrigados pela Providência a tomar uma posição assim. Então a gente vai ver, eles são, por alguns lados, mais profundos, mais refletidos, mais metódicos do que os da geração deles, porque eles mediram, em função de alguns padrões, a vida que têm e a infelicidade que têm. É uma coisa pungente.
Eu uma vez fui a um casamento — não posso me impedir de contar esse dois fatos — fui a um casamento e encontrei uma coisa que, se não tivesse ofendido a pessoa, eu teria fotografado, porque era digno de um quadro futurista. O casamento era um casamento sem grande pompa, um casamento comum de gente educada, etc., sem grande pompa.
Não sei se gravo isso, é uma coisa que explora. Você pode contar isso depois ao João…
(…)
…Situação assim que as pessoas examinavam a situação das outras também. E cada uma pessoa sabia que, em função desses padrões, a sua própria condição era conhecida pelos outros, porque cidades pequenas, os ambientes pequenos, todo mundo conhecia muito mais a vida do outro do que antigamente. Por exemplo, você falou outro dia — ou foi o Átila que falou outro dia — que encontrou Curitiba muito transformada, muito aumentada, muito diferente do que era. Eu tenho certeza que entrou muito de diferenças de velocidades. Mas também isso: o anonimato, que é uma conseqüência da Revolução Industrial. Garanto que muita gente você já não conhecia. Não é o que teria sido se a cidade não tivesse sido triturada pelo progresso como foi. Bem, e todo mundo se conhecendo, e todo mundo sabendo da situação uns dos outros, e sabendo da situação sabia no que é que os outros tinham pena da gente, e também do fator desprezo que entrava nessa pena. Porque por aí a fora, a pena e o desprezo muitas vezes vêm acompanhados, hein! Às vezes até é um modo de externar um desprezo maldoso fingir pena. A formulação é da pena, mas o que entra por debaixo é uma manifestação de desprezo. E…
(…)
…No ano de 33, 32, assim, 32 foi o ano da Revolução Constitucionalista em São Paulo. Vovó, afinal resolveu comprar um rádio. Ela não tinha antes. Afinal resolveu comprar para acompanhar a batalha com o Getúlio, etc., etc. Depois ela disse a mamãe, e mamãe me contou sem comentários, disse: “Mamãe me disse: quando eu morrer, Lucília, esse rádio – rádio era ainda um objeto um pouco caro naquele tempo – é bom que você saiba que eu quero que esse rádio fique com você, porque você vai sofrer muito de isolamento e ao menos o rádio serve para você ter companhia”.
Você vê tudo isso o que quer dizer.
Depois a saúde dela. A saúde dela melhorou muito, é preciso dizer, depois que vovó morreu e ela começou morar sozinha comigo, porque o peso da casa de vovó era um peso difícil. Vovó era larguíssima, mas totalmente larga, generosa, isso totalmente. Desse lado nem pensar, não existia o problema. Mas manter as rédeas da casa, as criadas, isso, aquilo, gente que entra, gente que sai, homem, cem coisas, era difícil manter aquilo. E ela ainda tinha paciências… ela tinha um sobrinho surdo-mudo, já falei desse sobrinho, que tinha crises de nervos medonhas. Trancava-se com ela uma hora, duas. Os pais não agüentavam essa crise de nervos e ela agüentava, o rapaz saía mais sossegado, mais tranqüilo, etc. Era generosidade dela. Mas isso desgastava.
E, por causa disso, durante todo o tempo em que ela morou em casa de vovó, a saúde dela era muito ruim. Ela tinha vários incômodos, incômodos do fígado, o tal negócio da vesícula que o Beer disse que extraiu, mas que um médico francês, o maior médico francês em matéria de vesícula dizia que, examinando a ela sentia a vesícula na ponta dos dedos. Não havia ainda radiografia naquele tempo, não se podia saber, ela tinha incômodos horríveis, passava a noite acordada, de manhã estava exausta, cadavérica.
No tempo que éramos bem pequenos, ela tinha medo de morrer a qualquer momento. E às vezes nos disse. Nós ficávamos com os olhos assim!
Tudo isto junto fez dela uma infeliz, e que media bem qual era o padrão da felicidade, e que sentiu e carregou o peso dessas coisas todas até o fim…
(…)
…Era para me destruir. Quer dizer, o que eles queriam é que eu, para mantê-la, fosse ser professorzinho público no interior. Em São Paulo daquele tempo, ir morar no interior era uma ruína, era um homem arruinado. Ainda mais um sujeito que chegou a deputado federal e que depois vai ser professor secundário no interior, está arruinado, está completamente desmoralizado. Para aquele tempo era isso, e era o fim.
Agora, para mim, o que isto representaria?
E, mais ainda, na tirania do Getúlio, eu não tinha certeza de que ele não tinha poderes para me pôr fora do ensino público, porque, se ele quisesse, punha. Agora, era só ele receber uma pressão especial, que punha mesmo, e com gosto. E várias vezes estive assim a pique de uma situação trágica.
(Sr. Gonzalo Larrain: Isso só por uma ação de Nossa Senhora? Porque o senhor pensou em sair e ela teria que ir a um asilo.)
É, ela tinha que ir a um asilo. Quando D. José morreu, ele me tinha dado o recado que no fim do mês ele me cortaria a advocacia da Cúria. E ainda era uma generosidade não ter posto fora na hora. Quando ele morreu, ele morreu no dia 22, se não me engano. Uma semana… você vê.
Quando entrou o D. Carmelo com aquelas brutalidades todas, ele era muito menos hábil do que D. José, quando ele entrou com aquelas brutalidades, ele se colocou na impossibilidade de me tirar o serviço, porque aí tomaria o caráter de uma perseguição que as circunstâncias da época não permitiam. Mas D. José não, com jeito ele tirava o serviço sem mais nem menos.
(Dr. Edwaldo Marques: Aquele indivíduo que foi caluniar o senhor.)
É o Tolosa. Uma coisa horrorosa. Mas daí perseguições de toda ordem.
Eu me lembro uma ocasião que eu, para não perder o meu cargo em São Paulo, não ser obrigado ir para o interior… isso é melhor cortar, você conta ao João…
(…)
…Era o Jairo Ramos que morava nessa casa, era um grande médico de São Paulo, é um outro caso.
Vocês sabem que o José Gustavo da Souza Queiroz e eu éramos amicíssimos. Todo domingo à noite ele ia jantar em casa, éramos muito amigos; mamãe gostava muito dele.
Numa determinada tarde devia-se votar num órgão consultivo, chamado Departamento Administrativo do Estado, devia-se decidir se sim ou não eu poderia continuar lecionando em São Paulo, que isso ia e vinha.
(Sr. Fernando Antúnes: Domingo à tarde?)
Não. Numa tarde “x”.
E eu ia comparecer lá. As reuniões desse órgão não eram públicas, mas para ficar na sala de espera sabendo o que é que resolviam. O diretor do órgão era pai do Gofredo Telles, outro integralista debandado, inimicíssimo meu. Mas o pai dele era um gentleman, um homem muito fino, muito agradável e me distinguia muito. Não sei como é isso mas me distinguia muito, nos dávamos muito bem, relações de família muito velhas também, etc.
Eu então estava… tinha dado aula, enfim, sei lá se tinha dado aula, o que era, recebo um telefonema do José Gustavo, se eu poderia passar pela casa dele com toda a pressa, com toda urgência, etc., etc. Eu fui.
Chego lá, encontro essa coisa dramática: José Gustavo era muito bom filho, queria muito bem a mãe. Mas a mãe também queria muito bem a ele. A mãe com um ataque cardíaco gravíssimo, entre a vida e a morte, e ele que não sabia que eu tinha à tarde essa história pediu-me para ficar com ele enquanto não resolvesse o caso cardíaco da mãe, porque ele não tinha irmão nem irmã, era filho único, e por causa da fidelidade a religião católica ele não se dava com nenhum primo. De maneira que, para atravessar aquela conjuntura era preciso que eu desse a mão a ele.
Com a amizade que tínhamos, eu naturalmente disse que sim. E a certa altura, quando a Dona Nenê melhorou, eu disse: “José Gustavo, você vai me permitir, mas eu estou em tal situação assim e eu tenho que ir agora ver o que aconteceu com isso”. A ida e vinda da senhora podia me fazer esperar a solução para o dia seguinte, e seria para mim atroz dormir nessa incerteza.
Ele foi muito correto, ele me disse: “Esteja mamãe como estiver, você não deixe de telefonar ou vir aqui me dizer o que aconteceu com você”.
Realmente, graças a Nossa Senhora, aconteceu bem, e eu telefonei, passei por lá, qualquer coisa, expliquei a ele. Felizmente a mãe dele tinha melhorado bem nesse ínterim, e então as duas coisas se tinham resolvido bem. Mas naquele dia, naquela hora, aquilo constitui uma pressão moral.
(Dr. Edwaldo Marques: Estava se decidindo se o senhor ficava em São Paulo ou se ia para o interior?)
É.
(Dr. Edwaldo Marques: Uma agonia!)
Uma coisa atroz! Aliás, a Providência serviu-se… José Gustavo era muito, muito chegado a mim. Ele era uns cinco ou seis anos mais moço do que eu, mas numa época que faz diferença isso. Eu me lembro de chegar à casa dele, ele vir me abraçar chorando, e chorar com a cabeça dele encostado no meu peito, abundantemente. Eu o consolei etc., ele me levou para a sala de visita da casa dele, e começou me expor qual era a situação cardíaca da mãe, etc., que estava num quarto em cima, da casa.
Eu recebi outro assalto. Era tempo de guerra e era dificílimo você encontrar casa em São Paulo. Eu não podia comprar casa, só tinha casa de aluguel. Casa de aluguel era dificílimo encontrar, por exemplo, não tinha! A cidade se encheu de repente e era…
Bom, afinal encontramos uma casa de aluguel aqui perto, mudei-me para essa casa. O dono que alugou para mim era um sujeito chamado Zózimo de Abreu. Eu tinha saído da Itacolomy para a casa onde mora o Olavo Setúbal hoje.
(Sr. Fernando Antúnes: Porque o senhor saiu da Itacolomy?)
Porque o dono — que tinha um nome esquisito: Sérgio Areião, era um caipira de Taubaté — ele tinha essa casa como renda, e era muito amável comigo. Eu, na cidade de Taubaté tinha muitas relações, era muito bem visto, etc. Ele me procurou e disse: “Dr. Plínio, eu estou fazendo negócio e preciso vender essa casa. Essa casa custa “x”. Se o senhor quiser comprar, eu tenho preferência. Mas eu tenho um candidato que compra por esse preço”.
Eu não podia comprar, comecei procurar casa. Afinal encontrei essa. Tomei essa casa e me instalei, etc., etc., estava satisfeito na casa quando vem… eu soube de uma explosão do dono da casa, porque me tinha alugado a casa. Porque ele não compreendia como estava a cabeça dele, porque ele me odiava, e como é então que tinha alugado a casa para mim, o tal Zózimo de Abreu, íntimo amigo do pai do Setúbal, do sogro do Setúbal, toda uma complicação.
O Zózimo de Abreu então me mandou dizer que queria que eu saísse da casa. Eu avisei a ele que ele estava louco, que eu não saía da casa dele nunca, que tinha um contrato e eu exigia o cumprimento do contrato. Ele não via que eu tinha minha família, etc., como vou sair da casa? Eu pagava os aluguéis em ponto, ele não tinha nenhuma queixa, podia visitar a casa, a casa estava perfeitamente conservada, como é que podia? Estava doido!
Daí a pouco aparece um sujeito que é filho de um grande amigo do Zózimo de Abreu. Esse sujeito era um rotariano debandado, tinha comprado a casa do Zózimo de Abreu, e veio com uma história que o contrato meu ia expirar daí algum tempo, porque o Zózimo tinha feito contrato em prazo curto — eu não tinha conseguido outra coisa — e como ele me considerava muito, me estimava muito, ele era obrigado avisar-me que a casa ele ia, daí alguns meses, ia destinar ao filho dele que ia se casar. E que ele avisava com essa antecedência por consideração para com mamãe e comigo, que tivéssemos tempo de procurar outra casa.
Ora, ele sabia perfeitamente que era dificílimo encontrar casa naquele tempo, e que era um ato persecutório, sabia perfeitamente. Eu recebi com cortesia, mas com gravidade: “Pois não, abrigado, o senhor está no seu direito”.
E meteu o Olavo Setúbal, que era o noivo da filha, vira e mexe me procurando em casa, com anúncios de casa em vários lugares para eu procurar. E um dia apareceu um anúncio de uma casa num bairro operário, no Belenzinho.
Eu telefonei para o dono dessa casa onde eu morava, Dr. Aldo de Azevedo:
— Dr. Aldo, aqui fala Plinio Corrêa de Oliveira.
— Ah! Dr. Plinio, como vai o senhor, está bem?
— Bem, e o senhor está bem Dr. Aldo?
— Bem.
— Olha aqui Dr. Aldo, eu me espanto que o senhor ouse me mandar preso num clipes um conjunto de casas para alugar com casa no Belenzinho para eu ir morar. O senhor pensa que eu sou homem para morar no Belenzinho?! Isso é uma forma de pressão moral para sair de sua casa. O senhor fique sabendo que o senhor vai ouvir de mim agora o que o senhor não ouviu ainda: é que eu vou aplicar lei do Inquilinato por cima do senhor, e vou exigir do senhor que me mova uma ação de despejo que leva um ano! E não lhe entrego a casa! É o resultado!
— Não! Por favor, o senhor me conhece! Eu seria o último dos homens a fazer o que o senhor está me atribuindo! — sempre a mesma cantilena “rotária” — Eu lhe considero tanto, etc., a questão é que dei ordens ao meu secretário: ‘procure anúncios e mande a Dr. Plinio.’ Agora, o senhor sabe como são esses secretários, eles não têm idéia de que Belenzinho e Higienópolis são bairros muito diferentes. Ele que mandou.
— Se é isso Dr. Aldo, eu agora vou fazer isso!
[Vira a fita]
(Aparece então o Olavo Setúbal em casa). Eu: “O que é?!” Tratei como a um lacaio: “Eu já tive conversa com seu sogro. Não tem mais conversa a ter com o senhor. Até logo!”
Foi embora.
Aí interveio o José Gustavo. Tinha vagado um aparamento esplêndido do pai dele, na rua Vieira de Carvalho, e punha à minha disposição, e por um preço barato. Agora, eu não ia ficar até o fim do prazo e perder o apartamento muito melhor do Souza Queiroz. Então passei para o apartamento.
Um mês depois recebo um convite do Aldo para comparecer ao casamento da filha dele…
Mas tudo isso uma batalha de que mamãe não tinha muita noção. Eu ocultava dela. Porque, para quê?
(Sr. Gonzalo Larrain: Mas era duríssimo.)
Duríssimo, duríssimo, duríssimo! Duríssimo ao último ponto do duríssimo.
Bom, meus caros, conversamos longamente. Coronel, atendi sua pergunta até o transbordamento. Vocês já estão com sono, ouviu…
(…)
…Meu cunhado era dono da metade mais um pouco dessa casa. Quando houve inventario dele, etc., isso passou para minha irmã e minha sobrinha. Elas eram, em comum, donas dessa parte. Então eu uma vez, me lembro até que estava saindo da casa de minha sobrinha, era assim, à tarde, entre almoço e jantar, dia de sol, que elas foram me acompanhar até a rua, e que o sol estava cortante, desagradável. Fomos andando e paramos um pouco, não sei porque, junto ao portão e elas me falaram qualquer coisa, me comentaram qualquer coisa e eu disse a elas: - “Vocês não sabem o que representou esse apartamento para mim. Porque havia uma cláusula do regulamento do apartamento proibindo que num andar houvesse mais de um condômino. E isso criava uma situação jurídica, que eu estudava a questão financeira, etc., financiamento”.
No dia de passar a escritura, que deveria ser passada no meu escritório, eu encontro papai, antes de chegar o tabelião, antes de chegar a dona, etc., etc., encontro papai grampeando uns papéis, etc., e com ar assim abobado. Ele já estava bem velho. Eu disse: papai, o senhor já estudou esse negócio assim? E ele me disse: - “Meu filho, isso é melhor a gente fazer o negócio, depois a gente estuda”.
“Mas, papai, como é possível isso? De repente requerem uma multa que eu não posso pagar e é a nulidade desse contrato!”
Ele: - “Bom, mas agora já vem o tabelião, não se pode fazer outra coisa”.
Era verdade. Comprei o prédio, passei anos com essa espada de Dâmocles em cima da cabeça. E contei para elas. E aí contei para elas algumas dessas dificuldades.
A reação das duas, que eu não tinha em vista essa reação, me espantou. Elas disseram entre si: “Vamos dar para ele a nossa parte no apartamento, porque resolve o caso, fica só um condômino para o apartamento”.
(Sr. Gonzalo Larrain: Foram dez anos, o senhor uma vez disse.)
Dez anos! Eu disse: “Olha eu aceito sem nenhuma cerimônia, porque é bem merecido”.
Elas: “Mande preparar a escritura”.
No dia seguinte fui falar com elas, o tabelião foi, elas assinaram, está acabado. Isso foi feito assim, para verem o outro lado das coisas.
Meu Amadeu, você não foi dormir?! Mas devia ter ido!
(Sr. Amadeu: Estou com a cadeira.)
Traga a cadeira então.
* * * * *