Conversa
de Sábado à Noite – 3/8/1985 – p.
Conversa de Sábado à Noite — 3/8/1985 — Sábado [VF031] (Augusto César)
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…família do rei de Espanha, ele é príncipe. Mas, mesmo está noção de que o membro da Casal Real era príncipe não era uma noção tão clara. Você veja, por exemplo, o que acontece com Isabel de Castela. Ela era nobre, era rainha de Castela, o Fernando era rei de Aragão. Depois, veio a Joana, a louca, que era de Castela e Aragão, mas era louca. Mas ela antes de ficar louca, casou-se com Filipe, o Formoso, que era o arquiduque da Áustria. Foi por onde a Casa d’Áustria começou a governar na Espanha.
Os membros da família da Isabel, a Católica, que eram da Casa Real de Castela não pretenderam o trono da Castela nem ficaram com o título de príncipes. E também não os de Aragão. Quer dizer, eles não tinham a noção tão clara… Mas era príncipe quem era nomeado pelo Imperador. Agora, as casas reais se entenderam como uma espécie de direito natural, que eles definiram como direito natural…
(Sr. Paulo Henrique: Nem precisa de ser convalidado…)
Nem precisava de ser convalidado. Bem, compreende-se, é uma coisa que compreende-se. Mas, fora disso, você toma, por exemplo, Príncipe de Rouan, Príncipe de la Tour d’Auvergne, isso, aquilo, aquilo outro, eles não eram propriamente príncipes. Eles eram filhos descendentes ilegítimos de casas nobres da França, que tinham governado aqueles ducados antigos; como estes ducados tinham uma espécie de paridade com a Casa Real, então, os filhos ilegítimos deles, não sendo duques da Normandia ou daquilo, daquilo outro, porque isso reverteu para o ramo primogênito, começaram a se intitular príncipes. Os duques de Rouan, por exemplo, eram descendentes de duques da Bretanha. Mas os duques da Bretanha legítimos, eram os de Casa Real. Eles usavam esse título de príncipe para dar a entender que descendiam daqueles antigos nobres. Não é o Rei da França que deu o título de príncipe. O imperador é que dava o título de príncipe. Indica o domínio geral dos imperadores.
(Sr. Gonzalo Larraín: isso seria fruto também….)
Da coroação de Carlos Magno como imperador…
(Sr. Gonzalo Larraín: Mas desse carisma…)
Exatamente.
(Sr. Paulo Henrique: Agora esse carisma está ligado àquele ato de vassalagem dele ao Papado e à Santa Igreja, não é? Desceu, baixou esse carisma sobre ele, a descendência dele.)
Sobre ele e a dinastia dele.
(Sr. Paulo Henrique: Se o senhor podia dar o caminhar histórico dessa graça, como ela é hoje, onde se encontra, em que pessoa, em que instituição etc.)
Eu estava escrevendo um livro, que era assim intitulado: “Cristandade”. E dei o rascunho do livro para o Pacheco e Dom Mayer lerem, e eles acharam que era um livro muito medíocre, muito sem valor, muito sem interesse. E que aconselhavam que não escrevesse o livro. Então eu conservei o rascunho.
(Sr. Gonzalo Larraín: É a chave de prata?)
É, a chave de prata. Mas no livro, e eu naturalmente iria submeter a uma censura eclesiástica, porque eu não… nunca vi sustendo isso, e eu acho que isso é uma coisa muito delicada, eu não sustentaria sem ouvir uma censura eclesiástica idônea! Equivale a dizer que eu não tenho uma certeza inteira. Mesmo se eu tivesse, eu sujeitaria a essa censura eclesiástica. Mas, a fortiori não tendo uma certeza inteira.
Mas me parece difícil que não seja assim. É que quando vocês tomam entidade qualquer, vamos dizer, por exemplo, para falar a coisa mais temporal possível, mas você toma, por exemplo, uma entidade como seria hoje em dia um clube de, vamos dizer, de bibliógrafo, especialistas em livros antigos, estas coisas, etc., e tal, tal.
Se este clube é constituído todo de católicos, e ao gerirem esse clube, esses católicos têm por finalidade servir — é preciso bem dar o limite, hein? —, a gente poderia entender um clube assim que tivesse por finalidade fazer apostolado dos livros católicos. Mas não é isso. É um clube de bibliógrafos, porque se interessam por esta criatura de Deus chamado livro. Têm, encontram nisso um gosto, nesse tempo legítimo, até louvável, e por isso têm esse clube. São homens de cultura, etc., e gostam de descansarem e de distrair fazendo isso. O objetivo mais imediato é de descansar e distrair.
Mas, são todos católicos. Eles têm interesse em dar a Deus glória por esse criatura chamado livro, em alguns títulos. Não é fazer trabalhar a toda brida, é em alguns títulos, eles ter esse interesse. E têm a deliberação firme de impedir, e aí com o sacrifício da vida deles se fosse necessário, que o clube favoreça o pecado em alguma coisa, ou a heresia. Isto é certo.
Se este é o intuito de todos, o clube embora seja uma entidade de si laica, quer dizer, de leigos, e visando uma finalidade de si religiosa, que é o repouso e a distração dos seus membros, como eles todos têm esse mentalidade, são todos católicos batizados e tocar essa atividade assim eu tenho idéia de que Deus dá para eles uma especial…
(Sr. –: Dar entrada e fazer consulta.)
…Então, se constitui um caráter religioso mais ou menos automaticamente naquele clube, por onde ele sendo uma entidade de finalidade imediata não religiosa, ele, entretanto, ter uma bênção de Deus, e ter uma graça, que é especial, própria daquilo. E eu dou como exemplo as corporações. As corporações não tinham como finalidade muitas delas pelo menos, louvar tal patrono, ou tal coisa assim. Eles tinham como finalidade organizar o serviço.
Se é uma corporação de fabricantes de coisas de carpintaria, era para que as carpintarias corporativizadas, funcionassem bem. Mas como todos eram católicos e todos, por um mesmo movimento, trabalhavam a rés, a coisa carpintaria com intuito de dar glória a Deus fazer coisas bonitas, etc., etc., porque não era objetivo imediato, acontece que essas corporações eram como que túmidas de espírito católico e de bênçãos. E se constituíam com algo — aqui agora é onde quero chegar — algo que é um vago, se eu ousasse me exprimir assim, um vago vapor sobrenatural pairava sobre elas, um orvalho sobrenatural caía sobre elas.
(Sr. Paulo Henrique: Como se houvesse um Anjo daquela corporação.)
Exatamente. Coisas assim, ora maiores, ora menores, meio misteriosas. Deus saberia bem exatamente o que é que Ele tinha pairando sobre aquela entidade natural, porque todos os membros daquela entidade viviam a vida a graça. Eram membros do Corpo Místico de Cristo, a vida da graça.
(Sr. Gonzalo Larraín: Mas, com um estado de espírito um tanto característico, não?)
Sim, daquela profissão, daquela finalidade, daquela coisa, não é?
(Sr. Gonzalo Larraín: Bastaria isto para…)
Bastaria. Na riqueza de aspectos da TFP, há aspectos desses.
(Sr. Gonzalo Larraín: Eu acho que o caráter religioso maior da TFP vem daí.)
Eu acho que sim. E nossa missão é em grande parte reivindicar a definição, a explicitação desse caráter religioso da coisa laica, temporal. Então, por exemplo, uma coisa característica, eu senti — não sei se Edwaldo, MF [Fiúza?] e Paulo Henrique tenham sentido, você que é homem da agricultura no Chile, talvez tenha sentido isto no Chile —, mas em algumas fazendas, algumas coisas assim, de vez em quando uma bênção…
(Sr. Gonzalo Larraín: Muito!)
Você sentiu isto?
(Sr. Gonzalo Larraín: Bênção dos trigais…)
A bênção do trigal é uma coisa impressionante! É impressionante! Todo trigal parece orientado para a Transubstanciação, de modo implícito, no fundo… É claro que não vai ser transubstanciado, vai ser comido pelos homens, mas…
Eu vi trigais no Vale do Pó, na Itália, mas são trigais dourados, são trigais maravilhosos! Nem sei o que dizer daqueles trigais!
(Dr. Edwaldo Marques: Quando bate uma brisa no trigal, é tarde…)
Não! Quando dá praga no trigal, ao menos na Europa, praga é papoula! Praga é uma florzinha chama [bruillet?], que é lindinha também! Isto é praga! Tiririca dessa plantação!
(Sr. Paulo Henrique: Papoula é uma flor linda!)
Azulzinhas… Mas, se vende em casas de flores. Há gente que planta papoulas para vender em casas de flores. Planta graça… aliás, é preciso dizer. Vocês todos devem ter tido isto. Quando a gente [vê?] uma primeira narração de Nosso Senhor, que consagrou o pão e o vinho, vem uma pergunta: por que o pão e o vinho? A gente percebe que no pão enquanto pão e no vinho enquanto vinho há uma excelência natural… Você não tem essa idéia? Não podia ser café em vez de vinho, não tem conversa.
(Sr. Gonzalo Larraín: Já o vinho é muito bonito!)
Também, muito, muito, muito bonito! Um cacho de uvas é uma coisa poética, inteiramente poética, não é?
(Dr. Edwaldo Marques: Não foi acaso.)
Não foi acaso. São desígnios da Providência que tem assim uma espécie de… para os quais a gente precisa ter sensibilidade.
(Sr. Paulo Henrique: A gente sente esta bênção na natureza européia ainda.)
Tem. A bênção francesa… A bênção da floresta de Fontainebleau é uma coisa inegável! Agora, você deve notar que no Reino de Maria, é de se presumir que isto seja mais ainda intenso. Bem, à primeira vista, nessa condição parece meio reivindicante da ordem temporal contra a ordem espiritual. É o contrário! Ela coloca mais a ordem temporal em peso, reverência diante da ordem espiritual.
(Sr. Gonzalo Larraín: A gente sente isto na TFP, ela é isso, não é?)
A TFP é muito completa… Se — é duríssimo o que eu vou dizer — mas se a TFP tivesse dado o que no início se deveria dar, nós deveríamos ter na TFP, e depois em quase em todos os núcleos, a TFP nasceu assim, uma organização chefiada por gente pertencente às primeiras famílias do lugar onde tinham, e que era por alguns lados, um clube de nobres. Tendendo a constituir algo que reivindicasse para a elite do séc XX, a condição e o estilo nobiliárquico da coisa antiga. E dando a isto um caráter que era assim:
Aqui no Brasil, não sei nos países hispânicos, havia duas espécies de nobrezas. Havia uma nobreza que — por exemplo, houve muito no Peru, talvez tenha havido no Chile também — as famílias nobres que vinham da Europa, nomeadas pelo Rei de Portugal para nobre, por feitos de armas lá na Europa. Família se espraiava muito, e naturalmente acabavam vindo ter no Brasil, ramos mais pobres para fazer fortuna, etc., etc., e depois voltar para a Europa. Mas com a força da atração que tem o Brasil, as pessoas não voltavam. E ficavam fidalgos portugueses morando aqui, mas, de fato, pertencendo à nobreza portuguesa. Mas ao lado disso havia, não era definido, mas estava no ar que, quando as famílias eram muito — não nobres — eram muito antigas no lugar, e pertenciam à linhagem dos fundadores do lugar ou dos homens que tinham servido ao lugar eminentemente, ao cabo de umas certas gerações, elas se equiparavam — pelo dinheiro adquirido e pelo papel histórico que tinham tomado — elas se equiparavam às famílias nobres de Portugal. E se casavam com as famílias nobres de Portugal, fixadas no Brasil, promiscuamente, sem se preocupar mais com isso. E se constituíam, chamavam: “a nobreza da terra”.
E essa… A minha intenção era de tocar a coisa por esse lado. Que no Brasil, depois que essas instituições deixaram de existir, houve muita gente que, muitos lugares, muitas coisas que cresceram, se formaram, famílias que apareceram, etc., etc., e que teria o direito a uma condição assim. Mas, por espírito igualitário, por descuido, etc., não reivindicaram e não pensaram nisso. Mas tinham, nos seus respectivos lugares, uma condição parecida com a dos nobres antigos.
(Sr. Gonzalo Larraín: Nobre antigo do Brasil?)
Do Brasil. E que era preciso ajudar, inclusive em alguns lugares, as famílias nessas condições, a abandonar seu caipirismo gradualmente e se colocarem nessa posição, de maneira a darem ao respectivo lugar o lustro que devia dar.
(…)
Na ordem natural em certas famílias.
(…)
A honra é um bem de caráter espiritual no sentido que diz respeito ao espírito, a alma humana, sobretudo, afeta o corpo também, mas diz respeito…
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