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Conversa de Sábado à Noite — 20/7/1985 — Sábado [VF30] (Augusto César)

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(Sr. Guerreiro Dantas: …de modo que é isto.)

Eu gosto de ouvir estas palavras.

(Sr. Guerreiro Dantas: O Sr. Poli tem a pergunta.)

(Sr. Poli: Refere-se ao que o senhor disse no final da Reunião de Recortes, das mudanças muito inopinadas. Se o senhor podia dizer um pouco o que o senhor prevê para a atuação do senhor no futuro; os pressupostos dessa atuação. E como é que seria a fidelidade para seguir estas mudanças de rumo inopinadas.)

Se você dá às palavras o seu verdadeiro sentido, o imprevisto é aquilo que não se previu. E nós estamos habituados a uma longa caminhada, na qual nós prevemos longamente também com antecedência as coisas. E por causa disso nós vamos nos amoldando àquela idéia, àquele tipo de ação, etc., vamos nos ajeitando para aquilo.

Nós longamente combatemos nessa atmosfera, e combatemos carregando o seguinte peso: era precisamente a invariabilidade do processo com que nós lutávamos. Não só o adversário com quem lutávamos era um adversário que estava sempre em cima, mas ele de modo geral estava sempre ganhando terreno. E com o seu jogo perfeitamente organizado. De maneira que o avanço dele se organizava de maneira, à maneira de um jogo de xadrez bem feito, de um indivíduo que tem quase todas as peças no tabuleiro, contra um outro que tem o Rei, a Rainha e um peão. E para o qual era uma festa se ele obtinha licença do outro parceiro de pôr um, dois, três peões mais no tabuleiro, porque o outro tem as torres, os cavalos, tem os bispos, tem a Rainha — tem tudo! Tem todos os peões! Portanto, um jogador inclemente, apertando e parafusando, e a gente vendo que a todo momento havia dificuldades terríveis no nosso caminho!

É verdade que nós demos boas malhadas neles! Mas, não deixa de ser verdade também que de um modo geral, o que eu sempre festejei e agradeci a Nossa Senhora nessas vitórias, foi que ele andasse mais devagar; que nós crescêssemos e que ele andasse mais devagar. Nunca que ele cessasse de vencer. Porque se nós obtínhamos vitória num ponto, noutro ponto estava vencendo ele, numa coisa, noutra… De maneira que a situação era cada vez mais de dificuldade.

A tal ponto que várias vezes os senhores me perguntaram — nós nos perguntamos juntos — onde é que isso ia parar. Quando é que viria afinal essa Bagarre?! Várias vezes nos perguntamos isto juntos. E aquilo com aquela cadência, contra a qual os nossos maiores esforços, esforços hercúleos, riscos, etc., conseguiram um resultado muito apreciável, mas não um resultado suficiente para liquidar com o adversário. Que, aliás, era esta uma das razões que nós tínhamos para achar que vinha a Bagarre. Porque não podíamos acabar vencendo; e se não viesse a Bagarre, mais cedo ou mais tarde eles estariam vencendo. Eu acho que isso tão evidente, que eu acho que não preciso insistir em mostrar este quadro.

Agora, poderia mostrar outro lado do quadro que é o seguinte: a uniformidade do jogo, a uniformidade das condições em que nós estávamos, isto dava um peso especial que não é só o peso da luta, é o peso da monotonia. Nas ocasiões de grandes crises, tais dificuldades que eram as aflições; nas ocasiões em que as grandes crises passavam, era a monotonia. Porque eles iam para frente, para frente, para frente… E nós assistindo, assistindo, assistindo…

Nossa Senhora nos dava consolação nessa nossa via. Meu caro Guerreiro salientou bem isso. A consolação de estar aqui, por exemplo, é uma delas. Mas, são consolações, vocês compreendem, que deixam uma larga quota de sofrimento na vida. E era uma das razões de nossa pressa. Quando é que vem Nossa Senhora e Ela liberta os que são d’Ela? É que, é claro que o nosso plano ideal é que se pudessem todos se converter, e o Reino de Maria se implantassem como Nossa Senhora anunciou em Fátima se os homens se convertessem. Se isso não fosse possível, viesse de outra maneira! Mas, que esse reinando do demônio não durasse muito tempo. Essa era a coisa.

Agora, tudo muda. Em vez de nós lutarmos contra uma espécie — não sei, eu vou dar uma figura um pouco prosaica — um combatente de estatura normal, mas sobre o qual se deita um elefante de vinte vezes mais poderoso do que ele; e que fica gemendo sob o peso quente e nojento do elefante, sem poder se mover. De vez em quando dá uns beliscões no elefante, o elefante pula, etc., etc., mas nunca em posição tal que ele possa mover-se, ele está sempre debaixo da pata do elefante sem poder sair… Nós agora passamos para uma outra coisa: o elefante deixa de ser ele, passa a ser fantasma! Porque o nosso adversário passa a sofrer de uma espécie de mal de Parkinson… Não sei se os senhores conhecem esse mal: a pessoa treme… Acaba tremendo até o maxilar, a pessoa não consegue falar, não consegue mastigar.

Acaba sendo uma espécie… o nosso adversário está com mal de Parkinson. Isso será uma coisa imposta por Nossa Senhora a ele, uma primeira afirmação da vitória d’Ela, ou será um jogo dele? Ele não pode levar o mundo para caos, sem se pôr em caos ele próprio? Ou haverá algum tanto de cada um desses fatores, e talvez outros fatores ainda que a gente não consiga discernir. Também não sei, mas ele entra no caos.

Então, nós sempre dissemos que nós, com o contingente que a TFP tem, éramos em face do adversário como um exército guerrilheiro diante do exército regular. O exército guerrilheiro estava sempre saltando de um lado para outro, diante da massa [do] exército regular. E impondo ao exército regular movimentos desordenados e impensados. Imprevisto, lançando no imprevisto o exército regular, que tinha meios para se defender regularmente, mas não tinha a mobilidade natural do guerrilheiro. E por isso é que ele podia chegar e desarticular o exército regular.

Bom, ele precisaria ter para isto muita agilidade, muito viveza, muito espírito de aproveitamento das circunstâncias, muito criação do imprevisto, porque pelo imprevisto ele desnorteia o adversário. Por estas ou aquelas razões, nós vemos que somos os guerrilheiros diante do qual o exército começa a saltar como se tivesse introduzido o imprevisto dentro dele! E que, portanto, lutam em condições que representam um passo para a vitória!

Porque o ideal do exército guerrilheiros é produzir esse efeito no exército grande. Bem, o exército guerrilheiro faz o seguinte cálculo: uma vez que os exércitos grandes se movem assim, assim, assado, vamos cutucá-lo desse jeito, assim desse jeito…

Bem, uma vez que o exército grande entra na debandada, na desestabilização, aparece a surpresa. E o guerrilheiro que já não tem as regras pelas quais o exército grande se mova, ele vai ser obrigado a improvisar de acordo com os saltos inopinados do exército grande! Isso supõe dos dirigentes do exército guerrilheiro um grande senso de quais são os lados fracos do adversário. De maneira que ele não dê nunca uma lancetada no elefantão, num ponto, por exemplo, na orelha do elefante, que é tempo perdido. O elefante não vai morrer da orelha. Mas, se ele puder meter uma flecha pela tromba do elefante adentro, aquilo é… Ali a coisa é seria!

O guerrilheiro — o homem que está lutando contra o elefante — ele deve saber atingir o elefante na espinha, atingir o elefante no olho, atingir o elefante nos seus centros nervosos! Fazer uma espécie de acupuntura para fazer o elefante… Para ele saber qual é o aproveitamento a dar a cada movimento, ele tem que conhecer todos os lados fracos de todos os lados fortes do parkinsoniano que começa a tremer diante dele!

E tem que ter um senso de improvisação por onde ele, com qualquer coisa, com isso aqui na mão! Se o elefantão dá um passo em que ele descobre alguma coisa, ele com isso aqui fura o elefante!

Agora, isto supõe, de todos nós, uma agilidade para acompanhar o movimento geral! Uma agilidade para apanhar as situações, para tomar os fatos, para tomar as atitudes, etc. Isso supõe uma condição essencial… (eu estou mudando de metáfora a toda hora, mas é o único jeito de expor a matéria; eu falei do elefante, falei de tanta coisa, agora eu vou falar do navios!..), é preciso que todos os que estejam no navio — estou imaginado navio de madeira, caravela — todos os que estejam na caravela, muito mais sujeita às ondas do que um navio transatlântico moderno, de metal, taratátá, que todos os que estão na caravela saibam, entre outras coisas, fazer força com o corpo dentro da caravela para o lado certo!

Porque, se as correntes submarinas inclinam a caravela para esse lado, e todos vão correndo para o lado onde a caravela se inclinou, eles estão tornando impossível a resistência do navio. Não sei se exprimo bem… Eu penso que é claro.

Então, que todos nós estejamos dispostos aos movimentos de ataque ao adversário necessário, que nós todos pisemos do lado certo, de maneira que vindo o aperto do adversário de um lado, a gente saiba pisar no outro. E isto, quer o adversário externo, quer a tentação interna, a gente saiba ter um procedimento a bordo por onde a direção fique fácil, e o navio fique sempre fazendo o que indica Santo Inácio de Loyola: Aggere contra!o que é preciso fazer é facilitar a coesão do navio. Do contrário as tábuas se racham em certo momento. Isto é o procedimento ideal, é o procedimento normal.

E foi por isto que hoje à tarde eu tratei do que tratei com os senhores. Eu tratei precisamente nessa intenção. Eu fiz um, se quiserem, uma espécie de primeiro exercício de psy-vivacidade, para os senhores saberem mover-se, saberem [agir-se?] [agir] dentro das circunstâncias. Lembrando que do movimento de qualquer um de nós, numa hora delicada, pode decorrer uma fraturação de tábua. Não sei se eu fui claro?

Também não sei se, meu Poli, se eu respondi bem à sua pergunta. Uma coisa, uma das coisas é combater a nostalgia que tenhamos da boa ordem da situação anterior — lembrando que nós gemeremos sob esta boa ordem; ansiamos pelo dia em que ela estivesse alterada; julgávamos que era nossa função fazer cambalear o elefante, quando o elefante cambaleia a gente: “Bem, e se ele cair em cima de mim?” Bom, então…

Agora, é preciso muita proteção de Nossa Senhora diante dos imprevistos, que sem um ajuda especial d’Ela nós não damos volta no caso, não damos. É preciso, é preciso, é preciso…

Está claro ou não está claro?

(Todos: Sim.)

Então, eu estou disposto a qualquer pergunta que queiram fazer.

(Sr. Guerreiro Dantas: O senhor dá como certo de que o processo entrou em caos, e que esse será o curso norma e habitual das coisas; se for assim, não seria possível o senhor ir mostrando para nós o que está entrando em caos? Hoje o senhor já deu algo disso.)

No que está entrando, não porquê. Eu hoje disse no que está entrando, mais do que porquê, do que a causa do caos, não é?

(Sr. Guerreiro Dantas: Se o senhor pudesse ir apontando fatos que provam este caos, etc. Se o senhor pudesse explicar como o fato é fabricado e como ele age para conduzir a pessoa a um estado de embriaguez.)

O caos?

(Sr. Guerreiro Dantas: Sim. Agora, outra pergunta: o que se acha que possa ser uma intervenção de Nossa Senhora e no que possa ser uma intenção do processo. Por que o senhor não fecha a questão nesse ponto?)

Me fica mais cômodo responder a segunda pergunta, mas é capaz de eu me esquecer da primeira. Então, eu peço ao senhor que me lembre da primeira pergunta, ao cabo da segunda.

O problema é o seguinte — até propriamente o senhor fez três perguntas — o senhor perguntou também se eu dou como certo se nós vamos entrar no caos. São três perguntas. Eu não dou como certo e não dei, porque eu não estou certo. Eu dizer assim com essa certeza que nós entramos no caos, seria dar um elemento de que em alguma coisa esse caos não é completo. Quer dizer, há uma constante nele pela qual ele não pode cessar. E nem isto eu vejo claro, dentro da confusão da situação.

O que os dados — eu recapitulo os dados que eu apresentava antes — eu mostro que o processo revolucionário foi, por sua contingência interna, ele foi corroendo as psicologias, foi corroendo as mentalidades, etc., etc., e chegou — eu declarei isto logo [por] ocasião da queda de Portugal — que o lumen rationis tinha se extinto. Bem, mas eu não apresentei isto como uma coisa que tivesse acontecido por disposição de Nossa Senhora, eu apresentei como fruto do próprio processo. O próprio processo chegava à extinção do lumen rationis.

Onde o lumen rationis está extinto, podem preservar no indivíduo bons hábitos, ou maus hábitos — enfim, hábitos — e constâncias de procedimentos provenientes de um passado ainda quente. Mas, fundamentalmente [a] matriz da ordenação está quebrada.

Eu, depois de falar da extinção do lumen rationis ainda disse que isso iria mais longe, e que era preciso reconhecer que se tinha chegado a uma espécie de — correspondência a Bagarre de pus — era enfim uma coisa que dava nesse pensamento, que as próprias tendências entrava num certo desvario, e que, portanto, não era possível nelas mesmo a gente pensar num método que, do tempo em que o lumen rationis existia, pelo menos um pouco.

(Sr. Gonzalo Larraín: Temperamento público.)

Temperamento público, exatamente isto. É a extinção da opinião pública e passar para o temperamento publico. Quer dizer, nem eram os hábitos, mas eram apenas reflexos temperamentais que ainda tinham alguma continuidade. Mas, apresentava isto como uma necessidade do processo. Quer dizer, o processo para destruir completamente o homem, e criar a época da anarquia e do reino do demônio, ele precisa isto.

Agora, o senhor compreende que é uma pergunta que se pode fazer é se, portanto, este caos não é o fruto fabricado de todo esse processo, e se eles não esperam dentro do caos conseguir isto aí. Quer dizer, isto aí…(me cansei e abreviei) conseguir mais depressa o estado no qual eles podem conduzir a hecatombe deles religiosa: que é a vinda do demônio, o tal salto qualitativo brusco, que eles esperam, se tudo isto não é mais obtenível nessas condições.

Bem, mas isso vai de um lado. De outro lado vem uma outra coisa, que é a seguinte. Esse caos, dentro desse caos nós percebemos que eles correm riscos vertiginosos. Porque debaixo de certo ponto de vista, esta passagem necessária, debaixo de certo ponto de vista, ela produz o momento em que eles perdem a garra velha, e que a garra nova, que é a presença do demônio, ainda não apareceu. E que fica um hiato, que é uma espécie de pulo que eles dão no rumo à outra margem do rio. Não veio nenhum salto qualitativo brusco nem nada. É uma espécie de hiato necessário.

Eles são tão inteligentes, tão capazes, que devem ter disposto alguma coisa para governar durante este hiato. Mas, não se vê isto que eles dispuseram, ou que tenham, que devem ter disposto, esteja funcionando pelo menos na medida do que era razoável. Então, a gente é obrigado a se perguntar se realmente Nossa Senhora não entrou nesse hiato com uma intervenção imprevista.

Agora, porque que eu não opto? Porque não há elementos que possam justificar no meu espírito uma opção séria, uma opção ao menos de grande probabilidade entre as duas hipóteses. Não sei se eu fui lógico no que eu disse.

Bem, seria então, se os senhores não têm nada a me perguntar a respeito, seria primeira pergunta. Já respondi duas. A primeira que… Qual era mesmo a primeira pergunta?

(Sr. Mário Navarro: Se o senhor dá como certeza…)

É, e depois esta. Falta então a terceira pergunta.

(Sr. Guerreiro Dantas: A segunda… Seria, na reunião de hoje, quais são os fatos que os senhor considerou mais significativo na linha do caos?)

Na reunião de hoje não houve nenhum fato muito importante. Foi o que eu disse na reunião, que não seria uma reunião de fatos muito importantes, portanto, muito significativos na produção do caos. Uma reunião que eu iria comentar os fatos, mostrando com até os fatos de segunda ordem, e não mais só os fatos muito importantes, já estão produzindo o caos. Que esta produção do caos se dá um pouco por todo lado. Isto seria o aspecto interessante da reunião de hoje. Talvez eu não tenha explicitado…

(Sr. –: O senhor disse no início isto.)

Então, era esta a idéia. Eu gosto muito de perguntas assim, porque dão à gente oportunidade de explicitar, de pôr os pingos nos “is” bem claros, etc.

Agora, a pergunta é esta — agora, que eu vou dizer — então: se não há nada de certo, se não há nada de certo, por que é que o senhor, numa determinada emergência, escolhe uma tática em vez de outra? Porque se for para apertar a pergunta, o aperto é este. Porque… Vai acontecer tal coisa. E tudo o que se pode fazer é cinqüenta a cinqüenta, pode acontecer tanto isso como aquilo. Como é que o senhor pode encontrar uma saída?

Eu creio que há muito tempo atrás eu lhes falei do negócio do burro de Buridan, não falei? Então, nós não estamos como o burro de Buridan, diante de um balde, uma coisa qualquer, cheia de água, e outra coisa é capim? E nós não sabemos para onde nos virar, porque queremos igualmente as duas coisas?

Ou, entre um velho ditado que se usava aqui, os senhores não conheceram, velho ditado português — quem sabe se algum português ainda ouviu falar isto na sua terra — mas é: “Entre a Cruz e a caldeirinha…” Eu não sei que caldeirinha é esta. Mas, a gente vê que é um instrumento de suplício muito doloroso. Então, ficava entre a Cruz, um instrumento de suplício, e a caldeirinha, outro… Que deveriam ser equivaler. Não sei como era esta caldeirinha.

Então, se é assim, como fazer? Senão cai no reino do irracional. Então, eu teria que responder a isto. Eu respondi implicitamente, quando eu falei a respeito do elefante. Eu disse que o elefante tinha uma anatomia e uma fisiologia, e que [em] função dessa anatomia e dessa fisiologia, se poderia calcular quais eram os lados fracos dele, e, portanto, os movimentos em que ele se descobria, apontando os lados fracos dele. Havia, portanto, para as opções, uma constante. Esta constante, diante do fato de um elefante que se mexe desacertadamente como um parkinsoniano, não era o seguinte: qual é o próximo movimento dele. Mas, é: dado ele como é, onde é que eu posso pegá-lo? E prestando atenção nos movimentos para tirar proveito do imprevisto, e vulnerá-lo!

Está claro?

(Todos: Sim.)

Isto forma, quand même, uma constante. Mas, há duas constantes — eu também me aludi a isto implicitamente — outra constante somos nós mesmos! Que, ponha [a] questão como se puser, uma coisa é positiva: estamos de um lado nós, de outro lado eles. E que nós sabemos quais são os pontos fracos deles. Eu poderia até, um dia, fazer reunião sobre os pontos fracos deles!..

[Vira a fita]

por uma razão, eu explico aos senhores daqui a pouco por que não faria já. Agora, a noite é impossível… Eu digo, sábado que vem, por exemplo. Acho que os senhores gostariam de ouvir esta reunião. Vou explicar daqui a pouco porque não faria.

Bom, mas eu tenho também uma noção de nos próprios pontos fracos. E se eu vou dar um ataque ao demônio, à obra do demônio, se eu tenho só isto, eu tenho que falar em furar o olho do elefante. Mas, se eu tenho uma espada, uma lança, como eu figurei aqui, meu golpe será outro! A principal arma nossa somos nós! Nossa generosidade, nossa entrega, em que nível está?! Nossa desambição! Nossa megalice, nossa entrega, em que nível está?

Eu preciso tomar em consideração constantemente estes dois lados, para compreender, para não fazer do golpe imprevisto, uma tonteira. De repente: “eu vou bater com isso no casco da pata do elefante”. Eu perco isto, quebro meu dedo e saio machucado na batalha. Não vai bem! As coisas funcionam assim.

Então, eu quero apontar aqui que o método intelectual ou mental, psicológico, adotado nesse caos, ajuda a pessoa a não delirar. Porque ela apanhou as constantes de uma luta que, nos seus episódios não tem constância, mas nos seus fatores tem. E que, portanto, há algo que se pode raciocinar de lado ou de outro.

Os senhores dirão: “Por que é que o senhor disse isso implícito?” Porque eu não posso dar tudo numa só resposta. As respostas se espraiam, se entendem, etc.

Caberia agora a pergunta: por que eu não trato dos lados fracos dos adversários aqui, agora? Eu não tenho nenhuma vergonha de dizer aos senhores o seguinte: que é porque eu não sei inteiramente quais são. Agora, por que não sei? É uma… Eu guardei, ao menos no meu espírito as idéias se formam assim — mas eu creio que é no espírito de todos nós —, formam-se assim, que eu guardei na penumbra da minha má memória, uma série de impressão sobre este lado que fica do adversário, no tempo em que eu lutava com o adversário noutro plano, eu não deixava de prestar atenção nele inteiro! E esse, e aqueles, e aqueles aspectos ficaram. O adversário nunca descobriu inteiramente o pouco que lhe resta, porque ele jogava com outros recursos, e eu tinha a minha atenção toda absorvida pelos recursos que ele utilizava, pelos métodos que ele utilizava aquelas circunstâncias, etc., etc.

Mas eu tenho muitas recordações que na medida — eu não sou capaz de passar agora para o papel — mas à medida em que eu o for vendo lutar, eu vou me lembrando disso, daquilo, daqui a pouco, e ao cabo de algum tempo de luta, eu terei evocado da penumbra da memória muito dados para construir uma teoria! Isto é o que eu chamo o “não saber”. Não é uma ignorância total, mas é um depósito acumulado, para ser movimentado em certo limite.

Alguém dirá: “Mas por que o senhor não preparou antes isto aí?”.

Eu respondo com toda humildade: é limitação de minha mente. Não dá para mais do que eu estava fazendo.

Meu Guerreiro, você estava preparando uma pergunta. Qual é?

(Sr. Guerreiro Dantas: O senhor disse que eles nos episódios não terão mais continuidade, mas os fatores são…)

São as aptidões deles e nossas, forças, recursos deles e nossas. Isto é a constante. De maneira que nós não devemos imaginar que nós afundamos num tonel de loucura, não é isso;

(Sr. Mário Navarro: O que não é constante então?)

É o seguinte. O comportamento do adversário, de longe o mais poderoso, tornou-se inconstante. Então, mais ou menos eu imagino que eu esteja numa sala — aqui está uma outra metáfora — imagine que eu esteja numa sala, onde eu estou sem arma, e tenho um homem que é parkinsoniano, e tem ele um revolver. Mas, ele não consegue fazer pontaria. Ele é muito mais forte que eu, mas em determinado momento, se eu pego ele de jeito, dentro de inconstância do movimento dele, eu dou uma rasteira nele e o jogo no chão!

Então, o que há de inconstante nele? É o caprichoso dos movimentos. O que há de constante? Uma anatomia e uma fisiologia que eu conheço. Ça va?

[Fenomenal!]

Bem, meus caros, nós temos um hábito de nos despedirmos! Mais uma pergunta meu Guerreiro, ou o meu Gonzalo!

(Sr. Gonzalo Larraín: O que seria a garra nova que o senhor falou que estão introduzindo na luta agora; e o que senhor vê dela no estrondo da Venezuela, etc.)

É uma coisa que eu em pergunto, é: diante dos fatos como se passaram na Venezuela, e pelas razões que vou dar agora, eu me pergunto muito desconfiando de que aqui entra a garra nova. Porque o que na Venezuela — aliás, perguntei, talvez até me tenha perguntado, conversando com o senhor também — na Venezuela o que me chamou a atenção foi o seguinte: antes do estrondo, uma opinião pública dividida e uma opinião pública que eu conhecia, mas não conhecia inteiramente. Eu conhecia esta opinião pública através das versões que me davam dela o Carlos Antúnez, e os meus filhos da Venezuela. E alguma coisa assim por analogia com o conjunto da América Espanhola, América do Sul toda, etc., se tinha uma certa idéia.

Mas, não tinha noção, ou ao menos noções tão esporádicas que não davam para constituir um quadro, de alguns pontos naturais e dissonantes do temperamento venezuelano, e do modo de ser venezuelano. Eu tenho dois filhos venezuelanos aqui, eles sabem que eu falo com muito afeto, não é? Mas, enfim, trato do caso.

Em primeiro lugar, tomando a situação do poder judiciário, eu passei — porque não conhecia, nunca me falaram disso a respeito [da] precariedade do Poder Judiciário na Venezuela — uma precariedade assombrosa! Uma corrupção que levanta contra si ondas gerais do povo!.. Há pouco houve um estrondo, não sem alguma analogia contra nós, contra o poder judiciário.

Então, um povo que, desde que é independente, tolera pachorrentamente esta situação, e que não impõe o contrário, revela, ao mesmo tempo, uma modorra e uma conaturalidade com o estado endêmico de violência — ainda que seja violência sem sangue, cruenta — num país, que é um estado temperamental em que, que eu saiba, nenhum país sul americano caiu.

O senhor toma, por exemplo, seu país. Seu país tem passado por episódios muito dramáticos. Mas, tem uma certa continuidade, uma certa… Não é esta situação em que cria para os indivíduos, particularmente essa insegurança permanente da situação na Venezuela. Não é isto.

Depois, de outro lado também, tive conhecimento depois do estrondo ter arrebentado de campanhas de uma violência de uns contra outros, de repente, que levaram, por exemplo, a prender na cadeia um Presidente da República, e a processar Ministro… E a processar criminalmente! Não é por indenização. É para entrar na cadeia! Ministro foge, eles mandam pegar nos Estados Unidos, o governo americano não quer, alegando as liberdades americanas, mas algumas coisas eles conseguem… Quer dizer, uns lances de vez em quando, de uma brutalidade de espantar, que coincidem com os episódios de guerrilha terrorista que há não muito tempo atrás houve na Venezuela, também foram muito violentas.

Então, ao lado desta Venezuela que acerta o passo mais ou menos com o conjunto da América do Sul, e mais especialmente com o conjunto da América Espanhola — eu fiquei com a idéia de uma Venezuela com bruscos golpes, inesperados tufões, inesperados vendavais que eu não sabia que eram assim, eu não estava adequadamente informado.

O senhor, que até certo ponto é cidadão venezuelano, não pode ter recordação de alguma vez me ter posto ao corrente desses pormenores. Isto passou completamente.

Os brasileiros que iam parar na Venezuela não me diziam nada disso. Meu amigo Pedro Morazzani me disse isso. Não sabia, não sabia.

Bem, agora, outro dado a respeito da Venezuela que eu vim, a saber, durante o estrondo, e só soube mesmo quando o estrondo ia mar alto, é o papel das superstições, e das superstições meio demonolátricas, na Venezuela. Nunca ninguém me disse uma palavra a respeito da Maria Lionza, daquele culto torpe e infame que dá prestígio novo a um culto indígena esquisito, disparatado, maluco, e que erige esta Maria Lionza numa espécie de símbolo de dignidade nacional, e faz um monumento para ela, sentada em cima de um tapir, e um lugar que parece que antigamente, se tirava o chapéu quando se passava diante dela, tem umas coisas desse gênero. E tem uma igreja, um templo lá, onde o pessoal vai fazer culto a ela, no duro, no alto da montanha, num lugar evocativo, importante. Claro, que isto não é o culto da nação. Mas, não se pode dizer que a nação como um todo seja alheia a este culto. A tal ponto que me disseram que nas casas de artigos religioso vendiam em quantidade coisas junto de terços, rosários, amuletos de Maria Lionza, e maluquices dessa assim…

(…)

coisa diabólica que vai muito além das feitiçarias da Bahia, por exemplo, não tem comparação; do candomblé, da macumba, daquela noite de Iemanjá, não sei o que, que fazem no Rio de Janeiro, e as macumbas que fazem nos porões de São Paulo… Vai muito além. E indicava uma presença do demônio, de que o temperamento venezuelano como eu conheci nos meus filhos, habitualmente prazenteiro…

(…)

estáveis, e até muito antigos — novos no meu conhecimento. E que certamente contribuíram para o que se passou na Venezuela. E isto então é um lado que ela a ter desconfiança a respeito da questão da garra, se é ou não é e garra… Por este lado dir-se-ia que não é.

Mas, quer dizer, o demônio não faria senão dentro da economia comum dele, desdobrar um pouco mais a sua ação. Mas, de outro lado a intensidade foi tão brutal, a carga ao mesmo tempo unânime foi tão colossal, e o domínio que ela conseguiu sobre a opinião pública foi tão completo, tão imediato, que eu nunca vi uma coisa igual em minha vida!

A TFP vivia com aqueles partidos políticos, com aquilo tudo, numa espécie de guerra fria, mais ou menos com todos os partidos e coisas da América do Sul. Agora, por que razão, de repente, a TFP, bem vista por um, mal vista por outros, naquela mediania, de repente se vê assaltada pelo coro unânime da população da cidade? Uma coisa inexplicável. A tal ponto que os amigos mais dedicados não podiam senão sussurrar no ouvido que estavam de acordo conosco. Mais ainda, com esta testagem impressionante: o maior jornal da cidade, extorquindo-nos sangue — porque era dinheiro em quantidade — publicava normalmente, uma página de réplicas!

O senhor, que é o historiador do fato, viu bem que não eram nada! E, entretanto, eram réplicas pelo menos dignas de atenção e refutação. Não adiantava nada! desafios, por exemplo, a respeito do Santiago Gusman, assim! “O senhor mentiu em tal coisa assim, aqui estão as coisas do embaixador! Responda!” Ele não responde!

Num episódio que eu vi no cinema, do interrogatório, não sei se foi na CPI ou se foi diante do rádio, um dos nossos interpelou este mentiroso, não me lembro como chamava. Interpelou: “Isto é assim, assim, o jornal publicou! Responda” Ele mudou de assunto… Hã, hãããã… Ninguém ligou!

Para as famílias, nós publicamos justificativas, explicações, etc., etc., não ligaram a mínima! Clero! Não fez nada! O máximo foi o Opus Dei que nos cochichou umas gentilezas no ouvido, mais nada do que isso. Eu não vi ainda um público passar, portanto, de uma atitude neutra, para uma carga tão furibunda!

O Feri, o pai disse qualquer coisa ao Feri, e o Feri disse: “Eu vou contar aqui uma coisa a respeito do senhor para todos aqui ouvirem. Eu durante dez dias tive que comer na casinha do cachorro, comida do cachorro, para o senhor me forçar sair da TFP. E o senhor quer dizer que o senhor foi bom pai para mim?” Foi assim, isso eu vi. Eu vi o Feri dizer isto, e o pai do Feri ficar quieto. Ninguém na sala fez um movimento, jornal nenhum deu isso…

Assim eu não vi em minha vida! Assim eu não vi em minha vida! Isto parece a favor da garra!

Os senhores tomam a Revolução Francesa. Os senhores vão ver, há sempre uma preparação antes da coisa estourar. Ali não! É da noite para o dia!

(Sr. Gonzalo Larraín: Isso é a garra nova.)

Seria uma ponta da garra nova.

(Sr. Gonzalo Larraín: Se esta já é tão terrível, quase sem defesa; qual seria a defesa da TFP contra ela? Porque se isto se generaliza, não sobra pedra sobre pedra. Teria que se esperar algo de Nossa Senhora contra isso.)

É verdade. Eu acho que um dos perigos desta ponta de garra nova seria a facilidade de expansão da coisa. Eu já disse que eu tive a impressão de que na Colômbia a coisa foi agarrada, e que a expansão se dificultou muito. Com esse negócio do Pedriali, eles estão procurando levantar aqui no Brasil, ainda agora recebi um aviso que o Dr. Plinio Xavier mandou o Glavan me dar, que amanhã vai sair a “Zero Hora” — o feitio do “Zero Hora”, que é o maior jornal de Porto Alegre hoje em dia, era ao menos um feitio pequeno, era tipo imprensa espanhola, jornais com muitas páginas, e páginas pequenas, e não o feitio brasileiro de jornal grande, e menos página — se a “Zero Hora” dá mais ou menos uma página do “Estado de São Paulo”, inteiramente consagrado contra a TFP. E que entre outras coisas tem declarações do Lorenzon e daquele outro que pertenceu à CPI, contra a TFP.

E tem também, já uma referência a uma participação do Dr. Plinio Xavier numa conferência lá no Sul, tem tudo isso. Agora, vamos ver que efeito isto vai produzir no Sul. Mas, não há sinal, pelo o que aconteceu em São Paulo, não há sinal que venha com esta carga.

Bem, mas o senhor pode pergunta o seguinte. “Está bem, mas se arrebentar o que nós podemos fazer? O que nos resta fazer?”

Eu acho o seguinte, se pode, em último rigor, prever o pior possível pode-se imaginar que Nossa Senhora permita vários malogros, vários insucessos. E que quando nós tenhamos chegado a um malogro quase impossível, Ela faça cessar a coisa por uma interferência d’Ela. E que aí nós tenhamos a Bagarre e o Reino de Maria!

Recorrendo a coisas que querem dizer pouco, eu contei aos senhores que uma pessoa que não merece muito crédito, há muito tempo atrás me disse que tinha recebido uma revelação de Nossa Senhora de Fátima, etc., a respeito do futuro da TFP. E a revelação era feita de tal maneira que me causou uma razoável impressão. Não é impressão assim de idiota, mas uma razoável impressão.

A revelação era no sentido de que iam se redobrar contra nós os ataques, e que Ela nos aconselhava a revidarmos com energia e prudência maiores do que nunca! Que os ataques seriam maiores do que nossas forças, mas que nos momentos adequados Ela interviria para agir!

Agora, lendo no Cuadernon de Soror Mariana de Jesus Torres, lendo Cuadernon eu me lembro muito bem dela descrever pessoas que ficariam reduzidas a um estado, passariam por um verdadeiro martírio, que era perseguição que sofriam. E que quando tudo perdesse a coisa, haveria uma ação d’Ela por onde aquela palavra — parece para os senhores castelhanos banal; para meus ouvidos brasileiros soa como muito pitoresca e cheia de significado, que é o desplomamiento — haveria um desplomamiento, e de repente — naturalmente ela não fala da Bagarre, mas entende-se que isso seria, portanto, ao longo de uma Bagarre — de repente reinaria a tranqüilidade, etc., etc.

E entre outras coisas que ela diz, é que toda as mudanças ocorridas na Igreja seriam como esquecidas, não se falaria mais disso, e todo mundo voltaria normalmente à boa ordem, etc., etc.

As duas coisas podem ajustar-se — não se ajustam necessariamente, mas podem ajustar-se para compor um quadro. Eu acho que nós devemos considerar esse quadro possível.

(Sr. Gonzalo Larraín: Não provável?)

Por enquanto não chegaria a dizer ainda provável. Não sei se está claro?

(Todos: Sim.)

Meus caros, claro também que fugite! Nós costumamos rezar aqui três Ave-Marias?…

(Sr. –: Oração da Restauração…)

Bem. “Há momentos…”.

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