Conversa de Sábado à Noite ─ 1/6/85 . 9 de 9

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Conversa de Sábado à Noite ─ 1/6/85

No desenvolvimento das famílias patriarcais há uma complementaridade recíproca, semelhante aos dedos de uma mão: nenhum é dispensável * A sacralidade natural das famílias patriarcais é um fator de santificação e de destilação da nobreza * As circunstâncias que condicionaram a formação da mentalidade do Sr. Dr. Plinio no sentido de fazer-lhe entender a complementaridade do universo: a São Paulinho; a Frαulein Mathilde * “Doçura com dignidade e força com repouso me pareceu sempre uma coisa indispensável para o bem-estar da minha alma”

* No desenvolvimento das famílias patriarcais há uma complementaridade recíproca, semelhante aos dedos de uma mão: nenhum é dispensável

(Sr. Guerreiro: Esse dom estava presente nas famílias antigas. Era algo que impregnava as famílias, conferia a elas uma certa nota de elevação e sacralidade que, nisso estava presente o “tal enquanto tal”.)

No amar isso, no conhecer isso e amar isso que estava.

(Sr. Guerreiro: Mas isso estava presente nessas famílias.)

Estava, estava.

(Sr. Guerreiro: Se o senhor poderia continuar a temática, como foi se formando isso na alma do senhor, etc.)

A pergunta não é sobre o conjunto dessas coisas doutrinárias, mas é sobre a gênese disso no meu espírito.

(Sr. Guerreiro: Ambas as coisas.)

Com muito gosto. Aqui é preciso tomar em consideração um elemento desta aristocracia antiga, que você esqueceu de mencionar, mas que eu estou certo de que estava no seu espírito, como dos outros, que é a importância do assunto patriarcado.

Quer dizer, a nota patriarcal de uma família, e a nota patriarcal explica uma tal série de coisas que a gente não pode deixar de tomar em consideração. Quando se trata de uma pessoa ou de uma família de um patriarca, que tem uma porção de descendentes, muito vasta, descendência muito vasta, ela constitui um embrião de reino, e ele é uma espécie de semente de realeza. E no desenvolvimento do clã patriarcal, a desigualdade entre os vários irmãos vai se fazendo à maneira fraterna. Não se faz à maneira, por exemplo, de irmãos que estão dividindo a punhal uma herança, mas faz-se à maneira de, por exemplo, se esses dedos pudessem pensar, eles ficariam encantados de se completarem e serem desiguais, embora cada um desses dedos tenha uma aptidão.

Vamos dizer que o dedo anular seja o menos útil deles, entretanto, sem ele a mão ficaria desfigurada. E se um de nós ─ que Deus no livre ─ não tivesse dedo anular, sentiria uma porção de falhas. Por onde a gente compreende que é um desfiguramento ele não estar presente na mão.

Assim também os irmãos menos dotados, menos brilhantes, etc., no clã patriarcal, eles têm uma razão de ser que eles não têm quando são uns pobres coitados jogados na rua, no anonimato. No anonimato da rua, o homem menos brilhante não é nada. Dentro da organicidade da vida de família, ele é como esse dedo ou esse dedo. Quer dizer, seria defeituoso se aquela família não tivesse também aquele. E completam, fariam falta, etc.

O sujeito sente assim que é indispensável, embora modestamente. A igualdade que é própria à criatura humana fica afirmada na indispensabilidade, embora não sejam indispensáveis de modo igualmente rigoroso e não sejam úteis para utilidade igualmente nobre, igualmente alta, etc., etc., a indispensabilidade existe. Um homem que perca esse dedinho, não morre com isso, mas é indispensável. Um homem que dissesse: “Não me corte aqui porque é uma coisa indispensável para mim”, diria uma coisa verdadeira.

* A sacralidade natural das famílias patriarcais é um fator de santificação e de destilação da nobreza

Aí também, entre os troncos, a decadência, etc., a gente vê, aliás, na Bíblia tem muito disso, como as tribos foram se dispondo em dignidade, as tribos do povo judaico, foram se dispondo em dignidade, em hierarquia, umas em relação às outras, por disposições, por virtudes, por méritos, por prêmios, por castigos, toda uma coisa, mas pertencendo a um todo eminentemente orgânico, que é o povo de Israel.

Então, essa espécie de matéria-prima patriarcal explica mil coisas, mas mil coisas. E ela tem uma espécie de sacralidade natural que a sacralidade eclesiástica não dispensa. A sacralidade eclesiástica é sobrenatural, é superior, muito superior, mas não dispensa. A igreja é sequiosa de tomar essa criação de Deus que é a realidade patriarcal, fazer chover sobre esta coisa tão cheia de favores naturais as bênçãos sobrenaturais.

E talvez o melhor modo de aristocratização não seja o heroísmo no campo de batalha, mas seja a patriarcalidade, com tudo quanto ela tem. Que explica também uma coisa que, você dando o exemplo, uma coisa difícil de explicar, precisa de doutrina, precisa de tudo, e que salta aos olhos, é a questão da família antiga. Porque a explicação vulgar, pequenina é a seguinte: todos nós somos descendentes de famílias antigas, porque descendemos de Adão e Eva. Isso é uma coisa vulgar, uma piada de botequim, não corresponde a nenhuma realidade, ou há pouco de real. A realidade que corresponde é outra coisa: a gente vê um clã patriarcal que dura séculos, o tempo confere àquilo uma sacralidade multiplicada pela sacralidade. Que ainda que este clã não se tenha elevado a uma condição de nobre, algo de nobilitante fica ali dentro, e de respeitável, que não se pode negar.

E isto, numa família nobre, realça mais do que numa família comum, mas em todos é um valor que depende da patriarcalidade. Então nós teríamos que tomar mais a patriarcalidade e mais o carisma aristocrático. Portanto, acrescentando à sua exposição, e talvez tendo dito alguma coisa a mais, talvez, do que da outra vez, sobre isso, e uma coisa que explica pelo fundo inteiramente as coisas, a gente vê também como desse tecido, como com o jogo de tempo, das almas eleitas, das grandes ações, dos grandes cargos, uma família plebéia vai se levantando e vai se aristocratizando. Essas coisas todas juntas são indispensáveis, elas constituem um todo para dar origem a essa espécie de linha especial de melhor qualidade que é a aristocracia.

E faz muito, muito, muito da aristocracia o seguinte: que por causa dessa conjunção de fatores naturais e sobrenaturais, algumas coisas do bom aroma de Nosso Senhor Jesus Cristo brilha mais adequadamente no nobre do que no plebeu.

* A inteligência e outras qualidades naturais tomam mais realce quando vistas em alguém que pertence à nobreza

Eu agora estava falando aos “enjolrinhas” a respeito de douceur de vivre, outras coisas assim. A douceur de vivre não é uma coisa privativa dos nobres, mas a douceur de vivre da nobreza é mais doce. Quando ela realmente a tem, é mais doce. O heroísmo cristão do nobre, quando ele realmente o tem, é mais nobre. Enfim, todas as virtudes cristãs, quando se realizam num nobre, recebem das circunstâncias da nobreza uma espécie de riqueza especial que, por exemplo, quando um nobre é muito inteligente, aquela inteligência tem uma nota a mais. Por exemplo, não é indiferente saber que o Churchill era nobre. Não é indiferente que um homem ─ que aliás não tem grande inteligência, mas é um homem inteligente ─ o arquiduque Otto descendente de Maria Tereza. Olhem que ele é o prostituidor do título que tem, mas apesar disso não é indiferente saber.

É agradável ver que as grande estirpes florescem em grandes homens, e que até dão santos, é agradável ver. Aí a gente compreende melhor o papel da nobreza.

De maneira que a gente pode fazer meditação sobre a santidade, vendo através do vidro de aumento da nobreza. Eu, com isso, não pretendo afirmar o seguinte: que o nobre é necessariamente mais santo do que o não nobre, seria uma cretinice. Um não nobre pode ser muito mais santo do que um nobre. Mas o que eu quero dizer é que, a um que é nobre e santo, a condição de nobre diz em algo respeito à sua santidade. E que ele perderia em algo se não fosse nobre. E é a razão pela qual toda biografia de santo feita até o Concílio [não] prescindia de dizer: “De nobre família tal, da ilustre casa dos tais”, sempre, para situar aquele santo dentro daquele contexto nobiliárquico, especialmente mencionado.

* As circunstâncias que condicionaram a formação da mentalidade do Sr. Dr. Plinio no sentido de fazer-lhe entender a complementaridade do universo: a São Paulinho; a Frαulein Mathilde

Agora, como é que essas idéias, essas coisas foram se formando no meu espírito?

Para usar uma expressão francesa, tout bonnement, quer dizer, do modo mais simples possível. Eu não pretendo que tenha sido de um modo extraordinário, é do modo mais simples possível, com uma graça de Nossa Senhora, para eu aproveitar o que outras não aproveitam, quer dizer, houve aí um favor d’Ela, mas a coisa é muito simples.

Eu acho que eu tenho, talvez, um pouco mais de dom natural para observar isso, o que vou dizer agora, talvez também alguma graça sobrenatural maior, mas acho que, grosso modo, eu sou mais propenso a achar que todo mundo vê o que eu via. Mas eu descrevo como é.

As circunstâncias faziam com que não houvesse na São paulinho, propriamente um bairro fino, no sentido que hoje se toma a palavra, quer dizer, um bairro onde tenha casa de primeira qualidade. Mas as casas de primeira qualidade eram misturadas com casinhas, etc., etc., de maneira que eu tinha diante de mim as várias condições sociais convivendo. Por exemplo, em frente à casa de vovó havia umas dez casas que serviram… os que trabalhavam lá eram todos de nível operário abastados, logo em frente à casa dela, na mesma rua onde morava o Conselheiro Antonio Prado, um magnata aqui em São Paulo. Mas ninguém estranhava isso, era o normal. E eu acho sadio, não acho estranhável. Isso era assim.

E a lenda da nobreza européia, da aristocracia, da grande pompa européia era mantida em mim por alguns fatores de ambiente de casa; a história da família imperial, que a gente imaginava infantilmente quase como o rei e a rainha do baralho, com aquela coroa, com aquelas coisas todas. Depois, fatos, participação dos antepassados meus em coisas da vida do Império, aquela história de mamãe contar que o avô dela foi quem ensinou a imperatriz a dançar, essas coisas todas, tudo isso mantinha uma certa atmosfera assim da corte imperial do Brasil, etc.

Depois, a idéia de que eles moravam na França e estavam misturados na alta nobreza francesa, aumentava ainda mais essa idéia. Mas muito, muito, muito a Frαulein Mathilde, que a Frαulein Mathilde tinha servido em casas nobres. Uma casa de família nobre polonesa, não me lembro como chamavam, me lembro das duas moças a quem ela servia de governante, chamadas Gledes e Monona, que tinham uma educação meio inglesa, dadas a essas moças polonesas, por uma Frαulein alemã. Era o cosmopolitismo da Belle Époque.

Mas então a casa da Gledes e da Monona era um apartamento em Paris, mas tinha, entre outras coisas, um espelho tão bonito que, nos períodos bonitos do ano que se podia, abria a casa para fazer limpeza, etc., as pessoas que passavam pela casa e viam de fora o espelho, ficavam paradas, formando grupinhos, olhando o espelho. Bem, que nos dava a idéia de um mundo que não era o de São Paulo, porque ninguém ia parar em frente da casa de Dª Gabriela para olhar os espelhos que tinha dentro. Já era outro mundo.

* O casal polonês que ofereceu ao Sr. Dr. Plinio de ir morar no castelo deles

Ela contava quantos fatos! Depois também um conde polonês que nós conhecemos em Wiesbaden, que é uma estação de águas onde mamãe foi passar uma temporada e o conde polonês quis a todo custo me levar para a Polônia, me educar, etc., etc., tomar-me como filho. Então ele procurava me comprar. Eu dizia que não. Então ele:

Eu compro para você tal coisa, arranjo tal outra, tal coisa, tal coisa.

E eu dizia para ele:

Está bom, mas eu pergunto: mamãe vai comigo?

Ele dizia:

Não.

Eu dizia:

Então eu não quero. Ou mamãe vai comigo, ou…

Não perguntava por mais ninguém, mas mamãe, isso era condição absolutamente necessária.

Naturalmente a Frαulein chegava em casa e contava para ela e ela ficava derretida… [Risos]. Contente, comprazida. Isso qualquer mãe ficaria no lugar dela.

Mas o conde me contava toda espécie de coisa.

Você gosta do quê? Eu tenho um parque enorme, você gosta mais… Eu mando fazer um carro para você, mas você gosta mais de puxado a cabrito ou puxado com carneiro…

Sei lá com que, que bichinho. Eu dizia:

Mas olhe, põe uma pele assim no banco.

Ele:

Ponho.

Ele ia provocando e eu ia dizendo o banco como eu imaginava, eu sempre comodista, gostando de carro, tudo está bem, mas eu bem sentado. Do contrário esse carro não me interessa. E ele contando, tal…

Ele contava todo o castelo dele, todas as coisas dele, tudo isso punha o mito europeu enormemente em foco, mas enormemente. E um pouquinho Versailles que eu tinha querido comprar, da carruagem do rei e da rainha, essas coisas todas formavam um conjunto enorme de observações que iam desde a casa do prequeté em frente da casa de vovó, até, se quiser, até as suntuosidades de Versailles, formavam uma escala enorme.

A Becassine concorria muito para isso, a Marquise de Grand’Air, Mme. de Grand’Air, depois o oncle Corentin, aquelas coisas todas, as diferenças das classes, tudo isso, mas que era apresentado como a coisa mais natural do mundo mas com a qual eu tinha uma conaturalidade no seguinte:

* A admiração serviu-lhe de guia na harmonização das coisas grandes às pequenas, sem desprezar nenhuma delas

Eu, toda vida fui muito propício a admirar. Onde eu encontro o que admirar, eu encontro um bem-estar para minha alma, fico satisfeito, fico contente, etc., etc. Essas coisas todas são muito admiráveis. Representavam graus diversos de admiração. E, diante desses graus diversos de admiração, graus diversos de entretenimento, eu percebia bem que a coisa mais alta não tornava supérflua a coisa mais baixa também, e como era bonito, como era orientado, e gostava de deter meu espírito nos vários graus de admiração, sem fazer disso uma coisa consciente. Eu tinha plutôt a idéia de que todo mundo era assim.



Mas isso se pôs muito em níveis comigo. Mas que vinham ligados com algumas idéias, como, por exemplo, essas observações começaram muito antes de eu saber como se dava a perpetuação da espécie humana. Mas, quando soube, eu tive uma impressão de que em algo o pecado contra a castidade trazia uma ruptura violenta do aristocratismo, e que todos aqueles esplendores aristocráticos que eu amava eram esplendores que eram conaturais com a pureza. E que, portanto, a aristocracia era uma instituição purificante. (…)

[vai bem à nobreza] ser veraz. Vai bem à nobreza ser casta, vai bem à nobreza isto, aquilo, ser caridosa. O jeito de Mme. de Grand’Air, que pela ficção era uma marquesa, tratar aquele pessoal do Corantin, de Becassine, da [Quelouche?], etc., etc., era uma coisa cheia de bondade, mas uma bondade especial. Vovó conversando com a ex-escrava Honorata, era uma coisa que tinha uma beleza especial. Então a nobreza embelezava tudo. E era, propriamente um estado de formosura e de beleza era o estado de nobreza. Estado de virtude, de formosura e de beleza. E é como eu concebia.

Esse conjunto desses predicados me pareciam a mim naturais como é natural estarmos sentados em cadeiras para conversar. É assim que a gente conversa.

* O primeiro choque com a Revolução foi quando conheceu o futebol

Quando eu tive o choque com a Revolução, meu primeiro choque, para ser bem pormenorizado, meu primeiro choque não foi quando eu soube da questão de como se dava a procriação, porque a gente compreende, afinal de contas, que aquilo é legítimo, mas eu via a impureza que se misturava nisso. Mas não foi isso. Foi numa outra coisa. Antes disso, quanto eu vi o futebol.

No São Luís tinha três recreios. Até o fim teve três recreios: para os menores, para os médios e para os maiores. Os três recreios eram três campos de futebol e o tempo inteiro se jogava futebol. A atitude dos meninos quando jogavam, o fato do jogo ser feito com pontapés na bola, o modo de torcer, vulgar, hollywoodiano, que se utilizava, como todos transpiravam, como todos ficavam fétidos, tudo junto, me dava a idéia de uma coisa feita contra esta ordem que eu queria.(…)

tênis e depois baseball, que era fazer entrar num saco, com as mãos aquilo. O futebol, quando terminava tudo, empestava tudo. Foi o primeiro choque que eu tive, em comparação com a esgrima e com o duelo que me encantavam.

Depois veio o choque procedente das maneiras vulgares norte-americanas que estavam na minha geração, mas que não tinham entrado na minha família e que, portanto, causava muita estranheza. Daí para frente. A observação precedeu a doutrina. O filling precedeu a observação teorizada e a observação teorizada precedeu a doutrina.

Não sei se é isso que vocês queriam saber.

(Sr. Guerreiro: Qual era o pressuposto que o senhor tinha contra o qual havia o choque? Há algo de raiz que é muito próprio da família do senhor. O que é isso?)

Quer dizer o seguinte, meu filho, isso eu descrevi no plano natural, mas eu esqueci de dizer que havia um qualquer discernimento dos espíritos que me levava a perceber quais eram as virtudes sobrenaturais católicas que correspondiam a essas excelências. De maneira que o meu ravissement com a Igreja Católica, porque a Igreja Católica era o próprio foco de irradiação de tudo isso. E era uma espécie de luz que, quando se encontrava com esta luz aqui, formava um encontro maravilhoso que eu gostava especialmente.

Dou a você um exemplo. Esta caixa que está aqui. Essa coisa, o que tem aí, no fundo, é namoro que está representado, um namoro a la francesa, Ancien Régime, mas é um namoro, inegavelmente. Mas esse namoro que tem um elemento de tanta suavidade de panorama, de tanta delicadeza de cores de trajes, cortes de trajes, modo das pessoas se relacionarem que quase se diria que fica expungida a sensualidade desta representação. E eu acrescento mais, a cena vista assim, é uma preparação ideal para o casamento, porque assim que se fica noivo. Preparação para o noivado e, posteriormente, casamento, é esse ambiente aqui.

Agora eu me lembro de eu raciocinar isto. Eu era menino assim de uns catorze anos, coisa assim, talvez, quando eu raciocinei isso, olhando para esta caixa. Eu dizia: “Isto existe na natureza e existiu historicamente assim” ─ aliás, eu conheci uma porção de objetos assim, essa caixa não tem nada de extraordinário, eu conheci uma porção de objetos dessa época que mais ou menos reproduzia essa. A escola disso que é muito boa, mas isso é um exemplar comum de uma escola magnífica. Estou analisando a escola, não estou elogiando a caixa. Então eu dizia: “Essa natureza existiu assim?” Evidentemente não é. Os franceses desse tempo, quando passavam, viam a natureza, selecionando internamente esses aspectos que ela tem. Vivendo num seletivo que, quando eles estavam lá, notavam que estavam aqui. Mas que se levava uns e outros, a uma espécie de afetividade e à doçura de todas as coisas, mas uma afetividade respeitável, uma doçura respeitável, suave e séria ao mesmo tempo, que forma uma espécie de perfeição no seu gênero, da alma humana, que é uma coisa que não teria sido assim se Nosso Senhor Jesus Cristo não tivesse se encarnado, não tivesse se feito Homem, não tivesse morrido por nós na Cruz.

Até eu ainda raciocinava: “Falta uma certa seriedade. A Idade Média era mais do que isto, mas entre isso e o moderno há um tombo fenomenal, de maneira que eu recomponho minha alma, considerando isto”.

Mas nisso entrava algo de discernimento do sobrenatural da Igreja.

* Comentário do vaso de alabastro comparando-o às virtudes da pureza e da seriedade

Eu estou aqui cercado de objetos do me tempo de infância. Posso, portanto, exemplificar. Vejam aquele vaso lá. Aquele vaso, eu já disse a vocês que é um vaso do Imperador, e de alabastro. O bom do vaso é uma dupla coisa; excelência do alabastro enquanto pedra, daquele alabastro enquanto pedra. Há um alabastro sul-americano que não se compara com esse. Mas, enquanto pedra, ele visto aqui, parece feito de seda, parece uma seda feita pedra.

Mas, mais do que isso, mérito do vaso, que não foi minha família que comprou, foi o Imperador que mandou comprar, é a perfeita proporção entre a altura e o diâmetro em cima, da abertura, calculada em função do modo inteiramente bem distribuído com que o vaso se alarga e passa do diâmetro para a parte de baixo numa harmonia e numa coerência de linhas que é perfeita. Bem, isto me lembra alguma coisa da virtude da pureza. E esse embasamento do bronze, com as duas alças de bronze, me lembram alguma coisa da seriedade que deve enquadrar a virtude da pureza.

Você está vendo que nisso entra uma espécie de percepção a la discernimento dos espíritos do que é a virtude da pureza quando a graça a dá. Não é a pureza de uma vestal romana, é uma coisa incomparavelmente superior: é a de uma virgem consagrada a Deus por amor de Nosso Senhor e a rogos de Nossa Senhora.

A temperança que dá aquilo, o domínio de si. A alvura, equilíbrio e a força da pureza. É perfeito.

Um membro do Grupo de boa família me disse que não gosta desse vaso, acha até feio. Mas… é-me lícito tê-lo.

(Sr. Guerreiro: Primeiro nasceram no senhor uma série de impressões que, com o passar do tempo, aí o senhor se deu conta que o ponto mais alto delas então a noção da pureza, foi isso?)

Isso. Então, primeiro eu olhei, gostei de olhar, gostei de olhar, achando liso…

(Sr. G. Larraín: O senhor tocava nele, não é?)

Tocava. Escondido, hein! Porque era proibido. “Menino maluco que vai derrubar o vaso… Não pode!” Mas então eu tocava, eu examinava, via o peso enorme para minha musculatura de menino, e tudo isso… Depois, em certo momento eu compreendi que, quando eu admirava a pureza, admirava coisas análogas a isso. E aí o explicar mais para mim porque eu gostava disso.

* “Doçura com dignidade e força com repouso me pareceu sempre uma coisa indispensável para o bem-estar da minha alma”

Uma coisa que toda vida eu gostei enormemente é tratar com pessoas cuja disposição de alma fosse afável, luminosa, macia, cordial, levada a toda forma de bem e de generosidade, de bondade, eu gostava enormemente disso. Isso você vê que é uma virtude católica que eu percebia, por discernimento, na Igreja e nos filhos da Igreja, nos verdadeiros filhos da Igreja. E percebia a ponto de me encantar, de me deleitar, de me extasiar. Donde a idéia: a vida deve ser assim, o trato é esse. Fora disso o trato não é trato, não vale nada.

Agora, esses objetos que eu estou falando, convidam à idéia de um trato assim. Por exemplo, vamos dizer o que, fórmica não convida.

(Sr. G. Larraín: O ambiente todo aqui…)

Convida a uma vida afável, mas que é ao mesmo tempo respeitável, afável, pura e voltada para o Céu.

Agora, como fui vendo isso? Vendo essas coisas, mas não só aqui em casa. Vendo em mil lugares, mil coisas em mil situações, em mil coisas. Estamos exemplificando com coisas que estão ao nosso alcance, simplesmente. Vendo, vendo, vendo isto e vendo a virtude e a Igreja. Em certo momento eu percebi que, com o mesmo olhar com que eu admirava uma coisa, admirava outra. Daí os “ambientes e costumes”. O gosto da cortesia antiga, das fórmulas, etc., etc., não é por arcaísmo. Tanto é que não é por arcaísmo, que eu acho essas fórmulas mais bonitas no Ancien Régime do que na Idade Média. O Ancien Régime já é meio revolucionário. Mas eu vivo dizendo que o Ancien Régime representou um progresso em relação à Idade Média. Mas é nesta linha.

E essa doçura com dignidade e força com repouso me pareceu sempre uma coisa indispensável para o bem-estar da minha alma, mas também para as coisas como devem ser. De maneira que vocês notarão que no ambiente em que minha influência seja determinante, se entra briga, fusquinha, essas coisas, e rabugice, entra em contradição do que eu quero estabelecer, porque eu quero estabelecer exatamente distinção, cordialidade, afabilidade. Se alguma coisa anda mal, perdão, jeito. Os casos eu abomino. As rixas… Vocês nunca me viram criar rixa com ninguém. [Vira a fita]

A tal ponto que, se eu fosse de um modo diferente, o Grupo não existiria.

Imaginem que, simplesmente houvesse isso: um objeto caro, talvez mais caro do que os objetos que estão aqui, um cinzeiro de cristal talhado [a la bruta?] moderna, com aqueles chanfros, aquelas formas irregulares. Para mim, eu ficava mal à vontade na sala. É preciso pegar o cinzeiro e levar embora.

Bom, então, para dar um pontapé no demônio, eu devo dizer o seguinte: que eu não quero pretender com isso que esses objetos sejam in concreto uma maravilha. São espécimes bons de uma escola maravilhosa. E aqui o que nos importa é considerar a escola, o pensamento que está atrás disso, é isso que interessa.

(Sr. [M.B.??]: Apesar disso são muito bons. É raro se ver um objeto desses numa casa.)

Esse vaso é excelente. Mas tomem, por exemplo, essa caixa, esses vasos aqui, etc., são coisas boas correntes, são correntes. Mas eu não quero, portanto, de maneira nenhuma estar supervalorizando isso enquanto valor, não me entra na cabeça.

(Sr. Guerreiro: Isso está muito claro, nem se pensa nisso.)

É outra idéia. É a expressão espiritual, psicológica, que essas coisas têm. É disso que quero falar.

Agora, o…

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