Conversa da Sábado à Noite – 27/4/1985 – p. 12 de 12

Conversa de Sábado à Noite — 27/4/1985 — Sábado (Neimar Demétrio)

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Transcendência e Afeto

Então? Onde estão os “senadores”…!? Bom, enquanto não chegam os senadores, vamos dar apalavra à “Câmara dos deputados”! Se houver algum “deputado” querendo fazer alguma pergunta, eu estou à disposição!

Há alguma pergunta?

(Sr. Luís Francisco Beccari: O senhor tem tratado a respeito da transcendência; não sei se o senhor poderia tratar um pouco como é que o senhor imagina a modelação da sociedade temporal, segundo esse espírito de transcendência e do afeto; por exemplo, como o senhor imagina o trato do feudalismo na Idade Média, e como será no Reino de Maria este relacionamento.)

Eu vou responder uma coisa que não responde muito a sua pergunta, é um pouco paralela, mas é uma coisa que se relaciona mais com o que foi dito no Auditório São Miguel, mas havia coisas que diante dos enjolrrinhas novos eu não queria dizer.

Quando… eu conhecia aquela linda resposta, que eu não me lembro se é um dos três chefes da Insurreição Pernambucana, que eles iriam resistir ao Rei e que quando terminasse a resistência iriam a Lisboa receber o castigo que a desobediência deles merecesse.

Qual? Foi um dos três?

(Sr. –: Foi de Fernandes Vieira.)

É. Enfim, foi uma muito bonita resposta, né? Eu não tinha me lembrado de uma coincidência muito feliz, que é a seguinte: há uma analogia entre esse dito dele e uma situação parecida, que é um dito do Manifesto da Resistência, a Paulo VI: “Nosso coração é Vosso, nosso… enfim, nós Vos pertencemos. Mas, não nos pedis uma coisa: que cruzemos os braços diante de vossos adversários que avançam.”

É uma analogia muito bonita que mostra a graça quando vai pedindo a uma nação uma continuidade numa determinada linha! E aí os senhores têm, ao mesmo tempo, uma fidelidade abrasada, mas um senso do dever que… não é propriamente colocar a fidelidade acima do dever ou o dever acima da fidelidade, mas que mostra o que consiste o dever da arquifidelidade! Aqui está a questão! Forma uma tão bela analogia, que numa declaração de Mons. Lefebvre a — creio que ainda era Paulo VI, ou posterior, enfim, posterior a nosso Manifesto da Resistência — essas palavras reapareceram tais quais, sem mencionar o autor, bem entendido, mas reaparecem tais quais.

Bem, agora, enquanto não chega o resto do senado, vamos então dizer mais uma palavrinha. Qual era a pergunta mesmo meu filho?

(Sr. Luís Francisco Beccari: Transcendências e afeto modelando a sociedade temporal, etc. )

A transcendência, quer dizer, o por onde as verdadeiras superioridades se manifestam e se manifestam no vinco de sua superioridade e na força de sua capacidade de se impor, mas também no afeto, no seu senso de proteção. Depois, o contrário, a fidelidade por onde aquele que recebe a proteção se manifesta na força de sua admiração, na força de seu émerveillement, na força de sua dedicação, mas também na convicção de que a ele cabe um certo quê de dignidade própria, e que esse quê na terra ninguém pode pisar. Este equilíbrio se manifesta em tudo, em toda sociedade. Porque a sociedade é feita de organismos e os organismos são feitos de hierarquia; e a hierarquia vive disso. Onde houver uma hierarquia onde não haja isto, nós temos um organismo defectivo, que está condenado a morrer.

Toma o mais elementar das organizações. Imagine, por exemplo, uma coisa — parece que hoje não existe mais quase isto, antigamente existia muito — oficinas feitas só para consertar sapato. Existe ainda hoje ou acabou?

(Sr. –: Sim, existe.)

Bem, é uma das coisas mais modestas que há, ainda mais no tempo em que eu prestava atenção nessas coisas, em que isto era feito à mão e não à máquina. E era um trabalho, portanto, que absorvia o homem e absorvia todo o trabalho humano. E uma coisa modestíssima: pegar o salto gasto de um sapato velho e recolá-lo ou repregá-lo no sapato, de maneira continuar a servir. Nem é trocar o sapato! É colocar, é jungir o sapato velho no salto velho, para tocar a coisa para frente.

Está bem. Se nessa oficina o superior for respeitado como superior e se sentir nele o sapateiro superior… quer dizer, superior no quê? Ele é superior porque ele é o dono; ele é superior porque ele tem o mando. Mas, é superior também porque ele possui inteiramente o ofício e sabe, por exemplo, como ninguém, salvar do sapato, do naufrágio final o sapato velho que está… [Risos]

e cuja modesta glória consiste em remediar a situação como que irremediável dos sapatos velhos! E fica marechal da sabedoria e das astúcias e da força em salvar sapatos velhos! Esse homem representa para os outros uma espécie de plenitude; e esta plenitude os outros a consideram e a admiram. Mas, ele tem a alegria de ensinar o métier aos outros, de os proteger e fazer também com que o trabalho deles cresça cada vez mais. De maneira que é uma honra para ele poder contar que, ao longo da vida dele, quinze ou vinte dos seus empregados fundaram novas sapatarias em outras cidades.

E depois comentar: “Olha, muito sapato que você vê na estrada, fui eu, ou foram meus discípulos que consertaram. Esses sapatos agora palmilham nas estradas do Brasil!” É uma coisa bonita! Existe no fundo este jogo de transcendência. Existe na família, existe na escola…

Aquela famosa exclamação de Santo Agostinho: “Imaginai um exército fiel, um rei fiel, os soldados fiéis, tátátátá…”, tudo certo. Está bem, no que está a fidelidade? Está na transcendência e na proteção. Não, exclusivamente; mas, em grande parte. Está claro?

Bom, mas agora há quorum para a reunião do Senado! De maneira que eu proponho que os senhores senadores façam perguntas. Eu estou à disposição!

(Sr. Guerreiro Dantas: Para ficar nesse assunto, como deveria ser a vida de um sapateiro assim, a contemplação que ele teria da vida, como é que ele modelaria a alma dele, de maneira a ter aquela riqueza própria que Nosso Senhor pede de todo homem. E como é que ele se defenderia dos aspectos mais prosaicos que o trabalho dele forçosamente apresentam. Se o senhor pudesse ir comentando alguns ofícios assim, mais simples e modestos, dentro dessa visão, como eles seriam exercidos no Reino de Maria, etc.)

Eu creio que muitas pessoas a quem o senhor perguntaria ou fizesse essa pergunta — aliás, eu não creio que o senhor fizesse essa pergunta a muita gente, mas, enfim… —, muitas pessoas a quem o senhor fizesse essa pergunta, haveriam de responder da seguinte maneira: “Bem, ele tem essa humilhação enquanto conserta sapato, etc.. Mas, terminado isto, ele vai para a capela e vai para a capela, e vai para a Igreja da corporação dele e reza lá e, ali, ele pensa em Nosso Senhor Jesus Cristo, em Nossa Senhora e sua alma se eleva, etc., etc..

Eu acho que esta pessoa lhe daria uma resposta muito verdadeira, mas, não daria a resposta inteira. Há, talvez lhe dessem até o mais alto e mais belo da resposta, mas, não deixa de ser verdade que a resposta inteira não teriam dado. A pergunta é esta: “Se o indivíduo passa — vamos tocar a coisa de frente — se o indivíduo passa consertando sapatos usados e, entre outras coisas, tem o mau cheiro dos sapatos usados e passa consertando isso a vida inteira, ele passa tendo diante de si coisas prosaicas e que podem desfigurar a alma. Isto posto, como conseguir que o indivíduo passe o dia inteiro tratando disso, sem que isso deforme sua alma?

Que lhe possa fazer uma desintoxicação disso na capela, depois, compreende-se. Mas, é só isso? Então, é por intoxicação metódica e desintoxicação periódica como quem respira e expira? É assim que se faz isto?

Sente-se que a resposta não é completa e tem alguma coisa que precisa ser tratada. É dessa alguma coisa que eu quero tratar porque, entre nós católicos, o resto — que é lindíssimo, entretanto, é óbvio —, não vale a pena a gente tratar isto a uma e meia da manhã. Mas, tratar desse ponto, vale a pena.

Acontece o seguinte. O senhor imagine, antes, um sapateiro que faz sapatos para a gente poder compreender bem a coisa. Um sapateiro que faz sapatos novos. Ele percebe, ele vê quanto o sapato ajuda a manter a integridade do pé para o indivíduo poder andar; e quanto o sapato ajuda também para que o indivíduo tenha um passo rápido, decidido, nobre. É natural. E ele tem a alegria de servir o ser humano dotando-o disso que é necessário para que ele seja inteiramente ele.

De maneira que quando ele vê passar diante da loja dele, andando com passo decisivo, um magistrado, digamos, para o qual ele fez os sapatos, ele, em vez de pensar: “Este homem estudou muito, este homem é respeitável porque ele exerce a função de juiz, a judicatura de si é uma função respeitável, etc., etc.”, ele não pensa nada disso; ele olha e diz: “Sim senhor! Também, com esses sapatos, é natural!”

Não que ele ignore o resto porque ele não ignora. Mas, é porque a sua atenção é prevalentemente chamada e legitimamente chamada para aquilo que é a colaboração que ele deu para que um homem ande, que é uma colaboração que ele deu para que o juiz julgue porque, evidentemente, o juiz não pode ir julgar sem sapatos.

Bem, e ele se sente, por exemplo, ouve falar: “O juiz hoje deu uma sentença brilhante.” Ele pensa: “Também não teve nenhum mal-estar nos pés durante este tempo; gozou de inteira tranqüilidade. Eu colaborei para a sentença dele.” Colaborou mesmo.

A gente compreende o que ele legitimamente vê de belo na sua profissão.

Agora, o sapato velho, surrado pelo uso, tem isto em parte. É o pobre que não teria como andar, ou que andaria mal, cuja mínima dignidade radical estaria negada se ele fosse um homem que anda a pé descalço; que vai dar a este que tem apenas este minimum de condição social, este minimum de título credencial diante dos outros, este mínimo tem seu par de sapatos. Ele vê passar o homem à testa de sua família para o qual ele concertou os sapatos. Este homem não teria dinheiro para pagar [um] sapato novo. Ele pensa: “Lá vai a família feliz e contente, toda junta, para a missa porque eu consertei o sapato dele, salvei o sapato dele do naufrágio e ele, talvez, de vergonha não saísse hoje de casa. Porque, o sapato melhor ele tem que poupar para as visitas que ele faz durante a semana para o trabalho e o sapato pior não está funcionando. Que vergonha tem esse pobre coitado de não ter nem isso…! Que medo de ser desprezado pelos filhos e pela mulher…! Agora, vai ele contente… por quê? Porque eu lhe salvei os sapatos. Olhe como ele pisa firme e olhe como ele vai resoluto para a missa! Ele não [tem] preocupação, por quê? Porque eu entendi que em tal ponto assim é preciso pôr tal prego! E tenho costume, sei bem, quando o couro começa a rachar, o que é que se passa no couro para evitar que ele rache. Lá está o sapatão dele e durante muitos e muitos domingos, ele passará diante de minha porta assim, e eu direi a Deus: ‘Meu Deus, ele vai Vos adorar! Meu humilde serviço concorreu para isto!’”

Compreende-se que o homem tenha essa disposição de alma, então, diretamente na profissão e que o prosaico da profissão chegue a isto: “Eu, afundado no mesmo prosaísmo que ele, entretanto, juntos, pudemos fazer está bonita coisa: ‘Eu pus um homem em condições de Vos adorar, ó meu Deus. E eu sei que Vós entrais, Senhor, encontrais Senhor, um sabor especial na adoração de gente assim. Não terão sido assim as sandálias de São Pedro? Não terão sido assim as sandálias de São José? Senhor, recebei esta oblação! A oblação do sapato velho que estava para naufragar e que eu salvei.’”

Mas, há mais ainda, que é especial, e que é o seguinte. O homem quando usa muito uma coisa e esse homem tem alguma dignidade e alguma personalidade, ele comunica o seu quê até ao sapato velho que ele usa!

Eu, uma vez, entrei numa casa — uma família, mas uma família um pouco modesta… aliás, dinheiro tinham, não tinham bom gosto, muito “caipirosa” — encontrei um bibelôt em cima de uma mesa no living da casa da família, uma coisa que eu suponho seja feita de gesso, e que representava um sapatinho de criança muito usado, mas que tinha isso de interessante — esta obra de escultura em gesso modestíssima! — tinha isso de interessante: que o modo de estar usado deixava entrever o temperamento da criança! [Exclamações].

E os senhores têm essas exclamações porque percebem que pode acontecer que um sapato exprima assim um modo de…

Então, o sapatão de um peão, de um trabalhadorzão, pode exprimir alguma coisa de sua personalidade, que o outro que vai trabalhar, trabalha com gosto, porque isto é uma obra escultural feita com os pés, e não com as mãos, e onde o indivíduo deixa alguma coisa de seu próprio simbolismo.

É por isto que eu compreendo que o filho de um operário goste de guardar no armário o sapato de seus pais, por exemplo. É por isto que completa tanto o perfil moral de camponês, holandês e português, o tamancão. Tamancão de madeira, que nem é amolgável à personalidade do indivíduo como é o sapato de couro, mas é o tamancão que o fulano usou e quebrou como um tímpano no chão, sob o peso dos passos dele, à maneira dele! O passão dele, este tamancão marcou. Consertando o tamancão, eu salvo alguma coisa dele. Será uma recordação para mim.

Bem, mas ainda há mais. Eu estava outro dia comentando isto com o Átila. Sistema brasileiro — eu não gosto muito: quando, uma pasta de couro, destas de ser levada na mão, o sujeito vai comprar, ele compra uma pasta bonita e não se preocupa muito em que ela seja durável. Também logo que ela começa a envelhecer, ele joga fora e compra outra pasta. Então, as pastas dele são sempre meio novas ou novas inteiras. E se ele tiver que usar uma pasta muito surrada, ele tem vergonha disso.

Sistema europeu, sobretudo, alemão: se tem que comprar uma pasta, compra uma pasta de uma duração indefinida e sabe em que loja da cidade onde ele mora, ele deve levar a pasta para consertar de vez em quando. E quando a gente olha para a pasta, é uma pasta surrada, com vários consertos consecutivos — Consertos? Digo mal… —, várias encerradas consecutivas e que a gente vê que aquela pasta passou por várias eras, e vários rejuvenescimentos.

Está bem. A gente, na resistência da pasta ao uso e na durabilidade dela, habilmente acentuada por um consertador de pastas que sabe fazer a história, vê-se algo da excelência do couro. O couro, generoso de si, que vai dado sucessivas sangria de si mesmo e que tem mais algo… Essa duração do couro que, lhe dá a respeitabilidade do velho! É muito diferente do courinho, novinho, bobinho, da pastoca que vai durar pouco, e da qual o dono não quer que dure muito.

Eu não sei se os senhores já realizaram bem o que eu estou dizendo…?

Assim, por exemplo, de tantas outras coisas. Há donas-de-casa — em geral não são brasileiras — que são peritas em fazer durar uma coisa útil indefinidamente! Bem, alguém dirá: “Sovineira!” Eu acho que é espírito conservador. No esplendor do espírito conservador! Faz uma coisa durar, e a coisa fica massacrada pelo uso, mas resiste nobremente! Esse massacre, o fato de que o couro foi capaz de toda essa resistência, lhe dá uma certa respeitabilidade! Dessa respeitabilidade participa o couro do sapato velho!

Eu não sei se me expliquei bem igualmente para todos… porque eu acho que alguns são tão jovens que nem conheceram lojas que consertam assim os objetos, nem nada disso… Acho que isso não existe mais hoje, não é?

(Dr. Edwaldo Marques: Ainda existe, mas são raríssimos.)

Existe, mas são raríssimos, não é? Antigamente era corrente. E era a glória do couro. Um homem fabricava uma pasta de couro, não com esse intuito gatuno de fazer um objeto efêmero para pouco depois vender outro. Não, fazia uma coisa que durasse. E de vez em quando perguntava para o freguês:

Como é, ainda dura a pasta?

Olhe, aqui está ela!

Quero ver!

Olha um pouco e diz: “Olha, ainda dura bem!” O sujeito está vendendo pasta, alegre em ver que o comprador da pasta de há dez anos atrás não precisa de pasta nova! Há aí uma lealdade comercial cujo segredo quase se perdeu. Eu digo “quase” por amabilidade.

(Dr. Edwaldo Marques: Uma das manifestações de bondade de Deus para com os judeus no deserto foi durante os quarenta anos da peregrinação deles, os calçados não se gastaram.)

É uma coisa linda! Vem muitíssimo a propósito!

Bem, senhores, eu ainda tenho folgo para um pouco mais. Se quiserem pôr mais alguma pergunta, eu estou à disposição.

(Sr. Poli: O senhor disse para lembrar de um comentário que chegou ao senhor através de D. Bertrand, do Conde de Segur…)

Conde de Segur ou marquês? Não me lembro bem. Acho que é marquês.

(Sr. Benoit leia em francês.)

É possível que um ou outro não tenha ouvido… O conde de Segur é mais ou menos isto: o conde de Segur tinha um irmão mais velho, marquês de Segur, muito brilhante, etc., etc., e que por causa disso abafava a personalidade dele. E ele diante disso, iam, por exemplo, juntos a um lugar e o marquês era o primeiro, e todo mundo homenageava, etc., etc. E o conde, irmão, [se tornava um] acólito, sacristão do marquês. Então, o comentário dele: “Eu poderia ter ficado invejoso, mas preferi ficar altivo dele, orgulhoso dele.” Orgulhoso no bom sentido da palavra, “eu queria orgulhar-me dele.” Essa frase assim: “Eu poderia ter ficado invejoso dele, procurei orgulhar-me dele”, significa uma coisa [de la?] ordem!

Porque, de fato, ambas as atitudes seriam possíveis, se bem que não seriam ambas legítimas. Uma seria legítima: Era orgulhar-se do irmão mais… ufanar-se — a boa palavra portuguesa é esta —, ufanar-se do irmão mais brilhante que Deus lhe deu. A outra é ter inveja do irmão brilhante. Caim diante de Abel não se ufanou; ele o matou. Deu no que os senhores sabem. Se ele tivesse se ufanado, que bonita página da História da Humanidade!

E a frase, tão sucinta, tem inteiramente o gosto francês e a clareza francesa. E diz uma porção de coisas, meramente pronunciando a frase. Eu achei muito bonito.

Bem, agora vamos ver a pergunta. Há pergunta? Se não há, vamos dormir! Poli uma pergunta!

(Sr. Poli: Estive lendo o livro da Sabedoria de São Luís Maria Grignion de Montfort. E tem uma frase dele: “É seguro que a Sabedoria Eterna tem tanto amor pelas almas, que ela vai até o ponto de desposá-las e contratar com elas um espiritual, mas verdadeiro matrimônio, que o mundo não conhece. E que a História, disso, fornece exemplos”.

Ele dá os exemplos depois?

(Sr. Poli: Não. Agora, o que é isto, como é que opera, que realidade é esta?)

Não é difícil dizer, porque o sentido da palavra “sabedoria” é grande como o mar! Ou grande como o céu e tem, portanto, aplicações maiores, menores, têm toda a espécie de aplicações e, portanto, é meio escorregadia a coisa. Mas, a Sabedoria é, em última análise, uma retidão de alma pela qual ela contém toda virtude; pela qual o homem, ao analisar as coisas, as vê como são e, portanto vê também a hierarquia de valores que há nelas e ama segundo essa hierarquia de valores.

E segundo essa hierarquia de valores, também, a alma apetece mais ou menos todas as coisas. Quando a gente imagina duas almas que possuem a mesma sabedoria, elas ficam como que uma alma só. Porque é tal o sincronismo entre elas, tal a afinidade entre elas, que para usar a expressão da Escritura, um fica “um outro eu mesmo” do outro, com os desapontamentos que há nesse vale de lágrimas.

Há um trecho da Escritura que se refere a um traidor, não se lembro mais qual é – talvez Edwaldo que é o nosso geógrafo da Escritura, possa dizer em que parte isto fica — mas em que o que se queixa diz: “Se um outro fizesse isto… mas, tu!? Que eras para mim um outro eu mesmo e que sentado à mesa comigo comia doces frutos…?”

A coisa tem muito sabor: tu eras, comigo, um outro eu mesmo. E como indício, como exemplo, do que era, comiam juntos. E gostavam dos mesmos frutos doces; encontravam o mesmo tipo de prazer no comer juntos fruto doces. Entra aí esta afinidade de alma que a Sabedoria estabelece entre alma e alma.

Não sei se o senhor notou também que eu tive uma hesitação pequena em dizer o que eu disse porque hoje eu estava pensando numa coisa — eu não supunha que hoje íamos fazer está reunião grande aqui; foram circunstâncias imprevistas de depois das 10h da noite que me tornaram possível fazer está reunião aqui —, mas, eu pensei o seguinte: Na primeira reunião que eu esteja com os meus enjolras, a fortiori, eu estando junto com o meu querido senado, eu gostaria de tratar desse assunto! Esse assunto se liga ao assunto Sabedoria. Eu exponho o assunto; depois, se os senhores quiserem, se me lembrarem, eu ligo com a Sabedoria, eu trato… depois eu ligo com a Sabedoria.

Há duas formas de deleite que uma coisa pode dar a um homem. Um é o deleite ponderado, razoável, ordenado e equilibrado. Esse deleite é verdadeiro deleite?

Vamos dizer, por exemplo, um general que ganha uma batalha. Ele volta, depois de ter ganho à batalha, ele volta e é recebido em triunfo, pela sua cidade, pelos habitantes de sua cidade. Ele é reconhecido com honras, etc., etc. Esse general tem duas formas de se alegrar com esse triunfo:

Uma forma: ele entra e vê que são reconhecidos os seus méritos; nota que os méritos são realmente méritos, ele já sabia disso. Mas, se alegra — se alegra até o fundo de suas alma — de ver que os que habitam na sua cidade reconhecem esse mérito e aplaudem esse mérito. Ele é levado por todo cortejo que o recebe até a Igreja aonde vão dar ação de graças; vai ser celebrada a Missa de ação de graças ou vai ser cantado um Te Deum, ou vai ser feito uma coisa e outra, em razão da vitória que foi ganha. Ele é colocado num lugar de honra, ele reza ali e, se olha para ele, se vê que ele está sereno, tranqüilo, feliz, pleno de felicidade, mas pleno de serenidade!

Bem, agora, outro é, um outro general que ganhou uma batalha de igual valor, que entra na mesma cidade, mas que entra arfando de alegria por ser homenageado. E que em cada pequena homenagem, [ele] se deleita e, pelos gestos que faz, e pelas caras que ele põe, ele estimula o povo a aplaudi-lo ainda mais. De maneira que quando chega afinal a Igreja, está todo mundo arrebentado de excitação e ele excitadíssimo também. E assim o povo enche a Igreja e assiste agitadamente a Missa.

Qual dos dois teve mais felicidade com o ato do triunfo? Dir-se-ia que é o segundo general; porque se ele teve um triunfo mais intenso, quanto mais intenso o deleite, tanto maior a felicidade e, portanto, ele aproveitou mais essa felicidade do que para o primeiro general. Não sei se está claro?

(Todos: Sim.)

Bem, mas poder-se-ia objetar que não, porque tudo aquilo em que vai agitação é algo misturado com um contradeleite; porque nada onde está a agitação é inteiramente deleitável. Inteiramente deleitável é só aquilo que dá deleite com tranqüilidade. O resto é deleite com algo de fator de infelicidade. E, portanto, no deleite do primeiro general há mais deleite e felicidade, do que no deleite do segundo general.

Eu pergunto: qual das duas opiniões é verdadeira? Eu, de propósito, penso que não deixei transparecer a minha opinião. Ao menos foi esta a minha intenção. E eu quereria ouvir. Se os outros ficam tão hesitantes… eu ponho outra pergunta…

(Sr. –: Está claro!)

Bem, de qualquer maneira, eu pergunto o seguinte. Hoje em dia, a maior parte das pessoas tende para qual forma de deleite? Para o segundo! E considera o deleite, o deleite poca, um deleite sem sabor, porque acham que a felicidade só está numa forma de deleite que quase faça o indivíduo perder a cabeça. Enquanto o deleite não chegar a esse ponto, não existe deleite verdadeiro. Isto continua claro ou não?

(Todos: Sim.)

[Vira a fita]

A opinião dos senhores é de que o primeiro deleite é o verdadeiro. Mas, o homem tem a atração do segundo deleite e ele precisa fazer um certo esforço para se manter nos limites do primeiro deleite; do contrário, a atração do segundo deleite o leva porque, de si, o homem tem uma coisa qualquer por onde o pendor do exacerbado é o pendor que mais lhe fala na alma. Ele precisa ter, portanto, algo que, em certo sentido, também o faz sofrer. E não é então verdadeiro que o sofrimento, que o deleite do homem, do primeiro general, o deleite equilibrado do primeiro general não seja misturado com um certo sofrimento, na medida em que ele é obrigado a se frear a si próprio para não se dar àquilo que a profundidade dela deseja ardentemente! Porque uma tendência para a megalice, não há quem não tenha! O homem pode vencer essa tendência, mas a tendência para a megalice ele tem!

Então, dir-se-ia que os dois deleites são misturados com infelicidade e que, portanto, os dois são deleites impuros — impuros nesse sentido, mesclados — não são deleites com um só elemento.

Quem é que quer analisar esta pergunta aqui?

Não é verdade, pelo seguinte. O homem que se entrega ao deleite exacerbado, quando a sensação do deleite passa, ele tem a frustração, ele tem a frustração, ele tem a derrota. O homem que não se entrega ao deleite exacerbado, quando o deleite se torna velho, não passa. E ele tem até a sua mais remota velhice — a propósito daquele fato — um deleite quase tão grande quanto no dia da vitória! De maneira que, meramente no plano humano, ele tem deleite, tem uma dose de deleite, muito maior do o homem que se entrega ao deleite exacerbado.

Eu me lembro, por exemplo, os deleites que eu tinha quando era menino no colégio São Luís e que obtinha medalhas. E para mim, o deleite não era a opinião do Colégio porque “pro nihil habetur”, eu não tinha nenhuma consideração, mas era o deleite de chegar em casa e ser recebido por mamãe! E esse deleite, eu conservo — ela morreu — mas o deleite está quase tão vivo como no momento em que… [Fenomenal!]

Quer dizer, o deleite exacerbado, o deleite que chega ao auge de si próprio e que o mundo aí considera o sumo da felicidade, esse deleite é um deleite falso que conduz ao desapontamento e a frustração. O deleite durável, o deleite verdadeiro, que enche de fato a alma é o deleite equilibrado. Embora, realmente, o indivíduo percorra o caminho das glórias segurando pela mão a fera da megalice! Isto é verdade!

Se isto está claro, não sei se os senhores notam, meus caros, que todos nós temos uns recantos da alma, onde temos o pecado de sonhar com um outro ponto de deleite exacerbado. E que nós só seremos verdadeiros e bons eremitas no dia em que tivermos renunciado inteiramente a qualquer sonho da possibilidade de um deleite exacerbado: “Isto eu renunciei! E só à tranqüilidade lúcida, luminosa e pura do deleite moderado — não é moderado — regulado, bem regulado, só [a] esta, é só para ela que eu abro minha alma!”

Bem, isto eu creio que seria para nós um ponto de formação para sempre repisar de novo. A gente diria: “Para eremita, não!” Se a gente considera a enormidade de coisas que o eremita renuncia: a começar por uma obediência que vai crescendo sempre e que acaba sendo a renúncia inteira da vontade própria. O que isto representa de sacrifício… A gente dirá que todos os deleites exacerbados deixaram de existir.

Não é verdade. Isto é uma fantasia, não tem nenhuma realidade.

De fato, a condição de eremita prepara muito a pessoa para condição de renunciar os deleites exacerbados; e prepara muito para o indivíduo saber apreciar os deleites equilibrados. Isto é verdade. Mas, daí a dizer que não há um recanto na alma dele, onde ele sonhe de repente uma coisa qualquer, onde ele faça no pátio interno do êremo um lindíssimo papel, não sei… começou o Reino de Maria e se verificou que ele que salvou as forças do Reino de Maria… então descobrem — ele até fez um esforço para ocultar, mas descobriram até o esforço e ele então é glorificado, etc., etc. “hahahaha…” … [faltam palavras] … Coisas dessas existem em qualquer recanto da alma, se a pessoa não fizer um esforço muito grande para evitar isto. E uma coisa assim exacerbada, a qual a pessoa tende, põe em exacerbação sub-consciente todo o mecanismo dos deleites: ou o indivíduo elimina tudo, ou ele não tem nada!

Aonde se nota muito isto é na impureza porque a pureza faz a pessoa renunciar a deleites que de si tendem para a exacerbação; e a impureza, por causa disso, leva o indivíduo a só achar deleite nas coisas exacerbadas. E, esta forma de equilíbrio de deleite nas coisas castas, o indivíduo não encontra porque ele entregou sua alma à exacerbação. Ele se transformou num filho da desordem. E, por causa disso, ele não é capaz daquela boa ordenação que faz dele, de fato, um homem feliz. Porque nessa terra ele só pode ter uma certa medida de felicidade assim; não pode ter outra.

E haveria uma batalha, mas uma batalha maior a conduzir, seria quase uma coisa para conversar com o meu querido e saudoso João quando ele vier: Como conduzir a batalha contra as ardências do desejo sub-conscientes, exacerbados, de coisas, em si mesmas, inocentes — porque até lá podem chegar — para nós termos aquele equilíbrio de alma que nós deveríamos desejar a respeito de todas as coisas. Quem tem esse equilíbrio de alma, este tem castidade! Esta é a forma mais quintessenciada da castidade: é não se atirar sobre as coisas como um homem impuro se atiraria sobre a impureza, mas, ver as coisas como um homem casto vê o assunto da pureza, com aquele equilíbrio do homem casto!

E aqui haveria uma coisa, a meu ver, de um valor inapreciável, para nós sermos heróicos e fortes. Quem é assim possui a Sabedoria? A Sabedoria é a virtude que regula assim o homem. Não sei se eu fui claro?

(Todos: Sim.)

Há um aspecto da Sabedoria pelo qual o homem deve dormir nas horas razoáveis. E pelo meu relógio são 2:19h. Bem, uma pergunta e depois eu liberto os senhores…

(Sr. Guerreiro Dantas: Não estamos com saudades das perguntas dos…)

Dos enjolras!

(Sr. Guerreiro Dantas: Dos eremitas de São Bento [e] Praesto Sum.)

Pois então! Vejam com que finura ele distinguiu os eremitas de São Bento e Praesto Sum dos enjolras, hein? Já não são enjolras… já não são mais…!

(Sr. Fernando Antúnez: Gostaríamos de ouvir do senhor, como será no Reino de Maria esse binômio respeitabilidade-bondade, entre senhor e vassalo.)

Propriamente, quando um homem planta uma roseira, se pergunta a ele: “Como o senhor imagina que vai ser esta roseira quando ela ficar grande?” Ele tem duas saídas:

Ou a roseira já começou a brotar, ele olha um pouco para a roseira e diz: “Bem, a vista de como ela é, provavelmente ela será assim.” Ou, ela não começou a brotar, e então ele deve dizer: É preciso que ela brote para eu saber. Não adianta imaginar porque toda a roseira é inimaginável. A gente imagina de um jeito e ela sai de outro e, ainda que ela saia produzindo as rosas mais belas do mundo, ela é inimaginável. As próprias rosas que ela produz, nunca correspondem inteiramente à previsão do homem que plantou a roseira.” Por exemplo, em tudo quanto é vivo há alguma coisa de insondável e que dá um resultado que não é previsível. Nas melhores coisas, nas mais bem planejadas, o imprevisível tem um papel ao lado do previsível. As coisas não são inteiramente imprevisíveis, mas também não são inteiramente previsíveis. O que está na virtude da Sabedoria achar.

Bem, e aí eu digo o seguinte. O Reino de Maria, nós podemos imaginar à vista dos lados bons da TFP; porque a TFP é o broto do Reino de Maria. Infelizmente, não é em todos nós que se encontram só os lados bons. Encontram-se em mais de um de nós, em quase todos, lados que não são bons. Diz a Escritura que o justo peca sete vezes ao dia. Seja isto para a nossa consolação, mas o fato é que isto é assim: há lados não-bons em nós.

Mas, tomando os lados por onde nós somos inteiramente o que a TFP quereria, nós poderíamos imaginar como seria a TFP. Nós poderíamos imaginar como seria uma TFP de discípulos perfeitos. E podendo imaginá-la, nós podemos imaginar como seria o Reino de Maria.

Então, por exemplo, no nosso mútuo relacionamento existe qualquer coisa desse relacionamento como seria no Reino de Maria. Sobretudo, se nós tomássemos o nosso relacionamento como deveria ser. Então, nós compreenderíamos como seria o Reino de Maria. Não há dependência maior do que a do religioso em relação ao seu superior e, portanto, sobretudo, em relação ao seu Fundador. Nós não somos religiosos, mas o nosso estado tem muita analogia com o estado dos religiosos e, por esta analogia, nós podemos fazer uma idéia da dependência do estado dos senhores, caso os senhores praticassem perfeitamente a obediência que é própria aos votos que os senhores fazem, a condição de escravo de Maria por minhas mãos que alguns assumiram, etc., etc.

Mas, imaginem, que todos tivessem comigo a consonância de alma que o religioso deve ter com o seu Fundador, com seu superior, como seria a TFP?

Mas, já alguma coisa aparece porque — outro dia eu tratei disso; creio que foi no São Bento — eu acho que nenhum ambiente do Brasil, talvez no mundo contemporâneo, ao menos sob certo ponto de vista, em que a transcendência se afirme tanto quanto entre nós. Mas, onde também o afeto e a participação de alma se afirme tanto quanto entre nós. E aqui nós já temos uma prelibação do Reino de Maria! O que tudo se vê, inclusive, nessa cena aqui! É indiscutível que alguém que assistisse essa cena, se se pusesse no papel dos senhores, ficaria espantado de sentir todo respeito que os senhores sentem, quando participam dessa reunião! Mas, é impossível que alguém que se pusesse no meu papel não ficasse espantado de sentir todo o afeto que eu tenho a cada um dos senhores! E toda a proteção individual, assídua, pormenorizada, benévola, que eu tenho dado provas e dou a todo aquele que quer e que deseja! Com carradas de perdão, com carradas…

Quantas e quantas vezes os olhares que nós trocamos significam, da parte do meu súbdito, o seguinte: O senhor sabe que eu não estou andando bem; e eu temo que o senhor me rejeite.” Isto é verdade. E no meu olhar vem o seguinte: “Meu filho — na força da palavra ‘meu filho’ — eu vejo até que você não tem a contrição que deveria ter, mas, vejo que há em você alguma coisa que Nossa Senhora pôs que não foi tirada. E por isto eu lhe quero como se você estivesse perfeitamente bem!”

É impossível que várias vezes alguns tantos dentre os senhores não tenham me posto esta queixa e não tenham recebido esta resposta. Isto tudo num olhar que se troca. De tal maneira que se eu tivesse que fazer esta reunião com os olhos vendados, os senhores ficariam desapontados. Talvez julgassem uma reunião fracassada, esquisita, e fossem até com certo mal-estar para o São Bento porque não falamos pelo olhar. A enormidade do que nós conversamos pelo olhar, é muitíssimo! Durante inclusive uma conferência, durante uma exposição! Alguns até estão sorrindo enquanto eu falo: quanto isto é real!

Mas, isto é exatamente este misto de transcendência e de felicidade súbdita, que formará o pulchrum do Reino de Maria!

Meus caros, agora é sapiencial irmos dormir!

(Fatinho!)

(Sr. Fernando Antúnez: Alguns fatinhos onde transparecessem no trato da Sra. Da. Lucilia ao mesmo tempo o senhorio e a bondade?)

Praticamente em tudo e, a começar pelo Quadrinho. Tanto quanto eu sinta o Quadrinho, eu acho que é impossível imaginar alguém que se atrevesse a fazer uma brincadeira com ela — eu, aliás, nunca vi acontecer — fazer uma brincadeira com ela meio atrevida ou meio excessivamente íntima. Absolutamente não! Brincavam um pouquinho com ela os irmãos e as irmãs entre si, naquele tempo. O brinquedo era coisa ligeiríssima, nem era brinquedo, era um gracejo. Às vezes a tratavam “Mana Lú” — Mana em português quer dizer irmã, mas em forma muito caseira. Como ela [se] chamava Lucilia, [então] “mana Lú”. A gente vê que em pequena, com certeza, era chamada de Lú, ou era chamada de “mana Lú”. Então, às vezes, para reviver o tempo que eram pequenos, eles dizem para ela, numa hora de afeto, qualquer coisa, “mana Lú”. Uma coisinha assim. Nem é gracejo, é uma coisinha assim. Além disso, não ia! Por que? Porque não dava certo! Não dava certo!

(Sr. –: Pelo perigo dela se zangar?)

Havia, porque conforme o caso, ela se zangaria. Mas, não era isto. Era o não compreender dela com isto e inteira estranheza dela com isso, tornava impossível uma coisa dessas. Não havia perigo. Do outro lado, entretanto, não havia maior acolhida, maior perdão, maior bondade, do que transparece no olhar dela, no Quadrinho!

E eu tenho certeza que vários dos senhores, olhando para o Quadrinho, uma ou outra vez se tenham sentido abrangidos pelo olhar do Quadrinho! Envolvidos pelo olhar do Quadrinho! É aquela bondade enorme que ela tinha! Isto que eu estou contando para os senhores com o Quadrinho, os senhores posem imaginar quem conviveu com ela… nem sei… Eu nasci em 1908… uns 50 anos, mais ou menos, eu convivi com ela, desde de pequenininho até homem feitíssimo, junto à câmara mortuária dela ou nas vésperas da agonia dela. Bem, mas afinal, seja como for, isto sendo assim, os senhores podem imaginar quantas e quantas vezes eu senti isto. Não é “vezes” a palavra “vezes” é até inadequada. É uma vez só: desde o primeiro instante até o fim não senti senão isto, continuamente!

Eu, às vezes, fazia uma brincadeira ou outra com ela, quando ela estava bem velha, para animá-la um pouquinho. Eu contei já aos senhores uma brincadeira: quando ela estava pondo em ordem os papéis, etc., passa uma fotografia da mãe dela. Ela queria muito bem a mãe dela. Eu estava sentado junto a ela, ela pondo em uma ordem incompreensível para mim os papéis dela; eu deixava fazer, que importância tinha, não é? Passa os papéis, ela hesita um pouco onde guardar a fotografia.

Eu peguei a fotografia para olhar e ela gostou, que ela achou que eu ia elogiar a mãe dela. Eu fiz uma brincadeira que valia um pouco por um levíssimo beliscão. Eu olhei — ela sabia que eu tinha certas restrições à mãe dela — eu disse: “Mãezinha! A senhora confesse que minha mãe é bem mais simpática do que a sua, não é!?”

Mas, os senhores estão vendo que é uma pontinha de brincadeira que ela mesma via que eu estava dizendo isto para brincar e que vinha cheia de afeto, mas cheia de afeto. Além disso, não se ia com ela, absolutamente!

Aí está! Meus caros, fugite! Tempus edax rerum!

O sábado à noite foi-se! Foi-se a semana! O que nos aguarda na semana que vem?

Bem, nós costumamos rezar a “Oração da Restauração” aos sábados à noite, mas eu acho que não cabem todos na capela. Vamos rezar aqui.

Há momentos minha Mãe…”

A.R.M