CSN – 20/4/1985 –
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Confidencial.
CSN — 20/4/1985 — Sábado (Neimar Demétrio)
(Sr. Gonzalo Larrain: É bom que conste que é muito simbólico não podermos fazer a reunião no 1ºandar, simbólico, mas muito triste.)
Muito triste.
(Sr. Gonzalo Larrain: Lá na casa da Sra. Da. Lucilia há uma benção que não há aqui.)
É dessas coisas curiosas da graça, mas haveria tantas razões excelentes, assim de ordem palpável, para se fazer pelo menos algumas dessas reuniões com enjolras. Ainda mais agora que o João está fora. Mas, a gente percebe que as graças não seriam as mesmas e que essas graças recebidas nessa reunião passam na frente de qualquer outra consideração porque são graças tão excepcionais que não é razoável pôr outros na frente dela.
Veja como são as coisas engraçadas, como é o movimento da graça: se eles fossem menos fiéis, para a perseverança deles, podia tornar-se necessário que a gente interrompesse essas reuniões enquanto o João está fora e fizesse reuniões para eles. E se a perseverança deles estivesse em jogo, eu faria. É claro!
Mas, porque eles são perseverantes, eles não têm a reunião.
(Sr. Gonzalo Larrain: Agradeçamos a eles também.)
É, mas o que é bonito é que, sem eles perceberem, de um modo sensível, eu suponho que Nossa Senhora dê a eles mais graças do que a que eles teriam com a reunião. De maneira que eles não saem prejudicados. Não é bonito o tecido de graças que se faz assim?
(Dr. Edwaldo Marques: E a gente vê que eles não estão desgastados por causa disso, o que é uma prova da ação da graça.)
Eles gostariam muito, mas desgastados não.
(Dr. Edwaldo Marques: Não há aquela tristeza ruim pelo fato de não terem a reunião.)
Nada, nada. Eles sabem que há essa reunião. Acaba lá a reunião do Auditório São Miguel, eles afluem para junto do tablado onde estou e muitos rezam ali de baixo do meu olhar. E alguns, como D e outros, procuram meu olhar, enquanto rezo, para ter… nem é nexo de oração, receio que seja um pouco de dissipação, mas, enfim, olham. Eu poderia notar no olhar deles qualquer forma de tristeza, de recriminação: “Afinal o senhor não tem pena de nós…” Nada!
Essa é a correspondência.
Então há um circuito por onde a generosidade deles torna a Nossa Senhora possível [de] ser para conosco muito generosa nessa reunião. Agora, por isto, Ela premeia eles porque Ela com isso consegue fazer o que Ela quer, que é um beneficio extraordinário que Ela nos dá nessas reuniões.
Agora, a esse respeito, eu gostaria de fazer notar um ponto — assim muito de passagem porque não é tema dessa reunião, é apenas muito de passagem: É como Nossa Senhora, aos participantes dessa reunião, Ela beneficia de um modo excepcional, notável. Por que é que será? É por causa da inteira gratuidade da escolha soberana d’Ela. Ela quer, gratuitamente.
(Sr. Gonzalo Larrain: O que não há mérito.)
A questão é a seguinte: quando nós merecemos alguma coisa foi porque Ela, antes de nós merecermos, nos deu a graça a qual nós correspondemos e de onde veio o mérito. De maneira que é aquela linda oração: “Ó Deus que premiando nossos méritos, premiais vossos próprios dons…” é essa gratuidade comovedora, enternecedora, porque não houve razão para isso, mas Ela quis fazer isso e fez. Já foi quando chamou, já foi quando de tantas outras graças que lhes deu no decurso da vocação, mas é agora, na véspera de um tufo de circunstâncias que a gente nem pode prever bem, na véspera desse tufo de circunstâncias, Ela muito especialmente chama e diz: “Meu filho, chegou a hora da luta, a vocês eu vou dar uma bebida exquis, excepcional, para se dedicarem inteiramente nessa batalha que vem”, porque Ela quer! Está acabado. É muito bonito isso.
Mas, com isso, entremos nas nossas conversas da reunião passada, porque, infelizmente, essa reunião vai começar muito tarde.
(Sr. Gonzalo Larrain: Graças conseguidas pela Sra. Da. Lucilia.)
Eu estou certo disso, pelo fato de que se percebe que essas reuniões, feitas em outro local, não teriam a mesma graça. O que quer dizer claramente que tem nexo com as orações dela, é um nexo evidente.
(Sr. Poli: Como não foi possível a reunião ser em baixo, poderíamos rezar juntos com o senhor, após a reunião, no quarto dela?)
Com muito gosto. Bem, então faça [a] pergunta meu Guerreiro.
(Sr. Guerreiro Dantas: O senhor falou, na reunião passada, do ponto a partir do qual o senhor amava a Deus, considerava… todo o ímpeto da alma do senhor para Ele se voltava e que era a noção de Deus transcendente, perfeito, justo, autor de toda a ordem do universo, mas ao mesmo tempo distante, tão distante que por assim dizer, sugeria a impressão [de Ela quase não tinha nexo com aquilo, mas conservava um nexo. ?]
De outro lado, a bondade de Deus, a misericórdia, que descia a detalhes, em situações tão marcadas pela infidelidade, a persistência de Deus na união com certas graças que Ele dá para os homens.)
Depois, metafisicamente tão presente em tudo o que Ele fez. Nosso Senhor tem, metafisicamente certa forma, não é uma presença real, mas uma certa forma de presença no mais profundo daquilo de que Ele tanto transcende. É o que você diz, mas é também, muito fundamentalmente isso.
Não sei se quer que eu repita para ficar claro.
Deus está presente, pela sua ação, em todos os seres. É Ele que sustenta os seres no ser. Se Ele não sustentasse esses seres no ser, todos eles se desfaziam. De maneira que não só criou, mas no mais interno de cada ser, é Ele que está sustentando aquele ser. E, portanto, Ele é, ao mesmo tempo, o criador e o mantenedor daquilo que está tão infinitamente abaixo d’Ele.
Essa transcendência junto com essa presença d’Ele forma uma — não uma contradição — mas um paradoxo harmônico enorme que me extasia.
Vamos dizer, por exemplo, naquela palavra de Nosso Senhor… se comparar com a galinha com os pintainhos; em toda galinha que ama seus pintainhos, no instinto materno dela, está a ação de Deus.
Olha aqui, se nós homens somos tão superiores a uma galinha, que é normal que a matemos e comamos, ela, [por assim dizer, existe para nós?], quanto Deus é transcendente em relação a essa galinha! É a perder de vista. Entretanto, quando a galinha toma conta de seus pintainhos, é levada pelo instinto que Ele deu a galinha e que Ele sustenta na galinha. Ele sustenta a galinha no ser.
Esse paradoxo, esses dois extremos, desprende-se d’Ele numa harmonia que me inebria.
(Dr. Edwaldo Marques: Os judeus eram proibidos de cozinhar um cabritinho no leite da própria mãe. É respeito a esse princípio.)
Interessante, bonito isso. Respeitado esse princípio perfeitamente.
(Sr. Guerreiro Dantas: Então na reunião passada o senhor dava vários exemplos assim para comentar a excelência de Deus. E o senhor comentava que esses dois pontos dão uma tal noção da grandeza de Deus, revelam uma tal excelência de Deus que o senhor tinha, por aí, um certo discernimento da Pessoa de Deus.
Depois o senhor abriu um pouco a porta do salão e comentou esse traço do amor de Deus que o senhor simboliza. Depois o senhor comentou que isso existe na ordem criada, nas instituições da Civilização Cristã, pode existir em pessoas, etc. E o senhor comentou uma série de impressões que o senhor tinha a respeito de si, enquanto podendo refletir de Deus esses aspectos da transcendência de Deus.
No final o senhor achava que não tinha dito tudo, que haveria ainda mais a dizer. Então pedimos para o senhor comentar mais sobre isso. Quando conheci a Sra. Da. Lucilia, eu a conheci com esse tônus que o senhor deu na última reunião.
Então perguntamos o seguinte: isto que o senhor apontava como uma qualidade do senhor, é óbvio que isto não existiria sem uma ação da Igreja.)
É claro!
(Sr. Guerreiro Dantas: Mas a impressão que dava é que o senhor herdou muito isso da Sra. Da. Lucilia.)
Eu acho isso também.
(Sr. Guerreiro Dantas: Então começamos a conferir as impressões. Lembro-me, quando conheci a Sra. Da. Lucilia, a impressão de respeitabilidade dela era tal que eu nunca vi nada, nunca tive conhecimento de ninguém que pudesse sequer comparar com a Sra. Da. Lucilia. Gravidade, seriedade, serenidade, impunha uma respeitabilidade imensa.
Sr. Nelson Fragelli até comentava que não imaginava que a nobreza brasileira pudesse ter chegado a esse ponto. Então amanhã, 21, é festa da Sra. Da. Lucilia. Como na última reunião tivemos essa impressão da herança que o senhor teve dela nesse ponto, ficamos nisso.
A impressão do olhar dela, é tão denso, desses aspectos que até uma vez perguntamos o que ela conversava com o senhor, e o senhor disse que ela conversava coisas comuns.)
Comuns, inteiramente.
(Sr. Guerreiro Dantas: E o convívio do senhor com ela era mais com base nos entreveres do que propriamente na palavra explícita. Agora, tendo tanta riqueza de alma, porque ela não falava com o senhor sobre aquilo que ela via? Como era isso: a união com o senhor?)
Quer dizer, não é fácil explicar, não é nada fácil explicar, mas eu vou tentar dar a explicação.
Acontece o seguinte: eu, evidentemente, participo de modo superlativo e enfático do que vocês dizem a respeito da respeitabilidade dela. Mas uma coisa curiosa nessa respeitabilidade é o seguinte: é tão evidente essa respeitabilidade que, a bem dizer, fura os olhos. Mas, de outro lado é uma respeitabilidade que a maior parte dos filhos das trevas via de modo muito diminuído, de modo muito embaçado. A palavra que eu tenho a dizer é essa: “embaçado”. É como uma pessoa que sofre da vista e que olhasse para essas coisas e visse tudo embaçado. Percebia que ali tem um estandarte, dois quadros, mas já não saberia dizer de quem são os quadros, se aquilo é propriamente um estandarte. Vê [a] figura geral dela e não vê mais nada do que isso.
E, por causa disso, não a vendo senão assim e sendo toda a conversa deles alheia aos temas que ela levantaria, eles, por assim dizer, empurravam a ela, involuntariamente, para dentro… o que ela tinha de melhor, muito para dentro. E a habituavam a não ser diante deles senão o que ela tinha que ser… do que eles viam nela. Porque se ela fosse se afirmar [com ela?], ela romperia as condições de convívio com eles.
* Um verdade ignorada: Quem transcende verdadeiramente, quanto mais sobe, tanto mais tem profundidade para querer os outros, para ser um só com eles, para afagá-los e para protegê-los; Ex.: A gaivota em suas pescas
Agora, veja que [o] meu convívio com ela…
(…)
…conhecendo uma pessoa que tenha, não a verdadeira transcendência de Deus, mas um reflexo, seja neste ponto semelhante a Deus. Por exemplo: o Rei é semelhante a Deus enquanto transcende o reino. Então uma pessoa, no círculo de suas relações privadas, pode, neste sentido da palavra, transcender os outros.
Agora, o princípio que eu dou é o princípio que, quem transcende verdadeiramente, quanto mais sobe, tanto mais tem profundidade para querer os outros, para penetrar neles, para descer até eles, para ser um só com eles, para afagá-los e para protegê-los. Este é o princípio.
Bem, um exemplo lindo disto é a gaivota que quanto mais sobe, mais ela prepara a coisa para pegar o peixe. É do alto que ela vê no fundo do mar o peixe que ela quer pegar, numa afirmação de que é subindo que se vê fundo.
E isto é o ponto que os conceitos igualitários da Revolução Francesa fizeram esquecer por completo. É verdade não só negada porque uma verdade que você nega, você conhece e nega, mas essa não, é ignorada; essa verdade foi eliminada do mapa humano e tirada, subtraída, do equilíbrio efetivo do homem. Ora, é nesse equilíbrio, entre esses dois aspectos, que está o equilíbrio efetivo.
* Explicação do porquê o convívio post-Revolução Francesa ser baseado em megalices e desconfianças — Um hábito quase animal de conviver com certas pessoas que lhes dá um simulacro de afeto, gerando incertezas e inseguranças
Mas, vocês não encontrarão, por exemplo, nunca uma figura de cinema ou de literatura que exprima isso.
(Sr. Guerreiro Dantas: Renascença negou isso.)
É a negação. A Renascença negou, mas negou a ponto das pessoas se esquecerem que se possa ser assim. Eles olham para Nosso Senhor Jesus Cristo… o que os homens tinham nos sentidos era a Humanidade Santíssima d’Ele. Está bom. Se a gente descrever Nosso Senhor Jesus Cristo assim, Ele se torna inteligível. Adoram Nosso Senhor Jesus Cristo no fraco adorar deles, adoram Nosso Senhor Jesus Cristo, mas eles não quereriam compreender que é isto que eles estão adorando. Não queriam ver.
Quer dizer, há uma necessidade, até para ter bons nervos, há uma necessidade de sentir as coisas assim. Por exemplo, vamos dizer, como evitar que uma pessoa que não tenha isso em vista padeça de megalice ou de desconfiança? Quando o sujeito não tem isto em vista assim, ele não encontra fundamento, não encontra base, não encontra ponto de apoio verdadeiro no afeto dos outros, é um afeto puramente consuetudinário, é o hábito quase animal de conviver com certas pessoas que lhes dá um simulacro de afeto.
Mas eles não encontram verdadeiro fundamento. Resultado tem que ser muito incerto, inseguro; tem que sentir a necessidade de viver se afirmando diante dos outros sob pena de ser posto de lado, tem que sentir a necessidade e insegurança de não confiar em ninguém. Tem que ser. Mas aí se desata uma série de desastre morais que eu nem sei medir.
Agora, põe a pessoa na presença de Nosso Senhor… é preciso considerar isso em Nosso Senhor. É inútil dizer, a “Estrutura” não fala disso. Mas é isto, a questão é essa. Então, encontrareis paz para vossas almas.
Mas criou-se uma tão abominável ignorância disso que as pessoas ficam, não como um cego, mas como alguém de quem se tenha arrancado os olhos de dentro das órbitas. E o resultado então…
(…)
* Fundamento psicológico do problema “igualitarismo” na luta RCR — O profetismo contra-revolucionário afirma um Deus transcendente em todo seu fausto e em toda sua bondade
…O problema do igualitarismo está no centro do problema Revolução e Contra Revolução. Explicado no lado metafísico, já foi explicado. Mas do lado psicológico não foi explicado. E o modo pelo qual [é a?] psicologia do anti-igualitarismo se explica assim, se descreve assim, quero dizer. E a mentalidade do antiigualitário é assim, construída na negação da gnose. A gnose odeia o Deus transcendente e quer afirmar o pan-deus, o deus imanente em tudo. Esse modo de ser afirma o Deus transcendente em todo seu fausto e em toda sua bondade e nega a imanência igualitária de toda as coisas.
Então, num profetismo contra-revolucionário quase não se compreenderia que as coisas fossem de outra maneira.
Agora, psicologicamente falando, enquanto o indivíduo não tenha chegado a este ponto de que eu estou dizendo, ele não pegou o que são as coisas. Quer dizer, ele mesmo não sabe impostar-se contra-revolucionariamente. Porque, se ele tem a idéia de que a bondade consiste em vulgarizar-se, que a amizade consiste em vulgarizar-se, está tudo arrasado.
Se ele tem a idéia de que transcender… — porque nós, criaturas, só transcendemos umas as outras entre aspas; só Deus que é verdadeira e infinitamente transcendente. Mas, enfim, empreguemos a palavra no sentido de conversa comum — se ser transcendente em relação a alguém é desprezá-lo, é querer não ter parte com ele, é querer afirmar a distância — é o que diz a Revolução — então se é revolucionário.
Se ser transcendente é ir ao fundo do outro, é dar o maior fundamento à verdadeira amizade, a verdadeira união, ao verdadeiro carinho, se é isto, então a Revolução é maldita e o contra-revolucionário tem equilíbrio para sua alma.
[Então eu não seria chamado a trabalhar em nível profético para a Contra-Revolução, ou eu deveria ser assim.?]
Agora, é muito explicável, é muito belo, é muito bom que minha mãe me tenha formado nisso. Quer dizer, qualquer alma católica só pode achar isso bonito, adequado, congruente, etc.
(Sr. Gonzalo Larrain: Uma característica muito própria dela e do senhor.)
É a verdade.
(Sr. Gonzalo Larrain: Porque a mãe de Dom Bosco poderia formar Dom Bosco, mas não o formou assim, com essa característica não.)
Eu considero uma santa. Para mim é a coisa mais natural do mundo que ela seja canonizada no Reino de Maria. Mas, vamos dizer assim, a mensagem Contra-Revolução está muito menos frisante aí.
(Sr. Guerreiro Dantas: Curioso, quando os Correspondentes Esclarecedores vão tendo alguma devoção a Sra. Da. Lucilia, nessa medida vão se sentindo mais filhos do senhor.)
Isso. Mas você toma, por exemplo, o caso dessa fotografia. É de um homem de combate. Mas, por pouco que se preste atenção, esse combate não é feito em beneficio de si próprio, mas é feito em beneficio de uma multidão de outras pessoas que é preciso preservar [a?] ordenar na luta Contra-Revolucionária. Quer dizer, aquilo é a cara de um pastor que está olhando para o lobo. [Foto da sala do 2º andar]. Mas, de tal maneira nós não compreendemos essas coisas que olhamos e pensamos que o olhar com que ele olha para o lobo é o olhar com que ele olha a ovelha. É uma maldade. É maldade.
(Sr. Gonzalo Larrain: É sempre olhado como ovelha.)
E depois…
A.R.M
2º andar