CSN – 27/4/1985 – p. 2 de 9


Conversa de Sábado à Noite — 13/4/1985 — Sábado

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É mais fácil compreender a união de almas com nosso Fundador, estudando como esse mesmo fenômeno se passa nos que têm um “contra‑Thau”, no corpo místico do demônio — Alguns Exemplos * O que os filhos das trevas são em torno de um chefe invisível da Revolução, nossa Vocação pede que se seja em torno de nosso Pai e Fundador. E sem isso nós não seremos o que nós devemos ser! * Analisando a partir dos mais altos primas teológicos as várias profundidades a que pode chegar a união de alma entre os Apóstolos dos Últimos Tempos e seu Profeta * Na família de almas da Contra‑Revolução, na zona mais profunda de cada uma delas, se realiza a plena união com o Fundador que as contém no que possuem de mais característico * A correlação entre a infinita transcendência de Deus e sua misericórdia com os pecadores * É só no Corpo Místico de Cristo que esse equilíbrio entre a justiça e a misericórdia se efetiva — O papel fundamental da verdadeira humildade na realização do plano de Deus





(Sr. Guerreiro: Questão da transmissão do espírito de um fundador para os discípulos. Depois onde estaria a base para a ação da graça na alma do senhor, onde, de onde partiria essa transmissão de espírito. Não estaria nesse salão fechado os tesouros mais escolhidos de Nossa Senhora para o senhor?)

Eu propriamente quereria fazer o seguinte com sua pergunta, eu gosto muito da pergunta mas queria fazer o seguinte: ir diretamente ao fundo dela para depois esclarecer os aspectos colaterais. É um excelente modo de resolver os problemas, mas suporia depois que vocês se lembrassem dos aspectos colaterais porque eu não considero que a resposta do fundo suprima a necessidade da resposta dos aspectos colaterais, mas prepara e facilita muito essa consideração.

Agora, eu queria que vocês tomassem bem em consideração que tudo quanto se tem dito, ou se disse outrora na Sagrada Escravidão a respeito de união de almas entre nós, etc., é enormemente relacionado com o que o livro do Átila diz a respeito da união do religioso com o fundador, que a relação é profunda, é colossal e que pode mesmo identificar‑se.

Valia a pena, portanto, estudarem bem esse aspecto porque ajuda muito.

* É mais fácil compreender a união de almas com nosso Fundador, estudando como esse mesmo fenômeno se passa nos que têm um “contra‑Thau”, no corpo místico do demônio — Alguns Exemplos

Na nossa família de almas essa união seria uma união muito profunda, excelente, tão excelente que ela mais exerceria a obediência através da união do que pelo império da ordem dada. Não excluiria o império da ordem dada, mas esse império se tornaria como que supérfluo, à vista dessa união que constituiria um dos vários aspectos característicos dessa família de almas que seria, talvez, os Apóstolos dos Últimos Tempos no Reino de Maria.

Agora, para isso era preciso falar sobre essa união de almas, o que é isso, e sobre isso as pessoas tem idéias hoje muito pouco definidas, muito pouco claras. E eu creio que uma grande parte da balbúrdia contemporânea, do caos contemporâneo, etc., vem disso.

Eu dou primeiro a coisa teoricamente, depois dou com aspectos concretos, etc., para nós termos bem idéia do que é isso. Eu suponho que haveria muita vantagem se, para essas elucubrações, eu tivesse tempo de ler o livro de São João Eudes sobre a união de corações. Porque acho que tem muita ligação com isso, que seria, talvez, uma forma de união de alma entre criatura e criatura análoga e preparatória da união de alma com Nosso Senhor Jesus Cristo, com Nossa Senhora e com Nosso Senhor Jesus Cristo, tal seria essa união de alma.

E é só mesmo assim que a gente compreenderia a capacidade dessa família de almas lutar contra a Revolução em todos os campos em que a Revolução luta. E, pelo contrário, até vencê‑la. Não só não se deixar derrotar, mas até vencê‑la.

In concreto, a Revolução trata de todos os temas que se pode tratar e ela realiza entre seus filhos, os filhos do mal, uma verdadeira união de alma. Se nós queremos saber o que é união de alma, nós devemos procurar a união de alma entre os filhos da Revolução, a qual união deles entre si quando nós não estamos presentes, mas na união deles quando nós estamos presentes.

A união deles face a nós, essa união é uma união perfeita. De maneira que tome, por exemplo, pessoas que não se conhecem nem de longe, revolucionários, se estiverem juntos e souberem que cada um deles é primo de um de nós, eles imediatamente entram numa consonância total. E o fantástico dessa consonância é que, nas ninharias, eles não parecem consonantes, mas todas as diversidades deles funcionam como sistema tendente à eliminação de nossa influência, ao convite para nos extirpar do caminho onde estamos, enfim, para fazer toda espécie de mal. Isso será entre uma senhora idosa de setenta anos, uma mocinha de quinze, um menino fassur de doze ou treze, ou um homem de quarenta ou de cinqüenta. Se estiverem juntos, isso sai assim.

O que tem de extraordinário no caso é que nós prestamos pouca atenção nesta união de almas. Mas funciona como se todos eles, em face disso, tivessem uma só alma. E eles não fazem a menor concessão.

Não tem perigo que um daqueles, por exemplo, da Venezuela, que chegue e diga: “Não, em tal ponto eles andam muito bem.” Não dizem. Ainda que o bem que nós façamos seja um bem fulgurante, e que eles o saibam, isso eles não dizem. A menor das coisas que seja.

Por exemplo, é uma coisa evidente que, entrando para a TFP, enquanto a pessoa está na TFP, a pessoa está muito preservada contra maconha, contra essas coisas assim, é uma coisa evidente. Não há um adversário da TFP que diga: “Temos que reconhecer isto assim”. Se disser, é tido pelos outros como frouxo, semi‑apóstata. Eles não dizem nada, mas aquele sai da sociedade deles. É assim que eles tratam as questões.

Quer dizer, portanto, pode ser que haja um que fale isso, é raro. Mas se for, eles afrouxam. Se aquele precisar um favor dão‑lhe menos. Se aquele precisar de ser convidado, convidá‑lo‑ão mais raramente. Se dirigir a palavra, haverá menos gente que se interesse em conversar com ele, etc., etc., ele sofre uma diminuição de grau, só porque ele tomou essa posição face a nós.

Há, portanto, uma espécie de contra‑thau que é um ângulo onde eles se colocam para ver todas as coisas, onde todas as coisas se explicam, se ordenam em função desse contra‑thau e que forma o fundo da mentalidade deles. Quer dizer, é o que eles mais querem na vida.

Você veja, por exemplo, um desses tipos assim, vamos dizer, por exemplo, diretor de um desses bancos aí que está falindo no RGS [Rio Grande do Sul?], qualquer outro lugar. Dir‑se‑ia que para remediar a situação do Banco, eles estariam dispostos a aceitar qualquer coisa. Se lhes oferecessem de ficar riquíssimos mas retroagindo para a Idade Média e vivendo na Idade Média, eles não queriam; vivendo medievalmente na Idade Média, eles não queriam, porque eles teriam que renunciar àquele prisma do “thau” negro, aquele prisma negro do “thau” que é preciso abandonar e que eles não querem abandonar.

* O que os filhos das trevas são em torno de um chefe invisível da Revolução, nossa Vocação pede que se seja em torno de nosso Pai e Fundador. E sem isso nós não seremos o que nós devemos ser!

Ora, se nós vamos comparar isso conosco, há uma grande diferença. O que eles são em torno de um chefe invisível da Revolução, a nossa vocação pede que se seja em torno de mim. E sem isso nós não seremos o que nós devemos ser.

Quer dizer, aqui é um elemento negativo, não é um elemento positivo, é um elemento negativo, mas que faz compreender um pouco a perspectiva dentro da qual eu falo, portanto, a radicalidade do que eu digo também.

Agora, vamos dar um passo a mais e então analisar bem o que é aí a união de alma. No exemplo deles se vê que em todas as almas, não é só em algumas mais privilegiadas, etc., há uma profundidade que alguns homens, por mediocridade, mantém vazia, mas são poucos. A maior parte das pessoas tem essa profundidade, essa profundeza habitada. E que constitui uma zona aonde os mais altos problemas ou os mais altos temas de caráter metafísico ou teológico, na medida que sejam alcançáveis pela mentalidade da pessoa, lotam aquilo e a pessoa tem, a respeito daquilo, fobias ou simpatias que tomam a pessoa inteira.

E é o serviço disto que forma o fundo da vida da pessoa, ainda que não pareça. Um pareça ambicioso, outro preguiçoso, outro não sei o quê, não sei o quê, no fundo deles todos são um só no que diz respeito a esse fundo do problema. E ali eles tem essa união de alma. Eles tem profundidade e essa profundidade é tomada por esse fio negro que os amarra uns aos outros.

Eu creio que contei aqui — creio até já ter contado mais de uma vez, mas o exemplo é tão bom que vale a pena mencionar — o dito de Clemanceau. Vocês se lembram bem que é um estadista francês que atravessou a História, uma certa parte da História da França na qual está incluído o período da I Guerra Mundial, em que ele foi presidente do Conselho de Ministros, etc. Ele era um homem de ditos. Por exemplo, durante a guerra, o estado‑maior dele quis impor a ele planos de combate. Ele disse: “Fiquem sabendo que a guerra é uma coisa séria demais para deixar nas mãos só de generais”.

É um dito — hein meu Coronel, — insolente, mas que tem todo sabor francês, é muito engraçado e tem o seu quê de verdade.

Ele também, muito antes da guerra, brigou com o futuro Eduardo VII, que era príncipe de Gales. E disseram a ele: “E agora, como é que você vai se reconciliar?”.

Ele disse: “Ah! Nós freqüentamos mulheres. E entre homens que freqüentam mulheres a reconciliação sempre faz‑se.”

Isso é um pensamento profundíssimo. Bem, ele aludiu a esse “thau” negro, a essa coisa assim tremenda.

Durante a guerra ele foi procurado por um irmão da Imperatriz Zita, o Príncipe Xisto de Bourbon Parma, que oferecia a ele de ser o negociador da rendição em separado da Áustria, com uma glória enorme para ele, porque ele seria o homem em cujas mãos a Áustria foi cair, aos pés dele e dar a ele essa glória, deixando o Kaiser sozinho, etc., etc., por uma confiança da Casa D'Áustria — confiança burra e estúpida — nele. E ele não quis por ódio à Casa D'Áustria.

Quer dizer, toda glória que viria para ele disso, ele não quis, porque ele queria que a Casa D'Áustria caísse vergonhosamente nas condições em que caiu. E quando caiu ele disse: “Agora, quando ela caiu, como eu queria que caísse!”. E aludiu ao caráter católico dela, que ela tinha que ser humilhada, esmagada, e que naquelas condições não se daria. Porque a Áustria nas condições de paz do príncipe Xisto, a Áustria só faria essa entrega a ele mediante salvar a união da Igreja e do Estado, a monarquia, algumas outras coisas. Isso ele não queria.

Bem, esse fio negro, essa profundidade todos tem. E o “thau” prende essa profundidade com suas próprias luzes. São as luzes da inocência recuperada.

E exatamente uma preguiça nossa de...

[Chega a Sagrada Imagem, jaculatórias.]

Eu tenho a impressão de que, para nós sermos fiéis à nossa vocação, e para vencermos o demônio, seria preciso que nós tivéssemos uma forma de união entre nós, pela razão oposta, mas análoga, mais profunda do que eles tem entre eles. Não é, portanto, uma união qualquer, mas é mais profunda até que a deles.

Como é, propriamente, essa união? Como é que a gente entende isto?

* Analisando a partir dos mais altos primas teológicos as várias profundidades a que pode chegar a união de alma entre os Apóstolos dos Últimos Tempos e seu Profeta

Primeiro dou um lado teórico: posto que Deus é puro espírito incriado, nós somos espíritos ligados a matéria e criados: há entre Deus e nós todo abismo que nós sabemos.

Mas há uma analogia, uma certa analogia entre Ele como puro espírito e nossas almas que são também espíritos. E nós já temos falado mil vezes, cada um de nós num determinado ponto reflete a Deus como nunca uma criatura antes, nem nunca uma criatura depois refletirá. É um ponto só mas naquele nós refletimos a Deus assim.

Agora, esse ponto que nós refletimos a Deus não é uma bagatela em nós. É o ponto central de nossa inocência, é o ponto central que caracteriza nossa alma, é ali que nós refletimos a Deus como nunca ninguém refletiu nem refletirá. É o mais fundo de nossa alma.

E Deus, quando nós tivermos a ventura, pelos rogos de Maria, a ventura de ver Deus face a face, nós vamos ver Ele que tem o que nos caracteriza a nós mesmos de um modo absoluto, enquanto nós temos de um modo contingente e relativo. E isto produzirá em nós uma ebriedade.

Santo Inácio de Loyola fala: sanguis Christi, inebriame. Uma ebriedade, um perder‑se naquilo tal que nos causará uma felicidade da qual nós não poderemos ter noção. Noção alguma podemos ter, alguma noção, que é conhecer aquele que é, em certo sentido, mais nós do que nós mesmos. Aquilo que me caracteriza a mim, Ele tem infinitamente. De maneira que eu estou para aquilo — não me ocorre uma comparação criada, mas vamos dizer por exemplo, como uma gota d'água está para um brilhante.

Se uma gota d'água pudesse conhecer um brilhante, ela se extasiaria com o brilhante e poderia passar um tempo enorme na contemplação do brilhante. Porque o brilhante não é água, mas ele tem de um modo maravilhoso aquilo que o que se pode comparar à gota d'água mais magnífica. E a gota d'água vendo ali isso, teria uma atração e um gosto do quê? Um gosto de se sentir apoiada em seu próprio ser, nutrida no que ela tem de mais profundo e guiada para uma espécie de plenitude de si mesma, na contemplação daquilo.

Bem, assim seremos nós, quando nós considerarmos Deus assim.

* Na família de almas da Contra‑Revolução, na zona mais profunda de cada uma delas, se realiza a plena união com o Fundador que as contém no que possuem de mais característico

Agora, eu não tenho certeza, eu precisaria estudar isso na teologia, no bom Cornélio, em São João Eudes. Mas, raciocinando assim pelo que eu penso, eu imagino o seguinte: que o superior, e, portanto o senhor, é para seus súditos uma alma que realiza ao mesmo tempo o que há de mais característico em cada uma das almas que foram chamadas para se conectar com ele.

De maneira que olhando‑o, contemplando‑o de alma a alma, haja uma união parecida — vejam bem, análoga não quer dizer idêntica. Pode ser uma analogia em graus infinitos de diferença entre o idêntico e o análogo. Então uma união análoga, não idêntica, a de Deus com o homem.

De maneira tal que nesse universo de almas que é uma família de almas, o fundador espelha cada alma pelo que ela tem de mais característico, se ela souber vê‑lo por onde ela deveria vê‑lo, que é pelo “thau” dela. E na tal câmara profunda da mentalidade, por onde de fato as almas se unem, onde os contra‑revolucionários estão unidos.

Seria, portanto, uma analogia. O que estou lançando é uma hipótese não é uma afirmação, está sujeita ao ensinamento da Igreja, mas é uma hipótese que lanço para nossa conversa.

Isso tem sua reversibilidade porque o súdito só sentirá isto quando ele tiver sentido em si e dado o primado em si àquilo da alma do superior dele, do fundador dele por onde ele se unirá lá. Se ele não é apetente daquilo, os dois não se encontram.

Se eu vou à procura de A, mas A não vem à minha procura, nós não nos encontramos no caminho. Não há possibilidade de nós nos encontrarmos no caminho. É preciso que cada um tenda para o outro. E que, portanto, eu vendo um súdito, eu perceba como é a alma dele e procure — daí vem o discernimento dos espíritos — procure encontrar‑me ali para uma união. Agora, que ele também procure fazer isso, procure ver como eu sou e unir‑se ali.

Se não houver isso, essa união de almas não se dá, mas acontece que a figura do catacego se realiza inteira. Quer dizer, o sujeito fica catacego e não faz nada, fica errando pela vida e não faz nada, porque ele se colocou fora das mãos daquele que o deveria orientar.

Aí se realiza aquela metáfora de que o catacego se deixando guiar, vai crescendo em lucidez. Porque ele vendo cada vez mais como é o fundador, e vendo naquele ponto, ele vai ele mesmo cobrando mais visão. Não para se tornar independente, mas para saber andar até no escuro atrás de seu fundador, sem perder o caminho.

Esse é o ponto. Parece‑me que essa hipótese é cheia de lógica. Eu não posso dizer que ela seja indiscutível, ou mesmo certamente verdadeira, eu precisaria estudar. Mas parece‑me que ela é cheia de lógica e que ela dá uma boa base para uma conversa entre nós.

Eu devo dizer o seguinte: que isto é de um modo tal que quando se dá adequadamente, sem melúrias mas num plano inteiramente superior, preenche o que o coração humano pode desejar de afetividade. Porque o melhor da afetividade não está em que dois amigos gostem ambos de pescar, ou de caçar, ou de tocar piano a quatro mãos, ou qualquer bobagem assim. O melhor da afetividade está nesta união de alma. Quando encontra isso, duas almas encontram o seu repouso, encontram sua explicação, seu caminho, encontram paz.

Então seria preciso ver o fundador de um determinado jeito e fazer o exame de consciência do que é que nós aceitamos ou recusamos e até preferimos não ver, qual é a seleção errada que nós fazemos, em virtude da qual nós nos colocamos fora e, portanto, somos catacegos irremediáveis. E se vocês não tiverem oposição, eu entraria por aí agora.

Você falava daquele salão que eu resolvi fechar. É verdade, mas não de tal maneira que eu tenha perdido a memória do que ele contém. E posso falar a respeito dele. Em determinado momento se poderia fazer.

(...)

* Descrevendo tradições católicas luso‑brasileiras onde o equilíbrio da Igreja faz temperar com a verdadeira misericórdia a mais santa inexorabilidade da justiça

... legítima inteiramente a pena de morte. Bem, isso posto, e com a legitimidade que ela reconhece à pena de morte, estabelece‑se uma coisa por onde o réu de morte, como aliás todo réu que fuja para dentro dos muros dela, ela pára: não pode ser castigado aqui, não pode ser preso aqui. Enquanto ele estiver aqui dentro, ninguém o prende, nem a justiça do rei.

Não sei se percebem, por debaixo da punição, a imensidade de misericórdia que entra e que suaviza de algum modo uma severidade magnífica. Por que isso é tão bonito? É o misto transcendência‑misericórdia, em cuja beleza está essa harmonia.

Por exemplo, uma coisa que havia aqui no Brasil colonial, deve ser costume português, deve ter havido em Portugal também. O Santíssimo Sacramento era levado aos doentes processionalmente, não é assim como hoje, o padre com uma caixinha de ouro aqui. Não. Era levado processionalmente.

Bem, se um condenado à morte, indo para o suplício, passava perto o Santíssimo Sacramento, parava, ele está indultado da pena de morte. Encontrou Nosso Senhor no caminho... E o próprio Nosso Senhor que ensina que aquele homem deveria ser morto, uma vez que aquele homem O encontrou, não tem conversa.

(Dr. Edwaldo: A gente entende, por aí, o porque os apóstolos rejeitaram Nosso Senhor, exatamente essa transcendência e essa misericórdia não quiseram aceitar.)

Não quiseram aceitar. E depois os judeus não quiseram aceitar Nosso Senhor por causa disso. Aqui você encontra grosas de coisas que se explicam assim.

Uma outra coisa muito bonita era o negócio da bandeira da misericórdia. Iam enforcar um condenado à morte. Perto dele ficava a Irmandade da Misericórdia com uma bandeira. Se a corda se rompia e o homem caía sem ter morrido, a Irmandade da Misericórdia o cobria com sua bandeira e ele não podia mais ser morto.

Depois, a Igreja condena o indivíduo à morte, quer dizer, aprova que o sujeito seja condenado à morte, vai ser condenado à morte e é morto. Alguns dias antes da execução da sentença, se começa rezar em todas as igrejas pela salvação da alma dele. E convoca‑se o povo fiel, faz‑se orações, faz‑se ladainhas, faz‑se via‑sacras, celebram missas, etc. Nos conventos se jejua, as pessoas se flagelam. E um padre que se tenha macerado bem, antes disso, é o que vai ouvir a confissão dele e o acompanha na carreta fúnebre exortando‑o até o momento dele expirar.

De maneira tal que a Igreja, à medida que o pune, o abraça para ele agüentar a punição que Ela acha que deve ser dada a ele.

E, se não me engano, morto, os sinos dobravam a finados. Se não me engano, não tenho certeza.

Bem, pode haver uma coisa mais... uma harmonia aqui, não há aqui uma coisa que vale a pena a gente considerar?

Então era preciso considerar esses elementos.

Resumo: primeiro, transcendência e misericórdia em Deus, constituindo uma aparente antinomia mas uma harmonia profunda.

Em segundo lugar, essa conjunção da transcendência e da misericórdia como deixando ver atrás de si uma excelência do ser de Deus que se vê e que quase que se entrevê, quase que há um discernimento dos espíritos e das graças nisso, ou pode haver ao considerar isso, que deve tocar a nossa alma de um modo todo especial.

[vira a fita]

* A correlação entre a infinita transcendência de Deus e sua misericórdia com os pecadores

... entre a transcendência dele que é infinita, e depois a misericórdia que é infinita também, que eu meço a a infinitude dele e meço, portanto, a altíssima, a infinita categoria do ser dele através dessa vastidão que ele cobre com o ser dEle.

(Sr. Gonzalo: Isso está por detrás e por cima da junção transcendência‑misericórdia?)

Exatamente. Depois, lembrem‑se dos exemplos que dei, que não rompe com o sacerdote, mas que também adere a ele de tal maneira que, se ele é sacerdote e peca, o sacerdócio o acompanha e o flagela no pecado, pelo remorso, pela indignidade, por tudo.

De outro lado também o sacerdócio o chama, o conclama e é uma misericórdia de Deus conservar nele aquele sacerdócio que o queima porque é um modo que Deus tem de trazê‑lo a si.

Então esse vínculo da vida inteira entre o sacerdote e Deus, que maravilha! Mas também nós batizados, num grau menor, mas o vínculo igualmente vitalício, etc., etc., que misericórdia! Assim dei vários exemplos, o padre por cuja voz fala Jesus Cristo quando dá a absolvição. O sujeito pode ser um panfletário, pode ficar comunista, um Cardeal, sei lá o que. Está bom, aquela voz miserável que Deus tolerou que vivesse para conspirar contra Ele, no momento que diz ego te absolvo etc., ele sabe que ele está emprestando a laringe dele a Jesus Cristo para perdoar, e perdoa! É uma coisa... a grandeza se faz ver aí de um modo insondável.

Depois, a idéia de que há analogias disso na Igreja, nas relações entre a Igreja e os fiéis. Há analogias na Civilização Cristã, entre o chefe de estado, rei, ou chefe de uma nação municipal com forma de governo republicana, e os súditos.

Por exemplo, uma coisa que me assaltou, mas assim de dar um nó na garganta, o fato que conta o Funk Brentano e que vocês talvez devem se lembrar. Um camponês que puniu seu filho porque tinha andado mal e qualquer coisa, e deu uma área para o filho levantar mais cedo e começar cultivar todos os dias, uma área enorme. E o cultivo tinha que ser quando ainda fazia noite. O filho conta o arrepio que ele teve quando, diante daquele castigo enorme do pai, ele levantou de manhã e viu no escuro o pai dele que estava fazendo uma parte da tarefa a que ele tinha condenado o filho.

(Sr. Gonzalo: Só a Igreja!)

* É só no Corpo Místico de Cristo que esse equilíbrio entre a justiça e a misericórdia se efetiva — O papel fundamental da verdadeira humildade na realização do plano de Deus

É só a Igreja, não tem outra conversa. É o espírito da Igreja. Acabou. Por quê? Porque há um equilíbrio nisso, é tocante!

Então isto supõe que também, como ninguém é idêntico a Deus, mas a criatura em alguns pontos é análoga a Deus, este mesmo jogo se pode notar na Igreja, pode‑se notar nos estados cristãos, pode‑se notar em mil situações, mil coisas podem‑se notar maravilhas desse gênero.

Por exemplo, São Luís preso e servindo de árbitro entre reis muçulmanos, porque ele era o justo por excelência em quem aquela turcada confiava. Preso!

Para falar em preso, um papa, São Marcelo, governando a Igreja de dentro de um chiqueiro. Essas são antinomias onde a majestade e a humilhação ficam de um modo tal que superior é só Nosso Senhor Jesus Cristo.

Daí cabe o que nós falamos a respeito dessa transcendência de Nosso Senhor e da misericórdia dEle em toda a vida dEle, de um modo tal que, por essa junção, se vê na pessoa dele uma perfeição que, para a qual não há palavras. O que você vai dizer diante disso? Fica quieto. É simplesmente pasmoso.

Então também isso pode dar‑se nas relações entre fundador e súditos, na medida em que fundador tendo altamente esse espírito e amando do fundo da alma essa relação, ele convida seus súditos a travarem essa relação, a admirar essa relação em tudo, mas ao mesmo tempo a praticarem. Ele a pratica com eles, ele desce até lá e pratica ponto por ponto.

Isso supõe — agora vem o outro lado — que ele tenha uma noção despretensiosa, mas não imbecilizada, de suas qualidades, daquilo que Deus pôs nele de natural, de sobrenatural, para que ele mesmo possa entender no que é que transcende, e possa estender a amplitude de sua misericórdia, de sua bondade, de sua cortesia, de seu respeito, etc. Isso deveria nos tocar. Eu sei que raras vezes nos toca, mas deveríamos tocar.

E aí estaria o ponto por onde nossos “Thaus” se uniriam.

Sinto que há mais qualquer coisa para dizer que eu não estou conseguindo dizer. Mas está dito muito do que eu quereria. Há mais qualquer coisa para dizer que eu espero que Nossa Senhora nos faça ver para dizer oportunamente, etc. etc.

Está ligado a isso que nós gostemos de admirar. A nossa forma de humildade não é falar mal de nós, é falar bem dos outros. E é preciso dizer, eu acho que custa muito mais. Para a inveja, conseguir admirar, falar de um outro admirativamente é duro. Isso a gente deve fazer, mas fazer com alegria, não é como uma coisa arrancada de dentro da boca da gente. Não. É com alegria com que a gente comenta: olha que linda paisagem; dois que estão viajando de automóvel, com a mesma alegria a gente pode comentar: olha que linda qualidade eu notei em fulano. isto é a nossa modalidade específica de humildade, é essa.

E aí fica dito o essencial. Está se tornando um pouco tarde.

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