Conversa de Sábado à Noite (1ºAndar) – 2/3/1985 – Sábado [Rolo VF27] (Jorge Doná) – p. 14 de 14

Conversa de Sábado à Noite (1ºAndar) — 2/3/1985 — Sábado [Rolo VF27] (Jorge Doná)

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(Sr. Guerreiro Dantas: Se não haveria possibilidade de explicitar mais a questão do profetismo dizendo que o profetismo está no vértice das duas ordens, temporal e espiritual, e que seria no Reino de Maria o alimento para as duas ordens.)

Para efeito de explicitação, tudo o mais, eu teria que fazer umas pequenas retificações no que você disse, para depois dar a resposta.

Não é dizer que para considerar em mim o mais importante é isso, aquilo e aquilo outro. O mais importante, absolutamente falando, que há para considerar em mim é o que há de mais importante em todos nós: é o católico apostólico romano praticante, devoto de Nossa Senhora, etc., etc.

O que mais importa para nós — porque é onde nós temos tido mais recusa; então, importante a esse título, porque nós temos recusado mais, importa mais preencher essa lacuna e completar, portanto, essa concepção das coisas. Então, a esse título, o mais importante realmente é considerar meu feitio pessoal com as circunstâncias disso. É importante, mas, é importante secundum quid, à vista de uma determinada circunstância, de uns determinados antecedentes, nossas próprias necessidades espirituais, no momento isto é o mais importante.

Um pouco, para dar uma comparação, vamos dizer: um fiel vai a uma paróquia onde se venera um Santo Antônio com uma intensidade que é só indo lá que se tem uma idéia do que é a veneração dos fiéis a Santo Antônio. Ao menos no dia que eu fui, achei uma coisa extraordinária, edificantíssima.

O mais importante para eles, indo a Pádua, é venerar o Santo Antônio. Se bem que eles vão lá assistir a Missa, vão comungar, etc., e que assistir a Missa, comungar e rezar o Rosário, absolutamente falando, são coisas mais importantes do que a veneração a Santo Antônio, quer dizer, as graças que Nossa Senhora obtém para nós, ali, são as graças de quem venera Santo Antônio e obtenha d’Ela por meio de Santo Antônio, e, portanto, a esse título, segundo um certo ângulo, é mais importante ir lá e venerar Santo Antônio. É uma coisa que se compreende.

Para evitar más interpretações, que em qualquer momento essa fita possa ter, eu acho interessante fixar isto.

Bem, havia outros pontinhos que não me lembro bem, mas era mais ou menos desse tipo. E, ficando registrado que haveria, mais ou menos a coisa está esclarecida.

Também esta expressão, “eu vejo tudo assim”, quer dizer: Nossa Senhora me deu, desde pequeno — eu tenho a impressão — uma propensão muito grande de espírito para analisar, para situar a minha consideração de todas as coisas em função da ordem de todas elas entre si, portanto, da ordem do universo. Isso é uma coisa muito acentuada no meu espírito desde pequeno.

Mas o que é o universo aqui? Evidentemente não é o universo planetário apenas, mas é toda a criação de Deus, portanto, os Anjos, os santos, etc., depois a corja dos demônios que está no Inferno, tudo isso forma a ordem da Criação, muito mais do que a mera ordem do universo — entendido por universo aquilo que Deus fez para instalar dentro do homem. É muito mais do que isso. Isso tudo tem uma ordem.

Eu sou muito propenso a me encantar com esta ordem e situar tudo em função desta ordem. O que é legitimo, como, por exemplo, se pode compreender que um determinado santo seja muito propenso a admirar todas as coisas à luz, por exemplo, da música e seja um grande compositor. O universo da melodia… — que é, dentro desse universo geral, um ponto excelente —, ele ali faz todas as suas considerações.

Então essa consideração da ordem da Criação é uma atração, creio eu, natural do meu espírito mas, acho que muito robustecida pela graça, pela Fé. Já o meu modo de considerar a Fé é assim e minha facilidade de também crer na Igreja Católica é em função de ver excelentemente , mas excelentemente, como a Igreja Católica apresenta essa ordem da Criação de um modo incomparável e quase que diria que traz em si mesma o enunciado como ela vê, traz em si mesma a prova de que Ela é verdadeira, porque ordem melhor não pode haver. Isto é perfeito, etc., etc., donde o ardor da Fé, etc. …

Agora, quem considera uma determinada ordem, considera naturalmente, sobretudo, o píncaro dessa ordem. E como essa ordem é de fato bivalente no que diz respeito aos homens –– tem o aspecto da Igreja, sociedade espiritual, e aspecto “sociedade temporal” –– ver que, os mesmos princípios de ordem, Deus instituiu, Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu na Igreja e, pela ordem natural, estão postas no estado, forma uma reversibilidade que chama a atenção para os píncaros.

E você descreveu muito bem essa reversibilidade de uma ordem na outra que não é uma reversibilidade ociosa, mas é uma reversibilidade complementar. Quer dizer, considerando uma determinada ordem se vê mais excelentemente [a] outra. De maneira que uma visão excelente se tem da consideração do conjunto das coisas. Seria como, por exemplo, eu estou olhando aquela cortina. Eu vejo…, se eu estivesse com um olho tapado, eu continuaria a ver a cortina, mas eu a vejo mais excelentemente se os dois olhos estão destampados e eu a vejo por esta conjunção das duas vistas; me dão uma visão una e mais perfeita da junção cortina.

Assim também seria a ordem da Criação, no que ela tem de mais excelente para nós. Quer dizer, dentro do nosso prisma, para nosso uso, é a ordem humana. Nesta ordem humana, a consideração das duas sociedades se complementa de maneira que, vista uma em conjunta da outra, a primeira e a segunda são mais bem vistas, com os dois olhos. Daí a reversibilidade entre as duas noções.

Vocês encontram essa concepção muito afirmada na RCR em que a reversibilidade entre a Revolução religiosa, a Revolução política, e a Revolução sócio-econômica estão bem marcadas pelas mesmas idéias dos mesmos princípios de ordem negados aqui, lá ou acolá, em cada uma das três, mas negado de um ponto de vista metafísico. É porque negaram o princípio da ordem da Igreja, detestaram aquele princípio de ordem e, por isso teriam que, mais cedo ou mais tarde, definir uma recusa da mesma ordem que existia no Estado, porque era animada pelo mesmo princípio. Depois, a mesma ordem que existia na esfera sócio-econômica. Lembra-se daquele dito de Mitterrand: “o único jeito de acabar com os reis é acabar com os patrões.” Ele não teve coragem de dizer de tudo mas é também acabar com os pais, são os reis da casa. Então é preciso acabar com tudo. É o mesmo princípio de ordem que a Revolução odeia nas suas várias realizações, que ela conhece fazendo as reversibilidades.

E está inteiramente no meu espírito, é inteiramente isso: no conhecer essas reversibilidades e amar na reversibilidade o princípio metafísico que está nisso, e que é semelhante a Deus, me dá uma idéia de Deus. E aí o “tal enquanto tal”.

Agora, daí resulta uma outra coisa que é, não propriamente uma noção abstrata, alguma coisa assim, não é bem isso também, resulta esse fato concreto que, doutrinariamente falando, muito “caneca amassada” conhece e provavelmente conhece melhor do que eu: o caráter fundamentalmente sacral de tudo quanto existe.

Quer dizer, se nota nas coisas que elas são vistas em função da criação, em função desta ordem, nota-se que elas servem a um fim sacral e que elas brotam de um Deus Ótimo-Máximo, Supremo, Todo-Poderoso; que elas brotam d’Ele e que Ele as leva a esse fim. Elas são, por assim dizer, sacrais na sua origem e sacrais no seu fim.

Bem, isso, um teólogo, um filósofo, dirá muito mais amplamente, com mais precisão, com mais desdobramento de princípios do que eu estou fazendo aqui. Mas que é próprio a nosso espírito ter isso, por assim dizer, a flor dos sentidos…

(…)

é ter por assim dizer, na ponta dos sentidos, da sensibilidade isto que para os outros é princípio abstrato. Para nós é um princípio abstrato, mas que é, pelo favor de Nossa Senhora, tão vivo que, basta incidir sobre uma determinada coisa que a gente pega.

Vamos dizer, por exemplo, eu estou aqui, vendo à distância, um cristal ametista. Basta olhar para aquele cristal ametista que o colorido do cristal me dá uma série de impressões que já são sacrais na sua ordenação. Eu já os recebo, já os vejo, numa projeção sacral. Quer dizer, elas de fato são assim, mas, na ponta as sensibilidades, elas já estão assim, já nascem, já se formam para mim assim ou como que.

(Sr. Paulo Henrique Chaves: Em 67, o senhor dizia que, sem esses dons não se escreveria a RCR, mãos humanas não poderiam escrever).

Não poderiam. Quer dizer, aqui nasce um problema: isso é um predicado natural ou é uma graça? Eu acho que é um predicado natural, mas muito ampliado, corroborado, e tornado saliente por uma graça.

(Sr. Paulo Henrique Chaves: Essa graça se confunde com a graça do Profetismo?)

Ela está a serviço da graça e da missão do Profetismo. No quê? É que eu acho que este senso, então, que guarda com veneração e entusiasmo tudo quanto deve ter de teórico, de doutrinário — eu venero essa doutrina, daria a vida por ela —, mas que, além de ter a doutrina, tem isto na ponta da sensibilidade. Isto é a réplica da Providência à Revolução. Porque os filhos da Revolução chegam a esse ponto; eles têm isso.

[Entra a Sagrada Imagem. Jaculatórias]

Como dizia bem o Gonzalo, os filhos da Revolução têm isso. Eles têm a doutrina e eles têm isso na ponta da sensibilidade. De maneira que, por exemplo, quando esse homem pegou essa ametista, [no fato que o Sr. Paulo Henrique contou] e colocou de lado, ele, no fundo, não é dizer que não tenha nenhuma sensibilidade, mas ele tem uma sensibilidade a qual está amortecida por uma ação qualquer da Revolução. É o “caneca amassada”.

Depois entra aqui um outro ponto que também é delicado, que é o seguinte: Não é ascético fazer assim? Por exemplo, uma pessoa que está vendo essa pedra, está gostando, não agirá com desapego dando a pedra?

Eu digo: “Em muitas circunstâncias sim; não em todas. Porque o ornato é indispensável para a sociedade temporal como para a espiritual. Nós não podemos imaginar igrejas ornadíssimas e casas particulares, taperas de mendigos. Se a ordem temporal é um símile da ordem espiritual, ela deve ter os seus ornatos, e a ascese não consistia e eliminar tudo isso, transformar o mundo numa imensa favela por ascese. Isso é uma coisa errada, não pode ser e está acabado.

Então, no Reino de Maria, eu desejo, espero, suponho que se tenha muito isto na ponta da sensibilidade. E, para meus filhos na TFP, tenho desejado muito isso. O que eu tenho feito nesse sentido é alguma coisa. Não tenho conseguido resultados muito expressivos, mas o que eu tenho feito é o que eu posso, com “Ambientes e Costumes”, com isso, com aquilo… Você estava no Santo do Dia agora. Não sei se deve ter notado que eu procurei, em algo, naquela historieta que eu contei, fazer notar essas e aquelas coisas, fazer sentir isso.

Quer dizer, isto será uma característica da integridade do Reino de Maria. Tudo isto que eu estou dizendo deve ser comum a todos: a noção, então, dessa reversibilidade em torno das duas ordens, da reversibilidade entre os espíritos das duas ordens, que é o “tal enquanto tal” especificamente falando; depois a questão da sensibilidade na ponta dos dedos, para notar a reversibilidade dentre as aparências, as idéias, os conceitos, etc..

Agora, há uma coisa que o Gonzalo mencionou também, mencionou bem, mas eu acho que se poderia aqui ampliar ainda mais, que seria esse conceito: “conceito de supremacia.”

Quer dizer o seguinte: há um princípio que, quando eu li, me deixou meio surpreso, mas é assim. Erraria quem dissesse que Nossa Senhora é mais perfeita do que as criaturas que Deus pudesse criar. Ou, a seu modo, que foi Lúcifer. Erraria quem dissesse isto. Porque Ele é tão plenamente onipotente — onipotente no sentido tão exato da palavra — que não há limite para a perfeição da obra criadora d’Ele. E supor que Ele criasse o mais perfeito possível é supor que Ele não é onipotente. E qualquer ser que ele crie, por mais perfeito que seja, ele poderia criar mais perfeito se quisesse. Isso é um ponto da doutrina católica.

Agora, isto põe em realce — ao menos diante dos meus olhos — põe em realce o valor do seguinte: numa determinada ordem reflete, uma vez que não é possível haver ser supremo abaixo de Deus, que Deus não pudesse criar mais alto e que refletisse a Ele perfeitamente. O ser que melhor reflete a Ele é o ser que, em determinada ordem, é supremo. Porque não é o ser mais perfeito que Ele poderia criar, mas é o ser mais perfeito que Ele historicamente criou. E, portanto, esse reflexo do mais perfeito possível não existe naquele ser, mas existe de algum modo o reflexo da plenitude d’Ele no fato que, historicamente, aquele é supremo. Ali existe uma expressão da divindade d’Ele, historicamente, concretamente.

E então o fato de ser supremo numa determinada ordem traz consigo um reflexo de Deus que nada traz. E que é, propriamente, o que se poderia chamar, a supremacia. Não sei se nos dicionários o sentido de supremacia será bem exatamente esse, mas está bastante trabalhado para o nosso uso. Assim como a aristocracia é a ordem e o domínio dos excelentes, a supremacia é a ordem e o domínio dos supremos.

Então há o seguinte: que o espírito voltado para o “tal enquanto tal” tem um especial respeito para tudo quanto é supremo na sua ordem, ainda que esta ordem seja pequena. Então vou dizer um exemplo: vamos imaginar que não fosse a porcaria que é, quer dizer, uma republiqueta comunista, mas que fosse uma republiqueta católica, bem organizada — se quiserem até —, burguesa: a república de San Marino, na Itália.

É um dos Estados menores do mundo, mas o presidente de San Marino, enquanto sendo supremo de um Estado que é determinada ordem temporal, ainda que com tamanho de um poeira ou de um pedregulho, ele, enquanto chefe de Estado, tem um dignidade que um irmão da rainha da Inglaterra não tem. Ela não tem irmão, é só para exemplo. Então, não tem, embora o irmão da rainha seja príncipe e o outro não é; a Inglaterra tenha um outro poder, outras circunstâncias que San Marino não tem, quase não se pode comparar; [mas] há um fato concreto: esse homem tem a seu favor a transitória supremacia de um Presidente da República.

E, enquanto ele é chefe de Estado, ele é, se quiserem, se quiserem, um supremata. Isto lhe dá uma categoria que na sua ordem é inconfundível.

Pode-se dizer que, na ordem dos chefes de Estado, ele é o último. Pouco importa. Vamos supor que seja o último. Está bem. Mas, ele tem consigo isso: ele é supremo. Ele tem, portanto, os predicados da supremacia.

Agora, esta supremacia é tendente à unidade porque [o] supremo é único. E, portanto, transitório ou não transitoriamente, o normal da supremacia é estar nas mãos de um só. Então um poder federal coletivo como é o da Suíça… Não há Presidente da República na Suíça. A Suíça é um pouquinho como a TFP: não há um presidente da TFP, mas, há um presidente do conselho nacional da TFP. Quem rege a TFP é o conselho nacional . Assim também não há um presidente da Suíça; há um presidente do conselho de qualquer coisa, que este é o presidente do conselho coletivo da Suíça.

Não é contra o direito natural, mas tem isso que é uma situação que está no extremo limite do direito natural; se fosse freqüente, daria em desastre. Ela só é concebível em situações muito excepcionais. Ela não é, portanto, uma situação morbosa, mas, tornada normal, dá no morbus. De tal maneira que está no extremo limite.

Mas isto quer dizer que, normalmente, a supremacia pede o poder de um só.

Uma pessoa, admiradora da ordem medieval, por exemplo, essa pessoa veria, no Imperador do Sacro Império, uma figura temporal das perfeições de Deus que Ele quis exprimir na ordem temporal mas, que são as mesmas perfeições que Deus quis exprimir na ordem espiritual quando Ele instituiu o Papa à testa da Igreja. A mesma perfeição de Deus que se refletia, histórica e concretamente, na ordem temporal, com a existência do Sacro Império, supremo na ordem temporal, essa mesma perfeição a refletiu, a manifestou, através do Papa, supremo na ordem espiritual. As duas supremacias, enquanto supremacias, refletindo melhor, do que todo o resto do existente nesta Terra, esta perfeição de Deus. E esta perfeição de Deus sendo uma perfeição que é por onde — quase eu diria, não sei se é correta a expressão –– é a própria transcendência de Deus, o por onde Ele não é as criaturas e Ele paira acima e de fora das criaturas. É isto que a supremacia reflete, fazendo com que aquele que é supremo como que paire acima de todas as coisas e não se confunda com nada.

E então, não basta reversibilidade, mas, para tomar todo o sabor desta ordem é preciso considerar que essa reversibilidade brilhou, historicamente, de um modo especialmente enérgico quando ela apresentou nos dois supremos de cada ordem porque se apresentou como uma ordem daquela alteridade por onde Deus não é as criaturas. Todo supremo tem isso de próprio: que ele reflete de algum modo Deus enquanto não sendo outros seres, enquanto pairando sobre os outros seres. Esta é a perfeição de Deus, de que a supremacia é uma imagem.

Cada um de um modo diferente e, na junção, está o inteiro. É a mesma perfeição que se reflete de dois modos complementares. De maneira que o homem, considerando ambos, tem uma noção que não é a soma das duas noções, mas é um brilho especial da conjunção dessas duas noções.

(Sr. Guerreiro Dantas: São duas ordens distintas, mas há um ponto onde elas se tocam.)

Não. Não é só um ponto. De alto a baixo, você nota as reversibilidades.

(Sr. Guerreiro Dantas: O senhor poderia explicar melhor as peculiaridades das duas ordens.)

Eu vou dar um exemplo, porque eu acho que isso é um ponto tão interessante, que acho até que, mais para frente, devemos tratar disso, porque, quando não se trata também da peculiaridade, fica-se com a coisa pastosa, realmente. Ela deve entrar a seu momento, mas é o momento de tratá-la nos termos que você está falando e a gente dar uma resposta sumária para depois, mais adiante, desenvolver.

Você toma o amor paterno e o amor materno, são ambos expressões do amor de Deus. Tem evidentes reversibilidades e evidentes peculiaridades. E é do fato de eles serem reversíveis e peculiares que nasce a harmonia deles. A harmonia é propriamente isso: a coerência no reversível e no peculiar.

[Vira a fita]

Na natureza, Deus pôs uma pilha de coisas assim. Você sabe que os dois lados do rosto nunca são iguais, mas que se o sujeito tivesse os dois lados do rosto iguais seria um monstro, seria esquisito. As diferenças fazem o clic da coisa.

Então, nesta ordem deve-se ressaltar muito o papel das peculiaridades. No momento estamos falando mais das reversibilidades, porque estamos em função de hábitos mentais e de um mundo que nega muito essas reversibilidades, faz uma fratura. Então, nós estamos numa espécie de réplica a esse mundo. Mas chegará o momento — sobretudo se você se incumbir de lembrar — [que] nós devemos tratar das peculiaridades para que o assunto todo seja visto. Mas para um vista assim de momento, esses dois exemplos podem ajudar a introduzir um certo equilíbrio no que se está dizendo.

(Sr. Guerreiro Dantas: O senhor usou o termo “peculiaridade” e não “diversidade”.)

Peculiaridade não-contraditória. “Peculiaridade”, de si, é uma coisa que faz que um ser tenha algo por onde ele não é nenhum outro ser. Isso é “peculiaridade” em toda sua força, mas que não entra em choque com outras peculiaridades, embora possam chegar ao extremo da estridência. E nisso está a beleza da harmonia.

Então, de momento, podemos deixar isto assim e eu gostaria que você lembrasse adiante as peculiaridades das duas ordens, etc., etc., que é elemento fundamental.

Bem, falávamos da supremacia. Deus é transcendente, Ele está de fora enquanto Ele não é. O supremo, enquanto Ele é supremo, Ele ao mesmo tempo é arqui-tudo e Ele é de fora de tudo.

Você toma, por exemplo, o príncipe de Mônaco. Ele, mais do que ninguém, é Mônaco. Mas porque ele é Mônaco mais do que ninguém, ninguém é ele e ele quase está fora de Mônaco. É um pouco como a cabeça com o corpo. A cabeça faz parte do corpo, mas eu poderia dizer de uma pessoa guilhotinada: o corpo está aqui e a cabeça está lá, de tal maneira a cabeça de algum modo se divorcia do corpo. É a supremacia.

Bem, esta supremacia deve ser vista em conjunto com a reversibilidade porque é a reversibilidade no seu aspecto mais nobre e mais alto: é a supremacia do espiritual e a supremacia do temporal. E, portanto, não vê todo o assunto quem não vê em função da supremacia. Donde a noção da supremacia ser inerente a idéia da “tal enquanto tal”. Quer dizer, quem considere o “tal enquanto tal” fora da supremacia, não pegou bem o lado vivo do tema.

(Sr. Paulo Henrique Chaves: Como o senhor definiu mesmo supremacia?)

Eu disse que supremacia é a condição que tem um ser pela qual condição ele é supremo. Note que o supremo não é a condição “número um” da numeração. Ele é alguma coisa que está fora; isso é que faz o verdadeiro supremo. Ele é de tal maneira alto que ele, por vários lados, está fora de série, porque é no estar fora de série que ele é supremo. Ele não é numerável. Vamos dizer assim que ele é, neste sentido artificial da palavra, “inúmero”. Ele não é número, ele não entra na numeração. Ele ao mesmo tempo resume tudo. E porque resume, está fora. Esta é a supremacia.

E esta é a afirmação mais suprema da desigualdade e, portanto, não pode ser verdadeiramente contra-revolucionário sem amá-la, e sem amar com entusiasmo.

(Sr. Poli: Muitos movimentos da alma do senhor se entende com isso.)

Meu gosto de encontrar o supremo, vê-lo e me sentir ao mesmo tempo dentro e fora dele… que é propriamente a admiração. Porque eu estou dentro dele? Ele me representa. Porque eu estou fora dele? Porque ele me transcende. Isso me dá um bem-estar e eu digo: “Ohhhh!”

(Sr. Paulo Henrique Chaves: Há mais de um supremo?)

Numa ordem não.

(Sr. Paulo Henrique Chaves: Hoje em dia, postas as coisas como estão, que é o supremo?)

Bem, o mundo está gravíssimamente enfermo. Pode-se dizer que a sociedade temporal está mortalmente enferma e a sociedade espiritual estaria mortalmente enferma se fosse mortal. Elas têm todas as condições para morrer; e só não morre por causa do poder divino que a sustenta.

Vamos imaginar agora um Rei: rei de Israel; vamos imaginar Salomão antes de sua perversão, ou Davi fora do pecado. Imagine que ele não fosse… Olha aqui. Vocês tem um exemplo característico em Saul:

Saul era rei, era rei legitimo. Davi… Edwaldo me contou vários episódios da Escritura, do respeito de Davi por Saul, uma coisa lindíssima! Uma coisa extraordinária! Mas, Saul não era profeta, quem era profeta era Davi.

Quem era supremo, era Saul ou era Davi? É uma pergunta que cabe.

A essa pergunta se responde da seguinte maneira, a meu ver: na ordem normal, temporal ou espiritual, o supremo é: na ordem espiritual, o Papa; na ordem temporal, o rei ou quem…, ou o chefe de Estado.

Agora, acontece que, para maior excelência de qualquer dessas duas ordens, ou para salvar –– noutra ponta embaixo –– para salvar qualquer dessas duas ordens de um desastre, Deus pode incumbir uma pessoa de uma missão extra. Essa missão é uma missão extraordinária que não faz parte dessa ordem — é uma interferência extra-Deus dentro da ordem que ele mesmo criou, portanto, não pode ser classificada de dentro dessa ordem — e que represente, é portadora da expressão de uma vontade de Deus mais augusta do que a própria vontade que eles representam.

(Sr. Paulo Henrique Chaves: Está superior as duas.)

Conforme. O Profeta pode ser mandado só para a ordem temporal, só para ordem espiritual ou para as duas.

(Sr. Paulo Henrique Chaves: Quando para as duas, transcende as duas.)

A seu modo, como quem está fora desta ordem, não como elemento integrante dessa ordem. É muito bonito.

Então a comparação perfeita seria vocês imaginarem um exército com toda a sua organização, etc., etc., que se prende ao chefe de Estado por meio do Estado Maior, e tal. Mas, ou porque quer levar um conselho magnífico — baseados em segredos de Estado que o Estado Maior não conhece —, quer levar uma ordem ao general que comanda aquele exército, ou para dar um ordem peremptória, intervir, “está errado e eu proíbo”, ele passa por cima de tudo e manda um emissário que seria, por exemplo, filho do rei: “Vá lá e mande dizer de minha parte tal coisa.”

Esse, diante daquele exército em batalha, não faz parte da organização do exército. Ele representa um poder que transcende o próprio exército e ele anuncia o desejo de Deus para esse poder.

Agora, ele rege?

(Sr. Gonzalo Larraín: Supremamente?)

Sim e não. É muito subtil e, ao mesmo tempo, muito bonito. Ele rege no sentido de que ele é o portador de uma vontade que o outro é obrigado a seguir. Ele não rege no sentido seguinte: ele comete ali um pecado, se ele não seguir, contra Deus mas, não um pecado contra uma ordem interna do Estado que ele dirige.

Quer ver um exemplo categórico? E eu não estou falando do profetismo oficial; estou falando do profetismo privado. Santa Joana d’Arc… se não me engano é o Cornélio a Lápide que considera Santa Joana d’Arc uma profetiza. Ela significou ao rei da França estes ou aqueles desígnios que o rei deveria seguir para fazer a vontade de Deus. Se o rei não seguisse esses desígnios, ele não pecaria contra as instituições do Estado francês, mas ele pecaria diretamente contra Deus.

Um pecado muito maior! Então pode dizer, por exemplo, “ele atentou contra a ordem feudal”. Bem, é um pecado contra a instituição do Estado francês, mas, esse é um pecado muito pequeno em comparação do seguinte: Deus lhe mandou uma mensagem que Deus atestou por milagres.

Conhecem aquela história do segredo do rei da França? Que ela contou um segredo que parece que era a questão da dúvida que ele tinha da própria legitimidade dele como filho, portanto, como rei. Ela contou alguma coisa qualquer a ele que “fiat lux!”, ele entendeu: milagre. Depois fez outros milagres… Ele ficou vendo que recebia uma ordem de Deus; ele deveria seguir essa ordem. Ele pecou enquanto indivíduo e pecou enquanto rei porque ele enquanto “Rex Cristianíssimus”, ele era obrigado a fazer a vontade de Deus. Todo rei está sujeito a Deus, e o rei cristão, o que é sagrado no dia da coroação, esse peca de modo mais grave.

Mas, não era contra o relacionamento interno dos membros do Estado francês. Era um pecado contra Deus diretamente. Muito mais alto, portanto.

(Dr. Edwaldo Marques: Essa pessoa extraordinária tem que ter uma densidade de amor para com a instituição para qual ela está profetizando, que é também um fator de reconhecimento do que ela é, não é? Ela tem que ter algo nessa linha.)

Tem. Evidentemente. No caso histórico dela era evidente o amor dela à França; era evidente. Você sabe que a Lorena onde ela nasceu não fazia parte do Estado francês naquele tempo; era uma unidade do Sacro Império. Se você quiser, em termos muito… não se ajustam bem à situação histórica, mas, se você quiser era a plus tôt uma alemã. Bem, Deus manda essa alemã à França com essa missão. Ela vai cheia de amor para com a França, cheia de amor para com o rei; ela batalha contra os Ingleses, tomada de amor pela nação francesa. Isso, o rei deveria notar também como um dos títulos da missão dela. Ela foi destinada para o bem dos franceses; ela deve amá-los.

(Sr. Paulo Henrique Chaves: No profetismo atual, as peculiaridades mais salientes, quais seriam?)

Eu tenho a impressão que…

(…)

Santa Joana d’Arc, a característica da missão profética que ela tinha podia talvez ser vista no seguinte: ela era destinada a salvar uma ordem histórica, uma entidade histórica existente, que era a França. Mas era visivelmente destinada a salvar para obter a sobrevivência de coisas que Deus tinha posto naquela realidade temporal que era a França: coisas temporais e sacrais, espirituais, portanto, que constituíam o reino da França, no que ele tinha de Reino Cristianíssimo, como também de Nação Primogênita da Igreja, com tais missões, etc., etc.… ela era obrigada, era destinada a salvar.

Agora, ela não tinha, o que poderia tornar a missão dela mais completa — ao menos não conheço, nunca li isto a fundo, mas não parece que ela tivesse —, a missão de fundar uma nova França caso, esta França, recusasse a missão dela e fosse por terra. A impressão que a gente tem é que a França ia água abaixo e que, [a] ela, Deus a tiraria da Terra, ou morrendo num combate, numa doença, ou mártir da Inquisição, ou qualquer outra coisa assim, mas, que ela, a missão dela, uma vez recusada, estava extinta.

Ela não era, portanto, uma missionária, uma profetiza de uma ordem futura. Pelo contrário. Por exemplo, a mensagem de Fátima tem qualquer coisa de profético da ordem futura. Quer dizer, se não for aceito, a missão profética da mensagem de Fátima continua, uma ordem futura vai ser assim.

Há um conselho dado ali aos Papas e a todos os poderosos da Terra na ordem espiritual como na ordem temporal, tomando a ordem temporal, como na ordem social, como na ordem política e na ordem econômica, que empreguem o seu poder –– eu digo isso muito largamente –– que empregue seus meios de ação para fazer com que as coisas refluam numa ordem contra-revolucionária porque senão Ela fará a Contra-Revolução.

Então há em Fátima uma profecia assim: de que se caminhará ao absurdo se não se conhecer a Ela e que Ela intervém nesse absurdo e vence. Isso está na profecia de Fátima, Ela então prenuncia a interferência d’Ela, a vitória d’Ela, numa ordem que é como Ela quer…

(…)

… “raprochê” esta ordem de que nós dizíamos há pouco. Nós falávamos, em última análise, de uma ordem em que a noção dessas reversibilidades da supremacia fosse consideração preponderante dos que modelassem uma ordem à outra. E essa seria, portanto, se nós imaginamos bem a ordem futura, o Reino do Imaculado Coração terá uma porção de riquezas além desta, mas, não poderá não ter esta, se é que nós pensamos retamente a respeito do caso. E parece que pensamos.

Então esses seriam traços da ordem futura que são, ao mesmo tempo, traços que a ordem passada teve — talvez sem ter muita consciência disso e sem levar concretamente todos os pontos às últimas conseqüências; em todo o caso… — que ali seriam protuberantes porque seria a ordem contra-revolucionária nascida do esmagamento da Revolução.

Agora, eu gostaria de dizer uma coisa que deixei passar e que, para ordenação dos espíritos, me parece muito importante.

Quando eu falei dessa supremacia e da supremacia que ao mesmo tempo contém e se destaca de tudo, eu acho que esse conceito de supremacia é de tout beauté. Então, eu acho que esse conceito e tudo isso assim conduz a uma coisa, a uma posição perante tudo quanto na Terra é próprio da terra de exílio — a terra do exílio habitada por pecadores, castigados no exílio, portanto, com as mazelas do pecado original — que é uma posição, militante, de recusa, das coisas da natureza que são o reflexo do pecado.

Então, por exemplo, bichos muito feios, nojentos, como, por exemplo, um sapo, um porco… Nesse bicho, a gente deve ver formas e coisas que provavelmente não existiriam numa ordem que não fosse maculado pelo pecado, a não ser que Deus tivesse criado para dar ao homem horror ao pecado. Mas quer enquanto criadas para castigar o homem, quer enquanto criadas para dar horror ao homem do pecado, quer para castigar o pecador, essas coisas foram criadas para que o homem perante elas tomasse uma posição militante. E, portanto, uma posição de horror que explica, por exemplo, o conteúdo moral da coisa que normalmente os médicos, por exemplo, vêem do lado meramente higiênico.

Por exemplo, não sei –– me desculpem o prosaísmo da coisa, mas para falar dessas coisa a gente tem que ser prosaico ––, ele está com uma espinha muito grande e a espinha estoura, por exemplo. Bem, o lavar aquela espinha daquelas matérias todas e acertar aquilo tudo,etc., não é apenas uma preocupação higiênica muito boa, indispensável, mas, é a expressão do horror do homem diante da matéria podre que ele mesmo ejetou, que seu organismo, trabalhado pela doença, ejetou. Porque o homem deve ter horror à podridão que é a imagem da morte. E deve ter horror da morte porque é um castigo dele.

Então, a limpeza é também um ato de recusa e de restauração, de Contra-Revolução se você quiser.

(Dr. Edwaldo Marques: O senhor falava uma vez do lixeiro…)

O lixeiro. Ele faz um trabalho de Contra-Revolução. Ele exila da cidade as coisas que são aspectos do pecado, frutos do pecado, símbolos da morte, etc., etc., que devem ser levados embora, para serem queimados. É a geena de uma cidade e aquilo se põe ali. O homem deve ter horror aquilo.

(Sr. Paulo Henrique Chaves: A peculiaridade das peculiaridades desse supremo seria então a inocência?)

A inocência. E exatamente eu queria dizer isto: que certas virtudes morais fazer determinadas almas muito elevadas, embora criadas num nível mais baixo, participarem de uma certa supremacia espiritual. Por exemplo, a castidade tem muito disso, a virgindade — Sancta Virgo Virginum, ora pro nobis! —, a virgindade tem muito disso: quanto mais requintada, tanto mais a pessoa que a tem participa de uma certa supremacia. É uma coisa evidente. É uma supremacia moral, mas, que repercute em todo ser, é uma coisa evidente. E, portanto, essas considerações que eu estou dando são considerações que conduzem ao asseio, à compostura, à compostura das maneiras, conduz, sobretudo, à virtude que faz com que todo o pecado desfigure especialmente o homem que, de algum modo, participa da supremacia. E que toda virtude, o estado de graça de algum modo, em confronto com outros seres, tem qualquer coisa de supremo, de supremático. E que isso dá um alimento para a vida espiritual que é propriamente extraordinário, segundo eu entendo.

E que eu quase não compreendo inocência que não tenha isso. Como eu não compreendo pureza que não seja assim. A pureza, se você tirar dela o que eu estou dizendo, é a pureza da solteirona, banal, comum, que não encontrou marido e que não quer pecar. Tem seu mérito, mas é um mérito muito pequeno.

Mas que uma pessoa tenha querido viver no estado de celibato, para não ter, nem sequer os prosaísmos de um estado santo como é o casamento, é supremo.

Então, a intransigência participa do supremo: é a recusa beligerante de tudo aquilo que se opõe ao que eu estou dizendo.

Agora, se vocês quiserem, porca, vil e diabolicamente o contrário, vocês tem o freudismo. Dizer que a criança deve se habituar a brincar com as próprias fezes é, aos urros, o contrário do que eu estou afirmando!

Agora, vocês não acham que isso faz bem a vida espiritual? Eu acho.

(Sr. Paulo Henrique Chaves: Quando o senhor fala, na Oração da Restauração… não sei, comigo foram lapsos de tempo que tivemos isso. Agora, nessa clave…)

Na clave da reunião de hoje à noite não. Agora, você tem outro lado por onde pode compreender a coisa, da seguinte maneira: se por uma calúnia infame você fosse expulso da TFP e, por exemplo, agora aqui eu dissesse a você –– que Deus me livre!: “Pegue suas coisas e vá para um hotel. Se você não tem dinheiro, lhe dou. Não precisa mais pagar porque nunca mais quero lhe ver, mas afaste-se de mim porque eu não tenho mais nada a ver com você!” Você começava a ter dificuldades de conciliar o sono no hotel. Bem, aí você começaria a ver a terra da qual saiu; aí você saudaria com essas palavras o período no qual você esteve na TFP.

(Sr. Paulo Henrique Chaves: Isso emociona.)

Bem, você permita que eu lhe diga uma coisa? É coisa privada sua.

(Sr. Paulo Henrique Chaves: Diga, diga.)

Há também uma coisa meio bolostrocado dentro da sua cabeça por onde você tem mais isto do que você supõe e percebe menos do que tem. Um dia eu explico isso a você. São, portanto, duas coisas distintas.

Agora, tem o seguinte que é próprio dessas reuniões: é que dá uma certa apetência disto que eu estou dizendo. Não é uma apetência fulgurante mais é uma apetência real, disso que eu estou dizendo, dá uma certa apetência.

Esta apetência é a apetência de algo que, subconscientemente, muitos dos que estamos presentes nessa sala, passamos o tempo inteiro da vida do Grupo, ao mesmo tempo meio atraídos e meio fugidos. No “meio atraído” está a nossa perseverança. No “meio fugido” está a nossa miséria.

Noto um silêncio penoso no que eu disse.

(Sr. Paulo Henrique Chaves: Penoso para o senhor.)

Mas é inteiramente evidente, há uma atração, mas há uma espécie de fuga, de maneira que, quando se consideram as grandes linhas gerais, reluz uma atração. Quando se trata de transportar para isso — que, na linguagem da Oração da Restauração, nós poderíamos chamar um paraíso —, transportar para os nossos paraísos as nossas bagagens, nós relutamos porque estamos apegados a coisas que são o contrário disso e que, no terreno das bagatelas, são quase freudianas. Não ponho sexto Mandamento no que eu estou dizendo, mas são quase freudianas: o gosto de uma certa vulgaridade, o gosto de ser um com os que estão aí fora, o pânico de fazer a grande viagem para dentro desta participação da supremacia desse ponto de vista, existe…

(…)

modo de conversar, de se tratarem, que é propriamente delicioso. Eu me sento ali inteiramente à vontade, ali eu sou eu. Sim, eu sei. “Quóniam iniquitátem meam ego cognósco: et peccátum meum contra me est semper.” Aí sim, é você: você enquanto carrega seu pecado e ama a sua ferida e não limpa o pus que sai de dentro dela. Aí é, lhe dou toda a razão. É bárbaro!

(Sr. Gonzalo Larraín: O chamado é para ter relação com alguém que está fora da ordem. A coisa de si já seria grave se fosse contra um supremo espiritual ou temporal, mas a coisa é mais complicada por que chamados para alguém que está fora desta ordem e temos a tendência para os círculos que estão encaixados no último da ordem, e chamados para estar fora.)

É isto, e não adianta vir com conversa. Eu acho que, pelo menos, vale a pena a gente se dar conta; já é alguma coisa a gente se dar conta. Mas, nós vemos ali o tamanho do desvio, que o desvio que nós estamos é enorme. Mas há, evidentemente, uma graça para isso, que dá no seguinte:…

(…)

mas é muito bonito.

(Sr. Fernando Antúnez: O senhor poderia repetir um pouquinho?)

Nossa Senhora foi chamada por São Luis Grignion de Montfort o “Paraíso de Deus”. Eu, quando li a expressão, fiquei meio espantado: “O que quer dizer isto?” E a explicação dele é luminosíssima. Quer dizer, Ela foi para Ele o lugar de delícias d’Ele. Ele habitou n’Ela como Adão no paraíso. É uma coisa altíssima, a honra d’Ela com isso não tem palavras. Mas, é bom cogitar nisso olhando para a imagem d’Ela. É bom.

E Ele quis, ao pé da Cruz, ter o paraíso d’Ele. E Ela estava naquela aflição sem nome, mas Ela, a “Consoladora dos aflitos”, foi antes de tudo a “Consoladora do Grande Aflito”.

É pena que os padres não preguem isso nos sermões; faria um bem enorme. Enfim, não pregam. Nós podemos comentar entre nós, sujeitando à censura eclesiástica quando for oportuno, mas, me parece que isso aí é o creme da doutrina católica nessa matéria. Mas, eu me sujeito ao julgamento da Igreja.

Agora, o que tem é que também nosso paraíso é nos localizarmos nessa posição…

(…)

nós teremos condições de ser heróicos, de ser castos, de ser isto, de ser aquilo, de ser contra-revolucionários, é nesse paraíso.

(Sr. Poli: E só nesse.)

Fora desse paraíso fica tão cambaleante, tão difícil, que eu não sei propriamente o que dizer. E eu acho que isto para nós é muito bom, muito dignificante, muito santificante.

Aliás, também a personificação de Nossa Senhora, como ela também personifica essa supremacia, é…

[Vira a fita]

Disso depois podemos falar, da Cristandade da Igreja. Há uma coisa muito bonita que é a seguinte: Nossa Senhora esteve… foi membro da Igreja militante. Enquanto membro da Igreja militante, Ela era sujeita a São Pedro. Mas, ela representava, a meu ver, o mais alto grau de profetismo, não sei se oficial ou extra-oficial, junto a São Pedro. Veja como é bonito o tema. Infelizmente não vou poder tratar mais desse tema; fica uma ponta de trilho muito bonita calcada entre outras porque isso aí é um esplendor num itinerário. Não é propriamente a ponta de trilho, mas, é um ponto de parada nessa ponta de trilho, para considerar e depois continuar. Mas vale a pena parar porque é muito bonito.

É tão bonito e tão excelente que eu digo: isto dá uma alegria de ter virtude e uma alegria de alma que é a alegria da inocência, a qual nos dá a coragem de nós fazermos as batalhas do profetismo. Fora disso não existe. Quer dizer, considerações como esta que você está fazendo, outras que fizemos aqui na reunião não é possível que vocês não tenham se sentido felizes durante essa reunião. É impossível.

Bem, comparem essa felicidade com desses patuscos que estão morando por aí. Não se conversa, não é tema de conversa. Mas nos vem acompanhada de uma coragem, de uma decisão, até –– é incrível –– um espírito de sacrifício porque o normal é querer sacrificar-se como conseqüência disso. Olha que falar de sacrifício por aí é funeral.

(Sr. Gonzalo Larraín: Não é por aí não…)

É um funeral. Não compreende que se a gente estabelecer os pressupostos do sacrifício, ele é uma exigência da inocência, a inocência deseja o altar em que ela expire em holocausto. Mas a inocência é cheia de alegria. Há uma porção de coisas aqui que vocês não tiveram pregação nesse ponto e a TFP, e o ambiente interno da TFP, não permite que se trate disso. Por exemplo, uma conversa no Sagres não [se] tem elementos para se falar disso. Ninguém quer. Eles estão voltados para outras cogitações, não tem elementos para isso. Nosso elemento interno deveria ser que a conversa contínua da TFP fosse assim. Não é e está acabado, não temos conversa, está tudo pronto.

(Sr. Paulo Henrique Chaves: Caminhar nas pegadas de Nosso Senhor.)

Foi uma santa que teve uma visão. Ela começou a andar e não conseguia por causa dos espinhos, carregando a cruz. Então Nosso Senhor disse a Ela: “Ponha os pé nas minhas pegadas que você anda.” Ela viu as pegadas d’Ele no chão e foi andando. A solução está feita. Não é até que eu não tenha espinhos, nenhum de nós está prometendo um caminho sem espinhos, mas é um cântico no meio dos espinhos. É uma coisa lindíssima. Se não me engano é Santa Margarida de Padi que teve essa visão.

Bem, meus caros, está feita a nossa reunião e podemos dormir, não sem rezar a Oração da Restauração a Nossa Senhora.

Agora, eu aconselharia vocês, durante a semana, se reunirem uma vez mais para ouvirem essa fita. Eu gostaria que o João ouvisse.

Há momento minha Mãe…



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