Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
2/2/1985 – Sábado [Conversa de Sábado à
Noite 059 e VF 029] – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 2/2/1985 — Sábado [Conversa de Sábado à Noite 059 e VF 029]
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No décimo aniversário da conversa que antecedeu o desastre, são recordadas afirmações então feitas pelo Sr. Dr. Plinio * Porque na adolescência o Sr. Dr. Plinio se resignara ao que desse e viesse, sem que nada lhe fosse surpresa, o desastre não foi um susto: estava no orçamento e era normal acontecer * O Mandamento e o amor inocente à virtude foram a razão da opção do Sr. Dr. Plinio pela pureza, mas o sossego da inocência e a agitação do deleite proibido o ajudaram a optar * A graça de Genazzano afasta o fantasma de um culposo não cumprimento da vocação — Sem essa graça, não manteria a placidez e não resistiria * Jogar-se nos apegos e torcidas para gozar a vida é a tapeação do demônio: ele nos tira exatamente aquilo que promete * O Sr. Dr. Plinio sugere um plácido caminho de regresso à placidez * O brilho da placidez é diferente do brilho da agitação — A placidez dos êremos * Sem amor à placidez, um filho do Sr. Dr. Plinio, convidado a viver no primeiro andar, ficaria tão córneo para as graças dessa casa que preferiria morar no “chão” Milas * Empolgado pela fabulosa placidez de São Pedro Armengol, o Sr. Dr. Plinio oscula sua relíquia todos os dias
* No décimo aniversário da conversa que antecedeu o desastre, são recordadas afirmações então feitas pelo Sr. Dr. Plinio
Então, quem é que lança uma pergunta, uma questão, um problema?…
(Sr. Mario Navarro: Hoje é o décimo aniversário daquela conversa da noite antes do desastre.)
Quais de vocês estavam presentes, levantem o braço para eu ver.
Dois, três, quatro.
(Sr. Fiúza: Lembro-me que o senhor falou no dia mesmo do desastre, na reunião do EVP de domingo para segunda-feira.)
Eu disse o quê naquela ocasião?
(Sr. Fiúza: Não me lembro bem, mas algo na linha de que a situação estava de tal modo ruim, que o senhor achava que Nossa Senhora pediria algo ao senhor na linha do sangue.)
Não sei porque, ficou-me na cabeça que foi na sexta-feira. Mas foi no sábado?
(Sr. Fiúza: No sábado o senhor entrou e sentou aí onde está o Sr. Gonzalo. Assim que o senhor sentou, o senhor mesmo disse: “Eu tenho pensado tanto em mamãe e no lugar onde ela está, que eu me proíbo de pensar, de vontade de ir para lá”.)
É, isso eu me lembro, que eu sentia isso.
(Sr. Nelson Fragelli: E assim começou a conversa.)
Que boa memória, hein?
(Sr. Nelson Fragelli: O senhor falou na perspectiva da morte do senhor diversas vezes ao longo da conversa. Quando o senhor se despediu de nós, o Sr. Mario o segurou e disse: “Mas tudo isso é apenas hipótese, não é, Sr. Dr. Plinio ?”. O senhor para tranqüilizá-lo bateu nele e disse: “Sim, sim, tudo é hipótese”. Aí o senhor deu alguns passos, virou-se e disse: “Mas com um fundo de pressentimento”. Assim se encerrou a conversa.)
Não me lembro mais nada disso.
(Sr. Mario Navarro: Parte da conversa foi na sala de jantar. Lá o senhor imaginou o apartamento aqui transformado em repartição burocrática.)
Dessa história de repartição burocrática eu me lembro. Se eu morresse, venderiam ou alugavam para um cartório de registro de imóveis.
(Sr. Nelson Fragelli: O senhor disse coisas impressionantes. Por exemplo, de que, caso o senhor morresse, a perdição do Grupo começaria no seu enterro.)
Ah, isso eu tenho certeza.
(Sr. Nelson Fragelli: Já haveria disputas, quem teria preeminência junto ao caixão, já entrariam em briga com Da. Rosée, e mundanismos.)
É mundanismo com Rosée e com a filha dela. Coisas de salão, nhã-nhã-nhã. Isso tenho certeza. Isso eu tenho certeza que eu disse, porque era assim. Ao menos foi assim.
* Antes do desastre tudo estava para morrer; depois houve afervoramentos, decadências e novos afervoramentos
(Sr. Mario Navarro: Queria levantar isso, ver se o senhor teria algum comentário.)
(Sr. Paulo Henrique: Depois do acidente foi o florescimento do São Bento, Praesto Sum, camáldulas, e todo um afervoramento que antes do acidente parecia muito longe de se passar.)
Pelo contrário, estava tudo para morrer. Os êremos pequenos que tinham sido fundados nas várias cidades entornaram-se dentro de Jasna Gora mais ou menos como quem pega vários cálices e joga num recipiente maior — cálices de licor, digamos — porque estava morrendo.
Isso foi o que facilitou uma certa floração de Jasna Gora, que correspondeu mais ou menos ao período em que era dado muito estímulo, pelo nosso Viano, Reuniões de Recortes etc. Mas depois houve um affaissement, um amolecimento geral, com uma recusa do esforço que ele fazia, etc.
Tudo o que nós fazemos tem defeitos, mas não é razão, para recusarmos o que fazemos de bom, ser recusado por algum defeito que tenha. Pode ser que o feitio mental dele não fosse bem o do brasileiro, também não fosse bem o chileno. Pode ser, mas ele fazia muito bem aquele serviço, e foi um elemento de estímulo. Mas começa um firinfinfim, etc., aquilo caiu. O Êremo de Jasna Gora esteve para ser fechado.
Depois vieram as camáldulas. As camáldulas caíram também. E aí começou a interferência do João Clá nas camáldulas e a comunicação do espírito de São Bento.
Mas o próprio São Bento e o próprio Praesto Sum ficaram abandonados, pelo que me consta, durante mais de um ano. Como era o tempo das vacas gordas, pagava-se aluguel para os prédios abandonados.
(Sr. Fernando Antúnez: Houve gente que propôs desalugar, mas o senhor não quis.)
Já não falo do São Bento, porque é tão óbvio que a Providência não queria, que não preciso dizer nada. Mas é só a gente entrar no Praesto Sum e dar com aquela imagem de Nossa Senhora das Graças lá, que compreende que não era intenção da Providência desalugar aquilo. Compreende assim diretamente, visivelmente.
(Sr. Nelson Fragelli: Eu tenho certeza que o sofrimento do senhor no desastre expulsou um grande demônio que havia no Grupo de desinteresse e de pouco caso pela Causa assombroso!)
Assombroso!
(Sr. Nelson Fragelli: Pergunto se não se pode dizer que esse demônio foi expulso, pelo menos ele levou um pisão nas garras, por onde eu acho que nunca mais voltou um estado de apodrecimento como nas vésperas do desastre.)
Você sabe, Nelson, eu fico numa certa dúvida de como responder, porque, para olhar as coisas assim à primeira vista parece que é, mas para quem conhece os bastidores espirituais de muitas dessas coisas, o que o demônio ainda pintou depois disso foi fantástico.
Para você considerar só, e não ir mais adiante, o desinteresse do Grupo durante o estrondo de 75, a gente pode afirmar assim que o demônio do desinteresse foi pisado? Acho a coisa muito mais complicada, muito mais complexa.
(Sr. Nelson Fragelli: É verdade, ali em 75…)
Seria muito bonito que tivesse sido, as etapas se dividiram bem, etc. Mas a objetividade me parece que pede que se reconheça outra coisa: é que, de lá para cá, houve vários afervoramentos que talvez não tivessem havido sem o desastre, mas esses afervoramentos, eles mesmos, foram seguidos de decadências. Não se pode negar! Depois novos afervoramentos.
No total, eu acho que a situação do Grupo, com a graça de Nossa Senhora, é muito melhor hoje do que no tempo do desastre. Então se pode conjecturar que essa linha ascensional tenha sido percorrida em parte por causa dos padecimentos do desastre, mas que o desastre forma com o estrondo um todo só.
Uma espécie de desastre de alma foi o estrondo. Enquanto o desastre do corpo foi o desastre. Mas o desastre da alma pesa muito mais do que o do corpo, não tem comparação.
* Sendo a crise interna pior que uma crise externa, o Sr. Dr. Plinio lançou a campanha contra o divórcio
(Dr. Edwaldo: Depois a campanha do divórcio, o que senhor não queria fazer.)
Não queria. E deu no que deu. Quer dizer, muito gloriosa, efêmera como resultado, e deu no estrondo. E havia uma espécie de frenesi de D. Mayer e do AX de fazer a campanha do divórcio.
Eu me lembro, foi no dia 19 de março que eu pela primeira vez senti as faculdades mentais em condições de dar o plano da pastoral e o plano da campanha. Eles executaram.
(Dr. Edwaldo: O senhor ditou o esquema da pastoral assim seguidamente.)
Creio que não contei a vocês ainda, mas durante a campanha do divórcio… O centro velho ainda era o centro de São Paulo naquele tempo. Faria Lima, aquela coisa toda, estava apenas começando, e as senhoras, portanto, iam com freqüência ao centro velho. O estrondo não tinha arrebentado ainda; isso foi uma causa do estrondo.
Minha irmã esteve no centro para fazer compras, o que as senhoras iam fazer no centro, depois ela veio para cá e me disse: “Você não sabe o que é o viaduto ocupado por todo o pessoal da TFP, e a impressão que dá de estrangulamento e de imposição. É uma coisa que você vai pagar caro. Abra bem os olhos. Pelo menos ponha menos gente lá. Você não calcula que impressão está causando”.
Eu percebi que não se acreditava ainda muito na minha recuperação mental. Eu teria que fazer uma força para impor a minha autoridade no caso que talvez ocasionasse uma crise. E a crise seria logo de uma vez com D. Mayer e AX.
Eu disse: “Bom, é melhor a crise externa do que interna. Vamos enfrentar a crise externa para não vir a interna, porque no estado em que está o Grupo, se vier a crise interna, esfacela-se. Então é melhor sofrer qualquer conseqüência do que esfacelar-se”.
* Porque na adolescência o Sr. Dr. Plinio se resignara ao que desse e viesse, sem que nada lhe fosse surpresa, o desastre não foi um susto: estava no orçamento e era normal acontecer
(Sr. Gonzalo Larraín: Como o senhor sofre. Isso é grandioso. Porque pela nossa superficialidade achamos que está tudo normal, mas na realidade o senhor está enfrentando situações terríveis como essa que se pôs em 75. Nós deveríamos ter mais profundidade de espírito para penetrarmos nesses arcanos, acompanharmos o senhor nessas angústias.)
O terrível, Gonzalo, não é a coisa acontecer, é o medo de que eu tenha culpa porque a coisa vai acontecer.
(Sr. Gonzalo Larraín: […] A lealdade do senhor para com Nossa Senhora leva o senhor a colocar-se problemas que ninguém imagina.)
Sabe que tem o seguinte:
Eu não sei bem em que época, mas talvez quando eu tinha assim uns 14, 15 anos e que a minha infância já tinha sido tão difícil, eu estava vendo que ficando mocinho ia ser cada vez mais difícil, a vida não era uma ascensão, um caminho junto ao sol que nasce, era, pelo contrário, o afundar numa batalha medonha!
Eu compreendi que ou eu tinha que me resignar completamente para o que desse e viesse absolutamente sem que nada me fosse surpresa, ou eu não seguia esse caminho. E para as pessoas, acontecer qualquer coisa dessas é um susto.
Então, por exemplo, o desastre para mim, eu evidentemente sofri muito com o desastre, mas não foi um susto. Estava no orçamento, estava previsto, é normal que aconteça.
(Sr. Nelson Fragelli: O senhor poderia descrever essa disposição?)
(Sr. Gonzalo Larraín: Para conhecer o senhor é fundamental.)
(Sr. Nelson Fragelli: Porque nosso orçamento é outro: vitória em vitória, comodidade em comodidade e ganhos em ganhos.)
Mas, meu filho, resultado: vocês não têm caminhado de vitória em vitória, têm umas comodidades que não lhes arranjam a vida, e não ganham nada. Que é a vida de vocês? Não me queira mal, mas isso é um gemido de aflição.
(Sr. Nelson Fragelli: Ahahah! Gostei muito.)
Estou vendo vocês dois juntos e estou me lembrando de Roma, por exemplo…
Há uma coisa mais profunda que é a seguinte, e vem desde criança, acho que é uma coisa — suponho — meio ligada à inocência, não tenho certeza, nunca fiz uma análise completa disso, mas que eu via que marcava muita diferença entre nós crianças da mesma roda…
(…)
… e convivia mais intimamente. A primeira pessoa que eu falei tinha num certo sentido um fogo, um entrain e uma capacidade de enfrentar as situações, neste sentido da palavra uma capacidade de agredir que é do outro mundo.
(…)
* Porque sabia gozar com frescor de alma prazeres simples, o Sr. Dr. Plinio se despedia de primos que partiam de navio para a Europa e ia jantar contente no Marreiro
… elementares eu encontrava prazer. Então, quando por uma razão qualquer não era possível eu ter um prazer maior, eu me acomodava no prazer mais simples com muito boa vontade, muito frescor de alma e gozava aquele prazer mais simples intensamente. Embora tivesse sido privado de um prazer maior.
(…)
… o aceitar o nada, caso uma alta razão exigisse. Não é dizer que eu não gostasse das coisas excelentes, gosto mesmo. Você conhece minha truculência e sabe que eu gosto mesmo!
Por exemplo, vamos dizer, eu nunca me permiti de estar sonhando de olhos abertos, mas eu uma vez fui acompanhar um primo que se tinha formado em direito e os pais tinham dado a ele uma viagem à Europa. Cada primo que se formava tinha uma viagem à Europa.
Eu fui acompanhar o primo, porque naquele tempo toda a família acompanhava quem ia para a Europa. Ia de trem especial de São Paulo a Santos, a própria companhia de navegação pagava o trem. Ia a familiagem toda. A companhia de navegação oferecia comidas, lanches, etc., e a gente visitava o navio. Tudo isso era propaganda da companhia de navegação, porque as pessoas visitavam o navio e ficavam assanhadíssimas.
Depois, quando o navio partia, a gente saía do cais e ia de automóvel para a ponta da praia, porque o navio passava lá, e os parentes ficavam no tombadilho, a gente ainda dizia adeus. Depois o parente ia embora, a gente via o navio sumir no horizonte. Ia para a Europa… ahhh! Sobretudo terra de três coisas: de santuários, de nobres e de comedorias. Todas as coisas a seu modo aprazibilíssimas.
(Sr. Gonzalo Larraín: Muito bonito. O senhor é inteiramente assim, de santuários, de nobres, de comidas, mas da resignação no nada também.)
Lembro que fui acompanhar esse primo e era um naviozinho alemão, não era um grande navio, de classe assim turística, mas um mimo: todo com boiseries, com um bar magnífico — eu já estou voltando para as comidas de novo, eu dou dois passos, estou falando em comida — com sanduichérrimos, pães pretos de você perder a cabeça, butter em quantidade, licores, bebidas. De bebida nunca fiz muita questão, mas os rótulos me encantavam. As estantes cheias de bebidas.
Depois, os fósforos coloridos, os jogos de baralho. Vendiam baralhos lindos, impressão em papel que parecia celulóide. Todas essas coisinhas… Eu tenho um apetite de todas as formas de luxo enorme! Gosto enormemente de qualquer forma de luxo.
Mais tarde eu visitei os navios-palace: Kaparkonna, que era alemão, Ka-Polonia, que era alemão também, mas também uns navios italianos magníficos, melhores que os alemães, Conte Verdi, Conte Bianca Mano, Conte Rosso. Eram figuras da história italiana, do norte da Itália se não me engano. Eu fui visitar.
Eu me lembro que tinha num deles um salão de laca chinês. Mas que laca, que coisa estupenda! E tomava dois andares.
E na mesa que eu comia nesses navios, na mesa tinha la pasta. Eu pastoso a mais não poder, tudo quanto é forma de comida ditirambos de minha parte. Depois cadeiras cômodas para a gente se jogar, etc. Tudo muito cômodo.
Eu voltava para Santos com a idéia de que, provavelmente, nunca poderia ir à Europa por falta de dinheiro. Descia. À noite eu jantava em Santos no Marreiro contente. Eu não jantava assim… mas jantava contente.
* O Mandamento e o amor inocente à virtude foram a razão da opção do Sr. Dr. Plinio pela pureza, mas o sossego da inocência e a agitação do deleite proibido o ajudaram a optar
(Sr. Nelson Fragelli: Por que o senhor é assim? O senhor é voltado para uma outra luz…)
Não poetizemos, não. Eu gostaria de dizer, vocês ficariam muito edificados. Mas é o seguinte: entrava muito, pelo menos, um gosto enorme pelo sossego, pela aprazibilidade das coisas, e a idéia de que qualquer coisa que se goste com agitação está mal gostado, que o sossego é o grande deleite da vida — logo eu que tive uma vida tão desassossegada, hein! — e que viver sem sossego não vale nada!
Isso eu sustento do ponto de vista do tirar partido da vida, a primeira coisa: procurem o sossego.
Eu não sinto entusiasmo por essa tese em ninguém.
(Sr. Paulo Henrique: Mas isso tem muita razão de ser.)
Eu não escondo o seguinte — se vocês se desedificarem, desedifiquem, mas eu pelo menos não me terei feito de melhor do que sou: mesmo para a opção pela pureza completa, ajudou-me… A razão da opção foi o mandamento e o amor inocente à virtude, mas para seguir a razão, para consolar a parte do homem que chora aquilo que ele deseja ter e não tem, serviu muito a experiência própria de todo o sossego que eu tinha na época da inocência e de toda a agitação que o deleite proibido traz. Porque traz uma agitação.
Eu não compreendo, por exemplo, como é que os médicos não dizem — aliás, o Edwaldo me disse que também acha que anda uma irregularidade nisso — que a prática do ato sexual, de si legítima, é muito vantajoso para o homem que não pratique, porque dá muito mais tranqüilidade, mais estabilidade, mais sossego. O sossego do homem puro é uma coisa que não se compara com nada.
* A conclusão ao ver a agitação das paixões românticas, no episódio das agulhetas imaginado pelo Dumas e relatado pela Sra. Da. Lucilia
Então, esse gosto pelo sossego, que eu vejo que é um gosto ordenado, mas esse gosto pelo sossego… Me causava horror quando eu lia esses romancinhos de mocinho, por exemplo, Dumas e essas coisas assim, e que eu via a agitação que causava a paixão.
No Dumas, por exemplo… nem eu sabia pelo Dumas, mamãe contava para nós. Eu ficava olhando o episódio das agulhetas imaginado pelo Dumas.
Conhecem a história?
(Todos: Não.)
Ana d’Austria era esposa do rei e era uma beleza famosa na Europa. E o Duque de Buckinghan, era primeiro Duque de Buckinghan, elevado a duque pelo rei X da Inglaterra e valido do rei, o preferido do rei, o primeiro-ministro, etc., foi mandado para a corte do rei da França, para uma missão diplomática qualquer. Mas lá ele foi recebido na corte também. Aliás, naquele tempo era assim, não se fazia só diplomacia, a diplomacia era envolta em vida social.
E na história dele foi apresentado à rainha. Segundo o Dumas, quando ele viu a rainha, ele teve um choque, bem tipicamente o choque romântico de muito depois do tempo dele, Dumas. Ficou apaixonadíssimo, etc., e passou uns dias na corte, enfim, arrastando as asas para a rainha.
Em certo momento a missão diplomática dele exigia que ele fosse à Inglaterra para dar explicações ao rei dele, etc. Ele teve que ir. Então, no momento de se despedir da rainha ele não se conteve, estava sozinho com a rainha na hora da despedida, ajoelhou-se e declarou a ela os sentimentos dele. Ela não disse nada a ele, mas ela tinha uma jóia que era constituída por uma série de bastonetes, todos cravejados de brilhantes, e eram 13 ou 12 bastonetes que o rei tinha dado a ela. Ela não disse nada a ele, mas ela tirou um desses bastonetes e deu para ele.
Agora, o Richelieu era inimigo da Ana d’Áustria, era o primeiro-ministro do rei, e a polícia dele soube da história do bastonete. Ele chegou para o rei e disse: “Se Vossa majestade quiser saber que a rainha não anda bem, eu tenho a prova. Dê uma festa dentro de um prazo que não dê tempo para um cavaleiro ir para a Inglaterra e trazer o bastonete de volta, e vossa majestade verá como a rainha vai à festa com um bastonete a menos. Diga a ela que vossa majestade gostaria de vê-la ornada nessa ocasião com os bastonetes que recebeu, e vossa majestade verá”.
Luís XIII tiro e queda: “Senhora, vou dar um baile, vós sereis o ornato de minha festa”, baré-bébé, uma historiada assim para ela. Ela ficou gelada. Ele disse: “A festa é em tanto”. Ela pensou: “Eu vou com um bastonete a menos e o rei vai me perguntar o que que eu fiz desse bastonete”.
Então ela chamou D’Artagnan — D’Artagnan era um enjolrras da corte — e disse:
— Olha, eu preciso muito — não explicou porque — tal bastonete que está com o Duque de Buckinghan na Inglaterra, e ninguém pode saber que esse bastonete está com ele. Eu lhe dou em confiança essa missão. Vá a cavalo. Dou tanto de dinheiro para os gastos da viagem. Vá a cavalo, mas sem parar nem noite nem dia, não durma, não coma, nem nada! O senhor se compromete para no dia da festa, antes da festa começar, estar aqui — esse bastonete chamava-se agulheta — essa agulheta?
Ele disse:
— Para servir a vossa majestade eu me comprometo a tudo.
Grande reverência, chapéus de pluma que arrasta uma pluma no chão, etc. Sai de lá, monta no cavalo e vai para a Inglaterra. Depois, então, tem episódios romanescos pelo caminho, acontece isso, acontece aquilo.
Afinal, o Dumas conta que o coisa voltou com os bastonetes, mas na última hora, como sói ser. Quando a rainha já estava para ir à festa e descoroçoada, ouve-se um cavaleiro que entra no pátio do Louvre, cavalgando, cavalgando, as faíscas saíam da ferradura, etc., vocês podem imaginar a cena. Ele disse que precisava ser recebido pela rainha imediatamente.
— Não, não pode. Não é hora de ela dar audiência.
Varou. Inclina-se diante da rainha e diz:
— Majestade, aqui está.
A rainha, muito amável, dá para ele a mão beijar, promete ajuda, depois pendura o bastonete e sai como uma flor para a festa do rei.
Vocês estão vendo, tem o fátuo do folhetim, o fátuo quase cômico do folhetim. Mas eu não percebia o cômico do negócio, e há uma certa idade em que a gente não percebe bem o que isso tem de artificial. Na idade em que vocês já chegaram, já se percebe isso bem.
Mamãe contava isso muito bem e ficávamos pasmos: “Como é que vai acontecer?”, essa coisa toda…
Preciso dizer que, para ela, falar da paixão não era falar da fassurada. Paixão era como no tempo dela, uma coisa romântica ideal, ainda participando da Dulcinéia del Toboso, era por aí, assim é que ela via o romance do Dumas.
Ouvindo aquilo tudo eu pensava: “No total, essa rainha se meteu nessa entronga porque gostou desse duque. Vale? Um aperto medonho!”.
Porque no romance a rainha deslumbrante encontrou o D’Artagnan certo na hora certa. E se o D’Artagnan depois fosse mafiar a rainha? Se ele fosse dizer para a rainha: “Aqui está isto, mas ou vossa majestade dá tanto ou eu conto para o rei”? E ela não tinha o que dar.
Homem!… saía coisas de… vocês podem imaginar a miséria porque passa uma pessoa que se mete num precipício desses? A vida inteira! Tem o risco de ele contar. Ela é rainha, mas é escrava do D’Artagnan.
Isso eu avaliava e avaliava bem, porque na defesa da minha tranqüilidade eu era muito previdente. E eu dizia: “Afinal de contas, não é muito mais desagradável, em vez de eu me meter nessas entrongas todas, eu levar uma vida plácida, sossegada? É uma batalha vencer a impureza, é verdade. Não vale a pena? Para usar uma expressão francesa: le jeu vaut la chandelle — o jogo vale a vela. Vamos fazer o jogo”.
Não era a razão determinante, mas ajudava.
(Sr. Gonzalo Larraín: Que bonito.)
Bonito ou desedificante.
(Sr. Gonzalo Larraín: Desedificante não, isso é sabedoria.)
* Os complicados protocolos do namoro e a vida de cachorro que os colegas do Sr. Dr. Plinio então levavam
Eu via meus colegas. Todos que já tinham namorada, mas levavam uma vida de cachorro, porque os protocolos do namoro en aquel entonces eram complicados. O sujeito tinha que passar quinze, vinte vezes de automóvel na casa da Dulcinéia dele, bater a buzina, ela aparecia na janela. Mas às vezes ela não estava, ele ficava rodando de automóvel, ele não sabia que ela tinha ido para o dentista, por exemplo, porque não podiam se telefonar. Depois voltava mais tarde. Enquanto não tivesse visto a namorada duas, três vezes no dia, ela dava fora nele, porque ficava sentida.
Em certas ocasiões para passar a pé, encostava o automóvel e ficava passando na calçada a pé. Então a moça aparecia um pouco no terraço, cumprimentava fingindo surpresa, ela também fingia surpresa, depois voltava para dentro.
Você compreende a vida de cachorro.
Eu dizia: “Mas eu estou aqui em casa, bem sentado, com sombra e água fresca. Agora bater perna em frente da casa da fulana?! Automóvel nem eu tenho! Não posso fazer isso de táxi”. Quando se ia a pé, antigamente, se dizia no “pé dois”: “Eu vou fazer isso no ‘pé dois’, lá em frente, e fazer o papel de bobo ali. Anda, anda, anda… aquela boba não vem! Não, vamos tocar isso de outro jeito”.
* A placidez do Sr. Dr. Plinio expressa numa fotografia
(Sr. Gonzalo Larraín: Que sabedoria. E o senhor tomou isso em todos os campos da vida.)
De onde Nossa Senhora me dá um fundo de tranqüilidade que me ajuda enormemente…
O que fotografa bem esse estado de espírito é uma fotografia minha que tem no quarto de mamãe, em que eu estou na sala da tradição da velha Sede do Reino de Maria, da Rua Pará, escrevendo…
(Sr. Gonzalo Larraín: Assinando o número cem mil do Bucko.)
Eu pensei quando vi aquilo: “Quem vê essa fotografia pensa que se trata de um homem inteiramente plácido, contente e que está fazendo uma coisa que lhe é agradável. Ninguém sabe o que eu estou comendo dentro de mim”.
(Sr. Gonzalo Larraín: Conheço uma pessoa que quando viu essa fotografia disse: “Mas que ‘bon vivant’ é o Sr. Dr. Plinio”.)
Mas, olha aqui, eu estava engolindo não sei o quê.
* A graça de Genazzano afasta o fantasma de um culposo não cumprimento da vocação — Sem essa graça, não manteria a placidez e não resistiria
Mas todas essas coisas são assim e daí para fora.
Aí entrou como suplemento, ou suprimento, a graça de Genazzano.
(Sr. Gonzalo Larraín: Nesses horizontes atuais, muito mais sombrios, a placidez o senhor continua tendo.)
Sim, mas agora com uma razão muito mais sobrenatural, que é a ajuda de Nossa Senhora, que de um jeito ou de outro fará com que as coisas dêem de maneira que eu cumpra a minha vocação. Quer dizer, ajuda-me a afastar o fantasma — ao qual eu não resistiria — de que minha vocação não se cumpre por culpa minha. A esse fantasma eu não resistiria.
Vocês não calculam, nós aqui estamos conversando, mas de fato eu tenho consciência de uma coisa que vocês terão também, mas menos, que é o seguinte: é perfeitamente possível que João Paulo II sofra um atentado ainda no Peru, e se sofrer cai o mundo em cima de nós.
Você viu bem hoje à tarde… [Vira a fita]
… Reunião de Recortes, enjolrada, enjolrada tocada a todo fole, e depois uma conversa aqui entre nós. Quatro reuniões.
(Sr. Poli: Cinco, com a marcação de recortes.)
É mais uma reuniãozinha, é, muito pequena.
Bem, com 76 anos.
Vocês dirão: “Mas até onde vai isso?”.
Também não sei. Confiemos.
Chego de Jasna Gora, a “Folha”com um material enorme sobre a briga de D. Mayer e toda uma faixa contra a TFP. A briga de D. Mayer com D. Navarro eu não tive tempo de ver, mas a faixa sobre a TFP graças a Deus está praticamente inócua, não dei importância nenhuma. Mas não sei se não é o começo de estrondo. Quer dizer, a toda hora está para arrebentar uma coisa em cima da cabeça.
(Sr. Poli: Certamente é um começo de estrondo, mas como o senhor já tomou muitas providências não tem curso. Não tem curso porque o senhor já matou antes.)
Pelo menos é muito difícil, porque o livro do Pe. Vitorino foi uma coisa providencial. Esses documentos que o João Clá arranjou, mas não tem palavras a providencialidade desses documentos. Depois, é preciso dizer, o trabalho do Átila está muito bom, o trabalho do Gustavo Solimeo está muito bom, e o Torreão II contém uma massa de erudição que não compreendo como se reuniu.
Mas — agora entra a placidez — desde que isso não vá acontecendo e que Nossa Senhora permite ir sobrevivendo, eu tomo a atitude mental que tomava com os soldadinhos de chumbo no dia em que a excursão não se realizava. Vocês devem estar notando que eu estou contente de conversar com vocês.
Bom, você me fez uma pergunta muito íntima, eu respondi abrindo os porões da casa para você examinar.
(Sr. Nelson Fragelli: As catedrais.)
(Sr. Paulo Henrique: E vitrais.)
Enfim, o que há de mais interno na casa.
(Sr. Poli: O senhor uma vez comentou que viu essa placidez na Sra. Da. Lucilia, porque ela estava preparada para o pior.)
Estava preparada para qualquer coisa. Essa placidez eu acho que temperamentalmente herdei dela. Porque essas coisas têm algo de psicossomático, assim, que é herdável. Ela tinha isso…
Aliás, aqui [no quadrinho] vocês vêem, isso está aqui.
(Sr. Pedro Paulo: Axiologia em estado puro.)
Mas axiologia mantida por esta idéia: é que, apesar de minhas infidelidades, Nossa Senhora de Genazzano cumprirá a promessa que Ele me fez no Hospital Sírio-Libanês. Porque do contrário eu perdia a cabeça, eu não resistia. Não é possível!
Você imagina, por exemplo, eu puxar a conversa com vocês e ir dormir pensando: “A essa hora pode estar estourando alguma coisa no Peru”.
Vocês me dirão: “Mas, Dr. Plinio, isso não acaba, porque depois vão inventar um atentado contra D. Lorscheider”.
É muito diferente. Isto praticado no Brasil, atribuído o crime como praticado no Brasil, no ambiente brasileiro nós somos conhecidos demais para se crer nisso. Ao menos por enquanto, as impossibilidades de circulação disso no ambiente brasileiro são muito menores. Mas muito menores.
Quer dizer, quando ele voar fora do Peru eu vou ter uma grande alegria. Mas como é que vai ser essa alegria? Eu durmo ainda na incerteza, quando eu acordar eu vou ser informado se à última hora houve um sacrilégio, um crime contra ele, ou se não houve nada. De manhã quando entrar o Pilares com a bandeja no meu quarto, ele leva para minha cama, eu pergunto: “Pilares, há alguma coisa de novo?”. Ele sempre tem um pouco de vacilação, e eu fico suspenso na vacilação…
* Jogar-se nos apegos e torcidas para gozar a vida é a tapeação do demônio: ele nos tira exatamente aquilo que promete
Nós não fomos habituados a experimentar as delícias do desapego. Nós estamos intoxicados com as delícias do apego, as falsas delícias do apego. De onde — vocês sabem, eu não preciso dizer nada para vocês — vocês, para gozar a vida, se jogam nos apegos. Não estão compreendendo que vocês estão preparando para si uma vida insuportável, que é propriamente a tapeação do demônio.
A gente pode imaginar que o desapego seja — não quero dizer que seja no meu caso concreto, mas pode-se imaginar que seja — um estado de espírito comunicado por um anjo. Mas o apego, a torcida, só pode ser comunicado por um demônio. Não há um anjo que comunique torcida. É uma blasfêmia imaginar isso.
Agora, toca a torcer, torcer, torcer para gozar a vida. Não compreendem que é uma mentira do demônio, e que aquilo que o demônio promete, ele tira. Ele já vai prometendo aquilo que ele tem intenção de tirar. E ele promete a felicidade ao torcedor — o torcedor é o apegado, uma coisa dá na outra —, o que vai dar? Um pobre coitado que se chegar aos 76 anos não tem a placidez necessária, porque se desgastou em quanta coisa! Mas em quanta coisa!
Bom, meus filhos, agora, para chegar ao ponto terminal, como vão ser as torcidas na Bagarre? Já pensaram nisso? É um caso sério, porque ali é perigo todo dia e surpresa todo dia.
Nós falamos aqui academicamente de disco voador, mas vocês sabem que são demônios. E como é se, de repente, um dia vocês abrem a janela de manhã e está um bicho andando na rua? Dá um pulo em cima da grade do portão ou do muro do jardim, olha e diz: “Quero falar com você”. A solução sabe qual é? É sair espavorido da janela, quiçá sem tempo de fechar a veneziana. Também não adianta. E como é que é? Vocês já pensaram nisso ou não?
Eu digo isso porque ainda está em tempo de optar pela placidez. Não me levem a mal dizer, é uma conversãozinha.
(Sr. Nelson Fragelli: Do contrário não se cumpre a vocação.)
Na melhor das hipóteses, o sujeito morre no prosseguir a vocação, julgando que morre heróico de tanto sofrer, de fato ele está trabalhando para Deus e se cansando para o demônio.
Então fica assim essa conversa, que é, até certo ponto, uma conversa da orla da Bagarre. Porque quando vocês me pediram para falar sobre isso, nem vocês nem eu tínhamos a noção de que iríamos caminhar para esse ponto. Mas realmente o desenrolar lógico do tema dá nisso. Se quiser desenvolver o tema inteiro dá nesse ponto.
* O Sr. Dr. Plinio sugere um plácido caminho de regresso à placidez
(Sr. Pedro Paulo: Ultimamente é difícil uma consideração do senhor que não termine nesse ponto.)
Pois é claro, uma coisa tão boa.
Vocês em parte gostam de vir aqui aos sábados à noite por causa dessa placidez. Aí vocês podem degustar o sabor da placidez, que não é atonia, não é bobeira, nem é insipidez, é uma coisa inteiramente diferente. Bobeira, atonia e insipidez são as máfias que o demônio faz contra a placidez.
A placidez é diferente. Tão diferente. Por que, então, abandoná-la desta maneira? De tal maneira que a gente perde até o endereço da volta. Não sabe como voltar. E como a placidez é plácida, ela sugere um caminho plácido de regresso.
(Sr. Gonzalo Larraín: Está aqui.)
O caminho, o Gonzalo apontou. Mas há mais. É o seguinte: compreenderem o mérito que há nesse exodus da praça de touros da excitação e dos apegos para a pradaria da placidez, para os gramados da placidez. Renunciar ao apego do mundo é isto. Os santos tanto sugerem, falam, etc., apego do mundo é esse.
Que é o apego do mundo? Como é que se consegue fazer essa renúncia?
Essa renúncia tem um alto valor, mais valor do que uma penitência com flagelos, com outras coisas. Muito mais duro. Oferecer, por exemplo, esse valor, pensando em si próprios durante a Bagarre, voltarem para as pradarias da placidez, para que Nossa Senhora pelos méritos disso os prepare para a Bagarre.
(Sr. Gonzalo Larraín: Sobretudo pensar na placidez do senhor.)
Isso vocês é que sabem. Eu não posso estar recomendando que atentem para meu exemplo.
(Sr. Nelson Fragelli: Mas é a única saída.)
Isso vocês é que sabem.
(Sr. Nelson Fragelli: Quando se lê o Evangelho, a placidez de Nosso Senhor… ahhh.)
Que coisa! E vai durante toda a Paixão até a morte.
(Sr. Nelson Fragelli: Ele flagelado.)
É isso. Mas é também uma coisa com bondade, não é uma placidez ressentida. É uma placidez fresca, bondosa, amável. Se qualquer daqueles flageladores pedisse a Ele um milagre, Ele na mesma hora daria. Desde que o flagelador não diminuísse o flagelo, porque Ele tem empenho em sofrer tudo por nossa causa.
* O brilho da placidez é diferente do brilho da agitação — A placidez dos êremos
(Sr. Pedro Paulo: O senhor não acha que a tônica do Encontro foi isso, que fazia circular uma graça que as pessoas expressavam como a bondade do senhor?)
Agora que você fala, eu acho que não tem dúvida nenhuma que era essa placidez adornada por um certo brilho.
Aliás, precisam notar o seguinte: há um brilho de placidez diferente do brilho da agitação. Um exemplozinho minúsculo, mas que pesa na balança:
O brilho da agitação procura realizar-se cafajestamente. Não me queiram mal, mas agitação é cafajeste, ninguém vai dizer o seguinte: “Fulano estava sacudido por uma aristocrática agitação”. É horrível até pensar.
Por exemplo, esses anúncios que a gente vê em fotografias de Nova Iorque, anúncios luminosos enormes que acendem, apagam, pulam de cá e acontecem lá. É uma coisa monstruosa. Isso não é brilho, é febre. A febre tem aparências de saúde, mas só para um bobo. Quem um pouco distingue, percebe: aquele está corado porque está com febre, ele não está com saúde.
O brilho da placidez é o que houve no Encontro, porque no Encontro havia brilho. Inegável brilho. Mas era o brilho da placidez.
(Dr. Edwaldo: Muito comunicativa.)
Muito, e que todo mundo comunicava uma afabilidade com distinção.
(Sr. Gonzalo Larraín: Muito acolhedor.)
O Encontro muito acolhedor. A gente via que as pessoas se sentiam acolhidas, contentes.
(Sr. Nelson Fragelli: A tranqüilidade com que o senhor respondia às perguntas, fazendo antes um grande “tour d’horizonte” no desenvolvimento das premissas, para depois surgir a resposta.)
Muito.
(Sr. Paulo Henrique: Ontem acompanhei umas senhoras espanholas, colombianas, que vieram visitar aqui o primeiro andar. Elas observaram muito essa marca de placidez aqui. Ao entrar: “Ah! vamos visitar a casa de um santo”, diziam. Ficaram aqui duas horas, foi um custo para tirá-las.)
Se você pusesse à disposição delas de elas ficarem conversando aqui durante mais uma hora, ficavam facilmente.
(Sr. Paulo Henrique: Sim.)
Era daí para fora.
(Sr. Paulo Henrique: Também visitaram os êremos, o Praesto Sum…)
Os êremos têm uma placidez maravilhosa.
(Sr. Paulo Henrique: Uma delas comentou: “Vocês não fazem idéia da diferença de ambiente de fora para dentro dos êremos, porque vocês estão acostumados, mas parece um paraíso na terra”.)
É isso. A gente transpõe o São Bento ou o Praesto Sum de automóvel — olha que caminhada a pé daria muito mais para sentir a mudança — e sente que entra em outro mundo.
* Sem amor à placidez, um filho do Sr. Dr. Plinio, convidado a viver no primeiro andar, ficaria tão córneo para as graças dessa casa que preferiria morar no “chão” Milas
(Sr. Paulo Henrique: São senhoras, moças, chegando diante do senhor e se comovem. Lembra aquelas graças antigas que tínhamos, quando nos comovíamos muito. Agora — pelo menos eu — fico insensível. Agora vejo essas correspondentes e esclarecedoras que parecem sentir aquelas graças que sentíamos naquele período. Para nós pode ser provação, pode também ser decorrente de infidelidade, complacência com a agitação.)
Você imagine que por uma razão qualquer você fosse chamado — me daria gosto — de morar nessa casa. Morar a vida de todos os dias nessa casa. Você seria, sem perceber, chamado à seguinte opção: “Ou eu faço NANE para essa casa e para o ambiente dela e moro aqui indiferente a isso, para ser capaz de ter a tensão nervosa necessária para terminar as minhas tarefas — que é como entra a mentira do demônio —, ou se eu me deixo ganhar por essa placidez, eu dou um mole que não sou capaz de fazer a tarefa de todos os dias”.
Em pouco tempo você se tornaria tão córneo, tão córneo para as graças dessa casa, que você me iria pedir se podia mudar, por exemplo, não estranhe, para o “chão” Milas, desde que lhe ficasse um pouco mais cômodo do ponto de vista de itinerário.
Então, a norte-americana ou a espanhola vem aqui e se encanta com a casa. Você que foi chamado para morar nela, ficou córneo para ela, não lhe diz mais nada. Você no fundo fez uma opção.
(…)
… Nossa Senhora os ajude a não ficarem córneos.
(Sr. Nelson Fragelli: Amém. É uma grande graça.)
Ou a ficarem novamente não córneos.
Meus caros, vamos andando.
Há momentos…
(Sr. Gonzalo Larraín: Peço perdão por todas minhas culpas, que cabem a mim e muitas outras pessoas.)
Nossa Senhora nos perdoe a todos.
(…)
E esse filho aqui, que Nossa Senhora favoreça.
(Sr. Paulo Henrique: Muito obrigado por tudo.)
Lembra-se de uma conversinha que tivemos há pouco?
(Sr. Paulo Henrique: Sim.)
Liga-se com isso, ouviu?
(Sr. Paulo Henrique: Sim. Muito obrigado.)
Meu caro Edwaldo, Nossa Senhora o ajude, meu filho.
(Dr. Edwaldo: Muito obrigado, perdão por tudo.)
E você tão raro, tão agradável pela presença.
(Sr. Pedro Paulo: Peço também perdão por toda a culpa que tive na Espanha.)
Nossa Senhora nos perdoe a todos nós.
Meu caro Fiúza, que Nossa Senhora o ajude muito e favoreça.
Meu pobre e querido Mario, resistiu heroicamente, hein? Espero bem que você tenha sono amanhã até as duas da tarde. Se você não aparecer para o almoço, eu acho razoável.
E você, meu filho, Nossa Senhora o ajude muito. E agora sono também, soníssimo, super-sono.
Um dos meus interlocutores mais loquazes estava tão mudo hoje à noite.
(Sr. Guerreiro: Muito receptivo, espero.)
Está bom, você sabe quanto isso me agrada.
(Sr. Guerreiro: Também peço ao senhor que o senhor peça perdão a Nossa Senhora por…)
Nossa Senhora nos perdoe a todos nós.
(Sr. Guerreiro: No dia de hoje, 3 de fevereiro, dez anos depois.)
Nossa Senhora nos perdoe a todos nós, meu filho.
(Sr. Guerreiro: O Sr. Fernando propôs de rezarmos o “Confiteor”.)
Eu não me volto para o Coração de Jesus, mas para onde em espírito eu estou voltado.
Confiteor Deo omnipotente…
* Empolgado pela fabulosa placidez de São Pedro Armengol, o Sr. Dr. Plinio oscula sua relíquia todos os dias
(Sr. Pedro Paulo: Nossos amigos na Espanha fazem hoje uma peregrinação ao túmulo de São Pedro Armengol.)
Ah é? Onde é o túmulo de São Pedro Armengol?
(Sr. Pedro Paulo: Tarragona.)
Fica a que distância de Madrid, mais ou menos?
(Sr. Pedro Paulo: Uns quatrocentos e cinqüenta quilômetros.)
Você sabe que todos os dias, quando eu me levanto, depois quando eu me deito à noite, eu osculo a relíquia de São Pedro Armengol, porque acho aquilo uma coisa fabulosa, na ordem de placidez. Ficar três dias — parece que foi isso — com a corda, suspenso na forca e tranqüilo, porque Nossa Senhora vai ajudar. Essa é a fórmula. Empolga-me. Empolga-me.
(Sr. Pedro Paulo: A intenção seria pedir perdão, agora por ocasião do décimo aniversário do desastre.)
E que Nossa Senhora a todos nós nos prepare para esse estado de espírito.
Não falei com você?
(Sr. Fernando Antúnez: …)
Ahhh… e para o outro filho que está distante.
(Sr. Fernando Antúnez: Perdão por tudo de antes e depois do desastre, bem como agradecimento também.)
Nossa Senhora nos ajude e nos perdoe a todos.
Que Nossa Senhora os ajude, meus caros.
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