Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 19/1/1985 – Sábado [RSN 058 e VF 025] – p. 8 de 8

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 19/1/1985 — Sábado [RSN 058 e VF 025]

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Contentamento de nosso Fundador com a construção de uma muralha antiestrondo * Importância das informações e citações que ajudam a refutar as calúnias sobre o uso da varinha * A respeito de sua segurança interior, o Sr. Dr. Plinio comenta: “Um salzinho de insegurança é muito agradável para quem está inteiramente seguro” * Comportamento um tanto négligé, atenção meticulosa e truculência em atitudes de nosso Pai e Fundador * Comedimento e temperança da Sra. Da. Lucilia face à truculência do Sr. Dr. Plinio * Como se forma, pela ordem natural das coisas, uma aristocracia autêntica * Observações do Sr. Dr. Plinio sobre a aristocracia brasileira e as peculiaridades que a diferenciaram da aristocracia européia

* Contentamento de nosso Fundador com a construção de uma muralha antiestrondo

eu que sou securitário para muitas coisas, fico contente de ver que a muralha se fecha. Lavagem cerebral, seitas… eu tenho uma lista de publicações que estão por sair, Larouche, depois a história do estrondo, comissão médica… homem! uma série de coisas. Forma uma muralha, atrás da qual a gente os pega, eles não avançam. Naturalmente podem fazer uma violência, uma estupidez, podem inclusive matar, mas por esse caminho não entram.

Vão ficar furiosíssimos.

Por exemplo, essa história de lavagem cerebral, a gente vê que é um paredão. Os psiquiatras sabem que é um embuste, mas não contam para o comum do povo, e alguns psiquiatras vagabundos, jornalistas, escrevem sobre lavagem cerebral como se fosse coisa real, sem-vergonhamente. E a gente fica atarantado.

(Sr. G. Larraín: O senhor usou mesmo muitas vezes o termo, inclusive em livros. Contou-me o Sr. Mariano que durante o estrondo lá, ele ouvindo uma fita de 1968, o senhor dizia: “O que vocês precisam fazer é uma lavagem cerebral de tudo que a Revolução lhes ensinou”. Ele deu um salto e desgravou a fita. )

Ahahah! Usado inocentemente, sem entender o que eles entendiam por lavagem cerebral.

O Pe. Victorino deu um parecer até — coitado — cômico sobre lavagem cerebral, que era o que ele conjectura que seja lavagem cerebral. Então dá todas umas argumentações, lá vem São Tomás, etc. Mas é nada, porque a lavagem cerebral não existe.

Acontece que eu ficava atarantado, porque eu pensava, no começo, quando começou o estrondo da Venezuela e que eu comecei a prestar atenção no que era lavagem cerebral, eu pensava que fosse uma coisa pelo menos defensável, não pensava que fosse uma tal coisa. Se eu soubesse, teria dado outro rumo à nossa polêmica. Outro rumo!

Mas agora sentindo essas coisas… Por exemplo, a crise das gerações, conflito das gerações, e tudo aquilo que vocês estão arrolando, tudo isso é uma fortaleza. E é muito agradável a gente, de dentro da fortaleza, ver os inimigos que golpeiam a porta e não conseguem entrar. Toca a cachorrada toda.

(Sr. G. Larraín: A Sempre-Viva é também um alívio. )

A Sempre-Viva seria um pavor, mas um pavor.

* Importância das informações e citações que ajudam a refutar as calúnias sobre o uso da varinha

Nós devemos sustentar aquilo que é evidente, que com aquela varita nunca foi feito o abuso de machucar ninguém, etc. Mas, com a varita poder-se-ia fazer um certo abuso. Quando chegar a varita, a saída é a seguinte: “Prove que foi feito mau uso”.

De um instrumento do qual pode ser feito um uso bom ou um uso mau, do uso desse instrumento em si você não pode concluir nada a não ser provando que foi feito mau uso.

É a mesma coisa como no tempo em que os homens andavam com espada na cinta. Não se vai deduzir daí que eles mataram gente. Você tem que provar que com essa espada ele matou gente. Se não provar que ele matou gente com essa espada, o uso da espada não prova nada.

Eu provo!

Naturalmente não sai prova nenhuma.

Alguém dirá: “Eu senti muito”.

Então uma pancada tão pequena que não deixou cicatriz, não deixou nada.

(Dr. Edwaldo: E consentida. )

Consentida, evidentemente.

Mas consentida por menor não dá muita conclusão, “é abuso, o menor se prestou por pressão moral”, qualquer coisa assim.

Mas a varita só, não derruba mais o edifício.

(Sr. Poli: O São Bento mandou-me uma revista em que diz que o Duque de Caxias, quando Ministro da Guerra, mandou fabricar umas espadas especiais que servissem para o combate e também para bater nos soldados, que era uma disciplina que não podia prescindir. )

Mas já deviam me ter dito, isso interessa muito. Encaminhe a Fernando, que eu quero ver.

(Sr. F. Antúnez: Tenho um “Amie du Clergé”que diz que se pode dar com varinha até durante o ofício divino.)

Mas ótimo. Também veja.

O “Ami du Clergé” ainda é melhor que o Caxias, mas o Caxias para muita gente é interessante.

Então aqui está a história, que Caxias mandou dar surra com espada em soldado. Não mandou cortar. Você não pode daí dizer que ele mandou cortar. Portanto, mandou matar ou ferir gravemente.

* A respeito de sua segurança interior, o Sr. Dr. Plinio comenta: “Um salzinho de insegurança é muito agradável para quem está inteiramente seguro”

Bom, meus caros, vamos sursum corda.

O que mais dizem, comentam, perguntam, obtemperam, ponderam?

(Sr. Poli: O senhor disse que gosta das coisas seguras, contudo o senhor deixa certas coisas meio equilibradas. Por exemplo, os livros, quando o senhor se serve, não presta atenção, etc. O senhor faz isso de propósito ou…)

Quando a pessoa está inteiramente na segurança, o luxo da segurança consiste em facilitar com ela e aliar a segurança com um salzinho de insegurança. Isso é diferente da segurança burguesa que não quer nada de insegurança. Um salzinho de insegurança é muito agradável para quem está inteiramente seguro.

Segurança, portanto, com essas coisas materiais, etc.

Por exemplo, Luizinho comenta com horror — uma coisa que ele exagera — que eu antes do desastre usava uns sapatos tais, que eu não podia ter firmeza nos pés, tão grandes eram. Dizia ele que cabia entre o calcanhar e o sapato dois dedos.

Naturalmente ele nunca media, mas você sabe as meticulosidades do Luizinho. Ele era homem de analisar isso. Ele podia usar os sapatos Charramplan diante de mim que eu não notava, mas ele nota.

Até certo ponto é verdade, mas eu sabia que ele me equilibrava muito bem dentro daquilo. Uma certa noção da liberdade de mover os pés como quisesse, fazer coisas audaciosas naquilo, é agradável para quem está muito seguro. É o salzinho. É um princípio um pouco perigoso, mas verdadeiro.

* Comportamento um tanto négligé, atenção meticulosa e truculência em atitudes de nosso Pai e Fundador

O que você pensou a esse respeito, meu Guerreiro?

(Sr. Guerreiro: Uma série de coisas de ordem natural o senhor as trata meio “négligé”. Agora me dei conta, percebia que o senhor encontrava um certo entretenimento nisso. Por exemplo, o modo de o senhor comer.)

Ah bom, eu como francamente mal. Mesmo antes do desastre eu não comia bem.

(Sr. Guerreiro: Não, absolutamente, o senhor come com grandeza, o senhor tem um modo próprio de comer.)

Nunca pensei nisso. Pode ser. O modo de deglutir as coisas, aos grandes bocados, em grandes quantidades.

(Sr. Guerreiro: E entrementes o senhor comenta “o chá está passado”, ou “o leite não está muito bom”, “o biscoito seco demais”, etc. O senhor presta atenção na qualidade.)

Presto, muito. A qualidade, muito. Aí sou meticuloso.

(Sr. Guerreiro: Vi uma foto antiga, o senhor vestindo um jaquetão, via-se que estava solto no senhor. O senhor não é um homem dado a elegante, que sente a roupa que usa.)

Esse não sou eu.

(Sr. Poli: Quando o senhor teve a diabete, aqui a porta era outra, tinha um postigo de vidro. O senhor um dia esqueceu a chave, então quando chegou tomou a bengala e bateu com força no vidro. A empregada veio assustada, abriu. Qualquer outro teria quebrado o vidro, mas com o senhor ele não quebrou.)

Sim, é um vidro que está opondo resistência, ele que se preste logo ao serviço dele! É bom. São aspectos da truculência.

(Sr. Poli: Mas aparece muita nobreza nisso.)

Eu faço como faço, cada um é como é.

* Comedimento e temperança da Sra. Da. Lucilia face à truculência do Sr. Dr. Plinio

(Sr. Poli: Da. Lucilia como via tudo isso?)

Ela era — aliás, uma senhora deve ser — ultracomedida, etc. Mas via-se que não era por umas regras externas que ela se impunha. A temperança dela levava — aliás, a temperança feminina deve ser assim — tudo muito pesado, muito contado, muito medido, muito suave e tal.

Ela via essas coisas e às vezes ela dizia alguma coisa. Por exemplo, quanto à água, muito: “Não beba goles grandes demais”. Ainda que estivéssemos sós, ela falava baixo as observações dela, mas ela me dizia: “Não beba gole grande demais, não faça isso, não faça aquilo”. Ela dizia às vezes, mas com muita compreensão, de maneira que eu continuava a beber; ela não dizia nada, outro gole… Ela também não dizia nada, ela deixava passar.

Eu acho que ela compreendia perfeitamente. Tinha um pouco de susto, às vezes, mas compreendia perfeitamente. “Não desça a escada depressa demais”… Sossego. Mas ela compreendia perfeitamente.

Aliás, o modo de eu agradá-la era assim também, torrencial. Há uma fotografia dela andando comigo no Prata. Ela estava andando, mas a gente vê que ela estava pensando numa coisa — eu era um menino de uns 10 anos — e não estava prestando muita atenção no que eu dizia. Eu estava falando com ela, e talvez por ela não estar prestando muita atenção, eu tenho uma tendência a pular em cima dela enquanto eu falava. Que é a tal truculência. Mas pular bruto afetuosamente, tão afetuosamente, que se diria que eu estou querendo beijá-la.

E o fato é que, por pouco que ela se curvasse, eu dava um beijo nela, ali mesmo.

Nesse sentido da palavra, ela estava habituada às minhas truculências, que eram muitas. Cada um é como é; eu sou assim.

(Sr. Poli: Ela era muito meticulosa, mas de vistas muito altas.)

Muito altas, muito altas.

(Sr. Poli: O panorama mental muito amplo.)

Muito.

(Sr. Poli: Sabendo acomodar muitas coisas.)

Isso. Nesse ponto há uma diferença…

(…)

* Como se forma, pela ordem natural das coisas, uma aristocracia autêntica

(Sr. Guerreiro: … esse aspecto da grandeza com simplicidade, que se vê no senhor, que caracterizava também o Brasil colonial, isso tem para mim um atrativo especial. Por exemplo, o requinte da aristocracia francesa, metida em palácios deslumbrantes, parece-me que eles perdiam algo da realidade, por onde certos aspectos de alma estavam neles obnubilados… )

(…)

a minha idéia é que assim como se forma a nata no leite… Quer dizer, há uma camada mais alta do leite — suponho que seja isso — em contato com o ar. Não sei que alquimias acontecem que se forma aquela película…

Por exemplo, isso: todo homem que se presa sabe o que é a nata e como é que se forma a nata. Eu ostento uma ignorância crassa a esse respeito. E, mais ainda, uma ignorância voluptuosa. Isto eu não tive que aprender, é uma bobagem. Os que sabem, e desde que dêem importância a isso, são meio bobos também, porque isso não é coisa de que se cogita. Há para isso uma categoria de gente chamada “os sábios” que sabem essas coisas. Mas eu não tenho nada que ver com isso, tem melhor coisa em que cogitar do que isso. Então ostento escarrapachado: isso é assim.

Mas assim como na parte superior de um copo ou de uma xícara de leite se forma a nata, também eu acho que, pela ordem natural das coisas, em toda sociedade humana — a menos que não seja uma favela, qualquer coisa assim, e quand même — se forma uma classe mais alta do que as outras e que é uma aristocracia. E o feitio dessa aristocracia é dado muito menos pela imitação do que tem de fora, do que pelo que tem na própria substância do líquido e no que vem, portanto, das profundidades.

O que propriamente forma aí a aristocracia é o fato de ela ser uma classe mais alta do que todas as outras, ter, portanto, uma espécie de supremacia no sentido próprio da palavra. Ela é suprema. E o não ver ninguém acima de si e ver embaixo de si os outros, dá uma perspectiva.

Vamos dizer, as melhores famílias de Morungaba, para logo de uma vez dar… que é uma coisa especial. E não adianta querer imitar, qualquer coisa assim. Ou esta classe está muito ligada a todo o resto como o milímetro de leite em que se forma a nata está todo ligado ao copo inteiro do leite, ou nós não temos nada de autêntico, nós temos uma palhaçada.

(…)

os fazendeiros paulistas do tempo do Império se dividiam em duas classes: o fazendeiro que era caipirão e desencaipirava, ou não era um caipirão, era vindo da cidade, que ficava fazendeiro e que mantinha na fazenda algo que, ao mesmo tempo, era muito ligado à fazenda, mas tinha algo da cidade. Esta soma da cidade e campo caracterizou a autenticidade dessa nata que ficou se formando aqui.

Essa nata se compunha de pessoas que tendiam a adquirir mais instrução, a adquirir mais cultura, a irem ficando cada vez mais finas. Mas tendia a isso segundo esses dois modelos que falei, quer dizer, dentro do ambiente local, com as características locais e com uma continuidade com o que vem de baixo. Não aquela história… pssit, cortado, e a descontinuidade.

Na cidade eles davam a impressão de senhorio campestre, e no campo davam uma impressão de senhorio citadino. Porque essas entidades intermediárias, vistas de um lado, parecem com a outra. Então eles levavam para o campo o que a cidade pode dar, e levavam para a cidade aquilo que o campo pode dar. E vivificavam ambos os ambientes numa espécie de permuta orgânica, muito adequada, muito bonita, muito bem feita, mas toda instintiva.

Como é nesses dois que acabei de falar. Eles não têm idéia do que eles representam, mas representam.

Aqui vocês têm…

(…)

* Observações do Sr. Dr. Plinio sobre a aristocracia brasileira e as peculiaridades que a diferenciaram da aristocracia européia

outra coisa que é um ingrediente que poucas aristocracias têm, e caracterizou a aristocracia creio que do Brasil inteiro. Conheço menos de São Paulo, mas o pouco que conheço de Pernambuco foi isso. Mas acho que foi até mais na Bahia do que Pernambuco, talvez menos do que em São Paulo. Certamente foi muito no Estado do Rio, que foi um Estado de grande aristocracia, de magnífica aristocracia.

Foi o seguinte: abertas as faculdades nesses lugares, eles que tinham se formado em Coimbra, julgaram que era bonito ficarem professores de faculdade e terem um certo verniz intelectual, que era meio verniz de homem de salão, meio verniz de político orador e meio verniz de intelectual verdadeiro. E deu promiscuamente nos professores de faculdade — os primeiros foram de direito: alguns muito oradores, outros muito homens de salão e outros verdadeiramente juristas de primeira ordem.

Houve um jurista mineiro chamado Lafayete. Ele não tinha nada que ver com o general Marquês de Lafayete, o pai devia ser um admirador tupiniquim do Lafayete. Mas vocês precisam ler as obras desse Lafayete para ter idéia do que é espírito luminoso, conciso, brilhante, senso jurídico de bom quilate, etc. Era um desses.

Acho que o Lafayete, com certeza, tinha uma fazenda, tinha uma casa em Ouro Preto, que era a antiga capital da província de Minas Gerais, etc. E formou um tipo de homem com um tipo de cultura, com a idéia seguinte: que o indivíduo podia ser ao mesmo tempo um patriarca na cidade, um doutor no campo, um belo orador no parlamento do Império, e um homem de salão na corte.

(Sr. G. Larraín: Um tipo de homem completo.)

Mas veja o seguinte: na Europa eles separaram. O sujeito que era professor na Sorbonne, na melhor das hipóteses pertencia à nobreza judiciária, nobreza togada. Ele não freqüentava Versailles, porque o mundo dos letrados não era o mundo de Versailles. Em Versailles moravam os homens dos quais se fazia a História. Os homens que faziam a História dos outros era a noblesse de robe, e daí para baixo. E isto aqui não foi assim.

Então você toma os homens do Império e os homens da República Velha, eles representavam esse tipo como vocês estão vendo.

Agora, nesse tipo destilou-se uma coisa seguinte:

Para ser fazendeiro e. em geral, para ter fortuna, nas condições de hoje, precisa ter certo espírito financeiro. Ainda quando é uma fazendeiro autêntico, é preciso saber mexer com o dinheiro, do contrário leva a breca.

Aconteceu que — se pode conceber a hipótese, um determinado lugar — algumas famílias de magnatas das terras terem dado banqueiros quando a riqueza presente no lugar começa a dar oportunidade a nascer a finança.

E foi o que se deu em São Paulo. Os diretores dos primeiros bancos no tempo do Império eram magnatas da lavoura. Eles não tinham a mentalidade de banqueiro.

Eu li uma vez a ata do Banco Comércio e Indústria. Olha que é um leão, Comércio e Indústria de São Paulo! Um banco chamado “comércio e indústria”, não banco da lavoura que é mantido por fazendeiros. Era assim: Fulano de Tal, se não me engano era um barão, pedia dinheiro emprestado para negócio. Então a ata dizia que estudaram o caso e resolveram negar, porque se ele precisava de dinheiro emprestado é porque em algo as finanças dele não andavam bem, porque quem tem boas finanças não deve. Por causa disso resolveram negar.

Isso é o contrário do banco. Eles nem compreendiam bem qual era a coisa que eles estavam fazendo. Quer dizer, o banco é o sócio do aventureiro, é o que nunca tem prejuízo: se o aventureiro quebra, o banco não quebra. Se o aventureiro ganha, o banco fica com o melhor do lucro. Mas o banco é o sócio do aventureiro. Você tira o aventureiro, você não tem banco.

Isso dá a vocês a mentalidade deles.

Assim mesmo, esses começaram a ganhar mais do que as famílias que não tinham esse senso do negócio… e começaram a brilhar pelo dinheiro que tinham. Eram famílias da tradição de patriarcas. Depois, a base da fortuna era a lavoura.

Mas o senso do luxo econômico, proveniente de eles saberem manusear o dinheiro, fê-los grandes agricultores, porque eles sabiam manusear o dinheiro e compravam mais fazendas, e fê-los magnatas do dinheiro avant la lettre.

Então, você pode conceber, em tese, uma família que se sinta privada disso e que reage instintivamente, pondo para a frente um certo gênero de brilho intelectual, de brilho de maneiras, e de raffinement de ambiente, apostando corrida, instintivamente, com os outros, causando nos outros um mal-estar feito de um complexo de inferioridade que se vinga por um complexo de superioridade.

Você pode compreender que se essa família for dotada — precisa ser dotada, se não for dotada é inútil —, ela destila uma defesa que é toda feita de imponderáveis e é feita de continuidade desse processo que estou dizendo. Mas que se apresenta e diz o seguinte: “Olha, eu sou isso. Você tem aquilo e sou isso”. Cumprimentam-se amavelmente, dão-se, mas…

(Sr. G. Larraín: O outro sente a derrota.)

Sente. Finge que não percebe, finge que não sente, mas no fundo sente.

Então você acrescenta dentro do panorama que…

(…)

não é imitação da França, é a intencional introdução de uma certa… Assim mais ou menos como se põe canela ou açúcar na coalhada, não se tem vontade de transformar a coalhada em canela, tem-se vontade de compor o produto para comer.

(Sr. G. Larraín: Mas foram essas famílias que fizeram assim.)

Fizeram assim. As outras voltaram-se pouco para a França e muito mais para o mundo anglo-saxão, primeiro Inglaterra e depois Estados Unidos.

(Sr. G. Larraín: E os Prados?)

É afrancesamento, mas um afrancesamento…

(Sr. G. Larraín: Não era o mesmo que…)

Não.

(…)

são coisas que se harmonizam muito, vão muito bem, etc. São normais. E desconfio que pelo menos em Pernambuco e Bahia era assim. Não seria, talvez, em todos os Estados.

(…)

*_*_*_*_*