Conversa
de Sábado à Noite – 24/11/1984 – Sábado
[CSN 56, VF 22] .
Conversa de Sábado à Noite — 24/11/1984 — Sábado [CONVERSA DE SÁBADO À NOITE 56, VF 22]
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Notícias sobre estrondo na Venezuela e Colômbia * Apresentado na CPI pelo deputado Morales Bello, o Quadrinho parecia dizer: “Eu não me deixo tocar por isso” * O Sr. Dr. Plinio gostaria de passar um telegrama chamando Moreles Bello de “matricida imundo”, mas preferiu deixar a Sra. Da. Lucilia alcançar a vitória dos mansos * O desatino do processo revolucionário se reflete no estrondo da Venezuela * Mais do que nos métodos de atuar, a originalidade do Sr. Dr. Plinio está na montagem de panoramas que ninguém forma, por não ter a fidelidade necessária * Em seu método de atuar, a influência do bem expor e do trato amável, tradicional em sua família materna, é atravessada de vez em quando por atitudes truculentamente pernambucanas
* Notícias sobre estrondo na Venezuela e Colômbia
Na Venezuela o estrondo refluindo cada vez mais. Na Colômbia o estrondo pegando, mas com reações tão, tão, tão boas e tão numerosas a nosso favor, que tudo leva a esperar que não será fácil como na Venezuela, não.
(Sr. Poli: Mons. Lopes Trujillo quieto?)
Quieto, não falou até agora.
(Sr. Poli: Arrolhado agora…)
Arrolhado agora. Tem o seguinte: ele está arrolhado, creio que não se pode publicar esse manifesto na Colômbia, enquanto ele não fale. De maneira que, ele não falando, o manifesto lá não circula.
Mas o manifesto foi feito para ele não falar. De maneira que terá atingido a meta.
Agora, está convocada para breve uma reunião do episcopado. E o Mons. Lefebvre parece que vai fazer uma comunicação contra os bispos, contra o episcopado venezuelano. Mas, ao mesmo tempo, está preparado um manifesto de entusiastas de Mons. Lefebvre, de falsa-direita, dando as boas vindas a Mons. Lefebvre. Isso na Colômbia. Dando as boas vindas em termos tão furibundos contra o episcopado, porque o episcopado tem favorecido o comunismo, que é uma coisa como nós nunca faríamos. E se declaram à maneira da TFP, em estado de resistência com o episcopado colombiano.
Não sei qual é a segunda jogada que está em vista nisso. Vamos ver.
Mas eu proponho que nós tratamos de outras coisas, mais atraentes. Não sei nossos pergunteiros o que têm que dizer.
* Apresentado na CPI pelo deputado Morales Bello, o Quadrinho parecia dizer: “Eu não me deixo tocar por isso”
(Sr. Poli: Há um tema que não se fala há muito tempo, com pesar para nós.)
Qual é o tema?
(Sr. Poli: Da proteção da Sra. Da. Lucilia.)
Falem o que quiserem.
(Sr. Nelson Fragelli: O que o senhor sentiu quando aquele monstro da CPI mostrou a foto do Quadrinho?)
(…)
Ah, você não assistiu a fita? Ele puxou o quadro e perguntou: “Conhece essa pessoa?” O Berrizbeitia disse: “Conheço, é Da. Lucilia Corrêa de Oliveira”. Ele colocou na mesa assim… até disse: “Da. Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira”. Disse que chamavam de Santa Mônica.
O que tem isto com uma CPI? Digamos que seja. O que tem isso com CPI?
Ele agiu tão direito em tudo, o Berrizbeitia, ele poderia perfeitamente ter dito: “Nós a comparamos com Santa Mônica, exceto num ponto: que o filho dela não é um convertido”. Está acabado. E acrescentar: “Não é Santo Agostinho”. Está acabado.
Bom, mas vamos deixar esses temas, vamos passar para outros.
O que tem mais, hein, meus caros?
(Dr. Edwaldo: Dessas coisas que ela nunca esperou, aparecer numa CPI dessas, com aquela canalhada lá.)
Nunca, nunca. Depois na Venezuela, ela tinha uma idéia mais vaga possível de que existe a Venezuela, como todas as senhoras aqui do Brasil que eu conheço. Quem é uma senhora aqui do Brasil que sabe quantas províncias tem na Venezuela? No máximo sabem do Rio Orinoco e da cidade de Caracas.
(Dr. Edwaldo: Coisa chocante em si mesmo, mas o contraste entre o Quadrinho e aqueles tipos era uma coisa muito impressionante.)
Agora, o Quadrinho tinha qualquer coisa como quem diz: “Eu não me deixo tocar por isso, isso não me toca, não é uma coisa que tenha nenhuma forma de garra sobre mim”. Ela e a bruxa eram duas coisas opostas.
(Sr. Nelson Fragelli: Basta olhar para o Quadrinho…)
Para ficar comovido, é fora de dúvida. E sobretudo como o Quadrinho transluziu ali.
(Sr. Nelson Fragelli: O oposto daquela briga, daquelas calúnias…)
Da cara daquela senhora. Eu vou dizer mais: eu acho que nem ocorreu a vocês comparar com aquela senhora, nem ocorreu comparar. Horrível, horrível, nem sei o que dizer.
Bem, vamos deixar esse tema esvoaçar para mais longe, meus caros.
* O Sr. Dr. Plinio gostaria de passar um telegrama chamando Moreles Bello de “matricida imundo”, mas preferiu deixar a Sra. Da. Lucilia alcançar a vitória dos mansos
(Sr. Aluísio Torres: O senhor conte algo dela. É a maneira de esvoaçar para outros temas.)
(Sr. Guerreiro: Como o senhor suporia que ela, do Céu, assiste todo esse quadro? Agora, um pouco também é abertura de fronteiras, entrando na história a apresentação do Quadrinho naquela CPI. E quem tiver um pouco de piedade e viu aquilo… Eles queriam tirá-la da grandeza em que ela é considerada. Mas ao mostrar, eles acabaram concorrendo para que o nome e a grandeza dela venha a se expandir muito mais.)
(…)
E a atitude de mansidão dela, de dignidade, foi de uma cristã que imita Nosso Senhor Jesus Cristo. Quer dizer, ela foi doce, suave e digna. Nosso Senhor em proporções infinitas. Mas christianus alter Christus nesse sentido.
(Sr. Poli: Tão bonito isso! Não se pode comentar?)
Meu filho, para dizer isto é preciso estar muito seguro das próprias fórmulas. Qualquer derrapagem de linguagem dá num precipício. E você está vendo que daqui a pouco está na boca dos enjolras que dizem qualquer coisa, dizem qualquer coisa. “É como Jesus Cristo”, a primeira coisa que vão dizer é isso. Eles nem sabem dizer a palavra infinitesimal, eles não sabem dizer.
(Sr. Nelson Fragelli: Agora, houve um silêncio na hora que o sujeito apresentou, e eles sentiram. Foi uma imposição da grandeza com doçura.)
Me passou pela cabeça de passar um telegrama ao tipo, superinsultante. Me passou pela cabeça, mas superinsultante. E mais de uma vez eu reconsiderei a idéia, porque podem imaginar o pendor de um filho para onde é que é.
(Sr. Carlos Antúnez: Corre na Venezuela que o Morales Bello matou a própria mãe…)
Bom, eu gostaria de passar para ele um grafonema que começasse assim: “Matricida imundo” e daí fosse para fora.
(Sr. Carlos Antúnez: O senhor não queria que tome nota?)
Ahahah! Mas diretamente assim: “Matricida imundo!”.
Essa idéia nem me passou pela cabeça. Ia passar insultante. Mas depois eu cheguei à conclusão seguinte: que aquela graça, que a meu ver se desprendia do Quadrinho, era uma graça que perderia com a orquestração do meu insulto atrás, que era uma coisa para aparecer assim e ficar assim. Por assim dizer, deixá-la falar. Ela deu a resposta, eu não devo bordar na resposta dela. Deixa ser à maneira dela.
É o que me pareceu.
(Sr. Poli: O senhor falou algum tempo atrás da mansidão.)
O Quadrinho ali era um exemplo tocante de mansidão, mas mansidão digna.
(Sr. Poli: Mansidão na perspectiva das bem-aventuranças do Evangelho, “bem aventurados os mansos porque possuirão a terra”. Ela não está fazendo caminho de possuir a terra?)
Ela está fazendo o caminho da vitória dos mansos. É o que você dizia há pouco, é a vitória da mansidão. Não compete a mim vir atrás com o estrondo da indignação justa, perturbar os progressos da mansidão. Deixa correr.
Aliás, é claro que se eu passasse um telegrama a ele, ele teria feito um ato de reparação… banquete em Caracas em honra dele para reparar, mil outras porcarias do gênero. Não teria sido bem jogado. Teria sido delicioso, mas mal jogado.
(Sr. Aluísio Torres: Aquele salmo “quando eu for levantado, atrairei todas as coisas”, tem algo que se aplica também ao Quadrinho, porque levantado ali, enxovalhado pelo ódio…)
Tanto mais que o crápula levantou alto o quadro. O que ia decorrer disso? A gente não sabe.
* O desatino do processo revolucionário se reflete no estrondo da Venezuela
(Sr. Guerreiro: Se esse pessoal fosse mesmo muito entrosado, não teria feito isso.)
Mas eles têm feito tanta besteira, que aqui vale o que nós temos falado do desatino do processo revolucionário. É uma aplicação concreta — num campo mais mensurável por nós do que o campo dos grandes acontecimentos internacionais — desse desatino em que o processo está. Quer dizer, as coisas não estão mais como era.
Por exemplo, na Colômbia — a julgar pelas reações que nós estamos recebendo — é fora de dúvida que se trata de um empreendimento muito temerário do episcopado e que nos deixará a nós numa posição muito boa.
Quer dizer, ainda que fechem a TFP colombiana, a TFP vai ficar como um símbolo do anticomunismo esmagado pelos bispos. E esse manifesto dos partidários de Mons. Lefebvre diz aos bispos aquilo que os desmascara na ação contra nós. Chama-os de comunistas, fala do CELAM os piores horrores, cita fatos, etc. É uma coisa furibunda.
(Dr. Edwaldo: Nesse jogo de falsa-direita, o senhor vê alguma combinação com o estrondo, para tirarem algum proveito de excessos, de coisas erradas, etc.?)
É possível, deve-se desconfiar, mas também não é certo por causa da tal desorientação de que eu falo. Não é certo.
É como o episódio de hoje cedo no São Bento. Quer dizer, eu não disse lá, mas eu acho muito mais provável do que eu disse, que aquilo tenha sido fabricado. Não devia contar ali que ele foi noviço dominicano.
(…)
(Sr. Nelson Fragelli: Discussão dentro do prédio, delegacia, manifesto de alcance internacional.)
(Sr. Guerreiro: Com vistas a imobilizar a Mons. Trujillo. O grande da reunião de hoje, a meu ver, foi essa agilidade que Nossa Senhora deu ao senhor, mas fruto de 75 anos de amor à Igreja, de idealismo, de dedicação. Isso tudo colocava para nós…)
(…)
Eu sei o que ele vai dizer.
(Sr. Guerreiro: Que o senhor dizia: perdeu a agilidade, porque perdeu a inocência. Aquilo foi uma pontada na alma. Então a gente vê certas agilidades que nascem da inocência, da dedicação. Para mim foi o grande “flash” da reunião de hoje. Pena não podermos estar no São Bento para fazermos uma cerimônia de homenagem ao senhor, terminando com o ósculo dos pés… Não é isso?)
Eu não me analisei, e estou procurando não me analisar enquanto você fala, para ser franco.
(…)
* Irmão comunista de um membro do Grupo escreve de Moscou para a mãe dizendo que hoje em dia o que mais atrapalha a expansão do comunismo é a TFP
Talvez Carlos possa retificar o que eu disser, mas é mais ou menos isso:
Uma senhora que tem dois filhos, um está na TFP e outro é comunista, está em Moscou, escreveu uma carta para a mãe dizendo que hoje em dia o que mais atrapalha a expansão do comunismo no mundo é a TFP e que por isso vai cair o mundo em cima da cabeça da TFP. E que ele, em breve, volta para a Colômbia para arrancar o irmão de dentro da TFP.
(Sr. Aluísio Torres: Ela deu a carta?)
Não deu a carta. Eu acho que é meio puxado pedir a carta desde logo. Porque ela é capaz de ter medo que se denuncie a polícia, qualquer coisa assim, uma carta dessas. E dizer ao filho que xerografei antes da mãe saber. São coisas imprudentes.
Mas é um documento de primeira ordem para nosso consumo interno.
* Mais do que nos métodos de atuar, a originalidade do Sr. Dr. Plinio está na montagem de panoramas que ninguém forma, por não ter a fidelidade necessária
Agora, à vista desses fatos eu pergunto a vocês: eles acham que deram a volta em nós, ou eles acham que nós demos a volta neles? Não se precipitem na resposta, pelo seguinte: vocês podem imaginar o que é que eles acham que eu poderia ter sido se eu tivesse feito a carreira de bancar dos deles e apunhalá-los pelas costas?
(…)
Eu acho que, a falar em originalidades de métodos de atuar, etc., seria preciso falar — como me parece — muito mais na originalidade, aí sim, da montagem do panorama em função do qual eu faço os lances. Ninguém forma esse panorama, porque ninguém tem a fidelidade necessária aos princípios da Revolução e da Contra-Revolução, às teses de Mons. Delassus, e ao conjunto das coisas da doutrina católica. De onde, na hora do panorama, eles têm uma informação e uma análise: informações eles têm muito mais, mas a análise é a do cata-cego.
Resultado é que entre o cata-cego e o homem de uma vista normal, o homem de uma vista normal é continuamente original para o cata-cego. Porque ele tem em vista um quadro de realidades que o cata-cego não tem, ele tem que agir de outra maneira.
Então, a questão não é procurar tanto o método, quanto o quadro de realidades que fica diante dos olhos.
Isso para falar com toda franqueza, de pai para filho, como a conversa dessa reunião.
* Em seu método de atuar, a influência do bem expor e do trato amável, tradicional em sua família materna, é atravessada de vez em quando por atitudes truculentamente pernambucanas
Bem, haverá alguma coisa de método pelo meio? Talvez.
Eu noto uma coisa que eu nunca me dei o trabalho de me examinar mais a fundo, mas que existe em todos nós, a seu modo, que é o seguinte:
Eu noto no meu método muito da confiança em certos modos de agir tradicionais na minha família materna. Então, por exemplo, a influência de bem dizer, do agradar, do bem expor, do trato amável, etc., isso representa um certo papel no meu método.
Agora, eu percebo que isto é atravessado, de vez em quando, por atitudes muito pernambucanas, e assim… truculentamente pernambucanas, sem que eu nunca me tenha dado o trabalho de estudar como é que uma substitui a outra, quando é que eu apelo para um arsenal, e quando apelo para o outro.
Nunca me dei o trabalho de estudar isso, mas forma uma alternância entre certas coisas que você poderia quase dizer inspiradas pelo Ancien Régime, e em alguns pontos nitidamente pelo Ancien Régime, e outras coisas que são de uma simplificação a la pontapé. Quer dizer, agora acaba com isso e vamos, pam!
Você viu hoje cedo isso.
(…)
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