Conversa de Sábado à Noite – 10/11/1984 – Sábado [CSN 56] . 5 de 5

Conversa de Sábado à Noite — 10/11/1984 — Sábado [CONVERSA DE SÁBADO À NOITE 56]

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A hipótese de convergência está apenas no grau de possibilidade e não de probabilidade * Há no mundo uma mudança enorme em gestação, mas não se sabe em qual direção * As declarações do Cardeal Ratzinger a respeito do demônio indicam que as coisas estão se movendo

e há um despachinho antes de dormir. De maneira que quem tiver perguntas para fazer, já está convidado a fazê-las desde logo!

Diga, meu Guerreiro.

* A hipótese de convergência está apenas no grau de possibilidade e não de probabilidade

(Sr. Guerreiro: Aprofundar um pouco mais a manobra de João Paulo II, para fazer a convergência.)

Isto. Digamos assim: uma convergência interna, para poder fazer uma convergência externa.

(Sr. Guerreiro: O senhor comentava que não era certo que isto tivesse andamento.)

É, não é.

(Sr. Guerreiro: Há uma série de coisas a esclarecer neste assunto. Por exemplo, a reeleição do Reagan favorece esta manobra, ou não?)

Sim. Quer dizer, se o senhor quiser ver em ponto grande a coisa, é uma convergência também nos Estados Unidos.

Quer dizer, as duas figuras máximas no Ocidente são João Paulo II e o Reagan. Se cada um dos dois tem a respectiva base inteiramente na mão, eles podem jogar inteiramente numa certa situação, não é?

O senhor me dirá: “Por que o senhor não disse isso na Reunião de Recortes?”.

Não queria ampliar demais, não queria tratar o quadro mais longe do que o tempo permitia. Mas é a coisa.

(Sr. Guerreiro: Então todo esse processo de convergência, eu me lembro que…)

É uma velha tese, a tese da convergência.

(Sr. Guerreiro: A gente fica com impressão de que nada sai, mas ao mesmo tempo sai uma coisa dantesca. Isto deixa a pessoa um pouco aturdida.)

Mas o senhor está dando… involuntariamente o senhor mudou a gravitação do que o senhor disse. No começo o senhor apresentou como uma hipótese, agora, pela sedução da hipótese, o senhor está apresentando a hipótese como uma coisa muito provável. E exatamente eu não cheguei até lá.

Eu disse que por mais que a coisa seduzisse, porque de fato seduz, era preciso tomar cuidado. Porque nesse atual contexto, nenhuma hipótese chega a ter esta consistência. Seria um pouquinho como um castelo de nuvens. As nuvens às vezes podem formar uma figura… mas depois sopra um ventinho e aquilo tudo muda. E essas são as hipóteses na atual quadra.

Então, pode ser que se dê, mas é com um grau… Há hipótese e hipótese. Diante de uma hipótese, eu posso dizer “é possível que”. Uma hipótese. Outra hipótese eu posso dizer: “É provável ou probabilíssimo que”. É uma hipótese de uma natureza diferente da primeira, de possível.

E o que eu disse hoje à tarde no grau de é possível, trabalhado pelo hábito e pelo bom senso que leva a imaginar que as coisas são sensatas, o senhor é levado a aumentar a carga de probabilidade que isto tem. Ao menos no meu modo de pensar.

* Há no mundo uma mudança enorme em gestação, mas não se sabe em qual direção

(Sr. Guerreiro: Outra coisa que o senhor não comentou, não sei se o senhor chegou a ver isto, de que o Reagan seria adepto da teoria do Armagedon, que a Rússia é um polo do mal, e que a luta entre os dois polos tem que se dar. Isto produziu uma celeuma nos Estados Unidos.)

Mas o Reagan chegou a dizer isto, ou sabe-se que ele pensa assim?

(Sr. Guerreiro: Deu declarações formais nesse sentido. A tal ponto que rabinos fizeram um documento em conjunto a ele, dizendo que esta teoria não tem fundamentação nos fatos, que isto pode jogar o mundo numa catástrofe.)

(Sr. Nelson Fragelli: Esta palavra é da Escritura, não é, Sr. Dr. Plinio?)

Armagedon? É um lugar, segundo a Escritura. É alguma coisa creio ligada do Apocalipse. Um lugar onde deveria haver a suprema batalha entre os bons e os maus.

(Sr. Nelson Fragelli: Eles tomam no sentido em que o senhor toma a palavra “Bagarre”.)

É. Armagedon seria o teatro de uma coisa onde se passaria a Bagarre. O local da uma Bagarre. Então, nesse sentido…

Mas, então, meu caro Guerreiro?

(Sr. Guerreiro: E todos os fatos que o senhor deu a mais hoje na Reunião de Recortes, são coisas que montam um quadro impressionante. Não sei se o meu julgamento está correto.)

A meu ver muito correto.

Eu não conhecia o negócio do Armagedon e do Reagan, do contrário eu certamente teria levado em consideração da elaboração de minha hipótese.

Com reservas no seguinte sentido:

É fora de dúvida de que o Reagan é um homem que não age só por suas convicções. É uma coisa inteiramente evidente. Portanto, as convicções pessoais dele entrar por pouco na jogada que ele dá. E a pergunta tanto não é: uma vez que o Reagan pensa assim, o que ele fará, mas é: desde que os que mandam no Reagan disseram para ele fazer isso, o que é que ele fará? Quer dizer, o que é que estes têm a intenção de fazer? O que é muito mais importante.

Eu acho que o Reagan é uma resultante — como todo grande político — de uma série de forças. Essas forças continuam a mandar, enquanto ele está no poder. Ao menos mandar em larga medida. E acho que as forças que o puseram no poder — não é fácil dizer quais são as forças que o puseram no poder — estão querendo que ele diga isto, não é?

Talvez isto explique até a declaração dele logo depois de eleito, de que uma vez que ele foi eleito, ele queria entrar em contato logo com o ministro do exterior da Rússia. O que indicava o contrário do Armagedon. Quer dizer, para atenuar então um pouquinho o efeito produzido pelo Armagedon.

Mas eu teria comentado em que direção? É que tudo faz falar a favor da convergência.

O senhor mesmo relaciona uma notícia que faz falar muito contra a convergência. A convergência é a paz pacinista, é a cidade de Sofonias, para evitar a guerra, e o Armagedon é o contrário. E por aí mesmo o senhor vê o bamboleante de todas estas hipóteses.

Quer dizer, nós temos que nos resignar a uma caminhada sem sentido. Eu vejo que é extremamente difícil a pessoa se habituar a esta idéia, e louvo esta dificuldade, mas é preciso engoli-la, porque nós estamos numa caminhada sem sentido, provavelmente. E nem mesmo isto é certo. Nem mesmo é certo que nossa caminhada seja só no incerto!

Aliás, pelo que o senhor mesmo falava, a gente vê que todas as grandes peças do tabuleiro estão se movendo. E que qualquer mudança enorme está em gestação, isto se vê, entra pelos olhos.

Agora, em que direção? Há uma direção, ou exatamente há um desgoverno, um castigo à maneira de torre de Babel? É difícil dizer, não é?

* As declarações do Cardeal Ratzinger a respeito do demônio indicam que as coisas estão se movendo

(Sr. –: O senhor na Conversa de Sábado a Noite passada dizia de algo inesperado na linha do demônio, etc. E o Cardeal Ratzinger deu também nesta semana uma declaração a respeito da existência do demônio, que se a luz de Cristo se apagar na terra, é o reino do demônio que virá, etc.)

O senhor veja, um dignatário do Vaticano II dizer uma coisa dessas, é a mesma coisa que se eu pegasse esta estante e pusesse de perna para o ar. Quer dizer, a gente vê que tudo se move, a gente não sabe bem para onde.

(Sr. –: Ele dizia que não adianta fé, não adianta nada. Se a luz de Cristo se apagar da terra, vem coisas muito estranhas na linha do demônio, etc.)

Agora, o que significa isso quando a gente toma em consideração todos os antecedentes dele? Mesmo de João Paulo II. Só o caso Lutero, para não ir mais adiante. Só o caso Lutero.

Este homem estava há pouco tempo atrás glorificando logo Lutero! E depois glorificando daquele modo. Os senhores se lembram da visita à igreja protestante, tudo um horror! Tudo um horror! E de repente nós devemos tomar esse homem como um Pio IX convertido?

É extremamente, extremamente…

(Sr. Carlos Antúnez: Pelo menos as coisas se movem, não é?)

Sim! Ah isto eu acho muito bom! E isto é certo!

Que as coisas estão se movendo, isto é certo. Mas se não é, se é ou se não é para parar de repente, e dar origem apenas a uma imobilidade diferente… também isto já não posso garantir. De tal maneira as coisas são complicadas.

(Sr. Guerreiro: Outro dado dentro do conjunto é o “débâcle” econômico que estão preparando nos Estados Unidos, que é também outra coisa…)

Outra coisa que se move…

(…)

o regime capitalista naufrague nas contradições internas do próprio regime e de numa miséria geral, nós temos miséria de um lado e de outro. Então já desaparece alternativa: um lado é rico, mas distribui pouco, outro lado é pobre, mas distribui bem. Os dois lados são pobres, optemos pelo que distribui melhor.

(Sr. Guerreiro: Uma ditadura interna nos Estados Unidos muito grande.)

É isto! Mas ditadura eventualmente militar até, pouco importa.

(Sr. Guerreiro: Direção completa da economia.)

Para evitar a catástrofe.

Se, por exemplo, estão muitas pessoas dentro desta casa, se movendo à vontade, uns moram em cima… movimento comum de uma casa durante o dia, se de repente a casa começa a tremer e não há meio de sair de dentro dela, é preciso fazer uma ditadura dos que moram dentro da casa, para… É evidente.

Isto encaixa com a hipótese da convergência, mas assim.. Inteiramente.

(Sr. Guerreiro: A hipótese está ficando um pouquinho mais…)

Ahahah! Aí o senhor tem bem uma noção da coisa. É que apesar da hipótese se tornar, portanto, cada vez mais carregada de verossimilhanças, eu não mudo substancialmente minha posição de desconfiado em relação a ela. E note-se que eu sou quem apresentou a hipótese hoje à tarde na reunião. Mas eu acho que nós devemos ser muito desconfiados nesse quadro histórico. Isto é o que me parece.

Agora eu sou obrigado a consultar o relógio…

Quanto tempo leva nosso despachinho, meu Carlos?

(Sr. Carlos Antúnez: Quarenta e cinco minutos.)

Então eu recebo mais uma pergunta. Quem quiser fazer que faça, estou às ordens.

(Sr. Poli: O senhor poderia dizer como é que o senhor pretende orientar as coisas, nessas perspectivas de hipóteses?)

Eu fico sem saber. Eu fico sem saber ao pé-da-letra. Três palavras duras: fico sem saber.

(…)

Quer dizer, nós não sabemos porque é, mas a Providência determinou, e nós inclinamos confiantemente a nossa cabeça. E acabou-se!

Bem, meus caros, acabou! E agora… nós costumamos rezar 3 Ave Marias aqui, não?

(Sr. –: Oração da Restauração…)

Há momentos minha Mãe…

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