Conversa de Sábado à Noite (Sede do Reino de Maria) – 27/10/84 – Sábado [AC VII - 10/84.12] – p. 17 de 17

Conversa de Sábado à Noite (Sede do Reino de Maria) — 27/10/84 — Sábado [AC VII - 10/84.12]

Nome anterior do arquivo: 841027--Conversa_Sabado_Noite.doc

A gagueira da opinião pública por estar reduzida à imaginação desgovernada * Como se entregou à imaginação, ela quer tudo, menos o que lhe perturbe a imaginação * O permissivista sonha com uma ordem de coisas em que tudo é permitido para todos * Porque sente seu sonho quebrado por nós, ele nos odeia e nos persegue * A imaginação pública tomou conta da alma hoje e nunca os homens mostraram tão pouca imaginação * O bem é feito para ver as largas perspectivas, as grandes idéias, e se colocar diante dos grandes problemas, tendo por isso dificuldade de num estrondo defender-se do mal chicaneiro * Esta não é uma fraqueza intrínseca do bem, mas uma fraqueza intrínseca que o bem tem nos ambientes que se deram ao mal * Exemplo: caso venezuelano * “Estamos no bordo de uma difamação universal que eu sinto que está para se desencadear de um momento para outro” — “Se eles percebem que eu sofro com isso, eles redobram, para ver se eu, afinal, estalo” * Pequenos sacrifícios que parecem uma bagatela, façamo-los a todos os momentos, de todos os modos, e teremos feito muito contra o estrondo * Amando mais a Causa, participa-se das apreensões do Fundador * O estado de espírito que se dá na Venezuela não é possível a não ser com uma invasão compacta de demônios — A necessidade de almas sacrificadas para aplacar essa carga diabólica * Promover um esquadrão esguicha demônios, para expulsar o demônio da Venezuela, com orações e sacrifícios * Neste estrondo o demônio não procurou o limite, indo além de toda doidice

(Sr. Carlos Antúnez: A tal gagueira que o senhor comentou hoje na Reunião de Recortes, o senhor dizia no percurso de volta que o senhor achava que esta gagueira iria continuar até no Reino de Maria.)

Não é que eu acho, eu admito a possibilidade.

(Sr. Carlos Antúnez: Como teria que ser o amor pela Causa para as pessoas não sofrerem esta influência dessa gagueira, e ao mesmo tempo esmagar os que odeiam a Causa de Nossa Senhora?)

A questão é muito delicada, muito complexa pelo seguinte:

* A gagueira da opinião pública por estar reduzida à imaginação desgovernada

Qual é a causa profunda dessa gagueira? Em primeiro lugar, como que é essa gagueira?

Uma vez eu vi uma pessoa descrever, mas não era um médico, era uma pessoa que tem tido que assistir alguns doentes de família dela que ficam muito velhos e que então, a partir de certa idade, começam a delirar. Então a pessoa, assim com essa experiência natural, descrevia como ela imaginava que era o delírio. E o delírio é assim: uma pessoa que está na cama e todas as potências da alma não funcionam mais. 95, 98, 100, 103, as potências da alma não funcionam mais, a pessoa começa… as imagens do passado começam a passar de novo, a vida começa a viver de novo. E, naturalmente, desordenada, não com nexo dos acontecimentos reais, mas na desordem, na cavalgata da imaginação desordenada.

Então, algumas coisas que a pessoa diz, a gente percebe que são fatos do passado que se aglutinam errados e que dão seqüências erradas também. Então a pessoa de repente geme, depois dá risada, depois a pessoa agrada alguém que não existe, depois vitupera. É a imaginação desgovernada, sem nenhum controle, e que vai… como seria uma máquina de cinema errada que apresenta o que filmou de modo completamente gagá, seria mais ou menos isso a imaginação errada.

Bem, é esse o estado em que está a opinião pública. Nós temos a opinião pública reduzida à imaginação.

Quer dizer, se nós tomamos as pessoas com a mania de televisão, nós notamos que a televisão é o fazer funcionar a imaginação e os sentidos, mas num ritmo que a pessoa não escolhe mais, é o aparelho que vai dando, e a pessoa segue o que o aparelho deu. Faz parte do privatum de cada um querer ser dono do que lhe passa dentro da casa mental, e pensar numa coisa, pensar noutra, não pensar noutra, etc…

Imaginem que alguém arranjasse um jeito de meter um aparelho na nossa cabeça, por onde nós pensássemos o que o alguém quer e não nós. Nós sentiríamos uma invasão intolerável. Diríamos que deixamos de viver, deixamos de ser nós mesmos.

Mas quem se vicia na televisão fica reduzido a isso, uma espécie de delírio, deliramentum, fica assim.

* Como se entregou à imaginação, ela quer tudo, menos o que lhe perturbe a imaginação

Agora, a opinião pública, à força de se tornar permissivista — eu daqui a pouco vou explicar como é que essas coisas se ligam —, se entrega única e exclusivamente à imaginação. Uma coisa é conseqüência da outra.

Entregando‑se à imaginação, aquelas coisas batem, vêm, etc. E como ela se entregou à imaginação, ela quer tudo, menos o que lhe perturba a imaginação. Encontrando, portanto, uma presença, ou uma influência que pede o raciocínio, pede a seriedade, essa pessoa se sente como um viciado de droga a quem a gente arranca a droga na hora de ele a engolir ou de ele a injetar, em que ele está prelibando o prazer da droga. Ali arranca. Naturalmente, a pessoa fica indignadíssima.

Então o drogado é um indivíduo que pode consentir em tudo e ser de bom gênio em tudo, menos com aquele que lhe tira a droga. Não é uma contradição, é a lógica da situação.

* O permissivista sonha com uma ordem de coisas em que tudo é permitido para todos

Agora, o que é o permissivismo?

O permissivista é um homem que sonha com uma realidade que lhe permita o seguinte estado de espírito: “Tudo quanto me passar pela cabeça de agradável, eu posso fazer sem dano nenhum: sem dano para minha saúde, sem dano para minha carreira, sem dano para meu prestígio, sem dano para meu patrimônio, sem dano para nada. Eu achando agradável, eu posso fazer. Se eu encontrar uma vida assim, eu em reputarei um homem feliz. Portanto, eu o que quero é, tanto quanto possível, tender para uma vida que seja esta vida desalinhavada do que me passa pela cabeça”.

Então é, por exemplo, sábado à tarde. Passo diante de uma casa no centro, que vende, por exemplo, umas bonitas canoas, lanchas. Eu resolvo: “Hoje vou descer para Guarujá e vou andar de lancha”. Compra a lancha, compra todo o material para a lancha, já tem automóvel, já tem todo o necessário, escolhe os amigos que ele quer para ir, os amigos todos podem e querem na hora que convém a ele, tomam a lancha e vão. E a conversa durante o trajeto é como ele quer.

Chegando a Santos tudo acontece como ele quer. Vai a Guarujá, faz o passeio que entende e volta como quer. E para tornar a coisa inteiramente como é o sonho do permissivista, acontece que o meu querer não vai mudar nenhuma vez. Não vai acontecer dentro de mim essas mudanças bruscas por onde, de repente, eu olho para meus amigos e penso: “Homem, podia jogar esses tipos no mar, estão muito cacetes. Vou com essa lancha para outro lugar, encostar essa porcaria aqui, tomar um automóvel e ir para a fazenda, porque melhor é a fazenda”.

Isso não vai acontecer. Vou degustar essa lancha direitinho até a volta, fazer programa total. E toda vida é isso, não é outra coisa senão isso.

Não sei se os senhores percebem que quase todo mundo hoje em dia tende para isso. Tanto quanto as circunstâncias permitem é para isso. E quando eles querem o dinheiro, eles querem o dinheiro para isso, para poder, comodamente, despreocupadamente, fazer isso. É a idéia.

Isto produz na alma uma utopia: é um estado assim descontraído, dizem eles, em que a pessoa não tem preocupações, vive como entende, nunca ninguém será má para ela, ela passa um cheque em branco para quem quiser, porque ninguém vai roubá‑la, nada. É o que quiser, como bem entender, aquilo é o bom. E a pessoa vive daquele jeito.

Bem, este é o permissivista. Ele sonha com uma ordem de coisas em que tudo é permitido.

Mas para dar inteiramente como é, ele não gosta de ver os outros sofrerem. De maneira que o permissivista gosta que seja permitido tudo para todos. E essa permissão geral de todas as coisas constitui a utopia dele. Ele tem assim um estado de espírito pseudogeneroso, pseudo-otimista, pseudofeliz, que ele detesta ver contrariado por alguém que lhe fale dos mandamentos, que lhe fale da lógica, que lhe fale de qualquer coisa que seja sério.

Não vou perguntar aos senhores se conhecem permissivistas. Eu acho que estouraria o teto de tanto conhecerem permissivistas.

Quem não é permissivista hoje? Muito pouca gente.

* Porque sente seu sonho quebrado por nós, ele nos odeia e nos persegue

Bom, o permissivista sente seu sonho quebrado por nós.

Basta isso: o permissivista nunca resiste à opinião pública. Ele é um escravo dela, porque ele quer ter uma vida onde ninguém o contrarie. E ele quer aplaudir todo mundo para ser aplaudido por todo mundo.

Passa um de nós diante dele, um dos senhores, ele vê vestido como estão, vamos dizer que se pudesse aparecer de hábito em público — o dia está chegando… —, ele vê os senhores aparecerem de hábito em público, enfrentando a opinião de todo mundo e contundindo com todo mundo, ele acha que isto é uma coisa bonita e bem feita, mas que ele não tem coragem de fazer. Resultado: os senhores são uns agressores, porque levaram à presença dele uma forma de prazer que, esta, ele não quer ter, porque custa alguma coisa.

Eu falei da hipótese de os senhores usarem hábito na rua. Os senhores sabem bem que, se usassem hábito na rua, podiam até ser vaiados, mas os senhores acolheram com uma ovação.

Se anunciasse a um permissivista desses que dão para ele de presente uma lancha para ele ir a Guarujá, ele não teria a ovação que os senhores tiveram aqui para a hipótese de ser vaiado em público. Coisa de que o permissivista tem pavor! Os senhores acolhem como… uma viagem à Europa os senhores não acolheriam como acolheram isso. Ele não compreende isso.

Depois, ele vai à Europa fazer a viagem. Se nós fôssemos juntos fazer a viagem à Europa, teríamos só prazeres castos e bons, e aproveitaríamos como ele não é capaz de aproveitar, metendo‑se no lodo do pecado, metendo‑se no lodo. Tudo isso ele não compreende.

Resultado: ele odeia. Mais ainda: ele persegue.

* Vive da imaginação, porque o que ele quer é aquilo que naquela hora ele quer gostar

Eu acho que é uma coisa a mais explicável possível. Ele vive da imaginação, porque o que ele quer é aquilo que naquela hora ele quer gostar.

Graças a Nossa Senhora há muitos hispanos aqui, mas a maioria ainda é de brasileiros, de maneira que vou dizer uma coisa que só se pega bem em português, no espanhol não se pega bem. Mas, enfim, os muitos adestrados talvez peguem.

Eu ouvi falar, não conheci, [que] casou um rapaz rico que ria muito, ria muito. Era mocinho ainda. E perguntaram a ele porque acontecia uma coisa, todo mundo tinha acabado de rir, ele ainda ria e gostava de rir. Então perguntaram:

Por que você ri?

E ele que era assim meio caboclo, apesar de muito rico, dava essa resposta:

O que você quer? A minha ria quer riar.

Não sei se pegam bem o que é a ria aqui. É uma faculdade imaginativa que não existe, mas é uma forma qualquer de excitação que há em mim a qualquer rir. Então rio, rio, rio, porque estou com vontade de rir.

Essa é a imagem do permissivista. Não tem mais razão de rir, mas ri.

* A imaginação pública tomou conta da alma hoje e nunca os homens mostraram tão pouca imaginação

Eu creio que falei aos senhores que, quando eu era muito menino ainda, ouvi falar de uma senhora meio relacionada com minha família, uma senhora ainda moça, casada, que andou lendo o Romeu e Julieta. Um belo dia o marido entra em casa, encontra‑a morta exatamente como Julieta, como ela tinha visto Julieta numa fita de cinema. Ela tinha lido o livro e visto a fita no cinema. Ela se matou exatamente como Julieta. E quando o marido chegou, ela deixou uma carta [dizendo] que ela tinha realizado a pessoa de Julieta…

Não tem o que comentar, está comentado. Mas é o quê? É o delírio, é a imaginação.

Bem, isso que se dá com uma pessoa, pode‑se dar‑se com o público todo.

Eu andei lendo um tempo uns pensamentos, conversas com Goethe. Ele falava de Strasburg, ele contava coisa… ele, aliás, devia ter tido uma prosa maravilhosa. Apesar de ser tenebrarum filius, mas, enfim, uma prosa maravilhosa. Ele era um homem contador fenomenal.

Ele era homem disso:

Faltava uma torre na Catedral de Strasburg, não tinham acabado de construir. Ele olhou e fez o cálculo de como devia ser a torre, dado o conjunto do edifício. Não eram torres simétricas, eram coisas diferentes. E numa reunião à noite, numa praça da catedral, numa reunião social, ele contou como é que ele achava. Quando chegou a hora de sair, um velho cônego disse a ele: “Sr. Goethe, o senhor querendo, amanhã passe no arquivo da catedral que eu quero lhe mostrar a torre que nós encontramos há pouco nos velhos papéis da catedral. Nesses papéis o senhor verá que a torre era como o senhor imaginou”.

Eu creio que é ele que conta, que quando as senhoras se encontravam de manhã, uma perguntava para a outra — era época do Romantismo: “A senhora chorou bem essa noite?”.

Imaginação! Imaginação! Não tem conversa.

Bem, a imaginação pública tomou conta da alma hoje. E o que é pior é o seguinte: é que nunca os homens mostraram tão pouca imaginação. Eles não têm imaginação no sentido superior da palavras, eles têm deliramenta, delírios, apetências que passam pela alma. Essas são as imaginações deles.

* O permissivista odeiam-nos porque fazemos cessar seu sonho; amam-nos as almas retas que amam o absoluto, a verdade, a coisa nobre, elevada e direita, e que vogam por aí sem saber onde se agarrar

Não sei, meu Carlos, se isso está bem claro.

Se houver alguma outra pergunta, meus caros…

(Sr. Carlos Antúnez: O senhor não falou ainda da parte do ódio e do amor.)

Eles têm‑nos ódio, porque nós somos o contrário deles. Nós somos a trombada da realidade.

Eu vou lhe mostrar uma coisa melhor. É uma imagem que me ocorre agora e que me parece mais adequada do que a de tirar a droga de alguém.

Imagine que houvesse um hospital onde os drogados todos estivessem dormindo e houvesse um remédio que um só médico conhecesse. Esse remédio tinha por efeito que dando no drogado que está dormindo uma injeção, ele acorda imediatamente com uma boa disposição normal, inteira, mas normal, para tocar a vida. Imagine que ele assim acorda todos os drogados do hospital.

Os drogados o que é que fazem?

Têm duas atitudes: uma é inaugurar uma placa em homenagem a ele; outra é ficar furioso com ele.

Qual é a saída que os senhores reputam a mais provável?

A segunda, embora o médico tivesse lhes feito um grande benefício.

Nós tiramos, quebramos a droga neles, fazemos cessar o sonho permissivista, no contato conosco eles percebem que dois mais dois é igual a quatro, ficam sentidos.

Agora, o amor, eles não nos têm nenhum amor. Quem é que nos ama? São as almas retas que amam o absoluto, que amam a verdade, que amam a coisa nobre, elevada e direita, e que vogam por aí sem saber onde se agarrar.

Então conhecem filhos verdadeiros da Igreja e pegam, porque é o modo de pegar a Igreja, é a realização inteira do espírito da Igreja, pelo favor de Nossa Senhora. Aí está o amor.

* O bem é feito para ver as largas perspectivas, as grandes idéias, e se colocar diante dos grandes problemas, tendo por isso dificuldade de num estrondo defender-se do mal chicaneiro

Bem, meus caros, havendo mais alguma, estou às ordens. Digam lá.

(Sr. Nelson Fragelli: Por que o bem sempre apresenta um ponto fraco nas minúcias, nas coisas menores? Por exemplo, Nosso Senhor, que foi quem foi, mudou a História, etc., foi uma ralé que O atacou e O levou à Cruz. No estrondo Venezuela não é uma grande questão que está em jogo, uma concepção que se disputa, mas coisinhas pequenas. E isso constitui um verdadeiro martírio para o senhor, estar dependendo de mãe que chora, de sei lá o quê…)

Que vê nas costas do filho uma machucadura que não está! É revoltante!

(Sr. Nelson Fragelli: Eu vejo que o senhor frente ao Vaticano tem uma segurança enorme, a discussão aos bispos o senhor sempre levou a melhor, sempre se calaram. No entanto se levanta um delegadote de Itaquera, então é um corre-corre. O que há no bem que acontece isso?)

A questão é a seguinte: é que há no bem que o bem é feito para ver as largas perspectivas, as grandes idéias, e se colocar diante dos grandes problemas; o mal é chicaneiro e explora as pequenas coisas, os pequenos problemas complicados de destrinchar, infla e apresenta para a pessoa.

E aí entra uma casuística concreta a respeito da qual ninguém pode estar preparado, porque não há preparação possível.

Se vierem amanhã, por exemplo, me dizer: “O senhor deve preparar uma defesa porque está sendo acusado de ter falado mal do Observatório Astronômico de São Paulo” — eu nunca falei do Observatório Astronômico, nem sei se tem um Observatório Astronômico em São Paulo… —, eu fico embaraçado em apresentar defesa. Por quê?

Vão dizer: “O senhor, em certo momento falou do Observatório Astronômico de São Paulo — agora estou falando. — O senhor aproveitou para dizer que esse observatório astronômico, o senhor nem sabe se funciona.. O senhor com isso quis dar a entender que é um observatório astronômico tão vagabundo, que o senhor nem olha para ele, porque é impossível que o senhor não saiba que que há um observatório astronômico.

Ora, sou levado a perguntar por que é que o senhor fez isso. O senhor fez isso e eu vejo a coincidência interessante: o diretor do observatório astronômico é filho de um homem de seu tempo, de sua geração, com quem o senhor uma vez teve uma discussão. Portanto, o senhor guardou ódio desse homem, e está procurando detratar o filho dele. Ora, isto é uma vingança, porque perépépe”.

E há duzentos papalvos em volta que dizem: “Oh! ele é vingativo, ele é vingativo. Não diga! Ele é vingativo!”.

Para deslindar uma porcaria de um caso desses, eu tenho que me informar de uma porção de coisas. Inclusive tenho que sustentar teses como, por exemplo, o seguinte: provar que isto pode ter passado espontaneamente numa conversa.

Ah! o senhor não se engana! Ele é filho do Fulano de Tal. Esses ódios ficam no seu coração, Dr. Plinio. O senhor combate os mesmos inimigos desde mocinho. Por que o senhor não terá esse ódio contra esse homem?

Não. É que eu não tenho ódio contra pessoas, eu combato a idéia.

Não está provado, eu não conheço toda sua vida.

Quer dizer, critérios com que não se interpela ninguém.

Bom, a gente poderia dizer para ele:

Está bem, mas a você que é o acusador, incumbe provar.

Ah! está vendo? O senhor não tem provas, hein? Então vamos ficar assim. Eu fico quieto, fica no ar a minha acusação.

O coro:

Suspeito de odiento! Suspeito de odiento! Suspeito de odiento!.

É isto. Mas é isto ao pé-da-letra.

* Esta não é uma fraqueza intrínseca do bem, mas uma fraqueza intrínseca que o bem tem nos ambientes que se deram ao mal

(Sr. Nelson Fragelli: Mas o senhor não crê que sobre isso haverá uma vitória tal no Reino de Maria, que esse ponto fique soldado?)

Este ponto, esta chicana deles, só é uma chicana que pega por causa do público que resolve dar atenção a eles. E como a batalha não é com um auditório de gente séria, mas é para o público que está ganho previamente a eles, antes de começar a luta, enquanto o público estiver deste lado, não tem jeito de soldar. Nem Nosso Senhor conseguiu soldar esse público. O caminho para o mal o homem sempre terá.

O problema é que esta não é uma fraqueza do bem, não é uma fraqueza intrínseca do bem. Esta é uma fraqueza intrínseca que o bem tem nos ambientes que se deram ao mal. E sempre que ele estiver diante de um ambiente, quanto pior for o ambiente, mais ele estará desarmado, porque o ambiente sistematicamente não dará razão a ele.

Então os bafafás mesmo.

* Exemplo: caso venezuelano

Por exemplo, aqui no caso da Venezuela, uma senhora tomou… ou melhor, um rapaz foi proibido. Esse proibido uma noite aparece na sede, toca a campainha, é atendido por um membro do Grupo da Venezuela. E o membro do Grupo dá trela para ele, contra as ordens, e começa conversar. Pouco depois aparecem os irmãos e fazem um escândalo na porta, porque o irmão menor deles está conversando na sede, quando tinha proibição do pai. Daí, como resultado, uma senhora que não tinha pretexto para ser contra nós, incorporou‑se à comissão dos pais descontentes, porque o filho dela uma vez foi visto conversando no portão da sede sem licença.

Nós nem sabemos se não mandaram o filho de propósito para lá, para isso. Nem sabemos.

Quer dizer, a hipótese que eu levanto é que o rapazinho tenha saído às escondidas de casa, a família percebeu e disse: “Agora vamos armar um caso com eles. Passem por lá, eles devem estar conversando. Aí façam o escândalo”. Os irmãos foram lá e fizeram o escândalo. Uma coisa perfeitamente possível.

Agora, a gente tem que sustentar que tese?

Que o rapazinho tocou a campainha, que é uma coisa que o rapaz podia ter feito sem nós o chamarmos, a coisa é evidente. E que o outro que atendeu — alguém tocando a campainha, precisa ver na porta quem está — encontrou aquele que estava muito aflito e praticou uma obra de caridade atendendo a ele um pouquinho.

Ah! eu não vou nisso. As seitas sempre dizem uma coisa dessas, mas quando querem recrutar, tudo está bom para o recrutamento.

Eu tenho que provar que este argumento não é válido.

Agora, como é que eu tenho que provar? Fazendo a prova mais difícil que há: provar o óbvio!

Por exemplo, como é que eu posso provar que eu tenho aqui um gravador na minha presença? Quem olhou e não viu o gravador, não tem prova. Aí também é uma coisa evidente que pode ter acontecido isso.

Agora, provar que pode, a gente diz à mãe:

Pode ter acontecido.

O senhor não conhece o meu Joãozinho. Ele não faz uma coisa proibida pelos pais a não ser quando os senhores solicitam. Logo, os senhores solicitaram.

Não, o seu Joãozinho não é assim.

Ah! está injuriando meu filho porque ele saiu do grupo, hein? Agora os senhores não querem mais bem a ele. Ah! eu vou chorar, o Joãozinho…

É assim que esse pessoal funciona.

Então, Carlos, Rugeles, não é bem isso?

(Eles: Sim.)

Bem, e tem uma roda de deputados e senadores:

Ah! o Joãozinho! — lá se incomodam com o Joãozinho. — Manda vir logo a televisão para essa senhora contar a dor que a seita a está fazendo sofrer.

É isso.

Agora, qual é a saída que existe para uma coisa dessas?

Nós publicamos aquilo que publicamos a respeito das relações com as famílias, a coisa mais lógica do mundo. Não dão resposta! É como se não tivesse sido escrito. Cobramos isso:

Digam!

Não respondem! E os jornais todos publicam:

A seita não respondeu às perguntas que fizemos.

Pronto.

Há nisso um dado muito confortador: é que com todos os que são perseguidos por amor à justiça a técnica é essa, a técnica é essa.

* “Estamos no bordo de uma difamação universal que eu sinto que está para se desencadear de um momento para outro” — “Se eles percebem que eu sofro com isso, eles redobram, para ver se eu, afinal, estalo”

(Sr. Nelson Fragelli: Nesses dias de estrondo vemos o senhor como que envolto numa esfera de fumo, de tempestade, de trovão e de sangue, onde o senhor certamente padece muito, mas sabemos pouco o que passa dentro dessa esfera. E sentimos uma certa filtração da aerologia dessa esfera até nós por onde nós… a tendência é continuar a vida normal. E não temos uma participação nessa esfera quase que nenhuma, ou muito pouco.

Ora, pediria ao senhor duas coisas, se possível: um pouco da descrição do que tem sido para o senhor esta tempestade; segundo, como cessar este continuar normal nosso numa hora assim.)

Eu percebo que, no caso concreto da Venezuela, se trata de fazer a seguinte coisa:

Eu acabei vendo que as leis da Venezuela, assim grosso modo… não conheço as leis da Venezuela, mas grosso modo eu percebo que é uma legislação muito autoritária.

Meu caro Ramón e Rugeles não me queiram mal, mas ditatorial. De ditadura democrática, mas ditadura.

Só aquela história dos juízes de primeira instância serem todos eles renováveis quando muda o Presidente da República, é uma coisa que não é concebível! Não é concebível. Eu não chego a me poder dar conta de como é que um país que tem tudo quanto a Venezuela tem, tenha uma organização dessas, como isso é possível, porque isso não é uma país de judiciário.

Os senhores imaginem que são só… só vão a desembargadores esses juízes mutáveis assim. Quer dizer, são homens políticos, que fizeram uma vida judiciária obedecendo à política, que, portanto, vão para desembargadores cheios de rabos-de-palha e carregados de compromissos. É uma coisa evidente.

E o Rugeles está fazendo uma confirmação enfática.

Bom, ali se torna possível uma coisa que é a seguinte:

Faz‑se uma comissão para investigar a TFP. O presidente do órgão legislativo que fez essa comissão toma a si a função de investigar. E ele é um membro saliente, ou é o próprio presidente de um Partido Socialista da Venezuela, um partido para o qual nós existimos para combater esse partido. Ele tem, portanto, todas as razões para ser suspeito.

Bem, ele toma sem-vergonhamente essa investigação. E a democracia-cristã e uns deputados da Opus Dei que estão lá, em vez de dizerem isto a ele na cara, não: “Nós precisamos ver bem o que é dentro disso legal ou não para apurarmos, porque o que não for legal…”.

Mas como assim? Então eles não vêem claramente que há ilegalidades clamorosas? Uma das coisas que são argüidas contra nós — eu disse isso hoje à tarde — é termos idéias extravagantes. E quem vai julgar isso é este animal? Um tipo cujas idéias são claramente contra as nossas e que nós temos, portanto, o direito de chamar extravagantes as idéias dele como ele tem direito de chamar extravagantes as nossas.

O senhor veja o arbítrio que entra em tudo isso.

Eu vejo que há uma calefação da opinião pública para que a opinião pública seja sensível a um golpe inopinado, por onde, por um decreto súbito, o Presidente da República feche a TFP em virtude de uma investigação que este pró‑homem da república fez, mas que ele não teve tempo de publicar… E leva dez anos para refazer.

Seria muito ruim, nós perderíamos o campo de operação na Venezuela. Mas os rapazes poderiam ir para outros lugares e entrar para a TFP. Não estou certo que não proíbam de sair do território venezuelano nos próximos cinco anos e não proíbam de entrar ninguém pertencente à TFP lá sob pena de ser preso nos próximos cinco anos, para extinguir “uma seita medievalista”. É por quê? Porque é medievalista.

O senhor está vendo o absurdo que tudo isso tem. Mas é uma coisa que pode acontecer.

Agora, isto seria espalhado pelo mundo inteiro e, no mundo inteiro, isso repercutiria como o governo venezuelano nomeou um grande criminalista, Dr. Morales, para examinar e o Morales ficou impressionado.

Se nós quiséssemos dar todas as razões que eu estou dando, o que aconteceria é que não publicariam nos jornais. Por exemplo, agora esses jornais todos de lá… um dos membros do nosso grupo viu.

Foram entrevistar uns deputados, um deputado teve uma certa coragem e fez umas acusações: “Se vão investigar a TFP, devem investigar o partido do Larrouche também”. Não houve um jornal que publicasse.

Não é ditadura, não há censura à imprensa. Mas há censura.

Não sei se percebem, nós estamos no bordo de uma difamação universal que eu sinto que está para se desencadear de um momento para outro. É claro que eu fico muito preocupado com isso, não é?

Agora, não convém… por que não dou aos senhores jornal-falado de tudo isso? Não convém que, nem de longe, chegue ao nosso adversário a notícia de quanto eu possa sofrer com isso. Porque o que eles querem é me matar. E se eles percebem que eu sofro com isso, eles redobram, para ver se eu, afinal, estalo. É isso. É isso.

* Um estalo que teria acontecido se não fosse a confiança na graça de Genazzano

(Sr. Nelson Fragelli: O que o senhor tem sentido da parte de Nossa Senhora de Genazzano?)

Vou lhe dar uma resposta que não é fabricada para ser sibilina. Ela é sibilina porque as coisas da vida espiritual são muito cheios. Nada, ou seja, tudo.

Não estou censurando sua pergunta. Eu acho filial, não tem dúvida, mas o que eu tenho a dizer é isso. Não veja uma censura no que eu estou dizendo.

(Sr. Nelson Fragelli: Eu perguntei porque no sábado passado o senhor havia dito que tinha um temor de [não] estar realizando a vontade de Deus.)

É, o temor é esse.

(Sr. Nelson Fragelli: Agora, para esse temor certamente Nossa Senhora de Genazzano, que sorriu para o senhor, há de ser um amparo, uma consolação nesse momento, muito grande.)

Ah! isso eu posso dizer: eu efetivamente teria estalado se não fosse isto, ainda agora. Isso eu posso dizer.

* Severidade consigo mesmo: “Numa alma de quem Nossa Senhora pediu a execução de uma missão muito especial, às vezes a menor coisa pode contristá-La e determinar uma relativa retração da graça”

(Sr. Nelson Fragelli: Mas o profetismo do senhor sempre tem essas chancelas. O que o senhor fizer, o senhor está certo de ter a vontade de Deus.)

Não. Todo homem é pecável e falível. E numa alma de quem Nossa Senhora pediu a execução de uma missão muito especial, às vezes a menor coisa pode contristar a Nossa Senhora, determinar uma relativa retração da graça.

E há uma coisa mais funda dentro disso, já que o senhor fala: é que eu vejo que há uma certa cota de severidade comigo nessa apreciação, que eu não teria na apreciação com os outros. Mas a gente deve levar sempre a severidade contra si mais longe do que a severidade contra os outros, que é único jeito da gente ficar no justo ponto. Aí do homem que não chegue à severidade contra si a um ponto que, sem ser injustiça, entretanto levante uma pergunta aos outros se não é injustiça. Porque a tendência nossa a nos vermos com bons olhos é tão fenomenal, que ou se nega a ela pão e água, ou ela come montanhas de pão e bebe rios de água.

De maneira que eu vejo que há qualquer coisa que se um outro me expusesse isso, eu diria: “Mas olhe, preste atenção, há um milímetro aqui além do qual você talvez vá”. Eu digo: “É verdade, é talvez, mas talvez não seja”. E julgue‑se pela via mais severa.

Não é bom, não?

(Todos: Fenomenal.)

Calcule quantos homens estão no Purgatório — para falar só do Purgatório — porque não se julgaram com bastante severidade.

E essa é uma coisa da qual eu tenho pânico, é de não ser bastante severo comigo. E acho isso muito razoável. [Vira a fita]

* Pequenos sacrifícios que parecem uma bagatela, façamo‑los a todos os momentos, de todos os modos, e teremos feito muito contra o estrondo

(Sr. Nelson Fragelli: … nós diante do senhor, aquele a quem, nesse momento, eles querem matar. Nesse instante, nessa hora em que falamos com o senhor.)

Eu não tenho certeza… Por exemplo, hoje eu olhei pelo espelhinho do automóvel e vi uma cara atrás. Eu disse ao Carlos: “Olha, Carlos, tem um homem com uma cara tão ruim aí, que eu não sei se não é um matador, não sei”.

E depois, se me assassinarem agora, quando eu chegar em casa, nenhum dos senhores terá o direito de dizer: “Que surpresa, eu nunca esperava”.

(Sr. Nelson Fragelli: Mas, em particular, eles estão usando contra o senhor, nesse momento, o processo de querer matá‑lo pelas vias do estrondo, não um tiro.)

Não, não.

(Sr. Nelson Fragelli: Mas suplício de pressão, mentiras, calúnias.)

E do vazio da lógica. Eu aprendo a manusear a lógica e vejo que a lógica é, nas minhas mãos, uma espada de ar. Eu segundo as melhores regras de esgrima lhes furo o coração, mas a espada é feita de ar e não chega nem sequer a tocar no corpo deles a copa da espada. O senhor compreende que pode desconsertar uma pessoa.

(Sr. Nelson Fragelli: Eles sabem o quanto a contemplação da obra ameaçada, o quanto isso faz sofrer.)

Claro.

(Sr. Nelson Fragelli: Mas, digamos, se pudéssemos inverter os papéis, o senhor estivesse aqui conosco diante de um senhor que representasse para o senhor tudo o que o senhor representa para nós e que estivesse nessa ameaça, a pergunta é: qual a nossa atitude? Eu confesso que, da minha parte, pouco mudei nesse estrondo, continuo… não há um estado de emergência para mim, nem uma atitude de quem está diante do senhor e o senhor ameaçado de morte dessa maneira.)

Não é nem sequer o gato de orelha em pé.

Bom, o senhor me pergunta, eu respondo.

Esse risco não é um risco visível, é um risco sensível. Uma pessoa pode ter estado comigo na Rua Alagoas, me ver andando no meio das labaredas das preocupações, vem aqui durante o dia — há horas do dia em que essa sede é muito sossegada, até entra uma bonita luz dentro dela, muito tranqüila, etc. — e a pessoa diz: “Bem, o que me toca observar, o que me toca sentir é esta tranqüilidade. Portanto, eu imerjo nela. Um peixe que está condicionado pela água na qual é posto. Eu, portanto, vou nadar nela, não tem nada. O que se trata de fazer é: vou cruzar as pernas aqui e deixar correr o marfim porque Dr. Plinio tem aquele gabinete operacional. No momento ele não está me pedindo nada disso. Eu vejo que a questão não é de número de gente, mas é de gente habilitada a fazer serviços administrativos que ele precisa usar. O staff está completo, o que posso fazer? Eu vou gozar a bonita tarde que está fazendo aqui em Higienópolis, está acabado!”.

Qual é o defeito dessa posição, a lacuna dessa posição?

É que Dr. Plinio dá muito mais importância a um sacrifício suportado por amor à obra do que um trabalho. E se eu fizer um sacrifício, se eu agora for rezar, se eu andar longamente a pé, se eu me privar de alguma qualquer coisa, se eu for conversar com pessoas que eu acho pau, fizer um qualquer ato de humildade, um, dois, cinco, cinqüenta atos de humildade, eu sei que estou ajudando a ele a carregar a casa. Então eu faço isso. E o eu saber que um filho está fazendo isso com toda integridade de alma, já isso me encanta.

Quer dizer, o melhor fica ao nosso alcance, o melhor!

Vamos dizer, por exemplo, eu não vou fazer isso agora, mas eu estou apoiado aqui por razões de equilíbrio do corpo, eu estou apoiado com esse braço aqui. Sei que não é uma posição bonita, não se deve tomar essa posição. Mas para ter um equilíbrio de corpo que me convenha para eu poder despreocupadamente conversar, eu estou fazendo isto.

Bem, se não correspondesse a uma espécie de pequena necessidade, eu faria uma coisa virtuosa agora encolhendo o braço. Porque eu estou com vontade de ter o braço estendido, eu encolho.

Eu ofereci a Nossa Senhora um sacrifício mínimo, mas oferecendo esse sacrifício, eu trabalhei pela Causa, porque isso Nossa Senhora toma muito em consideração. É a tese de Santa Terezinha na “História de uma Alma”.

Os pequenos sacrifícios que parecem uma bagatela, façamo‑los a todos os momentos, de todos os modos, e nós teremos feito muito.

Isso todos nós podemos fazer.

* Amando mais a Causa, participa-se das apreensões do Fundador

(Sr. Nelson Fragelli: Há alguma forma, além dessa, de participar das apreensões do senhor?)

A fórmula seria de, tomando em consideração o risco que a Causa corre, que está explicado, nós termos uma alma tal, que nós não deixássemos condicionar pelo ambiente material. De tal maneira que entrando num lugar agradável, nós [não] nos pomos todos deleitáveis.

Imagine que, por exemplo, um homem tenha o seguinte diagnóstico: ele foi à cidade, tirou uma radiografia dos pulmões, o médico disse a ele: “O senhor está com um câncer em cada pulmão”.

Pior é um caso que o Dr. Edwaldo me contou uma vez, de um médico que sentiu uma perturbação qualquer na vista e foi ao oculista. O oculista assestou aquelas coisas em cima dos olhos dele e disse: “Meu caro, você está com um câncer em cada olho”. Uma coisa terrível, terrível.

O sujeito sai do médico com essa notícia, chega aqui, está tudo tão bonito, ele nhã-nhã. Como se trata dele e não da Causa, ele não toma a coisa assim. Pode estar aqui bonito como for, ele está apavorado. E o ambiente não o condiciona a esse ponto. Condiciona quando trata da Causa.

Qual é o remédio?

Amar mais a Causa. Eu, por gentileza, não estava querendo dizer, mas em último caso é isto.

(Sr. Nelson Fragelli: Isso verdadeiramente nos contenta, porque isso é TFP.)

Ahahah! Está bem.

* O estado de espírito que se dá na Venezuela não é possível a não ser com uma invasão compacta de demônios — A necessidade de almas sacrificadas para aplacar essa carga diabólica

Meu Guerreiro, você está quieto, não fez nenhuma pergunta até agora. Há quinze minutos ainda. São…

Diga lá, meu Guerreiro.

(Sr. Guerreiro: A pergunta que fica, por detrás desse estrondo que tem sido, dos piores, o pior, com trabalhos, cansaços…)

Ah! cansaços sem fim! O senhor imagine um homem obrigado a escrever, entre outras coisas, todos os dias, uma página de jornal para essa gente que não vai adiantar nada!

Mas diga então, meu Guerreiro.

(Sr. Guerreiro: De outro lado o estado permissivo que o senhor descreveu na opinião pública, tende a aumentar cada vez mais…)

(…)

Eu não sei se esta série de estrondos, etc., não são o começo da Bagarre. E, portanto, uma espécie de tormento que inicia o começo da luta.

Essa é uma hipótese entretanto cheia — não é uma hipótese indiscutível, mas é hipótese — de probabilidades, de possibilidades, pode‑se pensar nisso, de um lado. De outro lado, é verdade também que, a não ser isto, nós devemos raciocinar da seguinte maneira: o estado de espírito que se dá na Venezuela não é possível a não ser com uma invasão compacta de demônios, mas tão compacta, que só provisoriamente um país consegue ser assim. E eles estão lançando essa loucura toda porque eles contam com esta carga de demônio para dar a isso os aspectos de uma credibilidade. Não digo uma credibilidade real, mas os aspectos de uma credibilidade.

Portanto, se nós tivermos almas capazes de rezar e capazes de se sacrificarem, pedindo a Nossa Senhora… porque nós fizemos a consagração a Nossa Senhora como escravos d’Ela, segundo São Luís Grignion de Montfort, não podemos, portanto, destinar nossos méritos para isso, foram dados a Ela, mas nós podemos pedir a Ela que Ela destine. Então pedindo a Nossa Senhora que Ela destine o mérito que nós façamos para aplacar a carga diabólica na Venezuela. Porque tirados do ar uns certos demônios, isto deflaciona de um modo ridículo, não vai, não funciona.

* O que é a atmosfera de um estrondo

O senhor quer ver o que é a atmosfera de estrondo? O senhor talvez deve se lembrar disso. Enfim, eu menciono, os outros talvez não se lembrem.

Quando terminou o interrogatório lá no Rio Grande do Sul e que se verificou que não havia nada, uma revista — não me lembro qual é, mas nós temos isso tudo guardado — escreveu o seguinte: “Defenderam‑se bem até agora. Até agora eles foram poupados na sua reputação pessoal. Mas daqui por diante eles vão ser processados na sua reputação pessoal e vão conhecer, eles tão limpos e tão íntegros, a vida dura do celerado”.

Bem, pouco depois arrebenta aquele processo contra o Sr. João Costa e o Sr. Barradas. Uma das acusações feitas contra o Sr. João Costa, como diretor da repartição dele, era a seguinte:

Ele uma vez mandou uma datilógrafa — a datilógrafa foi depor no processo — da repartição bater um recibo à máquina do “Catolicismo” para cobrar de uma pessoa. Com isto, ele utilizou uma funcionária pública e utilizou a máquina da repartição pública, a tinta, para bater um recibo.

Agora, o senhor tem certeza que coisas incomparavelmente mais graves do que essa… nem analisamos, não vamos analisar.

(Sr. Nelson Fragelli: Para o senhor ter idéia, o diretor da repartição do Dr. João Costa, o superior dele, durante o estrondo tinha uma porção de carneiros particulares dele, que criava no DEMAE, e com os empregados cuidando dos carneiros. Uma pessoa tentou levantar esse assunto, ninguém ouviu. Estava lá para quem quisesse ver os carneiros, o sujeito puxando com a corda, com uniforme do DEMAE, cuidando da carneirada dele toda no centro de Porto Alegre.)

Não ouvem! E se, por exemplo, o João Costa aparecesse num inquérito com essas fotografias:

Ah, é verdade. Faz favor, requeiro que junte.

Ah, pois não.

No outro dia: não juntaram.

Ah! a funcionária aqui perdeu, sabe? Ela recebeu um telefonema em casa que o filhinho dela estava doente, saiu correndo, não sabe se perdeu na rua, onde é que é.

Ah sei. Eu tenho cópia, vou trazer amanhã.

Jornal nenhum noticia, e na hora de fazer o julgamento não fala a respeito do caso. Está acabado.

Bem, chegam a este ponto.

* Promover um esquadrão esguicha demônios, para expulsar o demônio da Venezuela, com orações e sacrifícios

Isto não é assim nunca, se a opinião pública não foi preparada por uma convergência de demônios. Então nós temos que expulsar esses demônios. E a luta na Venezuela é muito mais para sanear o assunto e o estrondo morrer por falta de ar, do que as respostas que eu dou. E as respostas que eu dou valem apenas, ou valem sobretudo pelo esforço que eu faço.

E a gente vê ainda que no fim do mundo vai ser pior.

Por exemplo, na Venezuela foi possível eles virem a um médico particular, fizeram‑se examinar todos e o médico dar um atestado que é raro encontrar pessoas com o equilíbrio mental dos nossos.

Quando chegar no fim do mundo não é assim, não. Todos os médicos vão atestar que eles são loucos. E de fato os médicos são mais loucos do que eles. É assim.

Depois o demônio utiliza inclusive o seguinte, quando ele carrega muito o âmbito da opinião pública, o demônio utiliza coisas dessas:

Os próprios rapazes nossos lá, no momento, estão sofrendo muito. Quando acabar, eles vão esquecer, e vão ser tentados a voltar para a vida com a mesma despreocupação com que eles entraram no estrondo. Quer dizer, aproveitam muito incompletamente.

Aí o senhor vê a importância de rezar, de sofrer, de penar, etc. É capital, é capital!

Se nós fizéssemos, por exemplo, um esquadrão esguicha demônios, para expulsar o demônio da Venezuela, com orações, etc. Por exemplo, vamos dizer — olhe que é pouco, hein! — meia hora por dia diante do Santíssimo Sacramento, só isso. Mas não aproveitar para fazer as orações do dia nessa hora, porque senão é uma velhacaria, é fazer meia hora, só isso. Até onde vai?

Oferecimentos mais heróicos, dizer a Nossa Senhora: “Minha Mãe, permiti que aconteça qualquer coisa de muito duro e muito ruim, contanto que esse demônio seja expulso da Venezuela. Dai‑me apenas, eu Vos peço, as graças necessárias para agüentar a dor”.

Está claro, meu filho?

(Sr. Guerreiro: Está claro.)

* Neste estrondo o demônio não procurou o limite, indo além de toda doidice

E o meu bom Fragelli? Queremos uma pergunta made in USA.

(Sr. Luís A. Fragelli: O país da despreocupação.)

O país da despreocupação. Entretanto, se dão uns golpes uns nos outros de vez em quando, de se ficar pasmo! Mas ad interim eles se despreocupam.

(Sr. Luís A. Fragelli: Isso é verdade conosco, nossa parte no sobrenatural é muito fraca. Mas não há um limite do demônio que, de repente, a Causa de Nossa Senhora dá uma tal glória a Deus, que ele sente que tem um limite que não possa chegar?)

Em tese pode‑se admitir isto. Mas é o caso de dizer que dessa vez não procurou o limite, porque que ele foi além de toda doidice, foi.

Eu volto um pouquinho ao que eu disse hoje à tarde, mas a questão é que é tão assombroso que vale a pena a gente repetir.

Um maior de idade tem o direito de morar onde quer. Isso não se discute. Portanto, em nome da lei, procurar reprimir que maiores de idade vão morar em nossa sede, é uma loucura.

Depois, segundo, os costumes autorizam os maiores de idade a morarem fora de casa, e manterem boas relações com os pais. É uma coisa freqüente, que todo mundo sabe como é.

Bem, nós fazemos uma coisa de acordo com o costume e eles ainda se revoltam, e ninguém nota essa contradição que nós já acentuamos nos nossos manifestos.

Eu já pensei em publicar esta pergunta e depois publicar uma outra: “Me digam se vocês estão certos de que o Partido Comunista não faz lavagem cerebral, e que o partido não é uma seita. Por que vocês não desconfiam disso dele, e por que desconfiam de nós? Tenham a bondade de responder”. Meia página de jornal só com essas duas perguntas simples.

O meu caro Carlos faz assim, que é propriamente necessário.

Está bem, podemos até experimentar. Sabe qual é a impressão que eu tenho? Que diante de uma pergunta dessas eles soltam mais dinheiro, compram gente e soltam por cima de nós com outros falsos testemunhos.

Mas vamos fazer a experiência, não custa.

Tal é o que eu percebo na Venezuela de carga do demônio.

Notem a coincidência bonita, de termos aqui uma imagem de Nossa Senhora de Coromoto e da Venezuela.

Está claro, meu Luís Antônio?

(Sr. Luís A. Fragelli: Está, mas no final eles vão apanhar, porque é tal a glória que está sendo dada a Deus, Deus está testando tanto a fidelidade que ainda sobra neste mundo, que algo no Reino de Maria vai dar uma glória tão grande a Ele por causa disso que o demônio… enfim, está fazendo uma grande besteira.)

É, mas é uma besteira inerente a todos os planos dele contra Deus, porque ele sabe que ele é derrotado e que Deus, a glória de Deus reluz mais. É isso.

Meu caro Fiuza.

(Sr. Fiuza: Não teria nada.)

Carlos já fez pergunta, falta o coronel. O senhor não tem vontade de saber o que pergunta o coronel?

(Sr. Poli: Essas coisas que o senhor disse fazem tanta idéia, que eu temo não fazer uma pergunta que esteja à altura.)

Nesse caso eu pergunto ao meu relógio que horas são.

São quinze para as três. Até chegar em casa são três. Vamos nos recolher, não quero retê‑los.

(Sr. Nelson Fragelli: Oração da Restauração.)

Vamos.

Há momentos…

*_*_*_*_*