Conversa
de Sábado à Noite (Sede do Reino de Maria – Rua
Maranhão) – 20/10/1984 – sábado – p.
Conversa de Sábado à Noite (Sede do Reino de Maria – Rua Maranhão) — 20/10/1984 — sábado
Nome
anterior do arquivo:
Seriedade, a retidão da alma pela qual a pessoa está disposta a ver a realidade inteira tal qual ela é * A seriedade é um sofrimento – Quem não tem cara de sofrido, não tem cara de seriedade * A seriedade dá sofrimentos, mas também muitas alegrias, que não são as do bobo alegre * A matéria-prima da conversa é um comentário sincero de coisas verdadeiras * A conversa supõe uma certa temperança * As conversas com a Sra. Da. Lucilia – Pelos olhares as pessoas perguntam, respondem, exclamam, comunicam, interjetam, ou não dizem nada * Como seria o modo de a Sra. Da. Lucilia tocar a conversa com os presentes * A seriedade e a severidade na Sra. Da. Lucilia
Sedeates!
Então, Dr. Edwaldo, vamos sentar.
Onde é que estão os outros? Nelson, Guerreiro, onde é que estão? Poli, Fiuza. Pareceu‑me ver o Nelson. Isso.
Guerreiro não está por aí?
(Sr. –: Ainda não chegou.)
Então arranja uma cadeira para o Dr. Nelson Fragelli.
* Seriedade, a retidão da alma pela qual a pessoa está disposta a ver a realidade inteira tal qual ela é
Como é, quem é que faz a pergunta dos senhores do “senado” das perguntas?
(Sr. Carlos Antúnez: O senhor deu um princípio muito bonito na Reunião de Recortes de hoje, de que o senhor não acredita na conversa entre pessoas que não sofrem.)
É, eu não tomo a sério pessoa que não sofre.
Já ser sério é um sofrimento, e quando sujeito não sofre, é porque não é sério.
(Sr. Carlos Antúnez: [...] O papel do sofrimento na conversa e como se dava a conversa entre o senhor e a Sra. Da. Lucilia.)
O senhor poderia fazer mais uma pergunta: o que é a seriedade?
Eu acrescento uma pergunta, mas é para tornar mais fácil a resposta para as outras, de maneira que abrevia a exposição.
Vamos ao caso diretamente.
Eu entendo por seriedade aqui a retidão da alma pela qual a pessoa, primeiro, está disposta a ver a realidade inteira tal qual ela é, sem encolher nada, mesmo do desagradável. Portanto, está disposta a aprofundar todos os assuntos. Quando um assunto comporta profundidade, ela aprofunda, não fica na superfície. Porque o assunto não é feito só de superfície, o assunto é feito de uma totalidade de aspectos.
Vamos dizer, a mais banal das coisas, esse sofá. Uma pessoa que olhasse para esse sofá e se limitasse a constatar que ele é forrado de couro, mas não tivesse a menor idéia de que ele tem molas e tem uma armação de madeira que suporta o conjunto, essa pessoa seria fundamentalmente não séria, porque ela se contentou em ver a superfície das coisas e não quis ver a profundidade da coisa: como é que esse sofá. Daria prova de uma superficialidade de espírito medonha.
Mas se fosse só ver sofás, a vida seria muito simples. Há tantos e tantos aspectos da vida que nós não queremos ver, dentro de nós e fora de nós. Até vamos dizer assim: dentro de nós, em torno de nós, a média distância de nós e longe de nós, há tantas coisas que nós não queremos ver.
Por exemplo, e para não ir mais longe: nós não queremos ver a Deus. Quer dizer, nós não queremos tomar em consideração, vendo esse sofá, que sobre o sofá tem que pensar no couro, nas molas, no estofamento, na madeira; não pensa no que o sofá tem de mais importante: é que é uma criatura de Deus.
É verdade que Deus não criou diretamente o sofá, mas Deus criou o homem, criou o bicho do qual foi tirado isso, criou as plantas do qual foi tirado o estofamento, pôs no fundo da terra os metais dos quais foram feitos as molas, pôs sobretudo o homem que inventou o sofá, o homem que fez o plano, o desejo desse sofá, pôs os homens que queriam sofá assim e que deram o desenho para o homem fazer. Tudo isso é criatura de Deus.
A última profundidade de tudo é pensar em Deus. Nós não queremos pensar nisso.
Por quê? Porque dá esforço, toma trabalho e evita o perpétuo rir, a perpétua brincadeira, a perpétua distensão, a perpétua vagabundagem. O resultado é que nós não queremos olhar. É falta de seriedade.
* Devemos ter o empenho não ceder à tentação de não sermos sérios — Mega é, por definição, o que não se olha seriamente
O segundo ponto é: como nós sabemos que nós temos a tentação de não sermos sérios, por causa disso precisamente nós devemos ter o empenho de prestar atenção em nós e não ceder à tentação de não ser sério, especialmente nas ocasiões que a tentação se apresenta.
Quer dizer, cada um de nós tem a tentação de em alguns pontos não ser sério. Nesses pontos nós devemos ser de uma seriedade redobrada, porque, do contrário, nós caímos na falta de seriedade.
Isso tudo é seriedade.
Essa falta de seriedade faz com que em nós não queremos ver muitas coisas.
Que é o mega? É por definição o que não se olha seriamente: não vê seus próprios defeitos, não vê suas próprias lacunas e, pior ainda, não vê suas próprias qualidades, imagina que tem qualidade que na realidade ele não tem. O mega não é sério.
* O homem sério procura não ver as verdades que o podem inebriar, mas vê as que o podem atemorizar
Como é um homem sério?
Ele vê suas qualidades como são. Sempre com medo de estar exagerando, porque é certo que ele tem a tendência a exagerá‑las, e, portanto, sempre preferindo vê‑las menos do que são, do que mais do que são. Mais ainda: preferindo não olhar para elas.
Depois de ver num relance. Ele tem que saber.
Por exemplo, se ele tem facilidade para dar uma aula, ele tem que saber isso para dar as aulas dele, senão não dá aula. Mas não olhe depois, não fique admirando sua aula, dê sua aula e não pense mais nisso.
O homem sério procura não ver as verdades que o podem inebriar. O homem sério vê as verdades que o podem atemorizar.
Então, quando acontece uma coisa, o homem sério pula sobre os aspectos perigosos, sobre os aspectos desfavoráveis da coisa, e desde logo procura olhá‑los até o fim. Para evitar de não ter a coragem de ver inteiro, ele procura ver logo, e também para saber lutar.
Como é que ele pode lutar contra a fera que vem pulando contra ele, se ele não olha para essa fera? É inteiramente impossível.
O resultado é que o homem deve ter, portanto, uma vida sofrida. Porque quem olha a vida assim, sofre. Sofre, porque é desagradável a gente ver como é. Sofre, porque a pessoa ver os outros como são, muitas vezes é desagradável.
* O caso da Venezuela, um grau de maldade e uma possibilidade de nos acontecer
Os senhores tomem, por exemplo, o caso que aconteceu com nosso querido Feri. No momento estou me lembrando deles e proponho que façamos uma jaculatória rápida por todos eles na Venezuela.
Domina Nostra Boni Sucesso…
(Todos: Ora pro nobis.)
Bem, aquilo revela um grau de maldade e uma possibilidade de acontecer a nós, que eu lhes garanto que muitos dos senhores não queriam ver. Se não de fato, ao menos vivencialmente procuravam não olhar de frente: “Não, nunca vai me acontecer, não acontece com ninguém, é muito raro com um dos nossos”.
Ora, há dias atrás, se o Feri estivesse aqui… ele estava aqui no meio de nós e, coitado, eu posso atestar, porque via bem, no fundo da alma dele se regalando de estar aqui presente. Essa é verdade. Como, aliás, os outros todos da Venezuela que estavam aqui.
Pois bem, ele foi arrancado daqui pelas circunstâncias e jogado nas garras das feras, e logo de uma vez posto na boca da tentação!
Muito dos senhores nunca quiseram ver isso de frente. Não eram sérios. De repente lhes apareceu a figura de um irmão sofrendo uma tentação, que amanhã os senhores podem sofrer nas garras da polícia de São Paulo.
E os senhores hão de reconhecer que aquela facilidade, que eu aprovo, de me fazer perguntas ontem à noite — eu aprovei, gostei —, aquela facilidade em parte era excitação nervosa pelo medo que aconteça o que aconteceu com o Feri.
Mas foi ou não foi uma coisa altamente favorável? Porque os senhores saíram de lá vergastados na falta de seriedade, compreendendo que é preciso ser sério, porque a Bagarre vir em cima de nós não é só uma libertação, é uma coisa muito mais séria, é um sofrimento! E um grande sofrimento também para nós. Nós merecemos esse sofrimento.
Se todos nós merecemos ir para o Purgatório, que é estar em chamas que queimam a alma, nós merecemos isso depois de mortos, por que é que não mereceremos de ter uma parte do Purgatório na vida? É preciso pensar nisso.
* A seriedade é um sofrimento — Quem não tem cara de sofrido, não tem cara de seriedade
Não é sério quem não tem espírito de seqüência nos pensamentos. Olha aqui um pouco para essa cortina: “Ah, uma cortina”, logo depois lembra de uma coisinha que tem que fazer, logo depois ouve um barulhinho, pensa no barulhinho, e vive assim numa vida superficial. Este não é sério.
Nós temos que ser sérios. Esta é a seriedade.
É ou não é verdade que a seriedade é um sofrimento? Porque para levar uma vida assim, é uma vida sofrida. E nós precisamos ter coragem para levar uma vida sofrida.
Agora, se alguém não tem cara de sofrido, não tem cara de seriedade… Meu raciocínio é claro como água do pote: se eu para ser sério preciso sofrer, se não sofri, não sou sério. E se eu olho para certas caras e vejo na cara que não sofreram, eu digo: “Não é sério”.
Agora, do que adianta eu conversar com um bobo alegre que não me diz nada que seja a expressão, a voz do sofrimento dele? Não vale nada!
Está bem claro isso?
(Todos: Sim.)
* A seriedade dá sofrimentos, mas também muitas alegrias, que não são as do bobo alegre
Então, com essa introdução, mais oportuna do que nunca, mais necessária do que nunca, vem então a questão da conversa.
Como é que se põe a questão da conversa? Porque a conversa só é boa quando é séria.
Muita gente confunde sério com carrancudo. Isso não é verdade.
A seriedade dá sofrimentos, mas a seriedade dá também muitas alegrias. Elas são diferentes da alegria do bobo, elas são coisas que dão uma espécie de alento, de segurança, que fazem parte da felicidade do homem sério.
Os senhores querem ver uma coisa?
Naturalmente não vou perguntar a este ou àquele. Poderia perguntar, mas é claro que não seria sério fazer isto. Logo, não farei. Mas quantos dos senhores aqui padecem por falta de segurança, ficam inseguros nisso, inseguros naquilo, naquilo outro, etc.? Talvez seja uma bem forte maioria.
Eu estou usando uma linguagem amável.
Os senhores já calcularam como é que os senhores sofrem com essa falta de segurança? Porque a insegurança dá sofrimento. Os senhores não preferiam muito mais ser seguros e não passar por hesitações? Acho que não há um que não preferisse ser seguro.
Pois bem, a seriedade dá essa segurança. Com a condição de a gente trabalhar para mantê‑la dia e noite, porque o homem tem a toda hora vontade de fugir de dentro da seriedade. Qualquer homem em qualquer idade.
Ele deve encerrar‑se no sacrário da seriedade, mas furiosamente. Mesmo porque se ele sair desse sacrário, ele se prostitui.
(…)
* O Sr. Dr. Plinio exemplifica como tendo a atenção voltada sobre si, evitou de dar um consentimento mole e bobo
Eu sou de um tempo em que o automóvel era um objeto de luxo, e só as pessoas ricas tinham automóvel. Depois arranjaram automóveis feitos não sei de que cartolinas e porcarias, não são mais os automóveis de antigamente, mas todo mundo pode ter automóvel, e não é mais objeto de luxo. Eu sei disso.
Eu entrei agora aqui e fiquei surpreso de ver várias kombis encostadas aqui. A primeira surpresa foi de que enquanto eu desse uma volta aí, os senhores tivessem tido tempo de entrar em tantas kombis e de vir para cá. Depois, a segunda surpresa, ver o número de kombis.
Eu não ia perder tempo contando as kombis, mas num olhar de relance me pareceu que estavam cinco kombis aqui. Não sei se é bem isso ou não. Seriam cinco?
Os senhores também não contaram, é muito natural. Tanto mais que para os senhores, para os hábitos mentais dos senhores, o automóvel é um simples instrumento de transporte.
Para os meus velhos hábitos mentais, dá uma idéia de luxo. Ainda que seja uma kombi, que é um automóvel mais para transportar mercadoria do que gente. Bem, transporta gente a quem eu quero muito, é outra questão. Mas é um carro de mercadoria.
Pareceu‑me assim de relance que eram cinco kombis. Veio‑me ao espírito, por uma sucessão de imagens explicável, e inadvertência… eu estava descendo e com preocupação de andar, de não cair, chegou a cadeira, não chegou, essas coisas todas, e passou‑me a idéia de me alegrar — uma pequena alegria — porque a TFP já estava tão equipada que numa reunião íntima como essa já reunia cinco kombis.
É um pensamento tolo, porque um pouquinho que eu refletisse, eu perceberia que cinco kombis não quer dizer isso, que o automóvel tem uma outra significação hoje e que, depois, o ter esse equipamento não vale nada, que há muitas outras coisas que valem muito mais do que isso. Portanto, esse é um pensamento que eu não deveria ter.
Esse pensamento existiu para quê? Para que eu tivesse ocasião de exemplificar aos senhores como é que se fazem as coisas. Como eu tinha a minha atenção voltada sobre mim, eu evitei de dar um consentimento mole e bobo a esse pensamento cretino, cortei e disse: “Deixa de bobagem. Veja a coisa como é”. Entrei já para a capela e acabou‑se.
* A falta do hábito de ser sério, faz moços delirantes, homens maduros precocemente senis, homens velhos precocemente infantis
Mas isso supõe uma atenção contínua. Do contrário, a falta do hábito de ser sério, faz moços delirantes, homens maduros precocemente senis, homens velhos precocemente infantis. Porque, ahahah… começa a dizer bobagem, a pensar bobagem. É uma verdadeira degradação, é uma tristeza.
Os senhores me dirão: “Mas o senhor não deveria contar uma coisa dessas. Nós gostaríamos de imaginar o senhor não passível de impulsos desses”.
Não. Eu quero que os senhores me vejam como eu sou. Isso inclusive é seriedade. Vejam como eu sou e compreendam que os senhores quando tiverem a minha idade vão ser tão acessíveis a tolices na cabeça quanto sou eu, quanto é qualquer outro.
Porque todo homem, até o momento de morrer, pode pensar besteira. Portanto, precisa vigiar‑se a si próprio. Não há homens vacinados contra o pecado. E precisam lutar, para não fazer besteira, até a hora de morrer. Essa é a realidade.
Entra aqui, meu Guerreiro, tem um lugar aqui a sua espera. Como vai você, meu filho, está bom? Senta aí.
* Sendo sério tem-se segurança no que se vê, segurança no que se prevê
Continuando.
No fundo isto dá ao homem uma segurança, ele sabe que seus pensamentos são rijos, que a idéia que ele tem a respeito das coisas é uma idéia precisa. Pode ser falha porque a inteligência dele não vai mais longe, mas o que ele viu é matéria de lei boa, está bem visto, está bem entendido, dá a ele segurança.
Ele fala com segurança e transmite aos outros uma certeza que vale. Segurança no que ele viu, segurança no que ele prevê, porque para prever é preciso ser sério. É evidente. Não se pode fazer alguma previsão que valha, que tenha algum conteúdo, sem ter sido sério. Tanto mais que, em matéria de previsão, a pessoa tem muita vontade de se enganar: não vê isso, não vê aquilo, porque é desagradável, imagina os panoramas mais agradáveis do que são.
Houve tempo em São Paulo que houve uma verdadeira mania — durante a Bagarre Azul — de fazer dinheiro. Quanta gente eu vi perder o dinheiro que tinha, porque imaginava que tinha jeito para fazer negócio quando não tinha. Resultado: se jogaram no chão, esborracharam as suas fortunas no chão.
É melhor dizer: “Não tenho jeito para fazer dinheiro. E assim como eu não tenho voz para cantar, não vou anunciar que eu vou cantar, porque saio cheio de limões e de ovos que vão jogar em mim, porque não querem meu cântico, e têm razão, é uma porcaria de cântico, não vale nada, assim também eu não vou imaginar que eu vou montar uma loja, porque a loja leva a breca. Nas minhas mãos é, porque eu sou contrário do jeito do comércio. Já sei isso. Não me meto”.
Não, monto uma loja. Dali a algum tempo estou escangalhado.
Vamos dizer que seja uma quitanda. As frutas estragam, as armações de madeira bicham, o público não compra, os empregados saem, fazem ação trabalhista contra mim, todas as perebas acontecem em cima de minha loja. Da minha, em concreto. Eu tenho certeza.
Por quê? Porque não fui chamado para fazer isso. Uma visão séria das coisas me põe na cabeça que eu não fui chamado para isso e que, portanto, tenho que me arranjar com pouco dinheiro, porque não herdei quase nenhum e não fiz muito. Então tenho que me arranjar com pouco, está acabado.
Olho a vida de frente. Meus planos são feitos nessa base.
Os senhores me dirão: “Mas o senhor está falando muito de si. Isso não é megalice?”.
Nesse sentido eu me conheço mais de perto. A pessoa que eu conheço mais de perto sou eu mesmo. Mas eu dou aos senhores um exemplo.
* “A previsão clara, sem ilusões, sem otimismo, levou-me a ter um padrão melhor do que eu poderia ter”
Previsão.
Eu já disse mil vezes aos senhores, eu morei até os 25, 26 anos, mais ou menos, em casa de minha avó, que era uma senhora abastada. Ela perdeu a fortuna e deixou minha mãe e os outros filhos dela em condições apertadas.
Quando se fez a divisão dos objetos da casa, cada um escolheu os objetos que queria, muito de acordo uns com os outros, e os objetos que eles não precisavam para as casas que iam montar, resolveram vender todos.
Eu fiquei quieto, pensei o seguinte: “Esses objetos que estão nessa casa aqui, eu nunca terei dinheiro para comprar, e eu agora vou comprar esses objetos deles pelo preço que um judeu oferecer. Portanto, muito baratinho. Eu vou pegar o pouco dinheiro que eu tenho e comprar o máximo dos objetos dessa casa para minha mãe. Vou ter com isso uma casa de um bom standing que eu nunca terei dinheiro para comprar, porque eu não sirvo para fazer dinheiro”.
Resultado: fiquei com muita coisa da casa de minha avó. A minha casa hoje é mobiliada num padrão muito melhor do que o dinheiro que eu tenho, porque eu prevendo seriamente minha incapacidade de ganhar dinheiro, eu já arranjei o mobiliário de primeira ordem que mobilia minha casa. A previsão clara, sem ilusões, sem otimismo, levou‑me a ter um padrão melhor do que eu poderia ter.
É a previsão.
* A matéria-prima da conversa é um comentário sincero de coisas verdadeiras
Que é a conversa?
A conversa, fundamentalmente, é um comentário sincero de coisas verdadeiras. A conversa não é só isto. Não basta ser um comentário sincero de coisas verdadeiras para dar uma conversa boa, a conversa tem mais do que isso.
A definição que eu estou dando da conversa é como quem definisse o que é uma comida e esquecesse do papel do tempero. Mas a comida não é principalmente o tempero. Ela é principalmente comida, põe‑se o tempero para ficar gostosa. A matéria-prima da conversa é essa.
Se eu converso com um outro que me faz um comentário sincero sobre fatos verdadeiros, um comentário reto — porque não é só sincero, mas é sério, ele sabe ver as coisas, por isso o comentário dele é sério, e sobre fatos verdadeiros, sincero — este homem me dá uma matéria-prima boa, porque dá a autenticidade do que ele observou e a autenticidade do que ele sentiu. Isso é a conversa.
Se o sujeito me mente ou me externa sentimentos que ele não tem, que vou fazer da conversa dele?
* O condimento da conversa é o fato real comentado e iluminado pela luz da personalidade de quem o comenta
Agora, o que é o condimento da conversa? O que é o tempero da conversa?
São duas coisas:
É o fato real bem comentado e iluminado pela luz da personalidade que comenta. É preciso ter uma personalidade que dê àquilo uma luz, que é o tempero da coisa.
Por exemplo, houve uma ocasião aqui em São Paulo um fenômeno meteorológico muito bonito: variações de coloridos no sol, no céu, etc., que foram ultracomentados entre nós.
Se uma pessoa me dissesse: “Olha lá o sol, está colorido com um colorido bonito”, ele não fez uma conversa, ele me fez um relatório policial do que está acontecendo. Não mentiu e deu‑me o comentário sincero da insipidez dele. Porque eu quereria um comentário dele que desse a vibração da alma dele diante daquilo que está acontecendo, por onde me ajudaria melhor a ver aquilo e, depois, de outro lado, ajudaria‑me a ver a ele. Todo homem é feito para ver os outros homens, para conhecer, e quer ter conhecimento.
Então isto faz o tempero da conversa.
* A conversa supõe uma certa temperança
A conversa supõe uma certa temperança. Mas é preciso entender o que é temperança.
A temperança não é só ficar parado e não dizer nada, ou dizer só coisas muito moderadas.
Eu já tenho visto elogio assim: “Fulano é uma pessoa muito moderada, só diz coisas que não tem extremo nenhum, fala coisas judiciosas”. Eu começo a bocejar: “Um tedioso de primeiro lugar. Isso é a descrição de um fleumático, não é a descrição de um homem vivo”.
O homem é feito para, dentro da temperança, proporcionadamente, encantar‑se com as coisas que Deus fez, ou para detestar as que Deus fez representado o mal. E é feito também para diante do vício, do crime, do erro, execrar; para diante da virtude ele gostar.
Por exemplo, agora passei pelos cemitérios. Passei pelo cemitério católico, um pouco, depois… o protestante está vilmente encaixado no católico e muito protestantemente, de acordo com aquele otimismo imbecil e não sério do protestantismo.
O protestantismo é fundamentalmente não sério. Enquanto a IO é fundamental trágica e melancólica, o protestantismo é fundamentalmente não sério.
Não sei se os senhores notaram que eles revestiram aquele cemitério de uma briquezinha, um tijolinho ordinário, cor-de-rosa, que desmerece a grandeza da morte.
Bem, eu passei em frente ao cemitério, naturalmente vi pela centésima vez aquele muro, detestei o protestantismo. Depois passei diante do muro velho, sólido, mal cuidado, mas resistente, da Ordem Terceira do Carmo, e respirei: “Estamos em terras católicas”.
Isto é a visão a fundo das coisas.
Mas se eu comentasse isso com os senhores assim: “Eu passei agora pelo cemitério e, sabem, né? tem uma parte com aqueles tijolinhos que é protestante, então passei por lá e não gostei. Quando passei em frente da parte católica gostei”, conversei? Eu não pus minha alma e, portanto, alguma coisa da realidade dessa coisa os senhores não sentiram.
* Todo homem de alma é um homem de conversa boa — Ti Martos, um homem de alma e bom de conversa
Eu chamo atenção dos senhores para esse particular: todo homem, quando ele põe sua alma no comentar algo, põe uma luz que só ele pode pôr, mais ninguém. Todo homem de alma é um homem de conversa boa, desde que a gente saiba, naturalmente, fazê‑lo conversar.
Lembro‑me, por exemplo, um homem alvar que conheci. Ao pé-da-letra. Não sei se se diz “alvar” em castelhano. É um homem elementar, bronco. Um homem respeitável.
Foi num cemiteriozinho o mais provinciano de uma cidadezinha de Portugal que eu vi esse homem, um trabalhador manual que mexeu e remexeu tanto na terra que a cara dele, a pele dele, tinha um ar de couro embebido de terra.
Uns olhinhos pequenos, estatura média para baixa, vivo, velho, apoiado num bordão; muito falante. Mas não era nada mais nem menos do que pai da Jacinta e do Francisco.
Com um gorro enorme, feito de crochê pela mulher dele, com certeza, mas que é do estilo da zona, que desce eu creio que até quase a metade da espinha dorsal, e que ele ou jogava para frente e forma uma coisa assim — jogava, ele deve ter morrido —, ou ele dobra em cima e forma assim uns andares de uma sanfona de coisas.
Eu estava conversando com ele, vendo o bordão — a gente vê que é um pedaço de pau que ele cortou de qualquer árvore e em que ele se apoiava, vendo aquele negócio —, como é que ele punha para frente, depois punha por cima da cabeça. Percebi que em Portugal como no norte do Brasil houve o costume de carregar coisas em cima da cabeça.
Eu vi, por exemplo, fotografia de um piano sendo carregado em Pernambuco, transportado de uma casa para outra, no começo do século, aquele pianos de cauda, compridos. Quatro homens todos com uns panos em cima da cabeça, o piano em cima deles, e eles andando como se não estivessem carregando o piano.
O pai Martos tinha uma coisa daquela para mudanças, acho que carregava… “Pai Martos vem cá, recebe uma gorjeta, leva‑me para cá uma cadeira”. Ele apoiava a cadeira na cabeça e ia lá cantando e transportava a cadeira.
O Sepúlveda está me fazendo assim… a interpretação é a mesma.
Mas esse homem tinha alma. E o resultado é que eu vi uma certa forma de alegria no enfrentar a vida rude, que era um dos traços da alma do português. A naturalidade com o rude, a alegria no rude, a saúde dentro do rude, e o tamancão… Dá um pouco a idéia até da grandeza de Vasco da Gama.
Eu aproveitei vendo o tio… eles não dizem “tio” lá dizem “ti”, o ti Martos conversar. Ele estava pensando que eu prestava atenção nas coisas que ele dizia, ele me falava do cemitério, que horas fecha, umas banalidades dessas. Eu via o entusiasmo dele contando essas banalidades. E aí vendo um lado das coisas como são. E a vida.
Essa então é a conversa. Ele tinha alma, estava bom para conversar.
Agora imaginem um ploc-ploc, ou então esses homens que aprendem regras de cortesia. Então se senta diante da gente:
— Dr. Plinio, como tem passado o senhor?
— Bem. O senhor tem passado bem?
— Graças a Deus vou também bem. Só que tem, Dr. Plinio, que eu tenho aqui uma cócega crônica na garganta que não passa.
— Ah, é verdade. O senhor experimentou o remédio…
Começa a conversar de remédio, da garganta dele durante meia hora, tudo sem alma. Isso não é conversa. Pago para não conversar. A conversa é uma outra coisa.
* As conversas com a Sra. Da. Lucilia — Pelos olhares as pessoas perguntam, respondem, exclamam, comunicam, interjetam, ou não dizem nada
Não sei meu, Carlos, se era isso que você perguntou.
(Sr. Carlos Antúnez: Sim.)
Então, em linhas gerais está respondido.
(Sr. Carlos Antúnez: Falta a parte da conversa do senhor com a Sra. Da. Lucilia.)
É um ponto que é um pouco difícil de explicar, porque os senhores — não censuro — não podem entender o tempo dela, de que eu peguei franjas, e, portanto, que era um pouco o meu tempo.
Mas fazia parte do modo de conversar, que as pessoas se abriam umas com as outras enormemente e nem um pouco… porque, com formas precisas de conversar, as pessoas não diziam nem o que estavam sentindo, nem nada, mas no modo de contar e dizer as coisas, a coisa transparecia. E sobretudo transparecia — é uma forma de comunicação que eu tenho uma certa impressão [que] ou está desaparecendo ou desapareceu completamente — pelos olhares.
As pessoas tinham olhares muito significativos. Eu tenho impressão que o olhar significativo hoje está desaparecendo, existe pouco.
Vários estão fazendo sinal com a cabeça que não existe, desapareceu o olhar significativo.
Então desapareceu a luz da vida, pura e simplesmente.
O olhar é a animação do rosto de qualquer pessoa. Seja a pessoa quem for, em que condições estiver, o olhar é a animação.
Os senhores peguem um exemplo interessante: a Rainha da Inglaterra. Ela não tem um olhar muito inteligente, porque ela não é muito inteligente e ninguém dá o que não tem. Mas ela tem olhar muito expressivo e a todo momento ela está dizendo alguma coisa pelo olhar.
É muito melhor do que conversar, porque o olhar diz coisas que a palavra não diz. Pelos olhares as pessoas perguntam, respondem, exclamam, comunicam, interjetam, ou não dizem nada, ou se fecham. Um olhar mortiço e fechado, intencionalmente fechado, que quer dizer para o outro: “Meu guichê está fechado para você”. Quanta coisa há desse gênero!
Isso entrava muito no modo de conversar do tempo dela.
Em geral, conversávamos sobre coisas pequenas. Ela dizia coisas pequenas, às vezes eu falava sobre coisas maiores, aí o olhar dela era muito atento, atento, atento. Atento sem nenhuma desconfiança, atento confiante, mas atento: “Como é? Como é? Como é?”.
Ela às vezes não entendia bem, mas eu via que ela levava para meditar depois e tirava seu proveito.
Mas, pelo olhar, o tempo inteiro nos entendíamos enormemente. Eu talvez dissesse completamente. Eram dois olhares que se cruzavam e que penetravam um no outro totalmente, totalmente, que faziam a melhor coisa do nosso convívio, e por onde nós dissemos coisas um ao outro que no Céu continuaremos a comentar, quando Nossa Senhora me conduzir até lá. Mas que era uma forma de troca de idéias.
* Como seria o modo de a Sra. Da. Lucilia tocar a conversa com os presentes
Por exemplo, se eu a trouxesse aqui, ela imediatamente tomaria — que era o gênero dela — uma atitude muito protocolar. Ela era muito de protocolo, de cerimônias, etc. Como os senhores vêem no Quadrinho, aquela cerimônia feita de sinceridade, de naturalidade, mas cerimônia.
Ela imediatamente se perguntaria como fazer para agradar os senhores. Ela iria tocando a conversa de mansinho, como se fazia no tempo, começando por alguma banalidade. Ela diria aos senhores, coletivamente, para ver quem é que quer reagir: “Que inesperado, um dia frio hoje e uma noite fresca como está, não é?”. Uma banalidade, mas ela diria para algum dos senhores que quisesse falar, falarem, e haver tema para se entrar em alguma coisa.
Um dos dois modos de ela tocar a conversa seria:
Um dos senhores diria “senti frio”, outro diria “não, não senti, não estava tanto”, etc., ela amavelmente diria: “Mas como podem divergir — ela diria outra banalidade — as pessoas em matéria de temperatura”. Contaria um casinho: “Conheci um caso de um tio meu…”.
O caso em geral era calculado para distrair e agradar as pessoas com quem ela estivesse conversando. A maior parte das pessoas já não entendia mais isso, mas é como ela fazia.
Se a pessoa respondesse no mesmo diapasão, em dez minutos estava uma prosa ferrada, muito suave, muito cortês, muito doce, que a mim me entretinha.
Assim ela e eu conversamos muitíssimo.
Está bom meu filho?
Se há mais uma pergunta, eu estou às ordens.
Não vou ter o atrevimento de, para movimentar a pergunta, comentar como é que o dia foi frio hoje. Os senhores perguntem o que quiserem.
* Um contato tão natural, que torna difícil determinar quais os temas das conversas do Sr. Dr. Plinio com a Sra. Da. Lucilia
Meu Guerreiro, qual é a pergunta do dia?
(Sr. Guerreiro: A pergunta vai ser um pouco ploc-ploc…)
Não, um ploc-ploc também se sentiria à vontade com ela. [Risos]
Não lhe acho ploc-ploc, mas, enfim…
(Sr. Guerreiro: No decurso dessas décadas de convívio com ela, quais foram os temas?)
Não me pus a pergunta e preciso pensar um pouco para responder aqui. De improviso não saberia dizer, porque nosso contato era tão natural, que essa pergunta não se pôs para mim. Deve ter havido.
Naturalmente, do tema da conversa do menino e do homem adulto com ela há uma variedade desde logo. Mas depois de adulto, que é como se põe a coisa, se havia uma variedade de temas… Deve haver, mas eu precisaria realmente pensar.
Tanto mais que a ter havido variedade — o que é provável, é natural —, deve ter sido uma variedade que evoluiu muito docemente, quase sem perceber. E eu teria que recompor o quadro para saber dizer.
É um pouco como se perguntasse a um dos senhores, por exemplo, … o senhor e eu, há quantos anos nos conhecemos? Talvez uns quinze, vinte anos.
(Sr. Guerreiro: Vinte anos.)
Muitos desses aqui não têm vinte anos, não tinham nascido quando eu conheci o jovem Carlos Henrique Guerreiro Dantas. É provável que os temas das nossas conversas tenham mudado de matiz, de tonalidade, mas talvez o senhor assim de supetão não soubesse dizer, precisa‑se pensar também.
Também com o coronel, o Nelson, toda aqui a bancada ministerial seria preciso pensar.
Assim estou eu. Eu compreendo a pergunta, estou certo que o senhor entende a resposta.
* A seriedade conduz à severidade, e a severidade no juízo leva à energia da atitude — Virtudes nas quais é preciso ir crescendo até a hora da morte
Então, cabe mais uma pergunta.
(Sr. Nelson Fragelli: Não sei se me engano, mas logo que o senhor começou a responder à pergunta do Sr. Carlos, sobre a seriedade, eu julgo ter notado uma pronunciada nota de severidade no que o senhor dizia. Muita energia e severidade. Inusual nas conversas de sábado à noite. Se isso é verdade, perguntaria porquê.)
A seriedade é uma virtude enérgica e severa. Por que razão? Porque a grande inimiga dela é a falta de seriedade e a falta de energia dos outros.
Em geral, quando a pessoa tem menos energia e menos severidade do que é necessário para manter o equilíbrio das virtudes, para mantê‑las andando, subindo, quando a pessoa tem menos isso, a pessoa não gosta da severidade.
A seriedade tem muita noção de que esta terra é uma luta, que nós estamos aqui para expiar o pecado original, que estamos aqui numa terra de exílio, com demônio, com a Revolução, etc., e que é, portanto, preciso manter essa luta.
Isto torna o homem severo. A seriedade conduz logo diretamente à severidade. E a severidade no juízo leva à energia da atitude.
De maneira que o tema de si provoca esses dois estados de espírito.
Eu não fiz com a intenção de, mas sabia que fazendo teria este efeito, de tornar a severidade e a energia muito patentes, porque eu tinha esperança de fazê‑las amar por aqueles que estivessem aqui, como condição de.
Um pouco mais, é que eu dei largas à minha natural truculência quando eu vejo em alguém falta de energia e falta de severidade. Por quê?
Porque a origem de um número incontável de males está nisso. Pessoas boas, com qualidades até preciosas, vão para o Inferno porque lhes faltou energia, faltou severidade. Pessoas inapreciáveis, que eu admiro, que eu quero bem, etc., faltou isso, zero.
De onde uma espécie de indignação minha contra essas duas traidoras moles, que são a falta de energia e a falsa de severidade.
Mais ainda, e com isso eu termino: a necessidade de, eu mesmo falando disso, mover a minha indignação contra isso, porque essas são virtudes nas quais é preciso ir crescendo até a hora da morte.
Não sei o que senhor me diz disso.
Alguém dirá: “Mas, Dr. Plinio, é pouco simpático”.
Eu digo: sim, para quem quer viver uma vida exclusivamente mole, é pouco simpático. Mas este se quer estar junto de mim e não quer mudar, bateu na porta errada. Se ele quer mudar, eu terei todas as paciências deste mundo com ele. Mas se ele me disser: “Eu não quero mudar”, meu filho, então que você está fazendo aqui junto de mim?
* A severidade é uma energia no pensar, a energia é uma severidade no agir
Bom, senhores, Dr. Edwaldo, Dr. Fiuza, coronel…
(Sr. Poli: Qual o mecanismo da severidade e da energia?)
A severidade é uma energia no pensar. A energia é uma severidade no agir.
Por isso que achei que os dois qualificativos levantados pelo Dr. Nelson Fragelli estavam muito claros e muito bons, e harmonizam bem.
Quem é enérgico, é severo; e quem é severo, é enérgico.
Vamos dizer, por exemplo, eu estou sentado aqui e vejo do lado de fora, no peitoril desse terraço… não sei se daqui se vê o peitoril do terraço, se não é muito baixo esse sofá, mas digamos que veja. No peitoril do terraço eu vejo um gatão enorme que anda. Eu suponho que esteja uma porta aberta lá. Antes de eu achar o gato interessante ou não, simpático ou não, qualquer coisa, meu pensamento é: “Ele está aqui e não foi chamado. Que mal pode fazer?”. E logo tocar a sineta, chamar alguém para fechar aquela porta, porque não quero que o gato entre.
Que é isso?
É um pensamento severo sobre o gato, logo perguntando que mal há nele, en conséquence … pssit! mandar fechar a porta para o gato.
Depois de a porta fechada, olhando o gato melhor, se eu achar que é um bicho que simboliza muito o mal, que está muito nem sei como, eu mando tocar fora o gato: “Dá umas bastonadas e põe esse gato fora”. A severidade que ainda vai mais longe, um juízo de que ele está simbolizando alguma coisa de ruim, sapecada e põe o gato fora.
É natural. São coisas que se seguem uma à outra.
Resultado: minha sala não ficou suja pelo gato, que se entrasse aqui — juízo severo — a primeira coisa que faria era se deslumbrar com a luz da Sala da Tradição e com os dourados, e pretender dormir com as garras de fora em cima da seda daquele sofá. Não é possível. Eu ponho o gato fora.
Não sei se está claro.
(Todos: Sim.)
Então mais alguma pergunta, se tiveram para fazer. Dr. Edwaldo, Dr. Fiuza.
(Sr. Carlos Antúnez: O senhor disse que tinha um tema.)
Homem, esqueci‑me. Quando eu faço um juízo severo e enérgico contra minha memória, não sou injusto. Eu nem me lembro que eu tenha dito que eu tinha um tema.
* A seriedade e a severidade na Sra. Da. Lucilia
Apresentem os senhores o tema, então.
(Sr. Carlos Antúnez: A seriedade e a severidade na Sra. Da. Lucilia.)
Ela tinha um juízo implacável sobre os princípios. Quer dizer, uma coisa de um certo jeito, é daquele jeito, está acabado, e quando está posto, não se transige, aconteça o que acontecer, não se faça.
Mas isso não era só nos princípios de uma gravidade suprema, que tocam na moral católica, tocam em outras coisas. Não é só nisso, mas era uma outra coisa também.
Regra simples de cortesia ou de amabilidade, ou qualquer coisa, não se transige, aquela regra tem que ser executada, tem que ser daquele jeito, e é imperdoável que não seja daquele jeito.
Aí, então, com uma espécie de maximalismo surpreendente, porque o que ela imaginava como modo de ser amável, ser gentil, e o que ela dava de si para ser gentil assim… ela fazia um sacrifício que a gente não pode entender! E com uma boa vontade, com uma satisfação, com um mero gosto gratuito de deixar o outro alegre. O outro ficava alegre, ela se sentia recompensada em pôr alegria na alma de alguém. Simplesmente.
Isto era do lado da severidade. Agora a energia.
A energia dela, era uma energia suave e atraente…
(…)
* A esmagar um inimigo do filhão, a Sra. Da. Lucilia o faria logo e inteiramente, mas nunca seria indiferente ao que acontecesse ao inimigo
(Sr. Carlos Antúnez: Se ela tivesse poder para esmagar um inimigo do senhor, como ela o faria?)
Eu acho que ela esmagaria logo e inteiramente. E teria uma alegria especialíssima em me contar que estava esmagando, seria um pedaço do Céu para ela: “Filhão, você sabe? Tal pessoa assim eu dei tal disposição, vai ser obrigada a viajar, ou vai ser removida, não vai mais te incomodar, não pense mais nesse problema”. Isto ela acharia uma maravilha.
Agora, nunca ela seria indiferente ao que acontecesse ao vencido dela. Ela trituraria na medida do necessário, mas ia depois passar toda espécie de bálsamos na pessoa vencida, na esperança de converter a pessoa.
Nesse ponto eu acho que ela não se dava idéia de toda a maldade do mundo no qual ela passou as últimas décadas da vida dela. Ela ainda supunha um pouco os homens e senhoras de outrora que ela conheceu, que eram — de um modo geral — de um estofo moral muito mais alto e, portanto, acessíveis a uma ação de bondade, a uma ação de caridade. Quando, de fato, no tempo que eu vivi não eram acessíveis, muitos.
Ela alguma coisa percebia, ela contava umas coisas. Eu creio que já contei aqui o caso de uma senhora, senhora até rica, mas sozinha. Morava não muito longe de nossa casa. Era uma boa cliente de meu avô.
Essa senhora adoeceu e meu avô resolveu que a senhora fosse convidada para ir para casa e tratada na casa dele. Minha mãe teve pena da senhora e se desdobrou em desvelos com a senhora.
Uma pessoa da família que estava lá deu risada e disse: “Lucilia, você está perdendo tempo com essa Benedita que está aqui, você está inteiramente fora de propósito no que está+ fazendo. Essa é uma mulher má, e o próprio dela é não agradecer a bondade que se tem com ela. Quando sair, você vai ver, você vai fazer muito benefício para ela, ela vai agradecer para mim, que não estou fazendo nada para ela”.
Mamãe dizia que foi dito e feito. Ela cumulou a tal Da. Benedita de atenções, a Da. Benedita melhorou, afinal ficou em ponto de sair de casa. Quando ela se despediu disse: “Lucilia até logo”, etc., um obrigado muito por alto. Voltou‑se para a outra e disse: “Você, minha querida, nunca esquecerei tudo que fiquei lhe devendo”. As duas se entreolharam…
A tese da outra é que não adianta ser bom.
Ela faria a mesma coisa para Da. Benedita, do mesmo jeito. É a posição católica. Não se pode sustentar que a outra tivesse a posição católica. É evidente.
Bem, meus caros, fugit irreparabiles tempus.
* Uma idéia de como seria a linha de sua vida, nosso Fundador supõe ter
Então um enjolras faz uma pergunta. Meu Dustan, qual é uma pergunta?
(Sr. Dustan: […] Hoje no Santo do Dia o senhor lembrou o episódio de Santa Joana d´Arc, da confiança na missão dela apesar das tempestades. Embora o senhor não ouça vozes exteriores como ela, mas algo à maneira de uma voz interior fala da certeza da vitória por cima de todas as tempestades. O senhor poderia abrir um pouco a alma a respeito dessa voz interior?)
Um repórter dificilmente faria uma pergunta tão penetrante… ahahah!
Para entender bem o que vou dizer, é preciso tomar em consideração o seguinte:
Eu não estou certo do que vou dizer, porque me parece, do lado da doutrina católica, [que] por alguns lados isso é provável, mas por outros lados não estou certo que não seja objetável. E, portanto, sobre o que vou dizer pesa uma hipoteca.
Mas é de experiência corrente que quando acontece a certas pessoas certas coisas muito boas ou muito ruins, a pessoa manifesta surpresa. E ninguém fica surpreso do outro ter surpresa.
Isso parece atestar que as pessoas que manifestaram surpresa, tinham meio subconscientemente uma certa idéia de como seria a vida delas. Porque esta certa idéia que tinham não se realizou, é que as pessoas ficaram surpresas. Portanto, a pessoa tinha uma idéia vaga — mais vaga numas pessoas, menos vaga noutras — de que de fato uma certa linha geral da vida a pessoa conhecia.
Uma vez que isso seja assim, a gente vê que não é muito raro pessoas assim, porque muitas são as pessoas que revelam surpresa. Logo, pessoas que tinham idéia geral. E quando alguém revela surpresa, o outro não fica surpreso daquele ter ficado surpreendido, compreende que o outro tinha uma idéia geral da vida. Fundada ou não, mas tinha uma idéia geral da vida.
O que quer dizer que essa idéia de que os homens têm uma idéia genérica de como será a sua vida, essa idéia é uma idéia que está ligada ao senso comum. E, portanto, quase se confunde com o bom senso.
Uma idéia, portanto, de como seria a linha de minha vida, eu supunha ter, e suponho ter.
* “Eu sou penetrado em alto grau do receio de que, por infidelidades minhas, a linha da minha vida seja alterada” — “O remédio que eu tenho é a graça de Genazzano”
Agora, eu sou penetrado em alto grau do receio de que, por infidelidades minhas, a linha da minha vida seja alterada e, portanto, não se faça sobre mim a vontade de Deus como eu deveria prestar‑se a que se fizesse.
Eu não acho mal que eu tenha esse receio, porque o modo de evitar uma coisa está em receá‑la. Então, se é assim, o melhor que eu posso fazer é tentar sair disso. É bom que eu desconfie. Se não é assim, pode acontecer entretanto que eu fique assim. Então preciso ser desconfiado. De qualquer maneira precisa ter o pé atrás nisso.
E quando acontece qualquer coisa de muito imprevisto, o receio fica: “Estava fora da linha e agora como é que é? Como você vai sair? Não terá sido uma infidelidade sua que determinou isso?”.
Por exemplo, no estrondo da Venezuela. O que mais me tem atormentado — é um tormento — é esse receio. Se eu tivesse certeza de que não entra justiça divina aí, mas só a misericórdia, ahhh! eu iria dormir esplendidamente. Não porque não queira muito bem meus filhos venezuelanos, mas é porque eu tenho certeza que eu andando bem, Nossa Senhora teria pena deles.
Isso é ver de frente verdades perturbadoras. Mas é assim.
Não sei se para todos está claro.
(Todos: Sim.)
Aí o remédio que eu tenho é a graça de Genazzano. Razão pela qual tantos são os apuros que se encontram em nosso caminho, que eu tenho constantemente comigo uma relíquia de Santo Stefano Bellesini, que foi o vigário lá e que se santificou, foi canonizado. Por quê? Por causa da devoção a Ela, a Nossa Senhora do Bom Conselho Genazzano. E eu trago sempre essa relíquia comigo, para me proteger e me tornar confiante.
Meus caros, agora vou lhes fazer uma confissão: meus olhos estão se fechando.
Salve Maria para todos. Nossa Senhora os ajude. Vamos andando.
*_*_*_*_*
Sede do Reino de Maria – Rua Maranhão