Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 13/10/1984 – Sábado [AC VII - 10/84.7] – p. 12 de 12

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 13/10/1984 — Sábado [AC VII - 10/84.7]

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O mal atacava nosso Fundador de duas maneiras: se ele consentisse, diminuindo-lhe as coisas elevadas e boas; se não, perseguindo-o — Em conseqüência da perseguição, havia uma espécie de apego ao bem como valor pessoal * O modo temperante do ódio de nosso Fundador veio de alguma coisa do temperamento da Sra. Da. Lucilia, mas a nota determinante é do conflito entre a moleza e a necessidade absoluta de cumprir o dever religioso e o gosto muito entusiástico pelo espírito militar * As graças do Coração de Jesus, levadas ao seu ponto de militância pelas graças “inacianas”, deram ao Sr. Dr. Plinio a resolução de não apostatar, não ceder nunca, e o desejo de destruir a Revolução totalmente * Alguns objetos do Primeiro andar, hoje em dia, são contra-revolucionários — Um membro do Grupo ofende a Sra. Da. Lucilia, dizendo-lhe que não deveria admitir um busto que no seu modo de ver malicioso era impuro * O jogo do ódio e da admiração está na totalidade da recusa que se deve ter à Revolução, e na totalidade de aceitação que a Contra-Revolução exige * O unum de nosso Fundador está exatamente na facilidade de ver onde está a Revolução e a Contra-Revolução, e uma espécie de consagração contínua de todas as impressões, de tudo o que se vê a Nossa Senhora

* Os circunstantes são convidados a ouvir a reunião feita para os enjolras, onde se trata como a admiração foi se destacando do interesse privado para gerar o idealismo, a abnegação, num maior amor à religião…

(Sr. Carlos Antúnez: […] Uma batalha…)

Campal!

(Sr. Carlos Antúnez: Sábado passado para o senhor já é longe.)

Longe, longe!

(Sr. Carlos Antúnez: Papel da admiração no processo Revolução e Contra-Revolução. Como o senhor aprendeu a admirar certas coisas. Por exemplo, o senhor falou do cálice da missa.)

Ah! sei. Estou me lembrando sim.

(Sr. Carlos Antúnez: Como os símbolos foi ensinando ao senhor a perceber as tendências, e a partir daí amar a Contra‑Revolução. O senhor falou da Sra. Da. Lucilia, etc… Pode ser também o tema que o senhor queira, porque o senhor está cansado…)

Não, não… qualquer tema.

(Sr. Carlos Antúnez: Continuar a tratar da admiração, porque ela joga um papel tão grande no amor…)

Ah! É fundamental!

(Sr. Carlos Antúnez: O senhor deve ter tanta coisa dentro para contar…)

Mas se vocês puserem um pedido definido, equaciona mais com as preocupações e as cogitações de vocês, do que uma coisa genérica. O genérico está muito bem apresentado. Se houver alguma coisa definida, algum ponto, alguma coisa, dá ainda mais facilidade. Não sei…

(Sr. R. G.: Tratar de um lado da admiração, que é como a partir do amor admirativo, foi desabrochando também o ódio àquilo que era o contrário do que o senhor admirava. Pela notícia que a gente tem, a apologia do ódio na alma do senhor nasceu um pouco mais tarde devido ao ambiente em que o senhor viveu quando pequeno, etc., e que era mais voltado para admiração. Mas a meu ver, a admiração e o ódio são dois fundamentos da alma do senhor. Nós não podemos entender ao senhor sem uma coisa ou sem outra.)

É que em si mesmas elas são correlatas. Quem não admira não odeia, quem não odeia, não admira! Portanto, na minha alma também.

(Sr. R. G.: Não sei se o senhor quereria tratar desse assunto agora…)

Eu acho o seguinte: que para elucidar este assunto, embora a reunião de sábado à noite seja dado em nível de enjolras, não é em nível aqui da reunião, da conversa, mas tem muita relação com o que vocês estão perguntando aqui. Vocês dois estavam lá e podem ter visto. Tem muita relação. E acho que se vocês tiverem coragem, vale a pena verem. Não sei quem é que arranja essa fita…

(Sr. R. G.: Tem circuito normal para as sedes.)

Ah! tem circuito. Mas mesmo quando a fita é assim para enjolras, é?

(Sr. –: Sim.)

Bem, mas eu acho que até esta fita que mostra como é que a admiração foi se destacando do interesse privado para gerar o idealismo, a abnegação, a religião… gerar a religião, não está bem dito, mas para desembocar num maior amor à religião e tal, isto está de algum modo explicado ali, se quiserem valeria a pena verem.

* Se não fosse a ajuda de Nossa Senhora, nosso Fundador seria preguiçosíssimo, mas de outro lado muito truculento! — O fatinho, quando menino, em São Vicente com o Herr Kinker

Bom, mas eu acho que, no que diz respeito ao ódio, o que eu me lembro muito é o seguinte:

É que há nas desordens que existem em cada homem, há em mim uma contradição muito grande entre a preguiça e a truculência. Porque c Quer dizer, se mexem comigo em alguns pontos essências, aí a sensação — não é uma coisa elevada não — do próprio interesse, do próprio eu, e contrariado em um ponto fundamental, determina um contravapor danado!

Mesmo porque eu percebi muito cedo, logo, como certas coisas me mexiam a fundo e me deterioravam à fundo, não eram coisas de superfície. Então, um ódio feroz! Porque eu me sentia contundido na minha personalidade.

Eu me lembro, por exemplo disto, uma lembrança vaga, um fato que eu já contei a vocês:

Por causa da saúde, etc., minha mãe foi passar com minha irmã e comigo uma temporada em São Vicente, aqui perto de Santos. Lugar especialmente reputado medicinal naquele tempo. E ela foi lá numa pensão — não havia hotel em São Vicente — muito cotada, de um Herr Kinker, ela se estabeleceu com o Herr Kinker. Mas acontece que o Herr Kinker bebia!

Ela não se incomodava porque bebia…

Um dia choveu muito, ela me perdeu um pouco de vista e, de repente, notou que eu não estava. Começou a procurar: “Onde está Plinio? Onde está Plinio?…”. Não encontrava Plinio em nenhum lado. Ela notou que Herr Kinker estava bêbado…. Ela perguntou ao Herr Kinker, o Herr Kinker desviou. Ela ficou com medo de insistir com o Herr Kinker, e foi para o terraço da pensão. E me viu num canteiro grande, no meio da chuva, sentado, tomando chuva.

Aí você vê os dois movimentos simultâneos: como um bicho preguiça! Quer dizer, eu já andava, eu podia voltar para me abrigar. Não! Então, sentado ali no meio da chuva. Eu tinha uns três anos, assim…. Mas, ao mesmo tempo, eu argumentava contra o Herr Kinker… alto! E dizia, protestava que eu não fiz nada para ninguém, eu não fiz nada para ninguém! Então, o Kinker tinha feito mal em me pôr lá, porque eu não merecia castigo. Com três anos…

Não sei se você está percebendo de um lado a inércia, mas de outro lado uma repulsa argumentante. Se o Kinker passasse perto de mim eu dizia para ele. Eu, por assim dizer, polemizava com o Kinker. Simultânea… É uma desordem. A preguiça não devia existir; o espírito de polêmica podia ser maior. Mas essa desordem estava implantada em mim assim.

Agora, ela foi, me pegou, naturalmente, etc., e pode imaginar como me cobriu de agrados… E gostava de contar este casinho. Até bem velha ela gostava de contar este casinho.

Agora…

(Sr. R. G.: O senhor tem bem presente este caso, se lembra bem disto?)

Lembro traços da coisa.

* O mal atacava nosso Fundador de duas maneiras: se ele consentisse, diminuindo-lhe as coisas elevadas e boas; se não, perseguindo-o — Em conseqüência da perseguição, havia uma espécie de apego ao bem como valor pessoal

Bem, agora a coisa põe‑se assim: que depois disto, várias coisas que eu vi o mal, eu percebia que aquele mal me atacava de dois lados. Porque diminuía em mim coisas elevadas e boas que havia, se eu quisesse consentir. Mas, de outro lado também, porque me perseguiria se eu não quisesse consentir.

De onde entrava uma espécie de apego ao bem, meio enquanto existente em mim, e meio enquanto algo meu, como valor meu. Meio por amor ao bem. E isto era uma fonte de ódio, porque querem me tirar isto. E entrava uma sensação de instinto de conservação muito forte, diante da idéia de que queriam me perseguir, se eu não fizesse isto. De onde também, as duas coisas detonavam o ódio; era a fonte mais profunda do ódio. Antes ainda de eu estar com o espírito bastante formado para distinguir o que era o ideal em si mesmo, e o que era o ideal enquanto um valor meu.

(…)

* Quando menino o Sr. Dr. Plinio tinha birrinhas e brigas por motivo pessoal, desde que não pedissem perdão — Depois de entrar no Colégio São Luís, o ódio ao mal era feito com a resolução não indignada de quebrar!

Ódios por razão meramente pessoal, eu tinha? É… birrinhas de criança, naturalmente. Se alguém era levado a me provocar, qualquer coisa — meninos brigam —, eu brigava, evidentemente. Depois, eu era muito “caçoista”… eu tendia não a fazer ditos de espírito, eu não tinha espírito nenhum, eu não era engraçado, eu não tinha graça, mas eu… era tomar atitudes superiores, em relação às pessoas, e tomar ares depreciativos: “Você?! Ahahah!…”, etc., sem dizer claro, porque eu sei que repercutiria muito desfavoravelmente… Muito, muito desfavoravelmente! Eu entretonizava poucos casos, de toda ordem… E acompanhados de risos, porque o sujeito não estava [na] altura que eu imaginava em que eu estava. O que provocava, você pode imaginar, as reações, não é? Entre meninos estas coisas se debandam. Então, brigas — para usar a expressão — azuis de raiva, está compreendendo? Em francês se diz: per bleu… por exemplo.

Mas isto era muito episódico. Podiam transformar‑se em desejos de vingança, sem razões ideológicas, quando eu percebia que uma pessoa sistematicamente se opunha a mim. Aí podia dar um desejo de vingança. Mas não tinha nem de longe a profundidade de minha alma do ódio ideológico. Nem de longe! Era coisa que no total, a pessoa pedindo perdão, eu deixava, e… é coisa de menino bobo.

Agora, a razão ideológica não. A oposição ideológica eu sentia que queria operar em mim aquela transformação que eu disse a vocês há pouco. E esta transformação, que era no fundo a Revolução, ficava com ódio que quisessem me impingir. E em pouco tempo, logo que eu entrei no São Luís e me dei mais conta das coisas, a idéia de que era preciso derrubar. Isto não era feito com indignação. Era feito com resolução não indignada de quebrar! Porque o ódio impulsivo não é muito de meu temperamento. Mas é o seguinte: “Está bom, eu vou quebrar!”. Não quero que esta situação continue, eu vou desmontar esta situação! Como é? Eu vou andar devagar, se não puder andar depressa; eu vou empregar jeitinhos, se não puder empregar a força. Se eu puder, é logo, e com pontapé! E derrubo! Esmago como um formigueiro, logo!”.

Isto seria, a resposta um pouco sem graça, mas enfim, você pergunta o que eu tenho para dizer é isto.

* O modo temperante do ódio de nosso Fundador veio de alguma coisa do temperamento da Sra. Da. Lucilia, mas a nota determinante é do conflito entre a moleza e a necessidade absoluta de cumprir o dever religioso e o gosto muito entusiástico pelo espírito militar

(Sr. R. G.: Eu perguntaria qual dos dois lados da família do senhor concorreu para dar essa temperança, até no ódio do senhor. O senhor me desculpe, mas com o passar do tempo a gente vai se perguntando qual é o gênero de brasileiro parecido com o Dr. Plinio Corrêa de Oliveira! Porque há certos aspectos da alma do senhor que a gente encontra em outros brasileiros…)

Sim, existe sim.

(Sr. R. G.: Mas essa modalidade de ódio que o senhor acabou de descrever, não é muito comum nos brasileiros. Se o senhor pudesse dizer de que lado isto viria, se é que se possa fazer um raciocínio assim. E que gênero de gente o senhor já viu aqui, lá e acolá…)

Você veja, por exemplo, um brasileiro que eu admiro muito! mas muito! é D. Vital. Mas D. Vital me parecia um impulsivo! Muito controlado, muito controlado, mas toda fotografia dele, o jeitão dele, me parecia um impulsivo. Este impulsivo eu não sou.

Das pessoas da família de papai, eu praticamente conheci só papai. Eu estive duas vezes em Pernambuco, almocei no Engenho dele e voltei. Engenho do irmão dele e voltei. Não cheguei a formar bem a idéia se eles eram muito impulsivos ou não. Mas me pareceu que, pelo menos o meu tio era. Era bem impulsivo. Minha tia, que era um solteirona, minha madrinha, me parecia muito emotiva, mas não impulsiva, assim, de ódio impulsivo, não me pareceu. Muito emotiva.

Meu pai era um homem muito mole. Ele era um homem muito inteligente, e não era um maria-vai-com-as-outras, ele fazia o que queria. Mas ele queria em geral o caminho da moleza. E o temperamento de minha mãe não era um temperamento dado ao colérico, em nada! Muito firme, mas em nada colérico!

Agora, o que eu acho que há em mim é, muito… a fleuma do preguiçoso ligada, como Nossa Senhora me deu a graça de em boa medida vencer a preguiça, ligada à determinação, à resolução proveniente do espírito católico. Proveniente, sobretudo, do espírito católico com esta nota especial que se tinha na Companhia de Jesus. Quer dizer, aquele sistema: o raciocínio é assim. E depois, então, o raciocínio claro — como Santo Inácio de Loyola —, taxativo, se é, ponha‑se diante da realidade, tome posição… porque não adianta tomar.

E se engale a fundo nela, porque todo o resto é besteira e, portanto, vamos para frente!

Você não calcula isto que eu vislumbrei na Companhia, já bem decadente naquele tempo. Eu vislumbrei que o espírito de Santo Inácio era outro. Depois com fatos da vida dele que os padres contavam assim em aula, depois com quadros dele que nós tínhamos… com isto em meu espírito como sendo um modelo do que o homem deve ser — e acho que talvez tenha tido até uma graça especial nesse sentido — em dois pontos: a lógica inaciana, que não é nem um pouco a lógica do mole; e a determinação inaciana, mas existente sobre um temperamento fleumático.

Não sei se eu estou me exprimindo bem…

Aí não vejo muito presente a ancestralidade. Eu vejo mais presente alguma coisa do temperamento de mamãe, sem dúvida, mas a nota determinante é o conflito que houve entre a moleza, geradora de todas as espécies de covardia, e a necessidade absoluta de cumprir o dever. O dever religioso, por razão religiosa, e um certo gosto muito entusiástico pelo espírito militar, que vinha da influencia alemã da Fräulein.

* “O desejo inaciano de chegar até as últimas conseqüências, encontrava em certas qualidades de certos alemães a repercussão que eu apreciava”

(Sr. R. G.: Então, isto veio da Fräulein.)

O gosto pelo espírito militar veio da Fräulein e da Alemanha. Depois que a Fräulein foi embora eu li muito sobre a Alemanha. Ela deixou uma semente, e eu me encantava!

(Sr. Poli: Porque o senhor se encantava tanto pelas coisas alemãs?)

Por um reflexo do espírito inaciano. Pão‑pão, queijo‑queijo do espírito inaciano ia muito com o positivo do espírito alemão. E o desejo inaciano de chegar até as últimas conseqüências, encontrava em certas qualidades de certos alemães a repercussão que eu apreciava. E isto me encantava.

(Sr. Poli: O senhor disse que se passasse alguns meses na Alemanha, o senhor se adaptaria inteiramente…)

Ah! inteiramente! Mas em razão deste feitio de espírito, decorrente desse histórico que eu estou dando.

(Sr. Poli: Mas em outros países o senhor teria isto ou não?)

Não. Os senhores sabem o quanto eu admiro a França. Mas, eu sempre me sentiria ali um estrangeiro enlevadíssimo, muito admirador, mas estrangeiro!

(Sr. Poli: No almoço hoje conversamos sobre isto, mas tínhamos dúvida desta…)

Mas é isto!

(…)

* O lado pesadão do português na direção da Abissínia, mas ao mesmo tempo o lado bonito ao arrebentar com as igrejas Católicas de lá, para não deixá-las à mercê dos hereges

Conseguiram converter o rei. E o rei deu um católico daqueles! Um Filipão de ébano, mas um Filipão! Quer dizer, daqueles de impor a religião Católica, ali! E converteu vários nobres; converteu um irmão dele, que foi uma espécie de mártir, etc., e os jesuítas, não me parece que tenham sido muito hábeis. Eles investiam contra a igreja Copta. A Elaine Sanceau — era a igreja herética, monofisista — não diz a coisa muito clara, mas parece que eles obrigaram os abexins a usarem o rito copta — não, o rito latino — e isto para eles, outra língua, outro ritual…

Quando eles poderiam ter aproveitado e alterado o rito copta, como a Igreja faz com os ritos orientais. Eles não fizeram. Isto deu uma bagunça na Etiópia do outro mundo!

Bem, o rei, aliás, é destes mistérios da História que a gente não sabe bem como explicar. a Abissínia toda estava revoltada com o rei, exceto uma minoria de católicos, mas de católicos abexins mesmo. E estava toda revoltada contra o rei, e o rei, pelo fim da vida, viu que ele ia perder o poder. Então, chamou os jesuítas e disse que estava sentindo a necessidade da liberdade religiosa para ele não cair. E os jesuítas desaconselharam que desse. Eu acho que era o caso de dar, porque há certas circunstâncias em que para evitar o mal maior, era legítimo. Era muito melhor ele, em vez de ter levado as coisas a este ponto, ele deveria ter admitido o rito abexim, com pequenas alterações, deveria ter tomado o feitio de batina, e de paramentos dos padres abexins, e depois deveria ter adotado o modo de pregar a língua deles, etc., instalar‑se ali. Parece que não fizeram…

Estas sutilezas não são muito qualidade do português, não é? “Coisa, não, como é isto Manuel, etc., vamos para frente!”.

Bem, era melhor que eles fossem uma minoria que vivessem numa situação tensa com a maioria, mas não uma situação de estalar, prestigiada pela participação da família real no culto católico e ir ali fazendo guerra psicológica. É como eu teria aconselhado prontamente.

(Dr. Edwaldo: Estavam isolados completamente.)

Isolados! Não tinham nenhuma possibilidade de apoio nem nada. Bem, o rei morreu e subiu outro filho dele ao trono. E o filho dele deixava o rei fazer o que quisesse, mas não era católico. Quando subiu ele disse: “Eu aceitei tudo porque meu pai era o imperador, e eu era súdito de meu pai. Mas agora o imperador sou eu. Eu vou acabar com vocês. Os jesuítas tentaram, não adiantou nada, e ele decretou a expulsão dos jesuítas. Os jesuítas tinham construído, para uma província muito do interior, uma igreja linda, que era a mais bonita igreja da Abissínia.

Bem, não é preciso ser uma catedral de São Pedro para ser a mais bonita igreja da Abissínia. Mas, enfim, eles fizeram esta igreja. Quando eles viram que o decreto de expulsão estava lavrado, eles foram à própria igreja, e eles destruíram todos os altares da igreja, e quebraram tudo, para em altares em que o Sacrifício se ofereceu, não oferecessem o sacrifício copta, que era herético.

Então, a Elaine Sanceau descreve a eles na tristeza de quebrar a própria obra, para entregar aos outros, e depois abandonar a Abissínia, que ficou abandonada até os nossos dias. Hoje é comunista!

Mas esta grandeza de espírito de quebrar os altares para não entregar, eu acho uma coisa muito bonita. Tem um vôo que é extraordinário! Que é coisa de português! Você pode imaginar aqueles portugueses, grandões, quebrando… pan! pan! pan! Espandongando os altares com lágrimas correndo pelos olhos! Porque eram igrejas que eles queriam bem, tinham feito… Imaginem que me pedissem para destruir os altares do Coração de Jesus!

Quer dizer… Eu acho que era capaz de dizer a Nosso Senhor: “Mas, Senhor, até isto me pedis?!”. Porque eu tinha impressão de estar me matando a mim mesmo! Agora, se fosse para ficar nas mãos de coptas, porque não?! Mas, com que dor! Uma dor tremenda!

Não é? Bom, mas é um traço do espírito português muito bonito! Mas, um lado pesadão deles na direção da coisa, não é um lado muito bonito.

Bem, então, isto, assim, em linhas gerais, responderia à pergunta que vocês fizeram.

* As graças do Coração de Jesus, levadas ao seu ponto de militância pelas graças “inacianas”, deram ao Sr. Dr. Plinio a resolução de não apostatar, não ceder nunca, e o desejo de destruir a Revolução totalmente

(Sr. Carlos Antúnez: Como é que no espírito do senhor este ódio natural foi se tornando sobrenatural, como foi desligando‑se do aspecto preguiça, e chegando ao que é hoje.)

Aí você encontra as graças do Coração de Jesus, mas levadas ao seu ponto de militância, pelas graças “inacianas”. Quer dizer: “Eu não posso, mas não posso, não posso apostatar, nem ceder!”.

Esse é o ponto dado, positivo: aconteça o que acontecer, isto não pode acontecer. Agora, se não pode, e há gente que vem por cima de mim, se eu vejo — aqui já entra um a consideração mais alta — este caos da Revolução estabelecido aí, independente de eu estar dentro dele, horrendo, medonho, desordenado, insultante a Deus, eu preciso destruir! Há uma incompatibilidade absoluta, eu preciso destruir. E preciso de uma precisão absoluta!

Agora, aí entra uma outra coisa também, entra ambientes e costumes, entram coisas também dentro disso, que é o seguinte:

Nossa Senhora me fez perceber que a Revolução penetrava tudo. E que eu não podia gostar de nada em que ela tivesse penetrado. De maneira que, o ódio à Revolução era um ódio total, porque ela me cercava de todo lado.

No regime criado por ela, por assim dizer não haveria uma pedra onde eu pudesse deitar a cabeça! Nas menores, nas menores coisas, a gente via a Revolução!

* Alguns objetos do Primeiro andar, hoje em dia, são contra-revolucionários — Um membro do Grupo ofende a Sra. Da. Lucilia, dizendo-lhe que não deveria admitir um busto que no seu modo de ver malicioso era impuro

Eu estou vendo daqui, é um objeto muito comum, aquele candeeiro que tem ali, de cristal, vocês talvez estejam vendo que as contas dele são verdes. Depois, embaixo, aquela parte coisa é de cristal branco, incolor, comum…

(…)

Vocês têm aqui aquela caixinha, não sei se dá para vocês verem os desenhos daqui, ou se querem trazer aqui para ver?

Bom, para o tempo em que aquilo… aquilo não é autêntico, é um presente de casamento que mamãe recebeu, não é daquele tempo, nem de longe, mas para o tempo em que mamãe recebeu e para o tempo nosso, aquilo é contra‑revolucionário. Porque aquilo é um grupo de dois namorados, e a gente não sabe de que espécie de namoro. Mas eles estão numa natureza tão delicada, eles estão num ambiente de cores tão doces, tão suaves, tão elevados, e a atitude deles é tão cerimoniosa um com o outro, que aquilo fala muito mais da pureza do que da impureza para o homem contemporâneo. De maneira que aquilo, para hoje, é Contra‑Revolução.

Para um outro… se diria: “Mas você admite um objeto com cenas de namoro na sua casa?!”. Eu digo: “Pode ser um namoro de noivos, não está dito que espécie de namoro é. Não é o namoro indecente. Sobretudo o que tem, é que é contra‑revolucionário hoje em dia”.

Eu soube que o Paulo Eugênio fez uma objeção…

(Sr. Poli: De infeliz memória…)

De infeliz memória! Fez uma objeção quanto à virtude de mamãe. Mamãe teve aquele busto ali, porque o busto tem as formas do corpo um tanto acentuadas. É verdade, eu sei. Mas a delicadeza de espírito, e a pureza do rosto, e o branco do mármore, etc., dão aquilo um ar muito mais de pureza do que de impureza.

(Sr. Fernando Antúnez: Tem que ser um tipo como ele para ter este tipo de…)

(Sr. R. G.: Precisa ter ódio e maldade para fazer esse comentário.)

É, ele esteve aqui naturalmente com olhos críticos, e procurou unilateralmente ver o que criticar. Mas eu acho que aquela figura dá muito mais pureza do que impureza.

(Sr. Carlos Antúnez: E depois, hoje, hoje.)

Hoje! Quer dizer, não entra em linha de conta, no meu modo de entender…

(Sr. Carlos Antúnez: Ele que anda pelas ruas sem ter nenhuma vigilância…)

Ah! toda espécie de coisas! Tem tevê em casa dele!

Bem, enfim, deixemos de lado, mas é para explicar um pouco como entender as coisas.

* O jogo do ódio e da admiração está na totalidade da recusa que se deve ter à Revolução, e na totalidade de aceitação que a Contra-Revolução exige

Quer dizer, como se pode ver a Revolução, mas pode‑se ver a Contra‑Revolução em toda parte. Bom, mas isto explica a totalidade de recusa que a Revolução impõe e a totalidade de aceitação que a Contra‑Revolução exige. Portanto, o jogo do ódio e da admiração.

Eu sei que aquela caixa lá não é um objeto extraordinário, é um bom objeto. Eu não quero dizer, portanto, que seja um objeto magnífico. Mas eu admiro a escola da qual esta caixa é um respingo. E no ver a caixa, vejo esta escola. Me encanto! É a admiração.

Agora, vem um sujeito me dizer “bábábá…”, dá-me raiva! Não é uma raiva impulsiva, mas uma raiva…

* O unum de nosso Fundador está exatamente na facilidade de ver onde está a Revolução e a Contra-Revolução, e uma espécie de consagração contínua de todas as impressões, de tudo o que se vê a Nossa Senhora

(Sr. Carlos Antúnez: O senhor dizia que o “unum” da alma do senhor é exatamente o ser contrário à Revolução. E isto é exatamente este ódio que o senhor descreveu agora, não é?)

É. Pelas correlações, por muita facilidade de fazer correlações, ver bem onde está a Revolução e onde está a Contra‑Revolução. Mas daí uma espécie de consagração contínua de todas as impressões, de tudo o que se vê, no fundo ao serviço de Deus e de Nossa Senhora. Porque isto é a Contra‑Revolução!

(…)

E quebrou Luís XIV! O Bem-aventurado Inocêncio XI.

Cada vez que eu osculo a relíquia dele que tenho aqui, eu tenho um particular deleite do coração. Embora ele tenha humilhado um homem que eu admirava profundamente! Quer dizer, se qualquer outro poder da Terra tratasse a Luís XIV desse jeito, eu ficaria muito escabreado. Muito! Mas Inocêncio XI não! Ele era Papa, ele tinha razão. Luís XIV mexeu perigosamente com o attaché da França na Igreja. É outro ponto que não se pode tocar, e empurrar qualquer país para a heresia, mas sobretudo, não empurrar a França!

Onde é que se viu uma coisa destas? Ele foi, interveio e quebrou!

Ahhh! Fico cheio de entusiasmo!

Bom, se ele tivesse quebrado Inocêncio XI, eu não perdoaria. Não sei se está claro? E me parece razoável.

É das tais coisas, vocês sabem bem o horror que eu tenho à igreja ortodoxa. Eu nunca me pus o problema que eu vou pôr agora:

Mas você imagine que eu estivesse num hoteleco do interior — como eu conheci muitos fazendo propaganda eleitoral —, onde tem todas as mesas ocupadas, exceto uma em que estou eu, e que tem um lugar disponível. Entra um bispo da igreja ortodoxa com aqueles paramentos, com aquelas coisas todas. E, ou se senta na minha mesa, ou vai comer na copa, portanto, no meio da criadagem. O que é que eu deveria fazer?

Eu nunca me pus o problema, eu estou pondo agora.

Eu me doeria de mandá‑lo comer na copa. Pastor protestante, que não tem…

(Sr. Poli: Na estrebaria!)

Na estrebaria, nem considero! Achava graça. O “bispo” anglicano, lá de…

(…)

Dr. Hampsey, Dr. porqueira… aquilo tudo, pode mandar para lá, eu gostaria ainda de dar um pontapé e jogar no chão! “bispo” metodista, horrores destes, o maior desprezo possível. Agora, muito outra coisa é um homem que é bispo. E que quando celebra missa, celebra missa verdadeira. Agora, o que fazer com este homem?

Está bom. Eu aqui estou me pondo o problema. Se eu pudesse fazer o que eu quisesse, eu chamava, oferecia um lugar para ele em minha mesa, quando ele se sentasse, eu levantava e dizia: “Eu lhe cedo a mesa, mas eu não sento com o senhor. Até logo!”. Eu teria dado o auge da repulsa, mas com um respeito a alguma coisa que tinha ali dentro. Com um pastor protestante eu não teria feito.

Mas, não sei se isto basta, ou se eu deveria deixar simplesmente a ir comer com os criados na copa. Eu, almoçar com ele na mesma mesa, não! Não tem perigo.

Agora, você vê se em face da I.O. é assim, você faz idéia em face da Estrutura. Tanto mais que esta cachorrada da I.O. são heréticos.

(Sr. Carlos Antúnez: E com a rainha da Inglaterra, que é cabeça da igreja anglicana?)

Aí é diferente! Porque ela é rainha, e rainha é um cargo temporal. E ela é tão per accidens cabeça da igreja anglicana, que nem sei. Agora, se ela se apresentasse a mim com paramentos de bispa anglicana, que parece que ela põe durante a coroação, fosse rainha como quisesse, não! E fique sabendo que é não!

Pode o que quiser, remexam e mexam isto como entender, entendam bem: não!

Agora, sabe que hipóteses assim não me cansam, acho que até distrai focalizar hipóteses assim, não é?

(Sr. Carlos Antúnez: Isto é amor à Igreja…)

Bom, mas… [Vira a fita]

a alma de minha alma, vida de minha vida, a Igreja Católica Apostólica Romana. Ali a coisa é assim e não tem conversa! E sem a qual eu não seria nada!

(…)

* A truculência de nosso Pai e Senhor em corrigir— se ele tivesse meios — os desmandos na distribuição de títulos pechisbeques de nobreza

entre nobre e nobre… Que o mundo antigo era muito cheio de… Querem ver uma coisa que deixaria um protestante desesperado, mas é… desesperado, mas é assim. Os Papas vocês sabem que eram senhores soberanos de um enclave que havia na França antiga, que era o enclave de Avignon. É um castelo e um enclave lá, que hoje está incorporado à França, mas naquele tempo eles eram senhores daquilo. E os legados pontifícios em Avignon eram homens que governavam Avignon, inclusive na ordem temporal, em nome do Papa.

Eles eram arcebispos de Avignon, por exemplo, mas governavam em ordem temporal. Eles davam títulos de nobreza, e vendiam estes títulos de nobreza muito baratos, inclusive titulo de duque. De maneira que havia na França uns tantos franceses que compravam o título de duque de Avignon. E que depois, eram uns duques muito pechisbeques.

(Sr. Carlos Antúnez: Eram italianos ou franceses?…)

Eram italianos… Olhe! olhe! não brinque com militar, hein? Não dá bom resultado…

Bom, esses duques, na corte de Versailles, não eram tratados como duques, nem como nada. Eram tratados como particulares, eles podiam entrar como qualquer um podia entrar, mas não eram reconhecidos. Há uma certa lógica nisto. Embora com este procedimento os legados forçassem quase os reis a um desrespeito para com o Papa.

(Sr. Poli: E com a nobreza também.)

Com a nobreza também é evidente. Uma coisa horrorosa.

Mas os duques de Avignon usavam os títulos de duque e sinais, etc., e certos burgueses católicos compravam o título de duque em Avignon.

Agora, a contradição. Na corte pontifícia, os duques não tinham categoria também. O que é que eles vendiam, então? É não é? Sabe como é, não é? Ahahah!… o Carlos Antúnez está meio nodoso! Dá nó!

É evidente.

(Dr. Edwaldo: Eles vendiam nada e pegavam o dinheiro.)

Pegavam o dinheiro. E não estou certo que algum deste dinheiro ia parar em Roma!? Entende? Bom, mas você quer ver agora o outro lado: isto feito na Itália é mais perdoável do que feito em outros lugares! Ahahah!! É preciso ver…

(Sr. Poli: Fato também pelo o qual o senhor não gostaria de morar na Itália.)

Não, eu não poderia… Ainda tem mais, para falar das coisas italianas. Eu só soube disto outro dia.

A república de San Marino, sabem o que é, não é? É uma república que tem tido inclusive presidentes comunistas. Vende título de nobreza até hoje na Itália. É dinheiro, não é? Eles não suprimem porque entra dinheiro no cofre da republiqueta, e com certezas os impostos são menos altos, porque vendem títulos de nobreza. Você chega lá e encontra na Itália um sujeito chamado, por exemplo, Conde Espada. O senhor não sabe se é da família Espada Pontezzianni, ou se é um Conde Espada nomeado assim pelo San Marino.

A nobreza verdadeira rejeita, mas ao cabo de cinco gerações de Conde Espada, o que você vai fazer? Quer dizer, é um achincalhe! Bom, mas naquela marmelada, a coisa… vocês dirão: “Mas o senhor se pudesse acabar com isso, acabava?”. Não… agora! Se eu pudesse eu telefonava para lá e proibia antes de dormir. Está proibido, não vende mais nenhum título! Depois saia um decreto caçando sem efeito os títulos que tivessem uma geração só. Porque se tivesse duas, a ordem natural já impediria.

Bom, meus caros, a nossa conversa foi muito singular, não foi do gênero habitual dos sábados à noite. Mas eu tive muita alegria em tê‑los aqui, e tenho que ir andando. Nesta noite eu fui dormir às 4:30 hs.!

Vamos rezar, então?…

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