Conversa
de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) –
22/9/1984 – Sábado [AC VII ‑ 9/84.14] – p.
Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 22/9/1984 — Sábado [AC VII ‑ 9/84.14]
Nome
anterior do arquivo:
A idéia do que é um príncipe: antes de tudo, um Católico, Apostólico e Romano na força do termo, com a capacidade de conferir sacralidade em tudo quanto toca, dando até certo ponto o caráter de relíquia, ainda que não seja um santo de altar * Do príncipe por excelência se espera que tudo quanto ele faça seja não só excelente, mas sublime * Separado do resto, ele deve ser uma espécie de vítima de holocausto, obrigado a uma perfeição que representa um sacrifício contínuo * É uma espécie de mediador através do qual todas as ações do homem, grandes ou comuns, crescem e se deiformizam * No papel do sacerdote, o sobrenatural e a graça é muito maior do que no príncipe, porque ele participa do poder das “chaves” — A graça é tão rica, que ela de algum modo age sem precisar tanto da pessoa do indivíduo que está agindo * Na ação do príncipe há uma filtragem da graça através de riquezas da natureza que lhe cabe valorizar — Porque são exteriores e palpáveis, impressionam o homem mais do que o impalpável da graça * Apesar de um sacerdote ter o poder de consagrar e ministrar os Sacramentos, no protocolo da Igreja os monarcas e príncipes ocupam posições superiores em uma cerimônia* A condição de nobre é um fator especial para a oração dele ser agradável a Deus, porque ele traz exatamente o oferecimento de toda a sua pessoa, e de toda a natureza adaptada e estilizada segundo a finalidade de Deus * Provavelmente, a dignidade que a pessoa teve aqui na Terra brilhará de maneira especial no Céu, embora menos que a santidade — A glória de mestre de São Tomás de Aquino
“… que esta capa, Dr. Plinio — ele não usou estas palavras assim, adira, que é uma palavra um pouco rebuscada, mas o pensamento dele era este —, adira a mim até o momento de minha morte”.
* Se não houvesse os êremos, a enjolrada provavelmente estaria afundada nas drogas e daí para fora…
Eu gostei do pedido dele, achei que estava bonito, ouviu? E também abençoei‑o de modo especial, etc., porque é bonito mesmo!
(Sr. Carlos Antúnez: O ofício também estava muito bonito.)
Muito bonito! Muito bem cantado, primoroso! Os eremitas com aquelas espadas, aquelas coisas, uma coisa de primeira ordem, ouviu? Gostei muito!
(Sr. RG: Foi uma coisa comovente.)
Emocionante, empolgante! Que bem isto faz para este meninos. Você já pensou RG; o que estariam fazendo estes meninos se não fosse isto? Por onde estava isto? Nem tem nome.
Começa por aí: droga, muito possivelmente. Assim, de cara! E daí para fora.
* A idéia do que é um príncipe: antes de tudo, um Católico, Apostólico e Romano na força do termo, com a capacidade de conferir sacralidade em tudo quanto toca, dando até certo ponto o caráter de relíquia, ainda que não seja um santo de altar
Bem, mas vamos aos nossos temas. Não sei se os meus pergunteiros me querem perguntar alguma coisa, o que há, o que é que dizem?
(Sr. Nelson Fragelli: Eu trouxe uma pergunta.)
Diga, meu Nelson!
(Sr. Nelson Fragelli: Numa conversa que tivemos aqui sobre o “tal enquanto tal”, o senhor dizia que a nobreza era o vaso mais excelente criado por Deus para conter a santidade. O senhor ressaltava a virtude da pureza, mais especialmente, num príncipe. E outra coisa foi que o senhor tem a representação…)
(…)
… muito gosto. Mas era preciso, aí, fazer o seguinte: em vez de eu imaginar a condição de príncipe, que foi já apresentada por uma porção de modelos ao longo da História, e que é meio inexaurível… quer dizer, é inesgotável a série de modalidades na qual a condição de príncipe pode se desdobrar; em vez de fazer isso, eu acho que seria melhor fazer uma outra coisa.
Nós, de todas estas condições, de todos estes modos de ser da condição de príncipe, nós temos uma noção que é uma espécie de soma, mais ou menos confusa, mas luminosa na cabeça. A tal ponto que, quando se diz “um príncipe”, se disse alguma coisa que todo mundo sabe o que quer dizer. E que é como uma espécie, eu volto a dizer, é como numa igreja, aonde há vitrais, os vitrais são muito bonitos, mas há uma luz difusa que paira na Igreja, que é uma amálgama das luzes de todos os vitrais, e que vê, não quem olha para os vitrais, mas quem olhar, por exemplo, o altar mor. Se consegue ver o altar mor, é porque tem luz. Qual é a luz? É que penetrou pelos vitrais, e vem com o colorido amalgamado de todos os vitrais.
Assim também nós poderíamos dizer da condição de príncipe. Príncipe na Espanha; príncipe na França; príncipe na Alemanha, na Inglaterra. Na Inglaterra, meu Carlos! em Portugal, e sei lá onde, sei lá onde, sei lá onde!… tudo toma matiz diferentes. E é desta idéia amalgamada da condição de príncipe que se forma uma idéia de principado, e toda a linguagem comum a respeito de príncipe:
Tem a educação de um príncipe, tem o porte de um príncipe. Ele teve um gesto de príncipe… Uma porção de coisas por onde a própria palavra “principal” parece meio derivado de principado.
E tem uma beleza, um suco extraordinário. Agora, o que nós deveríamos era mais tomar esta idéia de príncipe e expungi‑la dos equívocos com que a evolução errada da idéia, ao longo dos tempos modernos, do século XIX e do século XX, deformou a idéia. De maneira que, limpando a idéia das crostas que a Revolução colou nela, nós ficamos com melhor idéia do que é um príncipe. Aí nós teríamos conquistado alguma coisa, cuja descrição poderia representar um modo de atender mais ou menos o seu pedido.
Bem. E você deu bem no ponto, quando você falou da sacralidade. A primeira coisa para se ter bem a idéia do que é um príncipe, é imaginá‑lo sacral. Mas sacral não quer dizer… quer dizer, evidentemente, antes de tudo, um príncipe Católico, Apostólico Romano, e com espírito sobrenatural e, portanto, muito piedoso, muito devoto, enfim, um católico na força do termo. Mas, quer dizer uma coisa especial, que é a capacidade de conferir sacralidade, porque tocam na pessoa dele os objetos comuns da vida temporal.
De maneira que, de algum modo, há uma função sacralizante do príncipe, que é uma função especial. De tal maneira ele é sacral, que tudo quanto ele toca, toma até certo ponto, ainda que ele não seja um santo de altar, toma o caráter de relíquia. E assim é que o povo trata as coisas que pertenceram ao príncipe. Por exemplo, uma caneta que era usada por D. Pedro II, qualquer um de nós guardaria. Mas não é só qualquer um de nós. É qualquer um por aí…
Num antiquário, uma caneta comprovadamente foi usada por D. Pedro II, se compraria, está acabado.
* Fatinho: um neto de D. Pedro II, oficial da marinha, quando da proclamação da República, foi destituído do seu cargo e seus pertences foram distribuídos como “relíquias” para os marinheiros de sua embarcação
D. Pedro II teve dois netos, que são de filhos de uma filha dele que morreu. Ele tinha duas filhas: a Princesa Isabel que era casada com o conde D’Eu, da casa real da França, e um príncipe, e uma outra princesa chamada Da. Leopoldina, que foi casada com um Duque de Saxe, alemão. Ela foi morar na Alemanha, e morreu lá.
E os filhos ficaram no Brasil para serem educados por D. Pedro II.
Eles, com a proclamação da República, embarcaram no navio Alagoas, com o resto da família imperial, e levaram a vida deles na Europa. Um ficou louco, e parece que ficou louco com a proclamação da República. Eu acho que era o mais consciente e mais lúcido dos membros da família imperial daquele tempo. Bem, e o outro viveu na Europa, teve descendentes… Eu até conheci um desses descendentes que andou pelo Brasil. Andou muito pelo Rio, você talvez tenha conhecido, o Lamoral…
(Sr. Nelson Fragelli: Não senhor.)
Lamoral Tasso de Saxe. Ele era filho de uma filha deste homem, deste príncipe, casada com um barãozinho italiano, de Lamoral. Enfim, era um rapaz inteligente, e agradável de trato.
Eu conheci mais ou menos, com uma certa intimidade até. Convidou‑me para o casamento dele aqui. Casou com a filha de um banqueiro, um tal Pais de Almeida. Depois divorciaram… toda uma história…
Em condições que eu não sei como explicar, parece que conseguiu a anulação do casamento dele no Vaticano, acho muito esquisito, e casou‑se com uma Habsburgo. E sumiu para a Europa, não tive mais contato com ele.
Mas com os objetos desses príncipes, esses objetos que eles não tiveram nenhuma relação com a história do Brasil. Foram para a Europa mocinhos. Os objetos desses príncipes, todo mundo guardaria como relíquia. E a prova disso é o seguinte. O irmão que ficou louco, parece que se chamava D. Pedro Augusto, uma coisa assim, estava num navio de guerra brasileiro, estava num navio fazendo uma tournée, estava na Índia. Quando veio a notícia da proclamação da República, o comandante do navio — ele era oficial da Marinha, ele — telegrafou para o governo provisório, perguntando o que devia fazer dele.
E a resposta veio, que era considerá‑lo expulso da Marinha, e desembarcá‑lo no primeiro porto da Índia. Uma coisa que não tem qualificativos. O pai dele era muito rico, e ele tinha possibilidade de mandar vir dinheiro da Áustria, onde o pai dele morava. Mas a questão é que não se deixa um rapaz assim… ainda mais na Índia daquele tempo, expulso… bem.
Quando chegou a decisão do governo provisório, causou indignação à bordo! A começar pelo próprio comandante. Ele teve que distribuir de presente, todos, todos os objetos dele, como lembrança para a tripulação. Aqui eu quero chegar.
Eu não sei se eu torno claro o seguinte: um ministro de uma República, ninguém ia pedir para ele… nem passava pela cabeça, não percamos tempo…
Mas um príncipe que não era senão um oficial, colega deles. D. Bertrand, na Faculdade de Direito, todo mundo tratava de príncipe, não é? “Príncipe, príncipe, príncipe…”. Muito brasileiramente, príncipe e você não é? Mas todo mundo… é como se fosse príncipe.
* Do príncipe por excelência se espera que tudo quanto ele faça seja não só excelente, mas sublime
Quer dizer, o principado marca de uma nota que confere assim uma espécie de sacralidade. E o próprio desta sacralidade é o seguinte:
Ele é um homem pela ordem natural das coisas concebida enquanto voz de Deus, chamado para ser separado de todos os outros e colocado acima dos outros. Com encargos mais pesados e com direitos maiores. E com uma função de modelo, que vale muito mais do que a função de guia. Do príncipe por excelência se espera que ele seja um modelo. Tudo o que ele faz tem que ser modelar.
Quer dizer, se um príncipe não bebe água direito na mesa, é um desapontamento, porque tudo o que se espera dele é modelar. E se espera dele uma espécie de perfeição em tudo o que ele faz, que sacraliza aquilo que ele faz. Porque eleva o mais banal dos seus atos a um grau de sublimidade. Ele deve fazer, não só excelentemente, mas sublimimente tudo quanto ele faz.
* Separado do resto, ele deve ser uma espécie de vítima de holocausto, obrigado a uma perfeição que representa um sacrifício contínuo
(Sr. Carlos Antúnez: O papel dele é “ser”, não?)
Exatamente. Ele deve, em todas as coisas, ser modelo. Aí é que está o sentido que o Carlos dá à palavra ser, ele deve ser modelo em tudo. Mas um modelo de sublimidade. De maneira que ele não faça uma coisa que não seja sublime.
Não sei se vocês vêem que ele fica como uma espécie de vítima de holocausto, separada do resto, e obrigado a uma perfeição, que quem não for completamente um tonto, percebe que é uma perfeição que representa um sacrifício contínuo.
E espera‑se dele, também, o holocausto. Quer dizer, havendo um risco, o primeiro a correr o risco é ele. E a primeira vida a ser imolada é a dele. É assim!
(Sr. Carlos Antúnez: Muito bonito!)
* É uma espécie de mediador através do qual todas as ações do homem, grandes ou comuns, crescem e se deiformizam
É lindo! Mas é assim. Isto caracteriza uma situação que não se pode chamar de sacerdócio, porque não é o sacerdócio. O sacerdócio só existe o da nova Lei, instituído por Nosso Senhor, mas é uma situação de ponte, de por assim dizer, através dele, ele é uma espécie de mediador, através do qual todas as ações do homem, grandes ou comuns, crescem e se deiformizam. Ser sublime é ser deiforme. E a semelhança que as coisas devem ter com Deus, ele as deve acentuar em tudo quanto ele faz, continuamente. E nesse seguinte sentido, ele é uma ponte entre a ordem temporal e Deus.
(Dr. Edwaldo: O voto mais difícil é o voto de perfeição. Ele não tem voto de perfeição, mas tem que ser naturalmente assim.)
Tem que ser naturalmente assim, exige isto dele. E quando ele não é assim, está rejeitado. Bem, que faz dele um ente ordenado a Deus, pelo sacrifício, para a glória, e para o prazer. Mas, note agora o prazer, hein? É recusado a ele o prazer comum do tamanho do próprio homem!
Nós conhecemos este prazer, o prazer da própria intimidade, da própria privacy e de ter coisas aconchegadas, íntimas, em que o homem se sinta só ele mesmo, isto ele não pode ter.
Não sei se lembram das fotografias daquela… do quarto de Maria Antonieta, que foi recomposto com verdadeiras sedas de Lyon, ordenadas pelo governo da República, à maneira dos padrões que estavam lá no tempo da monarquia. Uma coisa fantástica!
Um altar! Mas, Luís XVI e Maria Antonieta, não dormiam mais nos quartos de aparato, eles dormiam em quartinhos íntimos, e de manhã se levantavam e iam para o quarto de aparato, para receberem os nobres que iam entrar. Eles estavam apostatando da condição de reis.
Porque o rei não tem isso. Ele deve dormir numa cama que tem ar de altar. Ele é vítima, e ele deve viver no fausto e na suntuosidade, e aos olhos de todos, ainda que ele tenha apetência do contrário.
* No papel do sacerdote, o sobrenatural e a graça é muito maior do que no príncipe, porque ele participa do poder das “chaves” — A graça é tão rica, que ela de algum modo age sem precisar tanto da pessoa do indivíduo que está agindo
(Sr. Nelson Fragelli: Há qualquer coisa no príncipe que é próprio dele um “éclat” diferente do clero…)
É diferente do clero.
(Sr. Nelson Fragelli: Mas o dele arrasta mais. O príncipe está no salão, está na guerra, etc… Porque se dá isto! O clero é chamado mais para a virtude, mas o príncipe é chamado ao brilho.)
É que as coisas… Vamos dizer assim. É um paradoxo, mas assim, respondendo à primeira vista a sua pergunta, eu me tenho várias vezes posto a pergunta, e não tenho conseguido resolvê‑la. Eu dou um pouco de solução, não é uma solução, portanto. A gente diria o seguinte:
No papel do sacerdote, o papel do sobrenatural e da graça é muito maior do que o do príncipe. Ele participa do poder das chaves, e ele é um sacerdos, auter Christus. E a graça, por assim dizer, ela é tão, tão rica, que ela de algum modo age sem precisar tanto da pessoa do indivíduo que está agindo.
A exterioridade do hábito, dos modos, do jeito de ser do indivíduo, quando ele tem esses modos de ser, é magnífico. Mas quando ele não tem, a coisa vai. Exemplo, Cardeal Merry del Val. Ele como cardeal ficou principesco, porque o cardeal é propriamente um príncipe. Mas nós podemos conceber, e houve muitos cardeais que não tinham aquele jeito principesco do cardeal, que teve o Cardeal Merry del Val. Aquilo era uma coisa que lhe ficava bem, lhe ornava.
Mas, de um eclesiástico se pede um outro chamado, muito mais profundo. Você disse isto, aliás há pouco, que toca muito mais a alma, a leva muito mais para cima, mas que está menos dependendo das exterioridades.
* Na ação do príncipe há uma filtragem da graça através de riquezas da natureza que lhe cabe valorizar — Porque são exteriores e palpáveis, impressionam o homem mais do que o impalpável da graça
Pelo contrário, na ação do príncipe há uma filtragem da graça. Mas esta filtragem da graça dá‑se através de riquezas da natureza, que cabe a ele valorizar. E estas riquezas da natureza, porque são exteriores e palpáveis, impressionam o homem mais, do que as coisas impalpáveis da graça.
Uma resposta correria mais ou menos por aí. Então, há santos que têm atraído atrás de si multidões, mas não é todo santo. São santos que Nossa Senhora destinou a isto. Há santos que passam por esta Terra, relativamente desconhecidos, e que são valorizados, cumpriram a sua missão, etc…
Um verdadeiro príncipe não! Onde ele está, ele… ele cria uma situação…
Mas, por quê? Porque a filtragem da graça, a graça que filtra é menor, mas resplandece muito mais em coisas que o homem é mais sensível. É a explicação que me parece encontrar.
* Apesar de um sacerdote ter o poder de consagrar e ministrar os Sacramentos, no protocolo da Igreja os monarcas e príncipes ocupam posições superiores em uma cerimônia
Agora, há um outro lado aqui, que eu também tenho me perguntado muito sem encontrar propriamente uma explicação.
É o seguinte: O príncipe… Não, vamos dizer assim:
No protocolo da Igreja, pareceria que no rigor das coisas, o príncipe… Não.
Qualquer sacerdote deveria ser mais do que um monarca. Porque aquele que tem o poder de exercer o ministério, com aquela união com Nosso Senhor Jesus Cristo, tem o poder de celebrar; tem o poder de absolver; etc., este parece, este é mais do que um rei.
Está bom. No protocolo da Igreja, o sacerdote que constitui a primeira classe social, na ordem do protocolo ele fica muito abaixo do príncipe. Então, por exemplo, numa procissão do Santíssimo Sacramento, o príncipe deve ir junto com o bispo, ou o cardeal que carrega o Santíssimo, ele deve ir junto, debaixo do pálio. E os sacerdotes formam lá longe, uma longa coorte de padres de sobrepeliz, etc… Vão cantando. O sacerdote não vai até lá.
Nas cerimônias litúrgicas as honras concedidas, atribuídas ao monarca, e conforme for ao príncipe, são maiores do que simplesmente ao sacerdote, exceto ao oficiante. De maneira que fica‑se sem saber bem o que dizer.
(…)
… natural, que é prestigiada, realçada, e levada a outra ordem por um carisma. Seria mais ou menos como o Sacramento do Matrimônio em relação ao matrimônio. O matrimônio é um contrato natural. Mas é um sacramento entre católicos. O caráter sacramental dado a uma coisa que tem sua realidade natural, eleva vertiginosamente. Então, há qualquer coisa assim no carisma do príncipe.
* Um príncipe ou um bispo prevaricadores são aqueles cujas vidas estão repletas de delícias
(Sr. Carlos Antúnez: Agora, esse carisma como que se perde quando o príncipe é infiel, não é?)
Não é tão simples, ouviu?
(…)
É uma condição que o príncipe deve ter, depois, como corolário da sacralidade, apagar a idéia tonta de que a vida do príncipe é feita para as delícias. Seria tão tonto quanto achar que a vida de um bispo constantiniano era feita para as delícias.
Não é. Por honra, ele era cercado de delícias. Por exemplo, eu via muitas vezes, chegar, por exemplo comida — uma comida horrível — que as freiras dos vários conventos faziam para D. Sigaud.
Mandavam suspiros, e isto e aquilo, aquilo outro.
Eu me lembro uma vez, eu estava morto de fome, e a comida era horrorosa lá, e entrou um franguinho mandado por umas freiras, todo espetado com azeitonas, assadinho e espetado com azeitonas. O franguinho entrou lá e o meu coração voou para o franguinho. D. Sigaud olhou e disse: “Mande guardar lá na geladeira…”.
Bem, mas a vida dos bispos é feita para… Vamos dizer, por exemplo… eu digo, para mim a palavra não tem nada de depreciativo, uma beata que faça, por exemplo, um par de chinelos para o bispo, porque soube que os chinelos do bispo estão se desgastando, procura fazer chinelos deliciosos, pela idéia de que o bispo tem uma condição sacral. E o bispo tem uma pompa, tem toda uma série de condições, que torna a vida dele mais agradável que a de um vigário.
Mas se ele toma a sério a sua função, é uma vida muito mais pesada que a do vigário. Então, a vida de príncipe, como uma vida de delicias, é uma vida para o príncipe prevaricador, como é para o bispo prevaricador. Não sei se está claro? Então, era preciso dépayser aí o conceito de príncipe, nestes dois lados.
É bem exatamente o que tem e não tem o príncipe inglês. Porque levou uma vida agradável, de folia, mas constantemente tão esticado, tão aprumado, tão vestido, e tão obrigado a fazer eximiamente o que faz, que qualquer um que veja um pouco, percebe que é uma vida de sacrifício.
Para a gente ter um pouco uma idéia disso, é muito ilustrativo pegar as fotografias da Índia dos marajás, e ver aqueles marajás com trajes muito bonitos, jóias magníficas, mas uma falta completa de maintien. Uns cafajestes da rua, era o que eles eram. Bem, estes gozavam a vida mais do que o príncipe. Continuamente esticado. É verdade que no príncipe, isto se transforma numa segunda natureza, como para nós a educação que nós temos se transforma numa segunda natureza. É verdade. Mas é até certo ponto.
(Dr. Edwaldo: Aquele rei da Inglaterra que o senhor comentou várias vezes, que fazia tocar o hino da Inglaterra no final do dia…)
Jorge V. Antes de dormir ele ouvia… Ele tinha vitrola, o que já é uma baixa de nível. Mas, ele tocava na vitrola, ele mesmo, o God save the King que ele ouvia em atitude de garde à vous, e a rainha com as mãos postas. Depois, então, os dois iam dormir! Quer dizer muito!
* A condição de nobre é um fator especial para a oração dele ser agradável a Deus, porque ele traz exatamente o oferecimento de toda a sua pessoa, e de toda a natureza adaptada e estilizada segundo a finalidade de Deus
(Sr. Nelson Fragelli: Eu digo uma coisa que para mim estas Conversas de Sábados à Noite têm muito mais do que uma intimidade de doutrinas, tem uma intimidade de almas. E eu confesso que nesta linha do “tal enquanto tal”, eu quando entrei no Grupo nunca me perguntei se o senhor era de boa família ou não. Mas, quando eu presenciei certas cerimônias na Sede do Reino de Maria, na Rua Pará, eu vi o senhor rezando, me veio logo ao espírito: “Ele é nobre! “. Quando o senhor reza, algo no senhor brilha, rebrilha… Olhe, que eu vi o senhor comendo à mesa…)
Eu não como bem à mesa…
(Sr. Nelson Fragelli: Não! Eu acho que o senhor come perfeitamente. Mas eu já tenho visto o senhor em mil situações, mas diante de Nosso Senhor, as posições das mãos do senhor, o modo do senhor se dirigir a Ele, vem isto ao espírito: “Tem que ser agradável a Deus a oração de um nobre. E como ela tem que agradar mais do que a de um que não é nobre, ainda que bem feita”. Outra coisa muito tocante, é o modo como o senhor põe as mãos nas flores, quando apresentam para o senhor. É indescritível!
O senhor poderia mostrar no Grupo como é o aspecto desta junção? E se esta idéia é verdadeira, de que uma oração de nobre é mais agradável a Deus, porque é a impressão que se tem.)
É. A impressão não é a seguinte. Tratando de explicitá‑la, “despersonificando” de mim, tomando em tese.
Não é a seguinte: necessariamente todos os nobres oferecem a Deus uma oração mais agradável do que o que não é nobre. Isto não é verdade. Cura d’Ars, tá tá tá, enfim… milhões de casos indicam o contrário. Depende do grau de amor que a graça põe na alma da pessoa, e que a pessoa corresponda.
Mas o que se pode dizer é outra coisa. É que a condição de nobre, de si, é um fator especial para a oração dele ser agradável a Deus, que não é um fator insuperável, outras condições podem superar, mas de si é um fator especialmente agradável a Deus.
Por quê? Porque um nobre traz exatamente o oferecimento de toda a sua pessoa, e a bem dizer de toda a natureza adaptada e estilizada segundo a finalidade de Deus. E Deus ama a natureza.
Ele ama mais a Igreja do que a natureza, mas ele ama também a natureza.
E para dar uma idéia mais ou menos assim, você pode imaginar uma igreja que seja uma vaso de graças, e que seja uma igrejinha tosca. Está bem, mas uma igreja de um alto valor cultural, efetivamente religioso, nisto, ela tem algo que agrada a Deus muito especialmente, embora se possa compreender que numa igrejinha tosca pode haver mais graças. Porque é um conjunto de valores naturais postos à serviço do sobrenatural, e que são ocasiões para o sobrenatural brilhar especialmente.
Não sei se eu exprimo bem?…
* Provavelmente, a dignidade que a pessoa teve aqui na Terra brilhará de maneira especial no Céu, embora menos que a santidade — A glória de mestre de São Tomás de Aquino
(Sr. Poli: O senhor vê alguma relação nessa linha, entre o que a pessoa foi na Terra e o que será no Céu? Luís XIV, por exemplo, se ele foi para o Céu, como seria a situação dele? Nesta Terra ele foi o rei sol. No Céu qual seria a situação dele?)
Eu dou uma coisa do outro lado, a gente vê bem. Segundo eu imagino, o mestrado, quer dizer, a condição de mestre, de professor, ainda mais quando não se trata de um catedraticozinho qualquer, de Universidade, mas é um homem que lecionou, e que no mundo do pensamento abriu uma outra era, etc… Este homem tem uma dignidade especial. Esta dignidade brilha em São Tomás de Aquino como em ninguém.
Agora, no Céu, ele tem só a glória do santo? Ou ele também tem a glória do mestre, que foi santo? O mestrado brilha nele de modo especial no Céu, sim ou não? A resposta parece afirmativa! Agora, se é para o mestre, porque não é para o guerreiro ou para o príncipe? Porque são condições temporais.
Você me dirá: “Bom, mas ele era mestre de Teologia”.
Presto minha reverência a isto, não tem dúvida. Mas ali é condição de mestre, não é de teólogo. Ele não foi apenas um enormíssimo teólogo, mas ele foi um mestre. Agora, então, enquanto mestre, a pergunta é: não brilha nele algo de especial no Céu?
Aquela homenagem que São Domingos Sávio e os outros salesianos prestaram a São João Bosco. Ali tinha alguma coisa que era de ex‑aluno com professor. Se isto… são relações na Terra que, praticadas santamente, no Céu hão de ter um certo reflexo.
Suponho… salvo melioris iudicium. Suponho.
(Sr. Poli: A graça não destrói a natureza.)
Parece. Eu seria levado… que a graça não destrói a natureza é certo, caso contrário, eleva e dignifica. Mas a questão não é esta. Será que naquela ordem estas coisas se contam, em virtude de outros valores incomparavelmente mais altos? Este é o problema. Eu sou levado a imaginar que sim. De um brilho muito menor do que a santidade, é uma outra questão, mas eu sou levado a achar que sim.
* Graças que a Providência distribui para gentinha que tem contato com o Grupo, e que não dá para banqueiros e até pessoas da mesma igualha
Mas, meu RG, eu queria perguntar uma coisa de uma ordem muito diferente para você. O que é que você achou daquela reunião lá dos Correspondentes‑Esclarecedores? Não da reunião que eu fiz, do conjunto.
(Sr. RG: A de ontem?)
Não, não! Lá no Praesto Sum, durante a semana. Eu acho que você estava trabalhando com o Átila não foi.
(Sr. RG: O senhor me desculpe, mas eu fiquei um pouco desconcertado com a pergunta.)
Não, é porque eu estava querendo ver um pouco o que é que você…
(Sr. Nelson Fragelli: Ele me contou alguma coisa…)
Diga Nelson!
(Sr. Nelson Fragelli: Que as pessoas mudaram completamente depois daquela reunião: compreenderam mais alguma coisa. Que a vida exige mais sacrifício, etc… E um jovem compreendeu tanto, que depois procurou o Sr. RG, dizendo que precisava se dedicar mais, etc., inclusive em contribuição financeira.)
Eu não conheci a eles sem a minha presença. Eu só conheci a eles na minha presença. Portanto, na presença de uma pessoa muito mais velha, e que a este título se faz respeitar por eles.
Agora, eu fico… eu não estava pensando nisto. Eu estava pensando era propriamente… daquele conjunto de pessoas, eu acho que vocês raramente reúnem um conjunto daquele jeito, não é? Cada um tem ali o seu grupo, não é? Eles reunidos, que efeito fazem?
Mas já que se trata disso, vamos fazer uma pergunta prática, mas vamos ver? Você acha que se eu conseguisse dar, durante uns meses, um pouco mais de tempo para eles, aquilo subia de categoria, ou não?
(Sr. RG: A impressão que dá, Sr. Dr. Plinio, é que nós estamos tratando com o público errado. Que sejam gente simples, mas era preciso ter mais horizontes, mais qualidade de alma…)
(…)
(Sr. RG: […] Mas a graça vem e visita a eles.)
Bem, mas veja bem, hein, meu filho! Visita a eles, e acho que não visita a outros.
(Sr. Poli: Banqueiro não visita.)
Banqueiro não visita. E mesmo entre eles, da igualha deles, não é qualquer um. Visita aqueles com quem vocês estão. Vocês são portadores, representam a TFP, e a graça os visita assim.
E vocês precisariam… eu acho que é uma coisa que precisaria ser dita aos nossos, no momento oportuno, sobre… compreender melhor a ação sobrenatural que, sem perceber, desenvolvem. [Vira a fita]
Mas procure ouvir a fita. Porque…
(…)
* Esperanças de que o apostolado com o público em geral cresça…
(Sr. Marcos Fiúza: Aquilo que o senhor falava na reunião de hoje, sobre os polos da Direita e da Esquerda, o que falta para este apostolado é isto…)
É isto. Por exemplo, o negócio do polo. Você relaciona a doutrina do polo, e do polo vazio, você relaciona a doutrina deste polo com a cabeça deles. Na cabeça deles, este polo vazio é objeto de uma acolhida com simpatia. Basta isto, para esperanças serem possíveis, esperanças de que algo se transforme em muito mais do que a gente pensa.
(Dr. Edwaldo: Jornal falado de ontem foi muito eloqüente neste sentido, sobre o Piauí.)
O Piauí é um caso especial. O Piauí a gente tem que mandar um, com sacrifício para outros apostolados, uma coorte de gente assim de uns 25 anos para 30, dá um impacto no PI e levantar aquilo de perna para o ar! Tem que ser! Aquilo foi uma revelação!
* O Sr. Dr. Plinio levanta o problema, para ser estudado, de como através de aulas de catecismo chegar-se a tocar na temática Revolução com pessoas de até 50 anos
Bem, voltando aqui ao nosso caso, se eu tivesse tempo — “se eu tivesse tempo” equivale a dizer: “espero encontrar tempo” —, numa conversa talvez menor com você, com Plinio Xavier, vamos dizer por exemplo, Dumas, talvez o Glavan, entende, alguns assim, mas numa conversa extra oficial, expressar muito mais isto.
(Sr. RG: Sinto até uma necessidade disso. Porque aquilo que o Frei Boff disse de que a religião Católica, dentro de sessenta anos não será mais a religião oficial do Brasil; pelo contato que eu tenho com este povinho, acho perfeitamente real. O surto de protestantes no Brasil, entre o povinho é colossal, muito mais dinâmico do que o catolicismo. O povinho não tem mais noção do que seja a Igreja Católica.)
Mas é uma pergunta para pôr, exatamente é esta. O que viria à cabeça, era dar a eles uma aula de catecismo. Bem, mas se for dar, primeiro ponto… se for dar aula de catecismo, assim tout court! dá trombada com o padre. Porque existem os privilégios canônicos sobre aulas de catecismo.
Em segundo lugar, que é coisa muito importante, aula de catecismo os empurra por cima dos progressistas. E finalmente, na aula de catecismo, as coisas contra‑revolucionárias eles não ouvem. Então, o caminho seria o caminho do que é que se dá com estes enjolras. Eles entram exatamente neste estado religioso que você diz. Mas há um ponto por onde se apresenta a Contra‑Revolução para eles, por onde eles depois tomam a Fé Católica.
Como apresentar isto para eles.
(Sr. RG: Exatamente, como? Porque não são enjolras de quinze, mas são pessoas de até cinqüenta anos.)
A questão é a seguinte. É como é que… o pessoalzinho mais novo sente o apelo devorador da Revolução, e alguma coisa neles às vezes reage. Este pessoal que eu vi outro dia lá, não sente o apelo devorador da Revolução, eles, até certo ponto estagnaram. E não têm nem um pouco medo de que os filhos deles caiam na Revolução.
Bom, eles acham, todos eles que estão lá acham duas coisas contraditórias sobre os filhos. Primeiro lugar que são caso perdido, não tem solução. E outro, que muitas vezes uma coisa acompanha a outra, não é tão terrível assim.
(Sr. Poli: Não é tão terrível perdê‑los, não é? Todo mundo está se perdendo mesmo…)
Todo mundo está se perdendo mesmo, o que é que tem?
Entende? Agora, o problema chave era como levantar com eles o problema Revolução. Ai vem o resto, vem a aula de catecismo, etc… Você imagina se fosse pegar estes rapazinhos da Saúde e começar pela aula de catecismo, para depois falar da Revolução. Dava num cursinho de…
Nem sei.
Isto que era preciso pegar ali. Mas tudo isso era preciso ser muito conversado, muito analisado, sob pena de nós não estarmos fazendo nada. Bem, e sendo que, se nós lançássemos uma coisa com capacidade de êxito neste ponto, nós poderíamos fazer muito, inclusive pelo estado de abandono em que está essa gente. Não é?
Bom, conclusão disto para hoje à noite: é ver o que se poderia fazer…
(…)
… é outro mundo, é outro mundo.
(Sr. RG: Enquanto povo é desesperador. Não são só as elites que são ruins, não.)
Agora, você veja a coisa como é…
(…)
(Sr. Nelson Fragelli:”Fugit irreparabile Dominus”…)
Ahahah!
“Há momentos minha Mãe, em que minha alma se sente no que tem de mais fundo…”.
*_*_*_*_*