Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) – 11/8/84 – Sábado [AC VII - 8/84.11] – p. 11 de 11

Conversa de Sábado à Noite (Alagoas, 1º andar) — 11/8/84 — Sábado [AC VII - 8/84.11]

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As cogitações e os sofrimentos do Sr. Dr. Plinio nos últimos meses * Dar o sangue nas mais pequenas coisas * No caso do Paulo Maurício, Nossa Senhora quis permitir um apuro de verter sangue, mas interveio quase milagrosamente * Nossa Senhora quis habituar a conservar a paz de alma diante das hipóteses mais negras e com a cabeça mais cansada possível * Pelo silêncio da Estrutura temos a aprovação da doutrina do Sr. Dr. Plinio * Afirmamos que a Estrutura não é mais Igreja, mas o Sr. Dr. Plinio não tem tanta certeza disso * Sendo a Igreja uma sociedade visível, a autenticidade de suas autoridades não pode depender de fatos invisíveis * O sumo cuidado que o Sr. Dr. Plinio tem em manobrar não o impede de afirmar: “Uma coisa para mim é claríssima: eles estão destruindo a Igreja” * Como o Sr. Dr. Plinio sente a fidelidade do Grupo nas atuais circunstâncias * Uma subfidelidade com dois efeitos: facilmente redunda em queixa contra o Fundador, e o não compreender bem a grandeza de nossa missão * “Se eu tenho um feitio, uma fisionomia moral que corresponde à minha missão, eu não sei como é que se pode amar a missão e não amar essa fisionomia moral”

Não sei se vocês participam da primeira parte da minha afirmação.

(Sr. –: Sim, senhor, inteiramente.)

(Sr. Carlos Antúnez: Casa da Sra. Da. Lucilia.)

É, exatamente, de vez em quando tem sua razão de ser.

E agora ponham as perguntas, chegou a vez das perguntas.

(Sr. Nelson Fragelli: Tem uma intimidade aqui, não?)

É isso sim.

(Sr. Guerreiro: Estou sem capa porque minha capa sofreu um acidente e está fora de uso. E aquisição de nova não é muito fácil.)

Não tem dúvida.

Você quer que eu faça alguma insistência para que a capa saia logo?

(Sr. Guerreiro: Não se incomode, Sr. Dr. Plinio, é apenas uma explicação.)

Então, quem é que faz uma pergunta? Quem vem de mais longe?

Eu vi fazer uma pergunta engraçada. Eu vi ele perguntar baixinho para o Fernando Antúnez o que era o porta-retrato de prata novo que tinha sobre minha escrivaninha. Quer dizer que ele se lembra de todos os objetos que estão ali… ahahah!

(Sr. Carlos Antúnez: Vivo pensando nisso…)

Ahahah!

* As cogitações e os sofrimentos do Sr. Dr. Plinio nos últimos meses

Então, tinha alguma pergunta, meu filho?

Eu sei que uma noite passada em claro como você teve não favorece novas perguntas, mas, enfim…

(Sr. Carlos Antúnez: A pergunta de uma pessoa que passou onze meses longe do senhor, é querer saber um pouco quais têm sido cogitações, sofrimentos do senhor durante esse tempo. Como o senhor prevê que vai se apresentar o futuro…)

(…)

imediata sem graça e premente foi todo esse caso de D. Mayer. O caso de D. Mayer deu‑se em novembro, mais ou menos, do ano passado.

Depois essa fileira de fatos, caso do Fedeli, essas coisas todas que deram muita preocupação, sem falar de outros casos colaterais cuisant.

Um deles foi do Paulo Maurício, que foi…

(…)

* Dar o sangue nas mais pequenas coisas

(Sr. Paulo Henrique: … crises no Brasil, que um enjolras subisse com um prego e martelo e pregasse um prego bem grande, com batidas, tudo, no local da crise. Quer dizer, não houve uma coisinha que não foi prevista, estudada pelo senhor.)

Mas em reuniões muito cordiais, muito simples…

(Sr. Paulo Henrique: O senhor trabalhou mais do que todos.)

Se fosse isso, não era nada.

É que a gente tem que ficar o tempo inteiro, desde a primeira conferência até o fim, com o panorama daquela gente na cabeça e ouvindo repercussões que chegam, grandes ou pequenas, para compreender como é que está evoluindo, porque tudo tem que ir se adaptando a essa evolução. Se não for isso, acaba sendo como uma luva que não serve para a mão. E todos saem frustrados.

Por exemplo, a menor das coisas: como agir com a delegação espanhola, é preciso ou não dar uma audiência especial à delegação espanhola quando não foi dada à delegação norte‑americana?

A delegação norte‑americana, muito mais numerosa, muito mais rica, muito mais habituada a ser bem tratada — é regra da vida —, tão numerosa que enchia a sala de São Luís Grignion, a delegação norte‑americana queria fazer perguntas, mas era uma coisa, um simpósio paralelo que eles queriam. Foi reduzida a uma reunião e nessa reunião cada um só pôde fazer uma pergunta. E muitos não puderam fazer nenhuma pergunta, passavam e cumprimentavam apenas.

Com a delegação espanhola menos numerosa, sabem o jeito de espanhol, foi preciso dar deles perguntarem à vontade, e a Da. de Los Paños dizer o que queria… nós conhecemos. Quer‑se muito bem a eles, nós conhecemos o jeitão deles.

Até que ponto se pode conceder, até que ponto não pode, isso, aquilo, etc.

Notei sentado numa cadeira ao lado, com ar de superioridade, uma senhora um pouco mais bem vestida, com uma filha também um pouco mais bem vestida, que estava se mantendo alheia.

Eu digo: “Essa senhora não é qualquer uma. Eu não sei quem ela é, mas é mais qualquer coisa. Preciso começar a dar atenção a essa senhora”.

Começo a dar atenção. No fim soube que era uma tal Condessa de San Isidrio que não sei o quê, não sei o quê. Isso tudo cansa a cabeça.

* No caso do Paulo Maurício, Nossa Senhora quis permitir um apuro de verter sangue, mas interveio quase milagrosamente

No meio disso aparece o caso do Paulo Maurício. Nossa Senhora quis permitir — não quis que ele fizesse, mas quis permitir — que o pai fizesse essa ameaça horrorosa. Mas também Ela quis permitir que o Paulo Maurício aparecesse na Pça. do Saldanha. E, mais ainda, que dentro de toda apostasia dele, ele tivesse o mínimo de graça para, pego pelo Pedro Paulo, no dia seguinte se apresentar na sede.

(…)

Quer dizer, Nossa Senhora quis permitir um apuro de verter sangue, mas Ela quis intervir quase milagrosamente.

Eu perguntei ao Pedro Paulo:

O tal Saldanha é um lugar onde se costuma passar, onde você costuma ir, onde o Paulo Maurício costuma ir?

Não, é um lugar qualquer de Lisboa. Eu estava passando por lá e encontrei com ele.

(Sr. Carlos Antúnez: Um milagre.)

Um milagre.

(Sr. Paulo Henrique: Passou uns dez, quinze dias sumido.)

Pelo menos uns dez dias. Mas acho que mais, uns doze, talvez quinze.

* Nossa Senhora quis habituar a conservar a paz de alma diante das hipóteses mais negras e com a cabeça mais cansada possível

Então, o que Nossa Senhora quis? Habituar a conservar a paz de alma diante das hipóteses mais negras e com a cabeça mais cansada possível.

(Sr. Guerreiro: Essa é a conclusão que se tira do caso?)

É essa. E mais ainda: Ela quis para eu poder contar a vocês.

(Sr. Nelson Fragelli: Temos que agradecer isso a Ela, muito.)

Tem que agradecer, porque Ela quis para eu poder contar isso a vocês. Digo mais: em certo sentido a vocês individualmente, porque isso tem outra força cogente contado numa roda aqui do que no auditório. Ainda mais para nós brasileiros, sabe‑se como é.

O que é contado numa prosa tem outra ação.

E o Carlos se embrasileirou muito, não é?

(Sr. Nelson Fragelli: Internamente com o senhor, em toda paz de alma… propriamente o que foi a aflição que o senhor teve? Ou se é essa palavra que se usa.)

É aflição, aflição. Angústia.

(Sr. Nelson Fragelli: Mas a paz de alma não a apaga?)

É a questão seguinte:

Você veja um problema. É um problema interior, mas veja qual é o problema. Para conservar a paz de alma nessas situações, a gente tem obrigação… primeiro tem obrigação de conservar a paz de alma, porque inclusive eu tenho obrigação com minha própria saúde, por causa do Grupo. E eu não estou com 15 anos, muito longe disso. Então eu quase diria que a primeira obrigação é conservar a paz de alma, porque se eu morrer, o trauma no Grupo é um trauma mais difícil de compensar do que qualquer mal que faça o Paulo Maurício. Portanto, eu não tenho o direito de me deixar embarcar na enxurrada da morte, como um outro por aí podia fazer. Talvez teria direito, era um caso moral para estudar.

Então, para conservar isto, num caso tão aflitivo, a única saída é não pensar; porque, pensando, as águas da aflição sobem, e é inevitável.

Mas, de outro lado, para poder andar direito no caso é preciso pensar. E precisa pensar não pouco.

(Sr. Nelson Fragelli: E então?)

Tem a graça de Genazzano, é verdade. Mas essa graça tem isso de particular: que quando ela se torna insensível, ela pesa pouco para a alma. E eu estava num estado de insensibilidade total em relação a essa graça.

Então, pensar em toda medida do necessário, não pensar na medida em que não fosse necessário, e agüentar a coisa na medida do possível. O que podia fazer?

Eu me lembro naquela noite do encerramento, eu, além de fazer uma conferência longa e ter que acompanhar aquelas saudações todas com ares de quem está participando, etc., tive umas duas horas de “beija‑mão”, de gente que estava lá — não do Grupo, é gente de fora: “Oh! mas não diga”, tará-tá-tá. Duas horas seguidas. Quando eu tomei o automóvel, eu estava arrasado!

Cheguei aqui em casa, jantei, deitei‑me, leiturazinha antes de dormir para poder dormir tranqüilo, e para o que desse e viesse no dia seguinte.

Meus caros, eu acho que estão quietos… é o tardio da hora, meu coronel?

Meu Fiuza, você quase dormiu, meu Fiuza.?

(Sr. Fiuza: É assunto que vai fundo, traz quietude.)

Mas é assim.

(Dr. Edwaldo: Tudo pendendo por um fio, permanentemente.)

Permanentemente. Dámocles com a espada dele é um…

* Pelo silêncio da Estrutura temos a aprovação da doutrina do Sr. Dr. Plinio

(Sr. Paulo Henrique: Sobre a situação da Igreja, os dois simpósios sobre o Direito Canônico, a preocupação mais alta do senhor em relação à Santa Igreja, aquela incerteza do senhor sobre se a Estrutura ainda é Igreja…)

Mas é isso, certeza eu não tenho.

(Sr. Paulo Henrique: E nós dizemos que não é. Mas o senhor não tem certeza. O que é isso? Se o senhor pudesse aprofundar um pouco o que é isso.)

Mas o que seria o quê?

(Sr. Paulo Henrique: Essa incerteza que o senhor tem de que a Estrutura não é mais Igreja.)

Você precisa notar de passagem — não toca no ponto que você me perguntou, mas eu quero fazer notar, que é um elemento que vocês têm muito a seu favor e que eu queria que explicitassem, quero ajudar a explicitar, porque ajuda muito a cobrar a tranqüilidade de alma — o seguinte:

Em última análise vocês me viram dizer tudo isso que eu digo num tempo em que a Estrutura também dizia a mesma coisa. Vocês alcançaram o tempo em que tudo isso era doutrina católica. Alcançaram um tempo, depois, em que a Estrutura começou a silenciar e até sussurrar o contrário, mas que eu aparecia de pau em cima dizendo que a doutrina católica é essa e eles não conseguiram negar.

De maneira que vocês têm toda certeza de que, o que eu digo, é doutrina católica. Não só uma certeza, porque vocês são inteligentes e vêem a doutrina, comparam, têm elementos para confrontar, mas é até esse fato histórico primário.

Eu acho que isto, para a orientação da fidelidade de vocês, é muito importante.

(Sr. Guerreiro: O “Em Defesa” então é uma proclamação soleníssima.)

Soleníssima. O “Em Defesa” é previsão do que está aí.

Vocês se lembram, por exemplo, quando se reuniu todo episcopado e que o D. Carmelo anunciou que iam dar diretriz à Ação Católica, eu escrevi uma carta a todos os bispos pedindo para julgarem meu livro. Eu tenho a cópia dessa carta. O D. Maurício da Rocha levou a carta lá para a reunião do episcopado, distribuiu, e o D. Cabral pôs‑se a chorar pedindo para não ser julgado meu livro, porque ao mesmo tempo entrava em julgamento ele. Por causa disso, ele queria que não julgassem meu livro. Então, por causa disso, não julgaram meu livro. Quer dizer, ele teve medo do julgamento.

Quer dizer, tudo isso dá a vocês uma certeza muito grande.

(Sr. Guerreiro: Em que ano foi isso?)

Uns dois anos depois de o D. Carmelo estar nomeado arcebispo aqui. Eu não me lembro em que ano foi.

(Dr. Edwaldo: Outra coisa é a longa seqüência de silêncios do inimigo diante de todos os pronunciamentos do senhor.)

Inclusive no “Escalada”, que é uma verrina contra eles.

(Dr. Edwaldo: E depois, em artigos da “Folha”, o senhor desafiou, em função do “Escalada”, mais de uma vez.)

Foi, mais de uma vez, e ficam quietos.

Quer dizer, vocês pelo silêncio deles têm a aprovação de minha doutrina. E eu acho que isso é bom você saberem, se lembrarem, etc. Mas é de passagem, porque não toca à sua pergunta.

* Afirmamos que a Estrutura não é mais Igreja, mas o Sr. Dr. Plinio não tem tanta certeza disso

Eu tenho a impressão de que sua pergunta é uma pergunta de fundo mais ou menos criteriológico: como é que se dá que vocês têm certeza que eles não são mais Igreja e eu não tenho certeza.

(Sr. Paulo Henrique: Exatamente.) [Risos]

Quer dizer, eu faço contra eles um ataque do qual vocês, como meus filhos, tiram uma conclusão que eu não tiro. O que é que se passa na minha cabeça para eu não tirar a conclusão que vocês tiram?

Diga, meu Edwaldo.

(Dr. Edwaldo: E há uma outra coisa. Cada reunião que o senhor faz, é como se o senhor dissesse o seguinte: “Vocês ainda acreditam na Estrutura? Então tem mais uma aqui para vocês deixarem de acreditar, e mais uma, mais uma, mais uma”.)

É, é verdade.

(Dr. Edwaldo: Não sobra nada.)

(Sr. Paulo Henrique: João Paulo II fazendo esqui com o Pertini; depois o “Osservatore Romano” a respeito da morte do comunista… descanonização…)

Depois outra coisa: para quem tem dois dedos de discernimento, de esperteza, percebe que a descanonização é soprada por eles.

Como se pode descanonizar? É uma coisa de maluco.

(Sr. Guerreiro: Faz parte do caos na Igreja.)

É, a Igreja está caotizada, não tem conversa.

(Dr. Edwaldo: Se fossem santos antigos, poderiam alegar que não há documentos.. Mas São Pio X está aí, o processo dele…)

Não pode alegar, não pode alegar.

Agora, eu acho que nós falamos línguas um pouco opostas. Porque é evidente, e seria um pecado contra o Espírito Santo negá‑lo, que eles estão trabalhando contra a Igreja, é evidente. Isso é um bê‑á‑bá. Depois, trabalhando gravissimamente, em proporções inauditas, como ninguém trabalhou contra Ela. Isso tudo é o bê‑á‑bá, é melhor nem perder tempo falando sobre isso.

* Sendo a Igreja uma sociedade visível, a autenticidade de suas autoridades não pode depender de fatos invisíveis

Agora, a questão é essa: eles perderam os cargos? Aqui está a questão. Porque minha pergunta, quando eu pergunto se eles ainda são Igreja ou não, é se eles perderam os cargos ou não.

(Sr. Paulo Henrique: Mas o senhor não fez um juízo ainda a respeito disso?)

A respeito disso não fiz juízo pela seguinte razão:

Eu sou levado a achar, por mim, que desde que eles aderiram interiormente à heresia, eles perderam os cargos. Isto eu sou levado a achar. Mas há muitos teólogos que afirmam que não, teólogos grandes, bons, do tempo desse grande Cornélio. E a minha idéia de que ninguém pode deixar de pertencer ao Corpo Místico e continuar governando o Corpo Místico — ora, quem caiu em heresia deixou de pertencer ao Corpo Místico, deixou de pertencer à Igreja —, a esta idéia eles dão entretanto uma resposta.

É que a Igreja é uma sociedade visível. Como sociedade visível, a autenticidade de suas autoridades não pode depender de fatos invisíveis, que ninguém controla. E um papa não pode perder o cargo e continuar a ser tido por papa por todos os fiéis, iludindo, enganando todos os fiéis. Ele não pode fazer isto em termos e condições tais, que os fiéis não saibam que estão sendo dirigidos pela heresia.

Ora, se o puro pecado interno corta o indivíduo do cargo, nós chegamos a essa conclusão.

* O sumo cuidado que o Sr. Dr. Plinio tem em manobrar não o impede de afirmar: “Uma coisa para mim é claríssima: eles estão destruindo a Igreja”

Eu não acho esse argumento convincente, mas você tomando em consideração que é um argumento que não se pode taxar de estúpido, ele tem lados, tem seu peso, e houve grandes — até santos — que acharam isso, como houve santos que acharam o contrário, e dado o risco de que se eu me colocar contra eles no caso de eles estarem na Igreja, eu é que saio, você compreende o sumo cuidado com que eu tenho que manobrar.

Quer dizer, uma coisa para mim é claríssima: eles estão destruindo a Igreja. Outra coisa é: eles perderam, ipso facto, os cargos da Igreja? Não sei. Se eles têm esses cargos, eles são a Igreja.

Queria que me exprimisse melhor ou não?

(Sr. Paulo Henrique: Está claro.)

(Dr. Edwaldo: Destruindo por uma ação contínua.)

Contínua, consciente, criminosa, a mais celerada das ações que se cometeu depois de Judas ter vendido a Nosso Senhor.

(Dr. Edwaldo: E isso é manifesto.)

Isso é manifesto.

Aí viria outra pergunta: está bem, mas quando é manifesto, não perdem o cargo?

Eu digo, e eles dizem: isso não vem ao caso. O princípio é: ficando herege, perde ou não perde o cargo?

Eles todos admitem que, ficando herege e reunindo‑se uma autoridade eclesiástica capaz de destitui‑los, ou melhor, de declarar que eles perderam o cargo, eles perderam.

(Sr. Paulo Henrique: Mas os teólogos não previram a situação que chegamos hoje.)

Não previram.

(Sr. Paulo Henrique: Não existe mais essa autoridade. Não é o caso de se esperar que apareça também.)

Nada, nada.

(Sr. Paulo Henrique: Nossa Senhora deve reservar… reservou para o senhor, o profetismo do senhor, num momento X fazer um juízo.)

Se é intenção d’Ela que eu faça esse juízo, é o caso de dizer que ainda falta algo, porque não fiz.

Podemos esperar que Ela nos dê meios de formar essa certeza, mas eu não tenho essa certeza ainda.

(…)

(Sr. Paulo Henrique: …convergem na missão profética do senhor.)

Ah! isso sim, dá nessa missão. Mas que eu tenha os meios de dizer, eu não tenho.

(Sr. Paulo Henrique: Quer dizer que a “Bagarre” poderá vir e depois da “Bagarre” que esse problema fique dirimido?)

Aí que está. A Bagarre

(…)

certeza altamente confortadora: Fomos fiéis até o fim.

(Sr. Paulo Henrique: Situação cômoda, porque é uma questão gravíssima e poderia causar atenção.)

Cômoda no sentido de folgada, de arejada, de uma fidelidade muito ponderada, muito séria, muito responsável.

(Sr. Paulo Henrique: O senhor falava do caso Fedeli, caso Paulo Maurício. Esse é um assunto “major”.)

Ah! nem me fale.

Eu vou fazer um parêntesis aí…

(…)

* Como o Sr. Dr. Plinio sente a fidelidade do Grupo nas atuais circunstâncias

hoje à tarde foi um episódio dentro disso. Mas eu dei contas como se tratasse, não sei, de uma reunião de conselheiros de Estado no tempo do Império, com aquela seriedade. Assim foi que eu dei contas. Me alegro de ter podido fazer isso.

De maneira que eu vejo também que vocês conversam sobre isso com toda calma, debatem, estou vendo que vocês debateram a questão entre si, é forçoso, inevitável, é desejável sob todos os ângulos. Me apresentam as perguntas que queiram, etc., de modo inteiramente agradável, desinibido, que é como deve ser entre nós.

(Sr. Nelson Fragelli: Como o senhor sente a fidelidade do Grupo ao senhor nestas circunstâncias? Porque vai ficando tão claro, claro, claro, o que já era tão claro de que de fato nós só temos o senhor, e que tanta coisinha que nos atrapalhava na eminência de acontecimentos — de um lado o senhor mencionou — querem destruir o Grupo…)

Querem.

(Sr. Nelson Fragelli: De outro lado a destruição da Igreja, isso vai ficando claríssimo. O senhor sente que nós caminhamos mais firmemente, temos caminhado mais próximos ao senhor, ou esse ainda é um movimento a se dar?)

Quer dizer, persuadidos do lado intelectual, sim. Com os entravos intelectuais que poderiam prejudicar o próprio crescimento na virtude, também removidos, ao menos em larga medida sim.

Agora, o que falta é o seguinte: o entusiasmo por essa situação, a alegria de terem sido escolhidos para isso e o andarem não com o passo cansado de quem caminha por uma via que em parte não desejaria, porque desejaria uma via mais folgada, mais feliz, etc., e de outro lado, por causa disso, um fundo… não diria de ressentimento comigo, mas de não entusiasmo em relação a mim.

(Sr. Paulo Henrique: É uma coisa que nos amarra no que tange às graças de 67. Digo por mim, mas acho que a coisa se passa assim também com os outros.)

Quer dizer, no fundo é uma espécie de queixa mais contra a via do que contra mim. Mas como eu sou quem está querendo que vocês andem nessa via, vocês se sentem esclarecidos, mas até certo ponto amarrados pela argumentação, amarrados pela lógica. E a lógica lhes aponta que devem seguir um caminho, vocês já achariam gostoso o outro.

* Uma subfidelidade com dois efeitos: facilmente redunda em queixa contra o Fundador, e o não compreender bem a grandeza de nossa missão

Nesse ponto, há uma minus fidelidade, uma subfidelidade que tem dois efeitos:

Ela facilmente redunda em queixa contra mim. Por mais que eu faça, me esforce, etc., facilmente redunda em queixa contra mim. É uma tentativa de recobrar o caminho da perdição, um saudoso caminho da perdição, de um lado.

De outro lado, também o não compreenderem bem até onde vai a grandeza de nossa missão.

(…)

de poder fazer capítulo a esse respeito. Mas a questão é que o pessoal nem saberia o que dizer. Tem pelos meios tais bobinhos, saía tanta bobagem, que não se pode tentar essa travessia. Mas propriamente seria isso.

(Sr. Nelson Fragelli: A mim é difícil ver.)

Por quê?

(Sr. Nelson Fragelli: Parece‑me que estou vendo melhor agora, nos últimos tempos.)

Isso eu acho.

(Sr. Nelson Fragelli: Porque tudo se reduz ao senhor. Tudo, no mundo, com a queda do “establishment”, com a situação da Igreja e com a ameaça contra nós, em que absolutamente só o senhor pode nos defender…)

(Sr. Poli: Ameaça contra o senhor.)

(Sr. Nelson Fragelli: Contra a obra do senhor. Então a cogitação de fato se livra de tudo quanto é escolho, ou vai se livrando aos poucos, e forçosamente se volta unicamente para o senhor. É a tendência. Daí eu considerar que a obediência, quer dizer, o sacrifício da própria vontade à vontade do senhor nunca foi tão fácil, porque clama que tem que ser assim, e que não pode entrar nada, absolutamente nada que não seja um movimento da vontade do senhor. Mas ver isso ainda é difícil, vai muito aos poucos.)

É, não tem dúvida. E é aqui que está a questão.

Esse muito aos poucos deixa uma preocupação. Uma coisa que só pode ser feita muito aos poucos, leva muito tempo. E os acontecimentos estão cavalgando contra nós, galopando. Quer dizer, salve Regina, Mater misericordiae

* “Se eu tenho um feitio, uma fisionomia moral que corresponde à minha missão, eu não sei como é que se pode amar a missão e não amar essa fisionomia moral”

E meu Guerreiro, habitualmente tão loquaz, por que está tão quieto, meu filho?

(Sr. Guerreiro: Necessidade. Às vezes o silêncio é melhor conselheiro do que…)

E meu Fiuza?

(Sr. Fiuza: Do mesmo modo.)

E o coronel?

Edwaldo?

(Dr. Edwaldo: O ideal seria que o senhor mesmo pudesse falar, porque eu acho que ninguém pode falar sobre isso. Sabemos que a situação para o senhor é difícil, mas uma análise dessas…)

Eu não posso fazer essa análise.

(Dr. Edwaldo: Mas ninguém é capaz de fazer.)

Depois não tem os elementos dessa análise, porque para isso seria preciso que eu me analisando assim, e eu não me analiso assim.

(Dr. Edwaldo: Mas analisar o conjunto, em função disso, em relação ao senhor, porque o grande problema é esse.)

Quer dizer, a questão delicada é essa:

Se eu tenho um feitio, uma fisionomia moral que corresponde à minha missão, eu não sei como é que se pode amar a missão e não amar essa fisionomia moral.

Se eu não tenho a fisionomia moral que corresponde a essa missão, então há uma dicotomia, eu compreendo, é um desastre.

Ora, minha consciência não me diz que eu não tenha uma fisionomia moral…

(Sr. Poli: Os inimigos do senhor dizem isso.)

A atitude dos meus inimigos é que eles odeiam o meu perfil, minha fisionomia moral, exatamente com o ódio com que odeiam minha missão. E vêem na minha fisionomia moral a manifestação mais pontuda, mais pontiaguda, mais aguda, pontiaguda, do que é minha missão. De onde decorre um ódio pessoal, mas pessoal!

Agora, como é que meus filhos não vêem isso e não amam com um amor pelo menos tão grande quanto o ódio com que eles odeiam? Eu não chego a compreender.

(Sr. Paulo Henrique: Mistério da iniqüidade. Em profundidade foi o que se passou com os Apóstolos. Conviveram com Nosso Senhor, e também viveram ali sem compreendê‑Lo, sem vê‑Lo, sem amá‑Lo, sem servi‑Lo tanto quanto estava na missão para a qual Deus Nosso Senhor os havia escolhido. Só vieram a compreender isso depois, com Pentecostes.

Agora, nós temos precedentes, temos o precedente deles. O senhor há pouco fez referências a Moisés, etc. Não sei se não estaria na vocação do senhor e na nossa condição de filhos, de receberem orientação do senhor de como proceder. O pai orienta o filho: “Olha, você está andando mal nisso, naquilo, naquilo outro”. Porque a gente sai daqui: “O que vou fazer? Bater a cabeça no poste, me flagelar. Posso fazer, será a solução?”. Não sei se o senhor compreende um pouco a aflição.)

O que é, meu Fiuza, diga?

(Sr. Fiuza: Para o cego não adianta mostrar nada.)

Sua resposta é perfeita, a resposta é perfeita.

(Sr. Fiuza: Mas no fundo a gente tem noção disso, tem certeza do que é.)

Vocês é que devem saber.

Por exemplo… depois tem o seguinte: é que vocês estão numa hora — Nelson Fragelli caracterizava bem essa hora — em que uma série de coisas que vocês não viram, vocês começam a ver com uma clareza muito maior. Então há uma certa atualização a fazer.

Eu estou falando a vocês com uma franqueza muito maior do que nunca falei, fruto dessa atualização que é necessária. E eu estou pegando a primeira ocasião que se apresenta, boa, estou utilizando isto.

Agora, vamos dizer que a jungle recuou um tanto na cabeça de vocês. Mas há ainda partes importantes da mentalidade que estão cobertas com a jungle. De maneira que se eu disser as coisas das matérias onde tem jungle, não será útil.

Ora, o importante não é fazer essa atualização, mas é derrubar a jungle. Essa atualização tem sua importância, mas não é o difícil. O difícil é derrubar a jungle.

Se você não me leva a mal, eu dou um exemplo concreto.

Foram falar outro dia comigo você, o… [Vira a fita]

Mas é: primeiro, pela importância que adquire diante dos outros, justificar uma visão de si mesmo com a qual a pessoa se inebrie. Esse é o negócio.

(Sr. Nelson Fragelli: Está muito bom, é isso mesmo.)

Isso existe, evidentemente existe.

Agora, isso é uma visão de si mesmo? Qual? É uma visão de si mesmo que faz parte dos ídolos que a gente aprendeu no ambiente dos círculos em pequeno. Tal homem que faz tal assim, tatá, tatá, é um colosso! E às vezes é um tipo que é uma coisa qualquer. Mas lá naquele ambiente projetam assim, é um colosso.

Então o sujeito se habitua, desde pequeno, a olhar que aquilo é um colosso e cria um hábito mental. Depois o sujeito quer ser um colosso daquele jeito. É um “colosseum” interno do qual o sujeito não quer largar, porque tem que ser outro que ele não é, se ele mudar essa tábua de valores.

(…)

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